Felicidade: Um Ideal Equivocado

Na contemporaneidade nós engendramos o ideário da felicidade a curto prazo. A decorrência desta nova maneira de valorar e viver a vida foi reduzir a extremos nossa tolerância face ao infortúnio, ao padecimento, ao desconforto. Cada cultura fornece as chaves para a interpretação do que são, para o ser humano, as ameaças de padecimento, enfermidade e morte. Mesmo nos grupos humanos primitivos o estado de ser saudável estava alicerçado em aspectos sociais, técnicos (mesmo que precários) e simbólicos. Nas sociedades modernas, pós-industriais, ocorreu uma radical transformação da experiência do sofrimento, com hipertrofia do aspecto técnico. Do sofrimento foi enfraquecida a conotação subjetiva. É o que Illich denomina “expropriação da dor” (ILLITCH, 1975). Confiscado pela tecnologia o padecimento, de qualquer ordem, tornou-se abominável.

Esmaeceu-se a elaboração cultural e simbólica deste fenômeno. O sofrimento passa a ser detectado, localizado em partes do corpo humano, separado deste corpo, mensurado e evidentemente, anestesiado por drogas supressoras do mal. Não se está aqui a fazer apologia do padecimento e nem se trata de retorno reacionário à metafísica da dor como corolário do pecado. O que se questiona é o caráter mecânico que a eliminação do padecimento se coloca na sociedade dominada pela anestesia. Cuida-se dos sintomas, e com que competência! As causas nem sempre são analisadas. Não são importantes, sobretudo, para aquele que sofre. O que ele deseja é livrar-se da dor com a maior rapidez possível, mesmo em troca da autonomia.

“À medida que a analgesia domina o comportamento e o consumo, faz declinar toda capacidade de enfrentar a dor, índice de capacidade de viver. Ao mesmo tempo, decresce a faculdade de desfrutar de prazeres simples e de estimulantes fracos”. (ILLICH, 1975, p. 149)

O círculo se retroalimenta e se legitima: A intervenção anestésica sobre o mal-estar transforma a insatisfação numa doença e, como tal, sujeita à medicalização, é o que FERRO, (1998) denomina de “As sociedades doentes do progresso”. Este processo de “iatrogenia do poder de sofrer”, vale dizer, processo doentio provocado pela intervenção profissional, através de seus procedimentos, atingiu níveis descomunais.

Nossos desejos são causa de padecimentos, daí a felicidade se nos apresentar como um problema. Encontrar algum obstáculo a se interpor entre o que se quer e seu alcance, querer e não poder, de imediato, pode gerar sofrimento insuportável. Todavia, uma vez alcançado, o objeto desejado abre a lacuna do fastio e desloca-se, numa corrida de obstáculos, a outra busca, e mais outra, e mais outra, porque somos seres da falta, condição já sobejamente analisada pelos estudos psicanalíticos.

Na modernidade fomos guiados pelo que CRESPI (1983) denominou “lógica da espera”, o “não-lugar” para onde eram remetidos todos os sonhos e esperanças. É uma atitude que acredita haver solução final das contradições da existência. Olha-se o futuro e projeta-se a imagem da conciliação, mas também se olha o passado, com o saudosismo da unidade original. 

Aprendemos a considerar nosso dia-a-dia numa ótica progressista. Se o hoje não se mostrava tão bom quanto desejávamos, seria o amanhã. Se esse amanhã não trouxesse as alegrias esperadas, poderia ser o próximo fim de semana, o fim do ano, a aposentadoria, a compra da casa própria... e se nada disto desse certo... o fim da vida com o reino dos céus. Enfim, havia uma caminhada luminosa e fascinante para a humanidade. Suportávamos as agruras do hoje com os olhos voltados para o projectum, esquadrinhado e ordeiro. A felicidade era balizada por uma perspectiva alienante e futurizada que projetava a solução definitiva dos males da existência, associada às grandes representações teológico-metafísicas da tradição do ocidente que nos faziam suportar o cotidiano como um mal menor, na permanente espera da felicidade que viria um dia.

A evolução das ciências e o desenvolvimento tecnológico vieram tornar este panorama obsoleto. Já não é mais necessário esperar, sonhar, economizar. A incomensurável maioria dos objetos de desejo estão nas vitrines da vida – da tv de Led àquilo que se convencionou como “amor”. Dispostos ao alcance da mão, tais objetos são transformados em dádivas, fáceis de serem apreendidos, ofertados com generosidade por um mercado de consumo a consumidores ávidos de novidades. As emoções tornam-se simples processos de escolhas rápidas e descartes imediatos. A felicidade de vitrine não exige trabalho de elaboração, construção paulatina e esmerada. Todo esforço necessário é espichar a mão e agarrá-la. A urgência da satisfação dos desejos tornou-se compulsiva e seu alcance obsessivo. Mas, não se deseja um objeto, busca-se a completude fugidia. Seres marcados pela falta, procuramos borrar o esburacamento que determina nossa condição de desamparo e a angústia que esta condição sustenta. Assujeitados nesta busca, corremos atrás de uma nostalgia de complacência nirvânica, onde nenhum obstáculo se interpunha entre o nosso desejo e sua realização. A incompletude é uma experiência dolorosa, mas:

“Aquilo que é completo, não tem necessidade de alteridade, e o exemplo mais significativo disso é Deus no monoteismo. É quando existe incompletude que a relação se torna necessária” (MAFFESOLI, 1984, p. 37).

Tanto na concepção moderna de felicidade que exigia espera lenta, com renúncias e sacrifícios, como na contemporânea felicidade de pronta-entrega os comportamentos não se revelam pró-ativos. Podem-se detectar, em ambos, passividades diferentes. Se antes, a crença em ideais era o fio condutor, na vida cotidiana atual percebemos o esgarçamento e a desconstrução das referências que nos guiaram por muito tempo e com as quais estávamos familiarizados. A acentuação passa agora a ser no presente, vivido em excesso, por se sentir a precariedade da vida. Os fins absolutos são agora relativizados, driblados por ardilosos mecanismos que engendramos, na teatralidade da vida social. A astúcia, cinismo, jogo duplo, um certo “corpo mole” demonstram os artifícios que empregamos no enfrentamento do limite e o limite não é apenas nossa morte inexorável, mas também as pequenas mortes de todos os dias. Negociar com tais limites implica, paradoxalmente, integrá-los no nosso cotidiano.

De uma modernidade prometéica, pretensamente ordeira e energista, escorregamos para um vitalismo hedonista, marcadamente dionisíaco, também equivocado. Despistes, comportamentos, moralmente taxados de consumistas, duplicidades de atitudes, transgressões, “jogo de cintura”, sempre recheados de astúcia e de certo cinismo, ocorrem com mais freqüência, sem que lhes dediquemos muita atenção.Se, na modernidade, vivenciamos o medo da felicidade, se era angustiante sentir-se feliz, porque algo seria cobrado e poderia ser incomensuravelmente maior do que a felicidade desfrutada, se o custo-benefício se mostrava desproporcional, hoje a exigência de ser feliz, não importa sobre o quê, não importa atropelando quem, passou a ser o imperativo. “Primeiro a gente goza, depois vê no que dá” - já foi recente discurso publicitário de marca de cigarro. Tudo é adequado ao não sofrer. Não sentir dor, não vivenciar a angústia, afastar todo desconforto, deve-se evitar todo tipo de constrangimento - do controle remoto a “discussão da relação”. Tudo que demande trabalho e que possa turbar o hedonismo no qual, compulsivamente, nos enclausuramos, precisa ser afastado. As opções de sexo eventual estão em cada esquina e socialmente bem vistas. A frouxidão dos laços sociais nos disponibiliza confidentes de ocasião que nunca mais veremos e, portanto, não nos cobrarão nada pelo aluguel da escuta. Assim, as relações humanas ficam reduzidas ao copinho de iogurte depois de consumido o produto, e nos faz crer que é sempre possível descartar, apagar os vestígios, instituir o não havido... e a vida segue.

 Contrapondo-se à “lógica da espera”, a atenção aos pequenos-nada da vida cotidiana é uma exigência focada, um exercício consciente de busca. A felicidade não é tecida nem de memória, nem de espera. Não pode ser feita das fabulações do passado, nem das projeções do futuro. Só um estado mobilizado, consciente, de busca e de atenção, nos faz perceber que o dia-a-dia, a vida comum, não é apenas o preparo para o grande evento, que nem sabemos mesmo se virá em nossa vida! O cotidiano é feito de pontuações, cheias de significados, com enorme potencial de contradições, dores, angústias, incertezas, inseguranças e... de felicidade. Ela não é só um complexo teórico-discursivo. Parafraseando Guimarães Rosa, dizemos que - A felicidade é muito perigosa - porque traz em seu bojo potencialidades de frustrações, medos, perdas, expectativas, desejos de sobrevivência, de liberdade, de deleite... A “lógica da atenção” não visualiza

“uma solução final de contradições, ela busca gerenciar ativamente estas mesmas contradições, através de soluções parciais e temporárias, do tipo pragmático e não totalizante” (CRESPI,1983, p. 43).

Para assumir esta potencialidade é requerido foco, disposição, atenção e, sobretudo, coragem para o enfrentamento do risco e de toda a carga de imprevisibilidade que o cotidiano traz, sem reduzi-lo a um mero momento de passagem.

Sobre o Autor:

Ana Lúcia Magela - Doutora em Antropologia da Educação FEUSP/ Paris V- CEAQ/ SORBONNE

Referências:

Referências :

CRESPI, F. Les risque du quotidien. Cahiers Internationaux de sociologie. Paris. v. XXXIV,1983, p. 39-45.

MAFFESOLI, M. A conquista do presente, trad. Márcia C. De Sá Cavalcante, Rio de Janeiro, Rocco, 1984.

FERRO, Marc. As sociedades doentes do progresso. Lisboa, Librairie Plon, 1998.

ILLICH, I, A expropriação da saúde-nêmesis da medicina. Trad. José Kosinski de Cavalcante. 4a ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1975.