Início, Meio e Recomeços: Relato de experiência em um ambiente hospitalar

Resumo: Este artigo relata a experiência de um estagiário de Psicologia, aluno da disciplina de Estágio Supervisionado em Psicologia Hospitalar, do 10° bloco da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), em que sua prática se deu no único hospital de doenças infectocontagiosas da cidade de Teresina (PI). O artigo traz ao longo de seu desenvolvimento bases teóricas que informam um pouco da história da Psicologia Hospitalar, assim como sua prática e as atividades que envolvem o psicólogo hospitalar, além de, é claro, todo o processo que ocorreu no estágio, apresentando as opiniões do estagiário, exemplos de casos e reflexões frutíferas de sua vivência. A intenção maior deste artigo é oferecer aos leitores bases a partir de uma experiência prática para que se possa futuramente elaborar intervenções, avaliar possibilidades, levantar críticas a respeito dos casos relatados pelo estagiário, refletir sobre a prática e/ou ler sobre possíveis situações futuras que possam a serem encaradas dentro de ambientes semelhantes a este. Onde é neste espaço que se lida com um pouco de tudo e que leva estagiário, e profissional, a se reinventar como pessoa, ao lidar com o que se é visível, a doença, e ao que se é invisível, subjetividade, resiliência, emoções e sentimentos.

Palavras-chave: Psicologia Hospitalar; Estagiário; Infectocontagioso; Exemplo.

Begining, middle and recommencements: Reporting experience in a hospital ambience

Abstract: This article reports the experience of a Psychology trainee, student of the discipline of Supervised Training in Health Psychology, the 10th block of the State University of Piauí (UESPI), where his practice took place in the only hospital of diseases  infectious-contagious of the city of Teresina (PI). The article brings along of your development theoretical basis that inform a little history of Hospital Psychology, as well as their practice and activities involving the hospital psychologist, and, of course, the whole process taking place on period of probation, presenting the opinions of the trainee, case examples and reflections, fruit of his experience. The major intent of this article is to offer readers bases starting from a practical experience, so that if can develop future interventions, evaluate opportunities, raise criticisms of the cases reported by the trainee, reflect on practice and / or read about possible situations in the future which may be confronted in a environment similar to this. Where is in this space that if deals with a bit of everything and which induce trainee and professional, to reinvent himself as a person, to deal with what is visible, the disease, and what if is invisible, subjectivity, resilience, emotions and feelings.

Keywords: Hospital Psychology; Trainee; Infectious-Contagious; Example.

1. Introdução

Já imaginou vivenciar alegria, tristeza, medo, angústia, morte, vida e esperança, em apenas um local, às vezes em apenas um dia? Não?! Pois então seja bem-vindo ao ambiente hospitalar. Este é um local onde a palavra que o melhor define, apesar do sensacionalismo que pode existir em torno desta, é visceral. Muito do que se vive dentro deste cenário é intenso, estressante, limitante e comumente envolvido por impotências, medos e ansiedade, já que os dias em um hospital dificilmente são iguais ao outro. Todo dia não é apenas mais um dia, afinal de contas, tudo pode ser absolutamente mudado em uma noite. Mas qual a razão disso? As respostas encontram-se nas ocorrências rotineiras do hospital como altas, chegada de novos pacientes e óbitos, o que provoca um movimento inconstante de pacientes denominado “fluxo,” que pode ser positivo para alguns e desagradável para outros que estagiam ou já são profissionais no local.

O relato aqui presente tem como meta trazer um pouco da vivência e da experiência ocorrida no segundo semestre de 2014 no Estágio Supervisionado de Psicologia Hospitalar. Cujo objetivo, da disciplina, é o de favorecer com que o estagiário se sinta participante da rotina do hospital, desenvolva ações práticas básicas para a realização de atendimentos em enfermarias, compreenda o dia-a-dia no ambiente hospitalar e desenvolva habilidades pessoais e profissionais referentes à atuação psicológica. Portanto, o artigo traz ao longo de seu desenvolvimento teorias, experiências e opiniões acerca do que se é vivenciar a prática psicológica no ambiente hospitalar.

2. A Psicologia Hospitalar

2.1 História

A história da Psicologia Hospitalar perpassa algumas etapas até sua oficialização e reconhecimento, onde Silva (2009) vem a pontuar o fato de que a Psicologia Hospitalar é uma área de atuação específica da psicologia brasileira.

Pereira (2003) por sua vez faz um percurso desta atividade ao longo da história, que pode ser resumida nos seguintes pontos:

  • 1833-1890: Este período ficou chamado de Pré-Profissional, onde se criam os cursos de Medicina, obviamente neste período não havia a existência de materiais teóricos relativos à Psicologia, no entanto havia o interesse pelo estudo a respeito da subjetividade do ser humano, concernente a suas emoções, loucura, persuasão e etc. Pela ausência de um material específico a este respeito, a Medicina passa a se utilizar de bases como a Filosofia, Teologia, Pedagogia e conhecimentos específicos de sua área. Ao fim deste período se tem o surgimento da Psicologia Positivista, Wundt e os primeiros testes psicológicos nos EUA;
  • 1890/1906-1975: Fase esta conhecida como Profissionalização, foi o estágio em que a Psicologia passa a ter reconhecimento científico internacional e começa a adentrar o Brasil através das áreas relativas à Educação e posteriormente do Trabalho. A Medicina por sua vez teve um grande interesse pelos testes e escalas possibilitadas pela Psicologia, onde foram construídos centros de pesquisas e realizados estudos, cujo objetivo maior foi o de mensurar, classificar e ajustar os pacientes.

Na década de 50 destaca-se que já existiam alguns poucos “profissionais” atuantes, mesmo com dificuldades, em áreas hospitalares de grande porte, como no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde ocorreram movimentos voltados para a regulamentação do curso. E em 1962 foi então regulamentada a profissão e o curso de Psicologia no Brasil.

  • 1975-...: Último e atual momento chamado de Profissional, em que a profissão já regulamentada passa a ser amplamente procurada, exercida e ressignificada no contexto ao qual o país estava inserido, destacando-se de maneira impressionante a área Clínica. Com em relação a Psicologia Hospitalar, essa começa a ter um espaço considerável a partir do
(...) desenvolvimento de estudos científicos demonstrando como a doença e a hospitalização podem desencadear problemas psicológicos; a desumanização da assistência trazida pela tecnologia, impondo a necessidade de modificação do relacionamento médico-paciente; e admissão, cada vez mais frequente no hospital geral, de casos que necessitem de auxílio psicológico, como drogadictos, alcoolistas e tentativas de suicídio. (SILVA,2009, p. 54).

Onde o primeiro setor a ter de fato a atuação de psicólogas no campo hospitalar foram as áreas de Pediatria, tanto do Hospital de Base da FAMER, São Paulo, quanto o Hospital dos Servidores do Estado, Rio de Janeiro, (PEREIRA, 2003).

2.2 O que é a Psicologia Hospitalar e quem é Psicólogo Hospitalar?

Segundo Miranda (2013) a Psicologia Hospitalar é uma área de atuação que tem por meta oferecer suporte ao doente, possibilitando que este consiga lidar com suas questões momentâneas com um maior e melhor grau de resiliência, que para tal, o profissional busca compreender e lidar com o indivíduo não apenas a partir de seu psicológico ou biológico, mas a partir da multiplicidade de fatores que se relacionam com a hospitalização como: subjetividade, relações, saída de sua casa, desconforto, mudança de hábito, etc. Mas sua função maior, é a de possibilitar espaço ao paciente, para que este fale, reveja sua situação, seja ouvido e se ouça. Ou seja, o objetivo do psicólogo que atua no hospital é o de entender como o sujeito está vivendo, lidando, entendendo e amadurecendo dentro de seu adoecimento. Para o psicólogo, mais importante do que a doença é a relação paciente-doença e a busca para minimizar o sofrimento gerado pelas mudanças em sua vida devido à hospitalização, trazendo a tona o máximo possível de sua subjetividade.

A profissão do psicólogo hospitalar é colocada de acordo com a Resolução CFP Nº 02/01 Anexo I, referente a definição das especialidades a serem concedidas pelo Conselho Federal de Psicologia, como a área da Psicologia em que o profissional atuante desta deve estar capacitado para realizar  suas funções centradas nos âmbitos secundário e terciário de atenção à saúde, atuando em instituições respectivas. Onde realiza atividades como: atendimento psicoterapêutico; grupos psicoterapêuticos; grupos de psicoprofilaxia; atendimentos em ambulatório e unidade de terapia intensiva; pronto atendimento nas enfermarias em geral; psicomotricidade no contexto hospitalar; avaliação diagnóstica; psicodiagnóstico; consultoria e interconsultoria.

Vieira (2011) clareia algumas ideias ao colocar que o psicólogo pode atuar de diversas maneiras e em diversas áreas, como lidar com funcionários, facilitar a adaptação do sujeito ao ambiente, informar a outros profissionais como seria a melhor forma de proceder com determinados pacientes, atuação no RH, desempenho direto com o paciente (enfermarias) e/ou ainda lidar com a família do mesmo.

Ou seja, a possibilidade de atuação do profissional dentro de tais instituições é vasta, cabendo apenas que estas possibilidades tenham condições de ocorrerem dentro da entidade de maneira em que sua atuação não se limite, mas se desprenda de um foco, um padrão.

3. Um Começo

3.1 Conhecendo o local

O Estágio Supervisionado em Psicologia Hospitalar, da Universidade Estadual do Piauí, tem como uma de suas características, proporcionar aos alunos a chance de escolherem o local de atuação. Como as vagas para o outro local de escolha já estavam preenchidas, por parte das colegas estagiárias, os demais estagiários foram então direcionados ao Hospital de Doenças Infectocontagiosas de Teresina.

Este instituto foi fundado em 1973, realizando atividades relativas à atenção básica, de média e alta complexidade, tratando doenças como meningite, tuberculose, AIDS, leishmanioses, dengue, febre amarela, toxoplasmoses e hepatites. Como instituição pública, o hospital, através do SUS, procura realizar atendimentos multiprofissionais, na tentativa de garantir atendimentos satisfatórios de acordo com o padrão de serviço referente aos atendimentos de baixa, média e alta complexidade, relativo a enfermidades infectocontagiosas, comorbidades ligadas a estas ou suspeitas.

O mesmo oferece serviço 24 horas por dia, onde em sua rotina são realizadas consultas, internações e atendimentos emergenciais ao mais variado público: idosos, mulheres, homens e/ou crianças, não só da capital Teresina, mas também de cidades adjacentes e até mesmo de outros estados.

Atualmente existem mais de 200 profissionais atuantes dentre médicos: clínico, infectologista, pediatra, gastroenterologista, radiologista, cirurgião geral, dermatologista, neurologista, cardiologista, hematologista, nefrologista, pneumologista, cirurgião-cardiovascular e residentes. Contando ainda com enfermeiros, técnicos, auxiliares, psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas, farmacêuticos, fisioterapeutas e agentes de saúde.

Pontuando-se que o ambiente hospitalar, por sua vez, é um local em que ocorrem relações humanas e que influencia diretamente na saúde do paciente, ocorrendo na maioria das vezes o fato de que os hospitais são locais com: má iluminação; forte cheiro de produtos de limpeza e desinfecção; paredes pintadas de forma uniforme sem qualquer variação nos ambientes; movimentado demais em alguns momentos e monótono em outros; com pouco espaço e desconfortável. O que não raramente leva os indivíduos envolvidos na instituição, funcionários e pacientes, a gerarem estresse, desprazer e tensões, (MEDEIROS, 2011). O hospital no qual se realizou o estágio, em parte, não vem a ser diferente do que foi descrito anteriormente, mostrando que essa triste realidade estrutural não é específica, mas geral.

3.2 Escolhendo as enfermarias e adentrando o local

Para a realização e organização do estágio, as enfermarias do hospital foram divididas entre os estagiários, onde estes tinham a possibilidade de escolher quais queriam atuar. O estagiário aqui em questão, ficou com 3 enfermarias, uma exclusivamente feminina, duas exclusivamente masculinas, sendo duas de médio porte e outra de grande porte. Não há uma média exata de quantos pacientes existiam em cada enfermaria, devido ao “fluxo”, mas pode-se relatar que o máximo de pessoas que já estiveram presentes em uma mesma semana, somando-se as três, totalizou cerca de dezenove pessoas. Ressaltando que não se tinha conhecimento destes dados anteriormente, relativos ao “fluxo” e a quantidade de pessoas, sendo estes observados apenas após a entrada e atuação.

O primeiro dia de estágio foi caracterizado por uma visita ao futuro local de atuação, onde uma das psicólogas guiou os estagiários pelo ambiente, mostrando onde ficavam as enfermarias e salas de isolamento, relatando ainda um pouco das normas, assim como algumas providências que deveriam ser tomadas, como a vacinação e a indicação de uma palestra para os recém-chegados ao hospital.

Nesta palestra foram relatadas informações a respeito dos cuidados básicos em relação à higiene e atenção, para onde se locomover para se evitar lesões, reforçando ainda a importância da vacinação para que se evitassem prejuízos à saúde dos estagiários e demais novatos.

Já em relação às supervisões, estas ocorriam uma vez por semana, onde tinham por objetivo possibilitar aos estagiários, atitudes que pudessem facilitar atendimentos específicos aos quais estaria enfrentando dificuldades. Além disto, havia a possibilidade de se ouvir os relatos dos demais presentes, assim como entender outros pontos de vista e absorver atitudes, que talvez futuramente fossem necessárias para se realizar em casos dos quais viessem a se assemelhar aos já debatidos na supervisão.

4. Fazendo Parte da Vivência

4.1 As doenças encontradas

As principais doenças infectocontagiosas encontradas nas enfermarias que receberam as atuações, do estagiário aqui em questão, foram:

Tuberculose

Agente etiológico: Mycobacterium tuberculosis ou Bacilo de Koch (BK).

Transmissão: Se dá principalmente por vias aéreas, através de gotículas contaminadas pelas bactérias existentes.

Sintomas: tosse persistente por três semanas ou mais, produtiva ou não (com muco e eventualmente sangue), febre vespertina, sudorese noturna e emagrecimento. 

Afeta: principalmente os pulmões, mas também pode vir a afetar ossos, rins e meninges.

(GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ, [s.d].).

Meningite

Agentes etiológicos:

  • Bactérias: meningococo, hemófilo, E. coli, Salmonela sp., Proteus, Klebsiela, Pseudomonas, pneumococo, estreptococo, estafilococo, Listeria, Leptospira e Treponema;
  • Vírus: arbovírus, vírus da caxumba, herpes, sarampo, rubéola, parvovírus, rotavírus, varíola, HIV e alguns vírus que acometem o trato respiratório;
  • Fungos: Criptococo, Candida e Histoplasma;
  • Outros parasitas: Cisticerco, ameba, toxoplasma, tripanossoma, plasmódio, esquistossomo e Strongyloidesstercoralis.

Transmissão: Gotículas de saliva.

Sintomas: febre, mal-estar geral, cefaleia holocraniana, vômitos palidez, sudorese e rigidez de nuca.

Afeta: Meninges. (CARVALHO, 2003).

AIDS

Agente etiológico: Retrovírus HIV.

Transmissão; Pelo ato sexual; Contato com sangue contaminado, ou material que esteve em contato com o sangue; Mãe-filho seja pelo parto, aleitamento ou gestação.

Sintomas: Incialmente se parece com uma gripe, onde ocorre fraqueza, mal-estar e febre, mas com a multiplicação do vírus HIV, a taxa de CD4 inicia uma queda crítica o que vem a gerar febre, diarreia, suores noturnos e emagrecimento. O que, por conseguinte abre oportunidades para outras doenças oportunistas como hepatites virais, tuberculose, pneumonia, toxoplasmose e alguns tipos de câncer.

Afeta: Sistema Imunológico. (BRASIL. FUNDAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE, 2002; DEPARTAMENTO DE DST, AIDS E HEPATITES VIRAIS, [s.d.]).

Hepatites A, B e C

As hepatites afetam principalmente o fígado. E os tipos encontrados foram:

  • A: seu agente etiológico é o vírus HAV, seu contato se dá por via fecal-oral, por contato inter-humano ou por água e alimentos contaminados. Sintomas: Febre, fraqueza, mal-estar, dores abdominais, náuseas, vômitos, perda de apetite, urina escura, fezes esbranquiçadas e icterícia.
  • B e C: seus agentes etiológicos são respectivamente o HBV e o HCV, seu contato se dá principalmente pelo sangue ou por algum material infectado pelo mesmo. Seus sintomas são próximos ao do tipo A, se diferenciado no fato de que os tipos B e C podem evoluir a ponto de se tornarem cirroses ou cânceres. (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2005; DEPARTAMENTO DE DST, AIDS E HEPATITES VIRAIS, [s.d.]; ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS PORTADORES DE HEPATITE [s.d.]).

Outras doenças observadas, que não se encaixavam no quesito contagioso:

Leishmaniose Visceral

Agente etiológico: Leishmania (L.) chagasi;

Transmissão: picada dos vetores - L. longipalpis ou L. cruzi – infectados pela Leishmania (L.) chagasi;

Sintomas: Aumento do volume abdominal, cefaleia, perda de peso, dor abdominal, palidez, náusea, vômito, edema em membros inferiores, prostração, tosse seca e diarreia;

Afeta: fígado, baço, gânglios linfáticos e medula óssea. (VILELA, 2013; BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2006).

Leishmaniose Tegumentar

Agente etiológico: Leishmania;

Transmissão: Por vetor chamado: mosquito-palha ou birigui;

Sintomas: Lesões na pele com úlceras de bordas elevadas e fundo granuloso, geralmente indolores, e com lesões nas mucosas como nariz, boca e garganta;

Afeta: Pele e mucosas. (SECRETARIA DE SAÚDE DO ESTADO DE GOIÁS; BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).

Neurotoxoplasmose

Forma de infecção relativa à toxoplasmose que afeta o sistema nervoso, bastante comum em pacientes com AIDS.

Agente etiológico: Toxoplasma gondii;

Transmissão: fezes de gato ou ingestão de carnes malcozidas ou mal assadas infectadas pelo agente;

Sintomas: Dores de cabeça, mal-estar, vômito e leves alterações relativas ao estado mental, que podem evoluir para desmaios, alterações de consciência, paralisias, desorientação e em casos graves coma.

Afeta: Sistema Nervoso Central. (ARAÚJO, ET. AL., 2012; BARSSOTI e MORAES, 2005).

4.2 Passos de um estagiário

Uma das primeiras coisas que diferencia o psicólogo hospitalar dos demais e é uma das coisas mais difíceis, é justamente o ir de encontro ao paciente. O paciente não vem até você, é você que se direciona a este, (LAZARETTI, ET. AL., 2007). Gera-se então uma singularidade, não comum nos demais estágios, que vem a incomodar por ser diferente da proposta, onde é o indivíduo que busca o profissional, no caso o estagiário. Mesmo esta estranheza sendo diminuída com o decorrer do tempo, não necessariamente se extingue. Além disto, não há privacidade, tudo o que é feito e falado com o paciente é visto pelos demais presentes na enfermaria e profissionais que realizam suas atividades.

A meta inicial ao se estar frente ao paciente é a de criar um vínculo, uma ligação, que com o passar do tempo pode ser fortalecida ou não. Pinheiro (2009) coloca que esta ligação, vínculo, tem como meta maior entender como se dá a relação do enfermo com o ambiente ao qual está inserido, considerando as emoções, sentimentos e estímulos que se manifestam ao longo do processo.

No entanto isto só se torna possível a partir do momento em que o paciente se dispõe a falar, se abrir, possibilitando um espaço de diálogo, o que muitas vezes não ocorre. Sendo comum no ambiente ao qual se realizou o estágio, pacientes que recusam aproximação, ficam receosos com sua presença, não falam, fingem comportamentos (dormir, estar cansado), falam de forma mínima e pontual, apenas um “Tudo bem”, “Nada”, “Sim”, “Não”, foquem apenas nos aspectos físicos, sejam agressivos, etc. Isso inibe o estagiário, o faz sentir que seu trabalho é mínimo, insuficiente deixando uma sensação de inutilidade.

A partir daí surgem então questionamentos: “Onde está o erro?” “Sou eu, ou é ele?” “Estou me posicionando da maneira certa”? “Será que falei algo que não devia?” “Estou sendo muito incisivo?” “Estou sendo chato, previsível?” “O que posso fazer de relevante aqui?”

Tudo isso de acordo com Guedes (2006) leva o estagiário a criar resistências para com em relação ao estágio e as supervisões, e não raramente ocorrem desistências, onde se reconhece a partir daí, que o estágio hospitalar não é para todos. Já que este está,  muitas vezes, envolvido por impossibilidades de alterações e que apesar de muitas vezes existir esforços tanto da parte dos supervisores, quanto estagiários, existem limites que não podem ser transpostos dentro do campo, de sua realidade e das sensações geradas, tanto nos estagiários, quanto nos supervisores, infelizmente.

Logo, se deve focar nos pacientes dos quais se pode oferecer algo, salientando que cada paciente tem seu tempo, suas questões, sua maneira de existir, sentir e de lidar com seu adoecimento, não se pode forçar absolutamente nada, pois se sabe, como relata Domingues et.al. (2013), é de validade que se tenha uma demanda, para que assim se possa trabalhar, realizar algum tratamento que tenha início, meio e fim, mas caso a demanda não venha a surgir imediatamente, talvez esta venha a surgir futuramente. E caso esta não venha a aparecer, não é motivo para se sentir mal, é apenas uma posição do paciente, que na qual deve ser respeitada.

Por muitas vezes no estágio foi necessário retornar ao local em outros horários, principalmente nas semanas iniciais até praticamente metade da realização do estágio, onde a quantidade de pacientes era grande. Também se realizava anotações e leitura de prontuários, destaca-se aqui que o acompanhamento dos prontuários trazia a possibilidade de entender como se dá a evolução do prognóstico, assim se podia ter a noção de como desenvolver conversas com pacientes mais resistentes. Além disso, estes oportunizam a informação a respeito de pacientes que estão prestes a receberem alta, ou ficarão por mais tempo, onde estes últimos podem ou não serem melhores entendidos ao longo dos dias, de forma mais lenta e gradativa. Os prontuários também são ricos na possibilidade de proporcionarem contato com termos comuns ao dia a dia hospitalar, como: FEO, LTA, incisura, melosalgia, etc. Termos bastante comuns para os médicos, mas bastante distantes da realidade cotidiana dos psicólogos.

Ademais, são comuns alguns acompanhantes e pacientes requerem a atenção do estagiário por mais tempo do que outros, por isso alguns solicitavam retorno a tarde e em algumas ocasiões, após a leitura dos prontuários, alguns acompanhantes que presenciavam o estagiário no local solicitavam um espaço de escuta e assim era feito.

 Pela manhã ocorriam, esporadicamente, momentos religiosos, além dos já comuns atendimentos médicos, ou a ocorrência de pacientes dormindo, o que levava o estagiário a não realizar todos os acompanhamentos. Mas ao fazê-lo, o estagiário, voltar em outros horários, o propiciava a realizar observações no hospital relativas ao movimento em outros horários e atendimentos esporádicos com alguns acompanhantes, como já mencionado anteriormente.

4.3 Fragmentos de memórias e vínculos

Neste momento se traz um pouco dos diálogos e das relações que foram feitas, em nível de exemplo, para que seja possível visualizar um pouco mais a respeito da experiência que se teve, infelizmente não foi possível lembrar-se de todos os detalhes e pontuações de maneira fiel do início ao fim, portanto foram escolhidos casos pontuais, dos quais foi possível se recordar do máximo de detalhes.

A intenção é que estes diálogos possam ser uma base para exemplos, discussões sobre erros relativos à fala, postura ou qualquer outro fato em relação ao estagiário. A finalidade maior, dessa maneira, é a de que os relatos sirvam para levantar questionamentos, sejam positivos, sejam negativos.

Deve-se frisar que os casos relatados a seguir não seguem qualquer cronologia ou ordem de relevância.

4.3.1 O humor como ferramenta de ligação entre estagiário e paciente

Algumas situações são inevitavelmente cômicas, seja por uma atitude por parte do estagiário que passa alguma vergonha que gera risos, seja por parte da relação entre estagiário-paciente, obtém-se foco nesta segunda.

Segundo Araújo e Silva (2007) o bom humor, a risada, a alegria do momento, alivia a tensão existente, diminui o estresse e as defesas, facilitando a comunicação entre profissional e enfermo. Então por vezes, este é uma peça chave para adentrar de maneira não agressiva no mundo do paciente, sem que este tenha qualquer resistência.

Mas o uso do humor não deve ser usado de maneira fútil, não é uma dinâmica do “brincar pelo brincar”, além disto, para tal, não pode haver movimento de apenas um lado, é necessário que ambos os lados estejam em sintonia, para compreender o movimento e ter a liberdade de falar mais livremente, portanto um vínculo natural e original é a peça-chave para que o humor flua de maneira proveitosa. Pontua-se por fim, que nem todas as vezes que se utiliza do humor, é possível de se conseguir uma ligação ou confiança por parte dos pacientes, principalmente nas primeiras intervenções.

Exemplo:

Senhor A. (45 anos), pedreiro, internado por complicações relacionadas à AIDS.

A. já era um paciente muito conhecido tanto pelos demais pacientes quanto pelo estagiário, A. ao ver que o estagiário se aproximava, imediatamente baixou a cabeça, deitou, puxou um lençol se cobrindo e fingiu estar dormindo. Ao observá-lo mais de perto o estagiário notou um leve sorriso em seu rosto, resolveu então colocar:

- Olá senhor A., espero que não esteja incomodando seus sonhos.

- Bom dia, mas me desculpa, eu não te ouvi não moço, eu tô dormindo agora.

(Risos de ambos os lados)

A. então senta-se no leito, praticamente em um salto, e pergunta:

- Como o senhor tá?

- Eu é quem lhe pergunto, como o senhor está se sentindo!?

- Me sinto muito bem.

- Percebi, você quase quebrou meu nariz com esse pulo.

(A. começa a gargalhar)

- Você é sempre muito falante e tudo, mas hoje você tá muito mais feliz. É muita felicidade pra um homem só. O que foi?

- Sabe, eu vou receber alta daqui pra amanhã.

Já se sabia da possibilidade de sua alta, em virtude dos prontuários e do bom prognóstico que vinha ocorrendo.

- Mesmo!?- traz o estagiário.

- Mas rapaz!

- “Umbora” falar um pouco disso?

- Tá bom!

(...)

4.3.2 Pacientes que não querem falar

Ao contrário de alguns pacientes falantes e expressivos, que não poupam palavras e gestos, a maioria dos pacientes pouco falam, mas existem casos mais extremos ainda, pacientes que não querem falam. O não falar aqui, não possui relação com o não poder, mas simplesmente ao fato de não querer. Assim, este paciente deve ser respeitado em sua postura e não discriminado. Afinal, o serviço de Psicologia é oferecido e cabe ao paciente aceitar ou negar.

Exemplo:

Senhor J., seu prontuário não se encontrava no Posto, por isso não se tem mais dados a seu respeito. Seu nome só foi coletado em vista de que se encontrava colocado em uma anotação na parede.

O estagiário sabia que este paciente não iria ser fácil, visto a maneira com que este ficava a lhe observar, de forma agressiva, ao adentrar a enfermaria. Logo após o primeiro atendimento o estagiário se aproximou de J,. anotou seu nome e se apresentou:

- Olá senhor J., meu nome é (...), sou estagiário de Psicologia e passo aqui frequentemente para acompanhar vocês e disponibilizar um espaço de fala e escuta, claro, caso você queira. E vejo que você é novo por aqui, por isso queria aproveitar esse primeiro momento para lhe conhecer um pouco melhor, pode ser?

J. apenas olhava, mas não sinalizava nada.

- Quantos anos o senhor tem?

J. aparentava ter por volta de 30 anos, mas nada falou, manteve-se em silêncio e mantinha sua maneira de olhar, parecia querer intimidar o estagiário. De fato, J. causava uma sensação de medo, era um homem muito grande e de aparência forte.

- Hmmm... é daqui? - Pergunta o estagiário.

O silêncio e o olhar permaneciam, o estagiário não queria se mostrar intimidado, resolveu então encará-lo por alguns segundos, reconhece-se, isto foi um erro. Foi um silêncio que se tornou temor, não se sabia se o paciente poderia vir a agredi-lo, afinal, se estava exposto e a presença do estagiário lhe parecia um nítido incômodo, tomou-se a ação baseado pelo mais sensato, não insistir.

- Vejo que você não quer falar. E eu respeito isso, futuramente passarei aqui de novo e caso queira, estarei disponível para você, assim como estou para os outros. Tenha uma boa tarde. – Informa o estagiário.

- Fala com ele! – exclama R. (52 anos), um dos pacientes da enfermaria, insistindo que J. falasse algo.

O estagiário intervém:

- Não! Se ele não quer falar, ele deve ser respeitado.

Apesar de Simonetti (1959) propor o falar, monólogo, com o paciente que realiza o mutismo voluntário, neste caso, em virtude do claro desprazer do paciente pela presença do estagiário, isto não seria possível.

4.3.3 Pacientes que não podem falar

Ao contrário dos que não falam, pelo fato de não quererem, existem os que não conseguem, em vista de seu grau de debilidade frente à doença. Como muito bem diz Simonetti (1959), quando o paciente não tem condições de falar, o psicólogo é parte de sua fala, onde se busca alternativas para a ocorrência de uma comunicação, seja por gestos, escritas, ou outras maneiras.

Exemplo:

Senhor C., lavrador, 35 anos, internado por complicações relacionadas com a AIDS.

C. estava em um estado muito sério em relação à doença, mas suas chances de morte vinham sendo descartadas em virtude de sua boa reação aos medicamentos. Inicialmente todas as vezes que se ia a sua enfermaria este se encontrava dormindo e segundo sua acompanhante e esposa, este se mantinha pouco tempo lúcido ao longo dos dias.

Era então conversado com sua acompanhante um pouco a respeito de sua vida, para adentrar nas questões relacionadas ao seu adoecimento, ou seja, a acompanhante e sua esposa, M. (35 anos), foi o elo entre as informações que o estagiário buscava e C.. M. por sua vez não era usada nesta intenção, apenas fornecer informações, esta também foi acompanhada, sempre sendo deixado um espaço para caso esta quisesse se utilizar dos serviços relacionados à Psicologia.

A primeira vez que o estagiário pode encontrar C. acordado, logo foi em direção a este. C. havia acordado há poucos minutos, o estagiário abaixou-se para ficar de frente ao paciente e olhá-lo nos olhos, já que este estava deitado e não conseguia se sentar no leito. O estagiário começou então a falar, sem alterar a voz para uma tonalidade mais alta:

- Olá C., você está escutando o que eu estou falando?

Ele então olha em direção ao estagiário.

- Ótimo, percebo que sim, consegue mexer a cabeça assim? – O estagiário gesticula com sua cabeça de forma positiva.

C. move lentamente sua cabeça de forma positiva.

- Certo C., só vou lhe fazer algumas perguntas bem rápidas, aí caso seja sim, você faz sim com a cabeça, se não, você pode fazer negativo com a cabeça ou apenas ficar sem mover tá?

C. faz um gesto positivo com a cabeça.

- C., meu nome é (...) e sou estagiário de Psicologia e há um tempo eu já queria poder ver e falar com você. Queria saber se você sabe onde está?

C., parou por um instante, moveu seus olhos de maneira perdida e depois voltou o olhar ao estagiário e respondeu de maneira positiva.

- Certo, sabe desde quando está aqui?

C., responde negativamente com o movimentar de sua cabeça.

- Fazem alguns dias meu amigo. Quer saber quantos dias?

C., responde negativamente com a cabeça.

- Tá bom... Você sabe por que está aqui?

C. responde que sim.

- Tem sentido que tem melhorado ao longo desses dias?

C. responde que sim.

(...)

A intenção das perguntas, que por sua vez deveriam ser fáceis, curtas e não excessivas, era a de realizar uma rápida avaliação de seu estado mental, procurando avaliar sua orientação, memória, pensamento e comportamento físico.

4.3.4 O acompanhante no processo de hospitalização

O acompanhante é uma figura bastante comum nas enfermarias e é um indivíduo que também merece atenção. Por vezes estes negam qualquer olhar voltado a ele, já que o foco deveria ser exclusivo ao paciente e não ao acompanhante, uma concepção errada deste, óbvio! Afinal, este compartilha a realidade do hospital junto ao paciente e por vezes para este, demonstrar medo e angústia frente ao paciente que acompanha pode ser ruim, portanto mostrar-se invulnerável é para eles a melhor posição.

Para Henriques e Cabana (2013) a hospitalização altera a realidade do enfermo e isto pode lhe gerar angústias, medos, irritações, etc., ou seja, o indivíduo pode vir a entrar em crise. Assim, indiretamente, o familiar que o acompanha muitas vezes partilha desta situação, logo o acompanhante também deve ser acompanhado.

Pode-se concluir que doença e hospitalização não geram mudanças apenas ao doente, mas também aos que convivem próximo a ele, levando a uma desorganização de proporção maior do que se pode julgar óbvia, ao se focar apenas na relação paciente-doença, (ROMANO, 1999), esquecendo-se do acompanhante como parte da realidade do paciente.

Contudo em momentos em que não estão na presença do paciente, o acompanhante se entrega as lágrimas, a preocupação e ao medo de presenciar talvez a morte de seu familiar, amigo, ou cônjuge. Ele deixa suas resistências caírem e sua fragilidade surgir. Assim, o estagiário sempre deve oferecer sua ajuda, talvez naquele momento o acompanhante não queira, mas ele guarda a possibilidade de usar em um futuro.

Exemplo:

S. é mãe e era acompanhante de C., paciente de 23 anos, diagnosticada com Leishmaniose Visceral. C. durante seu relato trouxe o fato de ter certa resistência ao tratamento, além de não ter completado o processo de luto da perda de seu filho que já havia falecido a aproximadamente 4 anos.

O estagiário estava realizando anotações no Posto, quando foi chamado por S., de imediato este se deslocou em direção a acompanhante que começou a dizer:

- Tô te atrapalhando?

- Não dona S., de jeito nenhum, aconteceu alguma coisa?

- Não, é que, eu tô me sentindo muito mal vendo a minha filha daquele jeito.

- Sim, estou lhe ouvindo.

- É difícil, como falei antes - em uma primeira intervenção - a gente é muito apegada uma a outra, aí eu fico com medo dessa coisa. Eu choro muito no banheiro todo dia, eu choro muito, mas eu não quero chorar na frente dela, você entende?

- Estou entendendo.

- Mas o que eu queria saber mesmo é outra coisa.

- O quê?

- Você fala bem, é uma pessoa muito gentil e acho que conhece essas coisas, eu queria era saberse, é, é... – inspiração e expiração profunda - se minha filha vai morrer...

S. começa a chorar.

(Breve silêncio)

- Olha dona S., como você pode observar estão realizando os exames e em breve se iniciarão os tratamentos e a medicação, a verdade é que a chance de alguém vir a óbito cai drasticamente quando se está dentro de um hospital que esta oferecendo todas as bases possíveis para que ela, sua filha, melhoer. Seria ruim se ela estivesse fora daqui, mas se ela está aqui, ela vai ser tratada e a possibilidade de cura dela é muito melhor, pode ter certeza. – Coloca o estagiário.

- Mas tu já viu alguém ficando bom dessa doença aqui?

- Já sim, já vi idosos, jovens, é uma questão de tempo e paciência dona S., você está compreendendo?

- Tô, mas é porque é difícil ver ela daquele jeito, ela tá com a barriga um pouco inchada e reclamando que não tá se sentindo bem...

- A senhora já chamou uma enfermeira?

- Não.

O estagiário pede para que alguém vá dar assistência a paciente C., gradativamente S., vai cessando o choro. O estagiário olha para S. e diz:

- Olha dona S., qualquer dúvida sobre a doença, pergunte aos médicos, não tenha vergonha e caso ache que precise chame algum técnico ou enfermeira aqui, eles estão aqui para lhe ajudar tá bom? Você pode até me usar como intermediário, mas isso não seria bom, é você quem tem que vir, entende? Pra que eles a vejam. Para que você fale sobre o que está acontecendo. E não se preocupe, sua filha está sendo tratada, qualquer coisa que aconteça sempre vai ter alguém para ajudar, tá?

- Tá bom.

- A gente ainda vai se ver depois tá bom?

- Hm rum.

(Silêncio)

A técnica em enfermagem passa para fazer o atendimento.

- Olha dona S., ela está indo ver sua filha, acompanhe a técnica e faça companhia pra sua filha nesse momento.

- Muito obrigada, muito obrigada mesmo.

- De nada.

Percebe-se que em virtude, tanto do primeiro momento, quanto deste segundo, que um dos problemas que estava correlacionado ao seu medo, era sua falta de informação à cerca da doença, fato muito comum não só apenas neste hospital, mas em muitos outros infelizmente. Outro fato que agravava a situação era a timidez de S. que poderia vir a causar impossibilidades de agir, mesmo em situações mais sérias, como a que se estava presenciando. É, portanto necessário se deixar brechas propositais, como por exemplo, deixá-la buscar informações sobre a doença por si, perguntando aos médicos. E deixar claro a respeito de se ter atitude para agir quando necessário, para que esta tenha sua autonomia e evite uma possível dependência com a figura do estagiário da qual ela se vinculou.

4.3.5 Pacientes que reclamam de atendimentos

Não é incomum se receber reclamações a cerca da instituição, atendimentos, profissionais relapsos, dentre outras situações. Nestes casos não se tem muito a se fazer, apenas estimular o paciente a relatar o acontecimento na Ouvidoria. Em casos de pacientes acompanhados, os acompanhantes devem realizar este movimento, em caso de pacientes que estão sozinhos ou não podem se locomover, cabe à pessoa que recebeu a reclamação formalizar.

Exemplo:

F., 46 anos, cozinheira. Internada por suspeita de diabetes.

A conversa com F. fluía naturalmente até o instante em que esta trouxe reclamações a respeito de um atendimento, o que lhe gerou raiva e o sentimento de injustiça.

(...)

- Então a senhora veio de outro hospital?- Indaga o estagiário a paciente.

- Foi, mas eu não passei muito tempo.

F. pergunta então para sua acompanhante:

- Quanto tempo eu passei? Umas duas horas lá?

Acompanhante:

- Não, só uma hora – a acompanhante volta-se ao estagiário e diz – se muito, daí ela veio pra cá.

O estagiário então pergunta:

- Então vocês estão ainda à espera dos exames e do diagnóstico?

F. responde:

- Não, eu já fiz os exames, tô esperando o diagnóstico amanhã.

- E como a senhora está se sentindo?

- Agora eu tô me sentindo até bem, só tô com uma vontade de ir embora que falto não aguentar.

- É, estar em um hospital não é agradável para a maioria das pessoas.

(...)

- Mas a senhora tem dormido bem?

- Pra dormir eu tomo R., mas aqui eu tô tomando D., mas é uma quantidade pequena.

- Mas a R. foi indicado por médicos?

- Sim foi, mas essas noites aqui têm sido complicadas.

- Complicadas? Como assim?

- Antes de ontem eu tava mal, mal, mal, mal, tava muito ruim mesmo. Não tava respirando direito, aí chamaram um enfermeiro, ele veio, mediu minha pressão e disse que minha pressão tava boa e saiu. E não tá certo, eu tava sem ar, praticamente sem ar mesmo! E não foi só eu, tá vendo aquela moça ali do lado?! – Aponta para uma moça extremamente debilitada, respirando com ajuda de uma máscara de oxigênio, soube-se 24 horas depois que a moça apontada veio a óbito – Ela também tava passando mal, precisando do respirador, aí ele disse para a acompanhante colocar, mas como?! Se ela não sabe de nada disso, sobre pressão, posição (...). Pois é, e eu achei muito ruim o atendimento que eu tive e o que essa pobre moça do lado também teve. Olha, eu tava tão mal que chamei um colega pra vir pra cá (...) e a gente sabe que não pode, mas ele veio mesmo assim, nem sei como ele entrou, aí ele que é médico me atendeu e aí eu melhorei, se não fosse ele eu tinha morrido. Sabe o que eu acho disso que aconteceu? Isso foi, foi, um, é, é...

- Um desrespeito à vida? – Indaga o estagiário.

- Exatamente! É isso mesmo! Eu não podia falar melhor, foi um desrespeito à vida!  Pois quando você coloca esse jaleco, você tá assumindo uma responsabilidade e você também sabe disso! E quando você sabe fazer os primeiros socorros é obrigação sua fazer! Tem que cuidar e tem que atender! Mas aí pra eu viver, eu tive que chamar alguém de fora, é errado né?!

- Claro, trazer um agente externo sendo que os internos deveriam dar o suporte, é algo sério. E como a senhora ainda relatou o caso da outra paciente, acho que é um caso a ser encaminhado. A senhora já ouviu falar, sabe, da Ouvidoria?

- Sei sim, eles pensam que ninguém sabe, mas eu sei dessas coisas, mas eu ainda não fui.

- Por que a senhora ainda não foi?

- É que eu ainda não peguei o nome dele para fazer as coisas certas sabe? Eu preciso do nome dele né não?

- Sim, isso ia agilizar e muito as coisas. Mas de qualquer forma, creio ser útil e necessário realizar a reclamação.

- Pois é. Mas isso que ele fez não se faz, tá errado demais, mas eu na hora nem reparei no nome dele, nem vi isso ...

- E nem tinha como pelo que a senhora me descreve.

- Pois é, mas eu vou pegar o nome dele se eu ver ele, ah se vou, mas o negócio é que ele também nunca mais apareceu aqui.

(Silêncio)

- Ok dona F., tem mais alguma coisa que a senhora queria me dizer?

- Não, só isso mesmo e esses incômodos que eu vinha sentindo – relacionados a problemas de tontura e respiratório – ah, mas eu vou te falar, que tem umas enfermeiras aqui que são muito boazinhas, elas me tratam muito bem. Bem, agora eu só vou mesmo esperar os resultados dos exames e ver o que os médicos falam, vamos esperar né?

- Sem dúvidas. Então tenha uma boa tarde.

- Brigada, você também.

Como se observa, aqui em uma perspectiva geral das intervenções, estas são simples, a importância maior não é fazer um atendimento espetacular, mas um atendimento que mostre que você está ao lado do paciente, do acompanhante, que o compreende, o ouve, que partilha um pouco de sua realidade. Não é exatamente o falar que faz a diferença, mas sim o estar e o compreender o que é relatado.

Logo, por mais que a intervenção venha a parecer frívola ao paciente, o estagiário tem a ciência de que não, a conversa por vezes tem algum objetivo, tem um sentido, o de se fazer presente na realidade daquele paciente, possibilitando que ele se utilize deste espaço de fala para explorar muitas vezes um prisma pessoal de que não se tinha conhecimento até aquele momento.

5. Considerações Finais

O trabalho foi limitado em alguns momentos admite-se, não foi um estágio fácil, prazeroso ou previsível, mas este serviu para mostrar ao estagiário seus limites como pessoa diante de uma realidade até então desconhecida. Apesar de não ter sido grandioso, como sempre se deseja no fundo, houve sempre respeito, dedicação e acolhimento para com os pacientes de forma cuidadosa e atenciosa.

Sabe-se que é emergencial o estabelecimento de profissionais da Psicologia nas enfermarias da instituição estagiada, mas é de conhecimento que tal atitude poderia ser simplesmente infrutífera. É necessário antes de se chegar as enfermarias, realizar atividades voltadas aos profissionais, principalmente as técnicas, auxiliares de enfermagem e enfermeiros, visto a sobrecarga em que muitos destes se encontram, assim como sentimentos e emoções, diversas vezes intensas que o ambiente lhes geram, vindo a ocasionar ataques de estresse, Burnout, depressões, angústias, medos, resistências, etc., que podem prejudicar não apenas os atendimentos, mas a própria vida dos profissionais como um todo. Portanto, deve-se cuidar primeiramente dos cuidadores, para que possa cuidar dos pacientes.

Por sua vez esta relação com os demais profissionais, ofereceria aos profissionais da Psicologia bases significativas para se conhecer a vivência do hospital como: o que comumente ocorre dentro do local; o que as pessoas tendem geralmente a relatar; como é ser um profissional ali; o que estes entendem a respeito da Psicologia e em como esta pode vir a colaborar junto a eles nas intervenções. Seria consequentemente uma experiência rica para os dois lados.

O local por sua vez não oferece: espaço para Arteterapia, o que se mostraria interessante; possibilidade para que estagiário e paciente, que não oferece risco de contágio ou dificuldade de locomoção, ande pelo local enquanto fala de si, imagina-se aqui que caminhar com o paciente fora do quarto, possa vir a facilitar sua fala, já que este virá a se sentir menos intimidado com a presença dos já conhecidos colegas de quarto, podendo se sentir mais a vontade para relatar sobre si; ou cortinas hospitalares para dar um “ar” mínimo de privacidade durante a conversa com o paciente.

Dessa forma a rotina do hospital e a limitação imposta pelo ambiente, dentre outros fatores, não vieram a possibilitar intervenções que de fato realizassem alguma exploração mais profunda, lúdica (tão buscada nas instituições hospitalares) e interessante em relação à subjetividade dos pacientes, quebrando a rotina, por tantas vezes desgastante e ociosa, na intenção de também facilitar a elaboração de conteúdos e a possibilidade de se trabalhar em grupo.

O Hospital de Doenças Infectocontagiosas de Teresina ainda necessita de muitas observações, reformas, estrutura e profissionais que sejam realmente capacitados para estarem ali, é necessário mudar muito, para que se tenha um hospital de base e referência para outros, deixa-se aqui a esperança de que esta mudança um dia seja possível.

Foram mais de 50 rostos vistos, algumas histórias, alguns sorrisos e algumas lágrimas, não se foi o estagiário perfeito, reconhece-se, mas se foi sincero e acima de tudo este buscou fazer o que estava em seu alcance e conhecimento, foi o que se deveria ser nos momentos, acertando ou errando, e isso faz parte do aprendizado e da experienciação.

Pessoas que agradeciam com palavras e sorrisos sinceros, que pediam um aperto de mão e gargalhadas de ambos os lados, formam alguns bons momentos, poucos tem de ser sincero, mas singelos e únicos, que não podem ser simplesmente esquecidos.

O hospital é envolvido pela possibilidade do fim, não há o que contestar em relação a isto, mas também há a possibilidade do recomeço. Ninguém entra em um hospital e saí com uma mesma consciência, com um mesmo sentimento, e/ou olhar para com em relação à vida, ao viver, ao sentir... A morte é uma sombra constante, mas não uma figura definitiva. O recomeço por sua vez é o que os profissionais e estagiários ali presentes alimentam, ele é a esperança, a continuidade e o reexistir, apesar do ambiente, da carência, do medo, das dores, das lágrimas, da tristeza, das resistências e da negação.

A vida tem sempre um início, um meio, mas às vezes o fim é postergado e é dada a chance do recomeçar a vida em seus mais diversos aspectos, seja na família, sociedade, profissão, relações, visão de si, ou em outro aspecto existencial. E isto não é um novo recomeço, são inúmeros! E cada um marcado por suas idiossincrasias.

Sobre o Autor:

Fhillipy Silva Andrade - Graduando em Psicologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

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