Consumismo Infantil

O modelo de sociedade consumista evoca o pensamento crítico sobre a atuação deste modelo, o público atingido e, portanto, as consequências no desenvolvimento psíquico, social e fisiológico do ser humano como um todo, especificamente na criança, como trata o projeto presente.

O documentário “Criança, a alma do negócio” de Estela Renner, demonstra de forma clara e precisa a realidade do consumismo infantil no cenário brasileiro. Com entrevistas e dinâmicas com pais, professores, especialistas e crianças de diferentes faixas etárias e classes sociais mostra como as crianças são influenciadas pela mídia, como pais e professores sentem e pensam sobre o assunto e como os especialistas avaliam este modelo social. Em uma das dinâmicas com algumas crianças, a entrevistadora coloca duas folhas no chão, cada uma com as palavras: Brincar e Comprar, e a seguir pede para que eles coloquem a mão naquela que mais gosta, e o resultado é a maioria das mãos na folha “Comprar” e uma na outra folha, dizendo: Ninguém gosta de brincar? O documentário se propõe a discutir e avaliar o consumismo infantil, como as crianças são expostas a propagandas (e a mídia em geral) e o quanto são influenciadas por esses meios de comunicação. Demonstra inversão de valores, explicitado por Yves de La Taille, Professor titular do curso de Psicologia da USP, em sua participação no documentário, diz:

“As bonecas de hoje, chamo de boneca, mas deveria ter outro nome porque a boneca de antigamente era um trabalho de maternagem, a menina era mãe da boneca, cuidava como se fosse um filho, um bebê. E hoje em dia, muita das bonecas não é, é projeção, você não é mãe da Barbie”.

Elaine dos Santos, Professora do Ensino público, também no documentário afirma que com a mídia desenfreada, e com a ideologia do “compre, que você será melhor” a criança vai deixando de ser criança, deixa de brincar, de percorrer espaços, construir, imaginar e criar. As meninas vão maquiadas à escola desde os três anos de idade, vão com roupas que não são mais infantis, são roupas que valorizam o corpo, segundo relato de uma aluna. Claudia Armando, pedagoga, relata que as meninas vão de salto alto á escola, que não permitem que elas corram e brinquem naturalmente.

Piaget escreve sobre a importância da brincadeira infantil, dos jogos lúdicos e o quanto são fundamentais para o desenvolvimento intelectual da criança. Ele afirma:

"O jogo é, portanto, sob as suas duas formas essenciais de exercício sensório-motor e de simbolismo, uma assimilação da real à atividade própria, fornecendo a esta seu alimento necessário e transformando o real em função das necessidades múltiplas do eu. Por isso, os métodos ativos de educação das crianças exigem todos que se forneça às crianças um material conveniente, a fim de que, jogando, elas cheguem a assimilar as realidades intelectuais que, sem isso, permanecem exteriores à inteligência infantil" (PIAGET, 1976).

Com isto, percebemos que a ideologia consumista rouba a infância, tira da criança uma parte fundamental do seu desenvolvimento. As crianças expostas a este consumo desenfreado deixam de brincar, se comportam como se fossem adultos, e assim são imaturas e seu desenvolvimento é retardado.

A escola, assim como para Piaget e Vygotsky, é a instituição fundamental para todo o desenvolvimento infantil, é o meio de interação e de avanço no desenvolvimento intelectual, afetivo e social da criança. A competição e a desigualdade social são presentes no contexto escolar, aqueles que não se inserem, não se encaixam no imposto pela sociedade é excluído. A criança exposta a este modelo consumista acredita, inconscientemente, que necessita de um objeto para se inserir num grupo. Paradoxalmente, este mesmo objeto é também utilizado como diferenciador entre as pessoas, causando assim exclusão daqueles que não possuem determinado objeto e competição entre os iguais.

Segundo a Associação Dietética Norte Americana Borzekowiski Robinson, bastam apenas trinta segundos para uma marca influenciar uma criança. No Brasil, diferentemente de outros países como Suécia, Inglaterra, Bélgica, Estados Unidos, Alemanha, Canadá, Dinamarca, Irlanda, Holanda, Áustria, Itália, Grécia, Portugal e Noruega, não há nenhum regulamento que limite a publicidade dirigida ás crianças. Não há nenhum controle, ou seja, a publicidade é livre para visar apenas os lucros, sem ética e sem proteção á criança.

João José Werzbitzki escreve em seu blog (Blog do JJ Publicidade & Marketing) sobre o Neuromarketing, e conceitua: O Neuromarketing é um novo campo do marketing que visa compreender o comportamento do consumidor, os desejos, impulsos e motivações das pessoas através do estudo das reações neurológicas a determinados estímulos externos. É ainda uma nova ciência que busca, ainda mais, prever e controlar o comportamento do homem diante da publicidade.

Diante de pesquisas, como a do jornal acadêmico Neuron, da Baylor College of Medicine, em Houston, Texas. Realizaram um experimento com os refrigerantes Pepsi e Cola-Cola, que consistia em dois momentos distintos, o primeiro os experimentadores beberam os refrigerantes sem saber a marca das bebidas, e depois foi perguntado qual era o melhor, e a maioria respondeu Pepsi. Já em outro momento, no qual tinham conhecimento da marca, a maioria respondeu que Coca-Cola era o melhor. Ou seja, o resultado leva a crer que a preferência estava relacionada com a identificação da marca e não com o sabor. Diante deste exemplo, compreendemos as embalagens de bolachas, salgadinhos, refrigerantes, entre outros, que são dirigidos para as crianças, com desenhos animados, coloridos, etc. Estes alimentos chamam a atenção da criança não só pelo sabor, mas principalmente pela sua embalagem, pela sua marca.

O cenário brasileiro se encontra em completa inversão de papeis, a realidade adulta torna-se também realidade infantil, e assim segue roubando a infância ou tornando-a mais complexa e dificultando seu desenvolvimento, como por exemplo, estimulando a obesidade infantil, erotização precoce, consumo precoce de tabaco e álcool, estresse familiar, banalização da agressividade e violência, estimulando a competição e a desigualdade social. De acordo com a perspectiva sócio-histórica de Vygotsky, o homem é produto da interação social. É preciso, portanto, de uma reestruturação no cenário social brasileiro.

Referências

RENNER, Estela. (2008) Criança, a alma do negócio. Disponível em: http://www.alana.org.br/CriancaConsumo/Biblioteca.aspx?v=8&pid=40. Data de acesso: 14.08.2010

ALANA, Instituto. (2002) Consumismo infantil, um problema de todos.Disponível em: http://www.alana.org.br/CriancaConsumo/ConsumismoInfantil.aspx. Data de acesso: 14.08.2010

PALANGANA, I. C. Desenvolvimento e Aprendizagem em Piaget e Vygotsky: a
relevância do social. São Paulo: Plexus, 1994.

BAPTISTA, Laura Sacchi. (2009) A Infância em tempos de consumo. Disponível em: http://www.culturainfancia.com.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=902:a-infancia-em-tempos-de-consumo&catid=132:artigos-e-teses&Itemid=167. Data de acesso: 30.10.2010

DESGUALDO, Marianna. (2008) A importância do brincar no desenvolvimento da criança. Disponível em: http://www.webartigos.com/articles/4448/1/A-Importancia-Do-Brincar-No-Desenvolvimento-Da-Crianca/pagina1.html. Data de acesso: 30.10.2010

CAMARGO, Sonia de Fátima. (2010) Reflexos do consumismo infantil no ambiente escolar. Disponível em: http://www.unemat-net.br/prof/foto_p_downloads/fot_2097camargo_pdf.pdf. Data de acesso: 30.10.2010

WERZBITZKI, João José. (2009) O Neuromarketing busca entender a mente do consumidor. Disponível em: http://blogs.abril.com.br/blogdojj/2009/09/neuromarketing-busca-entender-mente-consumidor.html. Data de acesso: 30.10.2010