Análise sobre as Alimentadeiras de Almas de Juazeiro – BA, à Luz da Psicanálise

1. Introdução

O presente trabalho discorre acerca de uma manifestação religiosa denominada penitência que teve seus pressupostos históricos derivados de crenças sustentadas por fiéis religiosos na idade medieval – Sobre este aspecto, os cristãos da idade média acreditavam no sofrimento físico como uma forma de autopunição pelos seus pecados, e utilizavam-se da flagelação como forma de firmação a obediência aos mandamentos das sagradas escrituras. Em detrimento dos poucos postulados históricos registrados através da escrita, a sustentação e o conhecimento que se faz presente nos dias atuais sobre o grupo de penitentes, é possível através de história contada oralmente que permeia entre os povos praticantes. Atrelado a este fator, entre os motivos que faz da penitência uma prática de exposição limitada e anônima, é justificável em decorrência de um acordo entre eles quanto manter sigilo sobre as ações que realizam e as experiências que vivenciam.

É importante aqui é ressaltar, que a penitencia é considerada como uma prática cultural sem quaisquer ligações com uma doutrina religiosa especifica. Por está razão, qualquer pessoa pode fazer parte do grupo de penitentes, independente do credo, religião ou idade. Ademais, os praticantes justificam o seu interesse pela penitência como sendo uma atitude altruísta, sem nenhum interesse individual sobreposto ao desejo de ser por àqueles que necessitam da sua ajuda. Não é equívoco conjecturar que o amor a Deus e ao próximo são os pilares das suas ostentações enquanto penitentes. De tal forma, esta aparente filantropia dessa manifestação cultural de cunho religioso, também está ligada a uma forte influencia do temor aos mandamentos bíblicos, bem como a uma forma de indulgência dos pecados pessoais daqueles que a praticam, e também das transgressões do mundo.

Também se faz necessário expor que o grupo de penitentes subdivide-se em dois contextos diferentes enquanto praticantes: um corresponde ao grupo de penitentes Disciplinadores – aqueles que se dedicam ao autoflagelo como forma de manifestar a sua abnegação moral, justificando a prática como sendo uma forma de representar o sofrimento de Jesus Cristo – e os chamados penitentes “Alimentadeiras de Almas” – aqui se pontua que a nomeação no gênero feminino deve-se ao fato de que o grupo de penitentes mais antigos era composto por um maior número de mulheres e crianças, uma característica que já se permutou nos dias atuais. Com relação à prática, este grupo não usa da ação de flagelar-se, apenas realizam orações e entonam cânticos, denominados por eles de benditos, em favor da alma dos que já morreram e daqueles que se encontram vivendo a margem dos preceitos morais da sociedade - É este grupo, dos que “alimentam” almas, que consistirão no foco principal dos estudos que serão apresentados neste trabalho.

A penitência esta presente em muitas regiões do Brasil. Especificamente no nordeste, onde as manifestações religiosas são bastante acentuadas, a realização da pratica penitente pode ser encontrada em muitas cidades – Aqui discutiremos acerca de como se procede a ação dos penitentes na cidade de Juazeiro, localizada no estado Bahia. Neste sentido se faz necessário expor alguns dados históricos que serão mais bem explanados em linhas posteriores: A informação que se chega através da história da população cristã da cidade pontua que a penitência chegou a Juazeiro por intermédio dos missionários Carmelitas e Capuchinhos em 1901. Nos presentes dias, ainda é possível encontrar o grupo de alimentadores de alma pelas ruas da cidade, entoando os benditos e dirigindo-se para o cemitério durante o período da quaresma para rezar pelas almas.

Aqui nos interessará as manifestações religiosas e as atitudes de fé dos praticantes da penitência bem como analisar a configuração dos atos de dedicação para com o próximo – para tanto, faremos uma ponte com as proposições psicanalíticas propostas por Sigmund Freud como forma de contextualizar as experiências trazidas por este grupo de pessoas que relatam objetar o melhoramento do mundo a partir da sua ação individual. Consideraremos o contexto em que eles colocam-se como seres humanos promotores de ajuda para que aqueles que tiveram a sua vida ceifada possa encontrar um bom caminho de descanso como sugere os ditames religiosos. Visaremos neste sentido, trazer as vivências desse povo que se mostra tão ávidos a cumprir com os mandamentos da fé e dos bons costumes acometidos essencialmente pelo desejo de promover o bem.

Em resumo, ressaltemos a título de esclarecimento ao leitor que não é de interesse deste trabalho estabelecer interpretações acerca da prática penitente tampouco amarrar os fatos a quaisquer teorias científicas ou de cunho intelectuais engessadas. Pontuemos: não é a esse serviço que envolveremos a psicanálise. Contrariamente, através dessas linhas versadas proporemos uma reflexão acerca deste manifesto cultural que perpetua por meio de expressões tão tácitas, mas ao mesmo tempo tão conhecida pelas populações que se questionam sobre em que consiste a prática desse grupo. Sobretudo, é um convite ao leitor para debruçar-se sobre uma cultura tão curiosa que tem muito a dizer e desvelar sobre o humano – Desse modo, tornar-se-á legítimo este objetivo por meio de embasamento a partir de alguns poucos registros teóricos, e mediante a uma pesquisa de campo realizada com o grupo de penitentes alimentadores de alma da cidade de Juazeiro-Ba.

2. Penitência na Cidade de Juazeiro

O ato da Penitência na cidade de Juazeiro, estado da Bahia, é presente desde muito tempo, no entanto no que se refere à origem dessa manifestação encontramos um dissenso, para alguns dos atuais participantes do movimento a Penitência surgiu nessa região por volta do ano de 1901, mas já para alguns teóricos do assunto como Vicente (1992, p. 3), tal ideia já existia durante esse período, sendo essa implantada desde o ano de 1706. Na cidade de Juazeiro a prática da penitência chegou através de missionários Capuchinhos e Carmelitas que evangelizavam a região, trazendo junto às pregações bíblicas a gêneses da cultura da penitencia nesta cidade. A partir de tal, a prática da penitencia passou a ser cultivada por alguns cristãos da região, passando assim a ser “caracterizada como uma tradição de família, passada de uma geração a outra oralmente.” (EVANGELISTA, 2008, p. 19).

No ato da Penitência, a manifestação máxima da sua essência está no dever de oferecer orações e rezas em prol da libertação das almas que vagam sobre a terra. Desse modo, grupos vinculados ao ato da Penitência direcionam orações e rezas a Deus, a fim de “despertar” sua misericórdia e assim dar conforto e poder livrar essas almas do sofrimento por estarem presas no plano terrestre as quais ainda não tinham alcançado a luz divina da salvação, a oração tem a função de levar e elevar as almas ao Deus através dos penitentes, pois eles assumem esse dever praticando a penitencia em favor dos outros irmãos que não possuem mais corpo carnal (VICENTE, 1992, p. 3). No tocante do que se designa Penitente, encontramos dois principais grupos que são conhecidos na região como os Disciplinadores e as Alimentadeiras de Alma, os quais tem grosso modo a mesma finalidade enquanto atividade direcionada ao contexto religioso, porém com formas distintas na sua prática.

Durante o a realização do ritual, os penitentes usam diversos objetos de um determinado valor simbólico, como a matraca, que sinaliza o início ou termino de determinadas atividade, ou talvez usada como um chamado aos que participam da penitência; a cruz de cedro, levada pelo líder do grupo que é chamada de madeiro, a qual simboliza cristianismo pela sua relevância nesse contexto religioso; e o pano que fica envolto no madeiro significando para alguns, devido a forma de como o tecido fica disposto, a letra “M” de Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, enquanto par outros simboliza as vestes de Jesus Cristo logo ao ser retirado da cruz após a crucificação.

Um dos grupos responsável pela penitência, as chamadas “Alimentadeiras de Alma”, o qual ocupa lugar de destaque em nossa análise, se apresenta geralmente constituído por mulheres, homens e crianças, as quais podem participar da manifestação a partir dos 7 anos de idade. Nesse grupo, os participantes são caracterizados pelas vestimentas que em geral são batas brancas designadas de “mortalhas”, esses são tidos como almas caridosas que entoam, cantam e oram em benefícios das almas de pessoas mortas que se encontram perdidas vagando no espaço, os quais costumam lhes aparecerem em sonhos ou até mesmo visões durante a prática da penitência. Além da mortalha que cobre todo o corpo inclusive a cabeça, deixando apenas a vista os olhos, as “alimentadeiras” de alma costumam usar uma corda de cor branca chamada de cordão de São Francisco amarrado na cintura, essas mantinham a prática de sair todos os dias de segunda, quarta, e sexta-feira durante a quaresma, mas hoje, esse grupo, também chamado de cordão, em especial da cidade de Juazeiro, mantém o costume de sair apenas durante a última semana do período da quaresma, na chamada semana santa.

Como coloca Vicente sobre as alimentadeiras de alma:

Vestem-se de mortalhas brancas, e com cantos, prantos e benditos imploram sempre a misericórdia de Deus para todas as almas. O cordão é formado por homens, meninos e mulheres que piedosamente evocam e centrificam todos para Deus, Jesus Cristo, Maria Santíssima e os santos para todas as almas [...]. (1992, p. 10)

O segundo grupo de representante das manifestações da penitência são os disciplinadores, esses que se diferenciam das alimentadeiras de alma pelo fato de praticarem o ato da flagelação, e também estarem em menor número se comparados ao grupo anterior. Ao contrário das alimentadeiras, os disciplinadores usam vestes brancas chamadas de anáguas que ficam amarradas na cintura além de um pano sobre a cabeça, deixando em exposto às costas para assim facilitar a flagelação. Para essa prática os penitentes disciplinadores usam chicotes de couro ou elásticos com pontas metálicas que facilitam o corte. Na região de Juazeiro, a penitência dos disciplinadores surgiu por volta do ano de 1959, trazida a zona urbana por algumas comunidades circunvizinhas, atualmente apesar de ter poucos representantes, a cultura da flagelação ainda resiste no contexto religioso popular dessa região.

Há no ritual da penitência uma programação básica que deve ser cumprida no decorrer de cada evento, o ritual das estações deve ser cumprido em uma sequência organizada de rezas e orações, o que se detém ao número de sete estações a serem cumpridas. Esse ritual é um ponto em comum a ambos os grupos de penitentes, porém pode sofrer sutis alterações. Em cada estação, soa o som da matraca sinalizando o ajoelhar-se dos penitentes que entoam o bendito em louvor a Deus, e a partir daí são rezados, ou como eles próprios colocam, “tirados” três pais nossos descritos por Vicente (1992, p. 11) da seguinte forma, o primeiro dedicado à morte e paixão de Cristo, o segundo para as almas dos cemitérios, e por fim o terceiro pai nosso que é dedicado à devoção das almas e dos missionários. Ainda ajoelhados, em tom afinado e variado pedem bênçãos ao Senhor Deus e despedem-se dos irmãos falecidos, em seguida seguem para a próxima estação, repetindo esse processo sete vezes.

3. Temas em Psicanálise

É cada vez mais evidente que a teoria psicanalítica desenvolvida por Freud, não deixa fios soltos no que se refere a sua legitimidade acerca das explicações sobre as atividades humanas. A Psicanálise traz consigo não só um meio de trabalho que subsidia a prática clínica, mas como também nos dá margem a perceber a importância do ser singular em consonância com o todo social, e essa, cada vez mais vem se voltando a uma análise cultural visando entender a constituição do individual nas suas relações com a coletividade. Para uma análise do fenômeno da penitencia através do olhar psicanalítico, é preciso nos atentar para alguns temas inerentes a teoria psicanalítica, para tal, passaremos agora a uma breve exposição teórica que objetiva contextualizar a Psicanálise em meio ao que poderia, em termos de equivalência, ser visto na manifestação cultural cristã da penitencia. Como ponto norteador da nossa análise iremos a partir dos postulados de Freud expor alguns temas pertencentes à psicanálise e que dialogam com a prática da penitência.

Além da existência de uma força inconsciente responsável pelos impulsos motores da nossa vida psíquica, Freud propõe ainda que o aparelho psíquico do indivíduo é constituído por três instâncias reguladoras: o Id, Ego e o Superego, tais instâncias seriam responsáveis a partir das suas relações por dar suporte a atividade psíquica. O Id, representado pelas forças instintuais mais sombrias e animalescas é como um caldeirão fervilhante que se faz presente nas relações com o ego, esse último situado na linha limítrofe existente ente o Id e do Superego se constitui pela relação desses e representa, por assim dizer, o ponto de concentração e encontro da energia de ambas as esferas psíquicas. Já o Superego, instância formada a partir pela internalizarão de valores e padrões morais cultivados no contexto parental, representa a ordem reguladoras a fim de estabelecer os padrões moralmente aceitos no plano social. Essas três qualidades do aparelho psíquico, não se organizam de forma organizada nem tão pouco em harmonia, tais são concebidas metaforicamente como um conjunto de diferentes elementos misturados no mesmo espaço.

As manifestações do inconsciente na vida humana são constantes, seu conteúdo por essência jamais se tornará objeto da consciência, contudo as ideias que os representam sim, dessa forma, os instintos inconscientes impactam nos atuando silenciosamente a nossa percepção consciente, esses se fazem evidentes nas nossas “necessidades” na busca do prazer, seja ele como for. Para tanto, como coloca Freud (1915, p. 144), está no embate entre as exigências sexuais inconscientes e a resistência do ego as raízes para todas as afecções humanas. Os desejos, instintos e anseios de ordens sexuais pertencentes ao inconsciente, estão em tese, constantemente nos atravessando de forma a nos guiar em busca das suas realizações.

Os instintos enquanto voltados para o próprio indivíduo transforma a atividade em passividade, revertendo-se ao seu oposto como no caso do sadismo-masoquismo e escopofilia-exibicionismo (FREUD, 1915, p.148). Nesse sentido há mudança quanto ao direcionamento do instinto, mas a finalidade permanece a mesma. No que se refere ao masoquismo visto na sua função enquanto atravessado pelas forças instintuais inconscientes:

[...] a dor é muito apropriada para proporcionar uma finalidade masoquista passiva, pois temos todos os motivos para acreditar que as sensações de dor, assim como outras sensações desagradáveis, beiram a excitação sexual e produzem uma condição agradável, em nome da qual o sujeito, inclusive, experimentará de boa vontade o desprazer da dor (FREUD, 1915, p. 149)

De modo geral, muito há em comum entre a Psicanálise e a prática da penitência, de certa forma tais fatos observados na expressão cultural religiosa da penitencia se torna indissociável de um teor psicanalítico, ambos têm em comum um ponto central, o ser humano, que se utiliza das suas energias para dar vida e forma a cultura ao passo que expressa, por assim dizer, a teoria psicanalítica no seu contorno prático.

4. Análise da Penitência a partir da Teoria Psicanalítica

Com base na experiência vivida no contato com os praticantes da penitência da cidade de Juazeiro - BA foi possível observar através de uma lente psicanalítica alguns pontos relevantes que nos remetem aos postulados teóricos propostos por Freud. Dessa forma, a partir de agora iniciaremos uma análise tendo em vista a prática da penitência em confluência com a Psicanálise, assim tentaremos conciliar fatos e experiências relatados por alguns penitentes com temas emergentes no contexto psicanalítico a fim de vislumbrar um ponto de convergência entre o fenômeno cultual em questão e a Psicanálise.

Para fundamentar nossas análises em relação à tradição da penitência na cidade de Juazeiro, tomamos como referência os relatos de pessoas que já estão vinculadas a prática há algum tempo, isso por que apesar de estar presente desde os primórdios históricos do surgimento da cidade, o ato da penitência não é tratado por muitos no contexto científico, ou até mesmo no arcabouço teórico referente às manifestações populares da região, talvez tal fato se justifique pela intenção do grupo em optar pela perpetuação da cultura da penitência apenas através da forma oral.

Nesta perspectiva, ao decorrer da pesquisa de campo nos deparamos com relatos de pessoas disponíveis a manifestar-se sobre suas vivências e avidas a falar acerca do seu desejo de promover e sentir-se bem. Em contra partida, também houve aqueles que optaram pela preservação sob a justificativa de resguardar a intimidade de suas experiências; ou por receio dos possíveis julgamentos dos que não tem conhecimento da sua prática ou até mesmo receio de cair aos prantos ao rememorar as suas experiências mais ternas. O fato é que essas pessoas acreditam veementemente naquilo que praticam e, certamente, não o faz sem no mínimo esperar respeito por parte daqueles que não acreditam. É sobre estes pontos que versaremos a seguir: Acompanhando os penitentes da cidade de Juazeiro-Ba inquietou-nos conhecer as razões que poderiam levar essas pessoas a se preocupar com a alma de outrem que, segundo suas crenças, vaga sem encontrar descanso.

Durante nossa peregrinação, encontramos um jovem de 23 anos, que será mencionado como “D” – que descreve sua experiência com as almas, e afirma ter sido surpreendido com uma visão há alguns anos atrás. De “acordo com ‘D”, o que ele vira aproximadamente no ano de 2011, durante o ritual penitente no Cemitério Municipal de Juazeiro, foi uma imagem de uma alma que ele acredita ter clamando por sua ajuda. O desejo da alma para ‘’D’’ era indiscutível: rezar por ela para que as suas perturbações entre o mundo dos mortos e dos vivos fossem cessadas, para que, enfim, pudesse descansar. Em meio ao diálogo, “D” fala sobre os seus sonhos recorrentes com pessoas desconhecidas sofrendo mortes trágicas e súbitas em que ele atribui ao desconhecido um alguém que tenha de fato passado por tal situação e o invoca em sonhos para que ele possa interceder para que essas pessoas encontrem a paz.

Mediante a descrição anterior façamos uma alusão à teoria psicanalítica freudiana e nos coloquemos a refletir sobre como a psicanálise possivelmente abordaria tais sonhos, e como essa abordagem explicaria os processos psicológicos que permeiam essas experiências reconhecidas como sendo puramente um ato de fé: A todo instante os relatos nos dão a possibilidade de que o jovem por vezes era atravessado pelo inconsciente que se manifestava em seus sonhos e até mesmo em suas expressões, demonstrando a necessidade espontânea de relatar as suas experiências pessoais. A fé depositada nas suas ações lhe parecia deixar a certeza de que, de fato, aqueles que morreram ou estão no ciclo de uma morte trágica necessita da sua intercessão espiritual.

O pecado é visto como um ato contrário a razão, à verdade, à consciência reta. Fere a natureza do homem e ofende a solidariedade humana. Pode-se distinguir os pecados segundo o seu objeto, como em todo ato humano, ou segundo as virtude a que se opõem, por excessos ou por defeito, ou segundo os mandamentos que eles contrariam (CC apud GARCIA, 1993)

O pecado, tomado como um erro, algo que de alguma forma impulsiona a essa realização da falha, do proibido, nos dá lugar a voltar nosso pensamento sobre a quem estamos infringindo leis, a respeito de que e contra o que, ou quem erramos? A quem se deve o devido respeito que abita nosso intimo?  De acordo com o mito freudiano:

Mito da Morte do Pai Primitivo, o grande líder que reinava soberano era precisamente o Pai Primitivo. Para assegurar a posse absoluta de todas as mulheres da horda, e para não ter, nos filhos, rivais, quando esses crescessem, ele os castrava. Revoltados os filhos, um dia, resolveram matar o pai. A culpa pela sua morte está na origem da religião, pois o pai foi morto depois divinizado. Ele era também devorado e duas insígnias incorporadas em um ritual caracterizado como banquete totêmico. O pai morto passou a ser, então, adorado e venerado como um grande totem. Os filhos, porém, quiseram tomar o lugar deste pai e se destruíram mutuamente. Para tornar possível a vida em sociedade, eles estabeleceram a lei do incesto. Assim, o Mito do Pai Morto tornou-se a fonte da Religião, da Moral e da Vida em Sociedade (MACIEL, ROCHA. p, 744).

Isto é, em o Totem e Tabu demonstra os vestígios que permaneceram do complexo de Édipo às gerações posteriores, provocando o sentimento de culpa por assassinar o pai. Quer dizer que desde tenra idade, o sujeito é tolhido de suas pulsões e, ensinado, moldado, condicionado a entender que não é tudo que se deseja, que se pode ter ou fazer. Acarretando no desenvolvimento do Superego, que reprime os desejos em que são recalcados pelo individuo que se autocensura, provocando sempre mediante a isso o sentimento de culpa. Isto é:

O Superego é o herdeiro do complexo de Édipo e é a instância encarregada de zelar pela observância das normas culturais e dos valores inculcados pela educação. Ele mergulha suas raízes no inconsciente, criticando e observando o Ego e ameaça-o caso não se comporte segundo as regras impostas.” (MEZAM apud GARCIA, 1995).

Esse sentimento de culpa, conferi ao sujeito a certeza de seu pecado, buscando valer-se de medidas como forma de abrigar-se e/ou ate resguardar-se como defesa em sua orações, atos de penitencia em favor dos que precisam como as almas. Que segundo Garcia numa releitura de Freud:

“Esse sentimento corresponde à convicção dos individuos piedosos – miseráveis pecadores – e a praticas devotas (orações, invocações) com que tais individuos precedem cada ato cotidiano, especialmente os empreendimentos não habituais, parecem ter o valor de medidas protetoras ou de defesa. Os atos cerimoniais e obsessivos surgem, em parte, como uma proteção contra a tentação e, em parte, como proteção contra o mal esperado. Essas medidas de proteção logo parecem tornar-se insuficientes contra a tentação, surgindo então as proibições, cuja finalidade é manter à distancia as situações que podem originar tentações (GARCIA, 1907).

Em consonância, pode-se descrever que os penitentes por meio de seus benditos não evocam orações às almas, como no caso dos amancebados que são os ditos únicos a quem os penitentes não rezam por serem pessoas que não possuem a benção matrimonial religiosa, apesar de alguns penitentes serem, cantam por conta da tradição. É o que afirma Guy Veloso que diz:

Tem curiosidades, como o de um cântico antigo (bendito), em que eles pediam uma luz às almas que morreram de varias formas (almas de missionário, almas que morreram de varias doenças, mas no final diziam: menos as dos amancebados – pessoas que não são casadas, que apenas vivem juntos). Alguns do grupo que são “amancebados”, praticam outras religiões, não são católicos, cantam os benditos (informação verbal).

É percebível que neste caso dos amancebados, alguns dos penitentes de Juazeiro – BA serem as escondidas possa ser que se tenha uma angústia em praticar algo que é condenado e não orar, mas ao mesmo tempo interpelar inconscientemente por isso, como uma fonte de mitigo e recompensa.

Feliz daquele que a amiga morte chega e estão preparados parair com ela, pois souberam viver a vida e poderão ir ao Reino do Céu. Esta frase a qual não sabemos quem ser o autor destaca palavras chaves que remetem muito, a saber viver, com ir ao Reino do Céu. A morte é amiga dos bons viventes que como dizem, podem seguir o caminho da luz. Aos penitentes isto se aplica a exclusão até em suas orações com relação aos amancebados. As alimentadeiras ou os alimentadores de almas rezam (tiram Pai – Nosso), cantam (Benditos) em honra as almas do purgatório que foram acometidos de várias maneiras de morte, para que assim possam seguir o caminho da luz, saiam das trevas e possam de tal modo como na frase “ir ao Reino do Céu”.

Os penitentes praticam o ato de penitencia durante o período quaresmal em representação aos 40 dias de jejum feito por Jesus, o que denota que:

É morrendo que entramos para a vida verdadeira, livre dos laços da matéria, onde não haverá choro, nem pranto, nem dor, mas, somente a felicidade de ver Deus face a face, a felicidade eterna, o fim de cada filho de Deus. (VICENTE, p. 04).

O gozo é o prazer, o conteúdo manifesto conscientemente através de suas ações de uma expectativa de retorno, de que a felicidade, a plenitude é dada pelo desejo, aspiração de que um dia possa-se gozar da alegria de estar ao lado e ver face a face, Deus.

Há percepção de laicismo no grupo e, de simplicidade socioeconômica. De acordo com Guy Veloso [1]:

“[...] a maioria dos penitentes localiza-se no espaço restrito daqueles que, por viverem em estado constate de penúria, aparentemente abdicam do progresso, destituindo-se da riqueza por acreditarem que a pobreza é o bem que os tornará mais próximo de Deus”.

Visto que em sua fala os penitentes de fato demonstram simplicidade e destituição de riqueza, o que não distingue a sua maneira, do que foi ensinado por Cristo. Isto é, esses personagens revestidos em mortalhas, inconscientemente partilham de uma vivência humilde, com a crença de que desta maneira e, através de orações, como uma forma de ajudar ao próximo e a si poderão alcançar o degrau ao mais alto dos Céus. Neste caso, percebe-se as manifestações inconsciente para um bem comum, que além de querer salvar as almas de alheios, poderão também salvar-se por estar sofrendo e tomando por experiência o que Cristo viveu, como ocorre no bendito e nas paradas representando as sete estações e neste sofrimento praticarem o bem.

Em conversa com alguns penitentes, podemos relatar a partir de suas falas sobre a experiência dentro do grupo, a forma como se sentem praticando o ato de penitência, quais tentames e casos tiveram como um relato de recebimento de graça alcançada por meio das almas, o que nos trouxe alguns conteúdos característicos da psicanalise, mas expressos de caráter simplificado.

J. R., senhora de 75 anos diz que toda a família fazia parte do movimento dos penitentes em que desde criança saia no grupo e, quando moça não mais desejava por razão dos namorados, porém, a mãe ficou brava. Quando sua mãe faleceu, ela a fez prometer que iria continuar com o grupo. Com a promessa, ela diz que faz por obrigação e, que quando morrer não quer que os alimentadores de almas façam o ato de penitencia por ela. Vê como algo bom porque qualquer tipo de oração é bem vinda, acreditando que as almas são alimentadas. Iniciou o trabalho como organizadora em 1988 após o falecimento de sua mãe em 1987. Diz ter acontecido como experiência a aparição de um pombo à noite no cemitério onde estavam fazendo uma estação, em que o pombo se sentou no meio do grupo, fazendo com que as crianças fossem brincar com ele, o que depois de algum tempo, voou indo embora. – este fato para a Sr.ª J.R, pareceu-lhe uma novidade. Já com sua avó J.J.G – que tinha vontade de sair no grupo dos penitentes (desejo manifesto – consciente) e, foi convidada pela senhora S., que comandava um grupo a pediu que esperasse pronta, que passaria na porta de sua casa para busca-la. “Os penitentes chegaram e ela entrou no meio deles rumo ao cemitério situado na Orla II, ao chegar ao local os penitentes desapareceram e minha avó ficou só em plena madrugada, com medo e a sua volta para casa correndo.” Quando chegou em casa cansada e com medo, não demora muito e os penitentes passam em frente a sua casa com a organizadora.  que lhe chama, porém J.J.G recusa contando o ocorrido no dia posterior (informação verbal).

Pode-se observar que no discurso de J. R. há manifestação do superego e do desejo inconsciente, pelo fato desta em sua juventude não ter desejado pertencer ao grupo fazendo que sua mãe ficasse brava, tendo por consequência a promessa da filha por continuar com o movimento ativo que o faz por obrigação devido a promessa. O que pode ser visto como um sentimento de culpa, de desprazer e cansaço no que faz, motivando a um sessar por sua parte, em que atribui outras justificativas para interromper a sua parte na ação, visto que, estas justificativas não são desconsideradas, mas, levadas em conta também como meio de abonar ao seu desejo pré-consciente pelos conteúdos latentes, ao dizer que pensa em parar: “por causa do desrespeito das pessoas, o desrespeito à cultura que não a consideram como cultura”. Quando se expõe o pré-consciente, descrevemos desta forma porque esta tem certa consciência de que não deseja isto, mas que por motivos que a obrigam mantem este dever, porém transferindo para outro ensejo. O que nos faz ver que:

Enquanto os processos Ics procuram satisfação pelo caminho mais curto e direto, os processos Pcs, regulados pelo principio de realidade, são obrigados a desvios e adiamentos na busca de satisfação. De modo esquemático:

Sistema Ics → Processo primário → Energia Livre → Principio do Prazer

Sistema Pcs → Processo secundário → Energia ligada → Princípio de realidade

(GARCIA-ROZA, p.233) [2]

Outro conteúdo que pode ser considerado pré-consciente foi o esquecimento sobre sua experiência no grupo dos penitentes em que a Srª J.R diz não ter nenhum fato a recordar acerca do assunto, mas que depois relata o episódio do pombo, ou seja, o conteúdo presente lhe era acessível ao momento em que lhe fosse desejado, durante o ritual quando os cordões estavam no cemitério entoando as orações em volta do cruzeiro, surgiu um pombo branco, pousando no centro do circulo, as crianças brincaram com a ave por algum tempo e esta voou em seguida. O acontecimento lhe causou estranheza, pois a mesma disse que jamais havia visto um pombo voar durante a noite. Ao ouvirmos o relato nos recordamos de um fato bíblico onde o Espírito Santo desceu em forma de pomba durante o batismo de Jesus. “Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água e o céu se abriu. E ele viu o espírito de Deus descer, como uma pomba, e vir sobre ele” (Mateus-3:16). O pombo tem um significado para os cristãos, mesmo que inconsciente a senhora atribuiu um significado ao pombo, que no momento ela soube descrever apenas como algo estranho, que ela não sabia como explicar.

Em relação ao ocorrido com sua avó, pode-se dizer que devido ao grande desejo de pertencer ao presente grupo, o fato de ter visto um grupo de penitentes que de repente ficou em ausência é uma revelação de seu desejo inconsciente, talvez ocasionando até em uma liberação psíquica com projeções para satisfazer sua necessidade. O motivo do desejo e a ansiedade talvez tenha sido o que a impulsionou a comparecer ao local antes mesmo de o grupo verdadeiro aparecer em sua casa, o que em uma tomada de consciência a fez perceber que estava sozinha no cemitério, isto é, - uma catexia – ideia ou afetos descarregados, decorrente ao seu desejo.

De acordo com Freud, Garcia-Roza diz: “Os pensamentos latentes são a matéria-prima de que são feitos os sonhos manifestos” (GARCIA-ROZA, p.81) [3] o que nos faz seguir adiante com o relato de D. 23 anos, que participa do movimento dos penitentes em Juazeiro a 15 anos, desde os seus 7 anos de idade, com sua família (avô e irmãos), em que diz:

Alimento as almas com reza, que é diferente de outros que alimentam com sangue quando se corta. Não há distinção entre religião. “Minha religião é africana e do candomblé. Acho importante alimentar as almas que estão ai no mundo sem luz, dando mais força a elas, mais iluminação, para que não continuem no caminho do erro, para que encontrem o Reino Eterno de Deus, a luz e não as trevas.” O jovem considera a penitencia um ato de obrigação. Essas rezas geralmente são para as almas que morreram  a muitos anos e que continuam vagando no mundo, servindo também para os vivos para que se sintam fortalecidos quando rezam. “Acho que tem um retorno.” – Em 2011 viu um espirito no cemitério; “Num momento estava um pouco com medo, pedia reza. Ela apareceu por nada, abriu os braços. Eu apenas rezei para ela e no exato momento ela desapareceu. Acho que correspondeu a expectativa, que quem vê a alma é quem tem o espirito puro, o coração puro que reza.” A alma lhe aparece lhe pedindo reza (até em sonho). Não acredita que sua mente tenha criado, projetado o espirito “pois, se não ela não teria desaparecido e aparecido em outro canto. “Se fosse em minha mente apareceria sempre. Já sonhei com varias almas pedindo reza, gente morrendo afogado, assassinado, gente que não conhece. Tenho isso para mim como um pedido de oração, de reza.” Não  associa os sonhos com um pesadelo, é uma alma, espirito. “Espera que façam isso por mim, todos os penitentes que aqui esteja, ou, os novos penitentes que estiverem chegando façam isso por toda a gente que estiver por aqui (informação verbal).

D, destaca sua necessidade de rezar pelas almas para que sejam alimentadas, e possam sair de um caminho de erros, mas ao mesmo tempo na esperança de que façam isto por ele, acreditando que de alguma forma isto tenha um retorno - como no caso de Dona L. que será esboçado mais adiante. Quando ele descreve sua visão, em que a alma está de braços abertos lhe pedindo reza, uma vez que após a sua oração esta desapareceu, dá-nos margem a supor que correspondeu a expectativa, pois assim como o mesmo diz: “quem vê a alma é quem tem o espirito puro, o coração puro que reza”. Ou seja, a atribuição que o próprio se dá em função de sua ação, pode ter provocado esta visão.

[...] todo sonho é uma realização de desejo. Alguns desses desejos são expressão de tarefas interrompidas ou inacabadas do dia anterior ao do sonho, restos diurnos que encontram no sonho sua solução e seu acabamento (GARCIA-ROZA, p.82) [3].

O sonho de D. em que lhe aparecem as almas pedindo-lhe orações remonta ao que pode ser uma expressão de seu desejo inconsciente de presenciar fenômenos que transcendem a realidade podendo advir não só desse desejo - por recordar que quem os vê é quem tem um coração puro – mas, também o conhecimento e expectativa de véspera da solenidade no período quaresmal, como também constantes pensamentos que estão latentes em sua mente, o que poderia vir ocasionar em sonho ou alucinações.

Discorrendo sobre o retorno, como forma de graça intermediada pelas almas, Dona L. que participa do grupo há 14 anos, afirma “rezar pelas almas que estão sofrendo por ai afora, pedindo para libertar elas e me ajudarem”, apresenta o caso em que a mesma perdeu seu bode:

Criava um bode e ele sumiu, coloquei aviso no rádio e pagava de 10,00 em cada vez, então quando foi na quarta-feira os colegas de penitencia perguntaram: E ai, achou o bode? Oxe, gastei foi meu dinheiro com aviso e as almas parecem não querer nada não. Então, no outro dia quando estava trabalhando na clinica do Dr. José, arrodeei o cemitério como que era uma coisa que ia me levando. No muro da AABB, caiu um morro com barro, foi quando subi que olhei para dentro, vi ele (bode) deitado do lado de uma casa. Quando falei o bode berrou e levantou. Por isso digo: as almas ajudam sim! E as outras, a gente ora por elas para Deus libertar elas também. (informação verbal)

Em contraposição ao relato de Dona L. podemos notar mais uma vez que há crença de retorno em relação as graças alcançados por intermédio das almas a quem tiram seus Pais-nossos.

Prosseguindo com os relatos, o Sr. N. Sr. que participou 18 anos, desde os seus 7 anos de idade, não mais participa dentro do grupo a algum tempo, diz tirar os Pai-nosso por fora e, que não deseja expressar sua experiência pois, é penoso , dá vontade de chorar, principalmente quando as outras pessoas começam a chorar e a agradecer pedindo para Deus abençoa-los, dar muitos anos de vida e saúde, porém sente-se bem em saber que os outros ficam gratificados, e contentes por ter rezado por aquela alma. Também acredita ter um retorno das almas do purgatório e cita rapidamente uma graça quando passava por dificuldade financeira, assim como no caso de Dona B. – tem 35 anos de penitência, entrando para cumprir uma promessa - que igualmente estava com problemas para tirar sua aposentadoria, fazendo com que se apegasse as almas prometendo que se a ajudasse participaria do grupo por 7 anos. A graça foi alcançada e, dentro de 3 dias foi chamada para ir a Salvador para organizar os papeis para a aposentaria que foi bem sucedida. Participou durante 7 anos, isto em 85, gostou e continuou em todos os momentos, de chuva, com todo o sacrifício, assegurando ser bom participar do movimento dos penitentes e sente por não poder mais fazer parte, sente saudades. Nestas situações compreende que há gratificação por parte das almas devido as graças e por parte do sentimento dos outros em agradecer aos penitentes por rezarem as almas do purgatório. Quiçá, exista um sentimento de alívio em perceber o agradecimento por conta do sofrimento alheio e de sentir conforto em realizar algo pelos outros que ao mesmo tempo é para si, em que há lamentações por não fazer parte e/ou uma leve tensão em notar que os atuais não levam a sério como se deveria.

Há casos de penitentes que faleceram antes de terminar sua promessa, (sete anos consecutivos) e apareceram para um parente “irmão” em sonho ou através de uma visão, pedindo para este concluir sua penitência.

Há conteúdo outros elementos do sonho para os sonhos quais não encontramos qualquer referencia nos restos diurnos ou em quaisquer outros acontecimentos da vida cotidiana. São elementos sem nenhum sentido aparente e completamente essa ausência de sentido e esse caráter desconexo que se constituem como índices da distorção a que foram submetidos os pensamentos latentes, e são estes os elementos que interessam mais intensamente à tarefa de interpretação. Quanto mais trivial, disparatado e desinteressante é um elemento do sonho manifesto, e quanto mais o sonhador se recusa a fornecer associações a este elemento alegando sua desimportância, mais ele se mostra significante para o trabalho de decifração, posto que são precisamente eles que poderão conduzir ao desejo inconsciente e à solução do sonho.” – (GARCIA-ROZA, p.83) [3].

Em detrimento da aparição de uma alma em sonho para que outrem termine de cumprir sua promessa, possivelmente seja o contexto que o sujeito encontra referencia em ações sejam elas dos restos de conteúdo do dia a dia ou, ou de pensamentos latentes o que poderia ser, em constantes axiomas acerca da perda de um ente.

5. Considerações Finais

A partir de nossas análises em relação a penitência na cidade de Juazeiro – BA, podemos vislumbrar que tal prática cultural além de trazer um recorte das representações religiosas da população cristã, nos dá base a refletir sobre alguns temas emergentes na teoria psicanalítica de Freud. Nesse sentido, percebemos que a Psicanálise enquanto perspectiva de uma análise religiosa lança luz sobre a compreensão desses fenômenos religiosos de forma a tornar evidente a sua importância no contexto social, assim como tais eventos estão em coerência com as condições que regem a vida tanto dos que neles creem como também daqueles que cultivam um sentimento de incredulidade em relação a essas práticas.

Há de certo modo um elo que vincula os aspectos culturais, em especial o da penitência, com as proposições psicanalíticas, isso nos vêm como uma afirmação da confluência dessa teoria com a dinâmica social hoje vigente. Desse modo, os velhos ditados que soam nas múltiplas vozes do senso comum nos revelam a real dimensão da abrangência da Psicanálise em consideração aos fatores que se constituem por essência a partir da atividade humana, a parir disso cabe nesse momento nos remeter a célebre frase de que “Só Freud explica!”.

Em suma, tendo como ponto de vista os relatos que nos afetaram de diferentes formas, se torna cada vez mais perceptível que é quando saímos da nossa caixinha, do nosso mundinho perfeito é que nos damos conta de que para fazermos parte de uma profissão que cuida do humano, de todas as suas especificidades, lidando com sentimentos, com pessoas de carne e osso e que são movidas por desejos sejam eles conscientes ou inconscientes, temos que estar atentos ao movimento dinâmico das relações que se instituem a partir do relato da experiência do outro, concebendo-o assim não só pelos seus ditos circunscritos no plano lógico, mas também entender o que está expresso no interdito que nos chega através de gestos e das diferentes tonalidades de fala.

Sobre os Autores:

Elayne Negreiros - Estudante de Psicologia pela Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF

Esrom Mota - Estudante de Psicologia pela Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF

Silviane Bruno - Estudante de Psicologia pela Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF

Viviane Ferreira - Estudante de Psicologia pela Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF

Referências:

GARCIA, Deomara. Transgressões humanas: Pecado e sentimento de culpa. São Paulo, 2006. <acesso em: 14 de mar de 2013>

MACIEL, Karla et. al. ROCHA, Zeferino. Dois discursos de Freud sobre a religião. Revista Mal- Estar e Subjetividade. Vol. VIII, nº 3. P. 729-75. Fortaleza, 2008

VICENTE, Carlos Alberto. Nos sagrados i tomo: penitentes... ontem, hoje e sempre. Juazeiro, 23 de jan de 1992.

[1] VELOSO, Guy. http://guyveloso.wordpress.com/2012/09/17/o-penitentes-thyara-la-rocque/. <acesso em: 14 de mar de 2013>

[2] GARCIA-ROZA, L. A. Introdução à metapsicologia freudiana.v.3 Artigos de metapsicologia: Narcisismo, pulsão, recalque, inconsciente. 6ª ed. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed.,2004.

[3] GARCIA-ROZA, L. A. Introdução à metapsicologia freudiana. v.2 A interpretação do sonho. 7ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

FREUD, S. Os instintos e suas vicissitudes. 1915

FREUD, S. A dissecção da personalidade psíquica. 1915

EVANGELISTA, Edna Silva. A religiosidade popular representada pelos penitentes da cidade de Juazeiro – Bahia como expressão da fé cristã. Trabalho de Conclusão de Curso de graduação em História. Universidade de Pernambuco – UPE. Petrolina. 2008.

Bíblia Sagrada. Tradução CNBB. 13º edição. Editora Canção Nova. 2011.