O Protagonismo Juvenil como forma de enfrentamento da Violência

A palavra “Juventude” é muito conhecida e utilizada em nosso dia-a-dia, porém é uma palavra que, dependendo do contexto, pode encontrar diversos significados e referências. Na maioria das vezes, quando nos referimos a jovem ou a juventude, estamos nos referindo a pessoas de uma determinada faixa etária, por exemplo, a ONU (Organização das Nações Unidas) considera as pessoas jovens com idade de 15 a 24 anos de idade. No Brasil, segundo as diretrizes da Secretaria Nacional de Juventude, jovens são as pessoas de idade entre 15 a 29 anos. Já para Erickson (1976), a juventude apresenta-se como uma fase natural e obrigatória do desenvolvimento humano. Enfim é um período da vida caracterizado pela passagem da adolescência para a vida adulta. Um tempo de formação e afirmação de identidade, definição de projeto de vida pessoal marcado pela escolha profissional e pela busca de emprego como caminho de autonomia econômica. Enfim, um momento em que o jovem se torna protagonista de sua própria história.

Segundo Abramo (2005):

“Juventude é desses temas que parecem óbvios, dessas palavras que se explicam por elas mesmas; é assunto a respeito do qual todo mundo tem algo a dizer, normalmente reclamações indignadas ou esperanças entusiasmadas. Afinal, todos nós somos ou fomos jovens (há mais ou menos tempo), convivemos com jovens em relações mais ou menos próximas, e nas ultimas décadas eles tem sido tema de alta exposição nos diferentes tipos de mídia que atravessam nosso cotidiano (p.37).”

Acaba sendo muito difícil definir o termo juventude, porque depende de diversos fatores temporais, espaciais e culturais, dentro do período que a sociedade está vivenciando. Porém, é clara e grande a importância dessa fase da vida que todos devemos passar. Daí a importância em refletirmos: como está a vida da atual geração de jovens no Brasil e na América Latina?

Segundo a Pesquisa “Perfil da juventude brasileira” promovida pelo Instituto Cidadania 46% (quarenta e seis por cento) dos jovens já perderam parente ou amigo próximo de forma violenta e 38% (trinta e oito por cento) já viu de perto alguém que morreu por causas externas sendo que, destes, 62% (sessenta e dois por cento) foram assassinados. Ou seja, a juventude é mais vítima da violência do que propriamente culpada.

Devemos deixar claro que quando falamos de violência, estamos nos referindo a um comportamento que causa dano a outra pessoa, a sua integridade física e/ou psicológica. Existem vários tipos de violência, podemos destacar alguns tipos como: violência física, violência psicológica, violência política, violência cultural, violência verbal, violência sexual, violência contra a mulher, violência infantil, violência espontânea, violência institucional, violência política e violência no trânsito. Não cabe aqui delimitar quais as diferenças dos tipos de violências, nem acusar culpados ou motivos pelos quais esses tipos de violências estão constantes em nosso cotidiano. Mas vale lembrar essas violências não são apenas ações associadas a algum crime, e sim um fenômeno social que não pode ser visto como um  mero espetáculo noticiado na mídia.

Souza (2008) diz que a vulnerabilidade social dos jovens pobres os torna principais vítimas do desemprego e marginalização, excluindo-os da sociedade e dando margem para comportamentos de apatia política, inconformismo, revolta, violências e delinqüência juvenil. Essa postura social agressiva e defensiva impede que o próprio jovem seja um protagonista no cuidado com a sua própria vida.

Em Juventude, violência e vulnerabilidade social na América latina: desafios para políticas públicas, Abramovay (2002) relaciona violência à falta de estrutura social e econômica quando diz que:

“(...) esses atores sofrem um risco de exclusão social sem precedentes devido a um conjunto de desequilíbrios provenientes do mercado, Estado e sociedade que tendem a concentrar a pobreza entre os membros desse grupo e distanciá-los do “curso central” do sistema social (p.33).”

Diante dessa realidade, que respostas podemos dar para superar essa violência que assola a juventude do Brasil e da América Latina? Como podemos dar a juventude condições de formação e afirmação de sua própria identidade?

São muitas as vezes que a pessoa do jovem tem a sua imagem estereotipada pela sociedade. Sobretudo quando os noticiários falam em “grupo de jovens”, comumente nossa expectativa se volta para a criminalidade, drogas, violência, etc, antes mesmo que se termine a frase. É fato que a atual juventude brasileira é vista como causadora da maioria da criminalidade e atos violentos praticados no Brasil, ou pior, muitas vezes a juventude é apontada como culpada de todos os problemas da sociedade. Diante dessa situação vemos lideranças políticas espalhadas pelo Brasil tentando conter a juventude de certo modo para diminuir a criminalidade, ou em busca de uma maior “segurança pública”. Assim nascem as propostas de redução da maioridade penal e toque de recolher, objetivando colocar os jovens infratores na cadeia ou privar os jovens de sua liberdade de ir e vir em determinados horários. Talvez para nossos governantes punir é muito mais fácil do que educar. Mas essa punição é mesmo eficiente? Será mesmo que os jovens são os principais culpados pela onda de violência que assola os centros urbanos? Será que devemos prender os jovens em casa para que não cometam crimes? Ou se cometerem crimes, devemos colocá-los em grande depósitos de gente chamados presídios?

É necessário ver a pessoa do jovem como sujeito de direitos, como pessoa que tem o direito de ser percebida em si mesma, é preciso verificar as diversas juventudes existentes na sociedade e perceber as necessidades dessa parcela da população. É gritante a falta de valor e desprezo com que o poder público lida com os jovens. Mesmo não sendo noticiado na mídia com a mesma efervescência que são noticiadas as ações de violência, a juventude vem se organizando como sociedade civil em luta pela Inclusão social e garantia de direitos humanos. Existem muitas iniciativas da juventude contra a violência, podemos destacar alguns como grupos culturais, esportivos, fóruns, coletivos, ONG’s, movimentos sociais, movimento estudantil, comunidades de fé e partidos políticos. E mesmo diante dessas iniciativas necessitamos que a juventude tenha acesso a uma educação de qualidade, oportunidades de trabalho, cultura, esporte, lazer, transporte e condições para uma vida segura. É preciso implementar tudo isso por meio de Políticas Publicas de/para/com a Juventude através de conselhos de direitos, fomentando a participação desses jovens ativistas nos Conselhos Municipais e Estaduais de Juventude. Ouvindo as necessidades dos jovens poderemos construir um mundo melhor para todos. Poderemos ver o protagonismo juvenil como forma de superação e enfrentamento da violência. Se valorizarmos o jovem e investirmos em seu protagonismo (Souza, 2008), o futuro melhor que sonhamos terá maiores condições de ser presentificado.

Sobre o Autor:

Walkes Jacques Vargas - Jovem, Estudante de Psicologia, Presidente do Centro Acadêmico de Psicologia da Universidade Católica Dom Bosco – CAPSI-UCDB, Militante da Pastoral da Juventude, atuando como membro da Coordenação Nacional pelo Regional Oeste 1 (Mato Grosso do Sul). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

ERIKSON, Erick H. Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

ABRAMO, Helena W; BRANCO, Paulo Martoni (Org.). Retratos da juventude brasileira: análise de uma pesquisa nacional. São Paulo: Fundação Perseu

Abramo, 2005.

SOUZA, Regina Magalhães de (2008). O discurso do protagonismo juvenil. Coleção Ciências Sociais. São Paulo: Paulus, 2008.

ABRAMOVAY, Miriam; CASTRO, M. G. Juventude no Brasil: vulnerabilidades negativas e positivas, desafiando enfoques de políticas públicas. Juventude Cultura e Políticas Públicas: Intervenções apresentadas no seminário teórico-político do Centro de Estudos e Memória da Juventude, São Paulo, v.1,p.35-66,2005.