Utilização da Língua Brasileira de Sinais (Libras) no Atendimento aos Surdos como Forma de Humanização da Psicologia

Resumo: Essa pesquisa descreve sobre a importância da Língua Brasileira de Sinais (Libras), como um veículo apropriado para o desenvolvimento psicossocial, linguístico e cognitivo do individuo surdo, sendo amplamente estudada, praticada e valorizada por esses sujeitos. Alem de proporcionar ao surdo um processo de inclusão, que possa ocorrer maiores adaptações a esse uso linguístico, respeitando as suas diferenças, potencialidades e limitações, na qual ele possa não só produzir e auferir rendimentos, mas antes de tudo sentir-se útil, capaz e parte integrante da comunidade. Dessa forma, objetiva-se conscientizar o psicólogo do grau de relevância do aprendizado e uso da Libras como instrumento indispensável no atendimento ao surdo, já que a não utilização do mesmo implica na não comunicação com esse individuo, uma vez que o diálogo se da através da interação gestual-visual e não oral-auditiva. Descartando a possibilidade da mediação do interprete nesse âmbito, por acarretar responsabilidades no sigilo profissional e no desenvolvimento terapêutico do paciente. Participaram do estudo, 06 psicólogos com áreas de atuação distinta, com idade variando de 28 a 37 anos, todos integrantes do corpo docente da Instituição de Ensino Superior da cidade de Alagoinhas-BA. Os resultados apontam um perfil de profissionais que não fazem uso da Libras como instrumento de trabalho, mas que em sua maioria demonstram interesse no aprendizado da mesma para favorecer o atendimento a esse grupo minoritário da população.

Palavras-Chave: Surdo. Deficiente Auditivo. Libras. Psicólogo. Humanização.

1. Introdução

Ao pensarmos a comunicação na relação social indivíduo ouvinte – indivíduo surdo, são notórias as dificuldades existentes, já que os ouvintes em sua maioria não estão habilitados ao uso da Língua Brasileira de Sinais (Libras), utilizada pelo grupo minoritário de surdos.  As línguas de sinais são línguas naturais, pois sugiram espontaneamente da interação entre pessoas, permitindo a expressão de qualquer conceito, dependendo da necessidade comunicativa e expressiva, possibilitando assim essa interação social entre indivíduos numa sociedade (Brito, 1995).

Como forma facilitadora da comunicação, em algumas situações, ocorre a mediação através do intérprete em Libras, assegurando ao indivíduo surdo o direito linguístico em poder ser assistido em sua própria língua. “Mediação em termos genéricos é o processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação; a relação deixa, então, de ser direta e passa a ser mediada por esse elemento” (Oliveira, 1997, p. 26).

Entretanto, esse intérprete não se enquadra de forma coesa em todas as interações entre surdos e ouvintes, em especial no âmbito do profissional de saúde, sobretudo o psicólogo, por tratar não apenas da linguagem mediada, mas também da singularidade e subjetividade desses individuo, sendo possível que não somente a sua presença, mas a sua posição de escuta, seja fator impeditivo da transferência.

Segundo Piret (2007), o intérprete por não possuir uma formação técnica de como familiarizar-se com o mundo das formações do inconsciente, os fragmentos do discurso, os relatos e as situações expostas na psicoterapia, podem afetar sua condição psíquica, dependendo da sua história de vida e da sua vivencia pessoal, já que a palavra do paciente só será traduzida para o terapeuta via o inconsciente desse intérprete. 

Ainda podendo acarretar responsabilidades no comprometimento do sigilo profissional do psicólogo, que deve pautar pelo respeito ao indivíduo, seus direitos fundamentais a igualdade, integridade, eliminando quaisquer formas de negligência.

“É dever do psicólogo respeitar o sigilo profissional a fim de proteger, por meio da confidencialidade, a intimidade das pessoas, grupos ou organizações, a que tenha acesso no exercício profissional” (art. 9º do Código de Ética Profissional do Psicólogo /2005, p. 13).

Com esse impedimento, suscita discussões para uso da língua natural dos surdos, com o objetivo de favorecer a inclusão social, garantindo atendimento psicológico, que contemplem suas necessidades e a utilização de instrumentos que caracterizem o cuidado em saúde mental. Segundo Oliveira (1997), o instrumento é um componente mediador entre o trabalhador e o objeto de seu trabalho, ampliando as possibilidades de interação.

 A língua de sinais será esse instrumento necessário entre o psicólogo e o paciente surdo, pois amplia as possibilidades de comunicação, imprescindível no atendimento. Nesse sentido, é notória a importância de qualificação desses profissionais para assistir a população com surdez, pois a intervenção do psicólogo em sua maioria é voltada para a interação oral-auditiva e não gestual-visual.

Grande maioria dos surdos não possui ou nunca teve acesso aos serviços psicológicos, seja por condições financeiras, ou unicamente porque a administração pública não oferece esse tipo de atendimento. A oferta é precária, sem profissionais capacitados para essa especialidade, pois raros são os psicólogos que tem interesse por esse novo desafio de aprendizagem da língua de sinais, mesmo sendo indispensável ao trabalho terapêutico com os surdos (Gonçalves, 2011).

O psicólogo não deve ser um profissional limitado a técnicas a serem aplicadas. Os cursos devem introduzi-lo na pesquisa e a formação deve desenvolver a capacidade de problematizar e buscar soluções (Maluf, 1994). Sendo assim, aprender Libras, é adaptar as modalidades de acolhimento psicológico, promover o acesso ao cuidado de saúde, e reduzir as barreiras comunicativas, favorecendo a inclusão social desses indivíduos.

Além disso, dentro do rol dos princípios fundamentais trazidos pelo Código de Ética Profissional do Psicólogo (2005), o mesmo deverá atuar com responsabilidade, por meio do contínuo aprimoramento profissional, contribuindo para o desenvolvimento da psicologia como campo científico de conhecimento e de prática.

A falta de relação do surdo com o grupo majoritário de ouvintes implica em alguns déficits no desenvolvimento cognitivo, afetivo e sociocultural, resultando o sofrimento psicológico, onde muitas vezes produz conflitos que são interpretados equivocadamente, como comportamentos típicos do surdo: agressividade, intolerância, individualismo, incapacidade intelectual, quando na verdade essa aparição resulta do desconhecimento do mundo dos surdos (Gonçalves, 2011).

Dessa forma, não são fornecidos meios para representação da sua realidade, de suas potencialidades, assim como não ocorre de forma efetiva à inclusão/aceitação e a proteção do direito de todo cidadão ser assistido nos diversos setores sociais. Garantia esta assegurada como direito fundamental, onde “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantido-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à desigualdade, à segurança e à propriedade” (art. 5º, CF/1988).

Pode-se ainda considerar tais fatores como desencadeadores da demanda de assistência psicológica, como assegura Oliveira:

“É o grupo cultural onde o indivíduo se desenvolve que lhe fornece formas de perceber e organizar o real, as quais vão constituir os instrumentos psicológicos que fazem a mediação entre o indivíduo e o mundo” (1997, p. 36).

Considerando dados do senso do IBGE de 2000, em que 4.685.655 de pessoas residentes no Brasil, apresentam alguma dificuldade permanente de ouvir, é necessário reconhecer a diferença cultural do povo surdo, e perceber a cultura através do reconhecimento de suas diferentes identidades, histórias, subjetividades, línguas, a valorização de suas formas de viver e de se relacionar, de modo a retirar essas pessoas da invisibilidade/exclusão (Strobel, 2008).

Em meio às divergências de línguas e culturas, o psicólogo deve habilitar-se para atender as demandas que possam surgir no ambiente terapêutico, buscando uma formação teórica e metodológica que lhe permita compreender seu objeto de estudo (Conselho Federal de Psicologia, 2005).

Apesar do crescente desenvolvimento a inclusão social dos surdos, iniciados por manifestações acatadas pelo poder público, percebe-se que muito pouco tem avançado no acompanhamento psicológico dessas pessoas. Por isso, deve haver qualificação e implementação de políticas públicas, o que auxiliará na formação ética e no compromisso social do psicólogo, resultando em um atendimento capacitado e diferenciado para o surdo, já que não tem como falar em humanização sem pensar em inclusão social em todos os seus aspectos.

Há necessidade de pensar as possíveis resistências quanto a esta questão, ora por falta de espaços, oportunidade e apoio para os psicólogos se aperfeiçoarem em sua formação, ora por se perpetuarem visões preconceituosas sobre a língua de sinais e com os surdos (Gesser, 1971).

As práticas psicológicas precisam ser pensadas e efetuadas a partir da perspectiva que a necessidade de assistência surge em quaisquer contextos de atuação, por isso, é fundamental a utilização de instrumentos que capacitem o profissional psicólogo as diversas demandas apresentadas pela população, como, por exemplo, o uso da Língua Brasileira de Sinais no atendimento psicológico aos surdos, criando um elo de comunicação necessário nesse âmbito, e reduzindo em parte a problemática de acesso à cultura majoritária.

Nessa medida, faz sentido pensar em como o indivíduo surdo terá assistência psicológica, se os psicólogos não possuem o instrumento basilar (Libras) para a realização da intervenção; como a formação profissional poderia intervir para que essa concepção alterasse, e a quem cabe à responsabilidade de qualificação do psicólogo no campo da surdez.

2. Método

2.1. Participantes

A população alvo constituiu-se por um grupo de 06 psicólogos, dos quais, 03 do sexo feminino e 03 do sexo masculino, com idade variando de 28 a 37 anos, todos com o período de 3 a 12 anos de profissão, e áreas de atuação distinta. Atualmente contratados por uma Instituição de Ensino Superior da cidade de Alagoinhas-BA, sendo denominados “A”, “B”, “C”, “D”, “E” e “F”.

2.2. Delineamento e Procedimento

A análise de dados respaldou-se nos autores que desenvolveram trabalhos focalizando a temática, a qual está apresentada nas discussões e na síntese da fundamentação teórica.  Através de buscas nas bibliotecas virtuais: Scielo, Google, BVS Psi, utilizando as palavras-chave: “Surdez”, “Libras”, “Língua de sinais”, “Psicólogo e paciente surdo”, “Formação do Psicólogo”.

Livros com concepções relacionados ao título do projeto contribuíram para a execução e análise do desenvolvimento, além de Leis que regulamentam o direito de deficientes e de surdos.

Na efetivação da pesquisa, desenvolveu-se uma entrevista, sendo esta aplicada individualmente, e previamente agendada de acordo a disponibilidade de cada psicólogo, uma vez que os mesmos foram abordados no seu ambiente de trabalho, contendo duração mínima de 7min28s e máxima de 16min59s.

2.3. Instrumentos 

1. Termo de Consentimento Livre e Esclarecido: no desenvolvimento desse artigo, esse termo confirma claramente os objetivos da pesquisa, expondo os procedimentos que serão realizados no estudo e garantindo a não identificação dos participantes.

2. Entrevista Semiestruturada: com o objetivo de identificar se os participantes têm conhecimento e/ou domínio da Libras, caso contrário, se demonstram interesse em adquirir essa língua, e se enquanto psicólogos, estão aptos para o atendimento com demanda de surdez.

Os dados foram obtidos através de 15 questões, entre essas: Você faz uso da Língua Brasileira de sinais? Já atendeu ou atende pacientes surdos? Caso seja solicitado o atendimento com demanda de surdez, de que forma reagiria? Você recorreria a um intérprete para fazer essa mediação psicólogo-paciente surdo? Visando a necessidade de promover a saúde psicológica desse sujeito, você aprenderia a língua de sinais? Justifique. 

3. Resultados e Discussão

A partir dos dados coletados na entrevista foi possível perceber a necessidade de acatamento do uso da Língua Brasileira de Sinais no âmbito da psicologia, sendo essa língua um instrumento indispensável na comunicação entre surdos e ouvintes. Consequentemente confirmando a escassez de assistência psicológica a população surda, já que em sua maioria não fazem uso do instrumento possibilitador da intervenção.

O estudo torna-se relevante por evidenciar a invisibilidade desses indivíduos no contexto psicoterápico, analisando desde as concepções existentes sobre o surdo na sociedade, o uso da língua de sinais, a demanda de surdez, os motivos ou falta de motivação dos psicólogos não fornecerem essa assistência, o uso do intérprete como mediador, e até possíveis medidas a serem adotadas.

Com os dados adquiridos, foram realizadas interpretações, demonstrando à distância desses profissionais frente a esse público, que possui um diferencial linguístico. Como enfatiza o Código de ética Profissional (2005), o psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades, contribuindo para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, [...], contribuindo para o desenvolvimento da Psicologia como campo científico de conhecimento e de prática.

Quando questionados, se na graduação havia a matéria Libras como disciplina, todos responderam que não tiveram essa disciplina na grade curricular, referindo-se a 04 instituições distintas de ensino. Ainda relatando que a não oportunidade desse conhecimento, poderia ser um fator implicativo de desinteresse nesse campo.

Diante dessas informações, observa-se que a formação desses psicólogos não foi tão expansiva em conceitos relacionados a necessidades especiais e inclusão social, o que pôde influenciar no campo de desenvolvimento profissional dos mesmos, por não iniciar visões que contemplem a diversidade do exercício da profissão, e a crescente inserção do psicólogo nas camadas sociais.

Supõe-se, assim, que a presença de determinadas condições de ensino no momento em que o aluno chega ao curso, poderia se constituir em uma oportunidade adequada para se tentar interferir no repertório de informações e de imagens sobre a profissão que o aluno traz para a faculdade, visando estabelecer relações futuras mais significativas entre o profissional e a sociedade (Bettoi, 1999).

Todos os psicólogos entrevistados informaram não fazer uso da Língua Brasileira de Sinais, seja no cotidiano ou ao realizar atendimento psicológico. Desses participantes, apenas “C”, informou já ter atendido um paciente surdo na instituição em que havia trabalhado, com auxílio de gestos e/ou mímicas que fosse compreensível para ambos, além de uma terceira pessoa que possuía domínio da língua de sinais, não havendo seguimento, por ser apenas uma orientação momentânea de comportamentos.

Os participantes da pesquisa, com exceção de “C”, relataram que caso sejam solicitados a prestar esse atendimento, encaminhariam o surdo para profissionais qualificados e instrumentalizados (Libras) a assistir esse público.

Desses, o participante “D”, afirma já ter realizado uma triagem, mas com o acompanhamento de um interprete, onde menciona: “Já tive oportunidade de atender [...]. Mas não numa situação de psicoterapia, foi uma situação de triagem, onde eu detectei a necessidade de um acompanhamento psicológico e aí encaminhei para uma colega que tem o domínio de Libras”. 

O participante “D” também relata ter sido solicitado em uma prática de treinamento que havia duas pessoas com surdez: “[...] e eu me vi, por exemplo, meio que acuado naquele momento, por não ter o domínio da Libras. Então eu solicitei pra que eles tivessem também a oportunidade de contemplar o treinamento, uma pessoa que tivesse domínio em Libras”.

Na sequência do roteiro da entrevista, foram questionados se recorreriam a um intérprete para fazer a mediação psicólogo-paciente surdo. Dos 06 psicólogos participantes, 05 recusam-se a utilizar o intérprete no atendimento terapêutico, justificando situações como: “A questão do anonimato”; “Eu acho que ia ficar uma relação cruzada aí, porque não era a pessoa se expressando pra mim, era alguém se expressando pela pessoa”; “Essa mediação do intérprete em Libras, iria comprometer algumas questões da própria abordagem terapêutica, da própria análise clínica do processo”; “Como é que fica a questão do sigilo? A terapia tem que ser pra duas pessoas”; “Não utilizaria intérprete, eu preferia encaminhar para um profissional que tivesse um domínio”.

O participante “C”, ao ser questionado sobre o uso do intérprete, definiu mínimas implicações, se responsabilizando pelas mesmas: “[...] poderia atrapalhar no início, mas eu acho que na medida que a gente fosse se familiarizando, o intérprete da pessoa surda, eu acho que seria legal. Eu teria que assegurar, de que todas as informações ali ditas, gestualizadas, se é possível dizer assim, não poderia ser divulgadas, teria esse cuidado”.

Após analisar tais informações, verifica-se a precisão de favorecer o acompanhamento psicológico ao indivíduo surdo, na relação terapeuta-paciente e não terapeuta-paciente-intérprete. Esse ambiente a três não configura o contexto psicológico, comprometendo o sigilo profissional, e podendo não favorecer a transferência eficaz para o desenvolvimento do mesmo, por se tratar da singularidade e subjetividade do indivíduo.

Para (Piret, 2007), apesar dos esforços do intérprete, “por cima da justeza da semântica da sua tradução, a sua implicação vai orientá-la sem saber, distorcê-la delicadamente, amputá-la de alguns significantes, envolvê-la com alguns outros”.

É preciso que esses profissionais estejam instrumentalizados para a intervenção, contemplando as demandas dos indivíduos surdos, como por exemplo, a dificuldade de lidar com suas emoções e sentimentos, não porque sejam diferentes dos ouvintes, que vivem os mesmos conflitos, mas por não possuir a assistência psicológica que contemple suas particularidades (Gonçalves, 2011).

Instrumento esse, reconhecido pela Lei nº 10.436/2002, dispondo sobre a Língua Brasileira de Sinais como meio legal de comunicação e expressão, constituindo um sistema linguístico de ideias e fatos.  Complementando Skliar (1997), a Língua de Sinais, é um elemento mediador entre o surdo e o ouvinte, demonstrando através dela suas capacidades de interpretação do mundo.

No entanto, por unanimidade os participantes da pesquisa, confirmam que aprenderiam a língua de sinais: “Tenho interesse sim em aprender”, “Aprenderia sim. Pra mim seria inclusive, uma oportunidade maior”, “Com certeza. É uma necessidade pra todos nós”.

Com esses resultados explanados, em adquirir o conhecimento da língua de sinais, nota se que há algum tipo de divergência entre a realidade vivenciada, já que os profissionais demonstram interesse na aquisição de instrumentos, mas em sua maioria, não estão munidos de instrumentos para assistir a demanda de usuários que carecem desse atendimento.

Essas declarações indicam um interesse no desenvolvimento profissional, daí surgem questionamentos, de quais seriam os fatores impeditivo ou motivacional para não ocorrer à iniciativa da qualificação desses profissionais. Até onde a formação pode conscientizar? Existem espaços que favoreçam essa instrumentalização? Projetos de políticas públicas direcionadas podem propiciar essas capacitações?

A formação pode viabilizar através da apresentação da disciplina (Libras), o conhecimento superficial da língua, já que a carga horária disponibilizada apenas aborda uma nuance da história, conceitos e sinais mínimos que não habilitam a comunicação necessária para o atendimento psicoterápico. Após obter tais informações, terão o conhecimento sobre a surdez, sobre o sujeito surdo, mas caso queiram instrumentalizar-se para fornecer assistência, irão buscar especializações extracurriculares para adquirir a aptidão precisa para uso da língua de sinais.

Há uma relevância do contato com a disciplina na formação, confirmado pelo Decreto 5.626/2005, que dispõe a Língua Brasileira de Sinais – Libras como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação, acendendo uma visão de inclusão/integração.

Os projetos de políticas públicas são considerados dispositivos que ampliam as práticas de inclusão, viabilizando a montagem de um sistema de inserção eficaz de profissionais a redes sociais de atenção. Nesse caso, adaptando o psicólogo para a diversidade de demandas apresentadas na sociedade, favorecendo tanto o profissional, quanto o usuário do serviço, numa tentativa de tornar possível o acesso igualitário.

Nota-se que cabe ao estado ou ações paralelas entre o governo e a iniciativa privada emergir a efetivação de seminários, cursos específicos em Libras, congressos direcionados, não somente a professores, mas ao profissional psicólogo que precisa também desse instrumento para a comunicação com aqueles que fazem uso da língua gestual-visual e não oral-auditiva. Partindo do pressuposto de Cromack (2004), a comunicação deve ser privilegiada e não a língua propriamente dita.

Com a saúde pública investindo em ações de planejamento, no incremento das redes de formação e nos instrumentos necessários para assistência, os psicólogos sentiram-se motivados e sensibilizados para qualificar-se, pois haverá o espaço adaptado à modalidade de atendimento com surdez, decompondo o quadro de marginalização dessas pessoas.

Maciel (2000) aborda que em todos os governos congrega que eles atribuam prioridade política e financeira ao aprimoramento de seus sistemas, no sentido de se tornarem aptos a incluírem todos os cidadãos, independente de suas diferenças ou dificuldades individuais; estabeleçam programas de treinamento tanto em serviço, como durante a formação; mobilize o apoio de organizações dos profissionais em questões relativas ao aprimoramento e treinamento no que diz respeito a necessidades especiais, no sentido de realizar caminhos para a inclusão social.

Nesse sentido, é notória que a instauração de políticas públicas é a via digna para o processo ético de inclusão, onde [...] cabe aos órgãos e as entidades do poder público assegurar à pessoa portadora de deficiência o pleno exercício de seus direitos básicos, inclusive dos direito à saúde, ao desporto, à cultura, ao amparo e de outros que propiciem seu bem-estar pessoal, social e econômico (Ministério da Educação, 2006).

4. Considerações Finais

Ao longo deste trabalho, foi possível compreender a ausência do profissional psicólogo no atendimento psicoterapêutico frente à demanda de sujeitos surdos, evidenciando a necessidade do uso da Língua Brasileira de Sinais - Libras como instrumento possibilitador dessa relação.

Ainda analisado outros fatores que tornasse o atendimento possível, o intérprete, mas constatado o comprometimento no âmbito terapêutico, visto a responsabilidade do sigilo e a transferência que ocorre nessa atuação.

Através de buscas bibliográficas, nota-se um número mínimo de trabalhos voltados para área de psicologia no contexto de surdez, provavelmente pela carência na comunicação entre surdos e ouvintes.

As práticas psicológicas precisam ser refletidas e efetuadas a partir da perspectiva humanizada, assistindo as pessoas surdas com suas especialidades, não reforçando a ruptura na relação ouvinte – surdo, por haver diferenças linguísticas, e sim construindo meios pertinentes para a realização dessas.

Há uma contribuição importante para a compreensão das questões relativas ao atendimento psicológico instrumentalizado frente ao surdo, levantando a possibilidade de inclusão efetiva a partir da implementação de leis, políticas públicas favorecidas ao surdo.

Pode-se concluir que são necessárias novas pesquisas para ampliar o leque de temáticas nesse contexto, atentando para a saúde psicológica de todos, com um enfoque para os surdos, por já possuir uma visão diferenciada dos demais, e a instrumentalização desses profissionais para assistir essa população minoritária.

Apêndice A - Roteiro de Entrevistas:

  • Idade:
  • Sexo:
  1. Profissão:
  2. Onde se formou?
  3. Área de atuação?
  4. Há quanto tempo exerce a profissão?
  5. A instituição de graduação oferecia a matéria Libras como disciplina curricular?
  6. O que é Libras? O que ela representa para você?
  7. Você faz uso da Língua Brasileira de sinais?
  8. Já atendeu ou atende pacientes surdos? Quantos?
  9. Caso seja solicitado o atendimento com demanda de surdez, de que forma reagiria?
  10. Conhecesse algum profissional para indicação do atendimento psicológico que utilize desse instrumento (Libras) para estabelecer comunicação com sujeito surdo?
  11. Você recorreria a um intérprete para fazer essa mediação psicólogo-paciente surdo?  Justifique.
  12. Na sua concepção, qual o significado de ser surdo na sociedade?
  13. De que forma você percebe essa não inclusão do sujeito surdo no âmbito da psicologia?
  14. Visando a necessidade de promover a saúde psicológica desse sujeito, você aprenderia a língua de sinais? Justifique.
  15. Você gostaria de acrescentar alguma coisa?

Fonte: Pesquisa de campo.

Referências:

Bettoi, W., & Simão, L. M. Profissionais para Si ou para Outros? Algumas Reflexões sobre a Formação dos Psicólogos, 1999. Psicologia Ciência e Profissão, 2000.

Brito, F.L. Por uma gramática de língua de sinais. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1995.

Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Ed. Brasília Rádio Center, 2005.

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Cromack, E. M. P. da C. Identidade, Cultura Surda e Produção de Subjetividades e Educação: Atravessamentos e Implicações Sociais. Psicologia Ciência e Profissão, 2004.

Decreto Nº 5.626, de 22 de Dezembro de 2005. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de Dezembro de 2000. Recuperado em 5 de Julho, 2012, de: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/decreto/d5626.htm

Gesser, A. Libras? Que língua é essa? : Crenças e preconceitos em torno da língua de sinais e da realidade surda. São Paulo: Parábola Editorial, 1971.

Gonçalves, P. C. da S. Atendimento Psicológico para Surdos, 2011.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2000. Recuperado em 4 de Julho, 2012, de : http://www.ibge.gov.br/home/

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Maciel, M. R. C. Portadores de Deficiência: a questão da inclusão social, 2000.

Maluf, M.R. Citado em Cattalini, A. & Fornazari, S. A. (ano). A experiência no Tratamento Psicológico com pessoas surdas: Um estudo de caso, 1994.

Ministério Público Brasileiro. Direito à Educação. Subsídios para a Gestão dos Sistemas Educacionais. Orientações Gerais e Marcos Legais. Brasília: MEC, SEESP, 2006.

Oliveira, M. K. de. Vygotsky: Aprendizado e desenvolvimento: Um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 1997.

Piret, B. A consulta Psicoterápica com Interprete: Vantagens, Dificuldade e Limites por B. Piret. Traduzido do francês por Laurence Reithler, 2007.

Skliar, C. (org.). Educação & exclusão: abordagens sócio-antropológicas em educação especial. Porto Alegre: Mediação, 1997.

Strobel, K. Entrevista concedida ao blog Vendo Vozes, 2008. Pesquisado em: http://www.vendovozes.com/2008/03/entrevista-exclusiva-karin-strobel.html