A Velhice: suas Relações Familiares e Asilares numa Sociedade Capitalista

A partir de reflexões tomando como base os textos de Araujo e Lopes (2010); Bosi(2007) e Graeff (2007), tem-se como objetivo analisar a velhice e as suas repercussões nas relações familiares e asilares na sociedade capitalista.

Segundo Araujo e Lopes (2010) o envelhecer ou a velhice se inicia ao nascer e se finda com a morte. Porem a decadência biológica não é suficiente para definir a velhice pelo fato de nem sempre comprometer o processo vital, não ocorrer para todo o organismo e acontecer em ritmos distintos. Além disso para muitos o envelhecer é também uma aquisição pois permite que a mente amadureça para raciocínios abstratos tendo em vista as idades anteriores.

De acordo com Bosi (2007) a velhice não é somente um declínio biológico, mas trata-se de uma categoria social, ou seja, cada sociedade vive a velhice de uma maneiradiferenciada. Nas sociedades pré-capitalistas o artesão era visto como uma pessoa que acumulava as experiências, passar dos anos gerava um aperfeiçoamento no seu desempenho. Hoje na sociedade capitalista o trabalho operário tornou-se uma repetição de gestos, sendo a rapidez o único aperfeiçoamento permitido.

Apesar da moral oficial pregar o respeito ao idoso o que se busca é afastá-lo dos postos de direção e ceder os seus cargos aos mais jovens, privá-los da liberdade de escolha e fazer com que eles sejam cada vez mais dependentes, gerenciando sua aposentadoria, mudando-o de casa e internando-os enfim em instituições asilares. Bosi(2007) acrescenta que este processo gera uma crise de identidade no idoso que se sente um individuo diminuído,pário, incapaz e impotente.

Esta mesma sociedade industrial que rejeita “o velho”, vivencia o aumento mundial da< população idosa. A previsão do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é que em 2050 o numero de idosos ultrapasse o de jovens. No Brasil atualmente a população idosa equivale a 9%, sendo que já ultrapassa 24,5 mil idosos. Estima-se que em 2020 este numero seja de 12% da população brasileira. O crescimento da expectativa de vida se deve a vários fatores dentre eles o advento da tecnologia e os avanços na área da saúde que possibilitam que o idoso viva mais tempo: “O prolongamento da vida representa uma conquista nos tempos atuais, decorrente do desenvolvimento da medicina e da prevenção de doenças...” (ARAÚJO e LOPES apud LOPES 2000, p.49).

Outros aspectos que contribuem para o aumento da longevidade foi o declínio da taxa de mortalidade e natalidade, entrada crescente da mão de obra feminina no mercado de trabalho, aumento da escolaridade feminina, adiamento na idade das núpcias, crescimento das separações e de novos arranjos familiares e do numero de indivíduos que não se casam. Tudoisso gerou transformações no sistema de valores com o enfraquecimento das formas de apoio e cuidado aos idosos e das relações intergeracionais. (ARAUJO e LOPES, 2010).

O processo de envelhecimento populacional traz à tona novos desafios no que se relaciona a aposentadoria, seguro de saúde, e instituições asilares ou de longa permanência não possuem recursos suficientes para atenderem a demanda de idosos longevos.

A Constituição Federal de 1988, Política Nacional do Idoso estabelece que o cuidado ao idoso deve ocorrer prioritariamente no âmbito familiar e que a assistência em instituição de longa permanência deverá ocorrer em situações de abandono, carência de recursos próprios ou dos familiares ou inexistência de grupo familiar.

Contudo grande parte das famílias brasileiras apresentam dificuldades econômicas e instrumentais para cuidar com respeito e dignidade dos seus idosos. Os programas de saúde pública são insuficientes e as famílias não possuem condições de buscarem subsídios em instituições particulares por serem incompatíveis com o seu poder aquisitivo. Alem destes fatores acrescenta-se o preconceito e a pressão social sob as famílias quando as mesmas optam pela institucionalização do idoso. Isso se deve ao fato da instituição ainda representar uma imagem negativa, sinônimo de exclusão social, isolamento e dominação; no caso especifico das instituições para idosos, “deposito de velhos”, “lugar para morrer”. (ARAUJO e LOPES, 2010).

Essa mudança pode gerar um desconforto no idoso exigindo dele uma adaptação a um novo ambiente constituído de normas e regras, que nem sempre se dá de forma agradável.

O idoso que na sua casa e família podia contar com a convivência dos seus parentes, onde ele tinha sua privacidade, com liberdade para atuar como membro do grupo familiar, agora passa a viver uma realidade totalmente diferente, precisando compartilhar o quarto, armários, banheiro, roupas, dentre outras coisas.

Este novo ambiente pode ocasionar uma crise de identidade, porque o idoso vai ter que conviver com pessoas que ele não conhece, podendo gerar desconforto e estranhamento.

Neste novo lar; o asilo, as experiências vividas bem como sua subjetividade poderão não ser valorizadas, porque ele tem que obedecer as regras da instituição que muitas vezes são contratias as ideologias que ele formou durante a sua vida. (BOSI, 2007).

Entretanto morar em uma instituição asilar poderá ser benéfico pois nem sempre viver com a família promove um envelhecer prazeroso e digno. Em casos como a inexistência de familiares e de cuidadores, falta de recursos materiais, conflitos familiares, limitações mentais e físicas, problemas de relacionamento do idoso, morar em uma instituição pode contribuir para que este tenha uma melhor qualidade de vida. Acrescenta-se: Não é somente na família que o idoso encontra possibilidades de crescimento.

Há outros meios inclusive numa tarefa voluntária, nos grupos de terceira idade, que desenvolvem habilidades especificas, nas faculdades de terceira idade, nos livros, nos contatos sociais, e outros. A velhice pode ser um grande momento para recuperar o tempo que passou. (ARAUJO e LOPES apud VARELLA, 2010, p. 53).

Graeff (2007) em seu estudo antropológico acerca do envelhecimento no contexto asilar constatou que é possível que o idoso viva em um asilo sem que haja a mortificação da sua subjetividade, o que propõe um repensar, pois as instituições asilares estão passando por mudanças, em algumas como o asilo Padre Cacique em Porto Alegre percebe-se uma valorização da subjetividade dos idosos, tentativas de envolvimento da família nas tarefas diárias, um tratamento diferenciado com respeito a intimidade, privacidade e criatividade dos idosos.

Portanto pode-se perceber que o aumento no numero de idosos é uma realidade, e que é importante repensar as ações voltadas para os idosos no âmbito familiar e institucional.

Alem disso é necessário uma mudança cultural na maneira de ver e tratar o idoso no âmbito familiar e/ou institucional.

Sobre os Autores:

Dilson Pereira da Silveira - Acadêmico do curso de Psicologia das Faculdades Integradas Pitágoras de Montes Claros - MG

Nilson Rodrigues dos Santos - Acadêmico do curso de Psicologia das Faculdades Integradas Pitágoras de Montes Claros - MG

Referencias:

ARAÚJO, Eliana Novaes Procópio de; LOPES, Ruth Geleherter da Costa. Instituições de longa permanência para idosos: possibilidades contemporâneas de moradia. Caderno Temático Kairós Gerontologia, 8. ISSN 2176-901X, nov. 2010, São Paulo: p. 45-60.

BOSI, Ecléa. A Velhice na Sociedade Industrial. In: BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.cap. 2 p.77-81.

GRAEFF, Lucas. Instituições totais e a Questão asilar: Uma abordagem compreensiva.

Estud. Interdiscip. Envelhec. v. 11: p. 9-27, Porto Alegre: 2007.