Depressão e Envelhecimento: Estudo em Participantes do Projeto Conviver em Laguna Carapã – MS

Resumo: Esta pesquisa foi realizada com objetivo de determinar a prevalência de síndromes depressivas entre os idosos que participam do Projeto Conviver de Laguna Carapã-MS. Para obtenção desses dados utilizou-se o Inventário de Depressão da Escala Beck – BDI, no qual 14 idosos foram avaliados. A prevalência da depressão nesta população foi de 21%, sendo 67% depressão leve e 33% moderado. Os sintomas mais presentes foram dificuldades de trabalhar, perda da libido, fatigabilidade e preocupações somáticas. Esse estudo pode contribuir para os profissionais da área da saúde no planejamento de políticas em relação à promoção, prevenção e intervenção nesta condição, com melhora na qualidade de vida.

Palavras-chave: Depressão. Envelhecimento. Vida social.

1. Introdução

A população mundial está envelhecendo e o aumento do número de pessoas com mais de 60 anos não está mais restrito aos países desenvolvidos, como os europeus. Hoje, países da África e América Latina – dentre eles o Brasil – vivenciam o envelhecimento mundial. Essa mudança no quadro populacional se deu em razão da melhoria nutricional, avanços da medicina e redução de mortalidade (SOUZA; OLIVEIRA, 2005).

Ainda segundo o autor, no Brasil, estima-se que em 2020 o surgimento de pessoas idosas corresponda a 13% da população. Com esse envelhecimento, a freqüência de diversas doenças na área psiquiátrica tem aumentado, sendo a depressão uma das desordens mais comuns nesse segmento.

Segundo Negri et al. (2004), no contexto da atual edição da Política Nacional de Saúde do Idoso, e o veloz processo de envelhecimento que ocorre no Brasil, os esforços tendem a concentrar-se em manter o idoso na comunidade, com apoio social junto à sua família, da forma mais digna e confortável possível.

Alguns estudos recentes mostram, dentre as muitas características associadas à depressão, variáveis demográficas, tais como a idade avançada e sexo feminino, condições de saúde como o declínio funcional, doenças crônicas e prejuízo cognitivo, além das condições sociais precárias, conforme afirma Neri (2002). 

Pelo fato de o aumento da depressão ser significativo em todo o país, surgiu o interesse pelo tema proposto, a fim de verificar se esta incidência que acontece em todo o país, também acomete os idosos que participam do Projeto Conviver de Laguna Carapã-MS.

O Projeto Conviver foi criado em março de 1996. É um Projeto da Prefeitura Municipal de Laguna Carapã-MS, que visa a interação de pessoas da mesma faixa etária, com o intuito de que esses idosos possam criar novos vínculos de amizade, trocar experiências, bem como passar momentos de alegria e divertimento ao lado de pessoas com as mesmas características. Atualmente conta com a participação de 50 idosos.

Portanto, é objetivo deste estudo verificar, dentre os participantes do Projeto Conviver de Laguna Carapã-MS, a presença de síndromes depressivas entre os idosos, identificando assim seus níveis e os principais sintomas, assim como verificar se o tempo de participação no Projeto influencia o humor dos participantes. Ao final do trabalho o pesquisador realizará uma palestra com os participantes esclarecendo os resultados da pesquisa, e entregará uma cópia desses à Instituição onde o trabalho será realizado.

2. Revisão de Literatura

2.1 O Processo do Envelhecimento

Uma pessoa considerada idosa segundo o Estatuto do Idoso em seu art. 2° inciso I, é uma pessoa com idade igual ou superior a sessenta anos. A idade cronológica é usada para fins científicos, porém para a idade biológica não existe um marcador confiável (BRASIL, 2004).

Bulcão et al. (2004) asseguram que durante a vida adulta, todas as funções fisiológicas gradualmente declinam, e o envelhecimento fisiológico do indivíduo será determinado pelo estilo de vida adotado desde jovem, como alimentação, prática de esporte e a ocupação que exerce.

Uma das funções que são afetadas pelo envelhecimento de acordo com Bulcão et al.(2004) é o envelhecimento das fibras musculares e suas enervações. Osteoartite, doenças debilitantes em geral, e a perda da força muscular são fatores importantes nesse processo de fragilidade.

   Apesar de inúmeras possibilidades de certas doenças se desenvolverem com o aumento da idade, o envelhecimento não é sinônimo de doença. Hábitos de vida saudáveis, características individuais, como herança genética, fatores ambientais, sociais e culturais, os quais o indivíduo esteve exposto ao longo da vida são pontos que influenciam na saúde do idoso (NERI, 2002).

Cheloni et al. (2003), ao relacionar envelhecimento ao gênero, apontou um número elevado da feminilização do envelhecimento no Brasil. Há um número bem maior de idosas com idade igual ou superior a 60 anos se comparada com os homens da mesma faixa etária.

2.2 A Depressão

De acordo com Cheloni et al. (2003), a depressão é um distúrbio da área afetiva ou do humor, com forte impacto funcional em qualquer faixa etária, reconhecidamente de natureza multifatorial, envolvendo inúmeros aspectos de ordem biológica, psicológica e social.

A maior conseqüência da depressão segundo Cheloni et al. (2003), é a incapacidade, ou seja, a restrição ou impossibilidade de o indivíduo realizar atividades ou manifestar comportamentos esperados em contextos sociais definidos. A incapacidade compromete diretamente a qualidade de vida em suas várias dimensões, desde o cuidado de si mesmo, o nível de autonomia e até o desempenho na vida familiar, social, profissional, afetiva e religiosa.

Marot (2004) assegura que os sintomas corporais mais comuns são sensações de desconforto no batimento cardíaco, constipação, dores de cabeça e dificuldades digestivas. 

Muitos dos sintomas da depressão conforme afirma Marot (2004), podem estar associados aos sintomas centrais, como por exemplo, o pessimismo, dificuldade de tomar decisões, dificuldade para começar a fazer suas tarefas, irritabilidade ou impaciência, inquietação, achar que não vale a pena viver, desejo de morrer, chorar à toa, dificuldade para chorar, sensação de que nunca vai melhorar, desesperança, dificuldade de terminar as coisas que começou, sentimento de pena de si mesmo, persistência de pensamentos negativos, queixas freqüentes, sentimentos de culpa injustificáveis, boca ressecada, constipação, perda de peso e apetite, insônia e perda do desejo sexual.

No CID-10 (2008) o episódio depressivo é avaliado com base na gravidade dos sintomas e o grau de comprometimento funcional, podendo ser uma depressão leve com início após um acontecimento estressante específico, com duração de no mínimo duas semanas, sendo que esses sintomas de angústia não irão comprometer as funções do cotidiano. Já na depressão moderada, vários sintomas provavelmente estarão presentes em um grau marcante, principalmente os sintomas físicos, visto que o indivíduo apresenta dificuldade em continuar com atividades sociais, laborativas ou domésticas. Na depressão grave o indivíduo apresenta angústia, síndrome somática, perda de auto-estima, sentimentos de inutilidade, culpa, enfim, sintomas intensos que põe em risco a vida, como afirma Caetano et al. (1993 apudLIMA, 2008).

Existem diversas classificações de transtornos depressivos, Kaplan (1998 apud LIMA, 2008) aponta características de algumas delas. O transtorno depressivo maior é excessivamente abrangente e pouco preciso, ele abarca uma gama muito heterogênea de condições, que vão desde as fronteiras da normalidade (reações de luto ou tristeza normal) até aquelas formas mais graves de depressão, para as quais provavelmente concorrem fatores biológicos (adquiridos ou geneticamente determinados).

Para o diagnóstico de transtorno Depressivo Maior, de acordo com DSM-IV (2002), basta que a pessoa apresente humor deprimido ou perda de interesse ou prazer, durante um período de duas semanas, mais quatro destes sintomas são necessários para seu diagnóstico: perda ou aumento de peso, insônia ou hipersonia, agitação ou retardamento (decréscimo acentuado na atividade muscular normal), fadiga ou perda da energia, sentimento de indignidade ou culpa, dificuldade de concentração (real ou perceptível) e pensamentos recorrentes de morte e suicídio.

O Transtorno Depressivo Menor tem características idênticas as do Transtorno Depressivo Maior, exceto pelo fato de terem menor gravidade. Um fator importante para o diagnóstico diferencial do Transtorno Depressivo Menor é a ocorrência de transtorno distímico e de transtornos breves recorrentes. O transtorno distímico se caracteriza pela presença de sintomas depressivos crônicos, enquanto o transtorno breve recorrente é caracterizado por múltiplos episódios de sintomas depressivos severos, como assegura Kaplan (1998 apud LIMA, 2008).

2.3 A Depressão nos Idosos

A depressão entre a população mais envelhecida de acordo com Siqueira et al. (2009), encontra-se entre as doenças crônicas mais freqüentes que elevam a probabilidade de desenvolver incapacidade funcional. Com isso, desencadeia-se um importante problema de saúde pública, pois inclui tanto a incapacidade individual como problemas familiares em decorrência da doença.

Segundo Stella et al. (2002), as causas da depressão no idoso são inúmeras, pois podem estar relacionadas ao luto e abandono, doenças incapacitantes, entre outros. Na maioria dos casos, a patologia surge em um contexto da perda da qualidade de vida juntamente com o isolamento social e o surgimento de doenças graves.

Em pacientes idosos, de acordo com Pearson e Brown (2000 apud Stella et al., 2002), além dos sintomas comuns, a depressão costuma ser acompanhada com queixas somáticas, hipocondria, baixa auto-estima, sentimento de inutilidade, humor disfórico, tendência autodepreciativa, alteração do sono e do apetite, ideação paranóide e pensamento recorrente de suicídio.

De acordo com Conte e Souza (2009), o fator mais importante que desencadeia a depressão, é a perda de algo muito valioso, portanto o idoso passa a ser mais propenso a desencadear esta patologia, uma vez que se depara frequentemente com perdas e mudanças em sua vida.

Segundo Bulcão et al. (2004), a depressão na velhice é um dos transtornos de humor mais freqüentes, e apresenta uma prevalência de 4,8 a 14,6% em idosos que vivem na comunidade e até 22,0% entre idosos hospitalizados ou institucionalizados. Ainda de acordo com este autor, estudos que avaliam sintomas clinicamente relevantes de depressão nesse grupo etário através das escalas de sintomas, do CID-10 ou do DSM-IV, demonstram uma prevalência na população que varia de 6,4 a 59,3%.

A realização do tratamento da depressão nos idosos tem como principal função a redução do sofrimento psíquico causado pela patologia, e consequentemente a diminuição do risco de suicídio, promovendo melhor qualidade de vida para o idoso. Esse processo de tratamento envolve psicoterapia ou intervenção psicofarmacológica (STELLA et al., 2002).

2.4 Convivência Social

A qualidade de vida do idoso pode estar relacionada a diversos fatores como capacidade funcional, estado emocional, interação social, atividade intelectual e autoproteção de saúde, conforme afirma Stella et al. (2002).

De acordo com Negri et al. (2004), o aumento da qualidade de vida e da longevidade em idosos está diretamente ligado com relacionamentos sociais, sendo que por outro lado, a ausência de convívio social causa severos efeitos negativos na capacidade cognitiva geral.

A falta de convívio social entre os idosos tem sido considerada tão danosa à saúde quanto o fumo, a pressão arterial elevada, a obesidade e a ausência de atividade física (Stella et al., 2002). Ainda de acordo com o autor, pode-se argumentar que as pessoas que tem maior contato social vivem mais e com melhor saúde do que as pessoas com menos contato social.

Segundo Almeida (1999 apud COSTA; CAMPOS, 2009), socialmente ainda parece prevalecer a idéia de que o idoso é associado a uma pessoa decadente, necessitada e, por isso, dependente.  Em muitos casos confinados em locais à margem da sociedade (asilos, hospitais, casas de repouso), o idoso tem sido representado como uma pessoa cansada, doente, debilitada, enfim improdutiva, sem apreço nenhum da família.

As representações desta fase da vida assemelham-se às representações do mundo infantil. Representada como um ser ingênuo, a criança não tem capacidade para se responsabilizar por si mesma, necessitando, como o idoso, do apoio adulto (MACKEIZEI, 2001).

Almeida (1999 apud COSTA; CAMPOS, 2009), postula que a dificuldade do convívio social dos idosos quer na família ou na sociedade, pode ser conseqüência das alterações fisiológicas e fisiopatológicas decorrentes do envelhecimento.

3. Materiais e Métodos

3.1 Tipo de estudo

Pesquisa descritiva e pesquisa de campo tipo quantitativa.

Segundo Baruffi (2004), este tipo de pesquisa constitui o método que associa a freqüência de determinado fenômeno, sua relação com outros fenômenos, sua natureza e características. Envolve coleta de dados, com utilização de entrevista, questionário e observação. Por este motivo este tipo de pesquisa foi considerado o mais indicado para realização desta pesquisa.

A pesquisa quantitativa tem como objetivo mensurar e permitir o teste de hipóteses, já que os resultados são mais concretos e, conseqüentemente, menos passíveis de erros de interpretação.

3.2 Considerações Éticas da Pesquisa

Este projeto de pesquisa foi realizado de acordo coma Resolução do Conselho Nacional de Saúde 196/96, que faz regulamentação da pesquisa envolvendo seres humanos garantindo autonomia, beneficência, não maleficência e justiça.  Os preceitos éticos foram assegurados pelo pesquisador que se comprometeu em segui-los. Portanto, antes da coleta de dados ser iniciada, este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) com Seres Humanos do Centro Universitário da Grande Dourados- UNIGRAN.

Os sujeitos foram informados antecipadamente sobre a relação risco/benefício da coleta de dados e os que se propuseram a participar assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Aqueles que se recusaram em participar ou desistiram após o início da pesquisa, tiveram suas decisões respeitadas, ea identidade dos participantes foram preservadas, bem como os dados obtidos que poderiam identificar os participantes, durante o procedimento da pesquisa.

3.3 Local da Pesquisa

O presente estudo foi realizado na cidade de Laguna Carapã-MS no prédio do Centro Social Comunitário Municipal, que fica situado na rua Erva Mate, 641, Centro, onde é desenvolvido o Projeto Conviver com um número aproximado de 50 idosos. A instituição foi consultada e em seguida forneceu uma autorização formal para a realização do trabalho.

3.4 Caracterização e Recrutamento da Amostra

O Centro Social Comunitário Municipal, Projeto Conviver, na cidade de Laguna Carapã/MS, consta, para atendimento, com 50 idosos inscritos. Foram objeto da pesquisa todos os idosos participantes do Projeto, o que constitui 100% da amostra universo.

3.4.1 Critérios de inclusão

 Foram incluídos na amostra todos os idosos participantes do Projeto Conviver que aceitaram participar da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre Esclarecido.

3.4.2 Critérios de exclusão

Foram excluídos da pesquisa os idosos participantes do Projeto Conviver que não aceitaram participar da pesquisa, não assinaram o Termo de Consentimento Livre Esclarecido, e ainda aqueles que possuiam patologias que comprometiam a capacidade cognitiva, bem como comunicação, e indígenas (por questões éticas e burocráticas).

3.5 Análise dos Resultados

Os dados da pesquisa foram retirados do banco de dados do instrumento Inventário de Depressão da Escala Beck – BDI, os pontos avaliados numa escala de 0 a 3, de forma que a pontuação total do inventário de depressão oscile entre os escores 0 a 63. Quanto maior for o escore representado, maior o nível de depressão.

Foi realizada ainda uma análise quantitativa das respostas dos examinando, os quais podem ser visualizadas por meio de gráficos produzidos no programa Excel.

3.6 Procedimentos e Instrumentos da Pesquisa

Primeiro foi solicitado aos responsáveis pelo Projeto Conviver de Laguna Carapã-MS o consentimento para realização deste trabalho com os idosos participantes do projeto, onde foi relatado os benefícios e a importância do mesmo, àqueles idoso que aceitaram participar.

Em seguida os idosos participantes do projeto Conviver foram convidados e após esclarecimentos, aceitação e termo de consentimento assinado, os sujeitos da pesquisa foram agendados para responder um formulário em dia e horário previamente combinado, de acordo com a disponibilidade de tempo de cada um.

O instrumento utilizado para este trabalho foi o inventário de Depressão da escala Beck – BDI, com tradução em português de Jurema Alcides Cunha (CUNHA, 2001). O teste consiste em um questionário para determinar a presença da síndrome depressiva, bem como sua intensidade e pode ser utilizado com sujeitos na faixa de 17 a 80 anos.

Inicialmente o teste foi desenvolvido como uma escala sintomática de depressão para uso com pacientes psiquiátricos. Muitos estudos sobre suas propriedades psicométricas foram realizados nos anos seguintes ao seu aparecimento, passando a ser utilizado amplamente tanto na área clínica como na área de pesquisa. Na literatura, encontram-se várias referências e estudos em amostras de adolescentes, e já na versão brasileira, foram desenvolvidos estudos tanto com sujeitos de 12 a 17 anos quanto com a população da terceira idade (CUNHA, 2001).

O inventário é uma escala de auto-relato, composta por 21 itens, cada um com quatro alternativas, subtendendo graus crescentes de gravidade de depressão, com escore de 0 a 3 em cada item, de forma que a pontuação total do inventário oscile entre 0 e 63. Um escore de 0-11 indica nível mínimo de depressão, de 12-19 leve, de 20-35 moderado e entre 35-63 representa sintomas depressivos graves. Os itens foram classificados com base em observações e relatos de sintomas e atitudes mais freqüentes de pacientes psiquiátricos, com transtornos depressivos. Esses itens do BDI se referem a: 1) tristeza; 2) pessimismo; 3) sentimento de fracasso; 4) insatisfação; 5) culpa; 6) punição; 7) auto aversão; 8) auto acusações; 9) idéias suicidas; 10) choro; 11) irritabilidade; 12) retraimento social; 13) indecisão; 14) mudança na auto imagem; 15) dificuldade de trabalhar; 16) insônia; 17) fatigabilidade; 18) perda de apetite; 19) perda de peso; 20) preocupações somáticas; 21) perda da libido.

O sujeito foi informado que teria que responder um questionário com 21 grupos de afirmações, que após a leitura de cada item feita pelo entrevistador, ele deveria descrever, da melhor maneira o que vinha sentido durante a última semana, incluindo o dia da avaliação. Depois das instruções foi entregue uma cópia das afirmações para que ele pudesse acompanhar a leitura. A aplicação do instrumento teve duração de 20 a 30 minutos, a qual foi realizada pelo próprio pesquisador, a partir de leitura do manual do teste e instruções dadas pelo orientador.

4. Discussão de Resultados

Esta pesquisa realizou-se com o objetivo de determinar a prevalência de síndromes depressivas entre os idosos que participam do Projeto Conviver de Laguna Carapã-MS. Os resultados serão apresentados a seguir.

Do ponto de vista demográfico, verificou-se que dos 14 participantes da pesquisa, 36% são do sexo masculino e 64% do sexo feminino, sendo a média de 69 anos. Quanto ao estado civil 64% são casados, 22% divorciados e 14% viúvos. Em relação à escolaridade, 72% tem ensino fundamental, 14% ensino médio e 14% ensino superior.

Snowdon (2002) recomenda a utilização de escalas de entrevistas estruturadas para avaliar a prevalência da depressão nos idosos, devido à obtenção de resultados mais claros e consistentes.

Observa-se na figura 1 os níveis da depressão de acordo com a avaliação realizada por meio do instrumento das escalas Beck de depressão – BDI. O nível mínimo correspondeu a 79%, leve 14% e moderado 7%.

Figura 1: Níveis de depressão de acordo com a avaliação do BDI.

Figura 1: Níveis de depressão de acordo com a avaliação do BDI.

Devido ao fato do CID-10 não considerar o nível mínimo como depressão, a figura 2 traz a comparação entre o nível mínimo e o nível leve e moderado somados.

Figura 2: Comparação entre o nível mínimo com nível leve e moderado de depressão.

Figura 2: Comparação entre o nível mínimo com nível leve e moderado de depressão.

Robinson apud Silva (2005) relata que a depressão tem sido detectada em 20% a 50% dos pacientes, variando de acordo com o critério estabelecido, bem como a população estudada.

De acordo com Leite et al. (2006), em seu estudo com idosos participantes da Universidade aberta a terceira idade, 24% dos idosos apresentam depressão, sendo que a maioria dentre este percentual, apresenta em nível leve.

Conforme o estudo apresentado por Siqueira et al. (2009), com idosos moradores no abrigo Cristo Redentor, 51% apresentam depressão, sendo na maioria presente no sexo masculino.

Essas diferenças de índices encontrados na literatura ocorrem devido à especificidade da população estudada e aos instrumentos utilizados na pesquisa.

A ocorrência da depressão em um membro da família idoso, frequentemente traz conseqüências negativas como o isolamento deste idoso, alterações no relacionamento social com os amigos e com os próprios membros da família, o que pode resultar em um significativo rebaixamento de humor e qualidade de vida que inspira cuidados.

Para Snowdon (2002) a doença física é um dos fatores de risco mais significativos em relação à depressão. A depressão comórbida com outros transtornos físicos tem menos chance de ser reconhecida e tratada do que quando aparece sozinha.

A seguir serão apresentados e analisados as atitudes e os sintomas depressivos diagnosticados nos idosos do projeto Conviver de Laguna Carapã-MS.

Vejamos na figura 3 os sintomas mais assinalados no teste BDI: a dificuldade para trabalhar (79%), preocupações somáticas (93%), fatigabilidade (93%) e irritabilidade (29%), perda da libido (100%), insatisfação (50%), insônia (40%), choro (29%) e perda de apetite e tristeza correspondendo a (21%).

Figura 3: Sintomas mais freqüentes assinalados no teste BDI.

Figura 3: Sintomas mais freqüentes assinalados no teste BDI.

5. Considerações Finais

A terceira idade constitui fonte de estudo e preocupação, pois no futuro passará a ser um problema de saúde pública pela rápida explosão demográfica, tanto que em poucos anos eles serão a maioria no planeta. Juntamente com o aumento da população idosa podem ocorrer algumas patologias especificas para a faixa etária. A depressão é um episódio que tem uma incidência elevada nos indivíduos a partir dos 60 anos.

Essa pesquisa procurou identificar a prevalência da depressão em idosos que participam do projeto Conviver de Laguna Carapã-MS, levantando assim as características etiológicas da população em questão. A depressão é uma síndrome de etiologia multifatorial, com uma associação de fatores biológico, social e psicológico. Em fase tardia-velhice pode estar relacionada a alterações estruturais e funcionais do sistema nervoso central associado ou agravado por comorbidade.

Conforme os objetivos proposto na pesquisa, obtivemos que 21% dos idosos participantes do projeto Conviver de Laguna Carapã-MS tem depressão, sendo que 67% apresentou depressão leve e 33% apontou nível moderado.

Os resultados dessa pesquisa trouxeram conhecimento sobre uma parcela da realidade dos idosos que participam do projeto Conviver de Laguna Carapã-MS. Os dados levantados são úteis para todos os profissionais da área da saúde e podem contribuir no planejamento de práticas em relação à promoção, prevenção e intervenção na saúde dessa população. Para os profissionais da Psicologia, os resultados desta pesquisa contribuem para o diagnóstico da depressão e a possibilidade de tratamento com um enfoque multidisciplinar, pois as variações individuais da depressão exigem uma avaliação abrangente, a fim de proporcionar ao idoso seu máximo beneficio.

Sobre os Autores:

Mirian Arthman Lima - Acadêmica/ pesquisadora do curso de Psicologia da UNIGRAN. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Elizete Maria Bachi Comerlato - Graduada em Psicologia pela Universidade de Caxias do Sul, Especialista em Psicologia Clínica. Mestre em Ciência da Saúde pela Universidade de Brasília. Docente do curso de Psicologia da UNIGRAN e orientadora da pesquisa. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

BARUFFI, H. Metodologia de Pesquisa: manual para elaboração da monografia. 4. ed. Dourados: HBedit, 2004.

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BULCÃO, C. B. et al. Aspectos fisiológicos, cognitivos e psicossociais da senenscência sexual. Revista Ciência e Cognição,v. 57, n. 5, p. 38-42, 2004.

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