A Toxicomania sob a Luz da Teoria Psicanalítica

1. Introdução

A priori esse trabalho é realizado a partir de uma revisão bibliográfica dos textos do próprio Freud e de outros autores que se debruçaram sobre esse tema, enfatizando-se que os teóricos que endossam este trabalho contribuem no que diz respeito ao entendimento dos sujeitos dependentes químicos.

Deste modo, entende-se que compreender como se dá a transferência nesse processo, a partir da experiência clínica, contribui para abrir perspectivas de manejo neste campo. Considera-se importante no tratamento com o sujeito toxicômano propiciar condições de se expressarem numa associação livre. Percebe-se que a dependência química aparece como primária aos conflitos que vivenciam como dependentes de substâncias psicoativas. Finalmente, conclui-se que a reflexão e ampliação das possibilidades de conceber o que é "ser sujeito" por estes sujeitos podem interferir no vínculo simbiótico entre o sujeito e a droga, potencializando, portanto, o processo psicoterapêutico.

Os objetivos da psicanálise é conduzir a ética do inconsciente e pelo compromisso que se constitui entre o sujeito e o seu desejo, consentindo o acesso à sua verdade. Verdade essa, camuflada no enigma do sintoma. Verdade impossível de ser dita por completo. Fazer com que ele tenha uma visão realista e objetiva de seu interior e aceitar-se como sujeito e abranger seu papel no mundo, afirmar-se como ser humano, aprender a superar seus traumas e aprender como lidar com a dificuldade do dia a dia.

2. A Toxicomania

O termo “Toxicomania” gera complexidade, e deste modo acredita-se que a intenção de evitar a ênfase no químico, é decorrente de levar em consideração que o sujeito esta em constante processo de construção e assim não se pode enfatizar tal demanda num contexto fechado. A paradoxal questão que norteia a toxicomania é uma forma de morrer ou uma forma de viver? O que leva um sujeito à toxicomania? São estas as questões que necessitam mover o olhar de quem se depara com tal problemática.

Apesar de o recurso às drogas ser universal, o modo como cada sujeito delas faz uso é singular, o que explica alguns se tornarem dependentes e outros não. Assim, a configuração da toxicomania remete a aspectos da subjetividade e da constituição psíquica de cada um. Nogueira (1999) apresenta que a identificação com o significante toxicômano, lê-se: doente, é um saber sem verdade, pois ele não consente em passar por seu romance familiar e pelos significantes que lhe marcaram na sua história.

Santiago (2001) complementa dizendo que o termo toxicomania advém do discurso articulado pela psiquiatria, que em meados do século XIX, decorre a considerá-lo isoladamente como categoria clínica específica, pautada à inclinação impulsiva e aos atos maníacos.

Na época o conhecimento médico emergente propôs-se a decodificar o fenômeno, e o que apareceu como resultante de tal método foi o princípio da elaboração de critérios diagnósticos, que passaram a delinear a relação de dependência que determinado sujeito constitui com uma ou mais substâncias psicoativas. Os diversos tipos de drogas também mereceram uma minuciosa descrição de seus efeitos químicos, cujo poder, de ocasionar dependência muitas vezes apareceu especificado (GIANESI, 2012).

Santiago (2001) postula que a toxicomania, sob o ponto de vista psicanalítico, é efeito de um discurso. No quadro delineado pela psiquiatria parece não existir sujeito em questão, contudo algo que resulta de uma determinada e bastante específica influência mútua entre o organismo e ambientes distintos. Diante de tal configuração, torna-se viável a leitura da toxicomania segundo uma maneira discursiva, catalogada à operação realizada pela ciência moderna relativo à descoberta e ao concomitante rechaçamento do próprio indivíduo, o olhar que a psicanálise lança para o fenômeno traz o convite para verificar a plausibilidade da inclusão do mesmo no próprio campo psicanalítico (GIANESI, 2012). 

Considera-se que a psicanálise vê-se assegurada de que a manifestação toxicomaníaca não é característica de qualquer uma das três estruturas propostas. Um psicótico, um neurótico ou um perverso podem fazer uso problemático de drogas, e então serem considerados, a partir da referência médica, como quem sofre de transtorno de dependência de substâncias psicoativas. A estrutura, entretanto, é logicamente anterior a qualquer manifestação, e aparece do momento fundante do indivíduo. Assim sendo, o psicanalista autoriza-se a afirmar que cada sujeito, estruturado segundo sua já fundada forma de organização do desejo, possui sua característica relação com as drogas, esta sempre enlaçada ao modo estrutural (GIANESI, 2012).

Para o genial autor Nogueira (1999, p. 14) “o toxicômano é um desistente do jogo de linguagem, é um desistente da simbolização. O toxicômano é aquele que encontrou um meio (a droga) para o prazer que aniquila, com o passar do tempo, o próprio prazer”.

As drogas atuam como uma nova forma de responder ao sofrimento. O toxicômano é aquele que não quer saber, que não se submete a nenhum interdito, que se inscreve em um mais-de-gozar absoluto. Todo sujeito inscrito na função fálica é portador de uma perda primordial de gozo. A prática da auto-aplicação visa reduzir o campo de ação do Outro, o que coloca o toxicômano longe do desejo do Outro. O gozo do toxicômano se dá inseparável do próprio corpo. Não passa pelo corpo do Outro. Segundo Nogueira (p. 34, 1999) “o Outro, o significante, perde a posição superior e não corresponde mais ao lugar de onde é aferida a vivência”. Diante disso, Esse movimento, ligado à busca da coisa perdida que falta no lugar do Outro, é causa de sofrimento, que nunca extirpa por completo a busca do gozo. O conceito de gozo está relacionado com a lei, que pode ser uma relação de desafio, submissão ou desdém.

Contribui Miller (1999) quando faz um alerta ao comentar as definições relativas à toxicomania realizadas pela psicanálise. O mesmo coloca que não é uma significação da toxicomania, e sim uma tentativa de definição da droga enquanto tal. Talvez haja que lhe dar todo seu valor. Quem sabe na experiência analítica seja importante perguntar menos pela toxicomania que pela droga em sua relação com o sujeito.

Adentra-se assim nas demandas sobre o objeto droga. Pois salienta-se nessa explicitação a condução do esforço em construir uma definição caracterizada sobre a toxicomania, para o tentativas de estabelecer articulações entre o objeto droga e o sujeito. Em relação ao segundo termo, de acordo com a psicanálise, o foco é desviado de sua concretude e suas consequências químicas.  

Nessa mesma acepção psicanalítica, Santiago (2001) interroga-se sobre as prováveis relações entre a materialidade do produto droga e seus efeitos, e assegura que estas relações parecem estar conectadas às particularidades do sujeito. Para a psicanálise é este que faz a droga, e não o oposto. As consequências do uso ou da busca pela droga podem surgir em qualquer sujeito que um dia provou. Ou seja, a saída à droga não é exclusividade do fenômeno delineado pela psiquiatria, o da toxicomania.

Desta forma, ainda com base nos escritos mensuráveis de Santiago (2001), torna-se viável assegurar que não é possível estabelecer razão direta e literal, ou consignação causal entre a droga e a toxicomania, e tampouco entre o efeito químico mencionado pela ciência e a fala sobre o objeto. Isso porque existem muitos dizeres sobre a droga, que são característicos e surgem de modo único em cada sujeito.

Assim, além do fato da utilização de substâncias tóxicas não significar toxicomania, cada sujeito designado toxicômano tem sua relação particular com o objeto droga. Diz-se, enfim, que no procedimento psicanalítico o analista se depara com as faces que a droga, o uso ou a abstinência auferem em cada discurso.

De acordo com Gianesi (2012), no atendimento a este sujeito não se fala sobre objetos da realidade suposta e partilhada. A realidade da clínica é aquela do sujeito, já metaforizada em sua fala. Os objetos que o discurso de cada um aponta são relativos à linguagem. O analista não permanece diante os objetos ditos da realidade; fica, ao invés disso, em relação ao discurso, à fala do analisante. No discurso de cada sujeito a droga pode aparecer operando essa plástica movimentação.

Os diversos efeitos químicos conferidos às distintas drogas também habituam perder importância quando presentes nos descritos que surgem em análise. Os indivíduos fazem referência ao prazer que esses objetos propiciam.

Ao discorrer com Freud (1930) em um mais além, pode-se sugerir que os sujeitos, quando incluem essas experiências em seus dizeres na análise, estão tentando lidar com sua já instituída relação com o mal-estar, com o gozo fálico e, portanto, com a castração.

Desta forma, outra ressalva parece importante, ou seja, quando se fala sobre discurso em análise e sobre esse papel atribuído ao objeto droga, relativo a seu efeito de prazer ou até de gozo, pressupõe-se a castração, a insigne fálica, um sujeito relacionando-se com a falta, ou seja, supõe-se o sujeito neurótico. De modo distinto das estruturas em que a castração operou o psicótico não está na mesma relação com o gozo fálico.

Santiago (2001) pondera o uso de drogas por psicóticos. O autor ressalta que o psicótico procura algo distinto na droga, busca a anexação do significante. Escreve que por vezes a droga exerce uma função de suplência estabilizadora ou de moderação do gozo do Outro. Uma função de suplência para aquilo que é não simbolizado, ou simbolizável.

Diante disso, cabe retomar a ênfase dada ao discurso do sujeito da psicanálise com seus prováveis dizeres sobre a droga, pensa-se ser importante realizar, mesmo como um esboço introdutório, uma discussão conceitual acerca da repetição. Isto porque pode-se atribuir ao uso de drogas um caráter repetitivo.

Lacan (1998) estabelece uma concisa relação entre a repetição, o saber e o gozo. Acompanhando e ordenando as repetições está um saber, meio de gozo. Quanto a esta menção ao saber, diz-se que assim se chama o conjunto dos significantes que se repercutem e reedita, de modo não semelhante, o reprimido. Toda a vida dos indivíduos, por meio dos sintomas, de outras constituições do inconsciente e da estrutura do fantasma, está ordenada por esse saber que trabalha em cada um.

A seu modo a psicanálise demonstra que pelo inconsciente existe tendência à repetição. A repetição relaciona-se à falta, e, portanto, ao objeto. Na repetição o sujeito castrado busca o domínio da ausência. Porém, também é característico da repetição o fracasso da tentativa de reencontrar o perdido. Assim, a psicanálise diz que não há repetição total. A repetição não é uma reprodução (GIANESI, 2012).

O mesmo autor coloca que repete-se, contudo nunca o mesmo. Busca-se a procedência mítica, porém não se encontra. Pela própria estrutura da linguagem, a particularidade substitutiva dos vocábulos faz conservar o caráter de impossível do suposto momento primeiro. A repetição, de acordo com a psicanálise, é a referência ao original que não o imita, e assim dirige ao novo. Uma tentativa de alcance do supostamente perdido e ilimitado gozo absoluto ocorrem, porém, sob a égide de outro gozo: após a castração fálica. Assim, por meio da repetição o individuo mantém-se dentro dos limites da estrutura

Diante disso, é importante colocar que o suporte da repetição, segundo a formulação lacaniana, é o significante. Lacan (1966) “O seminário sobre A Carta Roubada”, demonstra os lugares ocupados pelo indivíduo como possibilidades dependentes da cadeia significante. É nesse sentido que a repetição depende do discurso. Ainda de acordo com o mesmo autor a repetição é então destino do sujeito que passou pela castração; vincula-se ao discurso e não ao comportamento que surge. O psicanalista não localizará a repetição no isolado comportamento repetitivo. O que se repete revelar-se-á na análise por meio da fala do analisante.

A repetição marca uma relação com o sintoma. Desta forma, questiona-se: como proporcionar um diálogo entre o sintoma, o sujeito e a droga? (RAÍCES, 1992, apud, GIANESI, 2012) aponta que este é resultado de uma concepção de compromisso que ocorre sobre o embasamento da resolução de conflitos entre sistemas ou instâncias. O sintoma não é um fato histórico, circunstancial, o recalque é uma operação simbólica.

O mesmo autor continua seu escrito sobre esse indispensável conceito psicanalítico e faz menção a Lacan, definindo sintoma como uma formação do inconsciente que tem estrutura de linguagem; é o significante de um significado reprimido da consciência do indivíduo, que prossegue apesar de sua remissão, pelo deslocamento, para outra via de representação; persiste como aquilo que insiste a função do desejo, e assume as mais variáveis formas. Portanto, existe possibilidade de transformação do sintoma, contanto que isto queira dizer que ele se deve a efeitos de modificação de jeito do indivíduo em relação à verdade que entranha seu sintoma (RAÍCES, 1992, apud, GIANESI, 2012).

Leite (2000, p.56) diz que “para a psicanálise, o sintoma só existe quando falado pelo paciente e, portanto tem como paradigma o ato-falho”. Isto se dá pelo fato porque está estruturado como uma linguagem, também em termos de significante e significado, o sintoma caracteriza o signo. Não é aquilo que aparece no concreto e pode ser observado de imediato. Como metáfora, altera a maneira da língua, modifica de valor e sentido, assume diferentes formas; ressignifica-se ao longo do tempo, embora sempre se relacione com a castração.

Voltando-se à questão característica do recurso ao tóxico, Raíces (1992, apud. GIANESI, 2012) propõe uma diferenciação entre aquilo que se pode observar como fenômeno e o que se diz sobre o sintoma para a psicanálise, notando que se um sujeito entra embriagado ou drogado no consultório de um psicanalista, logo se poderia diagnosticar que o sintoma que se apresenta é sua embriaguez. Entretanto isso é assim visto pela medicina ou pela ordem social. Não sabemos se isso será ou não um sintoma para uma psicanálise singular. Seguindo esse caminho, parece que para a psicanálise o toxicômano é figura que não existe (RAÍCES, 1992, apud GIANESI, 2012).

Contudo, em relação a este mesmo adjacência destacada, em sua atividade o psicanalista, que por um lado não se encontra com a toxicomania como alguma coisa que existe per se, depara por vezes diante de um sujeito que sintetiza sua identidade nas questões relativas àquilo que envolve o uso de drogas.  Apresenta-se como um toxicômano, fato que deve ser abrangido pelo analista como próprio do campo das identificações (RAÍCES, 1992, apud GIANESI, 2012).

Neste sentido, Santiago (2001, p. 185) traz uma importante contribuição, referindo-se ao significante toxicômano: “Para a psicanálise esse termo tem um valor identificatório. Com efeito, esse significante pode tornar-se, para certos sujeitos, objeto de uma escolha. Ser toxicômano consiste então num recurso diante do impasse de uma neurose, ou mesmo de uma psicose. Esse aspecto identificatório manifesta-se frequentemente mediante o enunciado sou toxicômano”.

Conforme Nogueira (p. 84, 1999):

A paixão pelo gozo, primário e fundamental, des-situa o significante e o sujeito e faz com que este ser embriagado e enamorado procure um tratamento apenas quando a ilusão na qual acredita com enlevo a devoção prega-lhe algumas peças. E, quando procura, procura com a esperança de que o significante e o sujeito continuem quietos. A luta pelo bem-estar do toxicômano é, paradoxalmente, nada mais que a luta para o mal-estar na civilização seja reconhecido e que o gozo do corpo possa receber algum obstáculo. É, portanto, uma batalha contra o prazer sem mediação, o prazer com o qual todos devaneiam.

Freud (1930) traz a definição do uso de drogas como sendo uma tentativa de suspensão da existência frente à dor de viver. A cada desequilíbrio, as substâncias tóxicas atuariam como um quitapenas, posto que, como um amparo contra a aflição. A intoxicação seria um modo de aguentar o mal estar necessário imposto ao ser humano que existe em uma determinada civilização

De acordo com Nunes (1999) a droga seria como uma tentativa de preencher a falta Simbólica do sujeito. A instalação da falta Simbólica introduz, no sujeito, a possibilidade inconsciente de almejar, o que rompe com uma idéia de completude. Consistindo em qual for o objeto, ele não restaura essa falta. Para o sujeito toxicômano, a falta inaugural não é passível de metaforização ao ser inscrita no Simbólico. Ela atende à cobrança de um recobrimento Real, de um objeto, como a droga, para na fantasia de preencher a falta, restaurar uma completude imaginária, evidenciando sua própria vivência.   

Costa (2004) complementa esta idéia destacando que o toxicômano procura repor a incompletude com objetos idealizados; tenta defender-se da ansiedade com um objeto postiço. As drogas instituem uma promessa irrecusável de tapar esse buraco, impreenchível. É a falta significante, pela castração, que permite o sujeito dessa necessidade postiça de completude.

No toxicômano, tal procura de completude nos objetos (como as drogas) se reproduzirá infinitamente, na ansiedade do indivíduo para localizar o objeto que a causa. Essa busca totalizada escusa o falante de confrontar-se com o desejo, isto é, o que ele não almeja é, justamente, pagar o preço da castração (COSTA, 2004).

As colocações de Conte (2001) vão ao encontro destas idéias. Quando o bebê distingue-se da mãe pela intervenção da função paterna, esta separação provoca-lhe uma falta, que funcionará como castração simbólica. É a falta que consente que apareça o desejo. A droga desempenha, então, uma função na vida psíquica, como diz Conte (2001), de anteparo à castração. Ela é utilizada, para que o indivíduo não se encontre com a falta.

Conte (2001), se ocupa em dizer que é esta idéia de cumprimento de uma função na vida psíquica que o uso de drogas é o produto em si, e no seu uso, os demais investimentos estão resguardados, que é o produto que assume uma função na vida psíquica, na procura do sujeito por uma autoconservação paradoxal, por uma existência.

Torossian (2004) coloca que o psicanalista não trata a dependência química, contudo trata de um sujeito que sofre de toxicomania. As correntes que aderente a incurabilidade assinalam para a cronicidade do sintoma. Na maioria das vezes, nas toxicomanias tem-se um desenvolvimento sintomático, no qual existe uma cristalização da posição do indivíduo numa relação de exclusividade com a droga. Dando ênfase às demandas do sujeito é imaginável o alheamento do paradigma da dependência química, para ponderar a relação do sujeito com o tóxico.

Não se considera qualquer consumo de drogas como toxicomania. As toxicomanias se edificam enquanto sintoma quando o sujeito entra em uma relação tóxica com a droga, isto é, quando sua ingestão passa a ser saída para seus conflitos psíquicos (TOROSSIAN, 2004).

Nesse sentido, o processo de cura aposta numa mudança de posição subjetiva, no qual o analista precisa abster-se de sugerir qual a melhor saída para o sujeito. Diferentemente de outras correntes, para a psicanálise, a recomendação de cura não significa abstinência ou não-abstinência, porém sim a escuta do desejo inconsciente (TOROSSIAN, 2004).

De acordo com Conte (2001) existem dois modos distintos de conceber a toxicomania, que falam da posição subjetiva do toxicômano: pela lógica da suplência, referindo-se às toxicomanias mais graves e pela lógica do suplemento, associada às menos graves.

O papel da toxicomania de suplência é funcionar como prótese do interesse simbólico, resistindo à invasão do Outro. Este tipo de toxicomania demanda um trabalho de costura, que consinta a construção de um eu, de um objeto e de um endereçamento ao Outro.

Segundo Conte (2001), nessas toxicomanias o uso de drogas toma um espaço de manutenção de um possível Sinthoma. O tóxico (sinthoma) entra como suplência na falta do quarto elo do Real, Simbólico, Imaginário. Com isso, qualquer intervenção realizada necessita cuidar para não diluir a função da toxicomania antes que alguma coisa possa articular-se no lugar.

A orientação para a abstinência poderia causar tal desestruturação, induzindo a uma crise ou a um surto. Como nessas toxicomanias o “tóxico” beneficia uma entrega integral do sujeito ao Outro, só é possível sugerir uma troca da droga via transferência (CONTE, 2001).

No tratamento é essencial uma ressignificação da história particular, e não somente a oferta camuflada de um novo sistema de valores. Essa ressignificação induzirá a uma nova posição do sujeito na palavra e à instauração de novos trajetos simbólicos (CONTE, 2001).

As toxicomanias de complemento, por sua vez, referem-se a constituições de próteses narcísicas, que são procuradas para manter a imagem narcísica. A droga seria uma tentativa de dar suporte ao toxicômano para a construção de um ideal de eu. No lugar da falta do objeto, é depositado o tóxico. 

Assim, na abordagem deste tipo de toxicomania, é mister que o luto pelo objeto perdido seja concluído, para que o toxicômano possa ressituar a droga em uma cadeia significante, e abstrair do tóxico como defesa secundária. É necessário instituir a possibilidade de resolução do Édipo, para que o paciente venha a aceitar a castração. Diferentemente das toxicomanias de suplência, em que é conciso auxiliar na constituição de um pai, na de complemento trata-se de reconhecê-lo para resgatar a potência de sua função.

Para concluir a respeito da paradoxal questão da autodestruição versus tentativa de autoconservação na toxicomania, Nunes (1999) diz que o toxicômano ao proferir “não posso viver sem a droga”, constitui uma relação, pela cadeia discursiva, na qual há uma impossibilidade da experiência de privação ou de abstinência da droga, pois, o objeto ao produzir o indivíduo por identificação, na sua falta, elimina-o.

3. Conclusão

Através do presente trabalho pode-se dizer que a sociedade direciona um olhar estigmatizante sobre o dependente químico, visto que o apreende de forma preconceituosa associando na maioria das vezes a questão da dependência a serem marginais e muitas vezes, criminosos.

No decorrer do estudo obteve-se embasamento teórico satisfatório por meio de um recorte bibliográfico acerca da toxicomania e principalmente compreendeu-se a importância de direcionar um olhar ao sujeito e não a sua dependência química. Através de um passeio pela leitura bibliográfica, percorrendo-se em busca de resposta para compreender como se dá as saídas que os sujeitos buscam através das drogas para aliviar seus sofrimentos.

Assim, ao longo do estudo ficou clara a percepção que muitas vezes o profissional vai precisar lidar com a frustração, angústias e limitações, pois usuário de drogas é carregado de histórias tristes, de perdas pessoais, profissionais, e dificuldades com a família.

Diante de tais pontuações, materializou-se a certeza de que antes de olhar com julgamento um sujeito é necessário observar que diante dessa realidade existe um humano que sofre e que transferir responsabilidades para outros não resolve, mas que é importante buscar olhar o ser humano sem discriminações, com mais amor e um coração solidário que pulsa em um ser dotado de inteligência.

“Vêm vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz à hora não espera acontecer” (Geraldo Vandré). E concluindo deixa-se um questionamento: Até quando a sociedade vai ter que esperar? Espera-se que as inquietações não fiquem no armário, mas que sirva para prosseguir numa constante sede de querer aprender mais, e que sempre se coloque a disposição para somar valores éticos para uma sociedade mais justa e igualitária.

Referências:

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CONTE, M. O luto do objeto nas toxicomanias. Os nomes da tristeza. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, 2001.

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GIANESI, A, L. A toxicomania e o sujeito da psicanálise: São Paulo, v. 9, n. 15, jun. 2012 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-11382005000100010&lng=pt&nrm=iso>. Acessado em 23 jun. 2012.

LACAN, J. O seminário sobre “A carta roubada”. In: Escritos. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1955/1966.

____________. Escritos, trad. Vera Ribeiro. Jorge Zahar: Rio de Janeiro, 1998.

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NOGUEIRA, F, D, M. Toxicomania: Escuta.São Paulo, 1999.

NUNES, O, A.A representação de subjetividade na escrita de pacientes de toxicomania. (Dissertação de Mestrado não publicada). Porto Alegre: UFRGS, 1999.

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TOROSSIAN, S. D. De qual cura falamos? Relendo conceitos. Em: Tóxico e Manias. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Nº 26, 2004.