Reabilitação Neurológica: Enquadramento Histórico, Abordagens Metodológicas e Técnicas de Reabilitação Neuropsicológica

Resumo: Cada vez mais se dá mais importância à reabilitação neuropsicológica e às possíveis intervenções provenientes desta. Desta forma, com este trabalho proponho o enquadramento histórico do conceito reabilitação neuropsicológica e das suas diferentes abordagens. Cosenza, Fuentes e Diniz (2008) escrevem que Alcmão de Crotona, já em 500 a.C, defendia que havia uma relação importante entre o cérebro e os processos mentais. Como em todas as ciências e disciplinas existem sempre divergências teóricas e práticas que levam o individuo a querer descobrir, através de investigação científica, sempre mais. 

Palavras-chave: reabilitação neuropsicológica, intervenções, enquadramento histórico, cérebro, processos mentais, investigação

1. Introdução

A neuropsicologia é uma área relativamente recente e cheia de novidades a cada dia que passa. Desse modo, surgiu o interesse por esta área e por consequência pela reabilitação neuropsicológica. Estes avanços e descobertas relativamente aos dois conceitos devem-se às mudanças socioculturais e aos avanços tecnológicos, como, por exemplo, acidentes automobilísticos, acidentes derivados de desportos radicais, vítimas de violência, entre outros, pois estes levaram a um aumento no número de vítimas com lesões cerebrais (ABRISQUETA-GOMEZ, 2006). Deste modo, a importância da reabilitação neuropsicológica é uma das possíveis intervenções após diagnóstico de déficits cognitivos que surgem de quadros neurológicos e/ou psiquiátricos. Esta utiliza procedimentos e técnicas que tem como objetivo melhorar a qualidade funcional do individuo lesado, no seu quotidiano.

Assim, pretende-se fazer uma revisão geral e refletir acerca de aspectos de enquadramento histórico, pressupostos teóricos e abordagens metodológicas usadas no decorrer da reabilitação neuropsicológica.

2. Enquadramento Histórico da Reabilitação Neuropsicológica

Não pode-se abordar a história da reabilitação neuropsicológica sem antes fazer uma breve referência à história da neuropsicologia. Desde a Antiguidade que o homem procurou compreender a relação existente entre o cérebro, cognição e comportamento. Desta forma, é possível simplificar a história da neuropsicologia dividindo-a em três grandes periodos: hipótese cardíaca versus hipótese cerebral, localizacionismo versus holismo e funcionalismo versus cognitivismo. Esta divisão não se fundamenta nos períodos históricos clássicos, mas configura-se em volta de temas predominantes. Cada período do desenvolvimento da história da neuropsicologia é marcado por determinadas controvérsias a respeito do entendimento da época sobre as relações entre cérebro e comportamento (KRISTENSEN, ALMEIDA, e GOMES, 2001).

2.1 Hipótese cardíaca versus hipótese cerebral

A descoberta de crânios pré-históricos do Antigo Egito (1.600 a. C.) revela que nesta altura já eram utilizados conhecimentos e procedimentos médicos que utilizavam até mesmo a trepanação. A trepanação eram cirurgias realizadas através de perfurações no crânio.  Edwin Smith descreveu em papiros a dificuldade de linguagem em pacientes com traumatismos cranianos e outras patologias do encefalo. Nestes papiros Edwin Smith descreveu quarenta e oito individuos com lesões traumáticas após a sua análise detalhada e, deste modo, registam as primeiras tentativas de procurar a localização cortical das funções mentais mediante a descrição das lesões cerebrais (FEINBERG e FARAH, 1997).

Os povos da antiguidade defendiam que toda a expressão mental do individuo estava localizada no coração. Platão (428-348 a. C.) descreveu com detalhe relações entre o corpo (definindo-o como matéria mutável) e a alma humana (definindo-a como imaterial, eterna, inalterável). Aristóteles (384-322 a.C), aluno de Platão, dividiu a atividade mental e defendeu que a sua localização era no coração. Esta hipótese enfrentou uma grande resistência dos defensores da hipótese cerebral. O principio da hipótese cerebral propos que o cerebro seria a sede da mente e que este seria responsavel pela localização de cada tipo de sensação. Um dos grandes defensores da hipotese cerebral foi Hipocrates (460-377 a.C), este afirmava que o cérebro era o órgão responsável pelo pensamento e pelas sensações. Galeno, através de estudos, em animais e cadáveres abandonados, rigorosos, contribuiu para a construção da Teoria Ventricular. Esta teoria tinha como principio defender que a mente estava localizada nos ventriculos cerebrais.  Lentamente a hipótese cerebral predominou a hipótese cardiaca.

No final do seculo XVII, René Descartes (1596-1650) construiu o ideal do dualismo cartesiano. O dualismo cartesiano tinha como principio estabelecer a separação entre a mente e o cérebro. A sede da alma, para Descartes, era a glândula pineal, este era o lugar de encontro entre a mente e o corpo. No final deste periodo a hipotese cerebral já não tinha opositores.

2.2 Localizacionismo versus holismo ou globalismo

É no século XIX que uma grande quantidade de pesquisas e investigações tentaram estabelecer uma ligação entre funções mentais superiores e estruturas cerebrais. Desta forma, geraram-se dois grupos: os localizacionistas e os holistas ou globalistas. Os localizacionistas propunham que diferentes funções intelectuais estavam associadas  à atividade de estruturas neurais especificas. Um dos maiores defensores desta proposta foi Franz Gall (1758-1828), este deu origem ao movimento frenológico que desenvolveu como método a cranioscopia. A frenologia tinha como objetivo descobrir as correspondências existentes entre caraterísticas psicológicas (traços de personalidade, habilitações cognitivas) e as saliências especificas do crânio. Como a pesquisa do movimento frenologico não provou qualquer tipo de ligação entre o crânio e as estruturas cerebrais e como não foi construida uma definição sistemática das carateristicas mentais, a frenologia caiu em total descrédito (GALL e SPURZHEIM, 1809). 

Os holistas ou globalistas propunham que o cérebro participava como um todo no efetuar das diferentes funções mentais. Dois dos principais defensores da visão antilocalizacionista foram Jean Pierre Flourens (1794-1867) e Friedrich Leopold Goltz (1834-1902). Ambos tinham como principal principio que as funções mentais não dependiam de partes singulares do cérebro, mas sim que o cérebro funcionaria como um todo. As investigações efetuadas com animais demonstravam que não existia nenhuma evidência para a localização de estruturas encefálicas associadas a funções mentais especifica (FEINBERG e FARAH, 1997).

Entretanto surgiram as investigações localizacionistas de David Ferrier (1843-1928). Este realizou uma série de estudos com macacos utilizando a estimulação elétrica que lhe demonstrou que determinadas áreas corticais eram capazes de ativar funções sensoriais e motoras localizadas no córtex cerebral (FEINBERG e FARAH, 1997).

A dualidade entre localizacionistas e holistas ainda se acentuou mais com os trabalhos de Paul Broca (1824-1880), através do método anatomoclínico este estabeleceu as primeiras correlações entre lesões cerebrais circunscritas e patologias da linguagem em 1861. Assim a região localizada na terceira circunvolução do giro frontal inferior esquerdo ficou eternamente designada como a área de Broca. Esta área está estritamente relacionada com aspectos motores da linguagem.  Alguns autores defendem que esta descoberta marca o inicio da neuropsicologia. Mais tarde, em 1874, Karl Wernicke realizou estudos relacionados com a compreensão da afasia. Este descreveu casos em que a lesão de uma parte do cérebro, o terço posterior do giro temporal superior esquerdo, determinava a perda da capacidade de compreensão da linguagem, sendo que a linguagem expressiva motora permanecia intacta. Concluiu que essa região cerebral era responsável pela compreensão da linguagem.

Em relação às visões localizacionista e holista, Lev Vygotsky (1896-1934) apresentou uma análise inovadora que defende que as funções das partes e do todo se encontram organizadas em interelações funcionais complexas que variam em conformidade com os diferentes estágios de desenvolvimento humano (VYGOSTKY, 1999). O neuropsicólogo soviético Alexander Luria (1902-1977) desenvolveu as ideias originais de Vygostsky, a partir do estudo do comportamento anormal dos pacientes com lesão cerebral (LURIA, 1981). Luria demonstrou a importância dos simbolos para a linguagem. Afirmou que o cérebro é um sistema altamente diferenciado, cujas partes são responsáveis por aspectos desse todo e a linguagem é um elemento importante nesse processo. A concepção neuropsicológica de Luria afirma que o funcionamento cerebral ocorre com a participação conjunta de três grupos funcionais do cérebro, estes são:

  • O primeiro, grupo de ativação, é responsável pelo tônus cortical ou estado de ativação do córtex cerebral. A formação reticular, tanto a ascendente como a descen- te, é a estrutura mais importante, sobretudo em suas conexões com o córtex frontal.
  • O segundo grupo funcional, o do input, é responsável pela recepção, monitorização e armazenamento da informação. Ocupa as regiões posteriores do córtex cerebral: lobos parietal, temporal e occipital, responsável pelas respectivas zonas táctil, cinestésica, auditiva e visual.
  • O terceiro grupo, chamado de grupo de programação e controlo da atividade, engloba os setores corticais situados no lobo frontal. Este conjunto cumpre as suas funções mediante relações bilaterais, tanto com as regiões posteriores (grupo do input) como com a formação reticular (grupo da ativação). É o grupo responsável pelo planeja- mento, programação, regulação e verificação do comportamento intencional (LURIA, 1981)

Luria estabeleceu dois objetivos para a neuropsicologia: localizar as lesões cerebrais responsáveis pelas perturbações do comportamento para um diagnóstico preciso e explicar o funcionamento das atividades psicológicas superiores relacionadas com as partes do cérebro. Deste modo, podemos concluir que Luria adoptou uma opinião intermediária em relação ao debate estrutura versus função.

2.3 Funcionalismo versus cognitivismo

O século XX é marcado pela consolidação da Neuropsicologia como especialidade do conhecimento. A neuropsicologia cresceu muito a partir do final da primeira metade do século XX, conseguindo uma posição diferente da neurologia, da psicologia e da psiquiatria. O seu desenvolvimento foi significativo durante os períodos da I e da II Guerra Mundiais, precisamente devido à necessidade de reabilitar soldados com traumatismos crânio-encefálicos. Neste período, foram elaborados programas de reabilitação destinados pela primeira vez às sequelas cognitivas. Foi também nesta altura que foram passados os primeiros teste neuropsicológicos. A era moderna da reabilitação de pessoas com lesão cerebral começou, provavelmente, na Alemanha, durante a Primeira Guerra Mundial, como resultado da sobrevivência de militares com traumatismo craniano. A reabilitação cognitiva progrediu durante a Segunda Guerra Mundial (WILSON, 2003).

Luria teve também um papael importantissimo neste periodo de desenvolvimento da reabilitação neuropsicologica, pois foi o responsável pela organização de um hospital para soldados com lesões cerebrais (NOMURA et al., 2000).

A neuropsicologia atual estuda os temas clássicos da psicologia  atenção, aprendizagem, percepção e memória  utilizando métodos da psicologia experimental e do campo da psicometria para a construção dos testes. As técnicas avançadas de investigação cerebral (eletro encefalograma, tomografia informatizada, ressonância magnética funcional) superaram a importância da avaliação neuropsicológica na localização das funções mentais. A controvérsia entre localizacionismo e holismo foi substituída pela discussão em torno de uma nova controvérsia: funcionalismo versus cognitivismo. Esta controvérsia é essencial em relação à avaliação neuropsicológica e à construção dos testes psicológicos (HEBBEN e MILBERG, 2002).

As técnicas tradicionais de avaliação neuropsicológica adveêm da tradição funcionalista que considera que a predição do desempenho do indivíduo é o objetivo primário da avaliação e o construto psicológico é secundário. A bateria Halstead-Reitan é um bom exemplo desta abordagem (STRAUSS, SHERMAN e SPREEN, 2006). Por outro lado, os testes construídos na tradição cognitivista enfatizam principalmente o construto psicológico e a predição clínica como alvo se- cundário da avaliação. O California Verbal Learning Test foi criado, no inicio, com referência às teorias da memória para investigar as alterações decorrentes de lesões cerebrais. (STRAUSS, SHERMAN e SPREEN 2006). De forma mais simplificada, a controvérsia atual está relacionada a questões metodológicas e interpretativas resultantes dos processos de avaliação neuropsicológica (HEBBEN e MILBERG, 2002).

3. Abordagens Metodológicas e Técnicas de Reabilitação Neuropsicológica

Wilson (2003) define reabilitação neuropsicologica como o conjunto de intervenções que tem como objetivo proporcionar ao individuo, vitima de lesão encefálica ou com alguma perturbação psiquiátrica, a melhoria dos seus processos cogniivos, emocionais e sociais para que este possa alcançar uma maior independência e qualidade de vida. Deste modo torn-se cada vez mais importante investigar acerca da reabilitação neuropsicológica. Segundo a Organização Mundial de Saúde (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2000) a maior causa de deficiência no mundo está ligada a doenças do foro do funcionamento cerebral. Quando falamos em reabilitação psicológica temos que evidênciar dois conceitos que são fundamentais: plasticidade cerebral e principio da transferência.

a) Plasticidade cerebral

A plasticidade cerebral é a capacidade que o cérebro tem em se remodelar em função das experiências do sujeito, reformulando as suas conexões em função das necessidades e dos factores do meio ambiente. A reabilitação psicológica é possível devido ao fenômeno da plasticidade cerebral. Na década de 1970 com o aumento de estudos de neuroimagem começou-se a compreender melhor o conceito de plasticidade cerebral, quer em encéfalos com desenvolvimento dito normal quer em encéfalos com quadros neuropatológicos. Admitia-se que o tecido cerebral não tinha capacidade regenerativa e que o cérebro era definido geneticamente, ou seja, possuía um programa genético fixo. No entanto, não era possível explicar o facto de pacientes com lesões severas obterem, com técnicas de terapia, a recuperação de diversas funções.

Porém, o aumento do conhecimento, através de neuroimagens,  sobre o cérebro mostrou que este é muito mais maleável do que até então se imaginava, modificando-se sob o efeito da experiência, das percepções, das ações e dos comportamentos. Deste modo, podemos referir que a relação que o ser humano estabelece com o meio produz grandes modificações no seu cérebro, permitindo uma constante adaptação e aprendizagem ao longo de toda a vida. Assim, o processo da plasticidade cerebral torna o ser humano mais eficaz (MEINZER et al, 2008).

A plasticidade cerebral explica o facto de certas regiões do cérebro poderem substituir as funções afectadas por lesões cerebrais. Como tal, uma função perdida devido a uma lesão cerebral pode ser recuperada por uma área vizinha da zona lesionada. Contudo, a recuperação de certas funções depende de alguns factores, como a idade do indivíduo, a área da lesão, o tempo de exposição aos danos, a natureza da lesão, a quantidade de tecidos afectados, os mecanismos de reorganização cerebral envolvidos, assim como, outros factores ambientais e psicossociais.

Porém, a plasticidade cerebral não é apenas relevante em caso de lesões cerebrais, uma vez que ela está continuamente activa, modificando o cérebro a cada momento. Os mecanismos através dos quais ocorrem os fenómenos de plasticidade cerebral podem incluir modificações neuroquímicas, sinápticas, do receptor neuronal, da membrana e ainda modificações de outras estruturas neuronais (MATEER e KEMS, 2000).

Segundo Vance et al existe a neuroplasticidade positiva e a negativa. A neuroplasticidade positiva ocorre quando as mudanças morfológicas e funcionais cerebrais aumentam a reserva cognitiva. Ao contrário, a neuroplasticidade negativa dá-se quando tais mudanças cerebrais adaptativas causam diminuição da reserva cognitiva.

Por reserva cognitiva entende-se o conjunto de recursos de processos cognitivos e redes neurais subjacentes ao desempenho em tarefas que possibilitem ao indivíduo, após uma lesão cerebral, melhor se adaptar às consequências e possíveis limitações decorrentes do trauma neurológico (STERN, 2009). Inúmeros fatores contribuem para a reserva cognitiva, tais como alta e qualificada escolaridade, alta frequência de hábitos de leitura e escrita, sistemática e prolongada realização de atividades físicas, entre outros. Em relação aos conceitos de neuroplasticidade e reserva cognitiva, encontra-se o fenómeno de transferência.

b) Princípio da transferência

Segundo Dahlin et al (2009) o efeito de transferência ou princípio da transferência é um dos principais objetivos nas intervenções cognitivas. Por princípio da transferência entende-se que quando um domínio cognitivo, tarefa ou habilitação não treinada durante a reabilitação com o paciente melhora como o resultado da reabilitação noutro domínio, tarefa ou habilidade. Dois dos principais fenómenos de transferência que são mencionados por estes autores são:

  • No domínio cognitivo: com desempenho calculado por tarefas ou testes, em que a transferência é caracterizada pela melhora secundária, não prevista, no desempenho em provas construtivas após a realização de treino da memória de trabalho, por exemplo.
  • De comportamentos funcionais: em que em medidas de cognição funcional, por escalas, inventários ou questionários sobre comportamentos bem-sucedidos, como, por exemplo, o voltar ao trabalho e a reintegração social, treinos formais geram efeitos onde se nota a melhoria substancial de tarefas do quotidiano que não foram treinadas de forma específica (SOHLBERG e MATEE, 2001).

4. Proposta de Classificação Multidimensional em Reabilitação Neuropsicológica

Nesta fase deste trabalho pretende-se apresentar as diferentes perspectivas existentes nas abordagens e técnicas utilizadas na reabilitação neuropsicológica:

  1. Tipos de reabilitação quanto à abordagem teórica neurológica de base;
  2. Número de indivíduos tratados;
  3. Origem;
  4. Objetivo;
  5. Ponto de partida da reabilitação.

4.1 Tipos de reabilitação quanto à abordagem teórica neurológica

Grafman (2000) defende a existência de quatro formas de reorganização funcional: a adaptação da área homóloga, a redesignação entre funções, expansão do mapa cortical e compensação disfarçada.

A adaptação da área homóloga diz respeito ao procedimento em que determinada região do cérebro é lesionada, a mesma região do hemisfério oposto adapta-se para assumir a função prejudicada. Por vezes, a região lesionada pode impedir que o outro hemisfério assuma as  funções prejudicadas. A redesignação entre funções acontece quando o individuo é privado de input sensorial e outras habilidades do mesmo indivíduo acabam por se desenvolver. A expansão do mapa cortical refere-se ao facto do tamanho do mapa cortical (área responsável por determinada função) poder variar de acordo com a estimulação a que é submetido. A compensação disfarçada ocorre quando uma nova estratégia de reabilitação é utilizada para desempenhar uma função que está prejudicada sem a compensar. Esta apenas pode ser confirmada por meio de avaliação cognitiva detalhada.

A abordagem teórica neurológica fala-nos também de outros três conceitos: compensação, adaptação e reaprendizagem.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, em 1980, a abordagem compensatória procura tratar ou diminuir as sequelas provocadas pela lesão cerebral. Assim o esforço do paciente diante do prejuízo cognitivo causado pelos sistemas neuronais lesionados irá diminuir.  (WILSON, 2009).

O uso de estratégias compensatórias torna-se uma técnica muito utilizada na reabilitação neuropsicológica, principalmente quando o foco são déficits mnemónicos, de atenção e de execução, pois esta abordagem tem a vantagem de ser adaptável às necessidades de cada paciente. Por vezes esta perspectiva nem sempre é fácil de executar devido a modificações ambientais e, além disso, o auxilio por parte de familiares e amigos é indispensável para a melhor adesão e adaptação do paciente.

A perspectiva da adaptação tem como objetivo a reinserção social e quando possível a normalização do dia-a-dia do indivíduo com lesão. Desta forma, é promovida a adaptação do individuo simplificando aspectos e tarefas do seu quotidiano. A abordagem da reaprendizagem dá a possibilidade de reaprender novas informações ou reconsolidar informações antigas. 

4.2 Tipos de reabilitação quanto ao número de indivíduos

O processo de reabilitação pode ser conduzido com um único paciente, em grupos com poucos indivíduos ou com muitos pacientes. A reabilitação individual tem como característica principal ser personalizada, pois é focada nos objetivos estabelecidos entre o paciente e a sua família com o terapeuta. Existem metas claras de resultados o que favorece a adesão e a percepção do efeito do tratamento. Na reabilitação individual o plano terapêutico é mais flexibilizado de acordo com as preferências do paciente. Este tipo de reabilitação tem como aspectos negativos o isolamento social e a falta de actividades o que pode contribuir para a dificuldade de percepção dos défices pelo paciente e para a origem de quadros depressivos.

Na reabilitação neurológica em pequenos e grandes grupos, a literatura atual defende a existência de três grupos. O primeiro grupo é o grupo de psicoeducação. Neste grupo os pacientes participantes recebem informações relacionadas com as patologias, dificuldades cognitivas, emocionais e comportamentais relacionadas com o quadro patológico em tratamento. O segundo grupo é o de treino cognitivo, ou seja, este está focado nas tarefas de estimulação cognitiva estabelecidas pelo plano terapêutico. Por fim, o terceiro grupo tem como objetivo a resolução de problemas em que há a elaboração de um plano de estratégias que tem como base a troca de experiências entre pacientes. Ambos os tipos de grupos podem ocorrer ao mesmo tempo desde que exista organização, tempo e estrutura para tal.

Para o decorrer positivo dos grupos, sejam eles quais forem, têm de existir regras básicas. Num grupo em que os pacientes são seleccionados para comunicar aspectos emocionais, cognitivos, comportamentais e físicos é necessária uma observação de cada paciente durante o processo de escolha. É necessário analisar, igualmente, o cansaço dos participantes e se estes têm lesões com gravidade ao nível da fala para que estes não se sintam deslocados do grupo. Num grupo em que existem muitos participantes sugere-se sempre a existência de mais um terapeuta para atuar como facilitador de algumas situações, como por exemplo a dificuldade em realizar alguma tarefa proposta para o grupo efectuar. Outro cuidado fundamental a ter com os participantes no grupo é não causar desconforto nem afetar a auto-estima dos intervenientes.

4.3 Tipos de reabilitação quanto à origem da intervenção

Quando se fala na origem da intervenção existem, pelo menos, quatro abordagens: a abordagem holística, a abordagem não holística, a abordagem uni ou multimodal e a abordagem top-down. A abordagem holística procura trabalhar os aspectos cognitivos prejudicados pela lesão cerebral e os aspectos emocionais e psicossociais que advêm da ocorrência do quadro neurológico.

Prigatano (1999) é um dos principais defensores desta abordagem e propôs fundamentos que orientam a reabilitação neuropsicológica, são eles: o terapeuta precisa conhecer a experiência subjectiva do paciente em relação à sua patologia; os sintomas do indivíduo activo na reabilitação são uma mistura de características cognitivas e personalidade pré-mórbidas; a reabilitação deve permitir ao sujeito atenuar as dificuldades cognitivas em situações interpessoais; o terapeuta deve educar o paciente acerca da sua patologia; a participação do indivíduo com lesão produz reacções emocionais nos familiares e na equipe de terapeutas intervenientes na reabilitação e, por fim, cada programa de reabilitação deve ser dinâmico. A principal desvantagem desta abordagem é ser um tratamento mais dispendioso que as intervenções não holísticas.

A intervenção não holística está direccionada para a recuperação das aptidões cognitivas em déficts deixando de parte aspectos emocionais. Esta abordagem utiliza o treino de aspectos cognitivos específicos e está direccionada para a psicoeducação. Ambas podem ser utilizadas ao mesmo tempo, pois a psicoeducação permite diminuir a ansiedade tanto do paciente como dos familiares. Um dos principais aspectos negativos da abordagem não holística é não abordar directamente os aspectos emocionais do paciente passado o quadro neurológico.

Na abordagem uni ou multimodal o tratamento pode ser direccionado para focar apenas um aspecto cognitivo (por exemplo a atenção) ou pode procurar intervir em diversos aspectos cognitivos no mesmo programa de treino.

Por fim a abordagem top-down dá mais importância à regularização do desempenho deficitário que afeta o quotidiano do paciente, enquanto a abordagem bottom-up está direccionada para atenuar os déficts do paciente.

4.5 Reabilitação quanto ao objetivo da intervenção

Independentemente do tipo de abordagem, qualquer uma delas tem metas a curto, médio e longo prazo, deste modo é necessário estabelecer objetivos para uma melhor orientação do tratamento.

McMillan e Sparkes (1999) propõem quatro princípios para o alcance dos objetivos do plano de reabilitação. O primeiro refere-se ao paciente, pois este deve ser a referência na definição dos seus objetivos. Em segundo, as metas propostas devem ser razoáveis e centradas nas características do paciente. Em terceiro sempre que um indivíduo alcançar um objetivo e este lhe for comunicado deve analisar-se o comportamento do indivíduo face a esse acontecimento. Por fim deve existir coerência no método a ser utilizado para alcançar os objetivose as metas devem ser específicas e ter um prazo definido.

O acrónimo SMART (do inglês specific, measurable, achievable, realistic e timely) sintetiza a proposta de que os objetivos sejam específicos, mensuráveis, realizáveis, realistas e exequíveis dentro de um tempo estimado para cada paciente. Sugere-se realizar reavaliações periódicas dessas metas (WILSON, 2009).

4.6 Tipos de reabilitação quanto ao ponto de partida

Existem duas abordagens principais referentes ao ponto de partida funcional na relação entre os elementos cognitivos preservados e deficitários após o quadro neurológico ou psiquiátrico. A abordagem baseada no ponto de partida de competências não afectadas pela lesão cerebral tem como pressuposto que a intervenção pode partir das aptidões cognitivas remanescentes em estado funcional semelhante ao período pré-mórbido, estimulando e procurando expandir aquelas funções cognitivas mais prejudicadas, partindo de possibilidades que o paciente já tem para desenvolver aquelas que são alvo da reabilitação.

Por outro lado, há a abordagem baseada no tratamento directo das funções prejudicadas ou deficitárias por causa do quadro de base. Estas são representadas principalmente pelos treinos cognitivos directos uni ou multimodais, tais como de atenção e funções executivas, memória e linguagem (ROHLING et al, 2009). Assim, o processo terapêutico pode ser iniciado pelas dificuldades neuropsicológicas que o paciente apresenta, desafiando-o, directamente, nas aptidões que estão prejudicadas. Na medida em que estas duas abordagens não são excludentes, são frequentemente associadas. É no começo do tratamento que se utiliza a primeira abordagem, para estimular a motivação do paciente e gerar menos frustração. Na segunda fase, parte-se para técnicas da segunda abordagem, estimulando os componentes mais afectados a partir do nível de complexidade imediatamente inferior aquele em que o paciente apresentou prejuízo (erros e/ou lentidão processual).

5. Conclusão

Por todos os aspectos que foram referidos neste trabalho, pode-se verificar que o processo de reabilitação neurospicológica é muito complexo, ainda um pouco subjetivo e ainda está dependente de muitos fatores do indivíduo, da equipe multidisciplinar e das condições ambientais e psicossociais. Segundo Wilson (1997) é praticamente impossível reabilitar completamente um indivíduo com déficits cognitivos. As limitações fisicas, cognitivas e emocionais causadas pela lesão cerebral podem não facilitar a volta do paciente ao seu quotidiano. Deste modo é necessário investir, cada vez mais, em métodos de reabilitação das funções executivas e de comunicação além das estratégias já utilizadas pelos terapeutas.

Quando o terapeuta escolhe a técnica de intervenção que melhor se adequa ao paciente este deve ter como principal meta o reestabelecimento máximo da independência do indivíduo no seu quotidiano. Esse trabalho visou identificar técnicas de intervenção consoante e determinadas características que abrangem a componente cognitiva e os diversos prejuízos funcionais do paciente. Estas técnicas podem ser combinadas com o apoio familiar, com um plano de sessões organizado e que entre si vão aumentando os seus benefícios na recuperação do paciente.

Aliada às pesquisas de plasticidade cerebral e neuroimagem, a reabilitação neuropsicológica tem demonstrado resultados significativos para a melhora de componentes cognitivos deficitários, contribuindo para a melhor qualidade de vida dos pacientes e dos seus familiares. As pesquisas sobre reabilitação de déficits cognitivos rumam a uma fase de maturidade metodológica, procurando mais consistência nas investigações comportamentais, em associação, também, com a descoberta de técnicas avançadas de neuroimagem. Resta, ainda, como grande desafio, encontrar formas de controlar as inúmeras variáveis individuais e ambientais na condução de estudos de reabilitação neuropsicológica em grupos, destacando-se o fator desistência ao longo do processo.

Sobre o Autor:

Cátia Marisa Pereira Rodrigues - Licenciada em Psicologia pelo Instituto Superior Miguel Torga, Portugal. Pós-Graduada em Intervenção Neuropsicológica. Mestranda em Terapias Cognitivo-Comportamentais.

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