A Instituição e Suas Representações Simbólicas: O Sujeito Enquanto Policial Militar

Resumo: Dentro da abordagem de Análise Institucional foi possível observar vários pontos importantes, no que se refere investigação, análise da instituição, do qual foi realizado o estágio no primeiro semestre desse mesmo ano presente, no Batalhão da Polícia Militar da região de Minas Gerais. Questões como, o prazer e o desprazer relacionado ao desejo ou não, do trabalho -Policial Militar- sendo que, a atuação deste trabalho possivelmente esteja associada a uma autoconstrução de identidade, uma vez que, todo trabalho faz com que o homem seja inscrito e reconhecido no mundo, não somente, em suas relações interpessoais, assim também como, em sua formação subjetiva, onde essa atuação do trabalhador produz vários elementos constitutivos para desenvolvimento do sujeito. Diremos do aspecto possível, do enquadramento do sujeito institucionalizado (sugestionável despersonalização), bem como sobre a questão dos símbolos no que se refere ao indivíduo enquanto policial militar dentro da instituição e no que cerne ao sujeito em sua subjetividade fora da mesma, o que dentre esse aspecto foi possível relacionar, igualmente ou diferentemente, o sujeito ‘dentro’ da instituição e ‘fora’ dela. Usaremos o conceito de Persona, descrito por Jung, para falarmos sobre esses símbolos e a maneira que o homem se apresenta ao mundo. Será dito também sobre o papel do psicólogo, de forma não minuciosa, dentro do contexto.

Palavras- chave: Policial Militar, análise instituição, símbolo, persona.

1. Introdução

Como metodologia foram feitas observações acerca da análise institucional, no que se refere ao Batalhão da Polícia Militar, assim como a abertura de diálogos feitos com policiais militares, dando possibilidade para a fala dos mesmos, como também a sua escuta.

“Diante do medo de serem mal interpretados pelo comando em suas ações ou estarem infringindo regras estipuladas, acarretando consequentemente em punição, alguns policiais acabam adotando a estratégia do silêncio, ou seja, evitam expressar abertamente o que fazem de fato (...)”. (RESENDE, 2007, p.35)

Através disso foi possível buscar conhecimento empírico nas questões que, dentre muitas, foram fundamentais para desenvolvimento desse artigo. Buscou-se o questionamento das relações psicológicas e sociais, bem como a relação da instituição e concepção do indivíduo que ali se encontra, possivelmente ‘moldado’ na mesma, assim como na profissão em si mesma. O que proporcionou o levantamento de análise sobre a instituição associando as questões simbólicas para o sujeito.

O trabalho como sendo praticamente inseparável do homem, tendo como finalidade, também, a autoconstrução humana, que gera a motivação, o sentido, o prazer. Mas um trabalho sem significado, sem sentido, produz sofrimento, adoecimento, onde o indivíduo pode ter sua saúde comprometida.

“Desta forma, o trabalho não é lugar só de sofrimento ou só do prazer, mas é proveniente da dinâmica interna das situações e da organização do trabalho, ou seja, é produto desta dinâmica, das relações subjetivas, conditas e ações dos trabalhadores, permitidas pela organização do trabalho” (MENDES, 1995, p.36).

Logo, se formos observar sobre esses aspectos podemos dizer da relação da formação de identidade do indivíduo associada ao trabalho, sendo esta primeira uma forma de expressividade da constituição do eu, logo de grande importância para o ser humano. Portanto, o papel social que o homem manifesto tem influência enquanto sujeito ativo no mundo, do qual existem qualificações exigidas pelo exercício laboral. “De um lado, a organização do trabalho, caracterizada pela rigidez e por se constituir um sistema de imposições e restrições essencialmente técnicas e imóveis como proposto no taylorismo”. (MENDES, 1995, p.35). Portanto, uma vez que, cada trabalho sugestiona um tipo de personalidade, perfil, ou seja, características em comum dentre os trabalhadores, é importante ressaltarmos os benefícios e os danos que podem ser nocivos a eles, no que se refere a possível hipótese do sujeito institucionalizado, enquanto trabalho prazeroso ou não, associando as questões simbólicas de cada indivíduo. Se for sentido como satisfatório ou não, vai depender de cada sujeito e sua subjetividade, bem como suas manifestações e sentidos por ele dado. “Não devemos esquecer, contudo, que todos eles estão sob pressões consideráveis e exigências conflitantes tanto do ponto de vista técnico como do ponto de vista ideológico.” (SEVERO, 1993, p.19).

2. Desenvolvimento

Dentre vários aspectos e seus pontos culminantes podemos dizer sobre alguns fatores que foram observáveis nesse período do estágio em campo, como a importância que o prazer/desprazer pode estar relacionado ao ‘peso da farda’- positivamente ou negativamente – para o militar, bem como a satisfação ou não pelo trabalho, que pode ocasionar um enquadramento da instituição para com o indivíduo, este no que diz respeito em ‘ser’ um policial militar ‘dentro’ e ‘fora’ da instituição. O que foi possível analisar diante os conceitos tratados nesse artigo, até o momento, foi a relevante característica dos símbolos e seus significados atribuídos aos policiais diante a sua profissão dentro da instituição e sua vida rotineira fora da mesma. Lembrando que a civilização também contribui para formações de valores e de moral que nós, como ‘civilizados’ atribuímos ao ‘mundo externo’ e também a nós mesmos, sendo que esses estão geralmente em conexão na nossa vida.

O símbolo pode ser desde uma palavra até um objeto, uma imagem ou alguma ‘coisa’, sendo que, em alguma instância certos símbolos podem ser intraduzíveis, e/ou de forma não muito manifesta para que seja de fácil observação da expressividade humana. No caso, existem vários campos epistemológicos que estudam os símbolos sobre seus diversos aspectos que estão relacionados, em um grande campo no mundo, mas que, no presente artigo não detalharemos tudo que esse conceito aborda.

Eles são carregados de significados que são caracterizados pelas atribuições de acordo com as percepções dos seres humanos, geralmente segundo sua subjetividade, contando com seu histórico de vida, bem como suas vivências e experiências. Importante observarmos diversos fatores para possível análise, dentre eles, o ambiente de trabalho, suas relações interpessoais, formação de estrutura pessoal, dentre outros.

Usamos do termo de Persona, segundo Jung, para tentar associar e explicar a questão dos símbolos, relacionando-os a maneira de ser e estar do indivíduo no mundo externo, no caso, o que diz respeito ao ‘ser’ policial militar. Sobre conceito de Persona, podemos dizer que:

"O nome vem da antiga máscara usado no teatro grego para representar esse ou aquele papel numa peça e tem, para Jung, o mesmo sentido, ou seja; persona é a máscara ou fachada aparente do indivíduo exibida de maneira a facilitar a comunicação com o seu mundo externo, com a sociedade onde vive e de acordo com os papéis dele exigidos. O objetivo principal é o de ser aceito pelo grupo social a que pertence”(FERREIRA, 2012, p.14).

O diálogo entre os militares e estagiários, quando havia mais deste último no local, no caso. Deu-se principalmente sobre as questões que envolviam os símbolos, no que se refere aos significados que os trabalhadores atribuíam ao ‘poder do uso da arma de fogo’ (porte legal de arma), a farda do policial militar, se essa era sentida por ele como carregar um ‘peso’ ou não, dentro e/ou fora da instituição. Ligado ao símbolo também se tratou de indagá-los sobre o que estaria de significado para eles próprios, o símbolo da ROTAM (Rondas Ostensivas Práticas Metropolitanas), no caso, para aqueles que haviam sido treinados para tal especificidade.        .

Dentro do conceito de Persona, segundo Jung não é nocivo dizermos sobre sua importância, uma vez que, dependemos dela também, como uma maneira de sobreviver no mundo, em nossas relações com os outros. No entanto, há o perigo de o indivíduo identificar-se inteiramente e intensivamente com o papel por ele desempenhado, fazendo com que a pessoa se distancie de sua ‘própria natureza’, ou seja, um sujeito que possivelmente dentro dessa intensa identificação, seria inscrito e vivenciado por si mesmo, sobre os aspectos cristalizados da instituição no que envolva sua atuação laboral. Resaltando, porém, a interferência que a sociedade, enquanto civilização impõe ao indivíduo algumas formas de agir no mundo, que nem sempre está congruente com o que é de desejo do sujeito.

“Basta-nos então repetir que a palavra ‘civilização’ designa a inteira soma de realizações e instituições que afastam a nossa vida daquela de nossos antepassados animais, e que servem para dois fins: a proteção do homem contra a natureza e a regulamentação dos vínculos dos homens entre si” (FREUD, 2011,  p.34)

Nesse sentido, Jung vai dizer que, entre os símbolos comumente usados para a Persona, incluem-se os objetos que usamos para nos cobrir, as roupas (exemplo: farda, uniforme policial), bem como os símbolos de um papel ocupacional, por exemplo, instrumentos de trabalho (arma de fogo, algemas).

“O uso do uniforme é um dos mecanismos que garantem a ostensividade, o que significa tornar-se visível e disponível ao público em geral. Outra peculiaridade é o fato de deter, por força constitucional, o uso legítimo da força, sendo chamado a atuar como repressor de comportamentos agressivos e ilegais que impliquem transtorno da ordem pública. Mas, o policial militar também atua na função de educador e líder na promoção da qualidade de vida dos direitos humanos da comunidade. A essência de seu trabalho é, portanto, administrar conflitos e solucionar problemas de segurança pública, em ações preventivas e repressivas.’’ (RESENDE, 2007, p.33)

3. Considerações Finais

Observou-se que estimulando a fala dos militares foi possível investigar e relatar no presente artigo, através de referenciais teóricos e experiências em campo, como a satisfação ou não e a atribuição de significados do trabalho segundo o sujeito policial militar, são feitos através também, dos símbolos, sobre os aspectos que foram tratados anteriormente.

O objetivo da Análise Institucional crê-se que foi alcançado, que é: tentar dar conta de explicar e chegar mais perto da compreensão da realidade complexa, de maneira como estivéssemos colocando-a em decomposição de elementos, que via de regra, não seriam somente aqueles que estão visíveis na superfície, ou seja, o manifesto, mas a investigação do não-dito, no latente, da face obscura escondida. Esta face que é de interesse da análise institucional, pois ela nos insere no campo da investigação de descobrir mais sobre o que está sendo analisado, fazendo com que seja possível colocar o sujeito como sujeito de implicação. É dessa maneira que o papel do psicólogo na instituição também se dá.

“Os psicólogos locados nos batalhões executam um trabalho peculiar, que vai desde uma ‘escuta’ para decodificar a demanda até o atendimento a militares e dependentes, assessoramento ao comando, palestras e dinâmicas com a tropa, resgatando o equilíbrio, a dignidade, a tranquilidade e a autoconfiança” (BATISTA, A. & CAVAZZA, B. & RESENDE, p.15).

Fazer com que haja possibilidades para a palavra na organização é condição para que se faça presente o surgimento do sujeito, porque é no universo constituído de símbolos que o sujeito se faz e se refaz, vive e revive, estando em constante fugacidade no e com o mundo

Sobre o Autor:

Maiara Freitas de Moura - Discente do curso de Psicologia na FUNEDI-UEMG.

Referências:

RESENDE, Augusto Marcelo. (2007) “Reações Persecutórias em Policiais Vítimas de Violência” Revista de Psicologia – Saúde Mental e Segurança Pública, Belo Horizonte-MG,4, 31-40, jan/dez.

MENDES, B. M. Ana. (1995) “Aspetos Psicodinâmicos da Relação Homem- Trabalho: as contribuições de C. Dejours”. – Psicologia Ciência e Profissão.

SEVERO, Márcia Casella (1993) Livro: “Estratégias em psicologia institucional- I Entrada na Instituição: Conceituação, características e cuidados iniciais”. São Paulo, Edições Loyola.

FERREIRA, Nunes Wanderson. (2012) “Apostila do Grupo de Estudos: A Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung” . Divinópolis-MG

FREUD, S.(2011) “O mal - estar na civilização”. São Paulo: Peguin Classics Companhia das Letras. Tradução por Paulo César de Souza. Editora: Schwarcz LTDA.

BATISTA, A. & CAVAZZA, B. & RESENDE, M. : “A Psicologia na Polícia Militar de Minas Gerias Desafios e Possibilidades”.