A Morte Está Presente na Vida: Qual a Percepção dos Pais Acerca da Morte Repentina dos Filhos

Resumo: Este estudo teve como objetivo, desvelar a percepção dos pais, em circunstâncias da perda de seu filho inesperadamente e de forma trágica, especificadamente, pais dos jovens que vieram a óbito no incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria/RS. Propõe conhecer a experiência vivida pelos familiares, considerando como fator importante para a análise do tema, o tipo de morte e a idade do filho perdido, partindo-se da ideia de uma interrupção dos sonhos, planos e realizações futuras do filho. A amostra constituiu-se de duas famílias que perderam suas filhas na tragédia da Boate Kiss. Metodologicamente, utilizou-se como vertente, uma pesquisa qualitativa com análise de conteúdo de Bardin, tendo como instrumento para coleta de dados, uma entrevista com perguntas semi-estruturadas, onde emergiram cinco categorias de análises: Ruptura de um Ciclo; Revolta; Apoio; Aceitação X Espiritualidade: um (re)pensar estratégico para o fim; A vida que segue. O estudo possibilitou a compreensão que o impacto sofrido pela perda, gera muitos sentimentos de raiva e revolta. Foi possível perceber que, diante da morte, os sentimentos do luto, surgem como uma reação prevista, que exige do enlutado recursos internos e externos, para enfrentar esta situação. Os recursos de enfrentamento para suportar a dor da perda, encontrados pelas famílias pesquisadas, foram: a fé, o apoio social e a religiosidade. Os resultados deste estudo podem contribuir para a importância do trabalho psicológico com pais que perderam seus filhos de forma trágica, no sentido de ajudá-los na reorganização de suas vidas, após a morte do ente querido.

Palavras-chave: Espiritualidade, Filho, Luto, Morte Repentina.

1. Introdução

Na vida, estamos sempre lidando com perdas. Algumas são naturais e orgânicas, enquanto outras são extremamente significativas e dolorosas. A perda de um filho gera um vazio que nunca será preenchido, e nada o substituirá. A morte do mesmo mostra-se como um evento de difícil assimilação para os pais, porém, esses sentimentos, essa saudade, essa dor, o não esquecimento do filho, não significa necessariamente que a vida acabou, pois ela segue, a vida recomeça (CATERINA, 2008).

No entanto, qual a percepção dos pais acerca da morte repentina dos filhos? O foco do presente projeto de pesquisa, é apresentar as reações diante da morte de um filho, sendo que, a mesma, em qualquer fase da vida, causa angústia, sofrimento e medo, além de ser um assunto que produz reações de desconforto. Se tratando da morte de um filho, esses sentimentos diante de um evento traumático, acarretam em dimensões ainda maiores, sendo que pode ocasionar um desajuste na estrutura e organização de todo o sistema familiar (BRANDÃO, 2009).

Este estudo em se tratando de um acidente que comoveu o mundo inteiro, o incêndio da Boate Kiss em Santa Maria/RS, tem como objetivo, descobrir qual a percepção dos pais na circunstância da perda de seu filho (a) inesperadamente e de forma trágica. O presente trabalho busca compreender os desafios enfrentados pela família, por se tratar de uma fatalidade considerada como o segundo maior incêndio em número de vítimas no Brasil, além de ter deixado o país em luto. Este estudo faz refletir se poderíamos estar enquadrando essa perda, como um luto normal ou, se este processo de luto se difere das outras situações.

Por se tratar de um assunto dificilmente falado, as pessoas preferem qualquer discussão de seu cotidiano, a falar sobre a morte, apesar de ser comum comentar fatos noticiados na TV ou nos jornais. Diante deste contexto, o susto, a tragédia, a dor, o desconforto e a dificuldade de lidar com a situação imposta, afetam drasticamente o indivíduo. Estas dificuldades se tornaram um dos motivos que levaram a desenvolver este trabalho, além de ser um dos primeiros estudos realizados com alguns dos pais que perderam seus filhos no incêndio da Boate Kiss na madrugada de domingo, 27 de janeiro de 2013.

2. Fundamentação Teórica

2.1 A Morte

Todos os dias é um vai e vem.
A vida se repete na estação...
Tem gente chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais [...]
[...] São só dois lados da mesma viagem.
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também despedida
A plataforma dessa estação é a vida
[...] tem gente a sorrir e a chorar.
E assim chegar e partir...
Trechos da canção “Encontros e Despedidas”

A morte sempre esteve presente na vida das pessoas. De acordo com Melo (2004, p. 2) “A vida e a morte andam, quer queiramos, quer não, de mãos dadas e ambas marcam presença no nosso cotidiano, em que a perenidade da vida recorda-nos a inevitabilidade da morte.”

A morte faz parte do desenvolvimento humano durante todo o percurso de sua concepção e de sua existência. Para Caterina (2008, p. 06) “Desde o nascimento, o homem já sofre sua primeira perda com o rompimento do cordão umbilical, se desligando da vida uterina junto à mãe.”

Na visão de Silva e Ruiz (2003), a morte ainda é um tema muito delicado, nos dias de hoje, mesmo para aquele que possui algum interesse ou tem alguma intimidade sobre o assunto. As pessoas evitam comentar sobre o mesmo, pois gera uma tortura, angústia e medo relativo ao fato de morrer. A morte ainda é vista como indiferente, como se o homem é um ser imortal, numa atitude clara de negação à morte.

Segundo Bittencourt, Quintana e Velho (2011, p. 437) muito já se discutiu acerca de crenças, ritos, cerimoniais estabelecidos a respeito da morte:

Alguns povos a viram como força ou capricho divino, outros como algo não natural. Hoje se pode compreender o evento como parte do curso natural da vida. Nenhuma dessas compreensões, no entanto, aliviou o temor do ser humano diante do fim de sua existência. A finitude da vida é negada pela grande maioria das pessoas e, mesmo que não se negue esse fato, a morte de uma pessoa próxima é chocante, como se ela nunca devesse morrer. Assim, a surpresa diante da morte parece estar colocada, não no fato de se desconhecer que toda a vida tem fim, mas sim na necessidade de se enfrentar a própria finitude.

Todavia, vários acontecimentos podem adiantar o nosso confronto com a morte, sendo dos mais dolorosos e penosos, a perda de alguém que é muito importante em nossa vida, principalmente, um filho (a). (MELO, 2004).

Segundo Caterina (2008), lidar com a morte pode ser conflitante e desconfortável, porém muitas vezes é inevitável encará-la. Não existe uma forma de ignorá-la, deixá-la fora de nossos projetos de vida ou da vida de nossos familiares, pois ela nos acompanha a todo instante, em cada perda.

2.2 O Processo do Luto

“Nada na vida psíquica pode se perder. Nada desaparece daquilo que se formou, tudo é conservado... e pode reaparecer...” (Sigmund Freud)

Diante de qualquer perda significativa, principalmente de uma pessoa muito próxima e importante, desenvolve-se um processo fundamental e necessário, para que o vazio deixado, com o tempo, possa voltar a ser preenchido. Esse processo é denominado luto, e consiste em uma adaptação à perda, sendo que envolve uma série de fases para que tal aconteça (MELO, 2004).

De acordo com Rodriguez (2009 apud BRANDÃO, 2009) o tipo de morte, seja perda inesperada, prematura, suicídio, assassinato ou após uma doença muito longa, sempre é um agravante que deve ser levado em consideração, e é de suma importância no processo de luto.

As situações de perdas remetem-nos diretamente à vivência do luto. É no processo de luto que elas são vivenciadas e elaboradas. É nele que se constitui um

processo de reconstrução, de reorganização diante da morte (FRANCO; MAZORRA, 2007).

Segundo Alarcão, Carvalho e Pelloso (2008, p. 3) “A perda de um filho se revela como um sofrimento intenso e complexo, isso porque, a intensidade da sintomatologia e duração do processo de luto parental frequentemente difere dos processos de luto por outros tipos de perda”.

O luto envolve uma situação dolorosa para quem se desvincula do objeto amado, como reação diante dessa perda. Embora exista uma correlação justificada pelas condições e influências ambientais, existentes no luto, podemos discernir a diferença entre os dois eixos definidos por Freud no que se refere ao objeto do luto em, o luto normal e o luto patológico (CATERINA, 2008).

Freud (1915) mostrou a graduação existente entre o “luto normal”, o “luto patológico” e a melancolia. Muito esquematicamente, no luto patológico o conflito ambivalente (o indivíduo sente-se culpado pela morte, nega-a, julga- se influenciado pelo morto ou atingido pela razão que lhe causou a morte, etc.). ocupa o primeiro plano. Com a melancolia transpõe-se uma  etapa suplementar: o ego identifica-se com o objeto perdido. Parece-nos, contudo, que o luto derivado da perda de um filho dificilmente poderia enquadrar-se dentro desta e de qualquer outra classificação (SEEWLD et al., 2004).

O conceito de luto normal possui suas implicações, pois se trata de um processo dinâmico e complexo que envolve a personalidade do indivíduo. Ele se apresenta de forma consciente e inconsciente pelas funções do ego, as atitudes, as defesas e as suas relações com os demais. No luto, dito normal, existe um sofrimento, vive-se a perda do objeto concreto, o qual, não tem como negar e assim, acabamos por compactuar com a morte. Com essa perda, surge o sofrimento, parte do ego é projetada nele e através de enorme esforço psíquico, há resistência em retornar à realidade perdida neste momento, o desligamento da percepção e a assimilação dos objetos bons (TEIXEIRA, 2007).

Segundo Freud (1916 apud CATERINA, 2007) no luto patológico, a libido continua orientada pelo próprio ego, produzindo assim, uma identificação com o objeto. Quando esse processo não ocorre, é como se a sombra do ego, caísse sobre ele mesmo. Ao se cruzarem neste percurso, o ego e os objetos acabam em conflito, gerando uma instância autocrítica, denominada de superego.

Quanto à duração do processo do luto, não existe uma data conclusiva, sendo impossível definir uma resposta precisa. Ao perder uma pessoa de relação próxima, como um filho, esse processo é improvável levar menos de um ano. Além disso, datas, aniversários, recordações são inevitáveis para relembrar a perda (MELO, 2004).

O luto de um filho, quando este for de uma perda trágica e inesperada, provoca inúmeras reações nas pessoas envolvidas, assim como, uma sucessão de perdas (incêndio da Boate Kiss), o que impossibilita ainda mais prever o tempo de que as pessoas precisam para se recuperar do choque (TORLAI, 2010).

2.3 Morte Repentina

“Entre todas as dores que infelicitam a condição humana, uma delas se sobressai como a mais terrível, a mais injusta, a mais profunda: a dor da perda de um filho. Se a morte já é inaceitável, se a tememos e a desprezamos, a morte de um jovem, rompendo o ciclo natural, interrompendo uma trajetória que todos suponham venturosa expõe-nos de maneira brutal a efemeridade da existência. Diante dessa perda, alguns sucumbem fisicamente. Outros afastam-se da racionalidade, mergulhando em um mundo de sombras. E outros, por fim, retirando forças sabe-se lá de que fonte de energia, resistem, enfrentam, olham para frente, sem esquecer o passado, e verdade, mas procurando manter a integridade psicológica até como homenagem aos que partiram” Sergius Gonzaga - Fragmento retirado do livro Thiago Gonzaga-Histórias de uma vida urgente.

A perda de um jovem sempre  é vista  como uma interrupção em seu ciclo biológico e, isso gera sentimentos de tristeza, sofrimento, frustração, impotência, angústia e dor. Sabemos que a morte é um fator inevitável e que, por mais que a negamos, está presente em nossa vida. Contudo, é difícil e doloroso aceitar quando esta acontece precocemente. Lidar com ela, além de ser uma questão complicada, torna-se pior, quando ocorre com um filho, isso porque a morte de um jovem é vista como uma interrupção em suas fases da vida, não sendo naturalmente pensada pela família, pois o normal seria que os pais morressem antes, na perspectiva deste ciclo vital (ALARÇÃO; CARVALHO; PELLOSO, 2008).

Segundo Bittencourt, Quintana e Velho (2011, p. 437) “A morte precoce traz também o medo de um mundo injusto, pois se deseja acreditar que só aqueles que têm pecados é que morrem, ou que só os pecadores sofreram nesse processo”. A morte do jovem choca por sua prematuridade, pela não realização de sonhos almejados e ainda pelo sentimento de que ele não teve tempo de alcançar a felicidade. (BITTENCOURT; QUINTANA; VELHO, 2011).

Para Brandão (2009, p. 11):

Quando se perde um filho, perdem-se muitas perspectivas de futuro, pois é neles que se depositam sonhos e projetos. Um filho não é apenas uma extensão ou continuidade biológica de seus pais, mas também psicológica por ter sido investido de cuidado, atenção e carinho. A morte é vivenciada como “perda de um pedaço” de si. Quando a vida de um filho é interrompida, os pais são violentamente atingidos.

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde e Fundação Thiago de Moraes Gonzaga (2012) um dia, quando menos se espera, acontece o impensável. Alguém, a quem amamos parte antes do tempo, deixando seus projetos de vida e sonhos por realizar. Aquele filho vai fazer muita falta, pois deixam familiares e amigos inconsoláveis, porque pela lei da vida, deveria viver muitos anos ainda. No início, sente- se uma grande revolta perante a injustiça, de ter falecido alguém tão jovem, alguém que fará tanta falta. Depois, sentimos um grande desânimo e uma enorme tristeza. A dor da perda permanece e dura muitos dias.

2.4 Uma Pessoa a Menos: Filho

“Senhor, há uma velha história que meu pai me contou. Um velho perdeu o seu único filho, e seus amigos vieram procurá-lo e disseram-lhe:
- Por que choras? Nada te pode devolver teu filho. E o velho disse: É por isso que eu choro”.
(Autor desconhecido)

A morte é a única certeza que qualquer ser vivo tem. Quando ela ocorre com um filho, o impacto é ainda maior, pois não se perde só um ente querido, mas também, um pedaço de si mesmo, que se vai sem volta, é um pedacinho da alma, que se parte em milhares de porções e nem o tempo, com sua sabedoria milenar, parece capaz de juntar e colar tais retalhos (CAMPOS, 2012).

Segundo Bittencourt, Quintana e Velho (2011, p. 438) “A morte de um filho ultrapassa a compreensão simplesmente biológica, tornando-se também um processo cognitivo e emocional”.

Com a inesperada notícia do falecimento de um filho, tudo fica confuso. A volta para casa, depois do enterro, é com certeza, a concretização do fato ocorrido e a imposição da realidade de uma forma cruel (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE; FUNDAÇÃO THIAGO DE MORAES GONZAGA, 2012).

Na visão de Friedman (1995 apud BRANDÃO, 2009) a perda de alguém especial e muito importante, causa um vazio no sistema familiar, tanto físico quanto emocional e que, precisa ser preenchido de alguma forma. Durante esse processo, poderão acontecer rompimentos e uniões familiares entre os membros do sistema. Mudanças acontecerão, responsabilidades serão remanejadas, projetos serão desfeitos, e a substituição tornar-se-á um objetivo para muitos. Ainda que haja muita ansiedade e dor presente no sistema familiar diante do evento da morte, há também, oportunidades de mudança dentro desse mesmo sistema.

A falta da pessoa amada, não pode ser ignorada, esquecida ou deixada de lado, precisa sim, ser reposicionada. Esta reposição, implica em não querer negar o acontecido, em poder falar do filho sem restrições, sem chocar ninguém e de realizar o luto dentro de um tempo adequado para si mesmo. Quando as pessoas poupam falar em quem partiu, reafirmam a posição de que este precisa ser realmente esquecido. Diferente de qualquer outro luto que segue a sequência lógica da vida, a morte de um filho reafirma a incondicionalidade do amor e, portanto é impossível tentar esquecer (CATERINA, 2008).

3. Método

Para alcançar o objetivo proposto, foi realizada uma pesquisa qualitativa, usando análise de conteúdo, onde fez uso de uma entrevista semi-estruturada, para coleta de dados e, contou com a participação de duas famílias que perderam seus filhos na tragédia da Boate Kiss na cidade de Santa Maria/RS no dia 27 de janeiro de 2013.

A entrevista semi-estruturada, partiu de um roteiro de questões, com o objetivo de enumerar de forma mais abrangente possível, a questão de pesquisa, a partir dos pressupostos advindos do objeto de investigação.

A mesma foi realizada mediante a leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, pois este mostra a concordância do sujeito em realizar a entrevista e garante respeito e autonomia para com a pessoa entrevistada. As entrevistas foram agendadas em local, dia e horário, determinados pelo participante de acordo com sua disponibilidade. Adotou-se o critério para a seleção de participantes por conveniência, sendo que os elementos foram escolhidos por indicação de conhecidos. Posteriormente, foi realizado contato telefônico com o familiar do adolescente que veio a óbito, no incêndio da Boate Kiss e explicado acerca do trabalho e da relevância do depoimento.

Após a realização das entrevistas, as mesmas foram transcritas com o intuito de explorar e analisar por meio da leitura e releitura, os dados mais relevantes para a pesquisa e, para que se proceda a análise de conteúdo, segundo o modelo de Bardin (1977, p. 38), “[...] aparece como um conjunto de técnicas de análise das comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens”.

Após a transcrição das entrevistas e organização dos dados coletados, foi realizada pré-análise dos mesmos, procurando fazer uma leitura do conjunto das falas, buscando uma compreensão desses conteúdos e a saturação qualitativa, o que contribuiu na identificação de categorias preliminares.

Em seguida, uma nova leitura foi realizada, ressaltando sua importância e a relação entre eles. A partir dos dados extraídos, foram identificadas e agrupadas as unidades de significado que apresentavam um tema comum, os quais, a partir do marco teórico e dos objetivos definidos, permitiram a interpretação dos resultados desta pesquisa.

As questões éticas perpassaram todos os passos da pesquisa, desde o planejamento, a implantação das ações, uso dos dados e, principalmente nas relações interpessoais com os sujeitos do estudo. Dessa forma, para proteger as identidades dos participantes, seus nomes foram substituídos pelos símbolos: P1 e P2.

4. Apresentação e Discussão dos Resultados

Este tópico constitui a análise dos resultados da pesquisa com os familiares que perderam seus filhos de forma inesperada no incêndio da Boate Kiss e suas percepções acerca desse processo. Apresentam-se, sob a forma de cinco categorias distintas. 1) Ruptura de um Ciclo; 2) Revolta; 3) Apoio; 4) Aceitação X Espiritualidade: um (re)pensar estratégico para o fim; 5) A vida que segue. Através delas, são demonstradas as experiências dos familiares diante da perda repentina dos filhos, os sentimentos acarretados, o apoio e o carinho recebido, o processo de aceitação e conformação e um pouco de como é lidar com uma pessoa a menos na família. Para melhor compreensão e entendimento, apresentam-se as características dos jovens, com intuito de melhor visualizar a situação vivenciada por cada família.

O primeiro familiar (P1) entrevistado foi, a mãe de uma adolescente que estava residindo na cidade de Santa Maria e cursava seu primeiro ano de Universidade. A adolescente foi na festa com as amigas e morreu em decorrência da intoxicação pela fumaça, oriunda do incêndio na Boate Kiss. Seu corpo foi trazido para a cidade natal e foi cremado.

O segundo familiar (P2) que expôs sua vivência sobre o assunto, foi a mãe de uma adolescente que também estava, na noite do incêndio na Boate Kiss em Santa Maria/RS. A adolescente fazia cursinho na cidade, sendo também seu primeiro ano lá. Esta veio a óbito no dia da tragédia, também devido a inalação da fumaça. Sua família é espírita e seu corpo foi sepultado em sua cidade natal.

4.1 Categoria Ruptura de um Ciclo

Falar de morte, ainda é algo que abala muito as pessoas. De modo especial, o fato da morte nos leva à experiência de nossos limites e, por mais que ela seja algo natural da espécie humana, parece estar tão longe de nosso dia-a-dia. “Primeiro tu não acredita, parece que é... que é mentira, até hoje eu ainda tenho esse sentimento assim...”. (P2).

Desde pequenos, somos levados a crer em uma espécie de sequência evolutiva, onde todo indivíduo segue a lei da natureza que dita que todo ser vivo nasce, cresce, reproduz-se e morre. Nesses diferentes estágios do desenvolvimento humano, a abordagem da morte, seria como a última etapa do ciclo vital. No entanto, a vida não segue um curso linear (BITTENCOURT, QUINTANA, VELHO, 2011). “Agente...não ta preparado pra morte... a gente espera sempre que os pais vão primeiro.” (P1).

Lidar com a morte é sempre uma questão complicada, ainda mais quando ela acontece precocemente. A perda de um filho em seu período da adolescência, causa muito sofrimento, tristeza e frustração para a família enlutada, isso porque há uma ruptura em seu ciclo biológico e, de certa forma, uma interrupção de sonhos, projetos e objetivos que almejavam ser alcançados. “Você mandar uma filha pra universidade, fazer o que ela queria ahm... o que ela sonhava e você receber ela dentro de um caixão. Nem um pai merece, nem, nem, nem uma família merece.” (P1); “Foi bem complicado assim ó... haa porque daí tu relembra quando tu foi leva, toda aquela alegria, daí tu tendo que ia busca (choro), de um jeito tão diferente [...]”(P2); “[...]os pais têm um sonho de vê uma filha formada, de vê uma filha com uma profissão, de vê uma filha com filhos é, de vê uma filha realizada assim, os sonhos...” (P1).

Segundo Brandão (2009, p. 11) a morte de um filho “[...] é vivenciada como “perda de um pedaço” de si. Quando a vida de um filho é interrompida, os pais são violentamente atingidos.” A família, por não estar preparada para tal situação, reage com choque e muito desespero, ainda mais, ao se tratar de uma tragédia, como a ocorrida. Diante do explícito pelos participantes envolvidos nesta pesquisa, foi possível perceber sentimentos de dor, tristeza, vazio absoluto, desespero, perda de sentido da vida, as palavras mais fortes não são capazes de descrever os sentimentos de uma mãe/pai que perde um filho, como podem ser observados nas seguintes falas: “[...] não tem palavras para dimensionar a dor que você sente, e você fica sem chão é, você fica sem fé é... você não acredita... ahm... é... não tem como, não tem palavras que possam descrever pra uma mãe receber de uma hora assim... não tem, não tem, não tem explicação, não dá pra descrever com palavras o que você sente, porque... é... você não tá preparada pra aquilo, você não quer que aconteça aquilo com teus filhos, é como que se uma parte de você tivesse acabado sabe, como que assim, naquele momento você vê que você parece que a vida não vai, não vai ter mais sentido, que você não tem mais porque vive, é como se você morresse junto, não tem.” (P1); É como se te faltasse o chão, é como se você fosse mutilada, é como se uma parte de você passasse a ser tirada assim de repente... é muita dor, é muita dor, é muito dor.” (P1).

A notícia inesperada da perda do filho gera também muitos sentimentos para a família, pois tudo fica confuso. O momento da notícia, a dúvida de saber o que realmente aconteceu, de saber como está o filho (a), onde está, todas essas incertezas geram desconforto e angústia. “[...] não dá pra descrever a dor, a casa aqui tava cheia, assim... a dor que eu tava sentido, porque eu já... eu já sabia. Eu no meu... íntimo de mãe eu já sabia que ela não, não.. hum... ela já... ela já tinha falecido, só precisa confirmar. (P1)”; “O pessoal que tava lá, disse que tinha uma pessoa que já tinha reconhecido ela, mas não, não podia reconhece, porque não era da família, não podia dar certeza né.” (P2). Essa angústia perante a possibilidade da morte pode gerar situação de negação, o que é marcado por mais dor e sofrimento na confirmação do óbito. “E... daí a gente fico esperando e não chamavam, e não chamavam o nome dela.” (P2).

Outro fator que gerou desconforto e dor para as famílias envolvidas foi o fato de muitos jovens perderem suas vidas nessa tragédia. Situações como estas, “[...] implicam

elevados danos, tanto materiais, quanto psíquicos, para a população atingida. Afetam padrões de vida das comunidades e suas redes de apoio psicossocial, colocando em risco a capacidade de enfrentamento individual e coletivo.” (TORLAI, 2010, p. 24). “Daí tu vive aquelas famílias todas que chegava e saía caixão, e saía caixão, e saía assim. Foi bem... foi muito difícil aquela, aquela, aquele momento ali sabe.” (P2); “[...] tu vê aquele monte de criança deitada no chão, porque assim sabe, eles tinham terminado de coloca né.” (P2).

4.2 Categoria Revolta

“Ai me deu revolta, me deu ódio, me deu raiva (choro)... de Deus sabe... Aquele foi o momento em que eu, que eu me permiti, de raiva, de ódio, eu quebrei a porta, fiz tudo o que eu podia (choro) [...]” (P2)

A morte de um filho é considerada como a pior perda, por ser um evento não normativo, isso porque inverte toda a ordem de um ciclo vital. Entender e aceitar essa perda, sempre é uma tarefa difícil e dolorosa para a família, principalmente porque é uma morte inesperada, que pega pai e mãe despreparados para receber tal informação.

Conforme a visão de Brown (1995 apud MEDEIROS; LUSTOSA, 2011, p. 211):

Cada tipo de morte tem implicações na reação e no ajustamento familiar. As mortes súbitas pegam o indivíduo e/ou a família despreparados. A família reage com choque. Não há tempo para despedidas ou para resolução de questões de relacionamento. Não há nenhum luto antecipatório.

O luto por um filho é marcado de muita raiva e revolta. A circunstância da perda implica em um peso muito grande para a elaboração desses sentimentos. Saber como ocorreu, as causas, o que aconteceu... Geram muitas frustrações para a família e, por alguns momentos, eles chegam a se revoltar-se com Deus, por não conseguir entender e aceitar o porquê de estarem vivendo tal situação tão dolorosa. “[...] Olha primeiro eu tive raiva, tive revolta, tive... revolta... tive revolta assim com Deus sabe, tive revolta de... meu Deus ela é tão jovem, tanta gente que ta quase morrendo de doença e coisa e... e né... ou então os bandidos e coisa, eu tive essa, esse momento de raiva e de revolta.” (P2); “[...] dai eu fiquei brava com Deus, com Nossa Senhora, com todo mundo que eu pedia proteção pra ela assim, eu fiquei muito, muito, muito, muito, muito mal. Assim, a minha fé foi lá nos pés, porque... é ninguém espera receber uma notícia.” (P1).

Em vista da grande dificuldade emocional que a família repentinamente é imersa, foi possível perceber através de relatos, a revolta dos pais, por saberem que seus filhos estavam em um cenário de guerra, o que pode ser evidenciado na fala de P1: “[...] era um cenário de guerra, é terrível, mas eu tive que olha sabe, e daí pensar que a minha filha estava naquele local, meu é muito dolorido, porque é cenário de guerra mesmo, tinha ferro retorcido, tinha calçado, tinha bolsa [...]”.

Diante de todo o ocorrido, são comuns, pensamentos recorrentes da revolta, tais como “Porque meu filho? Era preferível que tivesse sido comigo, mas não com ele.”, entre outras exclamações. De acordo com Torlai (2010, p.47) “Também é comum, que o enlutado sinta muita raiva, às vezes dirigida contra si mesmo, na forma de acusações com sentimentos de culpa [...]”, conforme descrito na seguinte fala: “Ai teve momentos que eu pensei assim “meu Deus se eu não tivesse me casado, não teria tido ela, eu não teria sofrido (choro).” (P2).

Conforme destaca Melo (2004, p. 5):

Um dos sentimentos mais confusos para o sobrevivente, estando na raiz de muitos problemas no processo de sofrimento após a perda; a raiva advém de duas fontes: da sensação de frustração por não haver nada que se pudesse fazer para prevenir a morte e de um tipo de experiência regressiva que ocorre após a perda de alguém próximo em que a pessoa se sente indefesa, incapaz de existir sem o outro e experimenta a raiva que acompanha estes sentimentos de ansiedade; formas ineficazes de lidar com a raiva são desloca-la ou direcioná-la erradamente para outras pessoas, culpabilizando-as pela morte do ente querido ou virá-la contra o próprio [...]

Por ter sido uma tragédia de tamanha proporção, provocando diversas perdas e que comoveu o mundo inteiro, os sentimentos de raiva e revolta vai além do momento da notícia do falecimento do filho (a), pois existem várias situações em que a família é exposta (notícia, reconhecimento do corpo, enterro, o retorno para casa...). O momento do reconhecimento dos corpos foi um dos mais difíceis para a maioria dos pais, pois ali é a certeza da concretização dos fatos e a imposição da realidade que, até então, internamente não se tinha a dimensão do que estava acontecendo. “E ai tu vê aqueles caminhões de frigorífico passa e tu sabia o que que tinha dentro daqueles caminhões de frigorífico... aquilo foi bem difícil (choro).” (P2).

4.3 Categoria Apoio

“A morte coloca desafios adaptativos partilhados e mudanças nas definições que a família tem da sua identidade e objetivos. A capacidade de aceitar a perda está no cerne de todas as competências nos sistemas familiares saudáveis”. (MELO, 2004, p. 16). A perda de um filho altera todo o funcionamento e a estrutura familiar. A família precisa mudar atitudes, reconstruir conceitos, possibilidades e formas de superar essa dor para dar continuidade à vida e, para isso, o apoio dos familiares, amigos e conhecidos se torna imprescindível, pois depois de sentir tamanha dor da perda de um ente querido, os pais principalmente, necessitam de muita força interior e apoio da rede social e familiar para lidarem com a situação, “Oapoioda família é imprescindível sabe, muito, muito.” (P2).

Foi possível perceber que neste mesmo processo, estão os amigos do filho (a) que, na maioria das vezes, conforta e consola a família enlutada, “[...] eles continuam no dia das mães eles vêem e me trazem flores é... assim sempre os amigos continuam presente assim.” (P1). Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde e Fundação Thiago de Moraes Gonzaga (2012), o apoio dos amigos do filho que partiu, para muitos representa uma proximidade, vista como fundamental no processo de recuperação, já para outros, é uma tarefa difícil de ser lidada e que, suscita muitos sentimentos, entre eles, o futuro que seu filho poderia ter. “[...] a colega dela passo no vestibular, o colega também, ai eu penso: bá, podia ser a minha filha né.” (P2).

As reações diante uma tragédia podem ser das mais variadas, impossibilitado prever o grau e o tempo que as pessoas traumatizadas precisam para se recuperar. Visto nesse sentido, o apoio da cidade em geral é de suma importância para os familiares. “Existem alguns fatores que podem contribuir ou impedir a recuperação destas pessoas, como a existência de um sistema de apoio dentro e fora da comunidade envolvida, o que ressalta a importância de um apoio psicológico especificamente dirigido a estas pessoas.” FRANCO (2005 apud TORLAI, 2010, p. 32).

Verificou-se através do relato dos participantes, grande apoio advindo do povo de Santa Maria/RS, local da tragédia, onde todos estavam envolvidos para dar suporte às famílias, ajuda e companheirismo, conforme as falas: “[...] mas muita solidariedade também é disso que fico de lá, não foi só aquela tristeza, aquela... aquela tris... Teve muito solidariedade, as pessoas vinham te abraçavam, te davam água, te davam coisas pra come assim, muitos nem te perguntavam nada sabe, só te davam uma abraço e te davam água e saiam sabe então, teve muita, muita ajuda, muita solidariedade sabe.” (P2); “E daí tu vê que... que o perfil deles são todos de, de, de pessoas que queriam ajudae que era muita gente... muita gente boa que queria... muita luz que tava ali, eu acho que isso foi que me ajudo também a supera, passa por isso. Mas foi muito difícil né.” (P2).

Diante do explícito, percebeu-se que o modo como o mundo inteiro se comoveu e prestaram auxílio, através de cartas, mensagens, e-mails e ligações aos familiares das vítimas serviram de vital importância para gerar um pequeno conforto diante da realidade da morte, “E... assim, eu tenho pessoas do Brasil inteiro que me mandam coisas, que estão em oração por mim.” (P1). Poder partilhar o sofrimento, a experiência da perda e receber o apoio de outras pessoas que também já passaram por situações parecidas, foi crucial, para uma melhor adaptação e aceitação, conforme relatado na fala de P2: “Os amigos, pessoas as vezes que tu nem conhecia e, muitos solidária, pessoas que passaram pela mesma situação, conversando com a gente né, isso também foi uma coisa que ajudou bastante.”

Outro ponto importante a ser destacado que contribuiu muito para o conforto da família enlutada, foi os rituais funerários escolhidos. Nos dados obtidos, uma família optou pela cremação. Conforme destaca Moraes (2010, p. 2) a cremação tem como significado “[...] incinerar ou queimar, é um método muito antigo e asséptico, usado pelos orientais, para transformar em cinza ou pó os restos mortais, o corpo físico inerte, o cadáver da pessoa.” Apesar dos ritos funerários não cessar com a dor da perda, os familiares ressaltam aspectos positivos e tranqüilizantes nesse ato, “Então assim, a cremação dela foi uma coisa maravilhosa, suave, divina, foi coisa de Deus. É muito lindo [...] é um terreno lindo, com gramado, árvores, pássaros é... água, calmo, tranqüilo e, quando abre lá pra entra o caixão é, aparece que ta, que é Deus, que ta subindo pro céu, que Deus ta vindo busca. A imagem é muito linda, então você nem se dá conta daquela coisa que machuca sabe, muito. É muito bonita a cremação” (P1).

A vivência de um enterro tradicional pode ser muito dolorido para a família. Já na cremação, a cerimônia final de despedida do corpo do indivíduo a ser cremado, fica a critério da família, de suas crenças, seus costumes, sua religião, tornando-se um ato menos doloroso.

Segundo Moraes (2010, p. 21), na cremação:

As cenas, no local são muito envolventes, como é natural nessas ocasiões, mas o ambiente do Crematório, por suas linhas arquitetônicas e pela forma como proporciona as manifestações de último adeus dos familiares e amigos àquele ente querido, apresenta-se mais tranqüilo e, sem dúvida, menos aflitivo do que as cenas de um enterro tradicional, com pedreiros cerrando o caixão com tijolos e caliça ou com os coveiros – que profissão difícil, meu Deus! – jogando-lhe terra em cima.

Essa dor do enterro tradicional pode ser evidenciada nas seguintes falas: “Eu não consigo saber que minha filha ta enterrada no cemitério, eu não concordo com cemitério, não acho legal túmulo, não acho legal aquelas casinhas que fazem lá [...]” (P1); “[...] na hora que fecha o caixão lá, com aquele cimento, é muito dolorido, eu não iria conseguir [...]” (P1).

4.4 Categoria Aceitação X Espiritualidade: um (Re)Pensar Estratégico para o Fim

Quando se perde alguém muito especial, como no caso de um filho, há sempre um sentimento de que tal situação não ocorreu, percebida como uma fuga da realidade, mas logo nos damos conta de que, aquela pessoa, tão importante em nossa vida, morreu e que não voltará mais. Esse momento de chegar a uma aceitação da perda, leva tempo, entretanto, nem todos conseguem aceitar a ausência do filho, apresentando muitas dificuldades de resgatar o contato com a realidade e dar sequência a suas atividades diárias.

A fase de aceitação da perda é o momento para darmos continuidade as nossas vidas. Conforme ressalta Caterina (2008, p. 25) “A vontade de viver leva muitas pessoas a buscar novas habilidades nunca desenvolvidas, favorecendo a dissipação da tristeza, tornando menos presente e dolorosa a lembrança da perda.” Através dos relatos, foi possível perceber a relação intrínseca entre a religião e a fé que a família, logo de início recorreu como forma de aceitação da perda do ente querido. Destacaram a crença em Deus como uma fortaleza de forças para lidar com a morte abrupta e continuar vivendo, “[...] pra lidar com a perda, eu acho assim... começou um pouquinho... acreditar novamente em Deus, porque assim, no momento a tua fé ela vai embora [...]” (P1); “E a fé em Deus, que a gente sempre tem que ter, que, que os problemas vão vim e a gente vai ter que enfrentar, mas Deus vai ta sempre do teu lado assim, te ajudando tu a passar essas.” (P2).

Como a perda torna-se inaceitável, por tirar dos seus filhos o direito de viver em plena juventude, onde possuem vários sonhos e objetivos a serem alcançados, a revolta, a dor, e o inconformismo desses familiares, só encontraram guarida na espiritualidade, na crença de que seus filhos se encontram em um mundo muito melhor do que o mundo físico, como pode ser evidenciado nas seguintes falas: “[...] a visão espírita tem... que nos ajudou né a, a não deixar a revolta tomar conta, não deixa a raiva, o ódio tomar conta né. Porque pra gente, a gente não perdeu nada, ela também não perdeu nada daqui.” (P2); “Eu sei que ela não está mais ai. Que ela está em um plano superior, que ela está no lado de Deus.” (P1); “[...] tem que ter fé em Deus e sabe que a morte não é o fim, é um novo recomeço.” (P2). De acordo com Farinasso e Labate (2012) esse processo de “chamado divido”, de seu filho estar em um lugar melhor, dá ao enlutado uma melhor explicação e aceitação para a perda, pois assim, considera-se a morte como parte da obra divina, nesse caso, a fé em Deus e de um lugar muito melhor que o mundo físico torna possível a superação de uma dor desencadeada pela falta de explicação da perda.

Conforme destaca Alarcão, Carvalho e Pelloso (2008, p. 5):

Este aspecto do processo de reestruturação da vida após a perda de um filho representa um desafio e mostra a necessidade de os profissionais refletirem sobre a relação entre a espiritualidade e o enfrentamento da perda, relação esta muitas vezes por eles negligenciada ou negada.

As mães consideram também a perda como uma missão ao qual eles e suas filhas teriam que passar, o que se considera um positivo conforto espiritual para continuar vivendo, “[...] que essa era minha missão, de passar por isso e era a missão dela tava comprida.” (P1); “Que ela precisou só desse tempo pra evolui e que a nossa missão é essa né. Nossa missão é de fica aqui e continua a nossa caminhada né.” (P2).

Percebeu-se, através de algumas falas, que as mães, em busca desenfreada e, muitas vezes equivocada, de  necessitarem de uma razão concreta, de encontrarem respostas ou até mesmo, pressentimentos sobre o acontecido, relataram fatos que confortam e que segundo elas, aceitam melhor a perda: “[...] e ela disse assim “Pai, mãe, eu queria agradece vocês por eu ter tido o privilégio de ter nascido nessa família né”, então pensa bem, uma semana antes dela, dela, dela fazer essa passagem, ela disse que tinha agradecido a Deus por ela ter nascido nessa família.” (P2); “[...] quando estavam cremando ela vieram... estavam 6 andorinhas fazendo um circulo em cima  e, essas  6  andorinhas  não  vieram  de  lugar  nenhum,  elas  estavam,  ficavam, ficaram girando em circulo, daí 3 sumiram, não, não voaram para lado nenhum, pra cima, pra baixo, simplesmente sumiram, daí ficaram 3 e, sumiram essas 3 também. Então tava todo mundo em lágrimas e bem emocionado, assim.” (P1); “E nesse meu sonho a minha mãe vinha toda vestida de branco (choro). Numa...(choro), não sei se era uma carruagem o que que era né, e ela vinha com os braços aberto assim, bem aberto, parecia que tinha dois metros, mas numa felicidade, numa felicidade, numa alegria assim sabe, era uma coisa que contagiava a gente, daí ela passo por mim, me atirou um beijo e ela levava um negócio atrás assim, sabe. Eu lembro que no meu sonho, eu... eu perguntei assim “O que será que a mãe leva?”. Daí no outro dia eu fiquei sabendo o que que era que ela tinha vindo busca né. Então aquilo me ajudou muito, me ajudo muito eu a entende, eu a aceita e sabe que a minha mãe que... que tinha vindo busca ela, que socorreu ela né.” (P2).

4.5 Categoria a Vida que Segue

A morte de um filho nos remete a um distanciamento do real, do amado. Os sonhos, os projetos que temos para ele, desaparecem de maneira drástica e ficamos apenas com a dura e cruel realidade, a da perda, da revolta, da solidão, da dor. Por mais que a família tente compreender e aceitar isso, não há dimensão alguma para entender o que sentem os pais nesse momento do abismo da situação imposta. Não há como dividir esse sentimento com alguém e muito menos se livrar dele. Nem como, confrontar esse sentimento com nenhuma outra perda. Porém, dar continuidade à vida e aprender a conviver sem a presença do filho, é a saída saudável para continuar a viver com a nova realidade.

Souza (1997 apud BRANDÃO, 2009, p. 08) ressalta que:

A morte pode significar uma possibilidade de renovação dentro e fora do âmbito familiar pela incorporação dos conteúdos e qualidades daquele que morreu. A morte física traz uma perda e uma separação definitivas; nada impede, porém a sobrevivência através daqueles que continuam.

Para as mães, os sentimentos da dor da morte dos filhos e o sofrimento vivido em circunstância da tragédia, são ainda bem presentes e revividos em cada lembrança. Isso porque, a morte precoce de um adolescente, se revela como um sofrimento muito intenso e complexo, diferente de qualquer outro tipo de perda.

Conforme foi possível perceber, outro fator muito importante a ser destacado, é o significado de morte que cada indivíduo possui. Cada cultura, cada religião, tem um jeito de abordar este assunto e, é nessa diversidade que cada família elabora seu processo de luto. “A morte, para cada indivíduo, define-se pelas diferenças nas relações, o significado da vida e outros valores, constituindo um grande agente transformador.” (CATERINA, 2007, p. 13). “Então que a gente tem que entende que se a gente fosse criado com a visão diferente da morte a gente não ia sofrer, a gente sofre porque a gente é egoísta, porque a gente quer ter junto da gente.” (P2).

Os dias que vão passando, são fundamentais para a elaboração do luto e para o processo de substituição da presença pela memória e de dar sequência na vida. Mas daí os pais se deparam com outra dificuldade e que tende a trazer muitas lembranças do filho. O que fazer com as roupas? Com as fotografias e recordações? Principalmente com os objetos pessoais?

A Organização Pan-Americana da Saúde e Fundação Thiago de Moraes Gonzaga (2012) observa que o apego a esses objetos e pertences do filho que se foi, se por um lado mostra a cruel realidade da falta do filho amado, por outro, ajudam a consolidar a imagem do filho por mais tempo, gerando a intensa magnitude às lembranças e à memória que os pais carregam, até que se ache o lugar mais adequado, de acordo com a opinião da família, para destinar essas coisas. Como é algo ainda recente a tragédia, é notório o apego aos objetos pessoais dos filhos, isso de ambas as mães, conforme pode ser evidenciado na fala de P1: “[...] mas as coisas pessoais dela eu trouxe tudo, roupas, calçados, tudo, tudo, tudo, eu trouxe de volta. E assim, eu não sei ahm... quanto tempo que vai ficar, se eu vou guardar por uma vida inteira, se vai ser por um tempo, eu não sei. Isso só o tempo vai dizer, mas assim por hora eu não pretendo me desfazer de nada ainda.”

Chegar a uma aceitação da perda do filho requer tempo, pois além de envolver a aceitação intelectual, envolve também a emocional, esta última, sendo a mais vagarosa. Um filho jamais é esquecido e, os pais nunca perdem a memória de uma relação tão significativa e especial. Foi possível perceber entre as falas muito choro de ambas as mães. Em suas falas choravam e enfatizavam a importância que o filho (a) tinha e continua tendo na vida dela, referindo-se como sendo a razão de suas vidas, demonstrando satisfação de falar das qualidades da filha “[...] ela vai ser sempre muito especial, porque ela foi desde pequena meu pingo de brilhante então assim, lembrar dela como filha é muito bom porque, ela sempre, sempre, sempre foi uma menina do bem.” (P1).

O luto nesse caso pode ser definido como um processo de reorganização, de reconstrução diante da morte. A perda de um filho faz os pais “perderem o chão” e o equilíbrio familiar. Esse processo de recuperação, de dar continuidade à vida com uma pessoa a menos, envolve um reajuste nas relações, para amortecer o stress e a dor causados pela perda e assim, poder seguir com a vida familiar. Porém, segundo Worden (1991, apud MELO, 2004, p. 10), “O processo de luto termina quando o enlutado deixar de ter uma necessidade de reativar a representação do falecido com uma intensidade exagerada no quotidiano.”

Nesse processo de dar sequência na vida, sem a presença do filho, é fundamental que os pais se dispõem em aceitar e aprender com cada um dos momentos desse processo de elaboração do luto, “Etapas estas, que estão interconectadas, não de forma linear, mas em um contínuo espiral. Para cada aceitação alcançada, uma nova negação se segue.” (CATERINA, 2007, p. 28). A própria família, com o tempo percebe que seu modo de lidar com a situação é voltado em etapas, que cada período vivido se refere a mais uma etapa, conforme visto na seguinte fala: “[...] mais uma etapa e eu passei. Porque eu penso assim, a gente passo agora nesses 6 meses, é tudo por etapa, cada dia tu vai passando uma, cada mês tu passa uma etapa e tu vai, vai passando pra outra [...]” (P2).

Para auxiliar a lidar com essas etapas vivenciadas, fazer terapia além de ajudar as famílias a criarem subsídios que facilitem a superar e lidar com a perda contribui muito para um melhor apoio emocional e suporte. O processo do luto, não é para conseguir vencer a ausência do filho, mas sim, poder superar a morte, bem como não quer se opor à separação, mas ao esquecimento (CATERINA, 2008).

Os pais sentem-se desamparados, perdidos, “sem chão” e precisam de um apoio. Nesse sentido, as intervenções psicológicas contribuem no auxílio da restauração psíquica desses pais, sendo recursos importantes após um evento traumático que gerou muita dor e sofrimento. É comum que após um evento traumático como esse da perda de um filho inesperadamente, a pessoa manifeste estados de choque, perdendo o sentido da vida, do tempo e até mesmo identidade, “[...]porquea gente se perde muito a identidade da gente sabe [...]” (P2).

Visto isso, o objetivo da terapia se faz necessária nesse momento da vida desses pais, pois esta, ajuda no processo de aceitação da perda e elaboração do luto, possibilitando que o mesmo se realize. Ao indagar as mães da pesquisa sobre a visão que  elas  possuem  acerca  de  um  profissional  que  esteja  auxiliando  e  ajudando  na elaboração do luto, afirmam estarem em tratamento terapêutico e ambas responderam achar essencial nessa fase, conforme pode ser visto na seguinte frase: “[...] se você teve uma perda muito grande, primeira coisa acreditar em Deus, segunda coisa, procurar um profissional, um terapeuta na área de... um psicólogo, um psiquiátrica de tua confiança, um profissional na área médica, procure um profissional pra te tratar, pra você coloca suas angústias, suas dores pra fora.” (P2).

Quanto ao processo do luto, não existe resposta definitiva de seu término, sendo que é impossível definir uma data precisa. Conforme destaca Oliveira (2008 apud MARTINS, 2012) na aceitação, a pessoa não sente mais aquele desespero que estava presente no início e nem nega a realidade dos fatos, mas sim, retira-se gradualmente a libido investida no objeto perdido para re-investir em outras relações.

5. Considerações Finais

A realização deste trabalho propôs um grande desafio, isso porque, abordar assuntos referentes à morte, principalmente de um filho, mostra-se como um evento de difícil assimilação aos pais, pois constantemente se pretende negá-la. Com este estudo, foi possível compreender os sentimentos e angústias vivenciados por duas famílias que perderam seus filhos no incêndio da Boate Kiss em Santa Maria/RS no dia 27 de janeiro de 2013. A tragédia comoveu o mundo inteiro, pois promoveu rupturas bruscas na vida das pessoas e gerou diversas perdas.

O tipo de morte desses jovens colocou as pessoas em contato com um mundo de frustrações, despertando sentimentos de raiva, revolta, dor, tristeza, ruptura de sonhos, projetos e sentimentos de um mundo injusto, tornando-as extremamente vulneráveis. Pode-se dizer também que, o tipo de morte foi um agravante importante no processo de elaboração do luto.

Devemos considerar a importância da cultura familiar, crenças, religiosidade, percepções, apoio e os recursos de enfrentamento, relacionados ao evento da morte. Diante da complexidade da tragédia, o apoio advindo da família, amigos e de pessoas do mundo inteiro, tornou-se indispensável para os pais. Outro recurso de enfrentamento presente no discurso dos participantes foi a religiosidade/espiritualidade, a qual exerceu um papel de extrema importância, servindo de conforto para lidar com a perda.

Em suma, lidar com a morte é um fator desconfortável e de muita tristeza, mas é inevitável encará-la.   Diante de qualquer perda significativa, principalmente de um filho, os pais sentem um vazio, ficam desamparados, “sem chão”. É nesse período que se desenvolve um processo essencial e necessário para que esse vazio seja suprido, denominado de luto. O luto consiste em uma reação emocional a uma perda significativa, são etapas pelo qual as pessoas passam para lidar com a perda. É notório através dos relatos, o quanto a terapia tem contribuído para ajudar as famílias na elaboração do luto, fazendo-se necessária neste momento, ajudando no processo de aceitação da perda.

Por fim, a autora desse estudo quer dar voz ao que representou este contato direto com os pais dos jovens que perderam suas vidas na tragédia da Boate Kiss. Estes não hesitaram em recordar suas mais dolorosas lembranças para que aquela experiência de muita dor e sofrimento pudesse servir de estudo. A experiência de ouvir e compartilhar as emoções e vivências através desse trabalho, além de agregar muito conhecimento, pode contribuir para a importância de se elaborar trabalhos psicológicos com os pais que perderam seus filhos de forma inesperada e trágica, com o intuito de ajudá-los a lidar com a perda e reorganizar suas vidas.

Sobre os Autores:

Keity Andrieli Santoro - Acadêmica do oitavo período de Psicologia na Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc) Campus de Pinhalzinho/SC.

Juliano Correa da Silva - Orientador, Psicanalista (CEP de POA), Mestre em Psicologia Clínica (PUCRS), e professor do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC).

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