Sonhos a Partir de uma Visão Transdisciplinar da Psicológica

Resumo: O conhecimento faz-se ferramenta capaz de auxiliar a tudo e a todos nas mais diversas circunstâncias. Contudo, observa-se que em alguns casos este conhecimento fica enclausurado nas suas origens e áreas, inexistindo interação com os diversos outros campos que, em muitos momentos, poderia ampliar o potencial de ambos nos seus mecanismos práticos de ação. Assim, encontramos a psicologia, dividida em várias vertentes que segmentam as teorias, mas que apresentam o objetivo único de auxiliar o indivíduo naquilo que o perturba ou que se faz imperceptível até então. Por este viés encontramos a possibilidade do uso transdisciplinar da psicologia, sendo possível que uma colha oportunidades no jardim que abastece o conhecimento da outra, ensejando, não teorizações espaças, mas uma psicologia única que visa auxiliar o indivíduo através de todas das ferramentas existentes. Cabe ressaltar que a proposta não é a utilização das psicologias de forma rasa ou vulgar, mas propiciar o uso das ferramentas da vertente alheia dentro do olhar que se faz peculiar a sua própria vertente psicológica. Assim, busca-se auxiliar este entendimento através do trabalho dos sonhos no processo terapêutico, permitindo criar uma visão ampla do papel do psicólogo e das diversas possibilidades que esta profissão permite abarcar tecnicamente.

Palavras-chave: Freud, Jung, Onírico, Psicologia, Sonho, Transdisciplinaridade.

1.Introdução

A atividade do profissional de psicologia em um setting terapêutico traz, em sua história, elementos limitadores do potencial profissional. Estes elementos se fundam nas vertentes ou formações psicológicas que, na maioria das vezes, se fixam unicamente em suas escolas teóricas para atuar profissionalmente. O estudo que se propõe aqui é o de transpor esta barreira demonstrando, através na apreciação da terapêutica dos sonhos, que a atuação transdisciplinar pode potencializar e ampliar os estudos trazidos nas escolas psicológicas. Esta percepção de trabalho não propõe uma anarquia metodológica interpretativa, nem tampouco uma afronta às técnicas trazidas por estudiosos do passado, atua apenas como um elemento evolutivo da humanidade, haja vista a época em que foram conceituadas as teorias que norteiam esta ou aquela psicologia.

Cabe ressaltar que a humanidade, para sua própria adaptação e sobrevivência, necessita de constantes reestruturações. Fato que impulsiona as áreas do conhecimento para um estado de permanente movimentação e consequente desenvolvimento. Assim, pode-se dizer que a verdade não se faz absoluta, pois o que hoje se faz verdade amanhã pode não ser. Diversas foram as verdades quebradas ao longo da nossa história, por exemplo, a de que o mundo era quadrado.

A psicologia vive um paradigma de divergências, em que cada corrente entende o ser humano da sua forma, visão de homem, como se este possuísse várias formas de ser visto. O ser humano é único e indivisível, sendo possível que todos o vejam de forma diferente, mas não porque ele tenha várias formas, mas sim, porque cada qual se limita a olhá-lo de um único ângulo. Através deste viés, apresenta-se uma percepção que traspõem estes limites de observação e visão do ser. Evidenciando as possibilidades de olhar a psicologia e outras áreas do conhecimento, científico ou não, como uma grande fonte de referenciais, capazes de possibilitar uma melhor aproximação e entendimento do contexto do indivíduo que se dispõe a passam por uma intervenção terapêutica.

Com isso, por meio da apreciação terapêutica dos sonhos, serão apresentadas algumas reflexões frente à atuação transdisciplinar do profissional de psicologia, de forma evidenciar os contextos e possibilidades para o desempenho “trans” deste profissional. Tal reflexão será executada com base no estudo bibliográfico do contexto dos sonhos na visão psicanalítica de Freud, na vertente Junguiana e na análise conceitual e prática da transdisciplinaridade. Efetuando por meio destes, um elo capaz de oportunizar uma ampliação nos conceitos, métodos e técnicas inerentes a atuação do profissional de psicologia.

2. Os Sonhos e a Psicanálise de Freud

Os sonhos sempre foram um fato na vida humana cuja curiosidade e o fascínio segue acompanhando. Utilizado principalmente como presságio, trazia a crença de que o onírico mantinha uma ligação muito forte com a espiritualidade.  Com os estudos de Sigmund Freud (FREUD apud FRAYZE-PREREIRA, 1999), esta visão de sonho ganha um formato frente à construção da psique do ser humano, o da criação de um sistema mental de filtragem de informações, sendo este composto pelo inconsciente, pré-consciente e a consciência. De modo que, o sistema pré-consciente administra a passagem das informações que devem ou não chegar até o nível consciente do indivíduo.

Este conhecimento permitiu um maior aprofundamento acerca da possibilidade de acesso a este conteúdo inconsciente no trabalho terapêutico, permitindo atingir informações ainda não interpretadas pelo sujeito. Assim, “através destes estudos, foi possível trazer ao consciente os conteúdos inconscientes, onde o sonhar é um fenômeno regressivo; no qual nos devolve aos estados primitivos da infância”. (SILVA & SANCHES apud LOPES, 2012, p. 1)

Com isso, em sua obra sobre sonhos, Freud (1993) pleiteia que os conteúdos mais obscuros e traumáticos dos indivíduos estão guardados no inconsciente e que em estado de sono a mente é capaz de acessa-los. Isto porque, para o alcance deste, faz-se necessário um grande movimento de relaxamento, de forma reduzir os movimentos de controle do pré-consciente, possibilitando o contato com estas informações. Além disso, Freud também apresenta o sonho como uma representação dos desejos reprimidos, como segue:

A conclusão do processo onírico consiste no conteúdo do pensamento – regressivamente transformando e elaborando numa fantasia carregada de desejo -, tornando-se consciente como uma percepção sensorial; enquanto isso ocorre, ele passa por uma revisão secundária, à qual todo conceito perceptual está sujeito. (FREUD, 1996. p.236)

Percebe-se que “os sonhos nada mais são do que uma forma particular de pensamento, possibilitada pelas condições do sono. É o trabalho do sonho que cria essa forma, e só ele é a essência do sonho – a explicação de sua natureza peculiar.” (FREUD apud FRAYZE-PREREIRA, 1999, p.2) Por esta razão, podemos entender que as informações que compõe nosso inconsciente estão contidas em todos os momentos do cotidiano, mantendo-se guardadas de acordo com seus elementos, uma vez que, este movimento protege o indivíduo das experiências pretéritas que, de alguma forma, lhe trouxeram qualquer tipo de trauma ou conflito. Logo, “sonhar é mais do que um simples produto do dia-a-dia. É revelar-se diante do enigma invisível, mas possível de compreensão”. (MARTINS apud LOPES, 2012, p. 1)

Desta forma, a origem de qualquer conteúdo produzido por meio do sonho está em nossas vivências, ou seja, nas experiências trazidas do momento de vigília. “Um sonho é, portanto, entre outras coisas, uma projeção: uma externalização de um processo interno.” (FREUD, 1996. p.230) Contudo, tais informações não são apresentadas de forma plena e objetiva, dado a impressão de desconhecimento das informações e certa estranheza frente às mesmas, fazendo-se necessária a interpretação contextual de cada sonho ou da soma de vários sonhos. (SIRONI apud LOPES, 2012)

Vale ressaltar, a necessidade de cuidado na interpretação dos sonhos, pois, segundo Freud, estes conteúdos se apresentam de duas formas: a manifesta, cujo corpo se constitui das informações trazidas nas lembranças narradas do sonhador; e a latente, composto pelos sentimentos e desejos inconscientes, pensamentos, ideias, impulsos, dentre outros não percebidos e identificados em primeira instância pelo sonhador. (REIS apud LOPES, 2012)

Através disso, a interpretação do sonho deve consistir não somente nas informações trazidas pelo sonhador, mas também nos elementos ocultos em sua fala, transformando o latente e manifesto, visando tornar o inconsciente consciente, possibilitando o acesso às informações de forma permitir a identificação destas pelo sonhador.

Ressalta-se que, em um único sonho, trazemos várias informações. Conteúdos que moldam um grande jogo de informações que deve ser organizado para sua total compreensão. Por isso, “uma representação única representa por si só várias cadeias associativas e traduz-se no sonho pelo fato de o relato manifesto, comparado com o conteúdo latente, ser lacônico: constitui uma tradução resumida.” (LAPLANCHE & PONTALIS apud LOPES, 2012, p. 4)

Sendo assim, os elementos que compõe o sonho, pelas suas variações e formas, quando não observados correta e integralmente, podem dificultar sua interpretação, pois “o aspecto mais significativo do sonho pode se apresentar de modo à quase passar despercebido, ao passo que os aspectos secundários aparecem, às vezes, ricos em detalhes”. (JABLONSKI apud LOPES, 2012, p. 4) Para entender estes elementos do sonho, Freud buscou identificar símbolos que pudessem facilitar a representação dos sonhos. Como segue:

Os sonhos possuem uma linguagem que Freud denominou símbolos. Para entender seus diversos conteúdos, temos que distinguir o que os símbolos representam nesse sonho. A simbologia dos sonhos não só está vinculada ao contato que o criador do sonho teve com o objeto, mas também com a forma que ele se relaciona sentimentalmente com esse objeto. Um exemplo prático, o mar pode apresentar distintas simbologias, variando de pessoa a pessoa. Para alguns o mar pode significar destruição (o mar destruindo estruturas deixadas na praia), mas para outros, invasão (a água avançando e invadindo território) de acordo com Freud o que a pessoa sente quanto a esse objeto ou essa situação é fundamental para a interpretação de sonho. (LOPES, 2012, p. 5)

Por esta perspectiva, os símbolos são elementos necessários para que o sonhador possa, com auxílio terapêutico adequado, interpretar e significar seus sonhos, buscando atrelá-los aos sentimentos, sensações e insigths percebidos com essa experiência onírica. “Na literatura se encontram exemplos de símbolos que podem ser utilizados em todos os tipos de cultura. Contudo, há a observação de que o significado de um símbolo dependerá sempre da associação e da cultura do paciente que o sonhou.” (OLIVEIRA apud LOPES, 2012, p. 5) Assim, os sonhos e seus símbolos tornam-se elementos variados de acordo com as crenças do sonhador, pois o histórico de experiências e tradições que abarcam a interpretação deste pode e sofre variações significativas de cultura para cultura, povo para povo e pessoa para pessoa.

3. O Contexto dos Sonhos para Jung

Para Jung (HALL, 2008), existem quatro conceitos básicos que norteiam a consciência e o inconsciente: consciência pessoal: também conhecida como percepção consciente ordinária, representada pelas informações cujo acesso se faz facilitado, inexistindo conflitos que impeçam tal contato; inconsciente pessoal: composto pelas informações não conscientes, cujos conteúdos tem fonte exclusivamente individual; inconsciente coletivo ou psique objetiva:, assim designada por possuir estrutura pautada em toda a humanidade, de forma universalmente ligada e interagente; e o mundo exterior da consciência coletiva: trazido pelos valores, culturas elementos de relação e condição em geral.

Além disso, o autor nos remete a existência das estruturas especiais que compõe a forma consciente e inconsciente das partes pessoais da psique, cuja divisão encontra-se assim delimitada: ego: moldado a partir das relações geradas da infância; persona: forma de identificação com o mundo exterior (máscara); sombra: representa os elementos rejeitados durante a infância – mantém relação constante com o ego; e conjunção de animus (imagem masculina no sonho) e anima (imagem feminina no sonho): sendo estabelecido como estrutura geral das imagens arquetípicas e os complexos.

Segundo Hall (2008, p.14) “na psique objetiva existem arquétipos e imagens arquetípicas, cujo número não pode ser estabelecido com precisão, embora exista um notável arquétipo: o si-mesmo, que também pode ser referido como o arquétipo central de ordem”. Neste sentido, tem-se o si-mesmo como a base arquetípica do ego, centro da consciência pessoal, cuja meta é a regulação da psique.

Neste sentido, entende-se que todo o conteúdo íntimo do individuo é capaz de criar e potencializar, por meio de suas experiências, arquétipos fortalecedores do seu ego. Estes arquétipos se estabelecem através de um “conceito psicossomático, que uniria corpo e alma, instinto e imagem, evitando a ideia que as imagens arquetípicas fossem consideradas meros reflexos dos impulsos biológicos” (RAFFAELLI, 2002, p. 2). Com isso, percebe-se a existência de um arquétipo central cuja criação e moldura está voltada a nossa essência, aquilo que consideramos primordial para o nosso ego, conforme observa-se a seguir:

A esfera pessoal, tanto consciente como inconsciente, desenvolve-se a partir da matriz da psique objetiva e está continuamente relacionada, de modo orgânico e profundo, com essas áreas mais íntimas da psique, embora o ego desenvolvido seja inevitavelmente propenso a se considerar, de modo algo ingênuo, o centro da psique. Esse procedimento é análogo a considerar a diferença entre o Sol girar em torno da Terra ou vice-versa. (HALL, 2008, p.17)

Este mecanismo de idealização do si-mesmo permite a elaboração de seus arquétipos, sendo sua dimensão mensurada pelo nível de percepção de realidade trazido por cada indivíduo. Contudo, o ego sempre cria uma forma mais abrangente de enxergar o Si-mesmo, gerando uma supervalorização (endeusamento), fazendo deste um símbolo de ordem e poder superior, em especial, quando o ego se apresenta de forma instável.

“No plano fenomenológico, o Si-mesmo é virtualmente indistinguível do que a tradição denominou Deus” (HALL, 2008, p.16). Desta forma, percebe-se de suma importância às experiências e os valores, individuais e coletivos, para a elaboração desta valorização do Si-mesmo. Uma vez que, a criação e a alimentação deste, acontecerão conforme a elaboração e percepção daquilo que perpetua em nosso inconsciente pessoal e na psique objetiva.

3.1. Complexos, Arquétipos e Imagens Arquetípicas

Os complexos representam as relações existentes entre as imagens, cuja ligação se deriva de uma similaridade na carga emocional que as representam. Assim, consideram-se estes complexos como conjuntos de imagens cuja afinidade emocional, permite e consagra sua união. Por esta razão, sua ligação está voltada ao inconsciente pessoal, uma vez que suas emoções são causadas por meio das significações geradas a partir da ideia central de suas experiências.

“Em termos estruturais, cada complexo na esfera pessoal (consciente ou inconsciente) é formado a partir de uma matriz arquetípica na psique objetiva. [...] Por trás do complexo materno pessoal está o arquétipo da Grande Mãe [...].” (HALL, 2008, p.17) Através deste viés, entende-se o arquétipo como um conjunto de imagens com significações coletivas, presente no íntimo do inconsciente coletivo, com valores e crenças atrelados a nossa cultura e costumes. Desta forma, qualquer experiência humana regularmente repetida, nascimento, morte, casamento, sexo, dentre outras, tem um alicerce arquetípico. Os arquétipos estão situados por toda a parte (MONTEIRO, 2012), apresentando-se de maneira dinâmica, cujo entendimento só se faz possível quando observado como elemento externo a nós. Tal momento permite uma melhor elaboração das situações habituais, ensejando na descoberta de soluções aos problemas cotidianos.

Observa-se que o arquétipo é construído com base em uma expectativa de imagem, gerada através de uma idealização, ao passo que a imagem arquetípica, ligada ao consciente coletivo, é a forma particular de estruturação da imagem. Por meio deste entendimento, percebe-se que, de maneira diversa das imagens que compõe o complexo, as imagens arquetípicas são pautadas nos conhecimentos e experiências de cada indivíduo, cujo significado apresenta-se de forma mais universal e amplo, podendo valer-se do sagrado como elemento de fortalecimento emocional e afetivo. Possibilitando influenciar-se (HALL, 2008), inclusive, conforme o volume de pessoas e o tempo de duração na relação afetiva, no conteúdo que compõem a cultura do consciente coletivo, onde trazemos a representação de Jesus como exemplo de imagem arquetípica.

3.2. Processo de Individuação

Para entender os demais elementos que compõe a teoria junguiana, devemos apreciar o papel da unicidade dentro do contexto dessa teoria, uma vez que, inexiste a possibilidade de falar da estruturação da personalidade sem falar no processo de individuação, onde o sujeito integra a sua individualidade junto das demais, mantendo-se em essência o que lhe compõe (STEIN, 2006). Vale dizer que todos os indivíduos buscam amadurecer seu processo de autocrítica e formação de opiniões. Não que isso o faça declinar dos entendimentos gerais ou dos preceitos sociais ou culturais, mas sim, pelo fato de que a individuação permite que a pessoa estabeleça um processo de escolha de forma consciente. Fazendo com que nós, seres humanos, olhemos um pouco para aquilo que somos no íntimo e que constitui nossa subjetividade.

Segundo Macedo (2010), é neste momento que o indivíduo passa a deixar de ser influenciado pelos comportamentos e pensamentos gerais, aplicando a si suas próprias ideias, características e conceitos, pois “o processo de individuação é crucial para nos diferenciarmos. Nós, seres humanos, somos animais sociais por natureza e, naturalmente, nos influenciamos mutuamente de várias e distintas maneiras” (MACEDO, 2010, p. 7). Contudo, cabe-nos ressaltar que este processo perpetua durante toda a nossa existência material, atualizando-se e aprimorando-se a cada fase da nossa vida, conforme observamos:

A partir das pesquisas com desenvolvimento, foi se construindo a idéia de que o processo de individuação pode ser entendido como aquele que ocorre durante toda a vida, como um diálogo entre o ego e o Self, mas diálogo este que vai assumindo contornos diferentes em cada fase da vida. Assim, podemos falar de individuação na infância, na adolescência, no jovem adulto, etc. (BOLETIM CLÍNICO, 2005, p. 1)

Desta forma, percebe-se que o ser humano busca sua totalidade e sua integralidade durante toda a vida, contudo, tal ação não se aplica de forma consciente, mas sim algo que emerge do inconsciente ao consciente. À medida que o inconsciente, condutor deste procedimento, espontaneamente permite tal liberação ao Ego, que atua como mecanismo auxiliar. Com isso (TESTA, 2012), percebe-se que a individuação permite a concretização da personalidade, cujo significado apresenta-se ímpar para cada um, trazendo na sua singularidade a formação única e exclusiva de cada indivíduo: o si-mesmo. Segundo Stein (2006, p. 138), “o si-mesmo forma a base para o que no sujeito existe de comum com o mundo, com as estruturas do Ser. No si-mesmo, sujeito e objeto, o ego e o outro, juntam-se num campo comum de estrutura e energia”. Desta forma, entende-se que cada indivíduo margeia sua existência na busca incessante do aperfeiçoamento e evolução, onde o si-mesmo, aprimora-se para potencializar o equilíbrio interior e exterior de cada um.

3.3. Os Sonhos

Nos sonhos vivenciamos as camadas mais profundas da psique, utilizando-se da experiência universal que compõe o nosso inconsciente coletivo, oportunizando-nos relacionar com todas as conjecturas da nossa história através das projeções convergentes ao nosso momento. Este mecanismo da mente nos aponta importantes processos, conscientes e inconscientes, para equilibrar nossa vida. Pois através da experiência onírica podemos auxiliar a reconstrução de variados mecanismos potencializadores do equilíbrio geral do Ser. Assim, “qualquer tentativa de análise de um sonho precisa levar em conta as atitudes, a experiência e a formação do sonhador. [...] O caráter das interpretações do analista é apenas experimental, até que elas sejam aceitas e sentidas como válidas pelo analisando” (BALLONE, 2008, p.01). Assim, observa-se que o elemento onírico faz-se importante ferramental para a constituição e equilíbrio do Ser. Através deste torna-se possível auxiliar o indivíduo no processo de harmonização e encontro do si-mesmo, uma vez que, nossa essência encontra-se eternamente disponível através deste instrumento de diálogo interior, o sonho. Conforme se observa a seguir:

O sonho é uma porta estreita, oculta no mais recôndito do interior da alma, que se abre para a noite cósmica primordial, que era a alma, quando não havia ainda nenhuma consciência do eu e será alma muito além daquilo que a consciência individual jamais poderá alcançar. (JUNG apud MONTEIRO, 2012, p. 111)

Neste sentido, observamos que os sonhos são ferramentas potencialmente capazes de auxiliar o processo terapêutico, pois através dos materiais oníricos pode-se auxiliar a pessoa a obter significados e interpretações acerca das situações, conflitos, angústias, dentre outros fatores advindos das suas experiências pretéritas. Fazendo com que o sujeito obtenha ressignificações e consequentes expansões de consciência acerca de si e do outro. Torna-se de suma importância entender que e a interpretação do processo onírico deve ser realizada com ampla e plena cautela, afim de que o terapeuta ou psicólogo não influencie a interpretação do sonho frente ao sonhador, pois somente este é capaz de conduzir o processo de significação do conteúdo onírico, bastando somente simples estimulações reflexivas para que este assim o faça.

4. Transdisciplinaridade

Para obter interpretações claras e vastas, em muitos casos tem-se a necessidade de atuar junto de outras áreas do conhecimento, objetivando o aprimoramento e o aprofundamento das teorias e técnicas que obtivemos até então. Este mergulho no vasto mar de conhecimento, quando feito sem julgamento premeditado, permite que a pessoa se banhe e seja banhada nas límpidas águas do saber, indo além das contemplações ideológicas, restritivas e preconceituosas, que muitas vezes encontram-se cristalizadas nas áreas e nas pessoas dotadas deste ou daquele saber.

“Etiológicamente, o sufixo “trans” significa aquilo que está ao mesmo tempo entre, através e além de todas as disciplinas, remetendo à idéia de transcendência, aspecto fundamental para a ampliação das funções mentais [...]”. (PERES,  2007, p. 14) Neste sentido, percebe-se que a figura “trans” é aquela que vai além daquilo tido como limite, buscando aprimorar-se nas disciplinas sem desconfigurá-las, executando trocas e apropriando-se apenas daquilo que se faz necessário para o alcance das suas necessidades. O ser “trans” é estar disposto a perceber e encontrar as interligações existentes entre as áreas do saber, oportunizando o desfrute mútuo do conhecimento, de forma aprimorar-se aprimorando, pois suas inter-relações é algo que transcende o estado de inércia do uso exclusivo e limitado. Conforme se observa a seguir:

Nenhuma das propriedades de qualquer parte dessa ou daquela teia é elementar e fundamental; todas elas refletem as propriedades de outras partes. É portanto a consciência global de suas mútuas inter-relações que determina a estrutura de todas a rede, e não qualquer outro componente específico. (GROF, 1987, p. 39)

Assim, percebe-se que o todo é mais que a soma das partes, pois, no que tange ao conhecimento, observa-se que tudo é interligado e interdependente, uma vez que tudo está em tudo. Todas as ciências necessitam umas das outras. Não existe um único físico no mundo que não utilize a matemática, um único médico que não faça jus aos conhecimentos da biologia, um único ser humano que tenha nascido para viver isolado de tudo e de todos, em num pleno vácuo de relações e existências. De forma convergente D‟Ambrósio diz que:

A transdisciplinaridade é um enfoque holístico que procura elos entre peças que por séculos foram isoladas. Não se contenta com o aprofundamento do conhecimento das partes, mas com a mesma intensidade procura conhecer as ligações entre essas partes. E vai além, pois no sentido amplo de dualidade não reconhece maior ou menor essencialidade de qualquer das partes sobre o todo. (D´AMBRÓSIO apud REICHOW, 2002, p.32)

A diversidade deve ser trazida a tona (PERES, 2007), respeitando, entendendo e aceitando a existência daquilo que lhe compõe. Por isso, devemos respeitar as diversas verdades de uma teoria, já que diversas teorias foram, ao longo do tempo, modificadas através de outras descobertas. Isto porque, a verdade é algo momentâneo, ligada a um fato presente que, em pouco ou muito tempo, pode se evoluir a outros contextos ou outra realidade, ampliando suas potencialidades e possibilidades, tornando-se assim uma nova verdade. Por esta razão Morin (apud WEIL, 1993), explica que a transdisciplinaridade pode atuar permitindo simultaneamente, distinguir, separar e/ou inclusive opor-se, sem que para isso seja necessário aplicar reducionismos frente às teorias, fazendo com que exista uma comunicabilidade sem ruídos ou competições, simplesmente complementar ante aos diversos olhares possíveis e inerentes ao ser humano.

O uso da transdisciplinaridade denota uma ampliação no nível de consciência acerca do uso das teorias que envolvem os diversos conhecimentos (REICHOW, 2002), demonstrando com isso, a existência de vários estados de consciência. Isto possibilita o entendimento das diversas relações teóricas sem rotulá-las de forma separativa, ou através da normose atualmente constituída no conceito amplo socialmente estabelecido. Tal medida permite a compreensão dos conteúdos emergentes, ensejando a abertura para as mais diversas e novas abordagens teóricas que, na maioria das vezes, ultrapassam conhecimentos puramente disciplinares. Neste viés, o ato de ser “trans” permite ao indivíduo interagir com o mundo e consigo mesmo, através de uma visão integral do Ser, agregando os diferentes níveis de realidade, aderindo a consciência frente aos diversos contextos e necessidades humanas, sociais, morais, ecológicos, científicos, dentre outros tantos existentes e que, em menor ou maior tempo, estão por iniciar a existência.

5. Conclusão

Pode-se observar pelas teorias aqui desenvolvidas que o trabalho terapêutico acerca dos sonhos pode ser executado através de várias técnicas e por meio de diversos olhares, desde que a terapia seja pautada na significação trazida pelo sonhador. Isto porque, a ferramenta não altera o olhar atribuído pelo terapeuta, inexistindo, inclusive, alteração acerca das sensações e sentimentos trazidos pelo sonhador. Isto porque, “os sonhos não consistem unicamente em ilusões. Quando, por exemplo, num sonho alguém tem medo de ladrões, os ladrões, é verdade, são imaginários – mas o medo é real”. (STRICKER apud FREUD, 1993, p. 95)

Tanto Jung quanto Freud procuraram estabelecer entendimentos acerca deste processo inconsciente que apresenta, quando bem utilizado, significante importância em um trabalho terapêutico, independente da vertente que lhe fundamenta. O olhar terapêutico não estabelece conflitos por utilizar dessa ou daquela técnica, todas as técnicas, assim como todas as teorias, procuram auxiliar o indivíduo no seu processo de descoberta, objetivando que este possa organizar seus conflitos com base em suas próprias experiências e significados.

A utilização da transdisciplinaridade nos meios acadêmicos e profissionais cria um potencial de ampliação frente ao conceito do que vem a ser: o conhecer.  Uma vez que o conhecimento propriamente dito só está estabelecido quando conscientemente aceitamos e permitimos sua co-existência com todas as diversas possibilidades de interação e relação com demais conhecimentos existentes, incorporando teoria e prática. Desta forma, é possível entender que “o desenvolvimento constante e continuado é que garantirá a permanência no caminho escolhido. A vantagem é que quanto mais conhecemos sobre o processo, mais este toma forma em nós, até o ponto em que não há mais distância entre o processo e a prática”. (MAGALHÃES, 2008, p.20)

Ir além dos limites, bem como estar preparado para entender tudo e todos, faz-se a base para a evolução da estruturação do conhecimento. Como seria possível entender o corpo humano se não houvesse interação entre os conhecimentos estabelecidos? Como a psicologia pode fracionar seu objeto através da utilização de técnicas tidas como exclusivas de teoria A ou B?

Sistemática e gradativamente a mente humana vem se ampliando e acelerando, em termos físicos, suas ligações sinápticas e forma, desenvolvendo um entendimento amplo, claro e rápido frente aos novos conhecimentos existentes. Este fato é facilmente percebido nas atuais gerações que, em pouco tempo e em cada vez mais tenra idade, conseguem utilizar as tecnologias disponíveis com muita lógica, praticidade e eficiência.

Em que pese a qualidade dos conhecimentos estabelecidos na psicologia, fruto de um grande e belo trabalho de pesquisadores e pensadores de épocas pretéritas, a de se evoluir os métodos, técnicas e conceitos através da natural evolução humana. Tal mecanismo se faz necessário para acompanhar as exigências contidas no dia-a-dia de todos os polos deste planeta, conforme se observa nas palavras de Morrin, verbis:

Há uma inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre os saberes separados, fragmentados, compartimentados entre disciplinas, e, por outro lado, realidades ou problemas cada vez polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais e planetários. [...] a hiperespecialização, impede de ver o global (que ela fragmenta em parcelas) bem como o essencial (que ela dilui). [...] o retalhamento das disciplinas torna impossível apreender o que é tecido junto, isto é, o complexo, segundo o sentido original do termo. (MORRIN apud PERES, 2007, p. 13)

Este entendimento não cabe nesta seara para achar a teoria que está mais ou menos correta, mas sim, possibilitar um encontro de saberes através da quebra das fronteiras e limitações existentes entre as teorias. “A ciência materialista não foi capaz de reconhecer o valor e a importância vital da cooperação, da sinergia e das preocupações ecológicas, pois tornou-se cega por seu próprio modelo de mundo: unidades separadas que interagem mecanicamente”. (GROF, 1987, p.18)

A evolução que atinge todas as mentes e povos, também abrange todas as ciências e áreas do conhecimento. Logo, inexiste razão para o fracionamento do objeto e objetivo da psicologia, já que a vertente psicológica nada mais é do que o olhar aplicado pelo psicólogo, cuja alteração não se movimenta pela técnica utilizada. Vale dizer, que tanto Freud como Jung incorporaram técnicas advindas de outros pensadores, como por exemplo a hipnose e a regressão, sendo estas, apenas atributos práticos da fundamental lei do universo, onde nada se cria tudo se transforma.

A psicologia, assim como o ser humano, é una, de tal sorte que deve se promover como um todo indivisível, capaz de potencializar seus olhares frente as diversas, ricas e eficientes ferramentas que dispõe. O fato de utilizar-se desta ou daquela técnica, frente a necessidade da pessoa que está sob atendimento, não faz do terapeuta alguém cuja base teórica esteja perdida ou inadequada, pois este apenas abarca para si o conhecimento alheio com o foco na visão de sujeito estabelecida por sua vertente teórica.

Sobre o Autor:

Rodrigo Luiz Fontoura - Graduado em Direito e Graduando em Psicologia pelo Centro Universitário Estácio de Sá/SC, Pós Graduado em Psicologia Transpessoal pelo ITECNE.

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