Programa de Preparação para Aposentadoria (PPA): em uma Unidade do Sistema Único de Saúde

Resumo: A preparação adequada da força de trabalho das organizações para o seu afastamento do ambiente profissional, por ocasião da aposentadoria é uma função social que vem despertando interesse de muitas instituições públicas e privadas no Brasil e no mundo. O presente estudo teve como objetivo propiciar condições, aos pré-aposentados, de reflexão do processo de aposentadoria e ao mesmo tempo, resgatar a história de vida de cada um. Trata-se de um grupo vivencial, realizado com 5 funcionárias que atuam no Centro Estadual Especializado em Diagnóstico, Assistência e Pesquisa – CEDAP. Os instrumentos de coleta dos dados utilizados foram do tipo questionário, entrevista e encontros semanais. Com base nos dados, conclui-se que a intervenção permitiu a valorização do funcionário e construção de novos projetos de vida, além disso, trouxe esclarecimentos, troca de experiências e aproximação com as colegas de trabalho.

Palavras-chave: Preparação, Aposentadoria, Intervenção.

1. Introdução

Ao longo dos anos, o trabalho passou por diversas transformações e significados diferentes, porém sempre foi considerado como uma atividade que faz parte da condição humana, desempenhando um papel central na vida.

Segundo Antunes (2006) se, por um lado, o trabalho emancipa, de outro, também pode alienar; se tem capacidade para libertar, pode, igualmente, escravizar. Esses aspectos remetem a uma questão crucial de dar sentido ao trabalho humano e tornar a vida fora do trabalho também dotada de sentido. Essa dupla dimensão está ligada ao fato das organizações terem passado por modificações que refletiram em mudanças nos processos de trabalho, melhoria contínua e valorização das pessoas, mas mesmo diante dos avanços é possível observar ambientes de trabalhado que negligenciam o fator humano. Para Chiavenato (2002, p. 73) as organizações dependem de pessoas para proporcionar-lhes o necessário planejamento e organização, para dirigi-las e controlá-las e para fazê-las operar e funcionar.

No modo de produção capitalista, que idolatra a produção e aliena o trabalhador do processo de produção, a aposentadoria é frequentemente vivenciada como a perda do próprio sentido da vida, uma espécie de morte social. Ao se valorizar apenas aqueles que produzem, deprecia-se o sujeito aposentado, este precisa encarar não apenas a perda do trabalho como enfrentar a possibilidade de ser considerado velho ou mesmo inútil (SANTOS, 1990). O processo de envelhecer pode ressaltar desigualdades quanto à qualidade de vida e o bem-estar, considerando-se o sexo, a condição sócia econômica dos diferentes segmentos sociais potencializado, dessa maneira, a exclusão social (DEBERT; NÉRI, 2004). O comprometimento da aparência pessoal, da saúde e do desempenho em relação à execução de algumas tarefas, mesmo que não atinja todos os indivíduos, pode reforçar alguns preconceitos em relação aos aposentados, podendo, assim, a aposentadoria ser visualizada como um demarcador temporal do envelhecimento, afirma León (2000).

As organizações, ao realizarem o Programa de Preparação para Aposentadoria (PPA), acabam auxiliando no cumprimento de suas responsabilidades sociais e os funcionários que estão nesse processo sentem-se valorizados e respeitados, o que fortalece as relações de trabalho. A implantação desse Programa possibilita para o empregado obter informações adequadas sobre a aposentadoria, conhecer alternativas de atividades pós-aposentadoria e ainda permite a troca de vivências com seus colegas de trabalho que também estão passando pela mesma fase.

França (2008) observa o quão raro é alguém se preparar para o futuro na aposentadoria e, no caso dos brasileiros, ainda é pior, devido à cultura do imediatismo. A falta de preparação para a aposentadoria é uma realidade capaz de levar muitas pessoas do trabalho (lugar conhecido) diretamente para um lugar desconhecido.  Quando o sujeito se depara com a aposentadoria sem estar “preparado” para isso, pode confrontar-se com crises de identidade e consequentes dificuldade de elaboração de novos projetos de futuro.

 Segundo Witczak (2005), as transformações tendem a resultar em novos projetos, embora não sejam tão duradouros quanto os da juventude. Ocupar o tempo é fundamental para que se sintam vivos, no sentido de ativos, participativos e retomar suas identificações.

A questão exposta reforça a necessidade de desenvolver o Programa de Preparação para a Aposentadoria (PPA), já que a mesma se apresenta como um marco de alteração na dinâmica familiar e social do indivíduo, trazendo como consequência a mudança dos hábitos de quem se aposenta e daqueles que com ele convivem.

A realização do Programa de Preparação para Aposentadoria (PPA) aconteceu através de um grupo vivencial, onde a integração e a reflexão foram estimuladas por serem consideradas de suma importância em todo o processo. A ideia de intervenção tinha o intuito de preparar, esclarecer e ampliar o olhar dos funcionários do Centro Estadual Especializado em Diagnóstico, Assistência e Pesquisa (CEDAP), sobre o momento que estão passando ou vivenciarão em um futuro próximo. Os encontros foram semanais na própria instituição, sendo que os temas trabalhados estavam diretamente ligados a essa nova fase, como: saúde, lazer, finanças, família, projeto de vida, entre outros. O Programa foi pautado no uso de técnicas específicas, considerando os diferentes aspectos que permeiam esse momento.

1. Referencial Teórico

A preparação adequada da força de trabalho das organizações para o seu afastamento do ambiente profissional, por ocasião da aposentadoria é uma função social que vem despertando interesse de muitas instituições públicas e privadas no Brasil e no mundo. Segundo Andujar (2006), os primeiros registros sobre os programas de preparação para a aposentadoria (PPA) datam da década de 1950, nos Estados Unidos. Estes trabalhos tinham como foco principal a prestação de informações sobre o sistema de aposentadorias e pensões.

Segundo Wieczynski (2003), até 1994 não existia uma política social para a velhice no Brasil. Para a autora, o que existia até então era um conjunto de iniciativas privadas antigas, que surgiram nos anos 70 para atender idosos carentes. Somente com a Constituição de 1988 é que estas ações foram transformadas em Direito, surgindo em decorrência a Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS – Lei n° 8.742, de 1993, e a Política Nacional do Idoso – PNI – Lei n° 8.842, de 1994. Sendo que, nesta última lei já constava a proposta de criação de PPAs, nos setor público e privado, com antecedência mínima de dois anos antes do afastamento do trabalhador. O Estatuto do Idoso, através da lei nº 10.741 de 1º de outubro de 2003, estimula programas dessa natureza, ressaltando que devem ser realizados, preferencialmente, com antecedência mínima de um ano, com o intuito de estimular o pré-aposentado a realizar novos projetos sociais conforme seus interesses, esclarecendo também seus direitos sociais.

França (2000) afirma que o PPA deve se basear numa ampla discussão e avaliação dos fatos, dos riscos e das expectativas que os empregados prestes a se aposentar queiram alcançar no futuro. Portanto, a preparação deve ser concebida como um processo educativo, continuado e interligado a um planejamento de vida. A empresa, os indivíduos e suas diversidades, e a sociedade em que estão inseridos, devem constituir o ambiente de um PPA.

Segundo Zanelli e Silva (1996), a transição que ocorre na aposentadoria pode ser facilitada, quando se promovem situações ou vivências grupais dentro do contexto organizacional, enquanto a pessoa ainda possui seu papel profissional e executa as atividades de seu trabalho, e o rompimento brusco e repentino da rotina parece potencializar o início dos desajustes nas várias esferas da vida pessoal. Na iminência da aposentadoria, os sentimentos se misturam e, por vezes, se contradizem, pois a possibilidade concreta de parar de trabalhar conflita-se com o medo do tédio, da solidão, da instabilidade financeira e de doenças. Os efeitos da falta de uma preparação adequada dos funcionários para a aposentadoria traduzem-se em brusca redução da qualidade de vida do trabalhador que ingressa na inatividade, podendo culminar em doenças e até mesmo em morte (ABRAPP, 2003).

De acordo com o modelo proposto por Zanelli e Silva (1996), para a elaboração de um Programa dessa natureza é necessário, primeiramente, realizar um diagnóstico, a partir de um levantamento de necessidades, com o intuito de conhecer aspectos psicológicos e sociais da população de pré-aposentados em questão, identificando suas cognições a respeito de trabalho e demais âmbitos ligados às mudanças provocadas pela aposentadoria, tais como: relacionamento familiar, conjugal, sexual e com amigos; relação com o trabalho; ocupação do tempo e saúde.

Esse tipo de investigação é importante uma vez que, segundo estes autores, os temas apresentados pelos participantes, quando agrupados em categorias maiores, poderão orientar as intervenções futuras, direcionando o conteúdo a ser trabalhado e as reflexões propostas, pois o modo como o indivíduo vivenciará a aposentadoria pode ser compreendido a partir da relação que o indivíduo estabeleceu, ao longo de sua vida, entre o papel profissional e o tempo livre (SANTOS, 1990).

De acordo com Joia, Ruiz e Donalisio (2007), com o aumento geral da sobrevida da população ressalta-se a importância de garantir aos idosos não apenas maior longevidade, mas qualidade de vida, bem-estar e satisfação pessoal, ou seja, não significa somente acrescentar anos às vidas dos sujeitos, mas acrescentar vida aos anos (FLECK et al., 1999).

Segundo A Organização Mundial de Saúde (OMS) (1995), a qualidade de vida pode ser compreendida como a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações. Minayo, Hartz e Buss (2000), destacam ainda que qualidade de vida é uma representação social que se estrutura em dois parâmetros: objetivos, que dizem respeito à satisfação das necessidades básicas e criadas pelo grau de desenvolvimento econômico e social da sociedade; e subjetivos: relativos ao bem estar, felicidade, amor, prazer e realização pessoal. Qualidade de vida seria um híbrido biológico-social, mediado por condições mentais, ambientais e culturais (MINAYO et al., 2000).

Diante dessa questão, é percebido que existe uma relação entre qualidade de vida e ambiente laboral, este precisou passar por uma reestruturação para que pudesse realizar ajustes em certos valores ambientais e humanos, negligenciados pelas sociedades industriais em favor do avanço tecnológico, da produtividade e do crescimento econômico (WALTON, 1973). Fernandes e Gutierrez (1988) compreendem que a Qualidade de Vida no Trabalho – QVT está relacionada a condições de trabalho favoráveis e ainda a vários aspectos que tornam os cargos mais satisfatórios, abrangendo fatores organizacionais, ambientais e comportamentais.

Deve ser compreendido como um conjunto de ações de uma organização com o objetivo de implantar melhorias, inovações gerenciais e estruturais no ambiente de trabalho, proporcionando condições plenas de desenvolvimento humano e satisfação durante a realização do trabalho (LIMONGI-FRANÇA, 2003). Segundo o Modelo descrito por Walton (1973), as categorias que envolvem a QVT, são: compensação justa e adequada; condições de trabalho; uso e desenvolvimento das habilidades; oportunidade de crescimento e segurança; integração social na organização; constitucionalismo; o trabalho e o espaço total de vida; relevância social da vida no trabalho

3. Objetivo

O objetivo deste trabalho foi propiciar condições, aos pré-aposentados, de reflexão do processo de aposentadoria e ao mesmo tempo, resgatar a história de vida de cada um. Além disso, objetivou também refletir sobre as mudanças que a nova etapa de vida trás, facilitar a construção de um planejamento de vida e financeiro que envolva os interesses, habilidades e os prazeres e promover qualidade de vida e valorização dos funcionários.

4. Metodologia

4.1 Público – Alvo

A realização das intervenções contou com a participação das funcionárias públicas vinculadas a Secretária da Saúde do Estado da Bahia (SESAB), que estão em processo de aposentadoria voluntária por tempo de serviço ou compulsória do Centro Estadual Especializado em Diagnóstico, Assistência e Pesquisa (CEDAP), localizada na Rua Comendador José Alves Ferreira, 240 - Garcia, Salvador.  A faixa etária do grupo estava entre 56 à 69 anos de idade.

4.2 Contexto do Estágio

O Centro Estadual Especializado em Diagnóstico, Assistência e Pesquisa (CEDAP) é uma Unidade de referência secundária de média e alta complexidade que presta assistência especializada, através de equipe multidisciplinar. O objetivo da Unidade é prestar assistência a pacientes com doenças sexualmente transmissíveis, doenças virais crônicas, vítimas de violência sexual e população referenciada pertencente à rede de serviços da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia.

Originalmente, em 1994, foi criado o Centro de Referência em Doenças Sexualmente Transmissíveis, (CRE/DST/COAS) em 1996, após portaria ministerial o COAS foi denominado Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA). No ano de 2001, foi criado o Centro de Referência Estadual de AIDS (CREAIDS), que funcionavam, entretanto, com diretorias e espaço físicos diferentes, só em 2006, a portaria nº. 472 unificou essas unidades com a denominação de CREAIDS. Contudo, em 11 de fevereiro de 2009, o CREAIDS passou a ser denominado Centro Estadual Especializado em Diagnóstico, Assistência e Pesquisa (CEDAP). Esta mudança foi definida através da Lei nº. 11.373, como reflexo de um processo crítico que envolveu os usuários, profissionais de saúde e demais trabalhadores, diante do estigma, rótulo e preconceito gerado com a antiga denominação (CREAIDS).

A missão do CEDAP é promover saúde através da assistência especializada, produção e disseminação de conhecimentos na área de DST e Doenças virais crônicas, no estado da Bahia. Possui como valores organizacionais o Acolhimento, aperfeiçoamento, integração e integralidade. O Centro possuía no período da intervenção, um quadro de 285 trabalhadores, distribuídos em vínculos efetivos, terceirizados e estagiários.

Este projeto não faz parte do plano estratégico do Centro, porém e perceptível que será incorporado logo mais. Essa ação até o momento depende do envolvimento do (s) estagiário (s) que estão no setor de Gestão de Pessoas em abraçar a ideia inicial, pois existe todo o apoio e acompanhamento. O PPA está embasado em artigos científicos e livros publicados nacionalmente

O programa constitui-se em três momentos distintos, porém interligados. No primeiro momento o questionário foi à técnica utilizada, com o objetivo de mapear os principais assuntos e o perfil do grupo. É autoaplicável e permitiu o uso de questões abertas e fechadas, além disso, asseguramos o sigilo absoluto das informações para garantir a confiabilidade.

Após a validação do instrumento pela coordenação de Gestão de Pessoas, realizou-se o levantamento junto ao departamento de Administração de Pessoal, dos funcionários que estão ou entrariam no processo de aposentadoria no ano de 2015. Não houve uma divulgação prévia sobre o PPA, a aplicação ocorreu no horário de trabalho, no período de 08h00min às 13h30 min durante os dias 12 a 21 do mês de Novembro de 2014.

O contato foi diretamente com o pré-aposentado no seu setor de trabalho (assistência ou administrativo), inicialmente explicou-se a importância do Programa e em seguida o funcionário foi convidado a participar dessa fase inicial, respondendo e depois devolvendo o questionário. Os dados foram digitados no programa Microsoft Office Excel 2007 e analisados quantitativamente.

No segundo momento do programa foram realizadas as entrevistas semiestruturadas de forma individual na sala de treinamento da unidade durante os dias 23 a 27 do mês de Fevereiro de 2015 no horário matutino. A entrevista semiestruturada está focalizada em um assunto sobre o qual confeccionamos um roteiro com perguntas principais, complementadas por outras questões inerentes às circunstâncias momentâneas à entrevista. Esse tipo de entrevista pode fazer emergir informações de forma mais livre e as respostas não estão condicionadas a uma padronização de alternativas (MANZINI, 1990/1991). Antes de iniciar a entrevista foi entregue o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (Apêndice C) em duas vias, um ficando com a funcionária e a outra com o setor responsável pela realização do Programa, a coordenação de Gestão de Pessoas.

As vivências ocorreram efetivamente de Março a Abril de 2015, foram 7 encontros semanais com duração de uma hora e trinta minutos cada, realizados em sua maioria na sala de treinamento do CEDAP.

A participação voluntária, o sigilo e a confiabilidade foram garantidos. Respeitando os princípios de autonomia dos indivíduos que foram convidados, com esclarecimento de todas as etapas do Programa. Salienta-se que os nomes utilizados no decorrer no trabalho são fictícios, para garantir o sigilo quanto à identidade das participantes.

5.Resultados E Discussões

5.1Perfil dos Trabalhadores

Dos 285 funcionários, 26 trabalhadores se encontravam no processo de aposentadoria e 13 participaram da pesquisa, ou seja, 8% dos trabalhadores se deparavam com a aposentadoria.  A partir dos dados levantados, foi possível identificar o perfil do grupo participante, onde todas eram do sexo feminino e54% estava com idade entre 50 a 59 anos de idade (Figura 1), mais da metade diz não possuir problemas crônicos de saúde, ou seja, se apresenta como saudáveis (Figura 2). Além disso, o grupo possuía uma diversidade de setores

1 - Representação das idades dos funcionários do CEDAP, 2014

1 - Representação das idades dos funcionários do CEDAP

Fonte: autoria própria

Figura 2 — Representação em relação aos problemas crônicos de saúde dos pré-aposentados no CEDAP, 2014.

Figura 2 — Representação em relação aos problemas crônicos de saúde dos pré-aposentados no CEDAP, 2014.

Fonte: autoria própria

Os resultados reforçaram a necessidade de dar continuidade ao Programa, já que a maioria não participou do PPA anterior. Nas situações propostas, o grupo se encontrou como seguro, conhecedor de suas habilidades e de seus interesses, dos pontos fracos, possuía um planejamento financeiro, tinha o apoio da família e percebia um novo momento surgindo em sua vida, esses fatores devem continuar ou ser melhorados durante os encontros. Outros fatores como o conhecimento dos direitos e deveres (Figura 3), a realização dos sonhos e a inserção no mercado de trabalho necessitam ser estimulados e refletidos junto aos participantes. O trabalho é visto como algo muito importante na vida, surgindo a demanda de trabalhar como será esse novo tempo em que o trabalho atual não estará mais fazendo parte da vida. 

Figura 3 — Representação dos conhecimentos quanto aos direitos e deveres da aposentadoria, 2014.

Figura 3  — Representação dos conhecimentos quanto aos direitos e deveres da aposentadoria

Fonte: autoria própria

5.2 Entrevista Semiestruturada

As entrevistas foram realizadas com 5 funcionárias e serviram para ratificar os resultados do momento anterior, permitiu conhecer a história de vida de cada participante, de como chegaram até o posto atual de trabalho e perceber de que forma a chegada da aposentadoria está refletindo em cada trabalhadora. Antes de iniciar as entrevistas, foi realizado o rapport para que o entrevistado pudesse estar mais aberto no processo e o entrevistador construir uma relação de confiança e harmonia. Durante cada entrevista, foi possível observar pontos em comum, todas contaram as dificuldades enfrentadas e batalhas vencidas, expressam o desejo de se aposentar para poder gozar dos prazeres que a vida oferece, como: praticar atividades físicas, passeios, viagens sem preocupação com trabalho, filho pequeno, deveres de casa; revelam ainda a vontade de aprender coisas novas, através de cursos e poder ajudar as pessoas, com trabalho voluntário e visitar enfermos, por exemplo.

Contam que já trabalharam demais e que agora precisam descansar, ficou perceptível que esse descansar citado é relacionado ao trabalho formal, pois pretendem participar ativamente desse novo período que emerge na vida de cada uma. Algumas sabem exatamente quais atividades serão desenvolvidas, outras ainda tem dúvidas, porém não foi relatado nem observado durante as entrevistas qualquer tipo de resistência ou negação em aposentar-se. A entrevistada conta o que pretende fazer quando estiver aposentada: hidroginástica, viagens (...), ter uma rotina de coisas para fazer que hoje não tenho tempo. Só não gostaria de ficar parada (informação verbal) [01].

Ao final do processo, algumas das entrevistas expressaram o quanto gostaram de poder compartilhar sua história e relembrar alguns momentos vividos, acrescentaram ainda como foi bastante agradável e confortável a experiência.

5.3 Vivências

Os encontros serão descritos em três momentos: primeiramente serão expostos os objetivos específicos do encontro, depois os procedimentos utilizados, ou seja, as técnicas e atividades desenvolvidas e por último os comentários do que foi percebido e também algumas falas das participantes.

1º encontro

Aconteceu na sala de treinamento da Unidade, no dia 11 de Março de 2015, das 10h50min às 12h20min horas. Estiveram presentes duas funcionárias, uma do setor de arquivo e a outra do setor de nutrição.

Objetivos: apresentar o Programa; conhecer as expectativas para o programa; proporcionar uma reflexão a respeito da aposentadoria, através de uma atividade de projeção; realizar o fechamento do encontro favorecendo o vínculo e o contrato inicial.

Procedimentos (1): inicialmente fiz a apresentação do programa com o auxílio dos slides e depois expliquei a atividade seguinte. A atividade era desenhar a mão esquerda e direita, em uma escrever quais as expectativas do programa e na outra qual seria a sua contribuição, foi dado um tempo para que elas pudessem realizar a atividade.

Comentários: relataram que não sabiam o que escrever de início, mas logo conseguiram alcançar o objetivo proposto e compartilharam suas respostas. Uma participante soube bem quais suas expectativas, mas confundiu um pouco as contribuições, fazendo relação com o setor de trabalho; a outra explicou sobre sua contribuição no grupo, mas achou que as expectativas seriam em relação à aposentadoria e não do programa.

Procedimentos (2): na segunda atividade desenvolvida, solicitei que cada participante construiu-se um cartaz com os materiais disponibilizados, com o tema “Eu e Minha Aposentadoria”. Ao final, pedir que uma por vez apresenta-se seu cartaz.

Comentários: houve muita descontração e desejo em fazer o “melhor” cartaz possível, elas se empenharam e utilizaram bastante os materiais disponibilizados, os cartazes ficaram bem parecidos, mas com suas particularidades. Elas colocaram figuras e frases para representar como querem viver na aposentadoria. Relataram que foi muito bom e prazeroso realizar a tarefa.

Procedimento (3): para fechar o encontro, nos reunimos em um pequeno círculo e fizemos a dinâmica do novelo de lã, com o intuito de reforçar a importância de cada uma no grupo, discorrer sobre o contrato inicial e dizer um sentimento para aquele encontro. Ao final, houve um abraço coletivo e entreguei um cartão com uma mensagem de motivação para cada uma.

Comentários: afirmaram o quanto foi proveitoso participar do encontro e que voltariam na próxima semana.

2º encontro

Aconteceu na sala de treinamento da Unidade, no dia 17 de Março de 2015, das 11h10min às 12h30min horas. Estiveram presentes duas funcionárias, uma do setor de arquivo e a outra do setor de nutrição.

Objetivos: proporcionar uma reflexão e retrospectiva a respeito das fases da vida (infância, adolescência, primeiro emprego, fase adulta e velhice); momento importante para analisar tudo que já foi feito e o que pode vir a fazer; analisar a trajetória de vida, dando continuação ao momento anterior.

Procedimento (1): fiz a apresentação das fases da vida desde a infância até a terceira idade, com o auxílio dos slides. Após isso, pedi que as participantes pensassem sobre um momento significativo de uma das fases e depois compartilhassem com o grupo.

Comentários: as duas falaram sobre a sua infância, uma delas conta que realizava muitas atividades com as irmãs para ajudar a mãe que tinha um restaurante, caminhava para lavar roupas longe de casa, por não possuir água encanada, conta das brincadeiras daquela época e dá risada. Diz que apesar das responsabilidades que já possuía, as crianças as enxergava como diversão e lazer. A outra participante compartilha como era travessa e traquina, expressa o amor pelo pai e a firmeza da mãe, conta que também realizava algumas atividades para ajudar a mãe e a vizinhança.

Procedimento (2): na segunda atividade, entreguei folha de papel ofício e caneta para que elas construíssem um gráfico ou linha da vida, contendo todos os pontos principais como: a própria infância, o primeiro emprego, casamentos, etc. Acharam melhor falar do que escrever, mas reforcei a importância de escrever e de ter um tempo para pensar.

Comentários: após realizar a atividade solicitei que compartilhassem com o grupo. Nesse momento enfocaram a vida adulta, principalmente sobre a entrada no mercado de trabalho e do orgulho da criação dos filhos.

Tivemos que iniciar um pouco mais tarde por ocorrer problemas com o computador, por isso não foi possível realizar a última atividade – “Frases para completar”. Então, combinamos de começarmos mais cedo o próximo encontro para poder fazer a atividade pendente.

Percebi que estavam um pouco dispersas no decorrer do encontro, mas ao final, relataram que foi muito agradável resgatar a história de vida – principalmente sobre a infância.

3º encontro

O encontro aconteceu na Sala de Educação e Saúde da Unidade, no dia 24 de Março de 2015, das 10h50min às 12h30min. Estiveram presentes duas funcionárias: uma do setor de arquivo e outra da biblioteca.

Objetivos: refletir sobre as atividades do momento de trabalho X momento da aposentadoria; trabalhar os aspectos sociais, culturais, econômicos da aposentadoria e seus significados e sentidos; realizar uma atividade lúdica com o intuito de sensibilizá-las sobre o tema e os novos “lugares” possíveis aos sujeitos na aposentadoria; Perceber o impacto que o encontro causou nos participantes.

Procedimento (1): primeiramente fizemos um círculo, apresentei a nova estagiária de psicologia e fiz o rapport. Depois expliquei algumas atividades que já foram desenvolvidas, pois tinha uma participante que estava indo pela primeira vez ao encontro. Depois, distribuir a atividade “Frases para Completar” do encontro passado e expliquei qual seria a proposta.

Comentários: as duas conseguiram terminar a atividade dentro do tempo estipulado, solicitei que dividissem como foi fazer a atividade e se teve alguma pergunta que achou mais difícil ou mais fácil. Uma delas soube exatamente selecionar a pergunta mais difícil e a mais fácil, já a outra disse que todas as perguntas foram difíceis e fácies ao mesmo tempo, pois quando lia a pergunta pensava que não iria conseguir responder, mas logo em seguida conseguia.

Procedimento (2): no segundo momento, falei sobre o significado do termo “Aposentar-se” nas diversas línguas e a diferença do termo no oriente X ocidente.

Comentários: comecei a instigá-las sobre o tema dando início a um debate. As duas funcionárias, falaram sobre a discriminação e o preconceito existentes, principalmente em locais públicos – ônibus, supermercados, etc. expondo várias situações que já presenciaram ou mesmo passaram. Comentamos também sobre a perda dos valores, como respeito e solidariedade. Uma delas expõe sua indignação: se estamos no ônibus é porque precisamos ou mesmo estamos cansados de ficar em casa, ai saímos! Também temos direito de sair e pegar ônibus!(informação verbal)2. Relataram ainda, que possuem falta de disposição, vigor e força e que isso dificulta a locomoção até o trabalho. Perguntei o que significa “aposentar-se” para cada uma, com o intuito de observar qual a percepção delas acerca do assunto, foram bem positivas falando com o sorriso largo, o melhor é não ter responsabilidades! Ter que ficar dando satisfação porque cheguei tarde ou não fui trabalhar... Eu dou porque sou responsável e tenho compromisso com o meu trabalho (informação verbal)[02].

Procedimento (3): no terceiro momento foi realizada a técnica do trevo de quatro da aposentadoria. Levei todos os materiais necessários para a confecção do trevo. Em uma mesa redonda distribuir os materiais, dei duas folhas cortadas em formato de pétala para cada, falei sobre os 4 temas (saúde, família e social, medos e angústias e finanças), pedi para cada uma escolher 2 temas e falar sobre o assunto da forma que quisessem (figuras, textos, frases, desenhos, etc) para estimular a criatividade. Após o tempo estipulado, montamos todas as partes para formar o trevo, depois dele formado cada uma apresentou seu tema.

Comentários: apenas o tema de medos e angústias fugiu da proposta da aposentadoria, a funcionária colocou imagens e frases sobre o medo que ela tem em acontecer uma 3º guerra mundial, ou seja, medo em geral. Por conta disso, tive que resgatar o significado do tema e refiz a pergunta para as duas de quais medos e angústias estão sentindo ou imaginam sentir – a funcionária que confeccionou o cartaz diz não ter nenhum medo referente à aposentadoria, mas a angústia é em ver as injustiças com os aposentados (principalmente financeira) a outra participante, falou que seu maior medo é de ficar dependente das pessoas e compartilha sobre da angústia da colega. Então, acrescentei no cartaz essas duas falas.

Procedimento (4): para finalizar o encontro, fiz a técnica “Descreva com uma palavra”, com o objetivo de avaliar o impacto que o encontro causou.

Comentários: Iniciei com a palavra diversão, a funcionária explicou o que significava diversão para ela e disse a palavra paz, a outra funcionária explicou seu significado e disse a palavra lição, eu falei o significado e encerramos com um abraço e beijo coletivo. Ao final, entreguei um texto com o tema: “Bem-estar na aposentadoria: é preciso transformar e criar”, para levar para casa.

Ao final do encontro, uma das participantes convidou seu chefe imediato para apreciar o “Trevo de Quatro Folhas” construído.

4º encontro

A vivência acorreu na sala de treinamento da Unidade, no dia 31 de Março de 2015, das 11h00min até às 12h30 min. Estiveram presentes duas funcionárias: uma do setor de nutrição e a outra do setor de arquivo.

Objetivos: identificar as expectativas do retorno para o lar; percepção mais concreta da influência que a família exerce; possibilitar o orientando compartilhar seus sentimentos desse momento com a família.

Procedimento (1): em círculo, iniciamos nosso encontro falando um pouco dos acontecimentos da semana (rapport) e recapitulei o que tínhamos trabalho na semana anterior. Depois, falei um pouco sobre o papel da família na vida do aposentado, de como é esse torno para casa, quais as responsabilidades, maus tratos, entre outros.

Comentários: começaram a interagir falando a opinião delas em relação ao assunto, sobre as cargas que o filho coloca nos pais, citaram o fato dos filhos deixarem o neto para a avó cuidar; sem pensar ou mesmo perguntar se isso é possível. Outro ponto discutido foi quando os filhos não têm paciência ou tempo para cuidar dos pais, colocam uma pessoa para tomar conta ou/e deixam em alguma instituição e os idosos acabam sofrendo maus tratados. Disseram que muitos idosos são “cabeça dura” querem realizar atividades sozinhas, colocando sua segurança em perigo, por exemplo, ir ao banco retirar dinheiro sem a companhia de um familiar, não aceitam opiniões contrárias para o seu próprio bem, tomar a medicação, entre outros.

Uma das participantes conta que mora sozinha, mas as filhas residem perto e cobram que ela passe mais tempo na casa delas.

Elas me cobram muito para sair com elas (risos), mas é que eu gosto de ficar em casa. Mas, sempre que saímos é muito bom, junta a família toda... Dia de domingo vão lá para casa, faço bolo, compro doces para os meus netos... (risos). Sei que quando me aposentar elas vão me cobrar mais para tá com elas e fazer as atividades que gosto (informação verbal) [03].

A outra mora com o marido e possuiu um casal de filhos, sendo que um filho é casado e mora próximo, a filha também é casada, mas reside em outro país. A participante conta que sua filha sempre fala que quando a mãe se aposentar vai morar com ela no outro país.

Eu digo para ela, você não tá me querendo para ser sua babá não né? Porque agora ela tá querendo me dá outro neto. (risos). Eu quero curtir minha vida agora e também não é assim, vou deixar todo mundo aqui no Brasil? Tem minha mãe que precisa de mim, meu esposo, minha casinha (informação verbal) [04].

Conseguimos fazer um debate bem crítico e verdadeiro, as participantes se mostram conscientes de todo o processo do retorno para o lar.

Procedimento (2): no segundo momento, falei que faríamos um role playing, explicando do que se tratava e qual a proposta.

Comentários: quando solicitei que imaginassem uma pessoa e como essa pessoa as imaginava, falaram que não teria como. Uma, disse que a mãe seria a pessoa, mas que ela pela idade avançada já não compreende as coisas; a outra participante disse que seria a irmã, mas que elas têm opiniões muito diferentes, além disso, não convivem próximas. Então, pedi que imaginassem outra pessoa para darmos continuidade na atividade.

Uma dela escolheu o esposo, pedi respondesse as perguntas como se fosse ele. Ela incorporou bastante e conseguiu dá respostas bem seguras e coerentes; ao final perguntei se ela concordava com as coisas que o esposo falou e como poderia melhorar os aspectos citado, disse que ele tinha toda razão, pois gostava muito de ficar em casa fazendo faxina, mas iria tentar melhorar, então a questionei: como irá melhorar? Ela não soube o que dizer, ficamos em silêncio e em seguida, falei que ela poderia deixar um pouco os afazeres de casa, sair, passear, encontrar com as amigas, cuidar mais dela, já que a casa sempre estará lá cuidando ou não e que a vida dela é única, precisa ser aproveitada, ela concordou e falou que também precisa ser mais organizada quanto a horários. A outra participante escolheu uma das filhas e repetimos todo o processo.

Ao perguntar o que acharam da atividade, relataram que foi engraçado e difícil pensar como a outra pessoa, mas que foi bem diferente e interessante. Creio que essa foi à atividade de maior impacto e reflexão, principalmente para uma das participantes, ela até comenta, foi muito bom, porque na correria a gente não para, para pensar nessas coisas...(informação verbal) [05].

Procedimento (3): na atividade final, entreguei um papel em formato de carta e solicitei que escrevessem falando sobre seus sentimentos para alguém da família e como a aposentadoria influenciará essa relação.

Comentários: quando finalizaram a carta, perguntei se queriam compartilhar o que foi escrito, então as duas leram as produções. Uma delas escreveu para o marido, reforçando que tentará mudar algumas atitudes e sair mais com ele e a outra escreveu para sua irmã, que apesar de afirmar serem bem diferentes quer está mais próxima dela. Pude observar que fizeram a cartinha com muito carinho, demonstrando todo afeto pela pessoa escolhida. Quando perguntei o que as pessoas para quem entregaria a carta achariam dessa atitude, elas foram bem realistas: ele vai olhar assim: você vai fazer isso!? (risos). Ele vai duvidar de mim, eu não saio de casa se tiver um copo sujo na pia (informação verbal)[06], a outra diz: acho que ela vai dá risada quando ler, porque ela não vai ter tempo de sair comigo. Ela tem uma vida muito agitada, toda hora tá fazendo uma coisa aqui, outra ali. E olha que é mais velha que eu!(informação verbal)[07]

5º encontro

O encontro aconteceu na sala de treinamento da Unidade, no dia 07 de Abril de 2015, das 10h40min até às 12h20min. Estiveram presentes cinco funcionárias: duas do setor de nutrição, uma da biblioteca, uma do setor de arquivo e outra do serviço social. As duas novas funcionárias estavam de licença-prêmio, por isso não participaram dos outros encontros.

Objetivos: auto-avaliar formas de viver atualmente nas várias dimensões (familiar, social, física, emocional, financeira, espiritual, profissional e intelectual); refletir sobre os gastos financeiros, ou seja, se conscientizar sobre a importância de um planejamento financeiro.

Procedimento (1): inicialmente fizemos um círculo, apresentei a outra estagiária de psicologia para as funcionárias que estavam participando pela primeira vez e fiz o rapport.  Em seguida, distribuir a atividade “Roda da Vida” e expliquei qual seria a proposta.

Comentários: o grupo se apresentou misto, algumas conseguiram responder a atividade no tempo razoável e outras demoram muito tempo, creio a atividade possuía uma quantidade grande de perguntas e etapas (atribuir um valor, somar e depois pintar). Todas terminaram a atividade, mas perdemos muito tempo e acabou afetando as outras atividades.

Puderam notar como alguns aspectos estão baixos e outros altos, refletimos sobre isso e o que poderia ser feito para melhorá-los.

Procedimento (2): no segundo momento, distribuir a atividade conhecida como “Gastograma”, expliquei como respondê-la e de ter atenção ao preencher os quadros.

Comentários: a maior parte do grupo conseguiu entender e realizar a atividade sem grandes problemas, apenas uma funcionária acabou se atrapalhando e respondendo a atividade de forma confusa. Mas, sentei ao seu lado e tentei explicá-la mais uma vez o que significava cada quadrante.

Ao final, compartilhamos a atividade, nesse momento observei que o quadrante “Gosto e Não Gasto” foi o que possuía menos coisas, a partir disso, reforcei a importância do lazer para a saúde e bem-estar do ser humano, falamos (estagiárias) também que existem vários recursos nos dias atuais que dão acesso à cultura e lazer nessa faixa etária, outro ponto comentado por mim, foi em relação ao comodismo e hábitos que temos para justificar esse gap, indaguei seria a falta de dinheiro, ou falta de planejamento? Percebi que todas balançaram a cabeça com sinal de positivo, ou seja, concordando com a minha última hipótese.

Conseguimos realizar apenas duas atividades, ficando uma para o próximo encontro. As duas atividades levaram reflexão para as participantes, creio que a forma lúdica facilita a visualização do momento que estão passando. Percebo o grupo empenhado e satisfeito em realizar as atividades.

Uma das funcionárias que participa desde a primeira vivência, encontrava-se gozando da licença-prêmio no mês de abril, apesar disso, ela continua indo para os encontros. Acho isso fantástico e lembro-me do primeiro encontro, onde firmamos o contrato através da dinâmica do “Novelo de lã”.

6º encontro

O encontro aconteceu na sala de treinamento da Unidade, no dia 14 de Abril de 2015, das 11h00min até às 12h20min. Estiveram presentes cinco funcionárias: duas do setor de nutrição, uma da biblioteca, uma do setor de arquivo e outra do serviço social.

Objetivos: trabalhar a utilização do tempo livre; estimular a autoestima das participantes, possibilitando olhar com atenção para si e perceber seus aspectos positivos e o que precisa ser melhorado; realizar um planejamento do futuro com duração de um ano;

Procedimento (1): a primeira atividade proposta foi à “Agenda Colorida”, que estava programa para acontecer no encontro anterior. Expliquei a primeira etapa e só quando finalizaram expliquei a etapa seguinte.

Comentários: elas conseguiram realizar a atividade, porém achei que o modelo que distribuir estava muito extenso, ou seja, poderia colocar apenas divididos por períodos (manhã, tarde, noite) e não por horário. Isso fez com que elas demorassem mais tempo para preencher os espaços e também por falarem que cada dia faz coisas diferentes, mas reforcei que não precisaria ser exatamente o que faz é só para ter uma noção das atividades desenvolvidas.

Procedimento (2): realizamos a dinâmica “Para Quem Você Tira o Chapéu?” Passei as instruções, reforçando a informação de não poder dizer quem estava dentro do chapéu.

Comentários: algumas falaram bastante sobre si, das todas as lutas e batalhas vencidas e outras ficaram um pouco retraída, falando pouco. Mas, no geral a dinâmica foi bem descontraída e demos muitas risadas. Ao final, perguntei o que acharam de participar e falar sobre si mesmo, todas disseram que é complicado falar de si e que no primeiro instante, leva um susto ao se olhar no espelho, pois não imaginam se ver você é pega desprevenida! (risos). Não sabia o que falar... (informação verbal)[08].

Apesar de não está programado, achei válido e propôs que fizéssemos um círculo dando as mãos e déssemos um grito de guerra: “Eu sou vitoriosa!” Fiz isso pelo fato de todas ressaltaram que já passaram por muitas dificuldades e que não foi fácil chegar onde estão hoje.

Procedimento (3): distribuir a atividade “Programa de Metas” e expliquei a importância que ele tem nesse momento de vida. Entreguei um texto sobre o trabalho voluntário na terceira idade para levarem para casa.

7° encontro

O encontro aconteceu na sala de treinamento da Unidade, no dia 23 de Abril de 2015, das 09h00min até às 10h40min. Estiveram presentes cinco funcionárias: duas do setor de nutrição, uma da biblioteca, uma do setor de arquivo e outra do serviço social e a responsável pelo setor pessoal.

Objetivos: avaliar a efetividade do PPA; conhecer e retirar dúvidas sobre os aspectos legais da aposentadoria e as questões previdenciárias; refletir sobre o tempo e a vida, além de mostrar alguns momentos do PPA, através de fotos.

Procedimento (1): inicialmente entreguei a ficha de autoavaliação para participantes e estipulei um tempo, coloquei um fundo musical (Eu quero ser feliz agora – Oswaldo Montenegro).

Procedimento (2): a responsável pelo setor de Administração de Pessoal retirou dúvidas, esclareceu outras e passou informações novas sobre a aposentadoria para as funcionárias.

Comentários: todas puderam tirar suas dúvidas e percebi que existiam alguns mitos referentes à lei que rege a aposentadoria.

Procedimento (3): passei o vídeo de agradecimento e entreguei o folder (espaços que oferecem atividades gratuitas ou não voltadas para a terceira idade), o certificado de participação e um bombom para cada uma. Para finalizar, tiramos fotos e em seguida, lanchamos.

6. Considerações Finais

A intervenção realizada, conforme descrita neste relatório possibilitou confirmar o que já vem sendo discutido nas publicações sobre o tema. A partir dos encontros, ficou perceptível certa dualidade no enfrentamento dessa nova fase, já que as participantes se apresentavam em alguns momentos com anseios, dúvidas e inseguranças e em outros estavam muito felizes e com a sensação de dever cumprido. Segundo França (2002), entre os sujeitos que desejam aposentar-se e tenham planos para o futuro, é comum o surgimento de ansiedade ao lidar com essa nova possibilidade, pois sabem que a aposentadoria provocará diversas mudanças.

Apesar de trabalharem na mesma instituição por longos anos, a maioria não conhecia a história de vida de suas colegas. O único local de convivência comum no Centro é o refeitório, mas mesmo assim, elas trabalham em setores distintos (apenas duas são do mesmo setor) e possuem carga horária diferente o que acaba dificultando o convívio diário.  O Programa trouxe esclarecimentos, troca de experiências e aproximação com as colegas de trabalho, proporcionar um espaço dentro da organização onde elas puderam se despir, debater, ousar e refletir sobre tudo que emerge nesse novo modo se ser é imensurável. Através da ficha de autoavaliação, o grupo demonstrou a satisfação em ter participado e de como o Programa as ajudou.

Realizar o diagnóstico inicial, através da aplicação do questionário e da entrevista, contribuiu para que as técnicas utilizadas pudessem estar diretamente ligadas ao perfil do grupo, ou seja, levando em consideração todos os aspectos daquela realidade.

 Segundo Wilheim e Déak (1970), um programa pensado e elaborado nesses moldes, possibilita a reorganização do papel social, onde o indivíduo possa garantir segurança, reconhecimento, sentimento de utilidade e valorização. Durante os encontros, ficou visível o papel que a família exerce e de como o apoio dela, juntamente com a sociedade se tornam importantes e necessários na aposentadoria. Porém, a sociedade ao longo dos anos, estigmatiza e segrega os aposentados e/ou idosos.  O aspecto financeiro se apresenta como norteador das atividades que serão desenvolvidas ou não na aposentadoria, já que o salário é diminuído e os gastos com a saúde, principalmente são aumentados. Diante disso, se torna relevante o investimento não só das entidades públicas, mas da sociedade em geral em promover programas de qualidade de vida e bem-estar sem custo ou custo baixo para essa faixa etária, que no decorrer dos anos acabam perdendo o convívio social que acarreta até no desenvolvimento de doenças.

As ações desenvolvidas pelo psicólogo (a) nas organizações devem estar pautadas na contemplação da qualidade de vida no trabalho e promoção de saúde. Realizar esse tipo de intervenção permite a valorização do funcionário, construção de novos projetos de vida, reflexões, quebra de tabus e preconceitos existentes, além disso, proporciona a descoberta de novas possibilidades que a vida oferece.

Sobre o Autor:

Raiana Camila Alves dos Santos - Psicóloga CRP 03/IP 12915 - Bahia - Brasil

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