A Influência do Padrão Estético na Autoimagem Corporal de Adolescentes do Gênero Feminino

Resumo: O presente estudo tem por objetivo caracterizar os aspectos socioculturais da estética e a satisfação corporal presentes na concepção da imagem corporal de 19 adolescentes do gênero feminino de uma escola do Extremo Oeste de Santa Catarina. Um estudo de campo de natureza quantitativa – qualitativa, caracterizada como descritiva e exploratória. Investiga como e até que ponto o padrão estético influencia na autoimagem corporal das jovens fazendo uso de dois instrumentos: Body Shape Questionnarie (BSQ) e o Desenho da Figura Humana (DFH). A análise e interpretação sucederam pelo software Sphinx e nos trabalhos de Van Kolck (1981) e Hutz e Bandeira (2000). Com a pesquisa verificou-se que há correlação positiva estatisticamente significativa entre preocupação com o corpo e influências externas (mídia, cultura, etc.), e que estas distorcem a autoimagem corporal.

Palavras-chave: Estética. Autoimagem corporal. Adolescentes.

Introdução

Diante da grande preocupação com a estética corporal demonstrada pelas mulheres jovens na sociedade atual, o presente estudo teve como objetivo conhecer e analisar as suas representações sociais de corpo. A partir do estudo é possível perceber como é profunda a relação entre imagem corporal, corpo, identidade corporal, cultura, estímulos e a contextualização de tudo isso no tempo e no espaço. Fica evidente,  também, que a imagem corporal é vivência humana, individual e dinâmica.

Numa sociedade onde a cultura influencia e muito no que titulam de corpo perfeito, tanto homens quanto, e principalmente, mulheres estão sujeitos a preocupação quanto às questões estéticas do corpo – forma, tamanho, aparência da pele, aparência e quantidade de cabelo, tônus muscular. As pessoas passam a ser escravos da beleza e não há mais espaço para aqueles que não se enquadram em tais exigências. Surge um conflito entre natureza e cultura, que não se dá apenas em termos individuais, como um trabalho psicológico solitário. A busca pela identidade pessoal é a encarnação de todo um complexo sistema de relações sociais presentes antes mesmo da existência do sujeito no mundo.

O interesse pela pesquisa vem do propósito de estudar a imagem corporal, suas implicações e a maneira com que as mulheres se posicionam em relação aos padrões de beleza atual e sua própria aparência.

Referencial Teórico

O modelo de beleza vem mudando, com uma diminuição significativa do manequim considerado ideal (LE BRETON, 2007). Esse conflito entre o corpo real e ideal, imposto pela mídia, estimula a busca de soluções, pelas mulheres, como dietas e cirurgias plásticas, muitas vezes prejudiciais à saúde física e mental. Como descreve Tavares (2003, p. 17), “somos pressionados em numerosas circunstâncias a concretizar em nosso corpo, o corpo ideal de nossa cultura.”

Nossa ação no mundo se reflete em nós pelas consequências de nosso ato de agir que provoca em nós novas percepções e também pelas transformações que provocamos no mundo, fazendo-o diferente para nós, ampliando-o assim como fonte de novos estímulos. [...] O mundo externo que percebemos é sempre um mundo nosso, particular. Nosso corpo contém um “mundo externo particular” [...]. O mundo é tão complexo quanto nós mesmos (TAVARES, 2003, p. 23).

A sociedade modela o corpo através das relações sociais e culturais, controlando seus usos e comportamentos. Assim, a imagem corporal é um conceito multidimensional, que revela a percepção do sujeito relativa a seu corpo influenciada por constructos sociais como as representações comportamentais da personalidade e os estados emocionais. 

De acordo com Amaral et al. (2007), a imagem do corpo apresenta definição semelhante ao autoconceito, que representa a percepção que o indivíduo tem de si próprio e, em termos especiais, as atitudes, os sentimentos e o autoconhecimento acerca das suas capacidades, competências, aparência física e aceitabilidade social. Pode-se considerar que a imagem corporal é uma dimensão do autoconceito, podendo ser influenciada por fatores fisiológicos, sociológicos, emocionais e libidinais, como coloca Schilder (1999).

Conforme Tavares, a insatisfação com a imagem corporal tem relação com aspectos da atratividade física e ideais culturais do corpo, e comportamentos relacionados a essa insatisfação podem ter efeitos devastadores na saúde física e psicológica da pessoa.

A população adolescente está mais vulnerável a adotar comportamentos extremos que a população adulta. Isso por que, o processo de adolescência visa prioritariamente a conquista de si mesmo e de sua identidade. Para tal, torna-se necessária a integração entre experiências passadas e presentes, em especial aquelas de grande impacto emocional e/ou social. É momento de definir-se como uma presença no mundo, sendo o desafio alcançar autonomia, ser e pertencer socialmente (TELES, 2001).

O adolescente se olha no espelho e se acha diferente. Por não ser mais criança, nem adulto reconhecido, seu o espelho se torna frequentemente vazio, tentador e perigoso ao mesmo tempo, mostrando não mais sua imagem e sim a imagem que sempre deve muito ao olhar dos outros. Ou seja, ele passa a ver/perceber o que imagina que outros estão vendo. A insegurança passa assim, a andar lado a lado a adolescência.

De acordo com Durif (1990) apud Daniel (2007), a imagem que as revistas oferecem para os leitores a respeito de seus próprios corpos, investe neste jogo de espelhos produzido entre o corpo e o olhar do outro, operando na construção da autoestima e da autoimagem, sendo: “tanto um eixo de construção como lugar de contradições inibidoras devido ao poder de coação voltado para suas dimensões mentais, afetivas e sociais” (p 46).

A distorção da imagem corporal compreende a percepção do próprio corpo como mais pesado ou maior do que ele realmente é. Nesse sentido, a imagem corporal é uma percepção que integra os níveis físico, emocional e mental. Segundo Schilder (1999), a imagem corporal implica uma ‘apercepção’ do corpo.

A imagem corporal possui um eixo pulsional que sustenta de modo essencial a individualidade e é o ponto de partida para o desenvolvimento da identidade da pessoa (TAVARES, 2003). Tavares (2003) acrescenta que a imagem corporal reflete a história de uma vida, o percurso de um corpo, cujas percepções integram sua unidade e marcam sua existência no mundo a cada instante. Mendonça e Meireles (2010) realçam ser esta a “era da visibilidade”, na qual a forma e a imagem são os valores sociais mais importantes.

De acordo com Adams (1977) apud Daniel (2007), percebe-se que o mundo social claramente discrimina os indivíduos não atraentes, numa série de situações cotidianas importantes. Pessoas julgadas pelos padrões vigentes como atraentes parecem receber mais suporte e encorajamento no desenvolvimento de repertórios cognitivos socialmente seguros e competentes, assim, indivíduos tidos como não atraentes, estão mais sujeitos a encontrar ambientes sociais que variam do não responsivo ao rejeitador e que desencorajam o desenvolvimento de habilidades sociais e de um autoconceito favorável.

É a identidade pessoal que dá ao indivíduo o sentido de pertencer a si próprio, ter um domínio sobre suas escolhas, uma ideia do caminho que deve seguir diante de suas decisões e escolhas, acrescenta Strapasson (2009). No entanto, essa mesma identidade exige uma identificação psicológica do próprio sexo biológico, homem/mulher.

A imagem corporal vai se desenvolvendo como um produto da relação do indivíduo consigo mesmo e com os outros. Como acrescenta Van Kolck (1984), a imagem corporal é uma unidade adquirida, é dinâmica, portanto alterações corporais provocam mudanças na imagem corporal, e esse fenômeno é particularmente intenso na adolescência.

Durante a puberdade a cabeça cresce lentamente em relação ao resto do corpo, a testa se torna mais alta e larga, o nariz cresce rapidamente, a boca se alarga, os lábios tornam-se mais cheios e o queixo passa a ser mais pronunciado; desenvolve-se a linha da cintura, ombros e quadris se alargam, os braços e as pernas se alongam e tornam-se mais moldados, em consequência dos depósitos de gordura; além disso, há o desenvolvimento dos seios, o aparecimento dos pêlos púbicos, axilares, faciais e nos membros. Também ocorrem alterações na voz e na cor e textura da pele. Mudanças também acontecem nos órgãos internos, nos sistemas digestivo, circulatório, endócrino e respiratório; os ovários e o útero crescem e amadurecem rapidamente. Acompanhando essas transformações, vem o sangramento menstrual cíclico ou menstruação (HURLOCK, 1979).

Frente a todas essas mudanças, a imagem corporal também precisa ser reformulada. A imagem corporal ou esquema corporal é a representação mental do próprio corpo e/ou o modo como ele é percebido pelo indivíduo. Compreende, segundo acrescenta Schilder (1999), não só o que é percebido pelos sentidos, mas também as idéias e sentimentos referentes ao próprio corpo, em grande parte inconscientes.

Procedimentos Metodológicos

Para a presente pesquisa foi realizado um estudo de campo de natureza quantitativa - qualitativa. O estudo de campo se caracteriza por utilizar muito mais técnicas de observação do que de interrogação, procurando assim, alcançar maior profundidade nas questões propostas (GIL, 2002).

Com base nos objetivos é caracterizada como pesquisa descritiva e exploratória. Conforme destaca Gil (2002), as pesquisas descritivas tem como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno, identificando relações entre variáveis e determinando a natureza desta relação. Logo a pesquisa exploratória proporciona maior familiaridade com o problema, aprimorando idéias ou descobrindo intuições (GIL, 2002).

Neste estudo contemplam-se 19 adolescentes do gênero feminino de 10 a 12 anos de idade, estudantes de uma escola do Oeste Catarinense.

Tabela I: Idade das participantes

Idade

Participantes

10 anos

2

11 anos

15

12 anos

2

Total

19

Considerou-se entre estes anos a idade mais frequente de início da adolescência feminina, tendo-se como referência a idade média da menarca, que trata de um prolongado conjunto de mudanças biológicas e hormonais (LUSTIG DE FERRER, 1991). Por ser um período de mudanças, pode-se dizer que, nesta fase, a percepção do próprio corpo fica naturalmente distorcida, o que passa a ser preocupante quando começa a influenciar comportamentos.

As adolescentes e seus pais foram contatados para um esclarecimento dos objetivos da pesquisa e com a concordância dos pais e interesse das mesmas em participar, foi assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, autorizando a filha a participar do estudo.

A pesquisa é composta por dois instrumentos, que foram aplicados num mesmo dia ao grupo das participantes na respectiva escola que estudam:

  1. Body Shape Questionnarie (BSQ) – utilizado para avaliar/medir o índice de preocupação com a imagem do corpo das participantes (CORDAS e NEVES, 1999). O instrumento consta de 34 itens, com seis opções de respostas: 1- nunca, 2- raramente, 3- às vezes, 4- frequentemente, 5- muito frequente, 6- sempre.
  2. Desenho da Figura Humana (DFH), que consiste basicamente em pedir ao participante que desenhe uma pessoa como quiser, desde que inteira e que não seja um desenho pedagógico (HUTZ e BANDEIRA apud CUNHA, 2000); Van Kolck (1981) tem como hipótese que o indivíduo, ao atender à solicitação de desenhar uma figura humana, projeta no papel a imagem corporal que possui, em grande parte inconsciente para ele. O desenho representa, portanto, a expressão do eu no ambiente. A figura retratada é, frequentemente, uma combinação das experiências, das identificações, projeções e introjeções, que constituem a organização do eu (VAN KOLCK, 1981).

Para análise e interpretação do questionário, foi utilizado o programa estatístico SPHINX. A análise do desenho foi baseada principalmente nos trabalhos de Van Kolck (1981) e de Hutz e Bandeira (2000). Na apresentação dos resultados, no entanto, não é descrita uma análise exaustiva de cada item, tanto do desenho quanto do questionário, mas são destacados os aspectos gerais, estruturais e de conteúdo que se mostraram mais significativos.

Os resultados são apresentados separadamente, de acordo com o que foi obtido nos questionários e nos desenhos. Os desenhos foram analisados unicamente pela pesquisadora, e posteriormente confrontados com os dados do questionário.

Apresentação e Discussão dos Resultados

Os questionários (Body Shape Questionnarie - BSQ)

Uma vez que aceitaram participar da pesquisa, as adolescentes foram direcionadas a biblioteca da escola, já reservada anteriormente; um lugar arejado, com boa iluminação e várias mesas a disposição.

Independente das subdivisões em que o grupo se encontra, ambas pareciam ter dificuldades em compreender questões semelhantes, solicitando ajuda para realizá-las. Também mostravam muito em comum na percepção de si e do mundo ao responder determinadas questões.

Não houve diferença significativa em relação às respostas, se compararmos a idade das adolescentes. Por este motivo os quadros foram analisados como um grupo no geral e não separadamente.

Quadro I: Preocupação com a forma física a ponto de fazer dieta

Preocupação com a forma física a ponto de fazer dieta

Contudo como pode ser observado no quadro acima 5 jovens (26,3%) marcaram ‘nunca’, 4 jovens (21,1%) marcaram ‘raramente’, e a maioria, com um total de 10 jovens (52,6%), marcaram ‘às vezes’. São respostas plausíveis que não suscitam grande preocupação. No entanto adolescentes atuais estão mais preocupados com a aparência do que em qualquer outro período da história e é preciso manter certo cuidado, pois quem vive por dietas pode estar sofrendo de transtorno da imagem corporal, um distúrbio psicológico que faz a pessoa se sentir gorda quando na realidade não tem quilinhos extras (MENDONÇA e MEIRELES, 2010).

O medo de engordar caminha lado a lado e se mostra maior do que a preocupação em realizar uma dieta, como verificamos no quadro a seguir:


Quadro II: Medo de engordar ou de ficar mais gorda

Medo de engordar ou de ficar mais gorda

As adolescentes expuseram respostas mais variadas em relação a esta questão. O medo de engordar traz uma preocupação excessiva pelo corpo ou por algumas de suas partes, pode chegar a ser altamente perturbador, causar grande transtorno emocional e intervir na vida diária. Os medos conduzem a um constante aumento na insatisfação com a imagem corporal, levando, cada vez mais, ao desencadeamento de transtornos alimentares, afetando todos os aspectos da vida, reais e fantasiosos.

No geral os questionários não mostraram grandes preocupações das adolescentes referentes ao seu corpo, entretanto os desenhos foram reveladores de conflitos.

Os desenhos (Desenho da Figura Humana - DFH)

A maioria das jovens mostrou-se mais tranquila em responder o questionário do que na execução do desenho. Enquanto desenhavam, muitas demonstravam ansiedade e faziam comentários depreciativos sobre seus desenhos, procurando justificar suas dificuldades de desenhar uma figura humana.

Aspectos gerais dos desenhos

Posição da folha: a quase totalidade (95%) das jovens respeitou a posição dada (vertical), que indica como o sujeito se coloca perante o ambiente e o manipula. A aceitação da posição dada indica que não há uma reação de oposição ao ambiente ou, por outro lado, certa passividade e falta de liberdade em relação ao aplicador.

figura 1 Figura 1

Localização:os desenhos localizaram-se predominantemente (74%) no lado esquerdo da folha e, destes, a maioria (42%) no quadrante inferior esquerdo (Figura 1). O lugar em que o sujeito coloca seu desenho mostra sua orientação geral no ambiente e consigo próprio. A localização no lado esquerdo da folha está ligada a uma atitude mais regressiva e de busca de satisfação imediata dos impulsos, e no quadrante inferior esquerdo a uma fixação ao estágio primitivo, regressão, conflitos e egoísmo em relação consigo próprio. Mostram, em conjunto, um predomínio do passado e da fantasia, reveladores da dificuldade de contato com a realidade e do medo de crescer.

Tamanho: houve crescida predominância do tamanho pequeno (53%), ocupando 1/16 da folha ou menos (Figura 1), embora houvesse também desenhos médios (26%), ocupando entre 1/4 e 1/8 da folha (Figura 2), e grandes (21%), ocupando 1/2 da folha ou mais (Figura 3). O tamanho expressa a relação dinâmica do sujeito com seu ambiente, o modo como reage às pressões deste. Nesta amostra, uma parte das jovens suporta melhor a pressão, enquanto a que predomina manifesta mais diretamente sentimentos de inadequação e inferioridade (desenhos pequenos), e outra ainda, de uma maneira defensiva a esses sentimentos, reage com fantasias compensatórias (desenhos grandes). Como tanto desenhos pequenos quanto grandes expressam, de certa maneira, sentimentos de inadequação, o que revela a maior parte esses desenhos.

Figura 2
                             Figura 2                                      Figura 3                                       Figura 4

Aspectos estruturais dos desenhos

 

Figura 5 Figura 5

Tipo de imagem do corpo: a representação do corpo é bastante variada. Algumas desenham um corpo de menina (Figura 1), outras já utilizam nos desenhos alguns elementos que permitem identificar a pessoa retratada com uma adolescente; o corpo ainda não tem formas definidas, mas o tipo de vestimenta e acessórios, é típico de jovens (Figura 4). Outras sete (37%) desenham a mulher com o corpo já formado, com seios, cintura e/ou quadris (Figura 2). Parecem representar os vários estágios da aquisição de um esquema corporal adulto. Alguns desenhos revelam o desejo de atrair sexualmente de uma maneira mais clara, com a presença de barriga de fora (Figura 5).

Correções e borraduras: a maior parte usou a borracha com frequência para fazer correções nas figuras, que ocorreram em todas as partes do corpo, resultando em muitos traços apagados. Todos esses são indicadores de conflito. As correções e retoques estão ligados à insatisfação e à insegurança, às vezes à agressividade. As borraduras, resultantes das correções, à insegurança e desejo de perfeccionismo. Os reforços das linhas são sinais de ansiedade, possivelmente aqui ligados à emergência das características sexuais, já que apareceram também nos seios.

Aspectos do Conteúdo

O conteúdo dos desenhos variou bastante, não tendo um padrão. Pode ser destacado que as figuras femininas tinham cabelo comprido ou médio (pouco acima dos ombros). Também não houve um padrão no tipo de cabelo: alguns são penteados e lisos, outros cacheados, alguns fartos, outros escassos. Os cabelos estão ligados à vitalidade sexual e as diferenças encontradas talvez reflitam os diferentes estágios em que elas se encontram frente a esta questão.

Os desenhos têm, no geral, harmonia nas partes, mas alguns chamam atenção por apresentar braços curtos e mãos escondidas (dez desenhos apresentam pelo menos uma mão nessa posição, como as Figuras 2 e 5). Esses elementos indicam dificuldades no contato social. As mãos para trás indicariam a fuga desse contato ou, apenas uma mão, o conflito entre proximidade e distanciamento, expressão ou controle dos impulsos hostis. Sugerem também sentimentos de culpa em relação à emergência da sexualidade e das atividades masturbatórias.

Chama a atenção, também, a presença de desenhos (47%) onde os pés não aparecem. Além destes, outros (38%) têm os pés com linhas reforçadas ou fracas. Todos esses traços podem ser indicativos de dificuldades no equilíbrio e fragilidade do ego, já que os pés são a base de sustentação do corpo.

Os desenhos revelam que elas estão muito atentas às desarmonias e assimetrias do que vêem e produzem, reflexos de uma percepção de si mesmas que, nesse momento, parece privilegiar os aspectos negativos, principalmente em relação à imagem corporal. Percebe-se falas que apontam para uma insatisfação com o corpo desenhado. São dúvidas em relação à própria aparência, relatos sobre o incômodo de ter um peso um pouco acima do que desejariam ou a impressão geral de que para estar bonita é preciso estar produzida, vestida, maquiada, penteada, ter formas definidas, conforme os padrões sociais. São reveladores de uma fragmentação da imagem corporal e da dificuldade de enxergar-se de uma maneira mais realista.

Embora afirmem perceber a diferença entre o que é real e fictício, seus desenhos estão impregnados desse modelo vigente de beleza divulgado pelos meios de comunicação, onde para ser belo é preciso ter um corpo com medidas definidas e perfeitas, e seu efeito nesta idade talvez seja ainda mais devastador, pois o corpo está num momento de intensa transformação.

Confirmam as observações de Kehl (2001), de que o que chega até as pessoas pelos meios de comunicação é incorporado sem ser pensado, simbolizado, como se fosse algo que estivesse estado sempre ali. Isso é preocupante na medida em que a mídia difunde um modelo de aparência física extremamente idealizado, símbolo de status e poder, que é internalizado sem ser contestado. No questionário as jovens se mostram seguras em relação ao seu corpo e a frequentar o mesmo recinto de mulheres mais magras, porém, em comparação a execução do desenho elas relatam um descontentamento com aquilo que não está de acordo com o corpo idealizado pela mídia. Ao colocarem a figura humana no papel, as dificuldades e angústias em relação ao próprio corpo ficam ainda mais evidentes. De uma maneira geral, o grupo mostrou uma postura mais tranquila e segura na resolução do questionário do que na execução dos desenhos, pois estes apresentaram-se mais críticos e insatisfeitos com seu desempenho, já que refletem a busca pela nova identidade, a insegurança e ansiedade pela qual estão passando.

Pode-se pensar em várias hipóteses que, integradas, podem explicar essa dificuldade quanto ao desenho. Parece que o questionário, como um discurso verbal, nesse momento, está mais “sob controle” do que o desenho, e mais submetido, portanto, aos sistemas de defesa dos sujeitos. O desenhar, ao ser revelador dos aspectos inconscientes, que ficam ocultos no questionário, desperta mais ansiedade e angústia.

O que Calligaris (2000) diz sobre “olhar para o espelho e vê-lo vazio” pode ser transposto para a folha em branco, onde elas tinham que desenhar uma figura humana. As jovens olhavam para esta e pareciam não saber, num primeiro momento, o que colocar ali. Faziam inúmeras perguntas (se poderiam virar a folha, pintar o desenho, desenhar um corpo inteiro, etc.), todavia, aos poucos iam tentando elaborar uma imagem, mesmo sendo um trabalho sofrido, com muitas críticas, apagamentos e sombreados, revelando ansiedade e angústia. Apesar do esforço, no final, todas conseguiram elaborar alguma imagem, apesar de alguns não bem resolvidos (sem rosto, unicamente com a face sem o restante do corpo ou a imagem quadrada), mostrando a grande dificuldade de lidar com a imagem corporal.

Os desenhos, em parte pequenos, em parte grandes, também falam dessa dificuldade de se localizar no espaço, ora revelando uma postura inibida, de contenção dos impulsos (pequenos), ora uma expansão sem controle (grandes, às vezes, saindo do papel).

A dificuldade de situar-se nesse momento da vida também está presente nos desenhos no predomínio da localização destes no lado esquerdo da folha. O lado esquerdo da folha está ligado a um predomínio do passado e uma atitude regressiva e passiva diante da vida.

Percebe-se que a figura retratada também revela uma preocupação consciente, e verbalizada durante a elaboração do desenho, que, entretanto, permaneceu oculta no questionário, de se mostrar de acordo com o que é valorizado socialmente: ser bonita, saudável, inteligente, magra. Nesse momento mostram maior apreensão daquilo que é esperado socialmente e desejam corresponder a esses padrões.

Os desenhos são descritos como feios, desarmoniosos, mostrando uma autoimagem com características mais negativas. O presente é vivido como frustrante.

Além das distorções causadas pela idealização do corpo feminino, o grupo parece sofrer com as próprias transformações corporais da puberdade, causadoras de fantasias de deformidade e sensações de ser assimétrico e desarmonioso.

Além da dificuldade de lidar consigo mesmo, há a dificuldade de lidar com os outros. Isso aparece nos desenhos em alguns aspectos como não saber “onde colocar os pés e as mãos”, braços curtos, desenhos com uma mão escondida atrás do corpo, mão no bolso. Todos esses elementos indicam dificuldades no contato social, além de remeterem para a questão da sexualidade, possivelmente sentimentos de culpa em função de atividades masturbatórias. Dificuldades no equilíbrio e fragilidade, revelando que o equilíbrio do ego, está um tanto precário, sendo necessário um esforço para se manter “em pé” e conter todas essas inseguranças.

A visão desse momento como de passagem, de transição, é percebida também nos diferentes tipos de representação corporal, que vão de uma menina a uma mulher adulta. Essa oscilação nos DFH entre um padrão mais infantilizado e outro mais identificado com características sexuais adultas parece ser uma das características principais dessa idade de transição entre infância e adolescência.

Os desenhos da minoria do grupo apresentavam características sexuais femininas mais definidas: presença ou insinuação de seios, quadris ou cintura, além de maior preocupação ou riqueza no vestuário. Esses desenhos pertencem, geralmente, às garotas que são mais expansivas e com mais facilidade de comunicação, que parecem mais em contato com sua sexualidade emergente e expressando mais seus impulsos. Já a maioria das adolescentes ainda desenham figuras humanas mais infantis, sem características sexuais femininas definidas. Estes desenhos revelam maior inibição da sexualidade e maior dificuldade na introjeção das mudanças corporais. Um desenho característico desse grupo é mostrado na Figura 1.

Esses resultados indicam que uma parte do grupo está mais em crise do que o outro, cujos conflitos estão mais inibidos. Não é possível dizer que um grupo esteja mais amadurecido que o outro. Talvez representem formas diferentes de lidar com a sexualidade nessa etapa do desenvolvimento.

Pode-se dizer que há algumas maneiras pelas quais as jovens formam sua identidade, algumas com crises e outras sem elas, estas últimas com escolhas e compromissos mais ligados à infância e aos pais.

É interessante, também, relembrar que os dados trazidos pelas jovens no questionário e no desenho foram distintos, o que dificultou o trabalho de chegar a uma análise mais precisa sobre o problema. Acredita-se que pelo fato do acentuado número de adolescentes na mesma sala, seria interessante dar continuidade a pesquisa reaplicando os instrumentos individualmente.

Considerações Finais

Nesse momento de transição, revela-se, talvez, uma das fases mais difíceis do desenvolvimento feminino, onde o corpo em transformação traz a angústia de não se saber exatamente quem é, o espaço que se ocupa e o quanto se é amado e aceito pelos outros.

Os desenhos devem ser entendidos, considerando os diversos aspectos da idade em que as jovens vivem, com crises e profundas transformações no plano físico e psicológico, assinalando os conflitos internos, mostrando um certo grau de desorganização psíquica, além de sinais de ansiedade e angústia.

Os dados do questionário mostram uma desorientação se comparado ao que as adolescentes trazem ao desenhar. A autoimagem, neste momento, tem características mais negativas, fruto da dificuldade de percepção dessa imagem corporal em transformação, mas também de um meio social que impõe padrões muito idealizados de beleza.

Sabe-se que as mudanças corporais trazem distorções na autoimagem e que cada época tem seus padrões de beleza, mas talvez eles nunca tenham sido tão rígidos quanto agora, promovendo enorme distância entre o corpo idealizado e o corpo vivido, empobrecendo os sujeitos psiquicamente.

As adolescentes não mostraram grau de insatisfação acentuado com a imagem corporal ao responder o questionário, entretanto o desenho apresenta dados relevantes, frequentemente inconscientes para elas, que deveriam ser abordados com mais ênfase e estudados conforme elas evoluem.

Sobre os Autores:

Dayane Boufleur - Acadêmica do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina Campus de São Miguel do Oeste.

Álvaro Cielo Mahl - Mestre em Psicologia do Desporto e do Exercício pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro de Portugal; professor do curso de Psicologia da UNOESC.

Lisandra Antunes de Oliveira - Mestre em Psicologia Social e da Personalidade pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; professora e coordenadora do curso de Psicologia da UNOESC. e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.  

Verena Augustin Hoch - Mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; professora do curso de Psicologia da UNOESC

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