Considerações Sobre o Dinheiro e o Pagamento em Psicanálise

Resumo: O presente artigo consiste em uma revisão teórica acerca do tema o dinheiro na psicanálise, que já vem presente desde o estabelecimento do contrato terapêutico. Foram contrastadas as visões de Freud, Lacan e outros autores contemporâneos referentes ao pagamento das sessões, a importância que o dinheiro assume no setting, bem como as questões libidinais nele envolvidas. Foram consultados também alguns artigos referentes ao tema.

Palavras-chave: Dinheiro, psicanálise, pagamento.

O dinheiro assume um ponto central na teoria psicanalítica, enquanto está vinculado a algo da ordem do ciframento e a algo da ordem da libido, segundo Quinet Apud Nascimento (2011). O presente artigo tem o objetivo ir em busca do significado do pagamento, na situação de análise, que segundo Di Giacomo Apud Nascimento (2011), é por essa via que circulam questões importantes que demandam a escuta do analista e que vão fundamentar alguns manejos clínicos.

Ao se falar sobre dinheiro em psicanálise, não se pode deixar de falar de pulsão, que segundo Zimerman (2007), é postulada já em Freud como o elemento quantitativo da economia psíquica, onde os processos mentais seriam a circulação e divisão dessa energia pulsional, de tamanho variável. Desta forma, Freud lança mão de modelos para explicar esses processos mentais. O primeiro, o modelo topográfico, estabelece o aparelho psíquico como um conjunto de “lugares”, segundo Zimerman (2007) e operando por meio de três sistemas (consciente, inconsciente e pré-consciente). Por não conseguir explicar muitos dos fenômenos psíquicos, Freud lança mão então do modelo estrutural, que segundo Zimerman (2007), é “um conjunto de elementos que separadamente tem  funções especificas, porém são indissociados entre si, interagem permanentemente e influenciam-se reciprocamente”. (ZIMERMAN, 2007.p 82). Segundo o autor, dessa forma, cada componente do aparelho psíquico (agora Id,  Ego e Superego)  tem  uma função topográfica,  econômica, funcional e dinâmica bem definidas, sendo o Id o correspondente econômico do reservatório da fonte de energia psíquica, o Ego como a instância mediadora entre as pulsões do Id e as ameaças e exigências do Superego, que por sua vez seria o regulador.

Quinet (2009), por sua vez, com uma visão mais lacaniana, fala que essa energia quantificável de que Freud fala, a libido, pode ser amoedada através do dinheiro, ou seja, o dinheiro na análise passa a ter uma conjunção entre o que é da ordem da libido e o que é da ordem do ciframento para o autor. Ele estabelece o dinheiro como aquilo que sempre falta ou que nunca se tem o suficiente, mas também como algo da ordem da necessidade, o que lhe faz pensar as cinco funções do dinheiro (necessidade, poder, demanda, desejo e gozo). Assim, segundo o autor ele (o dinheiro) se faz necessário para a sobrevivência; é usado também como um sinal de poder, como uma marca fálica; como uma demanda de amor, de dar o que não se tem (ou o que faz falta); como significante na cadeia associativa do sujeito e por fim como um fator sexual.

A questão do dinheiro dentro do processo de análise é discutida, segundo Zimerman (2007) já no estabelecimento do contrato terapêutico. Segundo o autor, existem dois tipos de estabelecimento de um contrato terapêutico, sendo um guiado pelo modelo original, onde o analista esmiúça uma série de recomendações sobre o tratamento e outro mais atual, onde o analista simplifica as recomendações ao nível do “mínimo indispensável”, deixando que as outras informações surjam naturalmente durante o curso da análise em si e assim ele vai definindo então suas diretrizes. O autor salienta que esse “mínimo indispensável” ao qual ele se refere, deve cobrir ao menos a perspectiva dos horários, do plano de férias e dos honorários, cabendo incluir também a possibilidade de reajuste dos mesmos.

Sobre os honorários, Freud em “O inicio do tratamento” de 1913, diz que esse é visto como meio de autopreservação, de obtenção de poder e que nele há envolvidos, poderosos fatores sexuais. Ele segue dizendo que o homem trata o dinheiro da mesma forma como ele trata as questões sexuais, com um “falso pudor”, apresentando então que cabe ao analista tratar do dinheiro de forma natural e franca, assim como deve ser com as questões sexuais. Em uma experiência na clinica-escola, durante os estágios supervisionados, ao atender uma moça pela primeira vez, estabeleço a ela o contrato e sigo dizendo dos honorários que devem ser pagos a cada encontro nosso. Ao lhe questionar quanto ela poderia pagar-me pelo meu serviço oferecido, esta me diz não saber. Insisto e a mesma pede para que eu lhe deixe pensar e na próxima semana ela trará o valor. Fico de acordo com a moça e só depois de algumas sessões percebo que ela também tem problemas em falar sobre suas questões sexuais e aí então percebo que deveria eu, ter-lhe falado em relação aos honorários de uma forma ainda mais natural, estabelecendo um valor para o meu serviço, tendo assim me desvinculado desse “falso pudor”, assim como fala Freud em 1913.

A relação do psicanalista com o dinheiro, segundo Souza (2000) sofre alguns constrangimentos devido a determinadas especificidades que a psicanálise possui, que diferencia a relação desses profissionais com o dinheiro, ao contrario dos outros profissionais liberais. Para a autora, ao psicanalista é difícil mensurar uma quantia, pois o analista dispõe para analisar o discurso e o desejo do paciente, apenas da palavra. Mas Freud já em 1913 diz que o psicanalista pode se colocar no lugar do cirurgião porque dispõe de tratamentos que ajudam. Desta forma, Freud estabelece a análise como algo essencial para o sujeito que sofre. Sobre o mesmo fato, Quinet (2009) ainda diz: “O analisante paga com dinheiro e “paga à vista” ao/do analista o preço  devido  por  tê-lo  constituído  como  cofre  precioso  de  seus  males  e  bens” (QUINET, 2009. p. 93).

O próprio Quinet (2009) estabelece que o preço da análise pode ser equivalente ao preço do sintoma do sujeito, que para ele é caro, pois ele o ama por estar investido nele um montante de capital, ou seja, é onde a sua libido está investida. Desta forma, se o dinheiro serve para amoedar o capital da libido, como diz o autor, o preço a ser cobrado não pode ser barateado, pois como diz o Quinet (2009):

É só quando o preço é elevado para aquele sujeito que ele pode equivaler ao preço do sintoma, tendo cada analisante, portanto, o seu preço. O analista não pode ter um preço fixo para todo e qualquer um que venha bater à sua porta, pois isto seria situar sua práxis não no registro da libido, e sim no da prestação de serviços, não no registro da libido, mas no do time is Money (QUINET, 2009.p. 89).

Desta forma, quando o autor diz que o preço deve equivaler ao preço do sintoma, ele fala que deve equivaler à falta, ao quanto lhe falta. Cobrar um preço fixo é estabelecer o dinheiro como algo da ordem apenas da necessidade, como diz Quinet (2009). Desta forma, o autor chama a atenção para a questão de o pobre ser tão ou ainda mais analisável que o rico, pois ao último nada falta.

Ao fato de fazer análise sem cobrar, Freud em 1913 diz que se deve recusar tratar alguém sem um pagamento, sem exceção alguma. Segundo ele o tratamento gratuito além de ser um prejuízo financeiro para o analista, ainda aumenta significativamente algumas resistências. Para Quinet (2009) não cobrar seria o mesmo que cair no drama de Atreu e Tiestes, uma tragédia de Crebillon, datada do século XVIII. Atreu e Tiestes são irmãos que após a morte do irmão mais velho, disputam o trono de Micenas através de uma aposta. Atreu é traído pelo irmão e por sua esposa, porém, é ajudado por Zeus que se apieda de sua situação. Ao conquistar o trono, Atreu bane Tiestes de Micenas, que por sua vez tem um filho, Egisto, com a própria filha, Pelópia, atual mulher de Atreu. Atreu, acreditando que Egisto é seu filho o incumbe de matar o tio Tiestes, mas o rapaz descobre a tempo que o tio é na realidade seu pai, então ele mata Atreu e devolve o trono a Tiestes. Para o autor o não cobrar seria o mesmo que ser o depositário de um segredo valioso sem poder fazê-lo circular. Segue ele dizendo: “O sujeito vem prestar contas de seus crimes e para tal ele paga com dinheiro, maneira de colocar em movimento a dívida simbólica” (QUINET, 2009. p. 92).

Mas o analista também paga, segundo Lacan (1958). Ele paga com palavras através da sua interpretação, paga com a sua pessoa, onde se empresta de suporte aos fenômenos que a análise descobriu na transferência e por fim paga esquecendo o que há de essencial em seu juízo mais íntimo, para intervir numa ação que ao cerne de seu ser, o que Quinet (2009) por sua vez diz ser a anulação do analista como sujeito.

Assim, nota-se que a questão econômica e o dinheiro assumem um papel importante para a psicanálise enquanto uma necessidade, uma forma de poder, uma demanda, um desejo e uma forma de gozo. O dinheiro é o componente vinculado à quantificação da libido, sendo ele o responsável por seu ciframento. Fica evidente que o valor cobrado não deve ser fixo, pois este deve equivaler ao valor do sintoma, mas também não deve ser barato, pelo mesmo motivo do anterior. Sabemos também que não podemos atender sem cobrar, pois isso acarreta em prejuízos para o analista, bem como aumenta significativamente algumas resistências do analisando. Por fim, descobrimos que não só o analisando paga, mas também o analista, com a sua interpretação, com a sua pessoa e com a sua anulação enquanto sujeito. Assim conclui-se que o pagamento, o dinheiro e a quantificação, em análise, são essenciais e indispensáveis para a condução de uma boa análise, sempre tendo em mente que cada caso é um caso.

Sobre os Autores:

Sidney Felipe da Silva Junior - Estudante do 10º semestre de psicologia da Universidade de Cuiabá - UNIC.

Claudia Aparecida Conti - Supervisora, professora e psicanalista.

Referências:

FREUD, Sigmund. O inicio do tratamento. In SigmundFreud,ObrascompletasVolume10, Paulo César de Souza Tradutor. Companhia das Letras, 1913.

NASCIMENTO, Élida Dantas  do. Quanto  custa  uma análise: Os discursos construídos por estudantes de psicologia sobre a significação do pagamento em psicanalise. 2011. 31 f. Trabalho de conclusão do curso de psicologia – Faculdade de psicologia, Universidade estadual da Paraiba.

QUINET, Antonio, As 4+1 condições da análise. Antonio Quinet. 12.ed. – 12.ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

SOUZA, Elaine Maria do Carmo Dias de. O dinheiro e a psicanalise. In: M. D. Moura, Psicanálise e hospital, 2ª ed. Rio de Janeiro: Revinte, 2000.

ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos [recurso eletrônico]: teoria, técnica e clínica : uma abordagem didática / David E. Zimerman. – Dados eletrônicos.

– Porto Alegre : Artmed, 2007.

LACAN, Jacques, 1958. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In:Escritos I Jacques Lacan; tradução Vera Ribeiro. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.