A Humanização: dos Pacientes aos Profissionais de Saúde

Resumo: O presente artigo tem como objetivo buscar uma reflexão sobre as práticas de humanização no sistema de saúde, primeiro remetendo de forma breve a história da humanização no Brasil discorrendo sobre o processo de humanização e posteriormente remetendo às condições de maneira geral em que os profissionais de saúde (médicos, enfermeiros – auxiliares e técnicos- assistentes sociais, psicólogos e demais profissionais da área) se encontram. Buscou-se também retratar que dentro das condições indignas que por vezes sofrem os profissionais de saúde, eles se deparam com síndromes como o burnout e outras patologias, esta primeira tendo como raiz atividades de trabalho desgastantes, horas extras em excesso e ambiente de trabalho desagradável, isto tudo fomentando nestes profissionais atitudes desumanizadas causando neles próprios exaustão/esgotamento devido ao contato diário com os problemas, afastamento das tarefas do trabalho e a falta de envolvimento pessoal no exercício da profissão. Trata-se de uma pesquisa de cunho bibliográfico em que através de periódicos buscou-se uma compreensão e reflexão a respeito das práticas do cuidado aos pacientes que necessitam de atendimentos na saúde, não deixando de levantar a situação de trabalho dos profissionais de saúde, inteiramos neste trabalho um lado ainda pra ser discutido quando o assunto é a humanização, levantamos em questão o ‘porquê’ de determinadas atitudes em relação aos usuários das instituições de saúde pública e privada.

Palavras-chave: humanização, profissionais, burnout.

1. Introdução

A humanização advém da palavra humanizar, vocábulo do idioma francês, ela não existe em nenhum verbo do latim, contudo a raiz da palavra humano vem do latim humanus que se relaciona a homo, homem e húmus, terra, logo humanização é a ação do ato de humanizar, de tornar humana uma determinada ação e esta ação implica em desenvolver as aptidões do homem no seu ambiente de trabalho ou diante de outras práticas em que o indivíduo está diante do outro.

É um tema que vem sendo bastante discutido, contudo é preciso entender que é um processo que vai além das práticas dentro de uma instituição hospitalar, ela está inserida em diversas áreas desde as ciências da saúde as ciências exatas, profissionais como médicos, enfermeiros, psicólogos e demais das áreas da saúde em diferentes contextos geralmente são os principais alvos desta temática. Várias iniciativas com diferentes nomes surgiram durante décadas sobre a humanização no processo de cuidado dos usuários de saúde, nos manicômios, por exemplo. Seu início realmente não é recente, também desde meados de 1960 os movimentos feministas vêm lutando a favor dos direitos da saúde da mulher dentro de hospitais para diminuir os sofrimentos provocados diante de algumas ações, a humanização na saúde deste grupo galgou até os anos 80 e somente no final do ano de 2000 na XI Conferência Nacional de Saúde (CNS) é que o tema começou a ser retomado com mais ênfase, tendo o título “Acesso, qualidade e humanização na atenção à saúde com controle social”, a partir de então voltou com mais força a temática e foi instituída a Política Nacional de Humanização a Assistência Hospitalar (PNHAH) e a Política Nacional de Humanização (PNH).

Várias são as críticas referentes aos profissionais da saúde, por vezes, os médicos são os principais alvos de pacientes insatisfeitos, contudo dados de um Seminário Internacional de Gestão de 2008 mostrou que alunos que ingressavam na área tinham uma vaga noção de humanização e ao se formaram possuíam ainda menos informações a respeito do assunto.

Mas de fato o que é e como se configura esse processo de humanização? As práticas desumanizadas é um retrato somente e diretamente dos profissionais da saúde ou há outras variantes por trás?

2. Revisão da Literatura

2.1 Humanização

Inicialmente “humanizar” soava como uma provocação para os profissionais da saúde começou a ser discutido como um processo de construção de uma ética entre indivíduos na sua prática profissional. Diante do exposto discorrido anteriormente a humanização não é pauta do século atual, mas o tema se perpetua desde os anos 60 em nossa sociedade. Alguns autores falam em humanização como:

O processo, fundamentado no respeito e valorização da pessoa humana, que visa à transformação da cultura institucional por meio da construção coletiva de compromissos éticos e de métodos para as ações de atenção à saúde e de gestão dos serviços. (RIOS, 2008, p. 253).

É evidente que ao falarmos de humanização, neste processo que tem como base o respeito e valorização do indivíduo não devemos restringir nosso pensamento apenas no paciente, mas também nos profissionais que produzem por vezes um comportamento reforçado desde dentro das instituições acadêmicas pela falta de empenho sobre a temática, essas relações não é somente dos profissionais com os usuários, como também a relação entre eles, mudar as práticas destes indivíduos exige mudanças no processo de construção de cada sujeito, para se ter novas práticas é essencial ter novos sujeitos cientes da importância dela, logo é um processo de novos sujeitos e novas práticas, de outras maneiras do cuidar na saúde.

Os hospitais são tidos como um lugar de sofrimento em que os pacientes são tratados como objetos, seres inanimados, prevalece a falta de respeito a autonomia do sujeito e a falta de solidariedade. Vários são os fatores que contribuem para estas posturas, desde o ingresso na formação dos estudantes da área de saúde até as más gestões, os insuficientes investimentos diante das crescentes demandas, pacientes irritados pelos maus atendimentos de profissionais mal remunerados e esgotamento destes profissionais. É preciso inserir o indivíduo e vê-lo como sujeito de valores, autonomia, história, partir para a clínica ampliada de fato em que o indivíduo é considerado pelo seu contexto sócio histórico e cultural.

2.2 A Desumanização com os Profissionais de Saúde: Burnout e Qualidade de Vida no Trabalho

Para se possuir de fato práticas humanizadas devem-se considerar as condições em que os profissionais de saúde se encontram nas instituições, se por um lado buscam-se melhorias para os usuários por outro e não menos importante deve-se considerar as condições de trabalho destes profissionais de saúde, para Spector (2010, p. 413) “as condições físicas do trabalho tendem a ter efeitos físicos diretos nas pessoas”, mas não somente as questões relativas às condições de trabalho levando em consideração as instituições de saúde, mas também outras como as demandas crescentes, falta de investimentos e falta de valorização dos profissionais da saúde, por vezes estes encontram-se adoecidos com patologias inerentes às suas práticas, como:   o burnout,  estresse etc.  O Burnout é uma síndrome na qual o indivíduo perde sua capacidade de ânimo na realização das tarefas e de maneira geral na sua relação com o trabalho, portanto, é um conjunto de sinais e sintomas por consequência de uma atividade de trabalho desgastante em um ambiente desagradável tanto nos relacionamentos como no exercício profissional, trata-se também de um esgotamento físico, emocional e comportamental.

Apenas na década de 70 é que começou a serem construídos modelos teóricos e instrumentos que possibilitasse a compreensão dos aspectos desta síndrome, o termo surgiu como uma metáfora para exprimir o sentimento de profissionais que trabalhavam diretamente com paciente dependentes químicos, alguns profissionais explanavam que não viam mais estes pacientes como necessitados de cuidados especiais, ora que não se esforçavam para mudar a situação, outros já estavam tão exaustos que argumentavam não querer acordar no dia seguinte para trabalhar. Há profissionais que adquirem com facilidade ela, como os de áreas de serviços diretamente ligado ao público é o caso dos profissionais da saúde. Esta síndrome é conhecida como um conceito multidimensional envolvendo três componentes:

  • A Exaustão Emocional – Momento em que há o esgotamento das energias e aos recursos emocionais próprios devido ao contato diário com os problemas.
  • A Despersonalização – Endurecimento afetivo e afastamento das tarefas e pessoas do trabalho.
  • A Falta de Envolvimento Pessoal no Trabalho (Baixa Realização Pessoal) – Caracterizada pela evolução negativa.

Estes 3 (três) aspectos devem ser analisadas de forma individual e não de forma dicotômica, e somente com a combinação da análise das 3 variáveis se obtém o nível de burnout do indivíduo ou categoria. O que as pesquisas demonstram é que o burnout ocorre com trabalhadores altamente motivados, que reagem ao stress laboral trabalhando ainda mais até que entram em colapso. Um trabalhador que assume a síndrome assume uma posição de frieza frente a seus clientes/pacientes, não se envolvendo e trata as outras pessoas como algo inanimado.

Neste sentido é necessário um diagnóstico da situação dos profissionais para tomar uma posição diante da falta de humanização dentro das instituições, a qualidade de vida dos trabalhadores (QVT) é primordial, o “ponta pé” inicial para uma postura mais humanizada, além de conhecimentos aprofundados sobre a temática para abstrair qualquer preconceito diante do assunto.

Neste sentido em que a qualidade de vida é essencial, é importante saber que ela está relacionada com a cultura e lideranças dentro das instituições, investe-se em qualidade de vida para que haja além de desempenho e satisfação, uma melhor qualidade de vida. A organização deve trabalhar com sistemas de prevenções de doenças, levar conforto para seus funcionários e planejar estratégias para o correto uso dos equipamentos de proteção individual, além de que no combate ao estresse e outras patologias no trabalho saber que o tipo de liderança influencia para o aparecimento ou não de patologias e síndromes.

Para isso são necessárias pesquisas dentro das instituições para a identificação destas variáveis que podem influenciar no atendimento humanizado dos profissionais, pois se o indivíduo estiver desinteressado, apático e insatisfeito ocorrerá diversas situações além do tratamento desumanizado.

3. Considerações Finais

Não é partindo apenas para um esclarecimento sobre humanização dos profissionais da saúde que haverá um processo de humanização de fato, levando em consideração aos hospitais, vemos que as constantes crescentes demandas, falta de recursos, as más administrações e a exaustão destes profissionais que em muitas categorias ainda sofrem com as baixas remunerações fazem com que estes sofram com doenças e síndromes que os levam a se exaurirem em seus campos de trabalho, não há como os profissionais da saúde atuar sempre de forma humanizada sem que antes haja condições para o exercício de suas profissões, não é justificável ações desumanas para com os pacientes, mas ressalvamos que mesmo um profissional com postura humanizada acaba adoecendo e transmitindo este adoecimento com condutas não adequadas se não tiver condições para o trabalho, é evidente que muitos destes profissionais estão adoecendo por diversos os fatores e por outro lado os usuários dos serviços de saúde acabam por sofrerem com a falta de atenção e cuidado.

É evidente também que as residências em algumas áreas da saúde deveriam enfatizar mais a importância do cuidado humanizado no tratamento dos pacientes que já se sente fragilizados e sem autonomia, indivíduos inanimados e sem história, não podendo transmitir nenhuma reação, por fim, a humanização propõe uma construção de valores, não é um mecanismo sólido, mas é a necessidade do exercício da ética em que se deve considerar o outro.

Referências:

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