O Ciúme na Infância como Constitutivo do Sujeito

Resumo: Este estudo refere-se ao trabalho de conclusão de curso cuja pesquisa qualitativa e bibliográfica teve como objetivo estudar o ciúme enquanto constitutivo do sujeito, dentro de uma visão psicanalítica, em que se recorreu a livros científicos de autores, como Freud (1922), Winnicott (1983), Melaine Klein (1960), Lachaud (2001), Botura(2003) que discorreram a  respeito do assunto. Inicialmente, discutiu-se a importância da vida afetiva. Para tanto, foi visto o conceito e origem do ciúme normal, e do ciúme patológico, refletindo suas repercussões nas relações amorosas; em especial, discutiu-se sobre as formas devastadoras do ciúme patológico. A esse respeito, pode-se dizer que o ciúme origina-se nas relações primárias, tanto o normal, quanto o patológico, e que o mais severo é o ciúme patológico, cujas principais causas advêm de problemas emocionais, muitas vezes gerados na infância. Por fim, discutiu-se o ciúme enquanto sintoma, nas relações familiares, até as relações amorosas, e suas formas de intervenções. Contudo, é preciso conhecer mediante estudos e pesquisas o ciúme, onde se contextualiza a questão, tomando a psicanálise como possibilidade de compreensão das diferentes formas que o mesmo se apresenta ao longo do ciclo vital. Para que se possa compreender tal sentimento e suas implicações na vida afetiva, é necessário ficar atento sobre o ponto de vista das intervenções clínicas, a fim de entender o sujeito que sofre os efeitos negativos do ciúme. Constata-se então a necessidade de novas investigações sobre o ciúme, considerando, a importância de que desde a infância esse afeto seja direcionado como fundamental na constituição subjetiva da criança.

Palavras-chave: ciúme infantil, ciúme patológico, subjetividade.

1. Introdução

"Os amantes que confiam no ciúme para preservar o seu amor, ou são demasiado ingênuos ou são por demais confiados.” (Miguel de Cervantes)

O presente estudo refere-se a um trabalho de conclusão de curso que trata de uma pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e teve como objetivo investigar e entender à luz da teoria psicanalítica como o ciúme tem suas origens e repercussões na constituição da subjetividade do sujeito e quais suas possíveis manifestações nas relações familiares e amorosas, da infância e fase adulta.

Justifica-se este estudo pelo fato de o ciúme despertar o meu interesse pela constatação de que, frequentemente, os indivíduos procuram um relacionamento amoroso buscando se apossar um do outro, como se fossem propriedade privada, o que se transforma numa relação egoísta, onde só há lugar para o casal na relação amorosa e mais ninguém. De tal modo, para muitos autores, o ciúme se transforma num sentimento cruel, selvagem, quase sempre tirânico e em muitos casos, devastador para a personalidade de quem o experimenta.

Na experiência clínica, o analista depara-se com muitas queixas, decorrentes de infidelidade, insegurança e traição. Geralmente, esses sentimentos estão diretamente relacionados ao ciúme, tornando-se importante esclarecer sua origem, por este encontrar-se intrinsecamente ligado às relações amorosas.

Por o ciúme está sempre presente nas várias relações dos seres humanos, desde as relações primárias até, de modo especial, nas relações amorosas adultas, como afirma Lachaud (2001, p.26).

Movidos pela pulsão de morte o ciúme esta presente também no cotidiano, na literatura, na obra, no cinema, nos mitos. Assim, é importante salientar que, na mitologia e na literatura, verificam-se alguns escritos que falam a respeito do ciúme, permanecendo como fonte de inspiração para diversos autores, dos poetas aos compositores, dos escritores de ontem aos dos dias atuais.

Diante do exposto, nota-se que o ciúme não poderia ser encarado apenas como uma simples forma de demonstração de amor, como é muitas vezes propagada em nossa sociedade. Porém, se apresenta de forma tirânica e limitadora, até sua expressão, mais natural, como Freud (1989) afirma, não é completamente racional; encontra-se enraizado no inconsciente e ligado ao Complexo de Édipo, presente nas relações fraternais, iniciando-se desde as manifestações da vida emocional, estendendo-se por toda a vida do indivíduo.

É muito fácil encontrar alguém comentando acerca do ciúme, ou até mesmo reconhecer alguém que sinta ciúme, podendo ser um colega de trabalho, um vizinho, ou um amigo; é tema recorrente em muitas histórias do dia-a-dia, sendo ele evidenciado, cada vez mais, no cotidiano da prática clínica.

O ciúme tem demonstrado ser um grande devastador dos relacionamentos amorosos, tanto para indivíduos que o sentem, quanto para os que são suas vítimas. Todos sofrem por um sentimento que destrói, muitas vezes sem motivo aparente nem propósito, já que podem ser fruto da imaginação, fantasiado, baseado em atitudes e gestos que não existem, levando o que experimenta a vigiar e perseguir, seu objeto de ciúme, na tentativa de encontrar indício, algum resquício da existência de traição.

Muitas vezes o ciúme só existe na imaginação, surgindo assim à dúvida e a desconfiança, de tudo e de todos, passando a fazer parte da personalidade do indivíduo. Portanto, é um sentimento que está presente nas estruturas da personalidade do ser humano, seus efeitos e formas dependem diretamente de cada organização psíquica, variando na forma que se expressam e na maneira como cada indivíduo lida com ele. Os episódios de ciúmes são, muitas vezes, provocados de uma forma intensa de sofrimento existencial.

O indivíduo enciumado busca a preservação do relacionamento. Já no caso do ciúme patológico, não existe justificativa para nada; tudo acontece no sentido de acusar o outro, geralmente sem qualquer prova que realmente o condene. 

O ciúme é relatado por alguns autores como de natureza afetiva; trata-se de uma manifestação afetiva do “eu”, operando através de um mecanismo emotivo e não racional. Com a finalidade de atingir os objetivos pretendidos, considerando a importância do tema dividimos em três capítulos, que a seguir apresentamos, pretendendo expor de que forma procedemos ao estudo.

No primeiro capítulo, intitulado O Ciúme e suas repercussões na constituição da subjetividade infantil, discute-se acerca da importância da vida afetiva, conceituando o ciúme e a sua origem. No segundo capítulo, denominado de Ciúme patológico nas relações amorosas, aborda-se sobre o conceito de ciúme patológico e suas formas devastadoras sobre a personalidade. No terceiro e último capítulo, Da escuta clínica a intervenções, passando pelos desdobramentos das relações familiares à amorosas e sua possibilidade de intervenção.

2. O Ciúme e suas Repercussões na Constituição da Subjetividade Infantil

“Todos nós somos ciumentos em maior ou menor grau. A diferença está em como cada um encara este sentimento. (Willy Pasini)

Neste capítulo, iremos abordar a importância da vida afetiva para a constituição da subjetividade do ser humano, com ênfase no sentimento de ciúme que se desenvolve na criança, dentro da perspectiva kleiniana, a partir de sua vivência do complexo de Édipo e em situações de rivalidade fraterna. Inicialmente, discutiremos a importância dos sentimentos e emoções responsáveis pela geração de afetos. Em seguida, discutiremos o conceito de ciúme na visão de alguns teóricos e, na seqüência, a origem do ciúme na infância, que se estabelece na relação mãe-bebê.

2.1 A importância das emoções e sentimentos na construção das relações afetivas

Os afetos fazem parte da vida afetiva humana; eles se expressam através dos nossos desejos, sonhos, fantasias, expectativas, nas palavras, nos gestos, no que fazemos e no que pensamos; é o que nos faz viver. (BOCK; GONÇALVES; TEXEIRA, 2002). Os afetos são parte integrante de nossa subjetividade; as nossas expressões só podem ser entendidas a partir dos afetos que as acompanham, pois são constitutivos da vida afetiva que abarca estados de prazer e desprazer, como por exemplo, a angústia, a dor, o luto, a alegria, entre outros.

A vida afetiva é composta de emoções e sentimentos, o termo emoção, no seu uso comum tende a se confundir com a noção de sentimentos, apesar de ligados, torna fácil confundi-los, mas é possível distingui-los.

Para compreendermos melhor a ligação entre emoção e sentimentos, é importante nos apropriarmos da terminologia adequada à compreensão de uma temática repleta de tantas sutilezas. Começaremos a indagar o que são as emoções, pois elas parecem preceder os sentimentos e constituir o seu alicerce.

A palavra “emoção” deriva-se do latim emovere, que significa “mexer, agitar ou excitar”. As emoções refletem-se tanto no comportamento quanto na experiência subjetiva do indivíduo. Assim tem componentes subjetivos, fisiológicos e comportamentais dos quais as pessoas estão conscientes (BACELAR, 1998).

Nas emoções é possível observarmos uma estreita relação entre os afetos e a organização corporal; ocorrem reações orgânicas, modificações no organismo como: distúrbios gastrointestinais, cardiorespiratórios, sudorese, tremor. As emoções são muitas, a exemplo de: surpresa, raiva, nojo, medo, vergonha, tristeza, desprezo, alegria, ciúme, tensão. Elas são muito mais difusas, por serem expressões afetivas de reações intensas ou breves do organismo a acontecimentos ocorridos de forma espontânea ou não (BOCK; GONÇALVES; TEXEIRA, 2002).

Já os sentimentos são diferentes das emoções por ter características mais duradouras e não vir acompanhados das reações orgânicas, assim pode-se considerar a amizade, o amor parte desse mesmo afeto. Para Campos (1984), em seu livro Introdução à psicologia: Emoção é uma reação global, intensa e breve, do organismo a uma situação inesperada, acompanhada de um estado afetivo de tonalidade agradável ou dolorosa. Ele diferencia emoção de sentimentos, afirmando que: Sentimento é um estado afetivo complexo resultante da combinação de elementos emotivos e imaginativos, mais ou menos claros, estável, e que persiste mesmo na ausência de qualquer estímulo.

Portanto, é através dos sentimentos e emoções, que poderemos compreender o mundo e todas as manifestações de nossas vidas. A seguir, iremos abordar uma das emoções mais comuns e, por vezes, difícil de traçar, é o ciúme, que, normalmente, manifesta-se através de um conjunto de emoções desencadeadas por sentimentos, e no contexto do presente estudo, abordaremos as especificidades do ciúme presente na relação mãe-bebê e na tríade edipiana.

2.2 Conceituando o ciúme

Dentro da vida afetiva humana, o ciúme é uma representação de emoções e sentimentos, vivenciados por várias pessoas. Não é difícil escutar alguém falando que sente ciúmes ou que conhece alguém que o sinta; um vizinho, um amigo, sempre é possível escutar diversas histórias a respeito desse tema.

Discutiremos o conceito do ciúme na perspectiva de vários teóricos. Segundo Dorin (1978), o ciúme é um estado emocional caracterizado pela ansiedade, sentimento de amor e desejo de obter a segurança e a ternura que uma segunda pessoa demonstra a uma terceira. Já para Ferreira-Santos (2003), o ciúme é considerado como um desejo que uma pessoa sente pela outra, podendo ser um sentimento bom, de zelo pela pessoa pela qual tem amor. Uma distorção desse zelo, que etimologicamente está ligada ao sentimento de ciúme, que vem do latim zelumem e do grego zelus, não se trata de um sentimento voltado para o outro, e sim para si mesmo, pelo medo que este sente de perder o outro ou a exclusividade sobre ele.

Sendo assim, o ciúme pode ser tanto bom quanto ruim. Isso não depende do que sentimos mais do que fazemos e de como agimos em relação a esse sentimento. Geralmente, quanto mais nos importamos com a pessoa que se tem zelo, cuidado, amor, maior será a possibilidade de sentimos ciúmes, conforme esse sentimento aumente mais ele irá sugerir posse. Esse sentimento esta presente em todas as estruturas de personalidade, suas formas e seus efeitos variam na maneira de se expressar de cada indivíduo.

Para Freud (1989), o ciúme é um estado afetivo, descrito como normal e que desempenha um papel intenso na vida inconsciente do sujeito. De fato, ele acreditava que aqueles que pensavam ser livres do ciúme, possivelmente estariam reprimindo esse sentimento, colocando-os fora de sua vida consciente. Como consequência disso, o ciúme estaria num nível inconsciente de comportamento, podendo emergir repentinamente, e dessa forma tornar-se perigoso, passando de um estado normal, para um patológico. Para Freud, todos os sujeitos são conhecedores desse sentimento, e que o ciúme só passa a ser patológico quando nos recusamos a lidar com ele de uma maneira racional.

Com base nas considerações, o ciúme pode apresentar diferentes formas de manifestações, normal e patológica. Segundo Alves (2001), o ciúme constitui-se, em geral, sob a forma ou conteúdo irracional, injustificável, imotivado, isto é, sem causa ou razão psíquica verdadeira, real para a sua conduta.

Portanto, para o autor, esse sentimento é considerado irracional, manifestando-se na forma patológica, ou seja, originado de fantasias, de imaginações, de dúvidas, onde idéias não condizem com a realidade e tornam-se delirantes, é o mais perigoso e que merece mais atenção e cuidado. Sendo assim, o ciúme considerado normal, é quando o ciumento busca preservar o relacionamento, e o patológico, é quando não há justificativa para as idéias delirantes do ciumento. Segundo Buscaglia (1984, p.130);

O ciúme é uma sensação natural e normal. Todos os que amam e se importam sentirão ciúme uma vez ou outra. A decisão essencial é se você permitirá que o ciúme se torne um monstro consumidor, capaz de destruí-lo e aqueles a quem você ama, ou se ele se tornará um desafio ao crescimento de seu autorrespeito e autoconhecimento.  

O autor refere-se ao ciúme como uma sensação normal, que a pessoa sente em relação à outra. Para ele, somos os responsáveis por nosso ciúme, que na maioria das vezes, é um produto da nossa insegurança pessoal e de pouca auto-estima, pois temos pouco para dar, do que o objeto do nosso ciúme. As pessoas que se apegam a esse sentimento destroem a si mesmas e também a outra pessoa. O ciume só diminui quando recuperarmos um sentimento de valor e autorrespeito, e também quando aceitarmos o fato de que nunca poderemos possuir o outro ser humano.

Para termos um entendimento melhor sobre o tema, já que este faz parte da constituição subjetiva do ser humano, abordaremos a origem do ciúme na infância numa perspectiva psicanalítica.

2.3 A origem do ciúme na infância numa visão psicanalítica

Considerando-se que os afetos são importantes para a constituição da subjetividade humana e o fato de termos, selecionado o sentimento de ciúme inerente ao ser humano, iremos aprofundar o tema abordando a origem do ciúme na infância, segundo a teoria psicanalítica, onde as primeiras manifestações do ciúme podem ocorrer na fase mais primitiva do bebê.

Iremos nos respaldar em Melaine Klein (1960, p.83) quando diz:

No começo ele ama a mãe no momento em que ela satisfaz suas necessidades de alimento, alivia suas sensações de fome, e lhe oferece o prazer sensual quando sua boca é estimulada pelo sugar do seio.

Para a autora, o primeiro objeto de amor e ódio do bebê é a mãe. É ela que supre as necessidades básicas da criança, como a sensação de fome, mas quando suas necessidades não são gratificadas, elas despertam sentimentos agressivos de ódio e impulsos de destruição da pessoa amada. A forma de aliviar esses sentimentos dolorosos de fome, dor e desprazer é satisfazendo esses desejos, assim, o bebê sentirá uma sensação de segurança. Aplica-se isso ao bebê tanto quando ao adulto. Por ser nossa mãe a satisfazer em primeiro lugar a nossa necessidade de autopreservação, desejos sensuais, dando-nos a sensação de segurança, tornam-se então duradouros em nossa mente este desempenho que ela exerce em nossa vida, mesmo não sendo evidente na fase adulta. Por exemplo: um homem torna-se alienado de sua mãe e busca, inconscientemente, no relacionamento com a sua esposa aspectos primitivos vivenciados com sua mãe.

Ela ainda afirma que, os pais têm grande importância na vida emocional da criança e influenciam todos os relacionamentos amorosos e associações humanas. Os sentimentos de amor e ódio do bebê podem persistir até a fase adulta podendo tornar-se uma fonte de perigo nos relacionamentos humanos. Quando bebê, temos uma grande capacidade de fantasiar; por exemplo: quando o seio materno não estiver presente para saciar o desejo de fome, a criança pode imaginar a presença desse seio e a satisfação que dele deriva, ou seja, ele imagina a gratificação que lhe falta; mas, quando em suas fantasias lhe falta esta gratificação, ele tem fantasias de agressividade contra esse seio da mãe e tem desejo de morder e despedaçar. E também é possível, em suas fantasias, ter sentimentos de restauração desse seio.

Esses conflitos básicos influenciam a vida emocional de indivíduos adultos. Melaine Klein (1960, p.100), diz que: “A psicanálise de adultos revelou-me que os efeitos dessa primitiva vida de fantasias são duradouras, influenciando profundamente a mente inconsciente do adulto”.

Ela considera que na vida adulta os relacionamentos amorosos tendem a ser satisfatórios, quando a mulher tem uma atitude maternal para com o homem, satisfazendo os seus desejos primitivos pela gratificação que desejaria ter recebido de sua própria mãe. O homem, por sua vez, desempenha um papel de figura protetora e capaz de ampará-la, tal como seu pai o era, na vida primitiva infantil da mulher. Se ambos, foram capazes de sentimentos de amor para com os parceiros e para com os filhos, é possível deduzir que na infância provavelmente tiveram um bom relacionamento com os pais e também com os irmãos, portanto, mostraram-se capazes de lidar satisfatoriamente com seus desejos de ódio contra eles.

Melaine Klein (1960) ainda assevera que os primeiros sentimentos de ciúme e ódio vêm desde a fase infantil e perdura até a fase adulta, na infância, a menina tem sentimentos primitivos de ciúmes para com a mãe na qualidade de rival no amor do pai, e o menino, pelo pai, como rival do amor da mãe. Outra visão importante que Klein traz é quando fala do ciúme como uma manifestação da inveja, diz que a inveja é do plano do imaginário e o ciúme da ordem do simbólico, sendo que se origina no Complexo de Édipo.

De acordo com Melanie Klein o Édipo é uma constatação de uma falta, de uma incompletude, ou seja, é uma rejeição que a criança sofre ainda no útero ou após o nascimento, é a falta de afeto que a mãe tem com o bebê, a falta de cuidado nos primeiros anos que causarão marcas psicológicas e sociais.

A autora acredita que por ser a inveja da ordem do imaginário, para passar ao desejo era preciso ser interrompida pela castração, uma vez que esta nos liga aos vínculos sociais. Para ela, o ciúme é uma manifestação da inveja e se origina na primeira infância. De acordo com Klein, (1991, p.66):

A inveja aparece como inerente à avidez oral... alternando com os sentimentos de amor e gratificação, ela está primeiramente dirigida para o seio nutriente. A inveja é o sentimento raivoso de que outra pessoa possui e desfruta algo desejável, sendo o impulso invejoso o de tirar esse algo ou estragá-lo. Além disto, a inveja pressupõe a relação de um individuo com uma só pessoa e remonta a mais arcaica e exclusiva relação com a mãe.

Dessa forma, ela interpreta que o ciúme sentido por uma mulher, em relação ao seu parceiro é decorrente da inveja sentida inconscientemente por outra mulher, por está representar a figura materna.

A seguir, serão abordadas as primeiras manifestações de ciúme originado no Complexo de Édipo.

2.4 O ciúme e sua relação com o Complexo de Édipo

Segundo a teoria psicanalítica, as manifestações do ciúme ocorrem na primeira infância, precisamente quando uma criança de dois anos, por exemplo, ganha um irmãozinho ou irmãzinha. Esta por estar acostumada a ter o afeto, o carinho, a atenção dos pais só para si, percebe que não está mais sendo o centro das atenções e desenvolve o sentimento de ciúme para com os pais em relação a seu novo irmão (ã).

De acordo com Ferreira-Santos, (2003, p.25):

O comportamento dos pais, se não for cuidadoso, pode intensificar o ciúme do filho, marcando-o para o resto da vida, Pode acontecer de o ressentimento e as inseguranças geradas nessas situações tornarem a criança uma pessoa hesitante e hostil a todas as situações da vida que venha a enfrentar, mesmo quando adulto... E isso pode se intensificar ainda mais quando os pais, inconscientemente, demonstram clara predileção por um dos filhos, em detrimento do outro.

A criança pode assumir atitudes de total desprezo pelo irmão (ã), até cometer violências, como beliscões, mordidas, e no caso mais patológico, tentativas de eliminação física.

Freud (1985) acreditava que as primeiras manifestações do ciúme estavam no início do que ele chamou de Complexo de Édipo, que desempenha papel fundamental na estrutura da personalidade e na maneira como o comportamento adulto se desenvolve.

O Complexo de Édipo para Freud (1985) são desejos amorosos bastante hostis que a criança vivência em relação aos pais na fase fálica, ou seja, na idade de três e cinco anos. Tais sentimentos conduzem a culpa e desejo de fazer o bem, tanto nos relacionamentos com os irmãos quanto com as outras pessoas que se relacionará no desenvolvimento de sua vida.

Já Lacan, afirma que o ciúme se origina antes do Complexo de Édipo, descobrindo sua origem no desmame e na intrusão de outro, por exemplo, do irmão mais novo. Para Lacan (1966, p.114), o ciúme é um sentimento ligado a um tipo bem particular de experiência: “... uma identificação com o irmão pendurado no seio da mãe.” Isso propõe o conhecimento somente através da imagem projetada no semelhante. A visão do outro permite saber algo de si mesmo e auto-reconhecimento como sujeito. No texto sobre o Estádio do Espelho (1937), Lacan fala sobre a identificação à imagem do semelhante e no artigo Os Complexos Familiares (1938), este outro já não é mais imagem e sim presença encarnado no irmão menor lactante, que remete o mais velho há um tempo anterior e já recalcado pelo desmame.

A figura desse irmão pode ser odiada ou pode ser objeto de identificação, enquanto assegura um eu próprio pela diferença de posições. É o que permite Lacan (1938, p.39) afirmar que “o irmão fornece o modelo arcaico do eu”. Para ele, a relação fraterna é importante para o imaginário do sujeito, principalmente no que ele denominou de ciúme infantil. Como ele mesmo assevera “O eu se constitui ao mesmo tempo em que o outro no drama do ciúme” (LACAN, 1938, p.39). Ele afirma também que se o ciúme não existe com a presença de um irmão, ele aparecerá na fase adulta como solução de continuidade. Nesse caso não haverá uma posição identificatória, já que o surgimento do irmão não repercutiu em um ciúme correspondente.

Já para Melaine Klein (1960), os conflitos de amor e ódio se manifestam na tenra infância e mantêm-se ativos até a vida adulta. Esses conflitos têm início com o relacionamento que se estabelece no amamentar e posteriormente com as sensações genitais. Quando criança, tanto o menino como a menina despertam desejos inconscientes pelos pais; a menina, pelo genital do pai, desejando-o intensamente, querendo conquistar inconscientemente o lugar da mãe e tornando-se mulher do seu pai. Na menina, começa a despertar um sentimento de ciúme dos filhos que a mãe possui e deseja que o pai lhe dê bebês.

No caso do menino, ocorre algo semelhante ao da menina; este desperta cedo sentimentos de desejos genitais pela mãe e sentimentos de ódio pelo pai.

Melaine Klein (1960, p.90) afirma que: “A criança revela também um intenso sentimento de ciúme para com os irmãos e irmãs, na medida em que se apresentam como rivais no amor dos pais.” A criança desperta um intenso sentimento de ciúme para com os irmãos, pois acham inconscientemente que estes se apresentam como rivais no amor dos pais e assim despertam conflitos entre impulsos agressivos e sentimentos de amor.

Afinal, o ciúme é um sentimento de apego com a figura de posse, quando surge um rival esse sentimento de posse tende a se intensificar para assegurar a figura a que se tem medo de perder.

No próximo capítulo, iremos abordar as conseqüências desse sentimento de posse exagerada para com o sujeito que se tem ciúmes, dando ênfase na diferença do ciúme normal e patológico na visão de autores psicanalistas.

3. Ciúme Patológico e Relações Amorosas

"Os ciumentos sempre olham para tudo com óculos de aumento, os quais engrandecem as coisas pequenas, agigantam os anões e fazem com que as suspeitas pareçam verdades.” (Miguel de Cervantes)

Como já visto anteriormente, o ciúme é um sentimento doloroso, que se limita a um amor possessivo, em que o parceiro (a) toma o outro como sua propriedade, tendo medo de perdê-lo, tornando a relação intranqüila e insegura. A seguir, falaremos sobre a definição do ciúme patológico e de suas devastadoras conseqüências.

3.1 O ciúme patológico

Sendo considerado como ciúme patológico, também conhecido como a “Síndrome de Otelo”, em referência ao personagem Shakesperiano que, atormentado pelo adultério suspeitado, mata a esposa estrangulada e, não satisfeito com tamanho drama, crava um punhal no próprio peito. Esse tipo de ciúme leva a pessoa a cometer atos de agressividade física, configurando aqueles casos que recheiam as crônicas policiais de suicídios e homicídios passionais.

Em alguns casos, o ciúme pode ser considerado uma má estruturação da autoestima que pode refletir em estados neuróticos. Já os casos como o da “Síndrome de Otelo”, são considerados casos de patologias graves, como psicoses. Segundo Cavalcante (1997, p.24),

Essa insegurança que o ciúme gera teria por base os processos de idealização. O amoroso criaria uma imagem do amado, nem sempre fundamentada no real. Se começa a não existir uma correspondência dessa idealização, a desconfiança e o ciúme se instalam.

Relações em que há sentimentos de posse podem levar o sujeito a cometer um crime pela não submissão da pessoa que este tanto ama. Desta maneira, o complexo de ciúme é um sentimento que leva ao sofrimento de quem o sente e de quem padece nas mãos de um ciumento agressivo. Quanto maior e menos controlável, a pessoa considerada ciumenta, não sente consciência desse sentimento, permanecendo em alerta o tempo todo, sempre tenso, aflito, procurando uma forma de confirmar suas suspeitas, vasculhando bolsos, seguindo a pessoa, checando ligações telefônicas, o que causa um grande mal-estar na relação. Nestes casos, o que ocorre com a pessoa que tem o ciúme patológico é que esta quer ter o controle total sobre os sentimentos e comportamentos do amado. Ainda para Cavalcante, (1997, p.45).

No delírio de ciúme (ciúme patológico) do paranóico dizemos que a suspeita sobre a infidelidade do conjugue se instala a partir do gesto, de um olhar, de um aperto de mão julgados insólitos, mais significando algo sobre ele e um terceiro, e torna-se logo uma convicção total.

 Segundo o autor, é patológico quando é destrutivo e sufocante, estando sempre presente nas relações, quando há um desejo muito grande de controlar os sentimentos e comportamentos do companheiro; assim, as dúvidas se transformam em idéias delirantes, tornando-se real, sem que o fato tenha acontecido.

Há também uma grande preocupação com relacionamentos anteriores; ciúme do passado dos parceiros, o que pode ocorrer na forma de pensamentos repetitivos, imagens intrusivas e ruminações sem fim sobre fatos de outrora e seus detalhes (CAVALCANTE, 1997). Esse sentimento de angústia de perda do parceiro para um rival seja ele real ou imaginário, essa desconfiança infundada de que está sendo traído, é o que causa um desgaste nos relacionamentos interpessoais. “O ciumento não perdoa e não confia. Se lhe faltam motivos no presente, busca-os no passado e até no imprevisível futuro, ainda que ilusórios, que é fruto de uma imaginação atormentada” (ROSA, 2005, p. 19).

O ciúme patológico, então, corresponde a uma preocupação absurda e emancipada do contexto. Enquanto no ciúme não patológico, o maior desejo é preservar o relacionamento, no ciúme patológico haveria o desejo inconsciente da ameaça de um rival (CAVALCANTE, 1997).

O indivíduo ciumento convive com as exigências de um amor possessivo, por medo ou risco de perda do objeto amado (CAVALCANTE, 1997). Por esse motivo, as pessoas se sentem inseguras e com medo de serem excluídas da vida da pessoa amada. Para o autor, ciúme patológico consiste em: uma perturbação total, um transtorno agressivo grave. O ciumento sofre em seu amor, em sua confiança, em sua tranquilidade, em seu amor próprio, em seu espírito de posse. 

O ciúme patológico pode ser considerado um sentimento que causa emoções naturais e também distúrbios mentais; pessoas que são portadoras desse tipo de ciúme custam a perceber que se trata de uma doença, da qual pode levar a pessoa a cometer atitudes inadequadas que poderá se arrepender, pedindo, muitas vezes, desculpa a pessoa amada pela atitude tomada; tais atitudes podem ser agressões, telefonemas surpresas, chegar a casa sem avisar, seguir o (a) companheiro (a), contratar detetives, examinar bolsos, roupas intimas, etc. Às vezes, a pessoa ciumenta odeia a si mesma por não conseguir se controlar e expor-se a um comportamento ridículo e criticável, o que repercute sobre a sua autoestima. Para alguns autores, o ciúme patológico é considerado um sintoma de um quadro obsessivo-compulsivo, vivenciados por pensamentos excessivos, irracionais e intrusivos que podem levar aos comportamentos compulsivos.

O ciúme, em suas formas mais cruéis, está entre as paixões responsáveis pela infelicidade no relacionamento das pessoas. Para Freud (1989), o ciúme normal, que é parte da estruturação psíquica, é decorrente de um pensar causado pelo sofrimento, real ou imaginado, de perder ou vir a perder o objeto amado para outra pessoa. Este tipo de ciúme pode se intensificar e causar níveis intoleráveis de sofrimento. Segundo Freud (1989, apud FERREIRA-SANTOS, 2006), uma das causas do ciúme é a projeção que o ciumento faz no outro, de seu próprio desejo de infidelidade. O autor considera que no matrimônio a fidelidade é ameaçada por tentações contínuas. Através do ciúme de caráter projetivo, um dos parceiros deposita no outro suas tentações e impulsos inconfessáveis, de modo a aliviar-se de suas auto-recriminações e culpa inconsciente. Ou seja, o ciumento acha que está sendo traído, mesmo não havendo evidência. “O maior sofrimento do ciumento é a incerteza em que vive pela impossibilidade de saber, com segurança, se o (a) parceiro (a) o engana ou não” (CAVALCANTE, 1997, p. 24).

Assim, o ciúme é um transtorno afetivo que destrói os relacionamentos amorosos; é sempre uma ameaça perturbadora para aquele que o tem.

A pessoa que o sente de forma intensa, muitas vezes age por impulso, não suporta a dor do sofrimento e mata a pessoa amada com medo de perdê-la para alguém e muitas vezes tentam o suicídio para se livrar da culpa por matar o cônjuge.

O ciúme como já visto anteriormente, é um sentimento doloroso que se limita às exigências de um amor possessivo, fazendo àquele por ele acometido tomar o parceiro (a) como sua propriedade por medo de perdê-lo (a), tornando a experiência amorosa insegura e intranquila.

Essa insegurança que o ciúme gera teria por base os processos de idealização. O amoroso criaria uma imagem do amado, nem sempre fundamentada no real. Se começa a não existir uma correspondência dessa idealização, a desconfiança e o ciúme se instalam (CAVALCANTE, 1997).

Sobre o ciúme patológico, Alves (2001) afirma que a idealização e a desconfiança acontecem porque o ciúme é uma manifestação de um profundo complexo de inferioridade, sintoma de imaturidade afetiva e de um excessivo amor próprio. Dizendo de outra forma, o ciumento não se sente somente incapaz de manter o amor e o domínio sobre a pessoa amada, de vencer ou afastar qualquer possível rival, mas, sobretudo, sente-se ferido e humilhado em seu amor-próprio.

É importante destacar, de acordo com Cavalcante (1997), que estes comportamentos têm forte correlação com o modelo parental, ou seja, a forma como viviam os pais do ciumento. Em muitos casos, segundo o autor, pode-se evidenciar o tipo de relacionamento que o paciente herdara de seus genitores, onde predominavam a insegurança, a traição e a desconfiança. E isso se elucida no sujeito em idade adulta.

Para Bezerra (1999), o ciúme é desencadeado por sentimentos que ameaçam a estabilidade e a qualidade de um relacionamento íntimo valorizado. Sendo, para ele, fundamental a presença de três elementos essenciais: ser uma reação frente a uma ameaça percebida; haver um rival real ou imaginário; e, finalmente, a reação visa eliminar os riscos da perda do objeto amado.

Para Cavalcante (1997) é patológico, quando é destrutivo e sufocante, aparecendo constantemente e permanecendo sempre crescente. Quando há um grande desejo em controlar totalmente os sentimentos e comportamentos do companheiro; assim, as dúvidas se transformam em idéias supervalorizadas e delirantes, transformando a suspeita em realidade sem que nenhum fato evidente tenha acontecido. Quando a questão se torna patológica, não há como deixar de reconhecê-la como tal. Menos para o acometido pela situação que, envolvido em sua imaginação delirante, não pode perceber essa perda de contato com a realidade.

Freud (1989) explica que o ciúme anormalmente intenso pode ser descrito sob três camadas: o normal, o projetado e o delirante. A primeira, considerada normal se origina em mecanismos inconscientes, que visam resguardar o sujeito de um sentimento maior de dor. É composto essencialmente do sofrimento causado pelo pensamento de perda do objeto amado e da ferida narcísica, decorrente do Complexo de Édipo.

Apesar de Freud (1989) considerar esta forma de ciúme como normal, ela não se apresenta completamente racional, como explicado anteriormente, uma vez que se acha intimamente arraigada no inconsciente, estando ligada ao Complexo de Édipo e às relações fraternas desde as primeiras manifestações da vida emocional e sexual da criança.

A segunda camada seria o ciúme originado da projeção. Freud (1989) viu que essas pessoas depositavam no parceiro seus próprios desejos de infidelidade, ou a sua atração homossexual pelo suposto rival. Esta procede tanto nos homens quanto nas mulheres, estando relacionada à vivência da triangulação edipiana e suas implicações na rivalidade que se instaura no sujeito a se ver disputando o amor da mãe com o pai e vice-versa. Esta rivalidade, para Freud (1989), vinha carregada de conteúdo sexual, causando angústia e aflição pela perda do objeto amado, representado pela castração.

O Complexo de Édipo mal elaborado é desencadeador de diversos transtornos, mas sua principal iminência diz respeito à ameaça de exclusão que a criança pode sofrer com relação a seus pais.

A terceira camada diz respeito ao ciúme delirante, doentio, paranóide. Aqui o sujeito tem a absoluta certeza de que está sendo traído, mesmo sem nenhuma evidência clara de que isto realmente esteja ocorrendo. Freud (1989) também considera os impulsos recalcados da infidelidade, mas aqui acontece com pessoas do mesmo sexo do sujeito. O ciúme delirante é consequência de um homossexualismo que desempenhou seu curso e toma seu caráter entre as formas de paranóia.

A idéia delirante é um erro que se origina não de uma falta ocasional da lógica e de uma fraqueza de julgamento, como era aceito anteriormente, mas de uma mudança profunda da globalidade psíquica de uma necessidade interior, que se pode chamar de necessidade de delírio. (LEME LOPES, 1997)

Sobre o homossexualismo masculino, ele resume seus fatores predisponentes, em:

a) Fixação na mãe que não pode ser passada a outra mulher, buscando objetos amorosos em quem possa se redescobrir e amá-los como a mãe o amara; está assim, por um lado, identificado com a mãe, o que lhe permite que permaneça fiel a ela, que foi seu primeiro objeto de amor.

b) A escolha de um objeto homossexual é a escolha de um objeto narcísico, para o qual é mais fácil se inclinar do que fazer um movimento no sentido do outro sexo, incluindo aí a supervalorização do pênis e incapacidade de tolerar sua ausência em um objeto amoroso. A depreciação das mulheres, a aversão, e até mesmo o horror a elas parece derivar da descoberta precoce de que elas não possuem um pênis.

A renúncia às mulheres significa que toda a rivalidade com o pai (ou com todos os homens que ocupam o seu lugar) é evitada, por consideração a ele ou por medo dele.

O apego à condição da existência de um pênis no objeto amoroso, bem como o afastamento das mulheres em favor do pai, pode ser atribuído ao temor à castração; o que se associando ao narcisismo e à fixação à mãe, aliados ao efeito de uma sedução que tenha fixado prematuramente a libido, bem como a influência de um fator orgânico, redundariam numa situação homossexual.

Em seu famoso trabalho de 1911 “Notas Psicanalíticas sobre um Relato Autobiográfico de um caso de Paranóia: Memórias de um doente dos nervos” de Daniel Paul, popularmente conhecido como o “Caso Schreber”, Freud (1989) assume o ponto de vista de que o cerne do conflito é uma fantasia de desejo homossexual, recalcado na forma de ciúme, acrescentando que as formas de paranóia podem ser representadas como contradições da proposição “eu (um homem) O amo (o = homem)”.

Nos delírios persecutórios, a proposição “eu o amo” é contraditada por: ‘eu NÃO o amo; eu o odeio, porque ele me persegue’. Isto porque o mecanismo de formação de sintomas na paranóia exige que as percepções internas - afetos - sejam substituídas por percepções externas. Se ele me odeia e me persegue, isto me desculpará por odiá-lo na contradição ao afeto inaceitável (eu o amo). Por isso, Freud (1989) diz que o delírio de perseguição contradiz o predicado da proposição.

Os delírios eróticos ou erotomania contradizem o objeto: ‘Eu NÃO o amo, eu A amo porque ela me ama’. 'Todas me amam’.

Os delírios de ciúme contradizem o sujeito: ‘Não sou eu quem ama o homem, ELA é que o ama, ama a todos os homens’.

Freud (1989) fala ainda da rejeição à proposição como um todo: ‘Eu não amo de modo algum, eu não amo ninguém, eu só amo a mim mesmo’ o que resulta na manifestação da megalomania narcísica, pelo redirecionamento da libido para o Eu.

Há, no entanto, uma situação particular de ciúme delirante, aparecendo como sintoma de uma doença, que acomete as pessoas que fazem uso abusivo de álcool. Os alcoolistas, como são hoje chamados, costumam ter um comportamento quase padrão e, embora se discuta muito até a origem genética do alcoolismo, não há dúvida de que eles acabam por ter grandes problemas físicos, psíquicos e sociais (FERREIRA-SANTOS, 2003, p. 85).

É através do sofrimento e da dor vivenciados pelo ciumento é que se pode verificar quando o ciúme deixa de ser normal, causando desassossego e inquietação que pouco a pouco lhe vão arrasando a vida.

Mooney (1965) diz que alguns autores não consideram fundamental para o diagnóstico do ciúme patológico a crença superestimada da infidelidade, sendo mais importante o medo da perda do outro, ou do espaço afetivo ocupado na vida deste. Mas ele acredita que a base do ciúme patológico estaria em seu aspecto absurdo, na sua irracionalidade, e não em seu caráter excessivo.

O ciumento patológico parece ser delirante, na medida em que instala um terceiro, que tem estatuto de real, um elemento que vem necessariamente irromper na representação de um rival. O certo é que o ciúme patológico seja pelo seu caráter excessivo e medo demasiado de perder o outro, seja pelo seu aspecto irracional e absurdo, é um sentimento que bloqueia o amor; ele é destrutivo, não criativo e causa sofrimento para os dois lados envolvidos.

Para Ferreira-Santos (2003), a forma mais patológica de manifestação do ciúme doentio e destruidor, é a de um tipo específico da paranóia que pode levar à morte do parceiro e também ao suicídio.

O paranóico é extremamente ciumento em virtude de sua insuficiência para amar e de suas próprias necessidades narcísicas. Deseja intensamente ser amado e na mesma intensidade teme ser traído.

Outro exemplo de ciúme extremado foi o de Otelo, personagem central da tragédia escrita por Shakespeare, que atormentado pelo adultério suspeitado, mata a esposa estrangulada e, não satisfeito com tamanho drama, crava um punhal no próprio peito.

No delírio de ciúme (ciúme patológico) do paranóico dizemos que a suspeita sobre a infidelidade do cônjuge se instala a partir de um gesto, de um olhar, de um aperto de mão, julgados insólitos, mas significando algo entre ele e um terceiro, e torna-se logo em seguida uma convicção total. As coincidências transformam-se em provas irrefutáveis, as impossibilidades materiais são negadas e o delírio imaginado faz-se uma certeza absoluta (CAVALCANTE, 1997, p. 45).

Assim, a “suspeita” infiel encontra-se submetida aos interrogatórios permanentes e às investigações múltiplas.

Entretanto, ousa-se apontar o ciúme como necessário e estruturante, contudo, aparecendo na forma patológica, é um delírio tomado como verdade, uma certeza incontestável. Este sentimento desvela um mundo tomado por idéias mirabolantes, paranóicas, um mundo que regrediu ao processo primário.

Freud (1989) relacionou o ciúme delirante, patológico com a paranóia. Nele, o sujeito tem a absoluta certeza de que está sendo traído, mesmo sem nenhuma evidência clara de que isto realmente esteja ocorrendo. Para ele, o ciúme delirante é conseqüência de um homossexualismo que desviou seu curso e toma seu caráter entre as formas de paranóia.

Lacan (1999) afirma que o ciúme é vivenciado pela criança bem antes de se instaurar o Complexo de Édipo, tendo como bases o desmame e a intrusão. Para o autor, este sentimento está presente desde a situação fraterna precoce, quando o bebê vê o irmão mais novo mamando no seio de sua mãe. Esta ocasião é anterior ao estágio do espelho, momento em que a criança se reconhece pela falta do outro.

Na visão de Melanie Klein, o ciúme é pura manifestação da inveja e esta por sua vez é anterior ao ciúme, estando ligada à primeira infância. “A inveja aparece como inerente à avidez oral. Alternando com os sentimentos de amor e gratificação, ela está primeiramente dirigida para o seio nutriente” (KLEIN, 1991, p. 66).

Conforme demonstrado ao longo da narrativa, o ciúme patológico é destrutivo e sufocante, aparecendo constantemente e permanecendo sempre crescente. É constatado por seu aspecto absurdo e irracional, quando há um grande desejo em controlar totalmente os sentimentos e comportamentos do companheiro. Desta forma, as dúvidas se transformam em idéias supervalorizadas e delirantes, transformando a suspeita em realidade sem que nenhum fato evidente tenha acontecido. Sua mais patológica consequência é, sem dúvida,quando o ciumento vai dar passagem ao ato, dando vazão à pulsão de morte, ou seja, quando é capaz de matar e morrer.

Diante disso, o estudo realizado sobre o ciúme permitiu alargar concepções e conceitos de suas formas patológicas de manifestação. A seguir, o ciúme patológico será discutido nas suas formas devastadoras.

3.2 Formas devastadoras do ciúme patológico

O ciúme é um sentimento afetivo da humanidade, que produz angústia, raiva, desconfiança, baixa auto-estima, tensão entre os parceiros, insegurança, podendo abalar a saúde mental, com formas doentias, levando o indivíduo a ser extremamente violento, podendo praticar agressões físicas, suicídio ou homicídio.

Portanto, de acordo com Branden (2002), pode prejudicar a relação afetiva, como uma resposta de negação, podendo ser, ao mesmo tempo, uma proteção, diante da ameaça da perda do parceiro íntimo ou do relacionamento valorizado.

Bottura Júnior (2003) afirma que é normal sentir medo, e ser ameaçado de uma perda afetiva, pois as pessoas são inseguras diante das perdas, e temem ser excluídas da vida de outro indivíduo. A pessoa que sente ciúmes convive com exigências de um amor possessivo, temendo o risco de perder o objeto amado.

Buss (2000) comenta que existem duas grandes peças fundamentais para acarretar o ciúme, que é a ameaça de perder o parceiro ou parceira e a presença de uma terceira pessoa, que é motivada pelo comportamento no sentimento de se contrapor à ameaça. O ciúme fica interpretado por uma emoção negativa, devido à causa da dor psicológica, que em excesso pode acabar totalmente com as relações amorosas, podendo até mesmo tornar-se um verdadeiro pesadelo.

O ciúme pode está dividido em dois tipos: o ciúme normal e o ciúme patológico. O ciúme patológico, de acordo com Cavalcante (1997, p. 24), pode ser concebido como:

[...] uma perturbação total, um transtorno afetivo grave. O ciumento sofre em seu amor: em sua confiança, em sua tranqüilidade, em seu amor próprio, em seu espírito de dominação e em seu espírito de posse. O ciúme corrói-lhe o sentimento em sua base e destrói, com uma raiva furiosa, suas próprias raízes. Propicia a invasão da dúvida que perturba a alma, fazendo com que ame e odeie ao mesmo tempo, a pessoa objeto de sua afeição. O maior sofrimento do ciumento é a incerteza em que vive, pela impossibilidade de saber, com segurança, se o(a) parceiro(a) o engana ou não.

Diante do exposto, compreende-se que o indivíduo ciumento absorve um sofrimento bastante grande com seu amor, abalando a tranquilidade e a confiança, pois o ciúme destrói através da sua raiva devastadora.

Cavalcante (1997) também afirma que o ciúme patológico é considerado um dos transtornos afetivos que implica em maior gravidade, abalando totalmente o relacionamento e os sentimentos, fazendo com que o indivíduo fique perturbado, sentindo-se ameaçado constantemente. Sendo assim, a relação amorosa fica como uma expressão de posse, bloqueando o amor, tornando o relacionamento angustiante, carregado de tensão negativa.

Bottura Júnior (2003) diz que o ciúme patológico absorve muitas emoções, dúvidas, idéias obsessivas, delírios sobre infidelidade, provas sem conclusões, comportamentos inaceitáveis, que são vivenciados pelo indivíduo que suporta o problema. A excitação é demonstrada através de sentimentos, como: raiva, imagens intrusivas, vergonha, rejeição, rituais de verificação, ansiedade, culpa, sentimento de inferioridade, depressão, remorso, humilhação, insegurança, desejo de vingança, angústia, possessão, baixa auto-estima, insegurança de perder o parceiro para outro, desconfiança excessiva e infundada, gerando expressivo comprometimento no funcionamento pessoal e interpessoal de quem suporta esse mal.

É importante destacar que o ciúme não tem distinção dos sexos, pois esse sentimento pode ser manifestado entre o homem ou a mulher, pois ambos são atormentados pelo ciúme, manifestando-se no seu dia-a-dia, ou nas expressões clínicas ostensivas, que despertam o ciúme. Porém, existe distinção entre homens e mulheres, em relação às atitudes no envolvimento emocional, referente ao sexo, pois as mulheres obtêm o desejo de envolver-se emocionalmente, através de um compromisso amoroso, com homens maduros, e com uma boa vida financeira. Já os homens desejam a beleza física, a variedade sexual e a juventude. Portanto, os homens ficam mais aflitos com a infidelidade sexual de suas parceiras, e as mulheres ficam mais perturbadas emocionalmente (BUSS, 2000).

Um dos problemas do surgimento do ciúme é a insatisfação sexual, surgida pela infidelidade conjugal, que acarreta na probabilidade de se romper e ameaçar a infidelidade sexual. É importante acrescentar, como foi dito anteriormente, que o ciúme pode causar espancamentos, ameaças violentas e assassinatos (BUSS, 2000).

De acordo como Rosa (2005, p. 19): “O ciumento não perdoa e não confia. Se lhe faltam motivos no presente, busca-os no passado e até no imprevisível futuro, ainda que ilusórios frutos de sua imaginação atormentada”.

Portanto, de acordo com Rosa (2005), o ciumento fica com a imaginação bastante afetada, podendo ter até mesmo ilusões, sendo de fundamental importância que seja tratado por psicólogo ou psiquiatra, nesses casos de ciúme patológico. Porém, o ciúme é um problema que não deve ser negligenciado, e são poucos que admitem serem ciumentos, mas a relação deve ser discutida abertamente entre os parceiros; podem dividir suas dúvidas, temores e angústias, e rever suas atitudes, auto-avaliar, para a promoção de uma compreensão entre ambos, que é necessário para uma relação amorosa saudável. 

No próximo capítulo, discutiremos a escuta clínica do ciúme e a possibilidade de intervenções.

4. Da Escuta Clínica à Intervenções

"Os ciumentos não precisam de motivo para ter ciúme. São ciumentos porque são. O ciúme é um monstro que a si mesmo se gera e de si mesmo nasce.” (William Shakespeare)

Como vimos anteriormente, não há ser humano que não sofra ciúme, ou que não seja alvo do ciúme de outros seres humanos, pois, o ciúme começa na mais precoce infância, podendo se estender até a fase adulta, por ser um sentimento universal a todas as pessoas, e evolutivo em determinados casos, onde assume diagnósticos grave quando persiste durante muitos anos.

A seguir, discutiremos o ciúme enquanto sintoma e suas intervenções clinicas, buscando compreender o ciume nas relações familiares e amorosas, afim de evitar quadros clínicos patológicos

4.1 Os desdobramentos do ciúme enquanto sintoma: das relações familiares às relações amorosas

Desde o início da Psicanálise, os teóricos têm-se preocupado com os primeiros acontecimentos da vida primitiva infantil. Para a psicanálise, a sexualidade humana inicia-se na infância, e que a vida sexual do adulto é influenciada pelas vivências sexuais infantis. Portanto, Freud, nos Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade (1980) comenta sobre o desenvolvimento da sexualidade humana que são fundamentais para a apreensão da subjetividade do sujeito. Para ele, já que a sexualidade adulta esta na infância, a libido se organiza em diferentes zonas erógenas corporais, assim a sexualidade humana se desenvolve em cada etapa da vida. No começo, a libido esta direcionada na boca, e o objeto da pulsão sexual é o seio materno, por estar vinculada a nutrição. Segundo Freud (1980), a amamentação no seio materno torna-se modelo para todos os relacionamentos amorosos.

Sabemos que é no processo da construção da subjetividade, que a mãe tem a tarefa de fazer a inscrição pulsional, transformando o bebê em um sujeito alienado a ela. O bebê, nesse estágio de alienação, é para a mãe aquele que a completa, e a mãe, é para ele o objeto real da satisfação de suas necessidades, sendo demanda de amor para o bebê. Contudo, essa mãe que ora comparece pra satisfazer suas necessidades, ora não vem, causa no bebê uma angústia que poderá o acompanhar por toda sua vida.

Entretanto, essa primeira vez que a mãe comparece, deixa na criança uma representação, o que permite que esta saia desse estágio de alienação (mãe-bebê) e passe para o segundo estágio, no qual se dá a entrada de um terceiro para quebrar essa ligação, essa entrada é representada pelo pai, que tem a função de inserir a criança no universo simbólico, causando o afastamento da sujeição à mãe, permitindo ao bebê o lugar de sujeito desejante. Quando há uma falha dessa função do pai, o qual Lacan (1932) denominou de Nome-do-Pai, ou seja, quando há uma foraclusão , havendo uma não inscrição da função paterna, não se inscreve os significantes necessários à constituição da subjetividade infantil.

Para Lacan (1932), o significante Nome-do-Pai é primordial e a sua ausência provoca um furo na rede simbólica do sujeito, fazendo com que este se torne um sujeito alucinante. Por vezes, pode se estender até a fase adulta, por exemplo: o sujeito vê no cônjuge a sua relação primária com a mãe, e estabelece sentimentos de ciúme frente a uma situação imaginária de um possível rival.

Diferente de Freud e Lacan, Winnicott (1983) buscou estudar as etapas de desenvolvimento do sujeito em relação ao ambiente. Para ele, o ambiente é suficientemente bom, quando a mãe cuidadosamente satisfaz o lactante, onde, na medida em que o amadurecimento do bebê prosseguia, e os cuidados do ambiente fossem mantidos, o desenvolvimento do bebê seria normal. Assim escreve Winnicott (1983, p. 49) "de acordo com suas experiências e capacidade de armazená-las, o indivíduo desenvolve uma capacidade de acreditar... ou confiar”. Isso se deve aos cuidados maternos, e a segurança que o bebê adquire em relação à mãe, quando essa mãe, não é suficientemente boa, poderá ocorrer uma disfunção emocional estendendo-se até a fase adulta.

Podemos citar o ciúme como um processo decorrente dessa relação mãe-bebê, pois, o ciúme relaciona-se, em primeiro lugar, com a constelação familiar: número de filhos, ordem de nascimento, idade dos pais, em segundo lugar, às atitudes gerais dos pais em referência aos filhos. Os diferentes distúrbios da conduta, que a criança apresenta, podem ser relacionados com sua posição na família, e o ciúme pode ser decorrente de sua posição relacionada com as atitudes dos pais.

Os pais exercem uma grande influência emocional sobre os filhos, o que resulta numa relação de identificação. Retornando a Freud (1980), nas relações amorosas, a característica especial que a pessoa encontra na outra é o sentimento inconsciente de exclusividade que o bebê desfruta da mãe. Nesse sentido, a identificação da criança com os pais, é responsável pelo desenvolvimento emocional, que este poderá exercer com os outros, portanto, o sujeito precisa sair do individualismo e voltar-se para a relação com o outro, buscando fazer vínculos, aceitando o diferente, e as relações familiares são importantes, pois ajudam nas escolhas amorosas do sujeito.

No que diz respeito ao terreno das relações amorosas, Freud (1980), comenta que o sujeito se constitui a partir de outro, pois não basta a si mesmo, por isso se relaciona com o outro em busca de sua completude, pois o sujeito precisa do outro para se constituir e reconstituir permanentemente como tal, romper com as amarras do individualismo, na intenção de encontrar o seu desejo. Buscamos compreender a subjetividade do sujeito envolvendo as relações amorosas, e as relações familiares, desde o inicio do desenvolvimento psicossexual, fundamentais na formação da constituição do sujeito. Pois é durante o desenvolvimento psicossexual, que a criança tem os pais como referência de vida, como modelo de identificação, desse modo, é no âmbito das relações familiares que o sujeito se constitui, e fará suas escolhas amorosas.

Por isso, é importante que a criança elabore o conflito edipiano, a fim de prosseguir no seu desenvolvimento psíquico, e enfrentar o processo de separação em busca de estabelecer outros vínculos, procurando envolver-se, comprometendo-se, e desenvolvendo respeito pelas diferenças do outro. É preciso ressaltar que o outro não é propriedade exclusiva de seu amor, que é importante sim, ter cuidado e zelo pela pessoa amada, mas não fazer do outro o seu objeto de amor próprio, culminando em desconfianças, e posteriormente, o ciúme exacerbado. Pois, muitas pessoas não imaginam o amor sem o ciúme, e não o percebe quanto esse sentimento pode ser destruidor, pois este é capaz de envolver o sujeito em fantasias e desconfianças, que provocam angústia e sofrimento, e que as dúvidas em relação à fidelidade do outro, se transforma em ideias supervalorizadas, levando a pessoa à verificação compulsória destas. Retornando à fase infantil, a principal ameaça que o sujeito tem em sua dependência infantil, é perder o amor dos pais, principalmente para o irmão mais novo, o que desencadeará a crises de ciúme, uma vez que este se sente rejeitado em seu amor, que lhe garantem afeto, proteção, e satisfação de suas necessidades vitais.

Na fase adulta, geralmente o ciúme é um sentimento oriundo da insegurança e da baixa auto-estima e imaturidade que o sujeito sofreu em sua infância. Sendo assim, espera-se que essa posição de baixa auto-estima e imaturidade não se apresente como causa do ciúme patológico, e que o individuo na fase adulta não apresente tais características, para poder assim, lidar melhor com o próprio ciúme, ou com situações provocativas que o outro procure despertar.

A seguir, abordaremos algumas possíveis intervenções clinicas acerca do ciúme.

4.2 As intervenções clínicas como possibilidade de evitação de quadros patológicos decorrentes do ciume

As intervenções do analista no processo de análise implicam na necessidade de entender o que é conteúdo manifesto e latente nas comunicações do analisante e identificar quais são seus principais conflitos.

Portanto, é importante para a compreensão das questões do analisante que ele fale livremente no processo de associação livre, onde ele possa expressar seus conflitos sobre o ciúme nas suas relações. Outro fator importante, é que a escuta do analista o leve a intervir nos pontos e nos deslizamentos da fala do mesmo sobre as formas e efeitos do ciúme que sustentam o seu sintoma.

Ao que se refere o sujeito ciumento, é preponderante que entre em contato através de suas elaborações com as suas questões em busca da “cura” do seu sofrimento emocional, nesse sentido para Volnovich (1991), numa análise o psicanalista está ali para servir à transferência das pulsões do passado, ou seja, para fazer ressurgir aquilo que permaneceu enterrado e que ainda causa problemas atualmente, e para advir àquilo que nunca teve lugar no curso do desenvolvimento, por não ter sido falado, colocado em palavras. Portanto, seu trabalho concerne ao imaginário, aos fantasmas, e não à realidade.

Como foi visto anteriormente, a saúde mental do ciumento tem haver com o seu estilo de vida, como este se relaciona com os outros, em geral, com a sua família e amigos, e, além disto, como este busca o autoconhecimento, tudo isso para aumentar a sua capacidade de amar e se relacionar com os outros. Uma análise verdadeira estabelece uma compreensão sobre o seu determinado problema, possibilitando o paciente a ter comportamentos diferentes frente a situações reais, ou imaginárias. Os sentimentos de posse, e exclusividade em relação ao outro, está relacionado ao modelo familiar que a pessoa teve. Para Araújo (2005), a criança que teve todas as atenções voltadas para ela, terá dificuldade em se relacionar com mais de uma pessoa, portanto, se relacionará apenas com uma, passando a viver em função desta, e exigindo exclusividade o que tornará difícil o relacionamento amoroso e a socialização, já que sempre terá ciúmes do parceiro (a), quando este se relacionar com outras pessoas.

Para poder ter um relacionamento considerado normal, e sem ciúme devastador, é necessário que o sujeito esteja bem consigo mesmo, só assim, este estabelecerá vínculos seguros para com a pessoa que se tem amor. Portanto, é de total decisão pessoal, querer se libertar de comportamentos que lhe causam sofrimentos, pois a existência da patologia faz com que o sujeito tenha um estilo de vida rígido e desconfiado. Grunspun (1985) afirma que o ciumento tem medo da solidão, sente-se perdido e angustiado, sofre de um mal estar e uma inquietação, por isso é necessário se submeter à tratamento psicológico ou psicanalítico. Na prática clínica, é importante que o analista com a sua escuta saiba diferenciar o ciúme normal, do ciúme patológico, para poder intervir, junto ao ciumento, quando este ameaçar a integridade física do outro. Mediante as elaborações no processo de análise o ciumento poderá restabelecer sua autoestima de um relacionamento onde não circule unicamente a pulsão de morte, fazendo valer uma organização estrutural distante da dor existencial que o sujeito movido pelo ciúme vivência.

Portanto, o modo de intervir da psicanálise entende o tempo histórico e cultural de cada paciente, valorizando as suas potencialidades, a fim de dar tempo necessário de maturidade, para que o sujeito rompa as barreiras de sua patologia, para lançar-se a uma nova compreensão de sua realidade em direção a “cura”.

5. Considerações Finais

Para concluir, tecemos algumas considerações, tomando por base os objetivos da pesquisa, de estudar pelo viés da teoria psicanalítica a origem do ciúme como constitutivo da subjetividade.

O percurso feito pela vida afetiva deu-nos a oportunidade de compreender a origem do ciúme na infância, no contexto familiar, onde os pais têm grande importância na vida emocional da criança, e influenciam todos os relacionamentos, sejam eles fraternais ou amorosos. Este estudo nos possibilitou identificar várias definições do ciúme, seja pelo dito popular, e o que existe de estudo cientifico que define o ciúme por diferentes perspectivas. Podemos compreender a necessidade de tais conceitos, para verificar os diversos tipos de ciúme, que se presentificam nas relações humanas.

Inicialmente identificamos as várias formas de entender o ciúme, esse sentimento tão complexo e repleto de interpretações, citando o ciúme normal como sendo um sentimento de zelo, cuidado pela pessoa que se tem amor, mas esse sentimento pode ser tanto bom quanto negativo, dependendo de sua intensidade, pode-se considerar patológico. Nos estudos verificamos que o ciúme é um sentimento que abrange outros afetos, como por exemplo, o amor, medo, ódio, inveja, baixa auto-estima, e que desencadeia, idiossincraticamente, reações diferentes, reais ou imaginárias.

Podemos perceber que o ciúme é normal, embora tenha uma origem profunda, inconsciente, e seus diferentes graus de manifestações podem ocorrer de acordo com a personalidade do ciumento.

Também percebemos que o ciúme pode ser entendido em determinadas ocasiões, como um sinal de alerta de que algo não vai bem, seja no relacionamento amoroso, ou no relacionamento materno, paterno e fraternal. E isso pode estar relacionado pela forma como aprendemos a lidar com ele na infância, em relação com os nossos pais, ou também com a chagada de um irmão. O ciúme pode acarretar uma ação agressiva à uma perda ou ameaça afetiva, que trás consigo uma sensação de abatimento e insegurança.

O ciúme tem uma amplitude singular, assinalando que algo precisa ser observado em nossos relacionamentos, e não admiti-lo é não querer refletir sobre a possível recuperação desse sintoma, por isso, a psicanálise possibilitou a escuta do ciúme, para desvelar os impasses do sujeito, que apresenta um processo patológico no desenvolvimento, desde a infância até a fase adulta.

A questão do ciúme perde-se em uma intrincada rede, derivada do desejo humano pelo controle absoluto, pela inalterabilidade das circunstâncias, e pela inefabilidade do outro e de si mesmo, e embora seja um tema recorrente no cotidiano, expresso nas queixas familiares, na mídia televisiva, nos jornais, a busca pelo tratamento analítico ou terapêutico e a produção de pesquisas segundo o estudo que realizamos parece ainda bastante escassa. Assim apesar da relevância do tema, observa-se a necessidade de mais investigação, para que as pessoas possam conhecer e trabalhar esse conteúdo, que gera questionamentos acerca de sentimentos durante relacionamentos amorosos, ou quaisquer que estes sejam.  Assim, considera-se fundamental sua importância na constituição subjetiva da criança o que se reflete na fase adulta.

Por fim, resta-nos ressaltar que embora este seja um trabalho preliminar que carece de maior aprofundamento é importante sua divulgação para a realização de outros estudos, que visem ampliar o conhecimento e as formas de intervenção acerca desse tema para aqueles que se dedicam ao estudo do sofrimento humano.

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