O Lugar da Empatia no Aconselhamento Psicológico via Internet

Neste artigo apresenta-se de forma sintética os principais aspectos abordados sobre as condições básicas para o aconselhamento psicológico via internet, enfocando a empatia. Para esse efeito analisam-se as características de um atendimento virtual e a relevância das condições básicas para um aconselhamento eficaz. Pensa-se que esta abordagem auxiliará os estudantes que pretendem conhecer as possibilidades de como lidar com diferentes formas de atendimento.
Palavras-chave: Aconselhamento Psicológico, Atendimento Virtual, Empatia.

Introdução

Segundo Henriette Morato em uma entrevista concedida em 1999 a alunos de Psicologia da Universidade Metodista o aconselhamento psicológico é a expressão mais direta e específica do que é o trabalho do psicólogo. De acordo com ela, o aconselhamento começou por volta dos anos 40, depois da guerra no sentido de poder ajudar os veteranos de guerra que estavam voltando. 

E parece ter tomado corpo e expressão na década de 1950-1960. (Santos, 1982). A partir de então o aconselhamento tem sido um método de assistência psicológica destinado a restaurar no indivíduo, suas condições de crescimento e de atualização, habilitando-o a perceber, sem distorções, a realidade que o cerca e a agir, nessa realidade, de forma a alcançar ampla satisfação pessoal e social.

O aconselhamento refere-se ao processo criar condições para que a pessoa faça, ela própria, o julgamento das alternativas e formule suas opções, oferecendo ao indivíduo oportunidade de compreender a si mesmo e a tal ponto que a habilita a tomar decisões em face de suas novas perspectivas.       (Santos, 1982)

A ajuda deve envolver a pessoa a experimentar e dar sentido ao que vivencia, enquanto mostra-se a pessoa como capaz de crescer e assumir suas situações de vida. Focam-se no processo de aconselhamento, situações emergenciais, de grande ansiedade, que nem sempre precisam de acompanhamento prolongado, em casos em que o indivíduo se defronta com problemas emocionais.

De acordo com website www.psicologia.com.pt, atualmente com os avanços produzidos no âmbito da comunicação e das tecnologias utilizadas, o aconselhamento via internet tem se desenvolvido como uma prática usual. O presente texto procura esclarecer, de forma muito sintética, como os princípios básicos do aconselhamento se aplicam ao aconselhamento via internet e discutir a sua eficácia nesse espaço em que não há contato face a face.

Atitudes Terapêuticas em Aconselhamento Psicológico Virtual

Atualmente com o surgimento de novas tecnologias e inovações nos meios de comunicação nos deparamos com os serviços psicológicos virtuais, inclusive o aconselhamento via internet. Este serviço, segundo o website http://www.aconselhamentopsicologico.psc.br/ visa solucionar problemas pontuais que atingem o ser humano. Para isto a psicologia está adaptando suas técnicas a essa nova forma de lidar com o ser humano, para que um maior contingente de pessoas tenha acesso a esses serviços. Esta nova forma de aplicação das técnicas psicológicas é regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia, através da Resolução CFP N˚012/2005.

Ao analisar esta disponibilidade de serviços psicológicos por meio da internet encontramos várias vantagens geradas inicialmente pela facilidade de acesso a internet, em que não há preocupação com a distância, há disponibilidade, o sigilo, custo menor, etc.

Mas estas vantagens em se tratando de aconselhamento psicológico se mostram como uma faca de dois gumes, devido à ausência de um contato face a face, algumas características inerentes e indispensáveis do aconselhamento podem ser perdidas. Cabendo ao conselheiro o desenvolvimento de habilidades para lidar com estas dificuldades.

O aconselhamento segundo o dicionário Aurélio é uma “forma de assistência psicológica destinada a solução de leves desajustamentos de conduta”. Trazendo este conceito para psicologia pode-se falar em aconselhamento de acordo com Scheefer(1986) como ação educativa, preventiva, de apoio, situacional voltada para solução de problemas. Tendo como objetivo principal facilitar ao cliente obter uma realização adequada, promover o desenvolvimento através de suas escolhas.

No processo de aconselhamento trabalha-se com a problemática que a pessoa expõe acolhendo sua experiência em determinada situação. “O trabalho do conselheiro se dá no sentido de facilitar ao cliente uma visão mais clara de si mesmo, de sua perspectiva ante a problemática que vive.” (Rosemberg, 1987, p. 76)

Para que o atendimento ocorra de forma satisfatória principalmente o atendimento virtual (na maioria das vezes realizadas por email ou chat) deve-se fundamentar a relação entre o cliente e o conselheiro na ação de ajuda, pois ao procurar o conselheiro o cliente busca ser compreendido. E neste ponto é fundamental que o conselheiro seja facilitador deste processo, seja preparado para acolher a experiência e o conflito do cliente.

Ao atentar para o aconselhamento virtual deve-se prezar pelas técnicas de comunicação, devido a indisponibilidade de uma comunicação verbal, mesmo que seja feita uma videoconferência muitos características se perdem.

Estas técnicas de comunicação podem ser realizadas através de entrevistas cuidadosamente conduzidas e testadas de momento a momento, pois estas facilitam a tomada de decisões e atuam terapeuticamente.( Santos, 1982)

Esta interação entre conselheiro e cliente se faz no sentido de reduzir ao mínimo a diretividade, procurando reduzir tensões e preparar o cliente para suas decisões, facilitando alterações nas percepções do cliente sobre si mesmo e sobre o seu meio.

Podemos admitir que não exista uma fórmula estruturada, não há processos formais nem metodológicos para um aconselhamento eficaz, existem atitudes terapêuticas que devem ser seguidas.

Neste sentido três condições são básicas neste processo de aconselhamento. Em se tratando de aconselhamento virtual, o conselheiro deve ser mais habilidoso ainda nestas atitudes. A primeira atitude (condição) é a congruência e autenticidade em que se caracteriza uma relação genuína, na qual o terapeuta é o que é, não negando a si mesmo.

“Rogers fala que os terapeutas melhor sucedidos no lidar com clientes não-motivados, resistentes, doentes crônicos, pobremente educados, são os que, antes de tudo, são reais; que reagem de uma forma genuína, que exibem essa autenticidade e que são assim percebidos pelo cliente. Ser congruente pode significar, às vezes, exprimir aborrecimento, preocupação ou frustração no relacionamento com o cliente, mas de forma tal que este sinta que isso parte do próprio terapeuta e não dele, cliente. Eis por que técnicas psicoterápicas tão diversas podem ser efetivas na medida que haja essa condição de congruência, ainda que atingida de maneira diversa.”( Santos, 1982, p. 41)
 

A segunda condição é a Consideração positiva incondicional, esta significa estar o psicólogo ou terapeuta vivenciando atitudes positivas de aceitação e de calor humano para com o cliente. Esta é uma atitude que torna efetivo o terapeuta. Envolve a genuína boa vontade do terapeuta para com tudo que se passa na relação com o cliente. O terapeuta vê o cliente como um ser com potencial e reações humanas. Preza o cliente de um modo tal que não aprova, nem reprova. É o sentimento positivo, sem reservas e sem julgamento.

“Rogers diz que não se precisa ser profissional para sentir a efetividade dessa atitude. Menciona, como exemplo, o caso de Gladys, hospitalizada como psicótica durante muitos anos e que começou a melhorar quando uma família começou a recebê-la em sua casa, sem se importar com seus defeitos, aceitando-a sem julgá-la, criticá-la ou guiá-la. Disse Gladys certo dia: "Eles (a família) me ajudaram mais do que qualquer médico. Naturalmente os médicos ajudam também. Mas eles agüentaram mesmo quando eu lhes era desagradável e dizia coisas que não devia".”( Santos, 1982, p. 41)

Nesse caso há clareza de que a família aceitou Gladys, compreendendo que seu comportamento era estranho, não denotando rejeição. Isto se configura em Consideração positiva incondicional.

O psicólogo deve “ouvir” o cliente mantendo atitudes não críticas, facilitando sua expressão. O cliente expõe seus problemas e o conselheiro pode intervir de várias maneiras de forma que o problema seja devidamente enquadrado em hipóteses prováveis. A fim de o conselheiro e cliente cheguem a uma estruturação formal dos problemas a enfrentar.

A terceira condição é a compreensão empática do cliente. Esta condição é, segundo May(1977) a chave para o processo de aconselhamento, pois é através dela que todos os conselheiros atingem as pessoas.

A compreensão empática significa que o conselheiro deve compreender o cliente, ter senso do mundo interno e das significações pessoais do cliente como se fosse ele próprio, seu próprio mundo, porém mantendo a neutralidade.

“Quando o mundo do cliente é claro ao terapeuta, este pode mover-se nele livremente, podendo comunicar sua compreensão do que já é conhecido ao cliente e falar, também, dos significados das experiências pessoais que o próprio cliente pouco percebe.” (Santos, 1982, p. 42)

Durante o processo de aconselhamento, conselheiro deve esperar que os problemas e as soluções destes partam do cliente, porém se isto não ocorrer o conselheiro pode informar o cliente de modo impessoal sobre os dados coletados, as interpretações, oferecendo um panorama geral, explorando em cada idéia os sentimentos manifestos. Para que assim o cliente conheça suas possibilidades produzindo assim condições favoráveis, livre de tensões para suas decisões. O psicólogo tem o papel de assistir a exposição dos problemas do cliente, refletir seus sentimentos demonstrando aceitação e empatia.

O comportamento empático pode se manifestar de maneiras variadas dependendo do contexto da relação aconselhador-aconselhando e das habilidades pessoais do aconselhador. Existem muitos canais de interação empática. (Jordão, 2001)

Em um processo de aconselhamento virtual, esta condição se torna primordial, pois o conselheiro deve estar atento a perceber o que se passa de momento a momento, no mundo interno do cliente, como este vê e sente, sem perder sua própria identidade, nesse processo de empatia, então a modificação é possível de ocorrer. Nesta situação o conselheiro deve desenvolver uma sensibilidade aos sentimentos e as significações pessoais que o cliente vivencia a cada momento. Tratando de tentar perceber os fatos trazidos por ele com a sua visão.

Conclusão

O aconselhamento psicológico feito via internet pode por meio de um acolhimento adequado e da possibilidade de proporcionar ao cliente um ambiente facilitador, auxiliar o cliente na resolução de seus problemas e tomada de decisões com tanta eficácia quanto um atendimento presencial. Mas para isso deve ter recursos adicionais para garantia das condições básicas do processo de aconselhamento, de relação de ajuda segura que deve ser estabelecida entre cliente e o conselheiro.

Segue a proposta de auxiliar a pessoa a enfrentar seus conflitos vivenciados com um suporte psicológico proporcionando condições para que ocorram esclarecimentos sobre a situação, promovendo desta forma uma nova significação do conflito. Tornando, assim o cliente como seu agente transformador e capaz de construir estratégias, promovendo seu bem-estar.

Tornam-se necessárias mais publicações sobre este tema, que possam discutir sobre modos de combinar esta nova forma de entender a psicologia com a clínica clássica.

Referências

JORDÃO, M. P. Reflexões de um terapeuta sobre as atitudes básicas na relação terapeuta-cliente. In: Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. 2 ed. São Paulo: EPU, 2001. PP 45-52.

MAY, R. A. A Arte do Aconselhamento Psicológico. Petrópolis: Vozes, 1977.

SANTOS, Oswaldo de Barros. Aconselhamento Psicológico e Psicoterapia. Auto- Afirmação – um determinante básico. Livraria Pioneira Editora. São Paulo: 1982.

SCHEEFFER, R. Teorias de Aconselhamento. São Paulo: Atlas, 1986.

ROSEMBERG, R. L. (org). Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. São Paulo: EPU. v. 21, 1987.

Entrevista concedida por Henriette Morato  em 1999 a alunos de Psicologia da Universidade Metodista (São Bernardo do Campo/SP). ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO Por: Aretha do Carmo, Marlene Delábio, Thaís Cristina Conde, Valéria Calipo e Viviane Zanuto.

http://www.aconselhamentopsicologico.psc.br/

http://www.psicologia.com.pt/artigos/imprimir.php?codigo=A0112

http://psisalpicos.blogspot.com/2007/03/acompanhamento-psicolgico-distncia.html