A Prática dos Processos Psicológicos Básicos de Inteligência e Emoção na Psicologia do Esporte

Resumo: Os processos psicológicos básicos, segundo Suyane Elias Comar, derivam tanto das interações de processos inatos quanto de processos adquiridos, junto a relações do indivíduo de experiência e vivência com o meio. Inteligência e emoção são dois processos muito trabalhados por atletas de várias modalidades. Nosso trabalho gira em torno das contribuições desses processos para a Psicologia do esporte. Tanto no campo do vôlei quanto no da arbitragem, esses dois ppb’s são utilizados para um melhor desempenho na hora de uma partida. Diante da diversidade de atuações possíveis ao psicólogo é de se esperar que o profissional que atua em Psicologia do Esporte tenha também uma diversidade de formação. Além do conhecimento específico trazido da Psicologia como o uso de instrumentos de diagnóstico e modelos de intervenção, espera-se e exige-se que o profissional tenha um vasto conhecimento das questões que permeiam o universo do atleta. Utilizada nos termos mais biológicos, hoje, a Psicologia do Esporte tem a função de estudar e agir em um universo de casos que envolvem motivação, bem-estar de atletas para se sentirem seguros, dinâmica de grupo e individual, violência e agressão, liderança, tomada de decisão nas áreas educacional e clínico. Temas como motivação, personalidade, agressão e violência, liderança, dinâmica de grupo, bem-estar psicológico, pensamentos e sentimentos de atletas e vários outros aspectos da prática esportiva e da atividade física têm requerido estudo e atuação de profissionais da área, visto que o nível técnico de atletas e equipes de alto rendimento está cada vez mais equilibrado, sendo dada ênfase especial à preparação emocional, tida como o diferencial.

Palavras-chave: Inteligência, Emoção, Psicologia do esporte, Vôlei, Arbitragem.

1. Introdução

Este trabalho apresenta os resultados de uma pesquisa realizada por dois alunos de Psicologia da Universidade de Fortaleza, para a disciplina de Prática Integrativa II, do segundo semestre, que foram orientados pela Profa. Isabelle Cacau. A proposta do artigo é proporcionar aos alunos maior entendimento de como os processos psicológicos básicos são trabalhados nos diferentes meios de atuação do psicólogo. A área escolhida para desenvolver a pesquisa foi a da psicologia do esporte, especificamente dentro do time de vôlei de uma universidade e da comissão de arbitragem cearense.

Os ppb’s escolhidos pelos integrantes da equipe foram a inteligência e a emoção. Assim como o próprio nome propõe, processos psicológicos básicos são bases para as psicoterapias, pois são através deles que o terapeuta consegue perceber seu paciente. A inteligência e a emoção estão dentro desses processos.

A teoria sobre inteligência que iremos tomar como base no artigo, é a desenvolvida pelo psicólogo Howard Gardner, em meados da década de 80, que propõe que o homem possui inteligências múltiplas. São elas: musical, corporal-cinestésica, lógico-matemática, linguística, espacial, interpessoal e intrapessoal. Apesar de ter nomeado e separado em sete, Gardner (1980), relata que as inteligências múltiplas são complementos umas das outras e que para desenvolver melhor quaisquer atividades, necessita-se das sete trabalhando juntas. Tomaremos como foco a inteligência emocional, que embasa os conceitos de inteligência interpessoal, quando percebe-se distinções entre-outros, em especial, em contraste de seus estados emocionais e o conceito de inteligência intrapessoal, quando há conhecimento dos aspectos internos e há capacidade de compreendê-los, discriminá-los e utilizá-los como forma de orientar e entender o próprio comportamento. Demos mais atenção a essas inteligências, pois percebemos que é de suma importância possuí-las mais bem desenvolvidas para melhor desempenho do indivíduo e do grupo.

O segundo processo psicológico básico que iremos ter como base para desenvolver o artigo, será a emoção, que se caracteriza como um conjunto de sentimentos que envolve avaliação subjetiva, processos psicológicos e crenças cognitivas. Segundo Frijda (1994), as emoções são adaptativas porque preparam e orientam comportamentos motivados. Elas fornecem informações sobre a importância de um estímulo para os objetivos pessoais e preparam as pessoas para ações que ajudam na obtenção desses objetivos.

Durante o desenvolvimento do trabalho, notaremos que dentro das emoções, a que mais se destacou foi a ansiedade gerada pelo estresse, que pode ser definido como um padrão de respostas comportamentais e fisiológicas a eventos que condizem com ou excedem as capacidades do organismo  (FOLKMAN e LAZARUS, 1980).

2. Metodologia

Foram realizadas  entrevistas para buscar informações para o artigo, do tipo qualitativa. Que consiste em um método de coleta de dados amplamente utilizado. Segundo Robert Farr (1982), “essencialmente é uma técnica, ou método, para esclarecer ou descobrir que existem perspectivas, ou pontos de vista sobre os fatos, além daqueles da pessoa que inicia a entrevista”.

A ferramenta de coleta de dados utilizada foi a entrevista semi-aberta onde não há pretensão ou estimativa de um parâmetro de respostas, apenas há um roteiro de questões-guia que dão cobertura ao entrevistador. “Tem como ponto de partida um tema ou questão ampla e flui livremente, sendo aprofundada em determinado rumo de acordo com aspectos significativos identificados pelo entrevistador enquanto o entrevistado define a resposta segundo seus próprios termos, utilizando como referência seu conhecimento, sua percepção, linguagem, realidade, experiência. ” (DUARTE, 2005).

As visitas para coletar os dados para a entrevista foram realizadas em uma clínica psicológica e na Federação Cearense de Esporte. Onde foram entrevistadas duas psicólogas, uma que realiza trabalho com o time de vôlei de uma universidade e a outra que desenvolve trabalhos com a comissão de arbitragem do futebol cearense. As perguntas da entrevista foram elaboradas pelos próprios alunos, seguindo orientação pedagógica. Ambas tiveram permissão para serem gravadas e foram registradas com aparelho smartphone e descritas em seguida.

3. Resultados e Discussão

Durante as aulas teóricas das disciplinas de Processos Psicológicos Básicos I e II, já era percebido a importância da aprendizagem de tais processos. Porém, ao irmos a campo, através da disciplina de Prática Integrativa, do segundo semestre, essa importância tornou-se mais evidente. Isso se deu porque tivemos contato direto, através dos relatos das psicólogas entrevistadas, com a prática da aplicação da teoria vista em sala de aula, ou seja, a forma como são trabalhados os ppb’s no meio clínico e organizacional. Podemos perceber, que os processos psicológicos básicos fazem parte da prática do psicólogo em qualquer contexto de atuação, pois é através desses que o terapeuta percebe seu paciente.

Os processos trabalhados no presente artigo foram inteligência e emoção. Durante a execução das entrevistas, foi percebido um afunilamento dentro do conceito de inteligência, para as inteligências inter e intrapessoal. Por isso, baseando-se nos conceitos descritos por Howard Gardner em 1980, que definem inteligência emocional como “a capacidade de reconhecer os próprios sentimentos e os dos outros, assim como a capacidade de lidar com eles.” Tal conceito é bem empregado em uma das falas da psicóloga A, que realiza trabalhos com o time de vôlei, quando faz alusão ao técnico para mostrar sua importância no desenvolvimento do time. Inserido na fala, fica claro a importância atribuída à inteligência interpessoal pela psicóloga A.

“O técnico é a principal referência do grupo. É a pessoa que além de fazer treinamento, que tá acompanhando, é quem dá as instruções e a forma de como essas instruções são passadas. Podem chegar a cada atleta de várias maneiras e cabe ao treinador saber a melhor maneira de estar se comunicando a cada atleta.”

No que se refere à emoção, foi tomado como base o conceito de Richard Lazarus (1980), que relata que “nós decidimos se a situação é positiva, negativa ou neutra. Uma avaliação positiva ou negativa dispara a excitação fisiológica e o sentimento de uma emoção.” Esse conceito atenua a fala da psicóloga B, que trabalha com a comissão de arbitragem, quando perguntada o que é feito para que um erro de marcação não prejudique o desempenho do árbitro durante a continuidade da partida.

“Há até um psicólogo do esporte que se chama Terry Orlick, que fala muito sobre uma reconcentração, o jogo continua, o árbitro não pode ficar refletindo sobre o que aconteceu, é preciso trabalhar muito o presente, o agora, porque se não a tendência é errar mais e perder a concentração, então é sempre um trabalho das perspectivas de atenção e concentração, pensar no lance do jogo, sempre encontrar estratégias de reconcentrar, de voltar para o momento presente para que essas emoções de dúvidas, essas incertezas não tomem conta do processo do trabalho do árbitro.”

A partir do relato dado pela psicóloga B, pôde-se perceber que tal situação seria aparentemente negativa, porém foi contornada pelo portador das emoções no momento (árbitro), para que o mesmo não a sentisse como negativa, mas sim como neutra, não  ocasionando maiores prejuízos para o decorrer da partida.

Foi percebida a importância desses processos psicológicos dentro dessa área, por conta da necessidade do trabalho de controle das emoções nas relações interpessoais, tendo como base a necessidade dos humanos de pertencerem a grupos sociais, tendo em vista que a psicologia do esporte trabalha, em maior parte, com grupos.

Durante o desenvolvimento da pesquisa, notou-se a influência que o grupo exerce sobre o desempenho do indivíduo, ressaltando a importância da inteligência interpessoal para melhor resultado do grupo como um todo, seja em partidas de vôlei, seja controlando uma partida de futebol. Essa afirmação pôde ser constatada na fala da psicóloga A:

“...no caso do vôlei, a inteligência emocional está muito ligado as relações afetivas com os outros, com as integrantes do outro time. Então questões como não pensar em si, pensar na equipe como um todo, tem que entender como é que está a motivação do outro, como é que  aquele outro se motiva.
Então a Inteligência emocional no caso do esporte, na modalidade grupal, está muito relacionada às inter-relações, como é que eu me comporto diante do outro, e como o meu comportamento vai trazer consequências para todo o time. Cada ato meu vai repercutir em alguém do time como um todo.”

Após a análise da coleta de dados, um fato de suma importância que deve ser relatado é que ambas entrevistadas, apontaram a ansiedade como a emoção que se faz mais presente, antes e durante a atuação dos atletas e dos árbitros e que se faz necessário realizar trabalhos voltados especificamente para controle da ansiedade. Percebemos isso através dessas falas, quando perguntadas sobre qual emoção mais presente num momento antes do jogo.

Psicóloga A: A ansiedade é que mais aparece, e às vezes ela é tão grande que não cabem nem outras emoções, mas a questão da auto confiança é presente, o jogador se sentir inseguro.”
Psicóloga B: A ansiedade, esse aspecto de não dormir direito antes da partida, isso antes da minha entrada na psicologia do esporte, porque isso mudamos muito, porque isso é fundamental ser trabalhado na psicologia do esporte.”

Assim como há profissionais extremamente ansiosos, há também aqueles que não expressam emoção nenhuma, a ansiedade ou qualquer outra. E segundo teorias vistas em sala de aula, uma pessoa que não apresenta nenhuma emoção, como a ansiedade, pode não possuir um bom desempenho na atividade em que está operando ou até de uma maneira mais preocupante, esse indivíduo que não apresenta nenhuma ansiedade, pode não atentar-se para as regras do grupo. “A ansiedade, então, serve como um alarme que motiva as pessoas a se comportarem segundo as regras do grupo.” (Baumeister e Tice, 1990).

Essas afirmações foram ressaltadas nas falas das duas entrevistadas, que falaram ser necessário um certo nível de ansiedade para melhor desempenho e que realizam trabalhos para que essa ansiedade aflore em atletas ou árbitros que possuem mais experiência e já estão bem familiarizados com a situação.

Psicológa A: Vou trabalhar mais técnicas de ativação para que essa ansiedade aumente e ele se motive mais.”
Psicológa B: Existe um trabalho anterior que depende da equipe de arbitragem, podendo ser específico, para trazer mais emoção, ansiedade, quando são árbitros com uma carreira grande.”

Antes de realizar a entrevista, tínhamos uma visão, trazida do senso comum, de que a torcida tinha, em grande parte, bastante influência sobre os jogos, tanto para o atleta que está jogando, quanto para o árbitro que estivesse apitando uma partida. Entretanto, após a realização das entrevistas, notou-se que não há tanta influência quanto o imaginado, por parte da torcida. Não se pode negar que essa influência exista, porém ela se torna mais evidente em atletas e árbitros que ingressaram recentemente na carreira e que ainda não obtiveram algum trabalho psicológico. Ao contrário do que pensávamos, os atletas e árbitros mais antigos, por já receberem acompanhamento há mais tempo, conseguem canalizar melhor as emoções passadas pela torcida, para não se desestruturarem com as emoções negativas e nem se exaltarem com emoções positivas, conseguindo então, manterem-se neutros, diante da participação da torcida durante a partida, focados e concentrados.

Psicóloga A: Às vezes influencia muito quando o jogador não é bem preparado psicologicamente. Porque o que o psicólogo do esporte pode fazer em relação isso é trabalhar com o jogador a motivação intrínseca, ou seja, é uma motivação que faz com que essa própria motivação não seja externa, por exemplo, torcida, técnico, família, dinheiro, prêmio. Ele tem que achar um sentido em cima daquela prática dele e trabalhar essas questões para que essa motivação não dependa de fatores externos e pra isso a gente precisa trabalhar foco, atenção e concentração.”
Psicóloga B: O árbitro é muito acostumado a ser criticado, então é algo que é de canalizar quais são as opiniões que são relevantes, quais as opiniões daqueles que tem uma atribuição técnica, consegue avaliar se ele foi bom, porque que ele foi bom.”

Através da realização desse trabalho, foi percebido que apesar da Psicologia do Esporte essencialmente lidar com indivíduos, que compõem uma equipe, esses precisam tomar conta de que para haver uma boa experiência em cada situação que precisar ser enfrentada, é necessário não pensar em si mesmo, individualmente, porém, pensar em si inserido em um trabalho de grupo. É necessário deixar de lado posicionamentos pessoais e se posicionar junto a sua equipe, não negando sua individualidade e subjetividade, porém, colocar como ponto principal o fato de que a equipe está compondo você e não o inverso. Por conta desse posicionamento, o psicólogo do esporte necessita realizar trabalhos grupais e individuais, para que o indivíduo em questão consiga lidar com suas emoções e suas relações interpessoais.

4. Considerações Finais

Ao longo desse texto buscamos apresentar e comentar aquilo que hoje vem chamando a atenção de psicólogos enquanto uma área emergente de atuação. Procuramos mostrar, assim como vários outros estudos, como é importante estar bem preparado, tanto emocionalmente quanto fisicamente. A Psicologia do Esporte, como área de produção acadêmica e de atuação profissional, tem ainda um longo caminho a percorrer, se considerarmos o que já foi feito e o muito que ainda temos a construir, dada a amplidão e complexidade do mundo esportivo.

As Emoções e Inteligências utilizadas na Psicologia do Esporte fazem parte do dia a dia não só de quem é atleta, como também quem os acompanham. E essa pesquisa é um incentivo às práticas clínicas esportivas, pois exercem tanto um papel fundamental e aprendemos muito a entrar nesse mundo, conhecendo várias modalidades fenômeno e as instituições esportivas para poder pensar numa prática.

Finalizando, torna-se possível compreender, a partir da análise teórica, como esse ramo da Psicologia foi construído historicamente e como está inserido no contexto geral da Psicologia na atualidade. É um ramo da ciência psicológica que traz um desafio para a atuação do psicólogo no contexto do esporte e do exercício físico, o qual deve exercer os papéis de professor, pesquisador e consultor, buscando o desenvolvimento deste campo de atuação, bem como a estabilidade emocional e o melhor desempenho esportivo.

Sobre os Autores:

Thiago Teles - Estudante do 4º semestre do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza.

Nycole Vitorino - Estudante do 4º semestre do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza.

Referências:

BAUMEISTER, R. F. e TICE, D. M. Ego depletion: is the active self a limited resource? Journal of personality and social psychology, 1988.

BUENO, J. M. H. e PRIMI, R. Inteligência Emocional: Um estudo de validade sobre a capacidade de perceber emoções. Psicologia Reflexão e Crítica, 2002.

DUARTE, Jorge. Entrevista em profundidade. Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. Atlas, 2005.

FOLKMAN, S. e LAZURUS, R. S. If it changes it must be a process: study of emotion and coping during three stages of a college examination. Journal of Personality and Social Psychology, 1985.

FRIJDA, N. H. Cultural variations in emotions: a review. Psychological bulletin, 1992.

GARDNER, Howard. Estruturas da mente: a Teoria das Múltiplas Inteligências. Artes Médicas, 1994. (Publicado originalmente em inglês com o título: The frams of the mind: the Theory of Multiple Intelligences, em 1983).