Intervenções em Grupos com Crianças com Queixas de Comportamentos Disfuncionais: uma Importante Ferramenta de Prevenção e Promoção em Saúde Através da Interação Social Mediada

Resumo: Este projeto foi desenvolvido em razão de trabalho realizado em intervenção com grupo de crianças em acompanhamento no Laboratório de Avaliação Psicológica do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP). Durante a realização das atividades com o grupo surgiu o interesse em aprofundar os conhecimentos sobre os efeitos da psicoeducação nas intervenções em grupos com crianças com queixas de comportamento disfuncional. A intervenção em grupos de crianças quando associada à psicoeducação constitui-se como importante ferramenta de saúde pública, uma vez que pode apresentar-se como forma de prevenção e de promoção em saúde mental. Sobre a associação da intervenção com a psicoeducação, esta fornece ao sujeito ferramentas para que ele conheça e detecte os fatores que estão vinculados ao seu problema favorecendo a identificação precoce das situações que despertam reações e pensamentos disfuncionais, o que acaba por aliviar os pensamentos e alterar comportamentos não saudáveis. Sobre os ganhos dessa interação em grupos e seus efeitos sobre o desenvolvimento biológico e cognitivo sempre aliado à psicoeducação, enfatizaremos os benefícios da interação social no desenvolvimento orgânico e cognitivo. Objetivo: Analisar como a psicoeducação pode atuar como estratégia de prevenção e promoção de saúde mental com crianças com queixas de comportamentos disfuncionais. Método: Através de um desenho descritivo, será realizado um relato de experiência a partir das atividades desse grupo. A população do estudo será composta por crianças atendidas no Laboratório de Avaliação psicológica do IMIP - LAP. Além do relato da experiência, serão coletadas informações advindas da ficha de anamnese da criança encaminhada para acompanhamento.

Palavras-chave: Intervenção, Grupos, Psicoeducação e Interação Social.

1. Introdução

Na atualidade, parece haver um crescente aumento nas demandas à atenção infantil. A modalidade de atenção à criança requer do psicólogo a necessidade de convergência de saberes e a construção de novos modelos de intervenção que envolva, além dos aspectos biológicos, o contexto sócio-cultural e econômico no qual a criança está inserida.

Diante de expressiva demanda por avaliações, existe a carência de serviços especializados e com foco em intervenções cognitivo comportamentais nos serviços públicos de saúde. A experiência do estágio fez surgir o interesse em aprofundar os conhecimentos sobre os efeitos da psicoeducação nas intervenções em grupos com crianças, em especial aquelas que apresentavam queixas comportamentais e escolares.

Para Dobson e Cherrer (2004), existem aspectos fundamentais que identificam a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), entre eles destacam-se o quanto a mudança de comportamento pode ser mediada pelos mecanismos cognitivos. Ou seja, nessa perspectiva pode ocorrer mediante a influência da atividade cognitiva no comportamento, a expectativa de que essa atividade cognitiva pode ser alterada e monitorada e também que o comportamento desejado pode ser influenciado através da mudança cognitiva.

Sobre o trabalho com grupos desenvolvidos a partir dessas intervenções, notadamente, a psicoterapia em grupo surgiu em um contexto de necessidade e desenvolvendo-se mais durante a segunda guerra mundial, período de grande demanda por esse tipo se abordagem, tendo em vista a escassez de profissionais e a grande demanda pelos serviços. Nesse tipo de terapia faz-se uso de recursos próprios e inexistentes na terapia individual (Cordioli e cols, 2008). Assim, o terapeuta passa a ter acesso aos conflitos de relacionamento dos participantes através da observação da interação entre eles.

Segundo Cordioli e cols (2008), Yalom propôs um conjunto de 11 fatores que seriam considerados terapêuticos nas intervenções em grupo e responsáveis pelas mudanças apresentadas pelos integrantes dos grupos: Instilação de esperança; Universalidade; Compartilhamento de informações; Altruísmo; Recapitulação corretiva do grupo familiar primário; Desenvolvimento de técnicas de socialização; Comportamento imitativo; Aprendizagem interpessoal; Coesão grupal; Catarse; e Fatores existenciais.

A instilação da esperança é por si só terapêutica e mantém o cliente em terapia além de possibilitar melhora significativa em relação à cura. A universalidade desempenha um papel importante na terapia grupal, ao perceberem que outras pessoas vivenciam situações e sentimentos semelhantes são tomados por um sentimento de alívio. O compartilhamento de informações é um contexto ideal de parceria e colaboração, possibilita a aprendizagem.

O aconselhamento direto quando os membros do grupo podem compartilhar de emoções e vivências. O altruísmo, permitindo que os membros possam perceber-se como capazes de oferecer algo importante a outrem atribuindo assim sentido a sua vida. A coesão grupal, que se dá quando os membros do grupo têm sentimento de pertencimento, de afeto, de conforto e de respeito. A catarse e os fatores existenciais envolvem o sentimento de pertencimento e respeito no grupo, pois facilita ao individuo as descargas emocionais possibilitando-lhe refletir sobre suas emoções, explorar aspectos próprios do ser que ainda estão desconhecidos ou são evitados, sendo um caminho importante para a mudança.

Nesse contexto, a Terapia Cognitivo-Comportamental em Grupos (TCCG) passa a ser reconhecida como um sistema que possibilita a utilização de diferentes técnicas na busca de minimizar sintomas específicos. Um dos aspectos marcantes dessa modalidade é a organização dos grupos considerando metas comuns (NEUFELD, 2011). Assim, a intervenção em grupos lança mão de recursos presentes na TCC, uma vez que considera que o ser humano pode ser afetado e superar suas dificuldades através da interação mediada com o outro. Um exemplo disso é como a psicoeducação pode ser utilizada como uma importante ferramenta de prevenção e promoção de saúde, principalmente no universo infantil.

A psicoeducação é compreendida como um modo de ensinar princípios  e conhecimentos psicológicos relevantes, ocorridos ou não em contexto de  terapia, sempre considerando as necessidades de aprendizagem e muitas vezes lançando mão de recursos como livros, folhetos, ou materiais que melhor se adaptem ao perfil e necessidades do cliente naquele momento, sempre de maneira a ajudá-los a melhor compreender os benefícios terapêuticos dessa técnica de forma a superar suas crenças e comportamentos disfuncionais (DOBSON e DOBSON, 2010).

O desenvolvimento humano se dá concomitantemente nos níveis afetivo, cognitivo, social e físico-motor, incumbindo à psicoeducação mediar às interações entre o indivíduo e o ambiente, com vistas a gerar uma promoção e atualização do desenvolvimento, em todo seu potencial (Bazon, 1997). E é nesse cenário que a atuação do psicólogo através de uma intervenção em grupo com crianças, pode ser mediada.

A psicoeducação consiste em uma ferramenta responsável por integrar informações acerca das queixas para que atividades e estratégias possam ser desenvolvidas. Colom & Vieta (2004) referem que a associação da intervenção em grupos com a psicoeducação pode fornecer ao sujeito ferramentas para que ele conheça e detecte os fatores que estão vinculados ao seu problema. Assim, a identificação precoce das situações  que despertam reações e pensamentos disfuncionais acaba por aliviar os pensamentos e alterar comportamentos não saudáveis.

Etimologicamente a palavra intervenção vem do latim interventio que como substantivo significa: ato de intervir, ação conciliadora de terceiro, intermédio (Priberam, 2014). Assim, intervir diz sobre a possibilidade do agir sobre uma pessoa, contribuindo para que esta possa desenvolver estratégias ou habilidades que possam auxiliar no enfrentamento das dificuldades, queixas ou mesmo fomentando estratégias de prevenção.

Para Figueira, Ferreira Schall e Modena (2009) a percepção sobre prevenção  se expressa através de ações que evitam o aparecimento, progressão ou agravamento de alguma doença. E nessa perspectiva, a promoção de saúde é concebida como um nível de prevenção e associada à responsabilização individual e ao conceito positivo de saúde. Portanto, intervenções preventivas teriam como foco evitar a manifestação de agravos específicos (prevenção primária), de promover a cura, limitando-se os danos (prevenção secundária) e de reabilitar o indivíduo (prevenção terciária). Ou seja, trata-se de um conjunto de medidas objetivando melhorar a percepção de saúde e de bem estar geral da pessoa.

Reforçando a ideia de que a intervenção em grupos é da ordem da prevenção em saúde, Campos, Rodrigues, Machado e Alvarez (2007), em uma pesquisa realizada com grupo de crianças com câncer, confirmou a probabilidade de intervenção em grupo  com efeitos equivalentes aos da psicoterapia, pois propiciou aos participantes a possibilidade de entrar em contato com seu mundo interno e de lançar mão de recursos até então desconhecidos para eles.

Este trabalho de conclusão de curso relata a intervenção em grupo com crianças e os relatos da literatura apontam que, este tipo de intervenção, quando associada à psicoeducação pode constituir-se como importante ferramenta de saúde pública, uma vez que pode apresentar-se como forma de prevenção e de promoção em saúde mental além de contemplar o contingente de crianças que não dispunham de serviço especializado onde pudessem ser atendidas.

A psicoeducação fornece ao sujeito ferramentas para que ele conheça e detecte os fatores que estão vinculados ao seu problema, favorecendo a identificação precoce das situações que despertam reações e pensamentos negativos, o que acaba por trazer alívio alterando os comportamentos não saudáveis e disfuncionais apresentados. A propósito dos ganhos dessa interação em grupos e seus efeitos sobre o desenvolvimento biológico e cognitivo sempre aliado à psicoeducação, serão descritos os efeitos da interação social no desenvolvimento orgânico e cognitivo, analisando como este tipo de intervenção pode atuar como estratégia de prevenção e promoção de saúde mental com crianças com queixas escolares.

2. Objetivos

2.1 Objetivo geral:

      • Descrever uma proposta de intervenção em grupo para crianças com queixas de comportamentos disfuncionais atendidas em grupo no Laboratório de Avaliação Psicológica do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP), Recife, Brasil.

2.2 Objetivos específicos:

      • Descrever a Terapia Cognitivo-Comportamental como estratégia de intervenção em grupo com crianças;
      • Descrever atividades lúdicas utilizadas para estimulação cognitiva no contexto psicoterapêutico;
      • Determinar o perfil sóciodemográfico das crianças atendidas (gênero, idade, escolaridade, repetência, alfabetização, idade ao andar, idade ao falar, idade ao aprender a usar o banheiro, sono, motivo do encaminhamento, histórico de doença mental na família, percepção da criança sobre a relação dos pais, percepção da criança sobre relação com amigos, estado civil dos pais, número de irmãos, tipo de moradia, com quem mora);
      • Determinar o perfil sóciodemográfico dos pais acompanhantes (gênero, idade, escolaridade, histórico de repetência, alfabetização, histórico de doença mental na família, presença de doença mental nos pais; gravidez planejada, percepção dos pais sobre a relação entre eles, estado civil dos pais, tipo de moradia, número de filhos percepção do acompanhante sobre a relação com o parceiro, percepção da acompanhante sobre relação da criança com colegas/amigos);

3. Material e Métodos

3.1 Desenho do estudo

Estudo descritivo, relato de experiência.

3.2 Local do estudo

O estudo foi realizado no Laboratório de Avaliação Psicológica do Instituto  de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira, na cidade do Recife, Brasil.

3.3 Período do estudo

O estudo foi realizado no período de fevereiro de 2014 a dezembro de 2014. Em relação ao acompanhamento com o grupo somente foi iniciado após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos e a coleta de dados foi realizada de agosto a novembro de 2014.

3.4 População do estudo

A população do estudo foi composta por um grupo de seis crianças encaminhadas pelo ambulatório de psicologia do IMIP no ano de 2014.

3.5 Critérios de elegibilidade

Como critérios de inclusão, as crianças deveriam ser encaminhadas pelo Ambulatório de Psicologia do IMIP para Avaliação Psicológica com queixas de alterações comportamentais e realização de avaliação psicológica. Foram excluídas crianças que não concluíram o processo de avaliação psicológica antes do início das atividades do grupo.

3.6 Coleta de dados

Os dados foram coletados nos dias em que ocorreram a intervenção, uma vez por semana, durante 10 semanas, no Laboratório de Avaliação Psicológica do IMIP.

3.7 Instrumentos para coleta de dados

Antes do início das atividades do grupo, foram coletadas informações através de uma ficha de anamnese padronizada do Laboratório de Avaliação Psicológica do IMIP (Anexo 1)

3.8 Processamento e análise dos dados

Os dados foram descritos organizados em blocos de sessões objetivando uma melhor compreensão das intervenções. Antes da descrição das sessões, os dados sociodemográficos foram descritos para contextualizar o grupo.

3.9 Aspectos éticos

O projeto de pesquisa foi elaborado seguindo as normas e diretrizes propostas pela resolução 466/12 e a pesquisa somente foi iniciada após a avaliação e autorização do Comitê de Ética e Pesquisa com Seres Humanos. Cada responsável pela criança (pai e/ou mãe), além da criança, foi convidado e apenas após a compreensão dos objetivos da pesquisa e intervenção em grupo, bem como assinatura do Termo e assinatura do Termo de Assentimento pela criança (Apêndice 1) e do Termo de consentimento livre e esclarecido pelos pais ou responsáveis pela criança (Apêndice 2), a pesquisa foi iniciada.

4. Resultados

Considerando a proposta metodológica da Faculdade Pernambucana de Saúde, os resultados deste projeto de pesquisa serão apresentados no formato de artigo.

Caracterização do Perfil dos participantes:

Participaram da intervenção em grupo X crianças. As atividades aconteciam uma vez por semana com a duração de uma hora e meia. Para uma melhor compreensão do grupo, as características sócio-demográficas são descritas nas tabelas abaixo.

A Tabela 1 descreve o perfil sociodemográfico das crianças integrantes do grupo.

Tabela 1

Perfil Sociodemográfico das Crianças do Grupo do LAP - IMIP (2014)

Perfil Sociodemográfico das crianças Relação das crianças
           
Gilberto Denis Paulo Roberto Susi Heleno
Gênero:            
Masculino x x x x   x
Feminino         x  
             
Idade da criança:            
8 anos     x   x  
10 anos           x
11 anos x x   x    
             
Escolaridade da criança:            
1º ano     x      
2º ano         x  
3º ano       x   x
4º ano x          
5º ano   x        
             
Repetência da criança            
Sim x   x x   x
Não   x     x  
Sem resposta / Não informado            
             
Alfabetização da criança            
             
             
             
             
Sim x x x x x x
Não            
Parcialmente            
             
Idade ao andar            
Anos 1 0 1 0 0 2 a 3
Meses 6 10 0 11 8 0
             
Idade ao falar            
Anos 0 0 2 1 1 4
Meses 8 7 0 0 0 0
             
Idade ao usar o banheiro            
Anos 1 1 2 2 1 3
Meses 6 0 0 0 6 0
             
Sono            
Tranquilo x x x x    
Agitado           x
Insônia         x  
             
Queixa principal            
Retardo       x    
TDAH         x x
Dislexia           x
Epilepsia x          
Escolar x x x x x x
Comportamental x   x x x x
             
Histórico de doença mental na família            
Sim x x x   x x
Não       x    
Sem resposta / Não informado            
             
Gravidez Planejada            
Sim   x   x    
Não x   x   x x
             
Sociabilidade da criança            
             
             
             
             
Introvertido x     x    
Extrovertido x x x   x x
Agressivo            
Não gosta de fazer amizades            
             
Estado civil do pai            
União estável x       x  
Casado   x x      
Separado       x    
Solteiro           x
Sem resposta / Não informado            
             
Estado civil da mãe            
União estável x       x  
Casada   x        
Separada       x    
Solteira     x     x
Sem resposta / Não informado            
             
Intercorrências            
Na gravidez     x      
No parto x x x x x x
Sem resposta / Não informado            
             
Com quem mora            
Pai e mãe x          
Pai, mãe e irmãos   x     x  
Mãe e irmãos            
Mãe, avó e tia     x x    
Mãe           x
             
Número de irmãos            
1   x     x x
2 x     x    
3            
4     x      
             
Tipo de moradia            
Própria   x x      
             
             
             
             
Alugada x         x
De terceiros (ex: mãe, sogra, etc.)            
x x
Sem resposta / Não informado            
             
Relação entre os pais            
Boa   x     x  
Regular x     x   x
Ruim     x      
Inexistente            
             
Lazer da Criança            
Solitário x       x  
Coletivo            
Ambos   x x x   x
             
Renda familiar            
Menos de 1 Salário Mínimo            
x x x
1 Salário Mínimo     x   x x
Mais de 1 Salário Mínimo            
Sem resposta / Não informado            
             
Paga aluguel?            
Sim x         x
Não   x x x x  
Sem resposta / Não informado            

Fonte: Pesquisa Direta

A maioria das crianças é do sexo masculino com idades que variam entre 8, 10 e 11 anos. A escolaridade o grupo, esta se apresenta bem variada e contempla crianças entre o 1º ao 5º ano do ensino fundamental; a repetência é presente na maioria dos membros do grupo; todos foram alfabetizados, apesar de alguns apresentarem dificuldades na leitura e escrita.

Em relação ao desenvolvimento, o início da fala, do andar e de usar o banheiro não apresentou discrepância do esperado para a idade na maioria dos casos; o sono foi qualificado pelos acompanhantes das crianças como tranquilo para a maioria, dos integrantes do grupo; no que diz respeito à queixa principal encontrou-se em todos a presença de queixa escolar e, em sua maioria, problemas comportamentais. Consta para alguns a presença de deficiência intelectual, dislexia, epilepsia e TDAH.

Há histórico de doença mental na família para a maioria dos integrantes do grupo; também para a maioria, a gravidez não foi planejada. Em relação à sociabilidade dos participantes, a maioria foi qualificada como extrovertidos pelos pais. O estado civil dos acompanhantes/mães das crianças do grupo este encontra-se bem diversificado, podendo encontrar desde solteiros, separados, casados e em regime de união estável. Em todos os casos, foram relatadas pelas mães a presença de intercorrências durante o parto e apenas um durante a gravidez e parto; a maioria das crianças mora com a mãe; quanto ao número de irmãos a maioria possui apenas um irmão, sendo seguido de dois; a maioria delas não tem casa própria e mora com outras pessoas (mães, tias ou sogras) e a outra parte mora com terceiros, em geral parentes próximos ou parentela.

Sobre a relação entre os pais das crianças, a maioria qualificou esta relação como regular, sendo seguida de boa e apenas uma como ruim. Nas atividades de lazer foi referido que as crianças brincam só, mas também interagem com outras crianças. A renda das famílias é baixa, metade enquadrou-se em menos de 1 salário mínimo e a outra metade em um salário mínimo.

A Tabela 2 descreve o perfil sociodemográfico das acompanhantes das crianças.

Tabela 02:

Perfil Sociodemográfico do Acompanhante das Crianças do LAP - IMIP (2014)

Perfil Sociodemográfico do Acompanhante

Relação das crianças e qual o seu acompanhante

Gilberto

(Mãe)

Denis

(Mãe)

Paulo

(Mãe)

Roberto

(Mãe)

Susi

(Mãe)

Heleno

(Mãe)

Gênero:

           

Masculino

           

Feminino

x

x

x

x

x

x

             

Idade

           

33 anos

       

x

 

34 anos

x

 

x

     

35 anos

           

36 anos

     

x

   

37 anos

           

38 anos

         

x

39 anos

           

40 anos

 

x

       
             

Escolaridade

           

Ensino Fundamental Completo

           

Ensino Fundamental Incompleto

x

     

x

x

Ensino Médio Completo

 

x

x

x

   

Ensino Médio Incompleto

           
             

Histórico de repetência

           

Sim

x

x

x

x

x

X

Não

           

Sem resposta / Não informado

           
             

Alfabetizado

           

Sim

x

x

x

x

x

x

Não

           
             

Histórico de doença mental na família

           

Sim

x

x

   

x

x

Não

     

x

   

Desconhece

   

x

     

Sem resposta / Não informado

           
             

Gravidez Planejada

           

Sim

 

x

 

x

   

Não

x

 

x

 

x

x

             

Estado Civil do Acompanhante Principal

           

União estável

x

     

x

 

Casado

 

x

       

Separado

     

x

   

Solteiro

   

x

   

x

Sem resposta / Não informado

           
             

Tipo de Moradia

           

Própria

 

x

       

Alugada

x

       

X

De terceiros (ex: mora com parente)

   

x

x

x

 

Sem resposta / Não informado

           
             

Relação entre os pais

           

Boa

 

x

   

x

 

Regular

x

   

x

 

x

Ruim

   

x

     

Inexistente

           
             

Profissão do Acompanhante Principal

           

Dona de casa

x

   

x

x

x

Operadora de máquina

 

x

       

Serviços gerais

   

x

     
             

Recebe benefício do Governo (ex: Bolsa Família)

           

Sim

 

x

 

x

x

X

Não

x

         

Sem resposta / Não informado

   

x

     
             

Possui Renda Própria

           

Não tem renda

x

   

x

x

X

Menos de 1 Salário Mínimo

 

x

       

1 Salário Mínimo

           

Mais de 1 Salário Mínimo

           

Sem resposta / Não

   

x

     

informado

           
             

Paga Aluguel?

           

Sim

x

   

x

 

X

Não

 

x

x

 

x

 

Sem resposta / Não informado

           

A maioria dos acompanhantes das crianças do grupo é do sexo feminino; em geral as mães; as idades variam entre 33 até 40 anos. Metade das mães tem ensino fundamental incompleto enquanto e o restante afirma possuir o ensino médio completo. Todas elas apresentaram histórico de repetência e afirmam serem alfabetizadas.

Quanto ao estado civil, este se apresenta diversificado tendo duas enquadrando-se como em união estável, duas como solteiras, uma como separada e uma casada; sobre o tipo de moradia a três afirmam morar com terceiros, duas em moradias alugadas e uma em casa própria. Quanto à profissão, quatro são donas de casa, uma operadora de máquina e uma de serviços gerais; sobre o recebimento de algum benefício do governo (ex: bolsa família) a maioria afirma receber, apenas uma diz não receber e outra não respondeu. A maioria não possuir renda própria, uma possui renda de menos de um salário mínimo e uma não respondeu;

Planejamento e funcionamento do Grupo

As sessões foram realizadas uma vez por semana, durante 10 semanas, com um grupo de 06 (seis) crianças. Concomitantemente, aos pais e mães que acompanhavam seus filhos, era oportunizado um espaço para falar sobre as dificuldades das crianças e as suas próprias em lidar com os comportamentos disfuncionais relatados na queixa inicial.

Para todas as sessões, foram previamente programadas atividades com foco no desenvolvimento de habilidades sociais e aprendizagem de novos comportamentos e estratégias para lidar com situações difíceis. As atividades lúdicas, por exemplo, buscavam trabalhar atenção, memória, controle de inibição de comportamento e as habilidades sociais em relação ao respeito às regras de convívio social. Nos grupos eram discutidas situações reais a partir do relato dos participantes, bem como, fomentadas

situações fictícias objetivando desenvolver novas estratégias de pensamento e sempre preservando os limites de cada integrante, interação grupal e social, desenvolvimento de empatia, identificação das emoções boas e ruins, como por exemplo, ocorre com a ansiedade vivenciada em relação às dificuldades nos relacionamentos, dificuldades com as demandas da escola e dos colegas, além de promoção da melhora na auto-imagem e auto-estima. As intervenções eram realizadas apenas quando necessárias e sempre procurando estimular o grupo a encontrar a solução para a demanda apresentada.

Durante as sessões foram inseridas atividades para estimular a iniciativa e participação dos membros do grupo em sugerir novas atividades para as sessões seguintes e também eram passadas tarefas para ser realizadas em casa e trazidas no encontro seguinte, trabalhando assim aspectos como o compromisso com o grupo, a coesão grupal, memória, empatia e afetividade. Os encontros serão descritos abaixo em forma de sessões para facilitar a compreensão da intervenção.

SESSÕES

OBJETIVOS

DESCRIÇÃO

Estabelecer o vínculo terapêutico e realizar contrato terapêutico de compromisso com  o grupo;

Estabelecimento de regras para o grupo;

Avaliação      do

conhecimento das crianças sobre o seu contexto de vida através do  relato sobre suas atividades diárias.

Apresentação dos participantes e da equipe (psicólogo e estagiária); do objetivo da atividade do grupo e do contrato de trabalho;

Os participantes se apresentavam e descreviam as suas atividades diárias. Diante do relato era possível avaliar o contexto em que viviam, os tipos de conflitos mais comuns e possíveis dificuldades cognitivas e comportamentais. Além das atividades eram questionadas informações básicas sobre autoconhecimento e autoconceito: nome completo, idade, data de nascimento, nome dos pais, bairro onde moram, cidade, etc.

Para avaliação de escrita foram utilizadas peças contendo letras para a formação das palavras e peças contendo números para a formação de datas;

Os comportamentos eram observados através da relação entre os participantes, destacavam-se inicialmente dificuldade de controlar impulsos, a fala e a frustração diante das interferências dos colegas. Esse tipo de reação auxilia ao  desenvolvimento

   

das regras de convivência do grupo.

Avaliar memória,

habilidades sociais, respeito às regras do grupo e controle

comportamental.

Atividades com o uso do relógio, reconhecimento de horas e associação com horários das atividades diárias;

O treino de habilidades sociais era desenvolvido após a fala de cada criança, sempre pensando em uma forma melhor de lidar com as situações, por exemplo, em esperar o outro falar e dar a resposta sem a interferência dos demais.

Desenvolvimento de tarefas com foco na noção de tempo, datas e descrição de momentos passados e planejamento de tarefas futuras. Foram utilizados peças contendo números para que as  datas fossem formadas;

Avaliar estratégias de planejamento, empatia, trabalho em grupo, criatividade, raciocínio lógico e abstrato.

Desenvolvimento de atividades lúdicas e competição entre os participantes: jogo da velha e jogo de encaixe de cores realizados em duplas. Ao final da atividade sempre era realizada discussão com as crianças sobre os pontos positivos e negativos do dia.

Treino de memória, controle comportamental, respeito às regras e tolerância à frustração.

Relato individual sobre como foi o final de semana, tipo de atividades realizadas nos contextos: família, escola e vizinhança;

A ordem das falas foi realizada por sorteio e essa regra foi estabelecida pelo próprio grupo. Ao final foram discutidas as falas e a identificação de comportamentos ou ansiedades vivenciadas pelas crianças.

Treino de memória, capacidade de elaboração e abstração, controle de comportamento, respeito às regras do grupo.

Realização de atividades em duplas. Cada dupla recebia uma tarefa que deveria ser realizada através de mímica para que o grupo conseguisse adivinhar. Nesse dia as mímicas foram sobre animais; Novamente foi utilizado o sorteio como estratégia de organização da ordem de apresentação das duplas. Após a finalização da atividade foi realizada tarefa com massa de  modelar para expressão de criatividade em grupo.

Treino de habilidades sociais e elaboração de novos comportamentos; Trabalho com a auto- estima das crianças.

As regras do grupo que foram elaboradas apenas oralmente, neste encontro foram escritas em um cartaz. Cada criança ficou livre para dizer as propor novas. Também foram sugeridos pelos membros nomes para o grupo e depois foi realizada uma votação; o nome eleito foi “Grupo do Sol”; Ao final foi desenvolvido com as  crianças

   

a elaboração de um jogo de memória com carinhas coloridas. Cada criança recebia dois pedaços de cartolina para fazer dois desenhos idênticos. Ao final, todos os desenhos foram misturados e as crianças jogaram um jogo da memória.

7.

Avaliar raciocínio matemático, lógica e treino da capacidade expressiva e criativa das crianças.

Foi realizada uma simulação de compras utilizando dinheiro de brincadeira para que cada criança pudesse treinar fazer cálculos do quanto gastou e quanto deveria receber de troco.

Treino de memória, estímulo de planejamento, raciocínio lógico, controle comportamental e

desenvolvimento de pensamento alternativo

Realizada atividade com um jogo de memória. Foram cinco rodadas e  mais uma para desempate. Buscou-se avaliar: memória, raciocínio lógico, planejamento, controle inibitório e tolerância à frustração.

Treino de memória, conhecimentos gerais, estímulo de planejamento, raciocínio lógico e matemático, além de tolerância à frustração. Coesão grupal, controle de comportamento, respeito às regras elaboradas pelo grupo.

Realização de atividade com foco em habilidades matemáticas. Foi elaborada uma atividade de simulação de compra e venda de animais com o uso de dinheiro de brinquedo. Cada criança recebeu um valor que poderia utilizar para comprar um animal do colega e passar troco. Assim, cada criança fazia cálculos enquanto se divertia.

Atividade de jogo de memória com o auxílio de pistas. Foram dispostas na mesa diversas figuras e cada criança deveria pegar uma figura de acordo com a pista dada pelo profissional. Assim, além de memorizar o local das figuras, cada criança tinha que ficar atenda aos detalhes contidos nestas.

10ª

Finalização das atividades do grupo. Reforço a continuidade das atividades desenvolvidas e também em relação ao vínculo afetivo entre mãe e filhos.

Foi desenvolvida atividade de estímulo a continuidade de observância as regras desenvolvidas em grupo. Cada integrante escreveu suas próprias regras para seguir em casa, manifestando o que gostaria que fosse respeitado e feito em casa.

Paralelamente a essa atividade com as crianças, as acompanhantes foram estimuladas a elaborarem um cartão que seria entregue a criança com os pontos positivos delas e sobre a sua importância afetiva na vida de cada uma.

Assim, a atividade de finalização foi com todas as crianças e todas as mães e  houve

   

um momento importante de troca e fortalecimento do vínculo entre mãe e filhos.

Vale ressaltar que, no momento em que as atividades com as crianças aconteciam, também foi disponibilizado um espaço de acolhimento para as mães. Nesses encontros puderam ser discutidas questões sobre a rotina diária das crianças, as relações afetivas entre os membros da família, queixas referentes às dificuldades escolares e principalmente as queixas comportamentais. Ao final das atividades, os facilitadores desses dois espaços (das mães e das crianças) podiam conversar para facilitar, inclusive, a elaboração das atividades da semana seguinte.

No grupo de mães, uma estratégia importante foi a utilização de histórias que eram contadas pela facilitadora do grupo para, posteriormente, serem discutidas pelas mães. As histórias continham no seu núcleo, dificuldades vivenciadas por pessoas que conseguiam superá-las com planejamento, motivação e o apoio de pessoas próximas.

5. Discussão

Para todas as sessões, foram executadas atividades previamente programadas com foco no desenvolvimento de habilidades sociais e aprendizagem de novos comportamentos e estratégias para lidar com situações difíceis. Através das atividades lúdicas, trabalharam-se pontos frágeis no grupo como a atenção, memória, controle de inibição de comportamento e as habilidades sociais em relação ao respeito às regras de convívio social.

Foram discutidas situações reais a partir do relato dos participantes, bem como, fomentadas situações fictícias para desenvolver novas estratégias de pensamento e sempre preservando os limites de cada integrante, interação grupal e social, desenvolvimento de empatia, identificação das emoções boas e ruins, como por exemplo, ocorrem com a ansiedade vivenciada em relação às dificuldades nos relacionamentos, dificuldades com as demandas da escola e dos colegas, além de promoção da melhora na auto-imagem e auto-estima. Em geral, as próprias crianças seguiam na busca para resolução de problemas, porém, intervenções foram feitas quando observadas as sua necessidade. Observou-se como importante e com resultado mais efetivo sempre quando integrantes do grupo eram estimulados a encontrar a solução para a demanda apresentada, trabalhando aspectos como o compromisso com o grupo, a coesão grupal, memória, empatia e afetividade.

Entre os autores que falaram sobre as influências sociais sobre o sujeito, Bandura (2005) aborda a valorização do desenvolvimento cognitivo do indivíduo, mostrando que o comportamento pode ser influenciado por fatores como o semelhante do mesmo sexo ou idades, por exemplo. Neste processo de aprendizagem existem alguns elementos que são tão importantes quanto o estímulo e o reforço, entre eles destacam-se a atenção, a retenção, a reprodução motora e a motivação.

A teoria de Bandura explica também o modo como o comportamento humano é decorrente da aprendizagem através da integração entre as influências cognitivas, comportamentais e ambientais. Nesse processo destacam-se os fatores que estão por trás desse processo de imitação do comportamento através da observação, situação bem semelhante à encontrada em trabalhos com grupos de crianças.

Haber e Carmo (2007) afirmam o quanto é importante entender que, nas interações da criança, a demonstração de empatia, o comportamento de fantasiar, a aquisição de regras e o desenvolvimento de respostas assertivas são aspectos relevantes, pois indicam como o ambiente tem influenciado o comportamento. As relações, portanto, demonstram níveis desse tipo de influência, ao mesmo tempo em que favorecem novas aprendizagens, devido à exposição a outras contingências ou modelos comportamentais.

Vygotsky e Luria também defendem a importância da interação entre indivíduos no processo de desenvolvimento humano, em especial os aspectos cognitivos. Vygotsky aponta que a natureza psíquica do homem vem a ser o conjunto de relações sociais transladadas ao interior e convertidas em funções da personalidade e em formas de sua estrutura. Já Luria defende que o desenvolvimento humano, independentemente dos motivos biológicos elementares, estaria mais ligado a sua interação social e com isso originando novas formas de comportamento e afirma que a atividade vital humana é caracterizada pelo trabalho social e este, por sua vez,  mediante a divisão de suas

funções, origina novas formas de comportamento, independentes dos  motivos biológicos elementares (Luria, 1984).A literatura aponta que a psicoeducação fornece ao sujeito ferramentas para que ele conheça e detecte os fatores que estão vinculados ao seu problema, favorecendo a identificação precoce das situações que despertam reações e pensamentos negativos, o que acaba por trazer alívio alterando os comportamentos não saudáveis e disfuncionais apresentados.

Considerando isso, para todas as sessões, foram previamente programadas atividades com foco no desenvolvimento de habilidades sociais e aprendizagem de novos comportamentos e estratégias para lidar com situações difíceis. As atividades lúdicas, por exemplo, buscavam trabalhar atenção, memória, controle de inibição de comportamento e as habilidades sociais em relação ao respeito às regras de convívio social.

Portanto, o desenvolvimento humano se dá concomitantemente nos níveis afetivo, cognitivo, social e físico-motor, incumbindo à psicoeducação mediar às interações entre o indivíduo e o ambiente, com vistas a gerar uma promoção e atualização do desenvolvimento, em todo seu potencial (BAZON, 1997). Considerando essa importante contribuição, nos grupos foram inseridas atividades para estimular a iniciativa e participação dos membros do grupo em sugerir novas atividades para as sessões seguintes, bem como tarefas para serem realizadas em casa e trazidas no encontro subsequente, trabalhando assim aspectos como o compromisso com o grupo, a coesão grupal, memória, empatia e afetividade.

Sobre o trabalho com grupos desenvolvidos a partir dessas intervenções, notadamente a psicoterapia em grupo surgiu em um contexto de necessidade e desenvolvendo-se mais durante a segunda guerra mundial, período de grande demanda pela escassez de profissionais e a grande demanda pelos serviços. Nesse tipo de terapia faz-se uso de recursos próprios e inexistentes na terapia individual e o terapeuta grupal possui acesso privilegiado aos conflitos de relacionamento dos integrantes através da observação da interação entre eles e dos consequentes conflitos e relacionamentos (vínculos) que essa convivência pode ou não gerar (CORDIOLI, 2008).

Segundo Cordioli (2008), Yalom propôs um conjunto de 11 fatores que seriam considerados terapêuticos nas intervenções em grupo e que seriam responsáveis pelas mudanças apresentadas pelos integrantes dos grupos: Instilação de esperança; Universalidade; Compartilhamento de informações; Altruísmo; Recapitulação corretiva do grupo familiar primário; Desenvolvimento de técnicas de socialização; Comportamento imitativo; Aprendizagem interpessoal; Coesão grupal; Catarse; e Fatores existenciais.

Sobre a influência desses onze fatores no trabalho em grupo, Cordioli (2008) comenta que a esperança é por si só terapêutica e mantém o cliente em terapia além de possibilitar melhora significativa em relação à cura. A universalidade desempenha um papel importante na terapia grupal, ao perceberem que outras pessoas vivenciam situações e sentimentos semelhantes são tomados por um sentimento de alívio.

O compartilhamento de informações é um contexto ideal de parceria e colaboração, possibilitando a aprendizagem. O aconselhamento direto quando os membros do grupo podem compartilhar de emoções e vivências. O altruísmo, permitindo que os membros possam perceber-se como capazes de oferecer algo importante a outrem atribuindo assim sentido a sua vida. A coesão grupal se dá quando os membros do grupo têm sentimento de pertencimento, de afeto, de conforto e de respeito. Ser pertencente e respeitado no grupo facilita ao indivíduo as descargas emocionais possibilitando-lhe refletir sobre suas emoções, explorar aspectos próprios do ser que ainda estão desconhecidos ou são evitados, sendo um caminho importante para a mudança (catarse).

Revisitando a teoria de Bandura, Caballo (2007) faz referência aos processos causais em termos do que ele denomina “determinantes recíprocos”. Nesse tipo de relação, através da interação recíproca, contínua, entre as influências comportamentais, cognitivas e ambientais ocorre a relação entre a conduta humana e o ambiente. Assim as ações humanas influenciam a natureza dos acontecimentos ambientais que, por sua vez, influencia as ações humanas de uma maneira contínua e recíproca.

Nos grupos foram discutidas situações reais a partir do relato dos participantes, bem como, fomentadas situações fictícias para desenvolver novas estratégias de pensamento. Também se procurou realizar atividades com o grupo que avaliassem aspectos cognitivos de seus membros, tais como: atenção, memória, controle inibitório, habilidades sociais, empatia, planejamento e estratégia, identificação do problema e sua solução, levantamento de alternativas, capacidade de tomar decisão, dentre  outros.

Como afirmam Haber e Carmo (2007) entre os elementos que são tão importantes quanto o estímulo e o reforço, destacam-se a atenção, a retenção, a reprodução motora e a motivação. Foi possível neste trabalho verificar o peso da influência social sobre o sujeito, observada através das atividades desenvolvidas com as crianças, fossem estas voltadas para a reorganização do comportamento disfuncional, dos pensamentos distorcidos ou mesmo do estímulo das funções cognitivas com as atividades lúdicas.

O comportamento humano é decorrente da aprendizagem e as intervenções com base na psicoeducação possibilitaram o reconhecimento e organização da integração entre as influências cognitivas, comportamentais e ambientais. Aqui merece destaque o processo de imitação do comportamento através da observação defendida na teoria de Bandura. Foi nítida a influência que as relações sociais tiveram no desenvolvimento de novos comportamentos e pensamentos nas crianças. O estímulo a capacidade de abstração na medida em que situações fictícias eram trabalhadas proporcionou o desenvolvimento de posturas mais empáticas entre os participantes do grupo. Ou seja, houve um aumento de respostas mais positivas para o enfrentamento de problemas na medida em que o ambiente era alterado.

6. Considerações Finais

No LAP atende-se a uma demanda heterogênea tanto em relação à idade, quanto aos motivos de solicitação de avaliação. Dentre estes encaminhamentos para avaliação psicológica e neuropsicológica, percebe-se que predominam as demandas para avaliação infantil no qual as queixas mais comuns versam sobre as alterações comportamentais e questões escolares como dificuldades de aprendizagem.

Mesmo diante desta expressiva demanda por avaliações, percebe-se ainda a carência de serviços que sejam especializados e com foco nas intervenções cognitivo comportamentais nos serviços públicos de saúde, apesar do êxito apresentado por esta abordagem. A modalidade de intervenção em grupos aqui defendida, associada à psicoeducação, constituiu-se como importante ferramenta de saúde pública, pois apresenta-se como forma de prevenção e de promoção em saúde mental. Além disso é

uma modalidade de intervenção com o poder de contemplar o contingente de crianças que não dispõe de serviço especializado.

Diante do crescente aumento nas demandas à atenção infantil, o profissional de psicologia precisa apresentar o domínio e a convergência de saberes, além  da construção de novos modelos de intervenção que abarquem, além dos aspectos biológicos, o contexto sócio cultural e econômico no qual a criança está inserida.

Sobre a associação da intervenção em grupo baseada na Terapia Cognitivo- Comportamental, utilizando a psicoeducação, o treino de habilidades sociais e o uso de atividades lúdicas com foco no desenvolvimento das funções cognitivas auxilia a criança para que esta conheça e detecte os fatores que estão vinculados as suas dificuldades, com isso favorecendo a identificação precoce das situações que despertam reações e pensamentos disfuncionais, o que contribui para aliviar os pensamentos negativos e alterar comportamentos não saudáveis.

Além disso, foi possível identificar, tal como aponta a literatura, que a psicoeducação fornece ao sujeito ferramentas para que ele conheça e detecte os fatores que estão vinculados ao seu problema, favorecendo assim a identificação precoce das situações que despertam reações e pensamentos negativos, o que acaba por trazer alívio alterando os comportamentos não saudáveis e disfuncionais apresentados.

Portanto, as intervenções em grupos com crianças baseando-se nos fundamentos da Terapia Cognitivo-Comportamental, apresentam-se como uma importante ferramenta de prevenção e promoção em saúde, que precisa continuar a ser estudada e desenvolvida em diversos cenários, principalmente considerando as carências do sistema público de saude do Brasil. Esse tipo de intervenção pode ser uma fonte de influências na construção do desenvolvimento humano saudável, frente às dificuldades enfrentadas e através da interação social mediada.

Sobre o Autor:

Simone Wanderley Lustosa - Psicóloga e Especialista em Neuropsicologia pela Faculdade Pernambucana de Saúde - FPS

Orientador: Prof. Leopoldo Barbosa - Professor do curso de Psicologia da Faculdade Pernambucana de Saúde - FPS Coordenação da Pós-Graduação em Neuropsicologia da Faculdade Pernambucana de Saúde - FPS Psicólogo do Centro de Reabilitação Motora e do Laboratório de Avaliação Psicológica do Instituto de Medicina Integral prof. Fernando Figueira – IMIP Doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco.

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