As Várias Faces da Morte para o Paciente com Diagnóstico de Câncer

Resumo: Este trabalho tem como objetivo através de uma breve análise sobre a frequência e a intensidade do medo da morte em pacientes com câncer trazidos através da literatura, entender os processos de enfrentamento e suas características psicológicas individuais. Buscar conhecimento junto à psico-oncologia no sentido de adquirir maior qualificação e preparo teórico emocional para lidar com a morte e o paciente na eminência da morte, sem com isto neutralizar ou mecanizar meus próprios sentimentos frente a todo este contexto.

Palavras-chave: câncer, medo, morte, psico-oncologia

1. Introdução

Há mais de trinta anos tenho vivenciado situações e experimentado sentimentos diversos diante da eminência e até mesmo da materialização da morte. Com um conhecimento empírico adquirido no transcorrer desta jornada pude estar presente juntamente com familiares ao lado de pacientes à beira da morte onde observamos a fragilidade do ser humano diante daquela que é a coisa mais certa depois do advento do nascimento. Outras vezes estava só com o paciente e nestes momentos procurei dar a mão ao ente humano cuja vida física esvaía-se num fragmento de segundos onde o semblante de dor dava lugar à serenidade do sono profundo.

Nascemos só, e na grande maioria das vezes, morremos só, e isto me faz pensar e buscar na psico-oncologia a oportunidade de trabalhar sob este fio de navalha onde o que temos de garantia é o hoje; o amanhã buscaremos junto com o paciente, seus familiares e a equipe de saúde. Nosso trabalho como psicólogos é auxiliar o paciente a vivenciar a morte entre outros tantos aspectos presentes na vida do paciente oncológico. Este vivenciar a morte refere-se à morte dos sonhos, das expectativas familiares e sociais. Auxiliar o indivíduo na busca da autoanálise através de seus processos cognitivos visando à busca da paz interior e de sua espiritualidade não como religião, mas como ser espiritual que somos.

Apesar dos avanços tecnológicos e do aumento da expectativa de vida a morte para o paciente com diagnóstico de câncer fará parte constante de sua vida, assombrando-o no silêncio de seus sentimentos mais íntimos.

Todos os doentes com câncer, durante toda a evolução da doença, mesmo na fase terminal, recusam, de uma forma mais ou menos nítida, a sua morte sempre na esperança de um medicamento novo, de uma cura milagrosa ou através do recurso a terapias alternativas. Contudo, a vivência da morte varia de cultura para cultura, de família para família e de indivíduo para indivíduo onde a reação da ideia  da aproximação da morte é diferente de um caso para outro.

Somos únicos e por isto dizemos que a morte possui várias faces onde cada um irá manifestar e interpretar de maneira diferente dos demais.

2. Referencial Teórico

A psico-oncologia constitui uma área de interface entre a Psicologia e a Oncologia (Gimenes,1994) que usa conhecimentos teóricos e metodológicos da Psicologia da saúde para promover a assistência integral ao paciente com câncer, incluindo os contextos médico-hospitalar, familiar e social que permeiam o tratamento. 

Segundo Rodrigues (1999), essa forma de reagir é influenciada por diversos fatores, dos quais se destacam: a idade do doente; o sexo; a sua personalidade; os seus valores, crenças e atitudes; o tipo, localização e extensão da doença; as sequelas da doença e dos tratamentos, o estilo de vida do doente; a sua interação social; o ambiente familiar e a posição que o doente ocupa na família; o seu modo de reagir face aos problemas; a sua capacidade de verbalizar o que sente e as experiências anteriores, vividas com pessoas que morreram de câncer.

Segundo Kóvacs; Bromberg, M; Carvalho, V.; é difícil para o paciente encarar a morte iminente prematura quando a família não está preparada para “deixa-lo partir” e, aberta ou veladamente, impede que se desatem os laços que os ligam à terra.

Kubler – Ross (1998), concluiu nos estudos que realizou, que todos os doentes perante a aproximação da morte, apresentam uma trajetória semelhante, ao passarem por cinco estágios psicológicos diferentes:

Recusa ou Negação – é um estádio de choque, em que o doente recusa reconhecer e aceitar a sua situação, o que pode levar ao isolamento.

A negação pode ser um valioso mecanismo de defesa para o doente, devendo ser entendido e respeitado. Se o doente persistir indefinidamente nesta fase, o que constitui uma atitude pouca adaptativa, pode requerer cuidados especiais.

Cólera: é um estágio de revolta, que se verifica quando o doente ultrapassa a fase de negação e começa a enfrentar a morte, interrogando-se: “Por que eu?”.

Nesta fase, o doente pode tornar-se difícil, intolerante e agressivo, fazendo recair a sua ira sobre os que o rodeiam, deslocando e projetando a sua raiva contra a equipe de saúde, contra os familiares e contra Deus. Para que este período seja ultrapassado, o doente deve exteriorizar a sua ira e as suas frustrações.

Negociação: neste estágio o doente tenta estabelecer um pacto, negociar uma transação, com Deus, com os que o rodeiam ou com a equipe de saúde. Tenta conseguir um prolongamento do tempo de vida, uma diminuição da dor ou melhores cuidados.

É uma fase que habitualmente dura pouco tempo e em que o doente aparenta serenidade, pensando na forma de negociar a sua morte a troco de alguma coisa. Se o doente for crente, a ajuda religiosa neste período pode ser muito importante.

Tristeza ou Depressão: neste estágio o doente revela tristeza, mágoa e angústia. Gradualmente ele toma consciência da sua situação e é incapaz de negar sua doença. De início a depressão é reativa. O doente verbaliza as suas manifestações e fala das suas perdas passadas.

Posteriormente, pode seguir-se um período de silêncio, em que o doente se torna mais calmo e a comunicação é, sobretudo, não verbal. Por vezes, ele não deseja mais do que uma presença ou o toque de uma mão. O doente chora as perdas futuras, começando a desprender-se de tudo e de todos (ROSADO,1993).

A depressão é um estágio de duração muito variável, podendo ser moderada e transitória, ou perdurar por um longo período de tempo e algumas vezes não ser mesmo ultrapassável. Por vezes pode ser necessário apoio psiquiátrico. A resolução desta fase leva ao estágio final.

Aceitação: neste estágio o doente passa a aceitar a sua situação. É um período de calma e paz, em que o doente não está nem deprimido nem irritado, desejando ficar sozinho e não se preocupar com os problemas do mundo externo. Nesta fase, ele relembra o passado e contempla o futuro desconhecido.

Este modelo de Kubler – Ross pode ser muito importante, para se compreender a psicologia do doente na fase terminal ou com câncer.

Fazendo uma analogia ao modelo de Kubler Ross que ousei intitular o presente trabalho de: “As várias faces da morte para o paciente com diagnóstico de câncer”.

Trabalhar com a vida é algo motivador, o grande desafio como profissional da psicologia atuando na psico-oncologia, é trabalhar com a “morte”, ou melhor, com a possibilidade de morrer. Nascer é desde logo morrer um pouco e sempre foi a única certeza do Homem (Neves, 2000).    

A respeito do assunto morte, Kubler-Ross (2002, p.18) ressalta que “o homem tem que se defender de vários modos contra o medo crescente da morte e contra a crescente incapacidade de prevê-la, e precaver-se contra ela”.

A morte, assim como o câncer, são vistos como desgraça, como situações de cerceiam a vida de milhares de pessoas.

Muitas vezes as pessoas nem pronunciam a palavra câncer, com medo que “traga mau agouro”. Não só a palavra, mas também a doença possui um estigma de morte. Ao nos depararmos com o diagnóstico de câncer de algum familiar, amigo e até mesmo nós próprios, não nos damos conta dos percentuais de melhora e cura que atualmente são possíveis. Isso é claro quando o câncer é diagnosticado precocemente ou em fases iniciais, quando a pessoa aceita e realiza adequadamente o tratamento, quando recebe apoio da sua família, e quando não perde a esperança de viver.

Na opinião de Baron (1996), é muitas vezes na fase terminal, com a aproximação da morte, que as reconciliações e perdões entre o moribundo e familiares ou amigos que até aqui não foram possíveis pelo que as visitas, caso o doente assim o entenda, devem ser mais frequentes num encontro profundo exigindo disponibilidade, pausa, serenidade e privacidade.  

Assim ao pensar na morte, seja na idéia da própria morte ou de outrem, que possamos permitir que ela nos faça refletir.

Todos desejamos uma morte serena, embora até que ela nos apresente sua face acreditamos ser imortais. Nós crescemos sabendo que existem duas certezas na vida, ou seja, nascer e morrer, ainda assim não estamos preparados para enfrentar a certeza de que a vida é finita.

No caso do câncer, existem vários fatores que vão interferir diretamente em como vamos processar cognitivamente esta nova realidade vivenciada em nós mesmos ou em nossos familiares, principalmente se sua malignidade nos der tempo.

3. O Sem-Sentido Por Excelência: A Morte

Segundo Frankln (2005, p.106):

[...] a transitoriedade da nossa existência de forma alguma lhe tira o sentido. No entanto, ela constitui a nossa responsabilidade, porque tudo depende de nos conscientizarmos das possibilidades essencialmente transitórias. O ser humano está constantemente fazendo uma opção diante da massa de potencialidades presentes; quais delas serão condenadas ao não ser, e quais serão concretizadas? Qual opção se tornará realidade uma vez para sempre, imortal “pegada nas areias do tempo”? A todo e qualquer momento a pessoa precisa decidir, para o bem ou para o mal, qual será o monumento de sua existência. Se Deus, o céu e o inferno para você não existem, se viemos e iremos para o nada, o propósito da sua vida única, a sua sorte de estar vivo num universo tão vasto, de sermos um acidente fantasticamente improvável, dotado de consciência, não seria o fazer o certo, comemorarmos, e deixar isso com as pessoas que permanecerão e que fizeram parte de sua curta vida?

Muitas vezes, fica evidente a morte próxima quando alguém é acometido de uma doença crônica.

Em determinados doentes com câncer, os profissionais de saúde podem estabelecer um prognóstico bastante preciso de vida restante, ou sobrevida, a partir das análises estatísticas ou a experiência de pessoas com processos similares.

Mas prognosticar quanto tempo poderá sobreviver uma pessoa, em particular, é muito complicado. Alguns profissionais de saúde não lidam muito bem com a morte, se defendem preferindo dar esperanças, descrevendo casos de recuperação extraordinárias, sem mencionar a elevada taxa de morte entre os dessa mesma doença. Outros, com o famoso Complexo de Deus descrevem certeza com prazos curtos demais, sem estudar o caso com sua devida profundidade. Apesar disso, tanto os doentes com Câncer, como as suas famílias têm o direito de dispor de informação completa e do prognóstico o mais realista possível, sabendo muitas vezes que o prognóstico tão nefasto é determinado por muitos fatores subjacentes a destacar:

  • Imunidade do paciente
  • Ajuda d família
  • Motivação
  • Intervenção psicológica
  • E o mais importante: Projetos de vida

Facilmente observamos pacientes que se recusam a morrer justamente por ter metas e objetivos, resistindo o quanto podem, por exemplo, a espera de que um filho venha ao leito de morte, um casamento, a formatura da filha, determinada viagem...Os exemplos são inúmeros.

3.1. Durante A Agonia: Da Matéria Que É Feita Nosso Espírito

“Nas palavras de Nietzsche, ‘Aquele que tem um porquê de viver pode lidar com quase qualquer provação que se lhe’” (FRANKl, 2005,p.72).

Ás vezes é difícil compreender a vida. Não existem padrões, as regras mudam. Diante disso, o otimismo ajuda. A única regra é que tudo muda na nossa vida, não existe nada eterno. Temos altos e baixos. Porém existe nosso livre arbítrio na maneira de encarar o nosso sofrimento e doença. Podemos encarar a agonia como pobres coitados, sofredores e merecedores de pena ou como pessoas honradas que mostram a outros doentes, na mesma situação, de como lutar e resistir. A escolha, a decisão é sua. Nem Deus tira este poder de você.

O conjunto de uma deterioração geral prolongada chama-se agonia. Comumente, durante o mês anterior à morte diminuem, de forma substancial, a atividade, o bem-estar e a energia. É como se fosse uma vela que vai se apagando, aos pouco, marcado com períodos cada vez maiores de sono e quietude. Às vezes se dá de modo súbito, podendo durar só algumas horas.

É de extrema importância que tanto o doente como sua família saibam os últimos momentos do doente para que tomem as decisões oportunas (testamentos, perdões, últimos desejos...). Talvez você pense que nesse momento sua vida, diante da inevitável morte, não tenha mais sentido. Mas talvez possa ser em descobrir uma maneira de vencer a depressão e fazer a grande viagem em paz.

3.2. Morte Digna

Weisman e Hackett (Cassem, 2001) listam as próprias diretrizes para ajudar um paciente a enfrentar a morte de forma digna:

  • Estar relativamente livre de dor;
  • Ter suas funções corporais funcionando o melhor possível, dentro dos limites de sua possibilidade;
  • Reconhecer e resolver os conflitos interpessoais passíveis de serem manejados;
  • Realizar os desejos restantes que sejam compatíveis com seu ideal de ego;
  • Passar o controle das coisas práticas para outros em que tenha confiança.

4. Considerações Finais

Este estudo-bibliográfico insere-se no estudo da Psico-oncologia onde nós pudemos através dos referenciais citados, entender um pouco da complexidade da morte e do morrer. Vimos que, embora de uma maneira empírica, não estávamos distantes da forma de abordar e auxiliar um paciente em seu processo final de existência. Vida, sofrimento e morte são e serão as eternas questões humanas a quais sempre estaremos em busca de soluções. O pacto de silêncio existente entre família e equipe de saúde quando presentes trazem sempre como consequência à morte social do paciente e consequentemente sua morte existencial.

Observamos também que nossa sociedade e os profissionais de saúde ainda têm dificuldades para lidar com a morte.

 O assunto morte é muito abrangente por isso não podemos dar como encerrado, mas sim, como o início da construção de uma caminhada longa de vivências e aprendizados múltiplos onde a resiliência tornar-se-á não só algo subjetivo, mas algo incorporado em nosso sistema físico, psíquico e espiritual para que realmente tenhamos capacidade de auxiliar nossos pacientes em seu momento derradeiro.

Assim é possível afirmar que “é o pensar na nossa própria morte que as coisas adquirem seu verdadeiro valor. É nesse momento que se exprime nosso verdadeiro ser”.

Sobre o Autor:

Geraldo Valpir Bulgos de Andrade - Acadêmico do Curso de Psicologia FISMA/Santa Maria (Brasil) Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Sobre o Artigo:

Artigo orientado por: Ms. Fernanda Gabriela Soares dos Santos - Professora do Curso de Psicologia FISMA/Santa Maria

Referências:

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FELIN, Carlos R. O medo da morte em pacientes com diagnóstico de câncer. Santa Maria, RS, 2004.

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