Entre a Lei e o Amor: o conflito dos pais durante o Complexo de Édipo

Resumo: O Complexo de Édipo é um período de grandes mudanças para as crianças e ao mesmo tempo para os pais. O pai durante o complexo de Édipo, é de suma importância para a passagem saudável da criança por essa fase. Do mesmo modo que o comportamento da mãe em relação à criança também é de suma importância. Este é o momento em que o menino precisa afastar-se de sua mãe e a mãe afastar-se de seu filho, e a função do pai é fundamental para este afastamento acontecer; o menino envolvido entre o amor pelo falo e o amor pela mãe em certo momento precisara optar entre ficar com a mãe, seu primeiro objeto de amor, ou com o falo, percebendo que seu inimigo, o pai, é maior que ele, observa que a briga é desigual e teme a castração. Desta forma, este artigo tem o objetivo de analisar como uma fase incompreensível para os pais pode ser passada pela criança de modo saudável. A pesquisa foi realizada por meio da entrevista psicanalítica, com dois casais que têm seu primeiro filho, o qual é do sexo masculino. O método utilizado para a interpretação dos dados foi o psicanalítico, no qual o objeto de pesquisa e o pesquisador são formados no ato da pesquisa, e não se considera hipóteses prévias ou etapas predefinidas. Com esta pesquisa  pode-se perceber que o Complexo de Édipo é um período complicado para o pai em especial, e que a forma como esse passou pelo seu Complexo de Édipo quando criança influencia muito na forma como agora percebe o comportamento do seu filho. Nesta perspectiva, torna-se importante o estudo sobre a sexualidade infantil e o conhecimento do comportamento hostil do menino durante o Complexo de Édipo.

Palavras-chave: Complexo de Édipo, Sexualidade Infantil, Complexo de Castração.

1. Introdução

“O Édipo de que vou falar é uma lenda que explica a origem de nossa identidade sexual de homem e mulher e, além disso, a origem de nossos sofrimentos neuróticos.” (NASIO, 2007).

Desde os primórdios, os casais desejam ter filhos, muitos optam por terem apenas um, outros desejam ter mais que isto. Durante o crescimento de uma criança, muitas coisas acontecem, e, com isso, o desenvolvimento é inevitável, juntamente com o desenvolvimento, comportamentos diferentes tendem a aparecer. Assim, o presente artigo tratará de dois vértices importantes no desenvolvimento de uma criança, os quais Freud assumiu o desafio de percorrer: o caso da Sexualidade Infantil e do Complexo de Édipo.

Entre a elaboração de o Projeto, em 1895, e seu livro sobre a interpretação dos sonhos, datado em 1900, acontece um fato de maior importância para o desenvolvimento futuro da psicanálise: a descoberta do Complexo de Édipo (GARCIA-ROZA, 1985). De acordo com Moreira (2004), o Édipo, para Freud, encontrava-se, então, atrelado à teoria dos sonhos e contribuiria para a formação do inconsciente, pois, neste momento, para Freud, a sexualidade era predeterminada biologicamente. É a partir de Totem e Tabu (1913) que aparece a cena edípica na sua dimensão ativa, embora essa referência ao Édipo já se faz presente antes do referido livro, na correspondência de Freud a Fliess datada em 1897 (GARCIA-ROZA, 1985). Na medida em que Freud associou a horda primeira com o totemismo e o Complexo de Édipo, o Totem é um animal que impõe os limites e deveres de um grupo e o Tabu é o proibido, o sagrado. Em outras palavras, o Totem funciona como o pai durante o complexo de Édipo, pois defende a proibição do incesto. É no segundo dos três ensaios, sobre a Teoria da Sexualidade (1905), que Freud desenvolve sua teoria sobre a Sexualidade Infantil, estudo este que se tornou fundamento essencial da teoria psicanalítica (GARCIA-ROZA, 1985).

Os estudos realizados por Freud são de grande valia até os dias de hoje, fazendo parte do cotidiano de muitos psicanalistas. O Complexo de Édipo é um período pelo qual os meninos com aproximadamente três anos de idade começam a enfrentar e a qual tende a ter seu fim com até cinco anos de idade, aproximadamente (GARCIA-ROZA, 1985). Freud (1905) afirma que toda criança é capaz de experimentar prazer de múltiplas formas, com múltiplos objetos e em várias zonas do corpo.

Como lidar com uma fase que é incompreensível para os pais? Como passar por este período? O Édipo é o centro da fase fálica da Sexualidade Infantil, e este processo tem grande importância na organização psíquica deste indivíduo. Assim, o que nos levou a pensar neste tema foi realmente a importância que o Complexo de Édipo tem para que um desenvolvimento saudável seja proporcionado a uma criança. Isto por que um Édipo mal resolvido pode se desenvolver para uma neurose, a neurose é um sofrimento psíquico [01], provocada pelos sentimentos contrários existentes neste período, como amor, ódio, medo e desejos incestuosos (NASIO, 2007). Portanto, é importante conhecer a percepção que o pai tem ao ver seu filho o tratando de maneira ríspida, mas, ao mesmo tempo, querendo o imitar em muitos atos. A presente pesquisa trata da relação pai-filho, e a escolha para este enfoque ocorreu através de leituras sobre o tema, juntamente com o convívio direto de pais que enfrentam este período, ficando notório o quão duro pode ser tal processo nesta relação. Por meio desta pesquisa, visamos o crescimento intelectual e profissional sobre o tema.

O infantil remete-se a um período que é, ao mesmo tempo, esquecido e determinante, para a formação de um adulto saudável, e neste período o alvo da pulsão [02] consiste em provocar satisfação imediata (FREUD, 1905). O Édipo é também um conceito muito importante, sendo que, na psicanálise, os sentimentos que a criança experimenta é para os psicanalistas o modelo usado para pensar o adulto que somos, de modo que o Complexo de Édipo é um conceito soberano que gera e organiza todos os demais conceitos psicanalíticos (NASIO, 2007).

Conforme Freud (1905), o infantil se refere a dois planos: o plano da constituição do sujeito por meio da construção das teorias sexuais infantis e da realidade psíquica da criança; e o infantil, que se mantém como um núcleo inconsciente presente na criança e no adulto, relacionado não a um tempo cronológico, mas a um tempo de retroação subjetiva. Quando se fala em Complexo de Édipo é praticamente inevitável não falar da Sexualidade Infantil, a qual foi estudada mais a fundo na teoria de Sigmund Freud.

Freud desenvolveu sua teoria durante tratamentos clínicos em seu consultório a pacientes adultos com histeria. Visando solucionar os problemas emocionais de suas pacientes histéricas, Freud se depara com a Sexualidade Infantil (COSTA; OLIVEIRA, 2012).

Para dar seguimento ao assunto, torna-se importante, primeiramente, definir brevemente o que é sexo e o que é sexualidade. Sexo remete-se a gênero, feminino ou masculino, enquanto sexualidade remete-se a pensamentos sobre as nossas sensações, sentimentos, emoções e carícias; de modo geral, a sexualidade é uma parte importante na vida das pessoas e vai muito além do ato sexual (COSTA; OLIVEIRA, 2012). Desta forma, para Freud (1905), a criança não é desprovida de sexualidade, pois é capaz de criar um plano inconsciente com diversas fantasias, mesmo com toda a imaturidade infantil. Pensando dessa maneira, o entendimento adequado referente ao Complexo de Édipo tenderia a tornar mais simples a passagem da criança por essa fase da vida.

De acordo com Garcia-Roza (1985), por mais que a Sexualidade Infantil não fosse colocada em discurso na época em que Freud desenvolve o livro sobre os três ensaios sobre a teoria da sexualidade, esta já poderia ser observada pela própria ameaça que representava para as pessoas, pois tem sua existência negada na infância e em seguida se remete ao esquecimento dos primeiros anos de vida de uma criança. Segundo Freud (1905), esse esquecimento seria a amnésia infantil, que é um fenômeno psíquico e ocasiona o esquecimento parcial ou total de vivências passadas na infância. Para o autor, o erro das teorias clássicas é que não buscam compreender os problemas que as pessoas têm no seu ser, pois conduzem suas pesquisas na hereditariedade. É durante a infância que ocorrem os surgimentos das fixações [03], e só se manifestam na fase adulta, definindo a necessidade de se compreender os problemas carregados dentro de cada um. Com isso, Freud cria as fases psicossexuais: fase oral, fase anal, fase fálica, período de latência e fase genital.

Freud (1905), afirma, é durante essas fases psicossexuais que ocorre o desenvolvimento da personalidade. Deste modo, a fase oral ocorre no primeiro ano de vida da criança, é durante a amamentação que a criança começa a ter suas primeiras sensações de prazer, esta é a fase em que a boca é a zona erógena [04] e a criança passa a levar todos os objetos que encontra direto na boca, fazendo com que o prazer de morder, às vezes com raiva, complete o prazer da sucção (NASIO, 1999).

A fase anal inicia-se no segundo ano de vida da criança e se estende até por volta dos três anos, é quando ocorre o controle do esfíncter. Neste período, a criança começa a deixar a fralda para usar o banheiro, e dá muito valor a suas fezes (GARCIA-ROZA, 1985). A fase fálica, de acordo com Garcia-Roza (1985), é caracterizada por um interesse narcísico que o menino tem em seu falo e a descoberta da ausência do falo na menina. Neste sentido, o ponto mais importante desta fase está relacionado ao declínio do Complexo de Édipo pela ameaça da castração, ou seja, pelo medo de perder o seu falo. A esta fase o artigo que será produzido, dará mais ênfase, justamente para o maior entendimento do Complexo de Édipo, que é o centro desta fase.

A idade de cinco, seis anos até o começo da puberdade é chamada de período de latência, tempo em que os desejos sexuais não resolvidos da fase fálica não são atendidos pelo ego e então a repressão [05] é feita; de certa forma, neste período a sexualidade normalmente não avança mais, pelo contrário, elas tendem a diminuir (FREUD, 1926). A última fase psicossexual é a genital, esta se inicia por volta dos dez anos de idade e termina no final da vida do ser humano, sendo uma fase de transformações corporais, afetivas, biológicas (GARCIA-ROZA, 1985).

A figura da mãe é importante em todas as linhas de pensamento psicanalítico, é, sem dúvida, a figura crucial do processo de humanização do bebê. E é indiscutível que a criança cria o mundo a partir de sua relação com a mãe, sendo fruto de projeções e identificações. Até essa fase psicossexual, a mãe é muito importante na vida do bebê, sendo que o papel do pai é pouco levado em consideração; a partir da fase fálica é que o papel do pai começa a ser crucial para formar um adulto normal (MOREIRA; BORGES, 2010). A fase fálica, apontada por Freud no ano de 1923, acontece por volta dos três aos cinco anos de idade, período no qual as crianças passam a descobrir seus órgãos sexuais, começando a perceber a diferença entre gênero masculino e feminino. “Essa fase apresenta uma escolha de objeto [06] sexual e alguma convergência dos impulsos sexuais sobre esse objeto.” (GARCIA-ROZA, 1985, p. 105). Deste modo, a criança passa a investigar sua sexualidade, pois esta se torna muito significativa para as crianças. Conforme Freud (1905, p. 185):

Suas relações com a vida sexual são particularmente significativas, já que constatamos pela psicanálise que, na criança, a pulsão de saber é atraída, de maneira insuspeitadamente precoce e inesperadamente intensa pelos problemas sexuais, e talvez seja até despertada por eles.

A primeira referência ao Édipo foi no ano de 1897, em uma carta que Sigmund Freud escreve a Fliess. Nessa carta, Freud (1897 apud GARCIA-ROZA, 1985) relata:

Um único, pensamento de valor genérico revelou-se a mim. Verifiquei, também no meu caso, a paixão pela mãe e o ciúme do pai, e agora considero isso um evento universal do início da infância, mesmo que não tão precoce como nas histéricas. Sendo assim, podemos entender a força avassaladora de Oedipus Rex [...]. (GARCIA-ROZA, 1985, p. 62).

Nesta carta, Freud não se refere ainda ao termo Complexo de Édipo, isso fará apenas alguns anos depois. Freud na carta refere-se à peça de Édipo Rei (GARCIA-ROZA, 1985). De acordo com a tragédia grega de Sófocles (2005), Édipo mata o pai sem saber que este era seu pai, e se casa com a mãe, do mesmo modo, sem ter conhecimento que era sua mãe.

Com o desfecho da estória, foi descoberto que Édipo realmente matara o pai Laio e se casara com a mãe. Jocasta, desesperada com o fato, se suicida, e Édipo com um broche de ouro de Jocasta fura seus olhos, para não precisar mais ver sua triste vida, foge de Tebas e depois de uma longa peregrinação ele se liberta de sua vida, pondo fim a seu sofrimento (SÓFOCLES, 2005).

Nasio (2007) afirma que o Édipo é uma experiência vivida por uma criança, a qual tem um desejo sexual incontrolável, e precisa aprender a ajustar esse desejo ao seu corpo, ao seu limite de medo, e por fim a uma consciência que lhe ordena a parar de ver seus pais como objeto de desejo. Torna-se importante frisar que todos esses acontecimentos que ocorrem durante o Complexo de Édipo são inconscientes. Desta forma, o Complexo de Édipo ajuda a criança a canalizar um desejo transbordante. Freud (1924) afirma que:

O complexo de Édipo ofereceu à criança duas possibilidades de satisfação, uma ativa e outra passiva. Ela poderia colocar-se no lugar de seu pai, à maneira masculina, e ter relações com a mãe, como tinha o pai, caso em que teria sentido o último como um estorvo; ou poderia querer assumir o lugar de sua mãe e ser amada pelo pai, caso em que a mãe se tornaria supérflua (FREUD, 1924, p. 176).

Ainda de acordo com Freud, o menino tem apenas poucas noções de uma relação erótica satisfatória, mas já passa a imaginar que o pênis desempenha alguma função, devido às sensações em seu próprio órgão. O órgão peniano torna-se a parte mais rica em  sensações, é o órgão mais amado nesta idade dos três anos e a criança sente prazer em morder ou mesmo em andar nu; assim, quando este apêndice torna-se para o menino e para a menina o representante do desejo, passa a se chamar de falo. O falo é um pênis fantasiado, é imaginado como sendo o poder, isto porque nesta zona erógena a criança ainda não possui um conhecimento exato de distinção entre órgãos sexuais, no sentido de que para o menino todo mundo possui um falo, o que para ele é o poder (NASIO, 2007).

Garcia-Roza (1985) afirma que a fase fálica é importante porque apresenta o auge do Complexo de Édipo e ao mesmo tempo o seu declínio, apresentado pelo medo da castração. Ainda segundo o autor supracitado, no menino, esse medo surge ao perceber que a menina não possuiu pênis, e acredita que essa já tenha sido castrada (GARCIA-ROZA, 1985). De modo geral, há três desejos no menino, os quais leva consigo, mesmo depois de homem: o desejo de possuir sexualmente o corpo do outro; o desejo de ser possuído pelo corpo do outro e o desejo de suprir o corpo do outro. A dessexualização dos pais – o declínio do Édipo –, para o menino, acontece de maneira rápida e brusca (NASIO, 2007).

O Édipo na menina é mais obscuro e cheio de lacunas. Ela passa primeiro pela fase pré-edipiana [07], isso porque para a menina a mãe também é o seu primeiro objeto de amor, mas para passar à fase pré-edipiana ela precisa transferir esse amor ao pai, e só depois disso passa a sexualizá-lo, chegando, assim, à fase do Complexo de Édipo. Neste período, a menina ama o pai e busca afastar a mãe, e só abandona o Édipo quando deseja outro homem; a menina sente inveja do falo presente no menino, porém, esta inveja passa quando a menina descobre que pode ter um filho (NASIO, 2007; FREUD, 1931).

O Édipo é um período complexo para a criança, pois é um desejo próprio de uma pessoa adulta, vivido na cabeça de uma criança de três anos. A criança que está no período do Complexo de Édipo é alegre e inocente, e é nesta inocência de criança que sexualiza os pais (NASIO, 2007). No texto, a Dissolução do Complexo de Édipo (FREUD, 1924), consta que até o presente momento o menino não teve motivos para duvidar que as mulheres também possuíssem um pênis, porém, agora, chegando nesta etapa do desenvolvimento, começa a aceitar a possibilidade de que nem todos possuem falo.

O menino pode cometer um erro e ter medo do castigo, mas a fantasia de ser punido com a castração [08] e a angústia daí resultantes são inconscientes, portanto, é importante frisar que a angústia de castração nunca é consciente, mas sempre inconsciente. Em suma, não interessa se o menino sofre uma ameaça real ou não de castração e se angustia, o que interessa mesmo é que, de toda a forma, ele é habitado por uma angústia inconsciente de castração. Neste sentido, enquanto ele desejar a mãe e obtiver prazer, ainda que mínimo, ficará angustiado, o conhecimento do menino frente à castração da mulher põe fim às duas maneiras de satisfação no Complexo de Édipo, visto que ambas acarretavam na perda do pênis (NASIO, 2007).

A criança dividida entre a alegria e a angústia, não tem outra saída senão esquecer tudo. Sim, a criança edipiana, seja menino ou menina, recalca vigorosamente fantasias e angústia, pára de tomar seus parentes por parceiros sexuais e torna-se com isso disponível para conquistar novos e legítimos objetos de desejo. É assim que, progressivamente, descobre o pudor, desenvolve o sentimento de culpa, o senso moral e estabelece sua identidade sexual de homem ou de mulher (NASIO, 2007, p. 11).

Freud (1924), ao relatar que não vê motivos para negar o nome de repressão ao afastamento do ego diante do Complexo de Édipo, afirma em sua “Carta 52 a Fliess” (FREUD, 1896): um traço mnêmico [09] necessita ser traduzido de um registro a outro até chegar à consciência. A falha nessa tradução é a repressão Katz (2009); a realização do prazer para a psicanálise tem consequências psíquicas afetivas desagradáveis, de modo que, quando aparece uma ideia ou mesmo uma representação penosa, essa que se associa ao desprazer deve então ser reprimida. A tal mecanismo Freud chama de defesa [10], e, desta forma, quanto maior for o desprazer vivido pela criança, mais forte será a defesa em relação a este desprazer, mais forte é a repressão.

Contudo, para Freud (1924), este processo todo equivale a bem mais que uma repressão, o fim do Complexo de Édipo seria uma destruição e abolição do complexo, evitando o incesto e o parricídio. Neste ponto, segundo Freud, chegamos a uma linha não muito bem traçada entre o normal e o patológico, de modo que se a experiência do Édipo for muito traumática, certamente, resultaria em uma futura neurose (NASIO, 2007).

De acordo com Nasio (2007), o Édipo não é apenas uma crise de crescimento, mas também a fantasia [11] que essa crise molda no inconsciente infantil. Essa crise fica registrada no inconsciente da criança e perdura até o fim da vida, e essa fantasia definirá a identidade sexual, determinará muitos traços da personalidade e sua aptidão para lidar com conflitos afetivos. Para tanto, Freud escolhe o personagem de Shakespeare, Hamlet, “[...] a favorita dentre as obras shakespearianas, a peça foi citada por ele em vinte e três textos, se incluirmos a primeira citação, em carta de 15 de outubro de 1897 a Fliess.” (LINS, 2002, p. 2).

Hamlet, que seria o Édipo adulto, vê o fantasma de seu pai dizendo que foi morto pelo próprio irmão e pede para que Hamlet vingue sua morte. Hamlet promete vingar a morte do pai, mas entra em confronto com dúvidas morais, o que faz com que os demais pensem que está louco. O tio de Hamlet, cometendo o ato fratricídio, matando o próprio irmão, realiza o ato parricida e incestuoso do Édipo, que é desejado inconscientemente por Hamlet. Deste modo, Édipo é atormentado por um inconsciente desejante enquanto Hamlet, carregando as consequências da tragédia edipiana, é um adulto dominado por sua consciência de culpa (SHAKESPEARE, 1603; LINS, 2002).

2. Método

O comportamento de um filho em relação a um dos pais no período do Complexo de Édipo pode mudar de forma muito visível ou pouco visível (FREUD, 1920). Frente a isso, a busca por dados para a realização do artigo aconteceu por meio de entrevistas com pais que tenham filhos na idade de três a cinco anos, que estariam, então, no período do Complexo de Édipo, ou seja, dois casais com um único filho.

Para tal, antes das entrevistas, foi entregue e explicado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o qual foi assinado e garante o sigilo do participante, sendo referenciado a eles como: Cintia, casada com Miguel, pais de Kelvin; e o segundo casal, Sr. José, casado com Dona Maria, pais de Heitor. Obviamente, todos os nomes são fictícios. O primeiro contato com a família deu-se através de ligações de telefone celular, em que buscamos esclarecer dúvidas que os pais tinham quanto ao sigilo da conversa; além disso, foi pedido para que cada entrevista acontecesse individualmente. Desta forma, foram marcados dias diferentes para conversar com cada um, de modo a evitar algum tipo de direcionamento nas conversas influenciadas por um dos cônjuges.

O segundo contato foi de forma direta nas datas pré-estipuladas por cada indivíduo e o local de encontro foi a casa desses. A entrevista em si foi aberta, fazendo com que dessa forma se tornasse uma conversa fluente, sem pontos preestabelecidos. Todavia, para buscar entender a percepção dos pais sobre este período, foi realizada uma pesquisa classificada como psicanalítica, na qual o objeto de pesquisa e o pesquisador são formados no ato da pesquisa, sem etapas predefinidas.

Garcia-Roza (1991) comenta que na pesquisa psicanalítica deve-se tratar o material deixando que o texto fale, deixando que ele nos imponha suas questões, seus furos, suas falhas, da mesma maneira que se faz com um paciente, deixamos que ele exponha a sua verdade e de maneira alguma impomos a nossa verdade. Lo Bianco (2003 apud CÔRREA; HAUSEN, 2007) diz que o pesquisador deve ter uma atitude especial em relação ao material trabalhado, assim sendo, na psicanálise o pesquisador não deve se manter neutro, mas sim deve-se deixar seduzir pelo texto, e ser seduzido por ele.

Côrrea e Hausen (2007) comentam que na psicanálise o pesquisador não é uma variável a ser controlada, muito pelo contrário, ele deve ter uma participação ativa para que assim seja possível a emergência do material. Neste modelo de pesquisa, várias coisas mudam em relação às pesquisas que são realizadas fora da área psicanalista, mas Iribarry (2003) lembra que os outros procedimentos de coleta de material, como o contato com os participantes da pesquisa, não se modificam, justamente pela importância de deixar  trabalhar o material, como as entrevistas, de forma que não se aprisionem a modelos previamente estabelecidos.

3. Apresentação e Discussão dos Resultados

... Vou pegar minha mãe e colocar na bicicleta, vou fugir com ela pra uma ilha deserta, beber leite quente e tomar sopa de colher, meu pai todo bravo que procure outra mulher...
Os Sublimantes

Palavras de um pai, Sr. José:

Sim ele tem quatro anos, mas ele não era assim ficou de um ano pra cá assim, antes era mais tranquilo, não era tanto, mas eu não sou de guardar magoas, mas eu fico triste por que parece que sempre sou eu o ruim da história [...].”

O fato de o pai dizer que não guarda mágoa, mas que se sente triste, parece mostrar-se contraditório durante sua fala, pois acreditamos que a situação atual pela qual está passando com o seu filho mexe emocionalmente com ele. A mudança no comportamento do menino provavelmente deu-se devido à entrada propriamente dita na fase fálica, em especial no Complexo de Édipo. Assim como afirma Nasio (2007), o Édipo é uma experiência que a criança com quatro anos é absorvida por um desejo sexual incontrolável, e tem que aprender a limitar seu impulso e ajustá-lo aos limites do seu corpo infantil.

Sr. José aparenta estar abalado com o que vem acontecendo com o seu filho, de modo que esse pensa ser muito rigoroso com a situação, como afirma:

“[...] eu sei que sou um pouco rigoroso com ele poderia ser mais calmo de vez em quando, mas eu tô pensando depois como que vai ser [...]”.

Eu fui criado assim e eu dou valor pro meu pai por ter me criado assim, e é isso que eu quero passar pro meu filho.”

Desta forma, pode-se sugerir que a forma como o Sr. José passou a fase do Complexo de Édipo quando criança diz muito da maneira como trata seu filho hoje, de modo que o reaparecimento dessa fase na vida dele o faz agir de um modo rigoroso perante seu filho. Moreira e Borges (2010) relatam que Freud, para falar do pai, percorre um caminho instigante, começando com o pai de Édipo, o qual começa a trajetória antes mesmo dele nascer, conforme citado anteriormente no decorrer do artigo, depois passa pelo pai castrador, tirânico, que o filho quer derrotar e, finalmente, chega ao pai que só se reconhece como tal quando se reconhece como filho. Sófocles (2005), na peça, primeiramente, mostra que o pai Laio tenta matar seu filho e só depois é que Édipo mata seu pai, fortalecendo, desta forma, a relação de mão dupla, presente nesta relação.

Deste modo, reconhecendo-se como filho, o menino poderá finalmente ser pai. No entanto, essa passagem implica o reencontro com a castração. Com isso, pensamos que Sr. José encontra-se em um período ao qual está em confronto consigo, com questões de como ele mesmo enfrentou o fim do Complexo de Édipo.

Dona Maria relata que seu filho mostra-se mais carinhoso com ela e mais ríspido como o pai:

Comigo ele é mais carinhoso, e já com o pai é mais arredio, tem mais rixas entre os dois [...] Algumas briguinhas por motivos bobos, que os dois se brigam que às vezes nós acabamos discutindo, mas nada sério acho que é normal.

Assim, as brigas “bobas”, ditas pela mãe, fazem com que o casal discuta, fazendo-nos questionar até que ponto são “bobas” as brigas de pai e filho. O que para mãe a princípio parece, conscientemente, não ter valor, ocasiona em discussões, mas, como mencionado anteriormente na fala do Sr. José, pode-se se sugerir que ele está vivendo uma situação que ainda é muito difícil, de modo que se mostra em sofrimento; Sr. José em sua fala também expressa a diferença de tratamento do menino entre os pais:

Ele – o menino – briga bem mais comigo, bem mais [...]”.

Dona Maria e Sr. José se enquadra ao contexto que Freud (1931) relata, quando afirma ser normal que durante o período do Complexo de Édipo as crianças passem a ter uma ligação afetiva maior com o genitor do sexo oposto ao delas, enquanto com o do mesmo sexo passe a dominar a hostilidade. Podemos supor que isto aconteça pelo fato de que o menino busca afastar o pai do convívio atual com a mãe, pois o desejo do menino é ter a mãe só para ele.

A mãe é o primeiro objeto de amor do menino, e ela continua sendo, de forma que a maior compreensão dos laços entre o pai e mãe faz com que o menino passe a ver o pai como um rival, pois é ele quem fica com a mãe (FREUD, 1931). Sr. José afirma:

Quando a mãe dele tá junto sempre dá umas brigas, sozinhos não. Por que assim o que ele faz, não sei se é uma maneira de chamar atenção, mas daí ele não me obedece, eu mando senta parece que faz o contrário sabe, daí logo tá xingando [...] Ele xinga [...].”

Com este relato, podemos imaginar que o menino, ao obedecer o pai na ausência da mãe e ignorá-lo na presença dela, demonstra o quanto deseja ser igual ao pai, fazendo com que na ausência da mãe enfatize o comportamento amigável com o genitor do mesmo sexo, como forma de conhecê-lo, e ao mesmo tempo com o medo de que algo lhe aconteça na ausência daquela que o defenderá do inimigo, afinal, de acordo com Nasio (2007), o pai é amado como um modelo ideal, é temido como um repressor e censor, desejado e temido como sedutor, odiado e temido como rival. Assim, o amor do menino pelo pai já existia antes do Complexo de Édipo e esses sentimentos de ternura e admiração perduram ao longo de toda a crise edípica, mas encontram sentimentos opostos, como o desejo, a angústia e o ódio.

Miguel, pai de Kelvin, relata que a mãe é quem impõe mais limites ao filho, sendo mais enérgica com o menino:

E aqui em casa a lei é ela quem faz com ele, assim [risos] não por questões de ser mais apegado é que ela põe lei e ele obedece e eu já não consigo cortar ele sabe, eu tiro um pouquinho, mas daí dá dó e deixo de novo [risos].”

“[...] mesmo a Cintia sendo mais enérgica com ele, ele é bem carinhoso com ela [...].”

Por outro lado Sr. José relata:

“[...] mas quando ela pega firme eu não vou lá e me meto sabe, se resolvam, mas daí parece que ela quer que eu vá meio que sabe se eu dizer não, ela vem e diz sim pra livrar o lado dela sabe, pro Heitor não ver que ela é a ruim da história, e isso eu vejo bastante ela não gosta de ser a ruim da briga, eu já disse pra ele que não tem nada ver, que ele tem que entender que é o certo pra ele e não quem é o ruim.

Dois casais, com filhos na mesma idade, e vivências completamente diferentes. Percebemos Cintia como a mãe que ajuda o pai e faz os cortes necessários para o enquadre de uma boa relação, enquanto percebemos esse pai acomodado com a situação em que vive. O que ocorre neste casal parece ser uma inversão de papéis, em que o pai, que nesta fase deveria ser a peça-chave, mostra-se escondido desta atuação e a mãe, a qual caberia o papel de grande amor, da dificuldade de separação, seguidos de apoio ao papel de lei do pai. Não é o que ocorre,  fato  este  relatado  pelo  próprio  Miguel  na sua fala supracitada. 

No segundo casal podemos imaginar o contrário: um pai rígido e enciumando com a situação em que vive, e uma mãe que teme corrigir seu filho ou concordar com seu esposo, não impondo a sua autoridade necessária. Para este caso, Nasio (2007) comenta que, quando a mãe impõe a sua autoridade, ela possui um falo para o menino, mas quando a mãe não impõe autoridade, a criança sente a mãe sendo toda dela, e essa torna-se seu falo. Sendo assim, quando a Cintia mostra-se no controle da situação em sua casa, o filho Kelvin sente que sua mãe possui o poder, ela tem um falo. Já no caso do Sr. José e da Dona Maria, parece que o filho Heitor vê a mãe como estando no poder dele, ela é o falo do menino.

Freud (1910; EIZIRIK; BERGMANN, 2004) relata que a maioria dos seres humanos tem a necessidade de se apoiar em uma autoridade e é tão imperativa que o mundo desta pessoa pode desmoronar se esta autoridade é ameaçada. Como mencionado no trecho acima, em um casal imaginamos ocorrer a inversão da lei, mas no outro a falta de apoio da mãe para algumas atitudes do pai, possibilitando o desenvolvimento saudável da criança. Por outro lado, no outro casal, Sr. José se demonstra irritadiço com a situação que está vivendo:

“[...] quando a gente vai se beijar ou se eu sento aqui no sofá com ela, quando vê ele vem no meio [...] Ela vê, mas acho que acha bonito, tipo ela dá uma  risadinha assim, mas não fala nada, eu acho que, tipo é com isso que eu fico meio cabreiro sabe, pô dá uma prensa [...] daí ele vem aqui o que que ela fala, pega e senta lá depois a gente faz alguma coisa, e não faz nada.”

De acordo com o autor supracitado, se a mãe se zanga, ela é fálica e todo-poderosa, mas se em contrapartida a mãe não faz isso ela é o falo mais precioso. De certa forma, posso imaginar pela fala do pai que ele não se encontra apenas irritado com a situação, mas controlado por ela, de modo que sua mulher o faz realizar as vontades do filho, indo contra a sua vontade como pai, demostrando um forte ciúmes em relação a isso, pois o pai deseja a mãe e sente-se incapaz de se envolver com ela. Para ele, no momento o filho está conseguindo afastar o casal, fazendo com que Sr. José pense em separação.

“[...] Bom três vezes eu já pedi o divórcio pra ela, e daí sabe sempre dá aqueles choros e coisa, aí por que não sei o que, daí quando tu fala parece que entra aqui e sai ali sabe [...].”

A situação para este casal pode estar em um momento complexo. O pai é muito importante nesta relação, porém, a presença da mãe também é importante neste processo. Ela precisa auxiliar o pai, permitindo, assim, que ele desempenhe seu papel durante o Complexo de Édipo, processo este que será determinante para um desenvolvimento normal, saudável e bem-sucedido.

Enquanto o menino pode ter dois falos, no caso, o pênis e a mãe, e é justamente esse o problema a ser resolvido pelo menino edipiano, a sequência seguida pela crise edipiana no menino é a seguinte: amor pelo pênis, a angústia de perdê-lo e, por fim, a renúncia à mãe (NASIO, 2007).

Com relação ao ciúme do filho, as palavras do Sr. José são claras:

Ele é muito ciumento, por que ele é muito apegado a ela [...] Tipo assim se ele vê eu e ela se beijando ele vem lá no meio daí se joga no meio e se agarra nela, me olha assim, e quer beijar ela [...] Quando a gente vai se beijar ou se eu sento aqui no sofá com ela quando vê ele vem no meio, se ela tá deitada no sofá e eu quero deitar com ela aqui e ele tá no computador e olha que pra ele sair dos joguinhos dele é difícil, mas ele larga o joguinho vem, ele não deixa, nessa parte ele é bem ciumento.”

Freud (1920) traz que o ciúme normal que tem origem na perda de um objeto amado, no sentimento hostil contra o rival bem-sucedido e na dor causada por não ter mais tal objeto, ou o medo de perdê-lo. Este ciúme não é totalmente racional, pois não percebe somente a realidade, não há o controle do ego consciente, mas sim está enraizada no inconsciente, nas vivências passadas que a criança teve, a forma de ciúmes que aprende a ter na infância é a qual carrega consigo na vida adulta.

“É absolutamente normal e inevitável que a criança faça dos pais o objeto da primeira escolha amorosa. Porém a libido não permanece fixa neste primeiro objeto: posteriormente o tomará apenas como modelo, passando dele para pessoas estranhas, na ocasião da escolha definitiva.” (FREUD, 1910, p. 32).

Em contrapartida, a esposa do Sr. José, a Dona Maria, traz em poucas palavras o oposto do mencionado pelo marido. Para ela, o menino não demonstra sentir ciúmes, nas palavras da própria:

Se mete às vezes, mas não de ter ciúmes eu acho, é bem tranquilo assim.”

O fato de a mãe não perceber o ciúme que o menino sente parece-nos como uma forma de evitar o afastamento necessário nesta fase, e é importante que o pai coloque limites na criança, mas não apenas isto, esta mãe precisa ajudá-lo, para que assim o Édipo seja passado por essa criança de maneira saudável. Mesmo sendo esta fase na qual o pai é de suma importância, a mãe também precisa aceitar os limites impostos pelo pai, fazendo com o que o menino perceba isto. De acordo com Ferrari (1999 apud EIZIRIK; BERGMANN 2004), a presença de ambos os pais é que permite à criança viver de modo natural o processo de identificação e de diferenciação, quando um falta, ocorre uma sobrecarga na função do outro, o que pode ocasionar prejuízo na personalidade do filho. Para Nasio (2007), este menino que está passando pelo Complexo de Édipo sente prazer em olhar o decote da mãe ou gosta de se mostrar nu em público. O Édipo é uma tentativa infantil de realizar um desejo incestuoso que é irrealizável, este desejo incestuoso seria um desejo virtual, nunca saciado, cujo objeto é um dos pais.

Nas palavras da mãe Cintia:

Sabe assim, eu não sei se é ciúmes ou vergonha por que assim sempre quando eu saio pra trabalhar a gente se dá um beijo, daí ele começa: ‘ah, por  que vão namorar agora?’. Daí ele fica meio assim, sabe?, se eu chego perto do Miguel: ‘ah, por que vão namorar agora?’, ‘ah, por que o pai vai começar a namorar com a mãe?’, por que não sei o quê [risos]. Só assim, mas tipo de ciuminho eu acho que não ele trata os dois igual, eu acho que não.”

Miguel sobre o mesmo assunto relata:

Ah, ele fica meio... ele vem e quer que façamos nele também, senta no colo e começa, ele quer os dois juntos com ele que ficamos paparicando ele, mas assim não é muito nada exagerado.”

Não percebemos motivos para pensar que o que ocorre neste caso não seja ciúme, o que Kelvin busca, parece-nos, é ser o centro das atenções, é ter não apenas um dos pais, mas os dois voltados para ele e para suas vontades, é um menino sedutor. Por outro lado, é perceptivo que a forma como demonstra seu ciúme pelos pais não é explícita ou facilmente observável como ocorre no outro menino – as falas do Sr. José explícitas acima –, mas quando levadas em consideração as falas de Miguel, relatando que o menino vem no colo e quer que os dois façam carinho nele, é uma forma de fazer com que os pais mudem o foco do carinho entre casal e o transfiram para a criança, a qual na sua inocência provavelmente sempre consegue o que almeja, de modo a ficar satisfeito com a situação.

As atitudes dos filhos, de acordo com os pais, mudam na presença dos dois genitores, assim como eles comentam:

Ah, quando a Dona Maria tá junto, sempre dá umas brigas, sozinhos não.” (Sr. José).

Olha, acho que ele é até mais calmo quando tá só com um. Mas também não sei explicar em que sentido eu acho que é a ocasião sei lá [...].” (Cintia).

Ah, eu acho que, com ela, ele obedece bem mais do que quando tá só comigo e sem outras pessoas [...].” (Miguel).

Nesses fragmentos de discurso, pode-se sugerir a ocorrência do encontro da triangulação edípica, que seria o momento em que pai-mãe-filho estão juntos, de modo que o encontro faça com o que o filho fique mais agitado. Garcia-Roza (1985), quanto a isto, relata que um comportamento característico desta fase é o da identificação, pois o menino bate e diz que quem bateu foi o outro. Essa identificação alienante, a partir do momento que a relação dual mãe e filho é substituída por um tipo de relação triádica, que seria a entrada do pai em cena, marca a distância entre a criança e a mãe. Desta forma, a criança pode se sentir mais ameaçada pelo pai e ao mesmo tempo com mais coragem para enfrentá-lo.

O menino nesta idade também busca incansavelmente dormir na cama dos pais, de modo a ficar do lado da mãe, assim como relata Sr. José e Miguel:

Toda a noite ele vai na cama com nós praticamente, se ele tá acordado ele quer dormir junto, daí meio que: ‘ah, então deixa um pouquinho, depois ele vai pra cama dele’. Só que daí quando vê os dois tão cansado e ele passa a noite daí o que acontece ela dorme eu não durmo por que daí ele vem pro meu lado e bota o pé por cima, tira a coberta. Daí quando ele dorme na cama dele, daí aí pelas duas, três horas da manhã ele vem isso é sagrado, de todos os dias da semana olha acho que um dia que isso não acontece, senão é sempre na nossa cama.” (Sr. José).

Uma e outra vez ele insiste e daí nós deixamos, né?, mas se não não, agora no verão ele dorme sozinho é mais tranquilo.” (Miguel).

É possível notar a diferença existente entre os meninos, mas ambos querem dormir com os pais. Sr. José transmite descontentamento pelo filho dormir com o casal, relatando que como estão cansados os dois dormem e o filho fica na cama com eles, ao invés de ser levado para seu quarto. Porém, o Sr. José, logo na fala seguinte, se contradiz ao relatar que não consegue dormir por causa do menino e quem dorme na verdade é só a sua esposa. Parece-me que essas contradições do pai são formas dele mesmo dizer que não aguenta mais, está sobrecarregado com a situação.

O pai enérgico que impõe os devidos limites que julga ser necessário, nessa situação, demonstra-se impotente, e o Sr. José espera que sua esposa tome a devida providência quanto a esta situação. Ele não comentou nada durante a entrevista, mas os fatos atuais me levam a imaginar que ao amanhecer queixa-se para sua esposa, irritado pelo filho estar no quarto. Em outras palavras, pensamos que este pai deseja incansavelmente que Dona Maria imponha limites frente ao que acontece, ele busca apoio.

Miguel – segundo pai – na sua fala traz que o menino às vezes dorme com o casal, quando insiste muito. Acreditamos que, no fundo, mesmo não dormindo todos os dias com os pais, o intuito o menino é o mesmo, no sentido de que o filho quer dormir com a mãe porque a quer perto dela, quer ficar com ela. Neste caso, o menino quer sentir o pai e a mãe do lado dele, o que se observado com mais clareza é uma ótima forma de afastar o pai da mãe e vice- versa. Como mencionado, a criança precisa se desprender dos pais, e Freud (1910) diz que o ato de se desprender dos pais torna-se uma obrigação inelutável, sob a pena de graves ameaças para a função social do jovem. O complexo é o que destina a repressão, mas continua a agir no inconsciente com intensidade e persistência, lembrando que o Complexo de Édipo tem seu fim levado pelo medo da castração, o medo inconsciente de perder seu falo.

A peça de Édipo Rei (SÓFOCLES, 2005), explicada brevemente neste trabalho, é uma manifestação bem pouco modificada do desejo infantil, a qual mais tarde, com todo o trabalho bem desenvolvido por esses pais, irá se mostrar como a repulsa as barreiras do incesto,  na vida adulta.

Vou deixar minha mãe e pedalar na bicicleta, jogar com o meu pai e me tornar um grande atleta, estudar bastante e procurar outras gurias, Édipo na vida determina a melodia.”
Os Sublimantes

4. Considerações Finais

A psicanálise é uma história – E uma maneira de contar histórias.” (Adam Phillips, Beijos, cócegas e tédio, 1996, p. 17).

Falar de Sexualidade Infantil e ainda da rivalidade presente no Complexo de Édipo deveria ser fácil nos dias de hoje, devido a toda evolução da sociedade, mas não é. São poucos os indivíduos que aceitam falar sobre isso, ou mesmo ler sobre o assunto, não é fácil perceber um pai falando do filho com rancor ou com ciúmes, mas é significativo entender que isto é normal e que, mesmo o filho sendo ríspido com o genitor do sexo oposto, há amor, há admiração presente nesta relação.

Este estudo se deteve em perceber a percepção dos pais, principalmente do pai, frente ao comportamento atual do filho. Com as entrevistas realizadas, pode-se  entender como ocorre o Complexo de Édipo e como esse é percebido pelos pais, pode-se notar o quanto para o pai Sr. José a situação está o decepcionando, o quanto para este pai as coisas não estão sendo simples, fáceis ou aceitáveis em alguns momentos. Para o pai Miguel, a situação não se mostra tão ameaçadora, mesmo ocorrendo a inversão da lei nesta família, tanto para o pai quanto para a mãe a situação está tranquila, não foge do controle.

Por vezes, a realização das entrevistas foram complicadas, diversidades aconteceram inclusive a presença do filho na entrevista realizada com a Dona Maria, dificultando um pouco o decorrer da entrevista. O menino buscava a atenção da mãe e mostrava-se até mesmo irritado por não poder falar durante a entrevista, por este motivo a entrevista foi mais rápida, mas no final tudo se enquadra, e acabamos aprendendo a lidar com as adversidades, conseguindo finalizar com bons relatos da mãe.

Ainda percebemos o quanto o Complexo de Édipo, passado por um dos pais, interfere no modo como lida com seu filho hoje, o qual certamente não vê as coisas por esse lado, devido a amnésia infantil, fazendo o esquecer destes fatos. Assim como exemplificado na fundamentação teórica, a repressão nos cega de nossos pecados infantis, assim como Édipo fura seus olhos, ficando cego, para não precisar mais ver as coisas que o fazem mal.

Passar por essa fase de maneira saudável é fundamental, para formação da personalidade do adulto. Assim como dizem Laplanche e Pontalis (1982, p. 77), “[...] o Complexo de Édipo desempenha papel fundamental na estruturação da personalidade e na orientação do desejo humano. Para os psicanalistas, ele é o principal eixo de referência da psicopatologia.” Este estudo nos propôs mudanças na forma de agir e de pensar, e em momentos foi difícil dar seguimento ao trabalho, deparando-nos com questões próprias, com várias dificuldades.

Todavia, as pessoas pensam que o Complexo de Édipo é puramente ligado à mãe, vendo-a como primordial para a passagem desta zona erógena, inclusive nós mesmos, mas na verdade é bem o contrário disso: o pai durante o Complexo de Édipo tem maior importância para o menino, é a fase em que o pai mostra-se atuante, deixando de ser o figurante da ação e começando a ser o protagonista.

Sendo assim, é importante que a mãe desempenhe seu papel no convívio familiar, este é o momento de separação, é hora do filho se tornar um ser único, e não mais parte da mãe. O pai desempenha o papel de lei neste processo, pois quer novamente a mãe para ele, contudo, o fato só se torna bem-sucedido quando a mãe concorda com o pai na presença do filho, fazendo-o perceber que o pai tem razão, o pai é a lei da casa.

O declínio do Complexo de Édipo configura-se no medo da  castração, passando, então, para a admiração tenra pelo pai. O menino quer a companhia do pai para com ele aprender o que é certo e o que é errado, e assim o menino deixa de buscar a mãe como objeto de desejo e passa a ver as outras meninas como desejo. Avaliamos como estudo futuro interessante a compreensão do Complexo de Édipo sem a presença do pai, ou mesmo sem a presença da mãe, de modo a se pensar nas famílias dos dias de hoje que nem sempre são constituídas na presença dos dois genitores. Sabemos que o Complexo de Édipo acontece sem sombra de dúvidas, o ensinamento necessário, neste caso, é saber como acontece.

Sobre os Autores:

Daiane Ascari -  Graduada em Psicologia pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC), Campus de Pinhalzinho (SC). E-mail: <Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.>.

Orientador: Juliano Correa da Silva - Mestre em Psicologia Clínica (PUCRS), psicanalista (CEP de POA), professor do curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC), Campus São Miguel do Oeste (SC).

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