Perversão Social: Nós Sem Laços

Resumo: O uso do homem pelo homem não é algo novo na história da humanidade, de modo que este, em sua busca pela sutura do desamparo estrutural recorre a diversos modos de livrar-se do sofrimento. No presente trabalho busca-se uma reflexão acerca dos mecanismos sociais que objetiva o sujeito, transformando-o em uma ferramenta a serviço do Outro e em prol do gozo perverso no modelo capitalista contemporâneo. Caberá aqui explicitar as instancias do organismo social cujos traços da perversão capturam o sujeito e aliena-o, fragilizando a construção dos laços sociais. Utilizando a teoria psicanalítica como norteador teórico, o presente trabalho tratará brevemente sobre o conceito da perversão e da constituição do sujeito na sociedade contemporânea permeada por traços perversos.

Palavras-chave: Perversão, Contemporaneidade, Social, Psicanálise, Sujeito.

1. Introdução

O presente trabalho busca fazer uma reflexão acerca de alguns aspectos da sociedade contemporânea, de modo que retrata o processo pelo qual o sujeito é marcado neste contexto por traços da ordem da perversão, bem como tratará da formação deste conceito, implicando o sujeito neurótico em um enodamento perverso social que o captura, de modo que em diversas dimensões, ou organismos sociais, acabam por perverter o sujeito.

As implicações que o modo de vida contemporâneo produz nos relacionamentos humanos são passíveis de uma reflexão bastante interessante, de forma que diversas áreas dentro do organismo social possam servir de exemplos para evidenciarmos situações cujo ser humano é colocado na posição de objeto, manuseado, utilizado e descartado dentro de uma ordem de funcionamento social de caráter perverso.

Com o embasamento psicanalítico, é possível ter um vislumbre do processo pelo qual o corpo passa a se tornar um corpo-sujeito, de maneira que ao apropriar-se deste conhecimento, o modelo capitalista permite a manipulação do desejo do outro pela via do consumo. Caberá neste trabalho responder a questão sobre de quais maneiras o sujeito pode ser pervertido pelo modelo social e de que forma isso ocorre, buscando uma reflexão sobre o modo de vida na contemporaneidade.

Vivemos em um tempo que o imediatismo impera, onde a estética do corpo é cultuada, onde a busca pela sutura do desamparo estrutural do sujeito desconhece limites e provoca uma desarmonia na convivência com o próximo, onde os remédios vendidos pelo discurso tecnocientífico médico promete à eliminação do sofrimento e a garantia da felicidade. O que significa viver em um tempo onde o eu ideal ocupa o lugar do ideal do eu, implicando em um viver voltado para o olhar do outro?

Visa-se uma compreensão acerca dos mecanismos pelos quais a falta estruturante é alvo de manipulação nos tempos atuais, de modo que todos buscam a satisfação de seus desejos e consequentemente, utilizam e são utilizadas pelo Outro. Procura-se compreender alguns aspectos já presentes na contemporaneidade, como por exemplo, as características da violência e sua estatística crescente, da busca incessante da felicidade a todo custo, da estetização da vida e do deserto de sujeitos que constituem a sociedade contemporânea, que alienado sempre ao desejo do Outro não mais se permite desejar para si.

O destrinchar do processo que perverte o sujeito na contemporaneidade percorrerá pela história do conceito da perversão, em que alguns traços deste conceito poderão articulados ao modelo social, como a objetificação do ser, a exploração do homem pelo homem, a denegação da lei e a incapacidade de colocar-se no lugar do outro.

2. Sobre a Perversão

A palavra perversão é oriunda do latim pervetere e implica um sentido de desviar-se, corromper, desmoralizar. A etiologia da palavra antecede a conceituação utilizada pela ciência médica, porém é através deste discurso que será empregada para caracterizar comportamentos que iriam contra a natureza do homem, quando, no início de sua abrangência sobre a sexualidade, serviria para patologizar aqueles cujo ato sexual fugiria de seu objetivo básico de perpetuação da espécie. Pode-se notar, por meio de investigação teórica, como por exemplo, escrito por Barbosa (2008), que o conteúdo conceitual da palavra estava repleto de moralismo, postulados pelos discursos médicos da época e pela Igreja. Sendo assim, pode-se dizer que a medicina legal, em sua origem, propõe uma visão de juízo moral sobre os comportamentos sexuais, tendo como parâmetro regras fisiológicas, com um forte conteúdo de função social normativa.

Nos primeiros escritos sobre a perversão, Freud inicialmente a descreve como sendo justamente um lado obscuro da sexualidade, conclusão esta que, em certo grau, ainda estaria de acordo com o discurso médico vigente visto anteriormente, o qual postulava os valores morais da época. Caracterizada em 1905, em "Três ensaios sobre a sexualidade”, como sendo o negativo da neurose e anterior à introdução ao complexo de Édipo, o sujeito perverso investiria pulsões parciais libidinais que predominariam sobre a genitalidade. É somente a posteriori que Freud chegará a uma segunda conclusão, na qual não só inclui o sujeito perverso no processo do complexo de Édipo, como também fará do sujeito produto de sua teoria do desenvolvimento psicossexual. Portanto, ainda segundo Barbosa (2008) a construção do conceito de perversão na ótica psicanalítica será feita através de três momentos: A publicação de “A neurose é o negativo da perversão” em “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”; A criação do Complexo de Édipo, que caracterizará o núcleo das neuroses e das perversões, e o terceiro momento, onde Freud iria definir a recusa da castração como mecanismo essencial da perversão.

A partir da década de 50, Lacan realizará uma releitura da obra de Freud, na qual promoverá uma reconfiguração quanto ao entendimento da teoria psicanalítica, sem o aspecto necessário das aderências biológicas, adotando uma posição crítica sobre os aspectos evolucionistas em Freud e a noção de desenvolvimento em psicanálise. A relação com o Outro em uma estruturação complexa atemporal, organizada a partir desta relação inicial com o Outro (PIRES et. al).

Lacan ao longo de sua obra introduzirá a linguagem como principal estruturador psíquico do sujeito, meio pelo qual este será investido de subjetividade, através da relação com o Outro. O falo simbólico será o núcleo de todo o processo no complexo de Édipo, que, para Lacan, será composto de três momentos que definirão a predominância estrutural da psique no sujeito. Irei ater-me naquele que irá configurar a perversão.

Pires e outros elaboram um trecho que explicita a formação da configuração perversa a partir do terceiro tempo do Complexo de Édipo:

Verleugnung, recusa: mecanismo que sustenta a estrutura perversa na qual o sujeito sabe, todavia “não quer saber”, recusa o reconhecimento da falta do pênis na mulher-mãe, podendo em alguns casos “eleger” um objeto em seu lugar, o fetiche, substituindo a falta do pênis: ele ao mesmo tempo esconde e designa essa falta existente. O fetiche, garantia contra a angústia, não só pode ser representado por um chicote como também por um bastão de comando, perversão social, abordada mais adiante. A recusa, segundo Bleichmar, é o rechaço de uma percepção e a crença de uma existência. O perverso renega o fato e crê que, contudo, um pênis. O conteúdo recusado não ocorre no ato perceptivo propriamente dito e sim na manipulação do vestígio mnêmico, produto da percepção, assinalando que se trata de uma crença e não de uma alucinação. A presença de uma crença implica a recusa de outra, é uma substituição.(p. 5)

O traço constituinte do jogo perverso, portanto, se dá por meio da não aceitação da lei, fruto da interdição do pai e da negação da castração da mãe, onde se conclui, posteriormente, o reconhecimento da diferença dos sexos e sua recusa, pois, cabe afirmar que só é possível recusar aquilo que se reconhece (PIRES et. Al, 2000).

Conclui-se por ora, sobre o conceito da perversão, que o mesmo é de difícil delimitação, onde de Freud a Lacan, foram encontradas diversas formas de abordagem: autonomia das pulsões parciais diante do primado genital, regressão com sua consequente fixação, falha identificatória na situação edipiana, transgressão decorrente do desafio da lei, divisão do ego e recusa na aceitação da diferença sexual. Caberá a seguir a tentativa de articulação do conceito na estrutura social, como surge e quais seriam suas consequências, bem como discutir sobre a questão relativa a tornar-se sujeito na contemporaneidade, para posteriormente considerar o processo pelo qual ocorre sua dessubjetivação.

3. Os Traços Perversos da Sociedade Contemporânea

Para construir esta breve análise do social faz-se necessário levar em conta o modelo capitalista, cujo objetivo implica em produção em massa e da obtenção da mais valia através da utilização do outro como uma ferramenta.

A utilização do homem pelo homem é uma reflexão a ser posta em evidência no que se refere à sobrevivência do modelo social contemporâneo, onde a lógica do consumo pelo consumo captura o sujeito para dentro de uma ordem de funcionamento perverso.

De acordo com Huberman (1985) em consonância com as ideias de Karl Marx sobre o modelo capitalista:

...Dizia estar o trabalhador na sociedade capitalista sendo explorado, tal como fora na sociedade escravocrata e na feudal. Marx dizia que a exploração na sociedade capitalista era oculta, mascarada. Arrancou-lhe a máscara com a teoria da mais-valia (p. 227).

Tem-se no modelo capitalista, a existência do homem atribuída a função de produtor em um sistema que o instrumentaliza, como uma ferramenta a serviço da produção, dando-lhe valores referentes à sua produtividade e cujo salário recebido servirá para alimentar o sistema pela via do consumo.

Consumir cada vez mais significa dizer que aquilo que já foi consumido não é mais suficiente, e, portanto, é necessário que se produza o falho, o descartável, para que se possa conduzir um fluxo aparentemente inesgotável de demandas através da manipulação do desejo do outro.

Paralelo a isso, surgem algumas questões: E se extrapolarmos esta base pressuposta do funcionamento do social, onde tudo parece ser da ordem do descartável para as relações humanas? Estaríamos também consumindo de forma destruidora nossas relações sociais, visando o consumo do outro em prol das nossas satisfações pessoais, onde ao final o descartaríamos e o substituiríamos?

Faremos então uma análise dos aspectos do cotidiano e das estruturas do organismo social na contemporaneidade, ressaltando que ao tratarmos de falar sobre a sociedade é importante identificar os organismos sociais pelos quais a perversão torna-se um fator que marca o sujeito, considerando que a sociedade como um todo não é passível de ser classificada como um indivíduo perverso.

3.1 Violência

Se as relações intersubjetivas se encontram em decadência ou desinvestidas, aquilo que é do outro se torna intolerável, negado, dando margem para que haja a impossibilidade de coexistir, significando neste aumento no índice da violência nos tempos atuais (BIRMAN, 2005).

A negação explícita da lei é um dos pilares que sustentam a explosão da violência na contemporaneidade, o que não significa negar sua existência em grau menor ou maior durante a história do homem, mas sim afirmar que neste período específico no qual vivemos hoje a violência toma formas inéditas, pois o desejo se vincula naquilo que se encontra na estrutura social, e, portanto, temos então o culto ao Eu ligado intimamente ao contexto cultural de caráter egocêntrico:

Os destinos do desejo assumem, pois, uma direção marcadamente exibicionista e auto-centrada, na qual o horizonte intersubjetivo se encontra esvaziado e desinvestido das trocas inter-humanas. Esse é o trágico cenário para a implosão e a explosão da violência que marcam a atualidade (BIRMAN, 2005).

A violência e suas diferentes formas contaminam diversos setores do organismo social devido também, a este tipo de cultura que está sendo produzida nos dias atuais.

Para auxiliar na reflexão e assumindo tais questionamentos de forma positiva, podemos construir um ponto de conexão entre a perversão e o social também pela via da objetificação do outro e sua utilização, como uma ferramenta para obtenção do gozo, onde nos possibilita pensar a violência para com o sujeito de uma forma que passa além do físico e do palpável para algo sutil, mas profundo, capaz de abalar a própria estrutura do sujeito.

O amplo conceito de violência e suas diversas características podem ser exemplificados por meio dos traços perversos, como a negação da lei, o uso objetificado do outro, ou a não aceitação das diferenças, sendo que esgotar a aplicação do conceito aqui não se torna a pretensão deste trabalho, sendo importante apenas levar em consideração de que a violência toma forma de acordo com o social.

É importante destacar também a questão do declínio da função paterna como fator que influencia diretamente no índice da violência, de modo que cada vez mais o símbolo da autoridade no núcleo familiar, gera indivíduos que não possuem limites, inviabilizando a internalização de regras na forma das figuras parentais. Com isso, a geração contemporânea surge criando suas próprias regras, sem barramento, negando a castração (BIRMAN, 2005).

3.2 Objetificação do Eu

Segundo Calligaris (1986), existiria em determinados modelos sociais, algo que o mesmo denomina de montagem perversa, que implicaria no abandono da singularidade do sujeito na busca pelo gozo do Outro e também no abandono da busca pelos próprios ideais. É através do regime totalitário nazista que o autor nos apresenta o conceito da montagem perversa, por meio de relatos de colaboradores do mesmo, nos quais percebe um gozo relativo a instrumentalização de si, que tornaria o sujeito uma ferramenta a serviço do Outro para que sua angústia de neurose fosse tamponada. Portanto, já se constitui aí um importante traço perverso considerado dentro do modelo social. Podemos fazer um paralelo sobre a objetificação do sujeito na sociedade atual quando nos referimos a questão da estética, pois na contemporaneidade o corpo é passível de se tornar um palco que exibirá aquilo que o outro deseja ver, implicando na busca pela aprovação do olhar do outro.

De acordo com Cerruti (2002), faz-se importante a ressalva de que na contemporaneidade, a busca pelo lugar preferencial do outro implica em uma constante busca pela glorificação do eu ideal, implicando na sutura do desamparo estrutural por meio da manipulação do corpo do outro, que estaria a serviço do gozo perverso. É assim que de fato, ainda segundo a autora, pode-se relacionar a perversão ao laço social, onde as noções éticas das diferenças se tornam apagadas e cada vez mais ocorre o desimplicar-se do sujeito na ação. A questão do sujeito objetificado atinge diversas áreas da sociedade, as quais tentaremos a seguir fazer uma breve análise.

3.3 Relações de Trabalho

Em outro foco, Enriquez (1997) elabora uma problemática semelhante ao levar em consideração o indivíduo nas relações de trabalho, cuja estrutura do funcionamento das organizações prende o sujeito de modo que este sofra uma alienação, impossibilitando o nascimento do livre pensamento. Afirma que o homem, no auge da era do individual, nunca esteve tão preso nas malhas das organizações e tão pouco livre em sua forma de pensar, implicando em uma manipulação do desejo do indivíduo em função do Outro.

A alienação do sujeito ocorre de forma impositiva, de forma que os valores da empresa passam a ser os valores do indivíduo, onde a cultura da organização passa a ser soberana, não dando espaço para que se construa nada além daquilo que seja cultuado no meio organizacional.

Enriquez (1996) afirma que o sujeito nas relações de trabalho sobre uma infantilização, pois, a cultura da empresa se insere na matriz referencial do sujeito, ou seja, os objetos que são referências do sujeito, atualizados ao longo da vida e que possibilitam a este um desenvolvimento, não mais se tornam alcançáveis por este, sendo que aquilo que é então introjetado como referência, se torna algo impositivo e imutável. O sujeito é impossibilitado de colocar algo de sua subjetividade naquilo que introjeta.

Tem-se ai a questão da infantilização, que remete ao tempo em que as figuras parentais eram algo da ordem do soberano, onde os valores transmitidos pelos mesmos eram absolutos e impassíveis de formulações ou questionamentos, onde apenas a posteriori ocorreria uma separação, de nós e de nossas referencias, e uma simbolização daquilo que nos era dito como algo necessário para nossa sobrevivência.

Portanto, percebe-se que o que diverge entre essas linhas de pensamento são as formas pelas quais o sujeito se transforma naquilo que não é mais singular, transformando-se em objeto a serviço do Outro, cujo desejo passa a ser alienado.

Partindo para outra perspectiva que não esta sobre a objetificação do sujeito, temos a questão perversa da negação da lei, que implicaria no nascimento do sujeito que tudo pode. Ao relacionar este traço estrutural para algo oriundo do social e especificamente do modelo capitalista, podemos notar que existe uma filosofia dentro desta configuração que diz ao sujeito que ele tudo pode, a exemplo dos financiamentos que permitem a quebra da barreira econômica atual do sujeito e possibilita ao mesmo acesso aquilo que em outra ocasião estaria fora de seu alcance. Com isso podemos ter uma noção da lei do mercado, que demanda um gozo infinito e faz com que as circunstancias para a concretização desse gozo sejam possíveis através do contorno da condição do desejo.

3.4 Saúde

Consideremos o setor da saúde, no qual suas instituições, como os hospitais, e o discurso da medicalização, oriundo da ciência médica possuem traços perversos marcantes que, na contemporaneidade parecem guiar-nos por um caminho sem a presença do sofrimento, rumo à verdade absoluta (CERRUTI, 2002).

Com isso, se pode observar que o sujeito contemporâneo, imerso em uma filosofia na qual os fundamentos abolem o sofrimento da vida, perde a capacidade, ou ao menos se torna deficiente, no que se refere ao contorno da dor de viver pela via da elaboração, implicando no aumento significativo do uso de remédios. Sendo assim, podemos compreender que através da medicalização da vida, o sujeito é posto entre parênteses, cristalizado no real (BIRMAN, 2005).

Já nos hospitais, interessante notar como o corpo se transforma em organismo, de maneira que nos sintamos desapropriados de nós mesmos quando, por exemplo, pedimos permissão ao médico para podermos nos levantar para ir ao banheiro após uma cirurgia, ou se podemos levantar o braço após sofrer algum corte e levarmos alguns pontos. Obviamente, não se trata de uma crítica à medicina, muito menos de se questionar sua eficiência. O ponto é fazer uma reflexão sobre a forma de se pensar uma ciência que, paradoxalmente, cuida do outro e o dessubjetiva, pois está incapacitada de lidar com questões que podem não apresentar um sentido lógico a quem ouve, mas sim a quem fala. Por isso, o paciente se torna de fato passivo, enquanto que os outros, detentores do seu alívio, o manuseiam em nome da saúde e do seu bem estar, sem estarem devidamente atentos ao desejo do paciente (BIRMAN, 2005).

A questão da mercantilização da saúde é outro fator cujo traço perverso pode ser evidenciado nos dias de hoje. Sua evidencia pode ser encontrada dentro dos moldes dos planos de saúde. Contrata-se um serviço que outrora seria uma obrigação do Estado, para que caso sejamos atingidos por alguma doença, tenhamos como receber o devido tratamento, sem que precisemos sacrificar a dignidade dentro dos serviços públicos oferecidos na contemporaneidade.

O curioso é que devemos cumprir uma série de exigências patológicas para usufruirmos do serviço contratado, e pior, devemos nos encaixar nos moldes preferidos pelo plano de forma que o que se constitui em verdade é uma espécie de julgamento do sujeito, que será visto como digno ou não, da cobertura do serviço. O sujeito encontra-se novamente alienado aquele que poderá garantir-lhe ou não, um futuro saudável. Perde-se a autonomia.

3.5 Produção de Cultura e Relações Sociais

A produção de cultura na sociedade contemporânea também parece ser afetada por traços perversos, não me referindo somente aos órgãos sociais responsáveis, como as escolas, por exemplo, mas principalmente aquela oriunda do núcleo da sociedade, ou seja, das famílias.

É através das observações do cotidiano que se percebe algo da ordem do intolerável, onde questões, como as referentes ao racismo e a principalmente, relativas à sexualidade, evidenciam um reflexo da educação, oriunda do núcleo familiar contemporâneo, através de um bordão cotidiano que afirma que somos todos iguais. Portanto, a medida que transformamos todos iguais a nós mesmos, nos tornamos intolerantes com as diferenças, ou ao menos perdemos a capacidade de perceber que ser diferente não implica necessariamente em um julgamento de valores, negativos ou positivos. A produção da cultura se torna perversa a partir do momento que não nos permite evidenciar a existência das diferenças, onde se cria um paradoxo no qual explicita uma intolerância ao intolerante, onde um pensamento que seja divergente se transforma em motivo de horror.

Portanto, a produção desses tipos de valores podem se constituir como traços perversos, no momento em que não permite este confronto de diferenças, no qual os sujeitos se tornam intolerantes às singularidades. Sujeitos narcísicos. (CERRUTI, 2002)

Entretanto, isto não se traduz como uma defesa aqueles que cometem crimes contra tais grupos sociais. Com isto torna-se relevante uma reflexão que nos remete aos valores de tais movimentos sociais, cujos objetivos se perderam em meio à alienação advinda do próprio laço social. Mas ressalta-se que tais objetivos se traduziam em um direito igualitário perante o social e o Estado.

3.6 Educação

O sistema de ensino se relaciona com a perversão através de um exemplo de transgressão e anulação da lei, que caracterizada na forma do mestre, não se torna mais justificada na visão lógica do modelo capitalista, a qual visa uma produção quantitativa e não qualitativa, para que assim se torne possível a criação de uma estatística favorável ao sistema. Este não permite que falhas sejam postas em evidencia, e como consequência o professor se torna refém de um sistema que o destitui de seu poder, impedindo-o de contribuir com números negativos representados por reprovações. O índice de violência contra o professor na contemporaneidade também é algo a ser considerado como borda ao poder da lei.

De acordo com uma pesquisa global, realizada em 2014 e postada no site da BBC Brasil:

Na enquete da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 12,5% dos professores ouvidos no Brasil disseram ser vítimas de agressões verbais ou de intimidação de alunos pelo menos uma vez por semana. Trata-se do índice mais alto entre os 34 países pesquisados - a média entre eles é de 3,4%. Depois do Brasil, vem a Estônia, com 11%, e a Austrália com 9,7%. Na Coreia do Sul, na Malásia e na Romênia, o índice é zero.

A perda da legitimidade da lei evidencia o declínio da função paterna, que já não representa uma autoridade nos dias atuais, implicando na falta de limites do sujeito.

Entretanto, deve-se considerar a complexidade do sistema educacional, que retrata muitas realidades em toda sua estrutura, sendo a que se refere neste item uma realidade mais ligada a educação no sistema privado, onde o aluno se torna de fato um comprador do conhecimento, não sendo possível então que este ultimo venha com “defeito”. Obviamente que o professor será o elo fraco da corrente e assumirá a responsabilidade pela má distribuição do conhecimento.

4. A Constituição do Sujeito

O sujeito em psicanálise se constitui a partir de uma falta inerente a existência do ser, preenchida pela linguagem que visa tamponar esta falta com diversos símbolos e representações, possibilitando a existência do desejo.

O desejar somente é possível por conta de que algo precisa ser capturado para o indivíduo, algo que precisa dar a falsa sensação de completude por um breve período, para que posteriormente ceda lugar a uma nova catexia, ou seja, um novo objeto que será alvo da pulsão.

Na visão freudiana, o indivíduo enquanto corpo é indissociável da psique, embora se ressalte que ambos sejam diferentemente complementares “Não existe o sujeito e seu corpo, numa dualidade e polaridade insuperáveis, mas um corpo-sujeito propriamente dito." (BIRMAN. 2005; p, 27).

Isto significa dizer que o sujeito se constitui a partir de um contato com o mundo por meio de um corpo que sente, onde posteriormente será capaz de suportar as adversidades da vida através de um aparato mental, elaborando, dando significado e representando de um jeito único as coisas do mundo por meio da vivência e da experiência.

É importante ressaltar aqui que o conceito de sujeito não é de origem psicanalítica, e sim de origem filosófica. Freud, ao longo de sua obra, teve como propósito descrever sobre o funcionamento de sua descoberta, o inconsciente e, portanto, o sujeito viria a ser posteriormente descrito como consequência deste processo constitutivo. Em verdade, Freud vai no sentido contrário ao dos ramos da filosofia em relação ao conceito de sujeito, uma vez que este estaria ligado as questões da universalidade do homem e suas formas de subjetivar, ainda que não o tenha descrito como posteriormente, o faz Lacan em sua releitura das obras freudianas (FONTENELE, 2014).

O sujeito em Freud, que apesar não usar tal terminologia em sua teoria, seria um sujeito descentralizado. O funcionamento complexo da psique e de suas instâncias, atuando de formas inter-relacionadas, constituiria o sujeito na psicanálise. O Id, local onde se originam as pulsões e base da estrutura psíquica, é a instância que seria considerada o lado obscuro, inacessível à consciência, podendo ser considerado nosso verdadeiro Eu.

Sua constituição se forma a partir de impulsos básicos e de nossa vivência primária denominadas de pulsões, as quais buscam o alívio de tensões e das sensações de desprazer oriundas da existência, cujo deslocamento e fixação da pulsão em um objeto, constituiria o desejo que movimentaria o ser em direção à completude perdida (FREUD, 1996).

O objetivo da pulsão é somente descarregar visando a obtenção de prazer, implicando em uma base teórica que indica a natureza humana na visão freudiana, cujo sentindo está intimamente ligado a este objetivo. Contudo para que seja possível a convivência em sociedade, foi necessário para o ser humano desenvolver regras que barrassem alguns impulsos violentos das pulsões, pois, uma vez que o objetivo inicial é a obtenção do prazer, os meios para tal fim poderiam justificar-se inicialmente de qualquer maneira.

A partir do contato com a realidade, forma-se o Ego, constituído por um conjunto de objetos interligados e integrados, os quais formam uma lógica coerente e com identidade, e que inicialmente permite a catexia das pulsões em objetos presentes no mundo externo.  O Ego,portanto, seria a parte consciente do aparato psíquico, que estaria subordinado à uma outra instância que se forma a partir da internalização da autoridade e das regras ditadas por ela (FREUD, 1996).

Forma-se então aquilo que Freud denominaria de superego, uma espécie de intermediário das pulsões do id com o Ego, responsável pela realização das pulsões de acordo com aquilo que seja viável no mundo externo e com as regras sociais e morais, ou seja, o Princípio do prazer não mais regularia de forma imperativa o funcionamento do sujeito, e sim este agiria de acordo com o Princípio da realidade (FREUD, 1996).

O sujeito então o é porque é sujeito do desejo, onde na contemporaneidade coloca-se em questão a manipulação deste desejo, visto que em diversos setores da sociedade o sujeito é capturado em uma lógica que promete a sutura de seu desamparo. O sujeito contemporâneo, conforme cita Enriquez (1996) em suas reflexões acerca do ser humano em suas relações trabalhistas, sofre uma infantilização que impossibilita o saber sobre as suas condições fundamentais, mantendo-o constantemente na busca que objetive a sutura do desamparo, seja pela via do consumo, seja nas relações sociais e de trabalho, seja pela via da medicalização.

5. O Sujeito na Contemporaneidade

O nascimento do ser humano na visão da psicanálise é sempre prematuro. Isto significa dizer que após o nascimento ainda é necessário um investimento de cuidadores, preferencialmente seus pais, que proporcionará ao bebê progredir em sua jornada de tornar-se humano e posteriormente, sujeito.

Com a criação do termo inconsciente, Freud reconfigura a noção sobre o sujeito, transformando-o não mais naquele pautado pela razão, como era em Descartes, mas também naquele que é aonde não pode pensar (BIRMAN, 2005).

Sendo assim, o processo pelo qual nasce o sujeito ocorre pela via das significações e simbolizações, que dão sentido aquilo que se sente enquanto corpo e enquanto ser no mundo. O que acontece na contemporaneidade é que apesar da possibilidade de se fazer da vida aquilo que quiser, tal escolha coloca o sujeito implicado diretamente em suas ações, ou seja, todo o caminho percorrido em sua vida assim o foi por escolha, inclusive aquele que causa sofrimento.

Contudo, reconhecer-se no enredo da própria vida pela via da consciência torna o desatar dos nós formados pelos sintomas da vida cotidiana uma tarefa inviável. O sintoma em psicanálise não possui a qualidade de um sintoma psicopatológico, cuja retirada se faz necessária para que se tenha uma vida dentro do que se considera um padrão saudável. O sintoma na ótica da psicanálise constitui as formas de singularidade que nos foi possível construir em determinado momento da vida, podendo ser considerados como formas de subjetivação (BIRMAN, 2013).

A reflexão, então, baseia-se nesse processo de singularização, onde na contemporaneidade, nosso modo de funcionamento social produz com veemência o narcisismo, implicando em formas inéditas de culto ao Eu. Ao que parece, vivemos em um tempo em que não mais conseguimos extrapolar o olhar do umbigo nosso de cada dia para algo que seja transcendente a nossa própria existência. Isso implicaria no que Birman (2005) define e considera como queda na solidariedade:

Enquanto valor, esta se encontra assustadoramente em baixa. Cada um por si, e foda-se o resto parece ser o lema maior que define o Ethos da atualidade, já que não podemos, além disso, contar mais com a ajuda de Deus em nosso mundo desencantado (p. 25, 2005).

Portanto, a capacidade de colocar-se no lugar do outro encontra-se desvalorizada, uma vez que vivemos sob uma filosofia de glorificação da própria imagem e daquilo que está pronto, no aqui e agora. Viver sob esta conduta de carpe diem pode levar a uma condição de desvalorização das coisas, uma vez que tudo está posto, perde-se a capacidade de atribuir algo de valor subjetivo, tendo como resultado uma perda na capacidade de simbolização. Temos assim a cultura do descartável:

Na sociedade contemporânea o que se assiste é a recusa da condição da falta e do conflito enquanto questões constitutivas. Ou seja, o imperativo do gozo absoluto é respaldado por um mercado cujos ideais são de ordem utilitária, um mercado que gera a promessa, imaginária, que há algo possível e disponível para contornar a condição do desejo (CERRUTI, 2002).

A condição de atribuir valores simbólicos está intimamente ligada a questão do tempo, significando dizer que é por meio deste que o sujeito dará significado a alguma coisa ou a alguém devido a sua história, devido a uma representação.

Na contemporaneidade, o ser humano nasce mergulhado num contexto onde a tecnologia possibilita uma rápida interação com o outro e com o mundo, fazendo com que seja possível ter aquilo que se espera muito rapidamente. Temos as interações nas redes sociais, as conversas por telefones celulares, temos a possibilidade de buscar informação na internet, onde podemos obter resultados quase de forma imediata daquilo que se busca.

Portanto, pode-se compreender a origem de algo peculiar do sujeito contemporâneo que se qualifica como uma incapacidade de suportar a espera, seguida de uma frustração. Em outras palavras, podemos compreender a reação do sujeito frente à castração, que se torna camuflada pelo meio tecnológico e pela filosofia do “tudo posso” (BIRMAN, 2005).

A capacidade de esperar encontra-se diretamente relacionada ao estilo de vida contemporâneo, pois, vivemos em uma época onde tudo acontece de forma muito rápida, aonde as mudanças e as informações chegam de forma quase que imediata. Podemos então ter de lidar com algumas consequências que o avanço da tecnologia convoca no sujeito, como por exemplo, um aumento significativo de pessoas que sofrem de ansiedade, apenas para citar um exemplo. A capacidade de situar as coisas no tempo e no espaço proporcionam a atribuição de um valor simbólico a este mesmo objeto, pois para que seja atribuído um valor, a história se faz necessária, de modo que este objeto passe a ser considerado como constituinte da história do próprio sujeito.

6. Considerações Finais

Em tempos cujo avanço tecnológico proporciona dezenas de benefícios, como a diminuição das distâncias e o prolongamento da vida, este influência diretamente o modo de vida do sujeito contemporâneo, bem como o modelo social ao qual este se encontra inserido, aqui referenciado como o modelo capitalista.

É possível considerar que o caminho que estamos percorrendo na contemporaneidade, de certo modo desvia o sujeito para um funcionamento que possibilite e que reforce a utilização do outro em prol da aquisição de seus desejos, tendo como consequência um estilo de vida que causa sofrimento, tanto para si, quanto para o outro, impossibilitando cada vez mais o colocar-se na situação do outro, uma queda na capacidade de empatia.

Observa-se que em todas as instâncias do organismo social, os traços da perversão se fazem presente, capturando o sujeito para dentro de uma ordem social que o objetifica e o manuseia em prol da perpetuação do modelo. Percebe-se ainda que o tempo na contemporaneidade é para o sujeito um problema, uma vez que o imediatismo toma conta do fluxo das coisas, conviver com a ausência se torna insuportável, criando assim sujeitos cujo a instabilidade psíquica, ou seja, sua própria saúde mental, seja prejudicada pois, a capacidade de elaboração é fundamental para a vida psíquica. O futuro é intimamente ligado à esta capacidade de aprender a ter paciência, uma vez que quem espera tem esperança de que ainda será possível a realização do seu desejo. Portanto, em uma sociedade que não há paciência para se viver a perspectiva de um futuro melhor torna-se cada vez mais escassa.

Portanto, os laços sociais se encontram esvaziados em meio a um contexto que permite tamanha aproximação via recursos tecnológicos, como por exemplo, as redes sociais, mas que é passível de reflexão por conta da fragilidade do enodamento das relações sociais estabelecidas na contemporaneidade, uma vez que o interesse por algo que é do outro é maior do que o outro como totalidade. Tal enodamento impossibilita o desenvolvimento do sujeito no que se refere à manutenção, ou a própria criação de seus laços sociais, amarrando-o a uma existência alienada a algo que será sempre de uma ordem superior a ele próprio, tendo como consequência o sofrimento psíquico.

Parece que a maneira como vivemos nesse mundo moderno, coloca-nos em um bolo emaranhado de nós, onde cada vez mais nos encontramos presos no tecido social de uma forma que não consigamos estabelecer laços genuínos, que possibilite cada sujeito atualizar-se de forma singular no decorrer da vida. Estamos sendo capturados por um estilo de vida perverso, cuja máxima é a utilização do outro como objeto a ser descartado no momento que realizemos nossa satisfação egoísta.

É necessário, contudo, ressaltar que qualquer pesquisa realizada, qualquer pensamento ou reflexão feita, se faz baseada em um determinado tempo, em uma determinada realidade, de modo que os pensamentos mudam e se moldam com o tempo. Sendo assim, não podemos considerar um determinado pensamento como única verdade, pois, a diversidade de olhares, de opiniões é o que acrescenta conhecimento e desenvolve a humanidade.

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