Introdução ao Modelo Cognitivo

A terapia cognitiva foi desenvolvida por Aaron Beck, direcionada a resolver problemas atuais dos pacientes e a modificar os pensamentos e comportamentos disfuncionais dos mesmos. Essa terapia surgiu de questionamentos feitos ao modelo Behaviorista, então predominante nas pesquisas e estudos do final do século XIX. Este modelo acreditava serem os comportamentos emitidos em resposta ao ambiente e que envolvia o fortalecimento ou enfraquecimento do comportamento, dependendo da presença ou ausência de reforço ou punição. O Behaviorismo radical de Skinner rejeitava os mecanismos mentais, pois não via utilidade em seus conteúdos.

Em contraposição a isso, alguns psicólogos levaram em conta o propósito e o plano para o comportamento. Edward Tolman (1886-1959), considerado um dos precursores da Psicologia Cognitiva moderna, acreditava que todo comportamento era dirigido a um objetivo. A partir disso, o Modelo Cognitivo foi sendo desenvolvido.

Ele levanta a hipótese de que as emoções e os comportamentos das pessoas são influenciados por sua percepção e interpretação dos eventos e não somente de uma situação por si só, isoladamente. Ou seja, o modo como as pessoas sentem está associado ao modo como elas interpretam e pensam sobre uma situação, sendo suas respostas emocionais intermediadas por sua percepção da mesma.  Esses pensamentos são relacionados aos tipos de crenças que cada pessoa tem.

As crenças são ideias ou esquemas que as pessoas desenvolvem desde a infância sobre si mesmas, as outras pessoas e seus mundos. As crenças são uma forma que a criança tem de extrair sentido do seu ambiente. São entendimentos que são tão fundamentais e profundos que as pessoas frequentemente não os articulam e os consideram como verdades absolutas. Usualmente se valem dos ditos “sempre foi assim” ou ”eu sempre fui assim”.

Com o passar do tempo, cada um terá uma história de vida, com aspectos individuais e incomparáveis. Permeiam ainda a vida de todos os indivíduos, os conteúdos relacionados ao self, ao contexto ambiental e ao futuro. Nesse interim, as distorções cognitivas vão sendo construídas com base nesses três aspectos, os quais, juntos, são chamados de Tríade Cognitiva.  

As distorções cognitivas são pensamentos “errados” relacionados à Tríade e são expressas por meio de pensamentos automáticos. Os pensamentos automáticos são um fluxo de pensamentos que são comuns a todas as pessoas. São pensamentos que a maioria de nós não está ciente deles, mas que frequentemente influenciam nossas respostas emocional, comportamental e fisiológica. Eles também surgem de forma espontânea e não são embasados em reflexões e deliberações. Ou seja, não apresentam uma lógica racional. Os pensamentos automáticos são quase sempre negativos e breves, com o paciente estando mais ciente da emoção que sente em decorrência do pensamento do que dele mesmo em si. Essa emoção que o paciente sente é conectada ao conteúdo do pensamento automático. Por sua vez, o pensamento automático é derivado das crenças centrais juntamente com as crenças intermediárias.

As crenças centrais são ideias mais centrais da pessoa a respeito do self, de outras pessoas e seus mundos. São usualmente globais, supergeneralizadas e absolutistas. Quando ativadas, o paciente facilmente identifica informações que a apoiam e distorcem as que não se enquadram no estilo de sua crença.  Podem ser positivas ou negativas, sendo as negativas ativadas em estado de aflição. Podem ser divididas em duas categorias: as associadas a desamparo e as associadas ao fato de não ser amado. São exmplos de crenças centrais as frases “eu sou incapaz” e “eu não sou amado”.

As crenças intermediárias consistem em atitudes, regras e suposições que influenciam na visão de uma situação e a maneira como a pessoa se comporta. Elas estão diretamente relacionadas ao conteúdo da crença central e dirige os comportamentos das pessoas. Alguns exemplos de frases com crenças intermediárias são: “É terrível ser incompetente” e “se me esforçar mais, serei capaz”.

Como já dito antes, todas essas crenças disfuncionais influenciam no modo como as pessoas se comportam. Esses comportamentos são chamados de comportamentos disfuncionais ou maladaptativos. Dessa forma, por derivarem dessas crenças, os comportamentos disfuncionais acabam por reforçar a crença disfuncional que lhes deu origem.

Dentre as técnicas utilizadas na terapia cognitiva, entre tantas outras, que visam modificar os pensamentos distorcidos estão o questionamento socrático, a flecha descendente, o diagrama de conceituação cognitiva e o registro de pensamento diário.

O questionamento socrático é a técnica de fazer perguntas para buscar falhas no raciocínio do paciente. Ele consiste em fazer perguntas indutivas que estimulem a curiosidade e envolvimento do paciente no processo de aprendizagem. Por meio dele o terapeuta consegue identificar padrões disfuncionais de pensamento e comportamento.

A flecha descendente ajuda o terapeuta a identificar um pensamento automático chave que ele suspeita poder ser diretamente derivado de uma crença disfuncional e pergunta ao paciente qual o sentido dessa cognição, supondo que esta seja verdadeira. O terapeuta continua a fazer isso até que o paciente tenha revelado uma ou mais crenças importantes. Essa técnica ajuda a revelar o significado de cada pensamento. Perguntar o que um pensamento significa para o paciente revela, com frequência, uma crença intermediária; perguntar o que isso significa sobre o paciente usualmente explicita a crença central.

O diagrama de conceituação cognitiva é uma ficha ou quadro que articula as crenças centrais, intermediárias e os pensamentos automáticos do paciente. Ele provê um mapa cognitivo do paciente e ajuda o terapeuta a organizar a aglomeração de dados obtidos durante a terapia. Usualmente seu preenchimento se inicia pela metade inferior.

O registro de pensamento diário é um instrumento preenchido pelo paciente, o qual preenche em casa, fora do setting terapêutico, levando-o na sessão seguinte para que seus pensamentos automáticos, que surgiram durante a semana, sejam analisados.

Referências:

BECK, Judith S., Terapia Cognitiva, Teoria e prática. Artmed, São Paulo, 1997.

STEMBERG, Robert J., Psicologia Cognitiva, 5 Edição, Cengage Learning, São Paulo, 2010.