Programa de Comportamento Moral e Habilidades Sociais Cristãs com Adolescentes em Atividades de Skate

Resumo: Elementos da cultura local específicos de pessoas em fase do desenvolvimento peculiar como a adolescência, aliados aos conhecimentos científicos da psicologia e a elementos do universo de costumes populares, como textos Bíblicos, podem servir aos propósitos de programas para proteção quanto a riscos sociais.  Neste sentido foi realizada pesquisa a respeito da relevância de um programa de intervenção durante cinco encontros em atividades de skate com grupos de adolescentes. Foram utilizados inventários para avaliação da intervenção em pré e pós testes referentes ao comportamento moral e comportamentos desviantes. Estes encontros foram conduzidos de forma reflexiva com a temática das habilidades sociais e comportamento moral. Os resultados demonstraram estabilidade quanto aos estilos de relação parental, tendo em vista que não houve intervenção com os pais dos adolescentes, porém, apontaram variações positivas quanto aos comportamentos desviantes e indicaram que maior número de encontros poderia promover melhores índices em pós teste.

Introdução

O lazer, esporte, cultura e outros elementos que mais despertam o interesse dos adolescentes podem ajudar a prepará-los para a vida adulta, de forma moralmente adequada e socialmente habilidosa através de programas junto às suas comunidades.

Ainda mais tendo em vista a grande incidência de problemas sociais decorrentes de situações em que jovens entram em conflito com a lei, através dos mais variados tipos de crimes que muitas vezes se igualam ou mesmo superam a gravidade dos que são praticados por adultos. O que demonstra claramente um déficit moral na educação destas gerações e falta de desenvolvimento das habilidades necessárias para um convívio social de boa qualidade.

Isto demonstra inclusive que existem lacunas no sentido de atender às necessidades de uma sociedade que não podem ser preenchidas simplesmente por algumas das instituições que Skinner (1981) definiu como “agências controladoras”, ou seja, a Escola, as Igrejas ou o Estado. Isto reafirma o valor dos projetos sociais, como no caso das atividades realizadas no Programa Comunidade Escola [01] que, através do esporte, lazer e cultura tem o objetivo de oferecer outras perspectivas para jovens em situação de risco social, principalmente por serem desfavorecidos em diversas áreas (escolar, econômica, social, segurança, saúde, etc). O que pode ser associado aos conhecimentos na área da Psicologia sobre o desenvolvimento do comportamento moral.

Por esta razão, cada vez mais se destaca a importância de trabalhos que possam capacitar ou desenvolver os comportamentos pró-sociais de jovens e adolescentes, tendo como fundamento o treinamento moral. Conforme exemplos de resultados bem sucedidos nos programas desenvolvidos por Gomide e seus colaboradores (Gomide, 2010) com crianças em abrigos sociais. O que serve hoje como uma base para o trabalho com adolescentes e jovens em situação de risco com o mesmo objetivo.

Neste mesmo sentido, a correlação inversa entre o nível de habilidades sociais e a emissão de comportamentos considerados problemáticos é confirmada, segundo estudos realizados com crianças em idade escolar entre as antigas primeira e quarta séries do ensino fundamental (Bandeira, Rocha, Souza, Del Prette e Del Prette, 2006).

Além disso, outro estudo específico na área de habilidades sociais com crianças em situação de rua (Campos, Del Prette e Del Prette, 2000), também sugere a necessidade de se reforçar alternativas para que a educação formal possa cumprir seu papel na formação de futuros cidadãos, além de realizar trabalhos de prevenção para que jovens com essas características não venham se engajar em comportamentos desviantes.

Por isso, para efetivar a intervenção com adolescentes além das aulas regulares oferecidas nas escolas é apropriado que um programa de treinamento moral seja associado a alguma atividade que desperte o interesse dos jovens, como por exemplo, o skate. Considerando a gama de outras atividades que podem ser agregadas a esta atividade, nota-se que a prática do skate vem se tornando cada vez mais difundida em toda sociedade. No site da Sisnema (empresa de Porto Alegre na área de informática e parceira da Microsoft no Brasil), encontra-se a informação de que: “Hoje o skate é o esporte que mais cresce, só na California, berço do esporte, são 7,5 milhões de praticantes, o Brasil possui 2, 7 milhões de skatistas, há pelo menos um praticante em 6% das casas brasileiras. No Brasil é o segundo esporte mais praticado, só perde para o futebol.”

Ainda mais por se tratar do tipo de atividade esportiva informal e popular entre adolescentes com diversas características diferentes, inclusive entre àqueles que passam muito tempo nas ruas ou vivem nesta situação.Como analisou em sua pesquisa de mestrado em educação física Uvinha (1997): “... o skate, além de ser uma modalidade inserida no universo dos esportes radicais (...) é uma atividade que lembra ‘rua’, que é realizado na ‘rua’ e com características tipicamente urbanas” (p. 44).  

Além disso, segundo Rei (2003) o Brasil é considerado a segunda maior potência neste esporte em todo o mundo. O reconhecimento do crescimento do skate também foi demonstrado pelo fato de ser incluído a partir do ano de 2009 na 53ª edição dos jogos regionais do estado de São Paulo, com a justificativa de que: “Em algumas pesquisas chegou a ser citado como o segundo esporte mais praticado em todo o mundo.”, segundo site do próprio evento.

Enfim, faz-se importante a intervenção com subsídios da área de psicologia quanto à promoção do comportamento moral mais adequado e desenvolvimento das habilidades sociais, já que os estudos nestas áreas têm demonstrado grande potencial também na prevenção do uso de drogas tanto entre adolescentes como também entre adultos (Wagner e Oliveira, 2007; Marlatt e Donavan, 2009).

Congruência Temática

Como destaca Gomide citando diversos autores (Hughes e Dunn, 2000; Lamborn, Mounts, Steinberg e Dornbush, 1991; Nurco e Lerner, 1996 apud Gomide 2006): “A literatura é enfática em citar o comportamento moral como um dos mais importantes inibidores do desenvolvimento de condutas antissociais como furto, uso de drogas, problemas escolares etc.” (p. 42). Fato este que indica o treinamento moral como uma necessidade implícita no contexto de jovens e adolescentes que se encontram em situação de risco social, como viver em periferias de grandes cidades e passar boa parte do tempo convivendo nas ruas.

Estas situações são problemáticas e difíceis de realizar alguma forma de intervenção, já que são momentos abertos fora da ação “controladora” de instituições como a Escola. Ao mesmo tempo em que são onde mais se faz necessária a intervenção direta para com os comportamentos desviantes, com prevenção tanto em níveis primário como secundário aos crimes praticados por jovens menores de idade. Pois servem para se obter informações importantes no sentido de investigar as relações parentais, fornecendo subsídios de fundamental importância para um programa de treinamento moral. Como apontaram os estudos sobre práticas educativas dos pais de adolescentes em conflito com a lei (Carvalho e Gomide, 2005) em trabalhos que deram origem ao Inventário de Estilos Parentais – IEP (Gomide, 2006).

De acordo com Gomide (2006) “Estilo Parental é definido como o conjunto das práticas educativas parentais ou atitudes parentais utilizadas pelos cuidadores com o objetivo de educar, socializar e controlar o comportamento de seus filhos.” (p. 7). E o modelo teórico de Estilo Parental do IEP é formado pelas seguintes práticas educativas: negligência, abuso físico, disciplina relaxada, punição inconsistente e monitoria negativa que promovem o desenvolvimento de comportamentos anti-sociais. E ainda pela monitoria positiva e o comportamento moral, que promovem o desenvolvimento de comportamentos pró-sociais.

Este inventário tem sido usado por vários pesquisadores em trabalhos sobre o comportamento de crianças e adolescentes (Salvo, Silvares e Toni, 2005; Baggio e Martinelli, 2008; Schwartz e col., 2009; Nogueira e col., 2009; Sabbag, 2010), apresentando resultados que confirmam cada vez mais a necessidade de se intervir no processo educativo de adolescentes através de suas famílias, nas escolas e comunidades. Nesses estudos tem sido comum observar que os pais ou cuidadores com práticas educativas consideradas negativas colaboram para que haja comportamentos problemáticos por parte dos educandos como baixo rendimento escolar, atitudes socialmente inadequadas ou falta de habilidade nas relações interpessoais.

Do mesmo modo, estudos sobre habilidades sociais também indicam essa relação inversamente proporcional entre práticas socialmente competentes e comportamentos problemáticos, conforme estudo realizado na cidade de São Carlos – SP com crianças em situação de rua (Bandeira, Rocha, Souza, Del Prette e Del Prette, 2006).

O que se denomina como o conjunto das Habilidades Sociais, segundo Del Prette e Del Prette (2001), além da categoria de Automonitoria, pode ser subdividido em mais seis: Habilidades Sociais de Comunicação; Civilidade; Assertividade/Direito e Cidadania; Empáticas; de Trabalho; e de Expressão de Sentimento Positivo. Com algumas variações para as faixas etárias da infância, adolescência e fase adulta (2005 e 2009).

Também é possível constatar uma relação diretamente proporcional entre déficits em habilidades sociais e o envolvimento com o uso de drogas, como em revisão de estudos publicados sobre este assunto realizada por Wagner e Oliveira (2007), em que se percebeu a falta de habilidade para recusar a oferta de droga, baixa auto-eficácia de enfrentamento e tomada de decisão como fatores que colaboram para o envolvimento com o uso de substâncias ilícitas.

Em posterior estudo realizado pelos mesmos autores, especificamente com adolescentes e jovens usuários de maconha e grupo controle, foi observada maior dificuldade dos usuários dessa substância para auto-exposição a desconhecidos, a situações novas e autocontrole da agressividade em situações aversivas (Wagner e Oliveira, 2009).

Além disso, outros estudos também têm demonstrado o quanto é importante para o bom desenvolvimento individual e saúde emocional os comportamentos socialmente competentes, como afirmaram Del Prette e Del Prette (2001):

As pesquisas em THS [Treinamento em Habilidades Sociais] têm mostrado que as pessoas socialmente competentes tendem a apresentar relações pessoais e profissionais mais produtivas, satisfatórias e duradouras, além de melhor saúde física e mental e bom funcionamento psicológico. Por outro lado, os déficits em habilidades sociais estão geralmente associados a dificuldades e conflitos na relação com outras pessoas, à pior qualidade de vida e a diversos tipos de transtornos psicológicos (p. 30).

Outro desdobramento para a abordagem do tema de Habilidades Sociais é proposto no livro “Habilidades Sociais Cristãs”, em que é analisada a forma como Jesus Cristo estabeleceu suas relações interpessoais, enquanto no aspecto de personagem histórico, salientando o fato de que pode nos servir para compreender e melhorar a perspectiva das relações interpessoais nos dias de hoje (Del Prette e Del Prette, 2003).

Da mesma forma Carmo, Murta, Veríssimo e Silva (2008) realizaram um trabalho de treinamento em Habilidades Sociais (H.S.) com crianças em aulas de catequese e afirmaram que existe coerência entre H.S. e valores religiosos, pois os ensinos de Jesus Cristo nos quais se baseia toda formação dos valores religiosos cristãos são congruentes com os objetivos de todo treinamento em HS.

Contudo, por se tratar de aspectos sociais, as habilidades interpessoais se desenvolvem ou são demonstrados através de relações com outras pessoas. E o contexto onde os modelos para essas relações são primeiramente apresentados a um indivíduo é justamente no seio da sua família de origem ou na relação com os primeiros cuidadores. O que demonstra claramente que uma boa parte da razão para o sucesso na vida adulta de uma pessoa depende do sucesso de suas relações familiares (Bordignon, 2008).

Porém, quando na família não são desenvolvidas as habilidades sociais necessárias para boas relações interpessoais, ou quando se quer uma pessoa pode contar com qualquer modelo familiar durante sua formação, o que é comum quando se trata de grupos da sociedade que vive nas regiões onde o índice de criminalidade é maior, fazem-se imprescindíveis intervenções além dos limites da família. Como se pode perceber através da proposta de um modelo global de organização desenvolvida para os Centros de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental (CAFAP) em Portugal (Melo e Alarcão, 2009).

Inclusive, considerando o modelo bioecológico do desenvolvimento humano de Bronfenbrenner, não é apenas no microssistema familiar que vamos encontrar a explicação para o tipo de desempenho social de cada pessoa, apesar de ser o ambiente onde acontecem as primeiras relações interpessoais. Principalmente porque é necessário considerar que a família está inserida em outras esferas de inter-relações como no mesossistema que, por sua vez, está relacionado a uma gama muito grande de fatores. E ainda em outros níveis maiores de relações que vão do exossistema ao macrossistema, envolvendo não somente fatores sociais, mas econômico-políticos, culturais e históricos (Martins e Szymanski, 2004; Poletto e Koller, 2008).

Essa visão ampla sobre influencias das quais as famílias estão sujeitas sugerem outros campos de ação nos processos de educação das novas gerações. Como exemplo, no artigo de Murta (2005) em que é apresentado um panorama da produção de trabalhos envolvendo o treinamento e pesquisa em Habilidades Sociais no Brasil, tanto na prevenção primária, secundária e terceária. As pesquisas identificadas foram, em sua maioria, realizadas no contexto clínico e escolar, tendo indicado a possibilidade de resultados promissores para o bem estar da sociedade. Mas, também demonstra certa ausência de trabalhos neste sentido em ambientes além de instituições como escolas e clínicas, ao menos dentre os que até então foram publicados.

Sendo assim, existe uma lacuna quanto a elaboração de intervenções em contextos conforme as necessidades específicas de um determinado grupo além das instituições tradicionais, como no caso, adolescentes que freqüentam as ruas em suas horas de lazer. Estas propostas devem utilizar mecanismos flexíveis quanto a sua estrutura, programa e metodologia, sem a rigidez característica da Escola, ou o difícil acesso das classes populares ao tratamento clínico. Com estas qualidades identificam-se os chamados “projetos sociais”, cada vez mais comuns em nossa sociedade e diversificados, com grande possibilidade de atuação do profissional da área de psicologia. Tornando possíveis intervenções que vão além dos espaços tradicionais, pois, como conclui Eidelwein (2005) em seu trabalho sobre a atuação de psicólogos em projetos de educação e trabalho:

“É interessante desvincular-se da perspectiva do local de atuação, pois não se trata de aplicar um conhecimento psicológico em locais distintos, mas de construir outros conhecimentos psicológicos que emergem justamente da prática profissional em vários campos... o campo de atuação como território para novos saberes.” (p. 65).

Tais projetos sociais têm como característica importante o fato de que podem ser programados e executados com objetivos pontuais, associados a estudos de pesquisas, com começo, meio e fim (finalidade) de sua intervenção, com possibilidades de serem avaliados para reprodução, modificação ou extinção do trabalho.

Com isso, associando ainda os conhecimentos da área de psicologia, especificamente em relação a fase do desenvolvimento humano da adolescência, um projeto social pode ser flexível em seu aprimoramento, para que se possa fazer como salienta Raupp e Milnitsky-Sapiro (2005): “levar em conta as singularidades dos sujeitos aos quais estas ações se destinam, situando-os em seus momentos e contextos específicos, viabilizando uma maior efetividade nestes programas.” (p. 67).

Pois, como afirma Campos (2002) sobre a psicologia da adolescência que existe uma série de teorias e autores que divergem entre si, mas que, no entanto, pode-se afirmar sem nenhuma dúvida que na adolescência se vive um momento do desenvolvimento bastante peculiar, além da simples idéia de que é o momento de transição entre deixar de ser criança para se tornar um adulto. O que também caracteriza a complexidade deste período da vida é o desenvolvimento da personalidade de cada pessoa, que se dá ao longo de toda vida e não apenas na infância.

De modo que, livre de preconceitos, a compreensão do que significa a adolescência deve também ir além da simples classificação de ser um período de risco, mas considerar o contexto cultural e não causar discriminação, como pode acontecer até mesmo quando se propõe uma ação através dos Programas de Políticas Públicas em favor dos adolescentes (Raupp e Milnitsky-Sapiro, 2005).

Como aponta Scivoletto (2009) e a equipe de fonoaudiólogos do Programa Equilíbrio em São Paulo – SP, em contextos de situações de risco e vulnerabilidade social é essencial promover a aquisição de recursos emocionais, fortalecimento da auto-estima e metas para o próprio projeto de vida das crianças e adolescentes que vivem em ambientes de extrema violência urbana. Para isso, existem estratégias iniciais e fundamentais para a intervenção direcionada a um grupo da população como este, como por exemplo: avaliar o contexto em que vivem, ajudar estes adolescentes a se adaptarem em ambientes que lhes sejam novos, mais adequados e promover a estimulação para que adquiram outros recursos de comunicação.

Para isso, como afirmam Raupp e Milnitsky-Sapiro (2005) se faz necessário compreender o melhor possível a realidade dos jovens e seus interesses para a efetividade de todo programa voltado a essa faixa etária, acrescentando às conquistas já alcançadas novas possibilidades baseadas em pesquisas cientificamente elaboradas.

Desse modo, pode-se fazer uso do que Uvinha (1997) observou investigando um universo considerado propriamente do adolescente, embora não exclusivo, realizando um trabalho de análise sobre o comportamento dos skatistas do ABC paulista, em que recebeu a titulação de mestre na área de educação física. Neste trabalho ele observou que para os adolescentes que praticam tal modalidade de esporte considerado dentro da categoria de “radical”, este possui um grande significado na busca pela identidade, vivência em grupo e expressão dos sentimentos.

Da mesma forma Velozo (2009) também encontrou entre adolescentes portugueses que praticam skate uma forte atribuição de sentido para suas vidas através da prática do skate, com um valor definitivamente positivo.

Os dois pesquisadores, Uvinha (1997) e Veloso (2009), encontraram tanto entre os jovens skatistas do Brasil e de Portugal, diversos outros aspectos culturais e comportamentais associados ao skate, como a música (tanto o Rock quanto o RAP e outros estilos pop), os grafits (desenhos em murais), fotografia, vídeos, revistas, moda e outros elementos que agregam muitos jovens a este universo que, não necessariamente seriam praticantes do skate. O que demonstra um rico elemento para ser associado a um programa de treinamento moral e de habilidades sociais cristãs dentro de um programa sócio-educativo entre adolescentes em situação real de risco social.

Outro aspecto que se destaca como peculiaridade própria do skate é o que Galliano e Mayer (2009)encontraram em pesquisa sobre os motivos que levam uma pessoa a praticar este esporte. Quando questionados a respeito do gosto pela competição a maioria dos skatistas que participaram da pesquisa (realizada no Rio Grande do Sul e Paraná) afirmou que este fator é sem importância. Mesmo sendo o skate um esporte que também acontece através de competições, os participantes cooperam muito mais uns com os outros do que competem, estes são muito mais momentos de “celebração” do que de “competição”.

Além disso, em pesquisa sobre o desenvolvimento histórico do skate de brincadeira a um esporte profissionalizado, Honorato (2004) chama a atenção para o fato de que atualmente acontecem competições de skate nas maiores capitais de todo o mundo, o mercado dentro deste seguimento é globalizado e mantém uma constante de criações/recriações passando por diversas fases nas ultimas décadas, continuando em plena ascensão.

Mas, mesmo com todas as vantagens que seriam possíveis assinalar para utilizar a atividade do skate na promoção de cidadania, nota-se que ainda hoje existe preconceito e discriminação associada a este esporte que o mantém distante de ser tratado de forma digna dentro dos conteúdos escolares, como poderia ser dentro da disciplina de educação física, por exemplo. Ora por ser associado como perigoso em relação ao risco de se contrair fraturas, hematomas e escoriações (como se outros esportes não causassem também os mesmos riscos), ora por se associar a prática do skate com o comportamento de drogadição ou por se argumentar a respeito dos “incômodos” que pode causar em vias públicas, quando geralmente é praticado nas ruas (Velozo, 2009).

No entanto, Velozo (2009), ao mesmo tempo em que encontrou referências de conotações negativas por certa parcela da população que não vive no universo desta subcultura também destacou que:

“O envolvimento com o skate faz com que os praticantes participem de grupos de amigos, unidos por um mesmo objetivo. Boa parte dos amigos dos skatistas também faz parte do grupo, o que lhes proporciona a sensação de serem como uma ‘família’”. (p. 140).

O que reforça ainda mais a idéia de um trabalho de Treinamento Moral e Habilidades Sociais Cristãs com Adolescentes em Atividades de Skate.

Portanto, mesmo com o preconceito e a discriminação, ou justamente por causa desses fatores segundo a visão de algumas pessoas em algumas situações, por relacionarem o skate com a “marginalidade” e ao convívio na rua, este esporte se apresenta como a alternativa mais viável para atender as necessidades daqueles que mais seriam carentes de habilidades sociais cristãs e comportamentos morais mais adequados. Ou seja, adolescentes que vivem em situação de risco social passando boa parte do tempo convivendo com situações de vulnerabilidade nas ruas das grandes cidades.

Metodologia

Esta pesquisa teve por objetivo geral avaliar o Programa de Comportamento Moral e Habilidades Sociais Cristãs com Adolescentes em Atividades de Skate, em dois grupos de adolescentes que freqüentam o Programa Comunidade Escola.

Objetivos específicos:

  • Comparou os índices dos comportamentos de risco medidos pelo YSR antes e após a aplicação do Programa de Comportamento Moral (CM) + Habilidades Sociais Cristãs (HSC) e as atividades de skate nos dois grupos.
  • Comparou os índices de práticas parentais medidos pelo IEP antes e após a aplicação do Programa de Comportamento Moral (CM) + Habilidades Sociais Cristãs (HSC) e as atividades de skate nos dois grupos.

Participantes: participaram desta pesquisa dois grupos de adolescentes entre 11 e 14 anos de idade, de ambos os sexos, que freqüentam o programa Comunidade Escola. Cada grupo de adolescentes foi formado por 4 indivíduos. O grupo A participou do Programa de Comportamento Moral (CM) + Habilidades Sociais Cristãs (HSC) e as atividades de skate. E o grupo B participou apenas das atividades já existentes no Programa Comunidade Escola.

Local: O Programa Comunidade Escola abre as escolas durante os finais de semana e em alguns locais durante a noite nos dias úteis. São desenvolvidas atividades socioeducativas gratuitas em dependências das escolas, como salas de aula, quadras esportivas, auditórios, bibliotecas e laboratórios de informática.  Cursos para geração de renda também são realizados, atividades esportivas, culturais, de lazer e saúde. Representantes da comunidade, da escola e da prefeitura formam um grupo responsável pelo planejamento das atividades, para garantir os interesses da comunidade. As atividades são realizadas por voluntários, instrutores, servidores municipais e estagiários de graduação. Esta pesquisa ocorreu em uma das unidades escolares da Prefeitura da cidade de Curitiba onde ocorre o Programa Comunidade Escola, como descrito acima.

Instrumentos: foram utilizados para avaliação do programa de CM e HSC dois inventários padronizados: IEP e YSR.

O primeiro dos inventários é o IEP - Inventário de Estilos Parentais (Gomide, 2006), que avalia as práticas educativas utilizadas pelos pais e/ou cuidadores de crianças e adolescentes. Este instrumento tem 42 questões que avaliam sete práticas educativas, sendo cinco delas vinculadas ao desenvolvimento do comportamento antissocial, ou seja, práticas educativas negativas: negligência, abuso físico, disciplina relaxada, punição inconsistente e monitoria negativa e, duas que promovem comportamentos prósociais, são as práticas educativas positivas: monitoria positiva e comportamento moral. O índice de Estilo Parental é calculado somando-se as práticas positivas e subtraindo-se destas a soma das práticas negativas. Os valores obtidos variam de +24 (estilo parental excelente) a -60 (estilo parental de extremo risco). O Índice de Estilo Parental é o resultado da incidência das práticas parentais utilizadas na educação dos filhos, ou seja, quanto mais negativo, maior a influência das práticas negativas, o que aumenta a probabilidade de que os filhos venham a desenvolver comportamentos antissociais, e por outro lado, quanto mais positivo, maiores chances de comportamentos prósociais serem apresentados pelos filhos (Gomide et. al., 2008).

O segundo instrumento a ser utilizado neste trabalho será o Inventário de auto-avaliação para jovens de 11 a 18 anos, conhecido como YSR - “Youth Self-Report” (Achenbach e Rescorla, 2001), de acordo com sigla em inglês, pois fora desenvolvido nos Estados Unidos e traduzido no Brasil, mas ainda não publicado. É um inventário que faz parte de um conjunto de instrumentos juntamente com o Inventário de Comportamentos da Infância e Adolescência - CBCL 6/18 (Achenbach, 1991). Mas o YSR foi especificamente elaborado para a faixa etária adolescente e para ser aplicado em entrevista direta com o sujeito, ao contrário do CBCL que se aplica com pais e cuidadores ou com professores das crianças e adolescentes avaliados. Os itens de ambos os inventários são para avaliação de problemas de comportamentos que estão agrupados sob nove escalas: I. Isolamento, II. Queixas Somáticas, III. Ansiedade/Depressão, IV. Problemas Sociais, V. Problemas de Pensamento, VI. Problemas de Atenção, VII. Comportamento Delinqüente, VIII. Comportamento Agressivo e IX. Problemas Sexuais. As escalas I, II e III referem-se aos Distúrbios Internalizantes (DI) e as escalas VII e VIII, aos Distúrbios Externalizantes (DE). A soma dos escores das escalas individuais corresponde ao Total de Problemas de Comportamento Araújo e Silvares, 2008 apud Gomide et. al. 2008). Este inventário faz parte do Sistema de Avaliação Empiricamente Baseado do Achenbach (Achenbach System of Empirically Based Assessment – ASEBA), que é um sistema integrado de avaliação por meio de múltiplos informantes. Nesse sistema, há uma ampla gama de inventários que auxiliam no processo de avaliação das competências e dos problemas de comportamento (Rocha, Araujo e Silvares, 2008). O instrumento mede 24 escalas, agrupadas em subcategorias. A escala de competências totais agrupa as subcategorias atividade, social e escola. A escala de comportamentos internalizantes é composta pelas subcategorias ansiedade/depressão, isolamento/depressão e queixas somáticas. A escala de comportamentos externalizantes tem os comportamentos de quebrar regras e agressivos. A escala de Problemas Totais agrupa as subcategorias de comportamentos internalizantes, externalizantes e ainda os problemas sociais, problemas de pensamentos e problemas de atenção. Além destas existem mais nove subcategorias, a saber: problemas afetivos, problemas de ansiedade, problemas somáticos, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, Transtorno Desafiador Opositivo, Transtorno de Conduta, Problemas de Lentidão Cognitiva, Transtorno Obsessivo Compulsivo e Stress Postraumático (Araújo e Silvares, 2008 apud Gomide et. al. 2008).

Delineamento Experimental: Dois grupos voluntários de adolescentes com 4 participantes cada um, de ambos os sexos, foram formados.

Tabela 1 - Delineamento experimental

Grupos

Pré Teste

Atividades

Pós Teste

 

A

IEP

YSR

Programa de

CM + HSC e

Atividade de Skate

IEP

YSR

Tabela 1 - Delineamento experimental

 

B

IEP

YSR

 

IEP

YSR

Procedimento: O pesquisador solicitou a autorização do gestor responsável pelo Programa Comunidade Escola. Após a autorização, para estes grupos serem formados foi usada a seguinte estratégia: o pesquisador, juntamente com a equipe de skatistas amadores “BANX BRASIL” [02] freqüentaram durante alguns dias o programa comunidade para o estabelecimento de rapport [03]. Em seguida, os usuários do Programa Comunidade Escola foram convidados a participar da pesquisa, os que aceitaram assinaram o TCLE - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (anexo III). Foram marcados os dias para aplicação do pré-teste, que foi realizado pelo pesquisador com a ajuda de uma estagiária de psicologia e uma psicóloga voluntária. O pós-teste aconteceu da mesma forma após as atividades de intervenção.

Após a aplicação destes dois inventários como pré-testes nos dois grupos que participam do Programa Comunidade Escola, um deles foi sorteado para participar do Treinamento em CM+HSC juntamente com as atividades de skate e outro para ser o grupo controle.

I – Programa de CM e HSC:

As atividades de intervenção aconteceram em quatro sessões de 50 minutos. Os temas abordados nas vivências foram os seguintes:

  1. Polidez e Civilidade
  2. Empatia e Amizade
  3. Solução de problemas interpessoais e Assertividade
  4. Reparação do Dano e Perdão
  5. Encerramento e Confraternização

II – Atividades de Skate:

Foram conduzidas por jovens da equipe de skatistas amadores BANX BRASIL, auxiliares da pesquisa. As atividades tiveram caráter lúdico e instrutivo acerca da prática do skate, como uma modalidade de esporte e expressão da cultura. A duração de cada uma foi cerca de 40 minutos, realizadas na quadra da escola com equipamentos que pertencem a própria equipe de skatistas, como os próprios skates, palcos e outros obstáculos em que são executadas manobras deste esporte. Os jovens skatistas amadores realizaram demonstrações da prática do skate com sessões de fotos das manobras e filmagens.

Análise de dados: O Programa de CM + HSC em Atividades de Skate foi avaliado através de comparação dos resultados individuais dos dois testes aplicados IEP e YSR nos dois grupos de adolescentes que freqüentam o Programa Comunidade Escola.

Resultados  

O programa foi aplicado em 4 adolescentes com idade média de 12,5 anos, 2 do sexo feminino e 2 do sexo masculino. No grupo controle a idade média foi de 13 anos e todos do sexo masculino. Como pode ser vista na tabela 1.

Tabela 2 - Caracterização da amostra.

 

Grupo Experimental

Grupo Controle

Sexo feminino

Sexo masculino

2

2

0

4

 

Idade média

 

12,5

 

13

 

Para a formação do grupo foram convidados adolescentes que nos finais de semana freqüentam o Programa Comunidade Escola em uma das unidades de ensino fundamental da cidade de Curitiba – PR. O pesquisador, acompanhado de uma equipe de skatistas, visitou o local alguns finais de semana antes de iniciar a fase de pré teste. Durante esta fase 45 adolescentes concordaram em participar do programa e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, mas a maioria não participou integralmente do programa, devido a grande rotatividade de participantes do Programa Comunidade Escola a cada final de semana.

Foi aplicado o IEP materno e paterno em pré e pós testes nos participantes, os resultados da média dos índices maternos do grupo experimental e do grupo controle podem ser vistos nas tabelas 2 e 3.

Tabela 3 - Média dos índices de praticas parentais maternas dos adolescentes.

 

Práticas educativas

Índice materno do grupo experimental

Índice materno do grupo controle

Pré teste

Pós teste

Pré teste

Pós teste

Monitoria positiva

9,5 (3)

10,5 (2)

9,5 (3)

10,5 (2)

Comportamento moral

9,75 (3)

10,25 (2)

9,75 (3)

11,5 (1)

Punição inconsistente

7 (4)

6,5 (4)

2 (2)

3 (2)

Negligência

6,75 (4)

3,25 (3)

1,25 (2)

1,75 (2)

Disciplina relaxada

5 (4)

5,25 (4)

5,5 (4)

6,25 (4)

Monitoria negativa

8 (4)

7,5 (4)

6,5 (3)

6,75 (3)

Abuso físico

2 (4)

2,5 (4)

0,5 (2)

1 (3)

IEP

-9,5 (4)

-4,25 (4)

3,5 (3)

2,5 (3)

(1) ótimo, (2) bom, (3) regular, (4) risco.

A média do índice de estilo parental materno do grupo experimental foi de -9,5 em pré teste e melhorou para -4,25, porém, continuou na faixa de risco. A média do grupo controle foi de 3,5 e também permaneceu regular em pós teste, mesmo melhorando para 2,5. Todos os índices médios das praticas negativas em pré teste do grupo experimental foram dentro da faixa de risco (Punição inconsistente, Negligência, Disciplina relaxada, Monitoria negativa e Abuso físico). No grupo controle o índice médio das práticas negativas variou entre bom, regular e de risco. Os índices médios das práticas parentais positivas de ambos os grupos foram dentro da faixa regular (Monitoria Positiva e Comportamento Moral).

Notou-se que os resultados do índice médio das práticas positivas nos dois grupos em pós teste foram melhores que em pré teste, mudando de regular para bom. Destaca-se a melhora do resultado na média do índice de Comportamento moral do grupo controle, que foi ótimo em pós teste. No restante dos índices não houve melhora nos resultados do grupo controle. E percebeu-se ainda uma melhora na média do índice de Negligência do grupo experimental, que em pré teste foi na faixa de risco e em pós teste foi regular.

 

Práticas educativas

Índice paterno do grupo experimental

Índice paterno do grupo controle

Pré teste

Pós teste

Pré teste

Pós teste

Monitoria positiva

10,6 (2)

10 (2)

8,6 (3)

9,6 (2)

Comportamento moral

11,6 (1)

10 (2)

8,3 (3)

11 (2)

Punição inconsistente

5,3 (4)

5,3 (4)

2,3 (2)

3,6 (4)

Negligência

4,3 (4)

3 (3)

1,6 (2)

1,6 (3)

Disciplina relaxada

3,3 (3)

4 (3)

4,3 (4)

6 (3)

Monitoria negativa

9,3 (4)

8 (4)

5,3 (3)

5,3 (4)

Abuso físico

4,3 (4)

2,3 (4)

1,3 (3)

1,6 (4)

IEP

-3 (4)

-2,6 (3)

2 (3)

2,3 (3)

(1) ótimo, (2) bom, (3) regular, (4) risco.

Tabela 4 - Média dos índices de praticas parentais paternas dos adolescentes.

Quanto aos resultados dos índices médios das práticas parentais paternas houve uma pequena melhora no grupo experimental, em pré teste o resultado foi de -3 (risco) e em pós teste foi de -2,6 (regular). No grupo controle não houve melhora nos resultados, permanecendo em situação de risco. Embora tenha ocorrido uma pequena queda na média do índice de Comportamento moral entre pré e pós testes, suficiente para mudar do nível ótimo para bom, houve também melhora na média do índice de Negligência, alterando da condição de risco para regular.

No entanto, houve melhora nos resultados dos índices médios das práticas positivas (Comportamento moral e Monitoria positiva) do grupo controle, mas em relação às outras práticas todas diminuíram seu índice médio, com exceção apenas do índice de Disciplina relaxada que apresentou uma pequena melhora entre pré e pós testes. Também foi aplicado o YSR nos participantes e os resultados podem ser vistos na tabela 4.

Tabela 5 - Média dos resultados do YSR com grupo experimental e grupo controle.

Categorias

Grupo experimental

Grupo controle

Pré teste

Pós teste

Pré teste

Pós teste

Atividade

4,25 (1)

3,75 (1)

3 (2)

2,25 (3)

Social

6,75 (1)

6,37 (1)

7,37 (1)

7 (1)

Escola

1,37

2

2,25

2,62

Competência total

9,87 (1)

10,37 (1)

12,62 (1)

12,5 (1)

Isolamento

3,5 (1)

4,25 (1)

3 (1)

3 (1)

Queixas somáticas

4,75 (1)

3 (1)

0,75 (1)

2,5 (1)

Ansiedade/ depressão

10,25 (3)

10,25 (3)

7,5 (3)

6 (1)

Problemas sociais

4,25 (1)

4,75 (1)

4,5 (1)

4,75 (1)

Problemas de pensamento

2 (1)

1,75 (1)

1,75 (1)

2 (1)

Problemas de atenção

5,25 (1)

5,5 (1)

3,75 (1)

3 (1)

Comportamento delinquente

6,5 (1)

4,25 (1)

3 (1)

4,5 (1)

Comportamento agressivo

11 (3)

9,5 (3)

10,25 (3)

8 (3)

Problemas internalizantes

18 (3)

17,5 (3)

11,25 (3)

11,5 (3)

Problemas externalizantes

17,5 (3)

13,75 (3)

13,25 (3)

12,5 (3)

Total de problemas

53,5 (1)

48,25 (1)

39,5 (1)

38 (1)

(1) normal,           (2) limítrofe,          (3) clínico

 

Segundo os resultados obtidos em pré e pós testes com o YSR, a média do total de problemas dos participantes do grupo experimental diminuiu de 53,5 para 48,25, permanecendo na linha normal. Havendo mudanças positivas de diminuição quanto as categorias Escola, Queixas somáticas, Problemas de pensamento, Comportamento delinqüente, Comportamento agressivo, Problemas internalizantes e, principalmente quanto a categoria de Problemas externalizantes.

Quanto aos resultados obtidos com o grupo controle houve uma pequena diminuição no Total de problemas entre pré e pós testes, de 39,5 para 38. Com diminuição dos índices das categorias de Ansiedade e depressão, Problemas de atenção, Comportamento agressivo e Problemas externalizantes. Em todas as outras categorias houve aumento nos índices, com exceção apenas da categoria de Isolamento que permaneceu igual entre o pré e pós testes.

Os dois grupos tiveram em comum o fato de que os resultados das categorias Comportamento agressivo, Problemas internalizantes e Problemas externalizantes, tanto em pré teste como em pós teste, foram na linha clínica.

As quatro sessões do programa foram realizadas entre os meses de agosto e setembro de 2010, aos sábados a partir das 13h30, com duração de 50 minutos em média. Em seguida os participantes eram convidados para irem à quadra da escola onde era realizada uma atividade prática com skate, conduzidos pela equipe BANX BRASIL de skatistas amadores.

O tema da primeira sessão foi Polidez e Civilidade utilizando a vivência “O MEU NOME É...” (Del Prette e Del Prette, 2001). Foi uma atividade de auto-apresentação e recordação do nome do colega ao lado, depois que o facilitador chama cada participante ao centro da sala por nomes diferentes. Todos relataram como cada um se sente quando é chamado por um nome diferente e como se sente quando é chamado por seu nome correto. Os participantes puderam se apresentar uns aos outros e foi enfatizada a importância do nome de cada um, para que nos referíssemos a cada pessoa chamando-a por seu nome como demonstração de civilidade. Foi lido o texto Bíblico do Evangelho de Lucas (1.26-38) para demonstrar que também Jesus recebeu seu nome antes do nascimento e isso foi muito importante. Foi realizada também uma adaptação da vivência “PALAVRAS MÁGICAS” (Del Prette e Del Prette, 2005), em que o grupo completou um texto usando expressões como “Por favor”, “Obrigado”, “Bom dia”. Todos compartilharam suas respostas e o facilitador comentou a variação que pode existir no modo como cada um agradece, cumprimenta, e outras expressões de boas maneiras, dependendo do contexto de cada situação e com que pessoa se interage.

A segunda sessão foi sobre Empatia e Amizade, a vivência usada foi “OLHANDO E AJUDANDO” (Del Prette e Del Prette, 2005). Um integrante da equipe BANX BRASIL de skatistas foi convidado a ser auxiliar nesta vivência representando a condição de que teria se machucado. O facilitador lhe deu instruções para que entrasse na sala mancando. Enquanto isso, dentro da sala o facilitador simulou o início de outra vivência pedindo a colaboração de três participantes para que se sentassem a frente e aguardassem novas orientações. O auxiliar entrou na sala e, segundo orientação do facilitador, ficou de pé próximo aos que estavam sentados a frente. O facilitador aguardou possíveis reações observando o comportamento do grupo, porém, todos se entreolharam e não houve comentários ou alguma reação no sentido de auxiliar quem supostamente estava machucado. O facilitador então interrompeu a vivência como programado para promover um debate sobre o que ocorrera na sala. Foi revelado que de fato o participante que entrou mancando não estava machucado, mas fazia parte da vivência. Alguns aspectos foram ressaltados, como estar atento às necessidades dos outros com exemplos trazidos pelos próprios adolescentes, como situações em ônibus, na escola ou na rua. Foi lido o texto Bíblico do Evangelho de Lucas (10.25-37). Comentou-se os aspectos da “Parábola do Bom Samaritano” contada por Jesus e formas de aplicações em nossas vidas atualmente.

A terceira sessão foi sobre o tema Solução de problemas interpessoais e Assertividade, apresentado com a vivência “SEMÁFORO DAS REAÇÕES” (Vivência adaptada de Del Prette e Del Prette, 2001 e 2005). O facilitador fez uma breve explicação do que são comportamentos agressivos, passivos e assertivos. Em seguida, juntamente com um integrante da equipe de skatistas representou cenas sugeridas na vivência “NEM PASSIVO NEM AGRESSIVO: ASSERTIVO” (Del Prette e Del Prette, 2001). Cada participante foi orientado a observar as dramatizações e, ao final de cada apresentação, deveriam levantar a mão e responder como interpretaram as atitudes representadas em cada cena nas três versões (agressiva, passiva e assertiva). No final das apresentações foi feito uma debate sobre as razões que cada um teve em como julgar o comportamento da personagem principal, como tom de voz, postura, ritmo da fala, olhar, vocabulário etc... Foi lido o texto Bíblico do evangelho de Lucas (10.38-42) e distribuído uma folha para cada participante com os DIREITOS HUMANOS E INTERPESSOAIS (Del Prette e Del Prette, 2001). Houve uma reflexão em grupo a respeito do modo como Jesus lidou com as situações em que amigos tentaram induzi-lo a emitir algum comportamento, mas Ele agiu de modo assertivo.

O quarto tema da série de sessões foi sobre Reparação do dano e Perdão. Para isso foi feito um debate sobre a “PENA DE MORTE”, dividindo o grupo todo em dois de forma aleatória, independente da opinião particular de cada um, se era a favor ou contra a pena de morte. Para motivar a participação de todos com argumentos a favor ou contra a pena de morte, foi lido uma notícia de latrocínio veiculada pela internet (http://www.diariodeumjuiz.com/?p=991 ). Após os dois grupo levantarem alguns argumentos prós e contra a pena de morte, que foram escritos num quadro, foi feita a leitura do texto Bíblico no Evangelho de Lucas (23.26-43 versão NVI) e levantado os aspectos de que Jesus sofrera pena de morte, tendo dito que perdoava as pessoas que o condenaram enquanto estava na cruz. O grupo comentou as implicações desse ato de Jesus, com aplicações para a vida cotidiana com possibilidades de se recuperar danos causados aos outros, perdas, ofensas e foi distribuída uma folha com a descrição de atitudes que facilitam ou dificultam o perdão. Também foi realizado um inventário auto aplicativo sobre a capacidade de perdoar (Del Prette e Del Prette).

O último encontro se deu num domingo e contou com a participação de outros voluntários do Programa Comunidade Escola, que desenvolveram diversas atividades e inclusive teve cobertura de uma emissora de televisão local filiada a rede Record (RIC – TV). Houve um clima de festa com vários adolescentes que começaram a andar de skate nas atividades das semanas anteriores e outros que já praticavam o esporte. A equipe BANX BRASIL realizou uma apresentação especial neste dia e despediram-se da comunidade local.

Discussão Final

Visto que não foi objetivo deste programa trabalhar as práticas parentais com os pais dos adolescentes, os resultados apontados pelo IEP em pós teste eram esperados. E serviram para identificar quais os índices de práticas parentais nas famílias de origem destes adolescentes foram predominantes, para inclusive se obter melhor caracterização do perfil da amostra, que em geral aponta para um índice de práticas parentais de risco a regular.

Com isso, conforme explica Gomide (2006) é indicado que os pais ou cuidadores dos adolescentes que participaram do programa sejam orientados a freqüentarem programas específicos de intervenção terapêutica, especialmente desenvolvidos para pais com dificuldades em práticas educativas com enfoque nas conseqüências por se fazer uso de práticas negativas ao invés de positivas. Ou, que pelo menos freqüentem grupos de orientação e treinamento de pais.

As possíveis mudanças poderão ser observadas através do YSR, aplicado também em pré e pós testes, conforme resultados demonstrados na tabela 4 em que se percebe uma diminuição na média total de problemas dos participantes no grupo experimental. Confirmando o que fora indicado por Del Prette et al. (2006) a respeito de uma relação entre desenvolver práticas socialmente competentes como prevenção ao surgimento de comportamentos problemáticos.

Assim como Gomide (2010) também enfatiza a necessidade de se ensinar o comportamento moral às pessoas, para que se possa colaborar com a preservação da vida, diminuição da violência social e inibir comportamentos destrutivos. Sendo este caminho uma forma de “denominador comum” entre estudiosos de todas as áreas do conhecimento em todos os tempos.

Além disso, foi possível perceber mais especificamente a diminuição de problemas em relação às categorias do YSR de Queixas somáticas, Comportamento delinqüente, Comportamento agressivo, Problemas internalizantes e Problemas externalizantes. O que pode colaborar para a prevenção ao uso de drogas, já que uma característica encontrada entre os usuários de maconha em pesquisa realizada por Wagner e Oliveira (2009) é a dificuldade em ter auto controle da agressividade em situações aversivas.

Outro aspecto positivo que se pôde perceber com os resultados do programa foi a melhora na categoria Escola do YSR e a relação com o que Melo e Alarcão (2009) apresentaram a respeito da necessidade de intervenção fora dos limites da família. Não sendo possível trabalhar com a família, algo precisa ser feito pelo comportamento moral de crianças e adolescentes. Pois com o IEP foram constatados baixos índices de práticas parentais positivas, mas o trabalho foi realizado apenas com os adolescentes, sem a participação de seus pais ou cuidadores.

Para isso, o fato de se ter associado o programa de treinamento moral e habilidades sociais cristãs com as atividades de skate foi fundamental para a vinculação com um grupo de adolescentes, embora a grande maioria que assinou o TCLE não tenha cumprido todo o programa. Percebeu-se a fácil identificação do público jovem com o skate e toda a cultura que envolve esta prática, o que também foi observado por pesquisas sobre o universo do skate (Uvinha, 1997; Honorato 2004; Veloso, 2009; Galliano e Mayer, 2009), em que os adolescentes desenvolvem o senso de identidade perante a sociedade através desta prática. Muitas crianças (faixa etária que não fazia parte do foco da pesquisa neste programa) participaram com assiduidade das atividades de skate, que eram livres para todas as idades.

Possivelmente ter-se-ia obtido melhores resultados caso o programa tivesse sido desenvolvido com mais tempo, ou seja, com 8 a 10 sessões. Mas em função dos problemas que o pesquisador teve em formar os grupos, como as sucessivas demoras e recusas por parte de programas sociais no estabelecimento de parceria para execução da pesquisa (de março à junho de 2010 outros programas foram contatados para que a pesquisa se realizasse com adolescentes em situação de risco social), a grande rotatividade de adolescentes dentro do Programa Comunidade Escola e falta de mais recursos para incentivo à prática do skate,  foi necessário aplicar o programa em sessões concentradas.

Sugere-se então para futuras pesquisas que um programa de treinamento moral ou habilidades sociais seja com crianças ou adolescentes, possa incluir seus pais ou cuidadores e que possa ser desenvolvido seguindo os moldes do Programa de Comportamento Moral (Gomide, 2010). E maior investimento e atrativos para que os jovens sejam motivados a permanecerem no programa por várias semanas, com incentivo na prática de uma atividade como o skate que, além de ser mais abrangente que um simples esporte, é tão rico em elementos dentro da cultura dos jovens que se identificam facilmente.

Sobre o Autor:

Luis Antonio Silva Bernardo - Aluno do 5º. ano do Curso de Psicologia da Faculdade Evangélica do Paraná.

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