Arte na Rua: Enunciados de Potência

Resumo: Partindo do pressuposto de que o sistema capitalista e suas semióticas começam a ditar os aspectos da realidade no decorrer da história, reforçando ainda mais o senso de individualidade e ditando comportamentos em nome da produção de capital, buscamos através do presente trabalho, explorar as diversas formas de devir arte na rua, e como tais expressões podem ser potentes, quebrando o cotidiano, comportamentos pré-moldados, promovendo interação entre os sujeitos e trazendo afetações que promovem linhas de fuga perante a ordem do capital. Através da abordagem esquizoanalitica e seus conceitos, procurou-se problematizar e fundamentar tais concepções que foram vivenciadas através da observação dos modos de arte presentes nas ruas, entrevistas realizadas com artistas e uma intervenção artística, além das afetações trazidas por tais experiências e que são essenciais no exercício da cartografia.

Palavras-chave: Arte, Subjetividade, Singularização, Esquizoanálise.

1. Introdução

O presente trabalho é resultado de pesquisas de cartografia de campo, que tem por objetivo capturar alguns processos de subjetivação pela arte nas ruas da cidade de Natal-RN, bem como identificar os atravessamentos micro e macro políticos que delimitam tal território, partindo das concepções de Gilles Deleuze, Félix Guattarri e Suely Rolnik sobre sujeição e servidão maquínica, dispositivos e agenciamentos, desvios de fugas e processos de singularização, bem como outros conceitos trazidos ao longo do trabalho com base na esquizoanálise abordada por estes autores.

Através do método cartográfico, se faz necessário pensar o processo de intervenção artística na rua como um dispositivo que dialoga com seu território e expressa um conjunto de significados, sentimentos e afetos que se entrecruzam e fluem em todas as vias semióticas, capturando nossos olhares, nossos pensamentos e ações, e nos influenciando enquanto sujeitos. De acordo Foucault (2000), os dispositivos são caracterizados pelas instituições, os discursos e as diversas redes que capturam o sujeito.

Trata-se de registrar intensidades que buscam expressões, através do movimento de tensão fecunda entre fluxo e representação, como foi dito por Suely Rolnik (1989), em Cartografia sentimental. Desta maneira torna-se possível canalizar tais manifestos artísticos nas ruas, que liberam as mais diversas facetas e que se constituem enquanto dispositivos de enunciação coletiva, em constante dialética com a cidade e que reflete sua estrutura e organização contemporânea marcada pelo sistema capitalista e seu impacto sobre a subjetividade humana.

2. O Devir a Artístico e os Enunciados de Potência

Ao trazermos a arte de rua como um processo de singularização, onde é permitido traçar linhas de fugas, estamos tentando expor o que transcende a ordem, o que encontra em meio ao caos, uma voz que se sobressai da polifonia imposta pelo capital, o que tenta se expressar sem tomar forma quadrada, fabricada, rotulada, e que, no entanto, registra-se no espaço coletivo para enunciação de pensamentos livres que fluem para preencher as mais diversas vias entrecruzadas.

Ao passarmos nossos olhos pelos grafites das ruas de Natal, não se trata de simplesmente olhar o desenho por si, ver seus contornos, trata-se de ouvir o enunciado que ali grita. Como dito por Deleuze, no texto A vida como obra de arte, do livro conversações, onde ele expõe: “pensar é primeiramente ver e falar, mas com a condição de que o olho não permaneça nas coisas e se eleve até as visibilidades e de que a linguagem não fique nas palavras ou frases e se eleve até os enunciados” (DELEUZE, 1996).

O que Deleuze nos deixa é o entendimento de que pensar não é simplesmente ver, entender e falar, pensar é sentir os gritos das palavras, pensar é dar abertura para construir sentido ao que está sendo vomitado, devorado, digerido e excretado. E essa é a essência da arte feita na rua. Excretar intensidades para que elas possam encontrar outros fluxos e se canalizarem por diversas vias, certo de que encontrará novos enunciados e dialogará sempre com tantos outros, para que em meio a essa semiose, transmute-se em novos sentidos.

A subjetividade, de acordo com Guattari e Rolnik (1998) não é uma posse totalizada no Eu, mas sim, caracteriza-se enquanto um incessante processo de produção que essencialmente se constrói através dos encontros que vivemos com o outro, com as invenções, objetos, máquinas, instituições e tudo aquilo que agencia e captura os modos de ser, viver e desejar, que produz impactos nos corpos, formando fluxos constantes que se relacionam, sendo subjetivado e subjetivando o outro, neste processo de troca constante.

Deleuze (apud MANSANO, 2009), por sua vez, caracteriza a subjetividade enquanto um processo vivo, dinâmico e provisório, no qual é construída no “dado da experiência” e constantemente cercada pelas forças do mundo externo. São estas forças, segundo Guattari e Rolnik (1998) que legitimam a ordem do capital, ditam a realidade e que regulam aquilo que é de ordem do indivíduo massificado e sujeitado socialmente, atentando-se para impedir os processos de singularização, as diversas formas de devir sujeito em seu território para além das semióticas do capital.

É apropriando-se das semióticas que o capitalismo acaba por estruturar a realidade, fazendo com que os agenciamentos coletivos de enunciação, capturem os modos de viver, amar, vestir, desejar, consumir e etc. Desta forma, agencia-se sujeitos, produzindo, “homens-máquinas”, engrenagens, indivíduos-peça que servem como suporte para o sistema. Entretanto, não se trata aqui, de uma ideologia, mas essencialmente de uma produção de modo ser, de uma subjetividade capitalística.

Por tanto, é através dos conceitos já dados acerca de sujeito e subjetividade, que relacionados ao conceito filosófico do devir, pode-se pensar na constante fluidez do ser e nas várias possibilidades de devir sujeito para além do que as forças do capital acabam por ditar. As diversas formas de se manifestar artisticamente, dotadas de suas possíveis potencias e afetações, descrevem da melhor forma essas varias facetas de devir-artístico em um território especifico, como um processo de singularização frente às forças do capital, afirmando-se enquanto sujeito, a medida que afeta e deixa-se afetar.

Desta maneira, ao nos depararmos com os avanços da tecnologia, com o progresso das cidades, e com o estilo de vida contemporâneo cada vez mais apressado, onde o tempo é valiosíssimo, e não se consegue mais sair nas ruas e simplesmente observar ao redor, contemplar uma paisagem, uma flor que brota, ou a passagem dos pedestres, percebemos o quanto o homem encurta suas vias de canalização por não ter tempo de percorrê-las. É necessário sempre procurar o caminho mais fácil e rápido, pois afinal, o que importa é chegar na hora, é terminar o trabalho, é começar outro, afim de que se tenha capital para sobreviver. E desta maneira, esquece-se de viver de fato.

A arte de rua, na medida em que quebra esse ritmo acelerado, nos convida a desordenar um pouco nossa rotina cotidiana. Nos convida ao improviso, ao imprevisível, ao não planejado. E o que nos resta fazer ao interromper toda uma construção de comportamento baseado em um funcionamento em serie, tal qual foi exposto no filme “Tempos Modernos” de Charlie Chaplin em 1936? É nesse momento, de interrupção do mecânico que podemos pensar em algo que possibilite enxergar uma via na qual possamos depositar potencia criadora.

 O artista nada mais é aquele que consegue reinventar seu território, acompanhando as mutações geradas pelos encontros e pelas trocas. O artista de rua constrói novas vias, não se contenta com o caminho que já foi percorrido, ele quer percorrer novas estradas, ele se dispõe a emitir mensagens para que estas consigam potencializar respostas, como num grande jogo de ação-reação, onde o que está em xeque não é o tanto de técnica investida, pois pouco importa o palpável, o regrado, o que importa é a construção de uma troca que possibilite novos fluxos de intensidades.

Tal concepção, pode nos ser extraída ao longo dos diálogos feitos com artesãos, palhaços e malabaristas, ou apenas observando o entorno e as paisagens, e ao dispormos a este devir artístico, a novas experimentações a fim de afetar e ser afetado. Desta maneira, ao realizarmos uma intervenção na rua, conseguimos abrir um diálogo onde as possibilidades de enunciação são sempre múltiplas.

E percebe-se que a expressão artística é um modo de subjetivação ímpar, onde não se escolhe como, nem onde, muito menos a quem essa arte irá atingir e o que ela irá repercutir, o que é levado em conta será a afetação que ela traz a cada um que a vê e contempla. A arte em todas as suas formas sempre deixa rastros a se pensar e recriar um mundo onde o simples fato de existir obriga a refletir.

Entra-se, dessa maneira, em outra questão a respeito da arte de rua, no que ela difere dos outros modos de fazer arte, pois igualmente a qualquer outro dispositivo, a arte articula agenciamentos, que influenciam sejam eles para servir apenas a uma subjetividade capitalística, conceito este trazido por Guatarri e Rolnik (1996) na micropolítica cartografias do desejo, onde não há apenas uma subjetividade resultante de um aglomerado, de uma simples somatória de subjetividades individuais, mas sim surge no entrecruzamento de determinações coletivas, tanto sociais, econômicas, tecnologias, midiáticas, etc. Seja este para servir ao devir artístico, como processo de singularização, onde o sujeito busca através do encontro com a arte encontrar-se.

A disputa de espaço entre a arte de rua e a arte consumista, esta que serve a subjetividade capitalística, se torna bem visível quando se vê um artista de rua no sinal tentando passar a sua mensagem adiante, em meio a vitrines de lojas famosas e de marcas, em meio a grandes circos estrangeiros super-estruturados, que cobram valores altíssimos, sendo de acesso somente a um grupo especifico, onde o intuito não é manter algum diálogo por acreditar na potência do encontro como modos de existir, e sim tentando exclusivamente girar a roda do consumo e do lucro. Ir ao contrário dessa lógica parece um tanto irrealista, mas é através desse sentido que se pode traduzir a verdadeira arte.

A arte comercializável também é um modo de arte, mas quando ela segue precisamente a ideia consumista, pode ser tirada do seu âmbito principal que seria impactar e fazer refletir sobre ela. Desta maneira, o artista de rua, ao estar cercado por grandes fábricas de arte, que a comercializam em prol de uma repetição e produção de ideais, difere do que está imposto. Consegue transcender a alienação e a opressão a fim de libertar-se enquanto sujeito que existe de forma singular através da expressão e da criação.

3. Metodologia

O presente escrito foi realizado através de pesquisa de campo nas ruas de Natal/RN. Esta pesquisa foi feita a partir de observações de artistas de rua, das pessoas ao entorno, e também por entrevistas diretas com os próprios artistas. Além de artistas, foram observadas as artes que estão expostas pelos muros e ruas da cidade, como por exemplo, grafites e pichações, que expressavam e davam sentido as singularidades e subjetividades coletivas. A partir dessa coleta de dados, surgiu então, uma intervenção artística, feita pelos próprios pesquisadores. Essa intervenção foi realizada em frente ao Shopping Midway Mall, localizado na avenida Bernardo Vieira.

A partir dos encontros e das afetações com os diversos modos de devir artisticamente expressados nas ruas, foi realizada uma performance artística que consistia na exposição de um corpo marcado por rótulos e entrelaçado por barbantes, à medida que o corpo perdia-se nos fios e adentrava dentro de sua complexidade, ficava mais difícil de encontrar a saída.

Numa tentativa de se encontrar em meio a tantas capturas, este corpo buscava entrelaçar os observadores e curiosos que se deixavam encontrar. As pessoas que ali transitavam, interrompiam seus fluxos dando resposta ao que estava sendo emitido. Os olhares de surpresa se mesclavam aos olhares de desdém que ignoram aquele corpo.

No entanto, a quebra do rotineiro, o desvio padrão necessário para o caos foi feito, e as pessoas começaram então a interagir conversando entre si, movidas pela dúvida e curiosidade acerca do que aquela performance representava. Neste momento, a arte cumpre seu papel, de emissão de um enunciado, de provocação de semióticas a fim de se obter novos enunciados e de captura de novas linhas de fuga.

4. Considerações Finais

Compreende-se, portanto, que as diversas formas de expressar-se artisticamente, como a arte exposta na rua, caracterizam-se enquanto um movimento de imensa potência, onde linhas de fugas e singularizações são traçadas. Neste movimento, o artista se afeta e deixa-se afetar, promovendo fluxos de trocas constantes onde indivíduos, tornam-se mais sujeitos.

Sobre os Autores:

Dayana Cristina Sales da Silva - Graduanda do curso de Psicologia da Universidade Potiguar (UNP).

Mateus Ahrends Cavalcanti Landeira - Graduando do curso de Psicologia da Universidade Potiguar (UNP).

Herbet de Souza Nunes - Graduando do curso de Psicologia da Universidade Potiguar (UNP).

Referências:

Os Intelectuais e o Poder – conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze. In: Microfísica do poder Rio de Janeiro: Graal, 2000.

DELEUZE, G. Conversações. 2 ed. São Paulo: Editora34, 1996.

GUATTARI, F.; ROLNIK, S.Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 1998.

 ROLNIK, Suely: Cartografia Sentimental, Transformações contemporâneas do desejo, Editora Estação Liberdade, São Paulo, 1989.

ROLNIK, Sueli: Despachos no museu: sabe-se lá o que vai acontecer, 2000.

MANSANO, Sueli, Sujeito, subjetividade e modos de subjetivação na contemporaneidade, 2009.