A Psicanálise como Método de Se Pensar a Velhice

Resumo: Através de uma pesquisa bibliográfica pretende-se neste artigo traçar uma articulação sobre a velhice. Na cultura contemporânea, sabe-se que várias áreas de estudo, dentre elas, a psicologia, a antropologia, dentre outras, abriram um leque de possibilidades para os traçados de pesquisa para o percurso dos estudos sobre a velhice. A psicanálise se inclui como borda nesta escrita para pensar a velhice para além de um processo biológico, incluindo o valor simbólico dos diversos sintomas que aparecem nesta etapa da vida. A subjetividade fora pensada por Freud no momento em que este rompeu com a objetividade médica. Assim, entre a valorização do belo e a cultura a estética, é possível pensar na interrogação do velho diante do espelho, o que reflete nesta imagem seria o ideal conservado da lembrança? Além de Freud, autores como, Goldfarb, Elzirik, Barros, contribuem para as reflexões estabelecidas neste artigo. Afirma-se que uma intervenção psicanalítica com velhos é ressignificada pelo inventário de suas memórias, pois o sujeito se constitui na relação com a alteridade.

Palavras-chave: Cultura contemporânea. Psicanálise. Velhice.

1. Introdução

Sabe-se que não existe homem sem linguagem, entretanto, a sociedade separa as pessoas por idade.  Pensar a velhice como objeto de estudo é apontar a importância do reconhecimento de uma dimensão histórica e social a cerca dos movimentos de transformação em torno da denominação do velho. Mas o que é o velho? Basta relacionar tantas categorias para nomear e defini-lo? A sociedade responde indicando que é aquele que está na terceira idade, ou na melhor idade. É preciso estar atento para estes novos estereótipos, ou seja, na tentativa de pensar a velhice como um constante e inacabado processo de subjetivação.

Na literatura freudiana encontra-se uma posição assumida sobre a não recomendação de um tratamento psicanalítico para pessoas com idade acima de 50 anos (Freud, 1905). Atualmente, não seria de grande valor a tentativa de adaptação desta posição? Pode-se dizer que a velhice é uma construção social e sendo pensada desta forma, consideram-se as implicações do sujeito em seus lutos e ganhos como viajante do tempo.

O fato é o termo velhice arquiteta um tipo específico de subjetividade, visto que o grande drama dos velhos não se refere apenas à velhice propriamente dita, mas sim, “às relações mantidas entre o velho, sua imagem e seus ideais” (GOLDFARB, 2009, p.71).

Delimita-se também que é inegável a ação do tempo sobre o corpo, talvez nesta perspectiva, pode-se afirmar que, apesar de alguns discursos contrários, o corpo envelhecido marcado pela passagem do tempo, poderia representar uma ferida narcísica, ou ainda, um dos mal-estares da nossa cultura.

2. Metodologia

Parte-se de uma articulação referendada pelo suporte de bibliografias a respeito do assunto desenvolvido, ou seja, com base em material já existente em livros e artigos (Gil, 2008). Elegeu-se alguns autores como Freud, Goldfarb, Elzirik, Barros, dentre outros.

3. Resultados e Discussão

No traçado deste artigo não serão avaliadas pela teoria psicanalítica a diferença entre um corpo e uma mente diante do envelhecer. É mérito do humano ser um ser de linguagem e de símbolos. Os significados que cada um atribui ao próprio mundo, consequentemente ligados a cultura, não podem ser considerados somente no âmbito biológico. Nas palavras de Goldfarb (2009),

A ação do tempo sobre o corpo somático de um animal qualquer produz transformações que se pode acompanhar: o antílope pode ter reduzida a sua velocidade, pelo menor tônus muscular; o leão pode perder parte do poder de ataque, pela queda de algumas presas; e o cão pode ter diminuído o senso de direção e a habilidade de perseguir a caça, em virtude de redução olfativa. Mas são apenas rebaixamentos funcionais. No ser humano, porém, essas mudanças podem ser acompanhadas de sofrimentos absolutamente específicos, derivados da sua capacidade de refletir sobre sua própria condição e de atribuir a ela um juízo valorativo. (GOLDFARD, 2009, p.123).

A partir das colocações destacadas acima, o sofrimento pode, inclusive, antecipar-se a qualquer questão somática e biológica, dito de outro modo, como no caso de uma pessoa que sofre com o aparecimento de suas primeiras rugas. O que em psicanálise poderia ser destacado como a ferida narcísica. Se as situações vividas entre os animais, caracterizam-se apenas por instinto biológico na interação com o meio ambiente, no ser humano é a presença da pulsão que emerge entre as fronteiras do processo de envelhecimento do seu corpo.

As mudanças do corpo ao longo da vida ganham significados diferentes nos diversos contextos sociais. Acontece que em nossa cultura contemporânea associa-se a imagem negativa da velhice a um declínio de vitalidade, apontando-se uma diminuição da capacidade produtiva deste que já não esbanja tanta jovialidade, e, portanto, associando-se também a perda de controle da mente e do corpo (BARROS, 2010).

Nesta perspectiva, pode-se pensar que parece ter-se instalado na cultura contemporânea um controle do sujeito sobre seu corpo e suas emoções (BARROS, 2010). Dito por ela,

Estar no mundo e ser identificado como parte dele faz parte da percepção de si mesmo e do outro como ser independente e autônomo e, nesta percepção de si e do outro, está implicada a ideia de um corpo circunscrito, que define os espaços de privacidade e intimidade. As idéias de dignidade na velhice, e não só nesta fase da vida, estão associadas a este corpo circunscrito que na velhice é ameaçado pelas diversas intervenções, muitas associadas à própria adequação ao modelo do envelhecimento da terceira idade (BARROS, 2010, p.122).

Assim sendo, nota-se inclusive uma forma de controle sobre este corpo circunscrito e captado pelas intervenções da estética, investidos do olhar médico sob a vigilância de reposições hormonais e remédios. Segundo Barros (2010), homens e mulheres de diferentes segmentos sociais, em pesquisa realizada em 2003 pela autora citada, falaram de si e expressaram ter medo da dependência física porque sua própria imagem se desfazia. Diante de tal resultado, nota-se que na cultura contemporânea as pessoas não se percebem envelhecer como uma totalidade.

Caberia em outro momento escrever sobre o lugar das políticas públicas no contexto da velhice e as possibilidades de apontar práticas significativas no que se refere à singularidade e porque não dizer, até mesmo, as satisfações subjetivas que se poderiam ter na velhice. A seguir, uma lembrança de Freud (1919), ao relatar sua estranheza na velhice com a sua própria imagem:

Estava eu sentado sozinho no meu compartimento no carro leito, quando um solavanco do trem, mais violento do que o habitual, fez girar a porta do toalete anexo, e um senhor de idade de roupão e boné de viagem, entrou. Presumi que ao deixar o toalete, que ficava entre os dois compartimentos, houvesse tomado a direção errada e entrado no meu compartimento por engano. Levantando-me com a intenção de fazer-lhe ver o equívoco, compreendi imediatamente, para espanto meu, que o intruso não era se não o meu próprio reflexo no espelho da porta aberta. Recordo-me ainda que antipatizei totalmente com a sua aparência (FREUD, 1919, p. 309).

Seria o corpo, talvez, a denúncia dos limites? Denúncia mais forte que a angústia? A imagem que o velho tem de si mesmo é um discurso aceito na cultura contemporânea? Será que se sente realmente, a cada dia os efeitos do envelhecimento? Ou assim como Freud, supracitado, o velho seria aquele outro em que não nos reconhecemos?

Os sinais da velhice sinalizam a finitude. Sabe-se que em todas as culturas as perguntas e respostas sobre este tema deslocam-se facilmente para a crença religiosa. Pode-se afirmar que numa sociedade que elege a jovialidade como modelo, lidar com o fim da vida torna-se, consequentemente, um tabu. Deste modo, seria eleita a juventude como um modelo a ser seguido? Ou até mesmo um padrão estendido a todas as etapas da vida? No entanto, observa-se que não é possível, extinguir a velhice.

Segundo Elzirik (2013), a velhice pode ser abordada a partir de diferentes pontos de vista, “histórico, demográfico, antropológico, filosófico, literário, jurídico, médico, neurológico, psicológico, psiquiátrico, psicanalítico, entre outros”. (ELZIRIK, 2013, p.227). No entanto, neste trabalho na tentativa de movimentar o entendimento sobre algumas particularidades desta etapa do ciclo da vida não serão considerados todos esses aspectos. Segundo este autor,

Não podemos falar de velhice como algo homogêneo, como se fosse possível agrupar em uma só categoria múltiplas características e formas individuais de viver esse período. Ainda mais que, nos períodos anteriores, o principio psicanalítico da causalidade se evidencia muito fortemente, de modo que o velho é cada vez mais aquilo que foi ao longo de sua vida. (ELZIRIK, 2013, p.227).

A partir dos ditos acima, vale a lembrança sugerida por Heráclito, ao dizer que, nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio; portanto, a velhice poderia ser vista como uma etapa em que novas experiências de agir, pensar e sentir se manifestem.

É no mundo psíquico que se conservam guardadas todas as perdas que o envelhecimento acarreta. Ainda segundo Elzirik (2013), “muitos velhos experimentam o desejo de olhar sobre o conjunto de sua história pessoal interna, para situar o final de sua existência na trajetória total de sua vida” (ELZIRIK, 2013, p.230).

Dentre os fatores relacionados à velhice está a questão do tempo, o tempo que passa. Ou como cantou Cazuza, “o tempo não pára, não pára não...”. É claro que existe um tempo cronológico que vai nos marcando com os aspectos da duração limitada da vida. Diferente do tempo do inconsciente, o tempo cronológico imprime que “envelhecer é talvez o tempo que precisamos para descobrir pacientemente, dia após dia, do começo ao fim de nossa vida, como expressar, na cronologia do cotidiano, o amor que intuímos em um segundo de eternidade”. (ELZIRIK, 2013, p. 231).

4. Considerações Finais

Considera-se que para a psicanálise, a velhice não deve ser pensada apenas como produto do desgaste do corpo, tornando-se necessário serem considerados os aspectos psicológicos que circunscrevem a questão desta etapa da vida. Entende-se que existem vários mitos que enrijecem esta travessia da vida para a velhice, entre eles, a velhice entendida como sinônimo de morte.

Entende-se que uma intervenção psicanalítica na velhice implicaria perceber através da escuta, da palavra anunciada, a aventura da viagem, a implicação do olhar-se no espelho e aproximar-se do próprio reflexo, como também, o desmontar das resistências causadas pelos mitos, porque não dizer, a elaboração de um inventário de lutos e ganhos nessa passagem que desempenha a impossibilidade de simbolizar, mas sim de retratar na moldura as relações mantidas entre a velhice e a jovialidade do tempo passado.

Pode-se pensar que na cultura contemporânea, a velhice é a bússola polêmica que direciona a morte e norteia para o ato de morrer. Discutir o que representa a morte e como é encarada pode não ser fácil, talvez por isso se nota tantos embotamentos para esta etapa da vida, a velhice, quando se anunciam nomeações como ‘melhor idade’, ou ‘terceira idade’. Outro ponto a considerar é que, a elaboração inconsciente dessa realidade, ou seja, da velhice, seria necessária, porém, tal elaboração ajudaria a lidar melhor com a velhice e consequentemente com a morte? A psicanálise aponta que não podemos antecipar este sentimento, no entanto, explorar o desconhecido.

Sobre o Autor:

Iane Pinto de Castro - Psicóloga, pedagoga, psicopedagoga, Mestre em Psicologia. Professora Substituta da Universidade de Fortaleza.

Referências:

BARROS, Myriam Morais Lins. Trajetória dos estudos de velhice no Brasil. Rio de Janeiro: Artmed, 2010.

ELZIRIK, Claudio Laks. O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. Porto Alegre: Artmed, 2013.

FREUD, Sigmund. Fragmento da análise de um caso de histeria (1905). Edição Standard Brasileira, Vol XV. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

FREUD, Sigmund. O estranho (1919). Edição Standard Brasileira, Vol XV. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

GOLDFARB, Delia, Catullo. Psicogerontologia: fundamentos e práticas. Curitiba: Juruá, 2009.