O Brincar como Ferramenta de Socialização e Formação de Vínculos em Crianças Institucionalizadas

Resumo: No presente trabalho acompanhamos a rotina das brincadeiras das crianças institucionalizadas, que vivem na instituição Lar Jesus Maria José, na cidade de Cássia – MG. Buscamos avaliar o papel do brincar como ferramenta para promover a interação entre as crianças e construção de vínculos. Segundo Papalia (2010, p. 291), “Brincar é o trabalho das crianças e isso contribui para todos os domínios do desenvolvimento. Por meio das brincadeiras, a criança estimula os sentidos, aprende como usar os músculos, coordena a visão com o movimento, obtém domínio sobre corpo e adquire novas habilidades”. No brincar, além dos aspectos do desenvolvimento físico e cognitivo, constroem suas relações e criam vínculos, conhecem o outro e se deixam conhecer, amenizando as carências causadas pelo afastamento da família. Utilizamos a técnica da observação, e trabalhamos com 23 crianças de 6 a 11 anos, de ambos os sexos. Interagimos com elas de forma espontânea, em seus momentos de recreação livre, e assim tivemos oportunidade de ver como se relacionam e como acolhem as novas crianças que chegam, e também a nós, adultos. Ao final do trabalho percebemos por nossa própria experiência, pelos laços que surgiram entre nosso grupo e as crianças da Instituição, que essa ferramenta é realmente efetiva – o brincar cria vínculos, e facilita a socialização.

Palavras-Chave: criança institucionalizada, brincar, socialização.

O brincar tem um papel muito importante na vida do ser humano. Para Miranda (2008, p. 7), “Todos gostam de brincar. Brincar é próprio do ser humano. A Antropologia registra que mesmo na pré-história, o homem construía seus brinquedos com materiais que lhe estavam disponíveis, como a argila e a pedra.” No lúdico a criança extravasa sua energia, constrói relações, faz representações sociais nas quais vivencia diversos papéis. Desenvolve suas potencialidades e se desenvolve em todos os aspectos.

Brincando a criança desenvolve seus potenciais, se relaciona com o mundo e tem chance de aprimorar seu desenvolvimento físico, cognitivo e psicossocial.

Segundo Papalia (2010, p. 291), “Os pesquisadores categorizam as brincadeiras de criança por conteúdo (o que a criança faz quando brinca) e por dimensão social (se ela brinca sozinha ou com outras crianças).

Enquanto brinca a criança demonstra muito do que vai em seu mundo interior. As brincadeiras escolhidas, as histórias favoritas, as dramatizações nas brincadeiras em que reproduzem o mundo adulto, mostram muito de suas carências e necessidades afetivas.

Segundo Papalia (2010, p. 292), “A princípio as crianças brincam sozinhas, depois ao lado de outras crianças, e finalmente juntas”.  Quando brinca sozinha,a criança também desenvolve algumas habilidades importantes, e isso não significa por si só uma dificuldade de relacionamento, podendo ser uma preferência momentânea por uma atividade que não seja compartilhada com outros, podendo demonstrar até mesmo maturidade e independência. Mas vemos ainda em Papalia (2010, p. 293), que “Em contrapartida, os jogos solitários em algumas crianças, podem ser um sinal de timidez, ansiedade, medo ou rejeição social”.

Pensando na criança institucionalizada, abrigada no Lar Jesus Maria José, nosso interesse foi perceber a capacidade de socialização que o brincar oferece, para que ela se sinta integrada, parte de um grupo. Buscamos compreender como vão montando suas redes de relacionamento, e criam uma estrutura que reproduz suas necessidades de vínculos familiares. Os mais velhos cuidando e protegendo os mais novos, as lideranças que surgem, a busca dos mais frágeis por proteção e aqueles de personalidade mais independente. Conforme Papalia (2010, p. 375), “Com seus amigos, a criança aprende a se comunicar e cooperar. Aprendem sobre si mesmas e sobre os outros. Uma ajuda a outra a suportar transições estressantes, como o começo em uma nova escola ou a adaptação ao divórcio dos pais.” Na fase tão delicada em que se encontram, as crianças institucionalizadas podem, dessa forma, encontrar nos novos amigos um importante referencial.

Acompanhamos as atividades recreativas planejadas pela Instituição, e também aquelas espontâneas, fruto da interação natural e da capacidade inata das crianças de se socializarem. Ali em meio aos folguedos, fazem amigos, constroem relações, aprendem a respeitar o direito dos outros e as normas estabelecidas pelo grupo.  Brincando, a criança estará buscando sentido para sua vida, e preenchendo lacunas importantes que a ausência da família pode lhes trazer. Sua saúde física, emocional e intelectual depende, em grande parte, dessas atividades.

As crianças na Instituição seguem uma rotina em que tem muitas oportunidades educativas e de aprendizado. Frequentam o ensino regular na Escola Pública, possuem atividades extracurriculares com aulas de reforço, música, artes e esportes, entre outras. Mas o brincar ainda continua sendo parte fundamental de sua expressão. Segundo Fritzen (2009, p.11) “Os jogos e as brincadeiras não tem outro objetivo imediato. Não servem para a produção em si e não tem outra utilidade, mas tem um sentido específico, qual seja: aliviar as tensões. Podemos encontrar ainda outra finalidade nos jogos e brincadeiras, a integração do grupo.”.

Conforme estudamos na teoria dos estágios do desenvolvimento psicossocial de Erikson, o primeiro estágio do desenvolvimento humano apresenta a crise confiança versus desconfiança básica, em que o bebê reage conforme os cuidados efetivos recebidos, sentindo-se confiante e seguro de que suas necessidades podem ser satisfeitas, quando esse cuidado é eficaz, ou prevalecendo a desconfiança, quando os cuidados são deficientes, e a criança passa a perceber o mundo como hostil e imprevisível, e pode vir a ter dificuldades para construir relacionamentos.

Um problema também importante para a criança é a questão do apego. Conforme Papalia (2010, p. 204), “Por um período mais longo do que os filhotes de outros animais, os bebês humanos dependem dos outros para obter alimento, proteção e para a sobrevivência." Diz ainda que “O apego é um vinculo recíproco e duradouro entre o bebê e o cuidador, cada um contribuindo para a qualidade do relacionamento.” PAPALIA (2010, p. 205).

Vemos assim que os efeitos do apego são de longo prazo, pois repercutem durante toda a vida na competência emocional, social e cognitiva do indivíduo. Nas crianças abrigadas, podemos observar como trabalham seus vínculos, e perceber como pode ter sido desenvolvido seus padrões de apego na primeira infância. Algumas trazem desde muito cedo consequências de situações de abandono e negligência sofridos, enquanto outras, mesmo vindo de uma primeira infância com cuidados eficazes, hoje se vêem colhidas pelas consequências da ruína do equilíbrio familiar.  

Na etapa em que se encontram, continuam tendo a necessidade do cuidado mais próximo, de alguém em quem possam depositar esse apego, na satisfação de suas necessidades. E encontram isso nos amigos, conforme nos diz Papalia (2010, p.375), “A amizade parece ajudar a criança a se sentir bem consigo mesma, embora também seja provável que crianças que se sentem bem consigo mesmas têm mais facilidade para fazer amizades. A rejeição por parte dos colegas e a falta de amizades na terceira infância poderá ter efeitos no longo prazo.” Por isso a importância de se estar atento a socialização e interação das mesmas, cuidando para que nenhuma criança se sinta excluída do grupo.

A Instituição, através de seus funcionários procura oferecer e reproduzir um ambiente o mais acolhedor possível, criando vínculos importantes entre os cuidadores e as crianças. Mas o bom relacionamento entre os pares, nesse caso, entre as crianças, pode representar um diferencial muito importante. Estão todos compartilhando a mesma experiência, carências afetivas comuns, fruto de situações familiares delicadas a que se viram expostas. E na adversidade se unem, construindo seus vínculos com os novos irmãozinhos.

Na Instituição existem irmãos consanguíneos que se encontram abrigados juntos, e se percebe neles esse impulso natural do mais velho cuidando do mais novo. Mas daqueles que vem de famílias diferentes, também se pode perceber que naturalmente estabelecem laços semelhantes, onde aparecem protetores e protegidos.

Na recreação livre e nas brincadeiras esses vínculos e novas relações de apego se formam. Todos participam, não há excluídos. Reciclam ali suas emoções, num contato mais próximo, desenvolvem sua sociabilidade, e constroem relações de afeto. Para elas o brincar se torna algo muito mais importante que a recreação em si, pois é a chance que tem de extravasar suas emoções, e tornar um pouco mais leve a experiência humana em que se encontram: frágeis e pequeninos, aprendendo a lidar com conflitos tão sérios advindos de suas relações familiares. Na etapa da terceira infância, que enfocamos em nossa observação, da criança dos 6 aos 11 anos, podemos observar que elas aprendem muito sobre lidar com suas próprias emoções, como assevera Papalia (2010, p. 359), “Elas aprendem a diferença entre ter uma emoção e expressá-la. Aprendem o que as deixa com raiva, medo ou tristes, e como as outras pessoas reagem à expressão dessas emoções.” E na recreação livre podem se conhecer e se dar a conhecer pelo outro.

Ao final do trabalho percebemos por nossa própria experiência, pelos laços que surgiram entre nosso grupo e as crianças da Instituição, que essa ferramenta é realmente efetiva – o brincar cria vínculos, e facilita a socialização.

Sobre os Autores:

Ailton Donizetti Rodrigues - Aluno do Curso de Psicologia da Universidade de Franca, Cursando o 4º Semestre da disciplina Laboratório de Pesquisa II

Bruna Ferreira Santos - Aluna do Curso de Psicologia da Universidade de Franca, Cursando o 4º Semestre da disciplina Laboratório de Pesquisa II

Kauany Marangoni Arantes - Aluna do Curso de Psicologia da Universidade de Franca, Cursando o 4º Semestre da disciplina Laboratório de Pesquisa II

Joanir Sarmento - Aluno do Curso de Psicologia da Universidade de Franca, Cursando o 4º Semestre da disciplina Laboratório de Pesquisa II

Joelma Dos Reis Souza - Aluna do Curso de Psicologia da Universidade de Franca, Cursando o 4º Semestre da disciplina Laboratório de Pesquisa II

Sérgio Andrade Da Silva - Aluno do Curso de Psicologia da Universidade de Franca, Cursando o 4º Semestre da disciplina Laboratório de Pesquisa II

Prof. Dra. Ana Paula Barbosa - Professora Orientadora do Projeto, Docente do Curso de Psicologia da Universidade de Franca, Especialista em Didática, Mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos, Doutora em Serviço Social pela Unesp de Franca.

Referências:

FRITZEN, Silvino José. Jogos Dirigidos. Petrópolis: Vozes, 2009.

MIRANDA, Simão de. Faça seu próprio brinquedo. 5. ed. - São Paulo: Papirus, 2008.

PAPALIA, Diane E., OLDS, Sally Wedkos e FELDMAN, Ruth Duskin. Desenvolvimento Humano. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010.

RODRIGUES, W. C. Metodologia Científica. Paracambi: FAETEC/IST, 2007.