Mitologia e Psicologia Analítica: Um Estudo de Caso

Resumo: Por meio de um estudo de caso que mostra o processo de individuação que acontece dentro da experiência religiosa cristã evangélica de um paciente, este artigo tenta explicar a questão do inconsciente Freudiano e Junguiano sob o pano de fundo da mitologia. Aborda a relação de encontro e desencontro entre esses dois gênios da mente humana e procura apaziguar as duas visões de mundo e de homem. O resultado desta tentativa é o objetivo tanto da Mitologia quanto de Jung de fazer-se entender e compreender as realidades que vivenciamos no nosso dia a dia e os desafios de se construir um mundo melhor.

Palavras-chave: Mitologia, Freud, Jung, processo de individuação e Igrejas evangélicas.

1 - Introdução

O que tem a mitologia e a psicanálise em comum? Como a mitologia poderia auxiliar na cura ou no desenvolvimento psíquico de uma pessoa? Jung foi um grande gênio do conhecimento da mente humana, porém suas descobertas são tão profundas e ferem e vasculham os maiores medos e receios humanos que poucos são aqueles que se aventuram a experimentar e defender tais conhecimentos no mundo científico.

Jung em sua busca pessoal e científica sobre a mente humana tem a mesma base e função da mitologia. O explicar de fenômenos da existência por meio de símbolos e metáforas. Arquétipos ou mitos. Esta abordagem, é claro, trouxe um olhar de desconfiança e desdenho da comunidade científica (CAPRA, [1982] 1993, p. 178).

Porém, este relato de caso, à priori embasado na mitologia e nas bases conceituais de Jung, ousa e corre o risco da ter a mesma reação por parte do leitor. Mas a vida não deve ser vivida com medo de fantasmas, espíritos ou mesmo Deus. O enfrentamento da mata escura do inconsciente e das relações com as realidades vividas sempre trarão frutos para os heróis da ousadia.

2 – Conversão Religiosa e Experiências Místicas – Estudo de Caso [01]

Quando o paciente completou dezoito anos de idade teve um surto de solidão e abandono. O desejo enorme de buscar o significado da vida e de sua existência o fizeram procurar Igrejas evangélicas. O contato com Deus e as relações sociais dentro dessas igrejas lhe foram um desafio para compreender a si mesmo.

A primeira experiência se deu antes de adentrar no mundo das Igrejas pentecostais. Estava trabalhando num laboratório industrial e passou a ter visões de espíritos, fantasmas e demônios que saiam do chão onde trabalhava no horário noturno. A única maneira de parar aquelas visões aterrorizantes, que ele encontrou foi lendo a bíblia (embora no início de seu processo não a compreendia muito bem).

No universo das Igrejas pentecostais, espíritos, anjos e demônios travavam lutas para melhorar ou piorar a vida das pessoas. Ele particularmente não podia acreditar nestas questões. Via os pastores e lideres expulsando demônios e invocando os poderes do Espírito Santo sobre as pessoas. Ele queria experimentar aquelas “realidades espirituais”.

A partir dos vinte e um anos então passa a experimentar tais realidades. Na dúvida, quis ver acontecendo em sua vida, todas aquelas experiências relatadas pelos crentes. E assim passou a ter suas próprias experiências. Para a compreensão do seu caminho de individuação selecionam-se aqui fatos relacionados a demônios que foram vivenciados por este paciente enquanto membro de uma igreja e depois como pastor, e a relação de como foi acontecendo – durante seis anos – as mudanças pessoais e dessas realidades espirituais por ele vividas. Esta relação é feita para mostrar o processo de individuação, segundo Jung, pelo qual ele passou.

Quando ele estava no início de sua peregrinação mística, via pessoas expulsando demônios de outras pessoas. Não podemos esquecer que o que o motivou a procurar Igrejas foi sua insatisfação pessoal que quase o levou ao suicídio algum tempo antes dos 21 anos.  A princípio duvidava, mas num desejo de experimentar ou conhecer empiricamente a verdade, ele decide que se era possível tal evento – expulsão de demônios – ele queria ter este poder.

Seguindo as exigências e rituais evangélicos e a fé para que isso ocorresse, em pouco tempo de frequência àquela igreja, foi convidado a fazer visitas nas casas de visitantes que frequentavam- na. Nenhum pastor ou pessoa mais antiga da igreja estava presente. Eram umas seis pessoas com ele.

Chegando a uma casa muito mal arrumada, suja e com a mobília toda desgastada e rôta, encontraram uma senhora muito gorda, mal vestida e suja, infeliz com as questões familiares. Filhos e esposo estavam afundando no álcool, drogas e desemprego.

Quando foi o momento da oração, a mulher ficou transtornada, se encurvou sobre si mesma, seus olhos se serraram, seus braços ficaram arqueados para frente e rígidos e seu rosto estava transtornado. Ficou com um aspecto de uma vaca. Bufava furiosamente. Colocaram-na no centro do círculo das pessoas e, como todos ficaram com muito medo, nosso paciente teve que tomar a frente. Esta foi sua primeira experiência com o mundo espiritual ou místico.

Desde essa experiência ele passa a crer que realmente demônios e Deus existiam e faziam parte da vida cotidiana das pessoas embora elas não o percebessem. Daí em diante passa a se aprofundar nas realidades bíblicas e no conhecimento do evangelho e em dois anos já estava na frente de uma Igreja no centro de Belo Horizonte. Foi durante um ano e meio que teve contatos terríveis e experiências inacreditáveis com forças demoníacas e ali foi ficando cada vez mais consciente dessas realidades invisíveis. Estas experiências foram relatadas em sessões detalhadamente, o que não se pode colocar aqui devido ao objetivo deste.

Porém depois destes anos e continuando à estudar e crescer no conhecimento de Deus, pôde perceber um fenômeno que foi acontecendo. Foi transferido para outra igreja que ficava na periferia de Belo Horizonte, num bairro de classe média. Ele já havia percebido que grande parte das pessoas que ficavam endemoniadas eram pessoas de poucas posses materiais e culturais. Isso o intrigava.

Quando se formou como pastor, estava bem amadurecido nas questões espirituais devido a sua imersão naquelas realidades. Pôde notar então que, na proporção que amadurecia e levava seu povo a amadurecer espiritualmente, o número de pessoas possuídas por demônios foi se escasseando cada vez mais. Ele disse que teve contato com anjos e demônios e no auge do seu trabalho pastoral percebeu que pessoas endemoninhadas não mais entravam na igreja que ele estava à frente.

No início pensou que estava ficando sem “poder espiritual”, porém por ter um senso crítico apurado, percebeu que provavelmente havia algo maior acontecendo ali por detrás de suas experiências.  Quando notou o desaparecimento de demônios de sua realidade eclesial, a explicação que encontrou foi que estava crescendo espiritualmente e que os “demoniozinhos que possuíam as pessoas” não mais queriam confrontar com alguém de seu nível espiritual porque ele agora havia crescido e somente principados e entidades abstratas mais poderosas tinham a coragem de enfrentá-lo.

Munido da fé autêntica de que Deus estava nele e por ele e com ele, foi avançando pelo conhecimento. Criou grupos de discípulos que, aos poucos, foram se tornando grupos de terapias. Num processo de busca pessoal e crescimento espiritual até mesmo as visões de anjos e demônios foram se tornando raras. As experiências com a “aparição” de Jesus e a voz divina que tivera no princípio de suas buscas foram se naturalizando, desaparecendo  e fazendo parte de seu dia a dia apenas uma sensação de paz e certeza de vida.

Neste momento, a denominação à qual pertencia, vendo que seu “poder espiritual” havia acabado e que seu conhecimento parecia “heresias”, o expulsaram de seu meio. Assim ele se viu livre para prosseguir na sua busca. Alguns poucos adeptos o seguiram e estão juntos até os dias de hoje. Um grupo de onze pessoas que experimentam o processo de individuação. Ele veio a tomar consciência de tudo isso quando em terapia no final do ano de 2012. Foram aproximadamente  32 anos de psicoterapia. Os primeiros 21 anos sem o devido conhecimento e os últimos doze anos sendo acompanhada pela nossa psicanalista.

Nas ultimas sessões ele afirmava: “Hoje percebo a vida e o amor, a claridade e a consciência da vida muito presente. Sinto a paz e a convicção de que está tudo sob um controle superior que ainda continuo estudando e buscando compreender. Foi na minha busca pelo sentido de Deus e da vida, que descobri as profundezas do inconsciente tanto freudiano quanto junguiano.  Hoje eu sei por que os “demônios” foram embora e uma paz, uma certeza de vida se instalaram na minha mente e eu tenho uma vida de qualidade invejável!”

Antes de analisarmos este estudo de caso, faz-se necessário que adentremos nas questões mais teóricas e expliquemos mais à frente, o motivo pelo qual a abordagem que foi realizada neste paciente, inicia-se com a psicologia analítica junguiana, depois perpassa pela psicanálise Freudiana e finaliza com a abordagem junguiana.

3 – Freud e Jung

Carl Gustav Jung nasceu a 26 de julho de 1875, em Kresswil, Basiléia, na Suíça, no seio de uma família voltada para a religião. Seu pai e vários outros parentes eram pastores luteranos, o que explica, em parte, desde a mais tenra idade, o interesse do jovem Carl pelas questões espirituais e o pelo papel da religião no processo de maturação psíquica das pessoas, povos e civilizações.

Em 1900, Jung tornou-se interno na Clínica Psiquiátrica Bugholzli, em Zurique, onde estudou com Pierre Janet, em 1902, e onde, em 1904, montou um laboratório experimental. Os seus estudos lhe granjearam alguma reputação, o que o levou, em 1905, aos trinta anos, a assumir a cátedra de professor de psiquiatria na Universidade de Zurique.

Neste ínterim, Jung entra em contato com as obras de Sigmund Freud e, mesmo conhecendo as fortes críticas que a Psicanálise sofria por parte dos meio médicos e acadêmicos na ocasião, ele fez questão de defender as descobertas do mestre vienense, convencido que estava da importância e do avanço dos trabalhos de Freud. Estava tão entusiasmado com as novas perspectivas abertas pela psicanálise, que decidiu conhecer Freud pessoalmente.

O primeiro encontro entre eles transformou-se numa conversa que durou treze horas ininterruptas. A comunhão de ideias e objetivos era tamanha, que eles passaram a se corresponder semanalmente, e Freud chegou a declarar Jung seu mais próximo colaborador e herdeiro (Filme: Um método perigoso, 2011).

Havia uma mútua admiração entre estes dois homens, porém, tamanha identidade de pensamentos e amizade não conseguia esconder algumas diferenças fundamentais, e nem os confrontos entre os fortes gênios de um e de outro. Jung jamais conseguiu aceitar a insistência de Freud de que as causas dos conflitos psíquicos sempre envolveriam algum trauma de natureza sexual, e Freud não admitia o interesse de Jung pelos fenômenos espirituais como fontes válidas de estudo em si (Ibid. 2011).

O rompimento entre eles foi inevitável e doloroso para ambos. O rompimento turbulento do trabalho mútuo e da amizade acabou por abrir uma profunda mágoa mútua, nunca inteiramente assimilada pelos dois principais gênios da Psicologia do século XX e que ainda, infelizmente, divide partidários de ambos os teóricos.

Anterior mesmo ao período em que estava junto com Freud, Jung começou a desenvolver um sistema teórico que chamou, originalmente, de "Psicologia dos Complexos", mais tarde chamando-a de "Psicologia Analítica", como resultado direto de seu contato prático com seus pacientes.

O conceito de inconsciente já está bem sedimentado na sólida base psiquiátrica de Jung antes de seu contato pessoal com Freud, mas foi com Freud, real formulador do conceito em termos clínicos, que Jung pôde se basear para aprofundar seus próprios estudos.

Por complexo, Jung entendia os vários "grupos de conteúdos psíquicos que, desvinculando-se da consciência, passam para o inconsciente, onde continuam, numa existência relativamente autônoma, a influir sobre a conduta do indivíduo" (G. Zunini, 1965). E, embora possa ser frequentemente negativa, essa influência também pode assumir características positivas, quando se torna o estímulo para novas possibilidades criativas.

Assim, Jung descobrira que além do consciente e inconsciente pessoal já estudado por Freud, existiria uma zona ou faixa psíquica onde estariam as figuras, símbolos e conteúdos arquetípicos de caráter universal, frequentemente expresso em temas mitológicos, no subsolo do inconsciente freudiano.

Seus estudos, porém, levam-no a divergir da Psicanálise e a dolorosa ruptura acontece em 1912. Freud sente-se traído. E Jung vê-se em apuros, pois conhecidos e amigos o abandonam. Inicia-se aí o período mais difícil e delicado de sua vida onde ele abandona as atividades acadêmicas e parte para um solitário, terrível e decisivo confronto com o inconsciente - que levará anos e quase lhe será fatal.

O rompimento de Jung com Freud, entretanto, acaba por trazer ao mundo um grande benefício. Jung teve que alçar voo sozinho em busca de respostas para si mesmo. Mergulhou no mais profundo de sua alma, conectou-se com seu inconsciente e buscou lá inspiração e coragem para mudar a face da psicologia.

3.1 – Aplicação:

Como se pode analisar, baseado nas ideais fundamentais de Freud e Jung, o caso apresentado pelo paciente, seus questionamentos e sua busca, não caberiam apenas no arcabouço teórico freudiano. Era preciso mais que isso. A base teórica de Jung parecia servir muito bem para a explicação das questões e experiências apresentadas no relato do mesmo. Sendo assim cabe aqui adentrar-se na mitologia e nas bases explicativas de Jung para que se possa fazer uma análise do caso proposto.

4 – Mitologia e Jung

A mitologia de todos os povos é uma busca para compreender os fenômenos físicos inexplicáveis e também é uma ânsia do ser humano para encontrar o sentido de sua vida. Os gregos antigos enxergavam vida em quase tudo que os cercavam, e buscavam explicações para tudo.

Utilizando de sua imaginação fértil povos – em especial os gregos -  criam personagens e figuras mitológicas das mais diversas. Heróis, deuses, ninfas, titãs e centauros habitam o mundo material, influenciando suas vidas.  Então bastava ler os sinais da natureza, para se conseguir atingir seus objetivos.

Alguns usam os termos mito e mitologia para ilustrar histórias de uma ou mais religiões como algo falso ou duvidoso. Enquanto quase todos os dicionários incluem essa definição, mito nem sempre significa que uma história é falsa, tampouco verdadeira. O termo é constantemente utilizado nesse sentido de descrever religiões criadas pelas sociedades antigas.

Neste artigo utilizamos esse sentido de mitologia e mito: São figuras e metáforas (arquétipos) que tentam explicar a profundidade das experiências não explicáveis empiricamente ainda. São imagens que coletam as qualidades e características da realidade e que habita no imaginário das pessoas.

Num contexto acadêmico, a palavra "mito" significa basicamente qualquer narrativa sacra e tradicional, seja verdadeira ou falsa. O sufixo "-logia", derivado do radical grego "logo", representa um campo de estudo sobre essa narrativa. Assim ampliamos um pouco mais o conceito que utilizamos aqui.

Sigmund Freud, com a psicanálise, introduziu uma concepção trans-histórica e biológica do homem a uma visão do mito como expressão de ideias reprimidas. Estes mitos são usados para demonstrar a existência de desejos, pulsões, ‘instintos’. Através de mitos como o de Édipo, Freud estabeleceu concepções inovadoras a respeito da mente humana, criando teorias diferentes de tudo o que se tinha pensado até então, como o Complexo de Édipo e, fundamentalmente, a ideia de inconsciente. Essa sugestão encontraria um importante ponto de acercamento entre as visões estruturalistas e psicoanalíticas dos mitos no pensamento de Freud.

Carl Gustav Jung estendeu este enfoque com sua teoria do inconsciente coletivo e dos arquétipos. Utilizando-se desta técnica e do estudo dos sonhos e de desenhos, Jung passou a se dedicar profundamente aos meios pelos quais se expressa o inconsciente. Os sonhos pessoais de seus pacientes o intrigavam na medida em que os temas de certos sonhos individuais eram muito semelhantes aos grandes temas culturais ou mitológicos universais, ainda mais quando o sujeito nada conhecia de mitos ou mitologias.

O mesmo ocorria no caso dos desenhos que seus pacientes faziam, geralmente muito parecidos com os símbolos adotados por várias culturas e tradições religiosas do mundo inteiro. Estas similaridades levaram Jung à sua mais importante descoberta: o "inconsciente coletivo". Este mundo inconsciente, onde imperam os arquétipos, que nada mais são que recipientes de conteúdos ainda mais profundos e universais, é pleno de esquemas de reações psíquicas, quase "instintivas", de reações psíquicas comuns à toda a humanidade.

Para Jung, estes esquemas de reações "instintivas" cujo termo ele usa por analogia e não por equivalência, também se encontram nos mitos de todos os povos e nas tradições religiosas. Por exemplo, no mito de Osires, na história de Krishna e na vida de Buda encontramos similaridades fascinantes. Estes padrões arquetípicos expressos, quer a nível pessoal, quer a nível mitológico, relacionam-se com características e profundos anseios da natureza humana, como o nascimento, a morte, as imagens paterna e materna, e a relação entre os dois sexos.

Mas a que tipo de mentalidade corresponde à maneira de expressar simbólica ou metafórica? Ela corresponde à mentalidade do homem primitivo, cuja linguagem não possui termos abstratos, mas apenas analogias naturais e "não-naturais". E da mesma forma como precisamos empregar uma técnica analítica para entender um sonho, assim também necessitamos de conhecimento da mitologia para apreender o sentido de um fragmento que surge de uma camada mais profunda, explica Jung.

Ao estudar mitologia  Jung entendeu que o mito é uma projeção do inconsciente coletivo e refez a história de muitos deuses e heróis da mitologia através de uma visão psicológica.  Viu no mito uma forma de expressão do inconsciente e passou a utilizá-los no entendimento de suas próprias fantasias e sonhos, como também de seus pacientes. Numa de suas cartas, Jung assevera que a “imperfeição chocante da imagem de Deus precisa ser explicada ou entendida. A analogia mais próxima dela é nossa experiência do inconsciente” (JUNG, [1956-1961] 2003a, p. 150).

5 – Processo de Individuação e Arquétipos

A grande busca de Jung consistia em conhecer a si mesmo (ou “si mesmo”) e o significado da vida.  Em suas pesquisas, percebeu que a psique trilha um único objetivo, que é o encontro com seu próprio centro, a unicidade, é o retorno do ego às suas origens.  Deu então a esse objetivo da vida psíquica o nome de Processo de Individuação.

É importante frisar que este si mesmo tem as seguintes características apontadas por Jung, não só de indissociabilidade com a imago dei (imagem divina) (JUNG, [1951] 1990 § 73, 42, 320) (JUNG, [1942/1948] 1983 § 233), como também de intangibilidade, inefabilidade, incomensurabilidade, incognoscibilidade (JUNG, [1944] 1991b § 327), atemporalidade (JUNG, [1949] 2000a § 1419), incorruptibilidade, eternidade (JUNG, [1954] 2000a §1567) e transcendência (JUNG, [1946-1955] 2002, p. 284).

As condições psicológicas do meio ambiente naturalmente deixam traços míticos semelhantes atrás de si. Situações perigosas, sejam elas perigosas para o corpo ou ameaças para a alma, provocam fantasias carregadas de afeto, e na medida em que tais situações se repetem de forma típica dão origem a arquétipos, nome que Jung deu aos temas míticos similares em geral.

O inconsciente, enquanto totalidade de todos os arquétipos, segundo Jung é o repositório de todas as experiências humanas desde os seus mais remotos-inícios: não um repositório morto, mas sistemas vivos de reação e aptidões, que determinam a vida individual por caminhos invisíveis e, por isto mesmo, são tanto mais eficazes.  

Segundo Jung se a consciência nunca se tivesse dissociado do inconsciente — acontecimento que se repete eternamente e que é simbolizado como queda dos anjos e desobediência de nossos primeiros pais — este problema nunca teria surgido, nem tampouco a questão da adaptação às condições ambientais.

O inconsciente coletivo é a formidável herança espiritual do desenvolvimento da humanidade que nasce de novo na estrutura cerebral de todo ser humano. Ele é a fonte de todas as forças instintivas da psique e encerram as formas ou categorias que as regulam, quais sejam precisamente os arquétipos. A consciência, ao contrário, é um fenômeno efêmero, responsável por todas as adaptações e orientações de cada momento.

Jung afirma que “provavelmente estamos muito longe ainda de ter alcançado o cume da consciência absoluta. Todo ser humano é capaz de ascender a uma consciência mais ampla, razão pela qual podemos supor que os processos inconscientes, sempre e em toda parte, levam à consciência conteúdos que, uma vez reconhecidos, ampliam o campo desta última”.

Uma vez que alguém se entrega a esse caminho nada racional, sua vida parecerá ser magicamente conduzida por uma sabedoria maior que Jung denominou self (o si-mesmo), o centro de cada um de nós. Individuar-se significa fazer o ego (a consciência da superfície) ir ao encontro desse centro. Representa separar-se da massa, do turbilhão inconsciente e adquirir autonomia; representa tornar-se uma totalidade psicológica, una e centrada, sem divisões internas, autoconsciente: um in-divíduo.

Este é o caminho que parece que nosso estudo de caso percorreu na busca de sua personalidade total e na busca da sua realização pessoal, na busca de si-mesmo. Para Jung, o futuro da humanidade dependerá diretamente da quantidade de pessoas que conseguirem se individuar.

6 – Psicologia Analítica: Aplicação no Estudo de Caso

Primeiramente é preciso enfatizar que a psicologia analítica não entra nas questões teológicas, Não se trata de uma análise anti-Deus ou anti-cristã. Para Jung o que importa são as imagens das entidades espirituais que se formam na mente humana. Ele vai tratar é exatamente com esta questão. Não há nenhuma preocupação, tanto nele quanto na produção deste artigo em afirmar ou negar as questões da fé Cristã e das experiências vividas por ele ou pelos evangélicos.  Toda a base teórica colocada até o presente momento neste artigo visa situar o leitor na análise que será feita do caso anteriormente relatado.

Podemos perceber que o relato de nosso paciente inicia falando de uma crise pessoal, da solidão que precisava enfrentar ao completar dezoito anos de idade. Parece que há uma ruptura ou paralisação no seu desenvolvimento pessoal. Isso foi tão forte que o tirou de seu lugar social e o lançou atrás de si mesmo.

Segundo Jung, da mesma forma que o meio ambiente assume um aspecto amigável ou hostil para o homem primitivo, assim também as influências do inconsciente lhe parecem um poder contrário com o qual ele deve conviver.  Para ele, no nível mais alto da civilização, as religiões e as filosofias preenchem esta mesma finalidade, e sempre que um determinado sistema de adaptação começa a faltar, surge um estado geral de inquietação e fazem-se tentativas de encontrar novas formas adequadas de convivência com o inconsciente. Assim podemos definir a condição psíquica e social de nosso paciente.

Pude perceber que este paciente encontrou na religião sua forma mais pura de individuação. Seu processo – que durou aproximadamente 10 anos no total – revela como a teoria Junguiana funcionou. Jung afirma que o arquétipo pode ser observável apenas em suas manifestações sempre mutáveis. Seria ele também algo inalterável e onipresente (JUNG, [1961] 1998 § 530) que se manifesta em aspectos físicos, psíquicos e instintivos (JUNG, [1947/1954]1984 § 417). É o que vemos ocorrendo nos relatos de experiência de nosso paciente (Ex: “expulsão de demônios”).

Nos primeiros cinco anos de suas experiências Míticas (religiosas) percebe-se uma evolução. No inicio vê-se a presença de muitos demônios, para mais tarde perceber o desaparecimento total dessas entidades abstratas. Tanto em suas experiências pessoais quanto em seu trabalho como pastor de Igrejas esse fenômeno ocorreu.

Na proporção em que se toma conhecimento de sua história percebe-se que havia realmente “demônios” que o perturbavam e insistiam em lhe aparecer. Tanto em sua vida Pessoal quanto na vida das pessoas que frequentavam a igreja onde ele exercia seu trabalho. Foram praticamente de três à quatro anos intensos de trabalhos com expulsão de demônios.

A psicologia analítica explica este fenômeno afirmando que quanto mais limitado for o campo consciente de um indivíduo, tanto maior será o número de conteúdos psíquicos ("imagines") que se manifestam exteriormente, seja como espíritos ou como poderes mágicos projetados sobre vivos.

Percebemos em seu relato que na medida em que nosso paciente si encontrava, tornava-se consciente de si mesmo, os demônios iam desaparecendo, tanto de sua vida quanto das pessoas que frequentavam o local onde faziam suas reuniões. Segundo Jung, num estádio superior de desenvolvimento, quando já existem representações da alma, nem todas as imagens continuam projetadas; nesse novo estádio, um complexo ou outro pode aproximar-se da consciência, a ponto de não ser percebido como algo estranho, mas sim como algo próprio. Assim, nosso paciente, foi evoluindo (segundo Jung) ou crescendo espiritualmente (segundo o paciente).

Durante todo o período de análise, pôde-se perceber que, num processo de dez anos, este paciente foi revelando que tinha algum distúrbio sexual. Nas sessões terapêuticas foi se revelando aos poucos e, nos meados de seu tratamento, detectou-se que sofria de homossexualidade egodistônica [02]. Enquanto o tempo e as sessões iam se sobrepondo, ele ia aceitando sua condição homossexual. E esta aceitação o fez buscar mais ainda uma relação compreensível com Deus e Jesus Cristo.

No início de seu tratamento ele possuía um campo consciente muito limitado de si mesmo, assim era maior o número de conteúdos psíquicos ("imagines") que se manifestavam exteriormente, seja como espíritos ou como poderes mágicos projetados sobre vivos. Já nos últimos instantes de sua análise chamava Jesus de Vida e Deus de Amor.

Foram anos de análise para que este paciente pudesse encontrar uma harmonia interior. É incrível como que seu processo de auto aceitação culminou numa nova consciência de vida e de religião.

Na medida em que ele se esclarecia e tomava consciência de seu inconsciente conflituoso, iam diminuindo as “visões e experiências religiosas” e “Os demônios” não mais o perturbaram. Seu tratamento culmina numa auto aceitação onde ele afirma: “Hoje percebo a vida e o amor, a claridade e a consciência da vida muito presente. Sinto a paz e a convicção de que está tudo sob um controle superior que ainda continuo estudando e buscando compreender. Foi na minha busca pelo sentido de Deus e da vida, que descobri as profundezas do inconsciente tanto freudiano quanto Junguiano.  Hoje eu sei por que os “demônios” foram embora e uma paz e uma certeza de vida se instalaram na minha mente. Hoje tenho uma vida de qualidade invejável”.

7 - Consideracoes Finais

A maioria dos cursos de psicologia de hoje dedicam, quando muito, uma ou duas disciplinas às ideias de Jung. Assim como a medicina tradicional ainda está presa ao paradigma mecanicista newtoniano, nossa psicologia "oficial" ainda é freudiana/psicanalítica.

Falta espaço suficiente para relatar detalhadamente o caso aqui exposto de forma resumida, mas para o objetivo deste artigo acredita-se ser suficiente. Foi vivenciando seus mitos (ou religiosidade) que nosso paciente, reencontrou-se e pôde continuar sua vida de forma produtiva e em Paz.

Neste pequeno estudo de caso pudemos ver o conceito Junguiano de sincronicidade (a coincidência entre estados psíquicos e acontecimentos físicos sem relação causal entre si), (JUNG, 2000). Isto traz novamente à mentalidade científica a chance de conhecer o mecanismo das grandes coincidências, dos oráculos e de eventos ditos ocultos.  

Este estudo de caso também nos faz pensar na sua sugestão que, assim como a idéia taoísta de unicidade, nosso inconsciente forma com todos os outros um inconsciente, único e coletivo - assim, sem percebermos, estão nossos pensamentos todos interconectados.

Para Jung a vida tem sentido sim, e sua grande finalidade é a individuação: processo de profundo autoconhecimento onde tomamos a coragem de nos confrontar com velhos medos e o que desconhecemos de nós próprios. E Foi exatamente isso que foi mostrado no estudo de caso apresentado, onde se viu um processo de individuação ocorrendo por meio de uma experiência mitológica. Com coragem de adentrar em conceitos muitas vezes incognoscíveis, tomamos a coragem de nos confrontar com velhos medos e o que desconhecemos de nós próprios. E ao sermos conscientizados de tais realidades nos tornamos mais livres e mais felizes.

Sobre o Autor:

Jones de Mattos Silva - Mestrando e Doutorando em Psicanálise Clínica pela Faculdade de Teologia e Ciências FATECC. SP – Prof. Sociologia e Filosofia. Pedagogo, contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Referências:

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Site: http://www.psicoanalitica.com.br/jung.htm