Sexualidade Durante a Gestação

Resumo: No presente artigo foram elaboradas reflexões e intervenções com grupos de gestantes, previamente denominados “Grupos de Famílias Grávidas”, por ser um grupo aberto a toda a família, que assim como a gestante, tem dúvidas, receios e sofre transformações durante a gestação, bem como após o nascimento do bebê. Tendo como foco principal o tema “Sexualidade Durante a Gestação”, este objetiva compreender a importância de abordar o assunto com as gestantes, para que estas possam continuar com uma vida sexual saudável durante a gestação, que ao contrario do que muitas mulheres acreditam, é uma prática muito importante nesta fase tão nova e única, pois auxilia na melhora da autoestima e autoimagem da futura mamãe, que por vezes, se sente feia e gorda neste momento em que além de alterações físicas, sofre muitas alterações emocionais. Para o desenvolvimento dos grupos, foram elaboradas atividades dirigidas, dinâmicas e discussões para auxiliá-las frente as questões abordadas. Acreditando que a sexualidade durante a gestação é uma prática que envolve a melhora da autoestima e autoimagem, a proposta de ser um grupo aberto também aos parceiros se mostrou muito importante, pois eles exercem um papel fundamental na manutenção e melhora do “sentir-se bem”, muitos sentem medo, de alguns tipos de contato por receio de machucar o bebê, sanando estas dúvidas, o casal passa tranquilamente por esta fase, além do grupo proporcionar a troca de experiência entre as participantes, pois cada uma tem um ponto de vista frente aos questionamentos, o que torna rica a discussão e abre novos pontos de vista.

Palavras-chave: Sexualidade, Gestação, Grupos de Gestantes.

1. Introdução

Para o presente trabalho foram desenvolvidas atividades nas Unidades Básicas de Saúde do Município de Itupeva - SP, onde foram realizados Grupos de Famílias Grávidas, através de rodas de conversa, atividades dirigidas, vídeos, músicas e dinâmicas, visando compreender na prática aspectos recolhidos durante a revisão bibliográfica.

O objetivo foi observar a importância da manutenção da sexualidade durante a gestação, buscando auxiliar e sanar dúvidas das gestantes referentes ao assunto, através de atividades e da própria integração entre as gestantes, pois cada uma esta vivenciando este momento de uma forma única e diferente da outra, assim, possibilitando novos pontos de vista à respeito do tema. Para isto, são realizados encontros semanais, com grupos de 4 a 8 gestantes e seus acompanhantes (que podem ser os maridos, filhos, mãe).

De acordo com CAMACHO (et all, 2010) “é possível assegurar que a sexualidade na gestação é um dos aspectos que valoriza o processo de gestar, porém, isto dependerá de como a mulher percebe esta etapa da vida”. E os grupos, são justamente para auxiliar na forma de percepção desta fase tão importante da vida da mulher.

Foram realizadas observações e atividades com vídeos educativos sobre a gestação e parto, relaxamento com musicas, dinâmicas, atividades dirigidas e rodas de conversas, durante a realização dos grupos para famílias gestantes, visando compreender e discutir a sexualidade destas mulheres nesta fase cheia de transições.

Neste trabalho é apresentado a importância da sexualidade durante a gestação para uma melhor qualidade de vida da gestante, e melhor compreensão do seu corpo como mulher além de futura mamãe, para isso, foram realizados grupos semanais tornando possível a discussão sobre o tema entre as gestantes. A seguir, será apresentado o Pré- Natal no Sistema Único de Saúde, processo pelo qual todas as gestantes são submetidas para cuidado e manutenção da saúde da mãe e do bebê.

2. Pré-Natal nos Sistema Único de Saúde [2]

Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de consultas pré-natal vem crescendo a cada ano, em 2003, foram realizadas 8,6 milhões de consultas durante o pré-natal, já em 2009, foram aproximadamente 19,4 milhões, este crescimento pode ser relacionado principalmente pela ampliação do acesso ao pré-natal pelas mulheres.

O acompanhamento pré-natal é importante, pois ajuda na prevenção e diagnóstico de doenças no bebê e na mãe durante a gestação, ajudando a diminuir também problemas que podem levar a complicações durante o parto. Para isso, as gestantes devem realizar exames de sangue, de urina para verificar a existência de doenças, tendo todos os dados referentes à saúde anotados no Cartão da Gestante. O pré-natal também é a oportunidade de conversar com os profissionais de saúde e tirar dúvidas sobre onde será o parto. A gestante tem o direito de conhecer o local e as pessoas antes da data do parto (Lei n°11634, de 2007), e também da presença de um acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto (Lei nº 11.108...de..2005).

3. A Gestação

Durante a gestação mudanças enormes ocorrem tanto no corpo quanto nas emoções da mulher, e assim perduram por aproximadamente quarenta semanas a serem contadas a partir da data da ultima menstruação (Muller, 2009). Segundo Bee (2003) o período gestacional pode ser contado 38 semanas (aproximadamente 265 dias) a partir da data da possível concepção, o que deve ter ocorrido aproximadamente duas semanas após a ultima menstruação, ou 40 semanas a contar da data da ultima menstruação (cerca de 280 dias), mas em geral, utiliza-se a contagem de 38 semanas.

De acordo com Guyton (2008) ocorrem modificações nos órgãos reprodutivos, e nas mamas para garantir um bom desenvolvimento fetal e nutrição do bebe após o nascimento, alterações nas funções metabólicas para ser capaz de suprir as necessidades nutricionais e de crescimento do feto e uma enorme produção hormonal que causa efeitos colaterais que não estão diretamente relacionados à reprodução.

Em geral, durante a gestação as mulheres engordam aproximadamente 10 kg durante a gestação, sendo este aumento de peso a soma do peso do feto, útero, placenta e membranas, mamas, gordura, aumento de sangue e liquido extracelular. Porém este valor pode variar drasticamente de acordo com cada gestante, pois esta diretamente relacionada aos hábitos alimentares, e quantidade de hormônios secretados. Com tal aumento de peso, o metabolismo também sofre alterações e fica mais acelerado, para que possa suprir a quantidade de energia que o corpo exige para carregar toda esta nova carga, assim, o fígado, o coração, a respiração, a digestão e a assimilação de alimentos ficam mais rápidas (GUYTON, 2008).

Nesta fase, a mulher precisa se adaptar ao seu novo ritmo metabólico, hormonal e fisiológico. As mudanças físicas mais perceptíveis são obviamente o aumento do volume abdominal e dos seios, e com estas mudanças, vem muitas vezes um declínio da autoestima, e um sentimento de incapacidade de sedução. Além de levar a mulher a rever a infância, os modelos que teve quando criança, e os modelos que pretende seguir como mãe, leva o casal a reorganizar as rotinas diárias se preparando para esta nova fase cheia de novidades (Silva e Figueiredo, 2005).

 4. A Sexualidade Durante a Gestação

Teoricamente a sexualidade simboliza as práticas corporais e se relacionam com uma dimensão intima e subjetiva das relações entre os pares, porém a sexualidade não pode ser tratada apenas neste contexto, pois se trata de um processo bastante amplo, que envolve as relações afetivas dos casais, vai alem dos aspectos orgânicos e se une a fatores psicossociais.

Porém, na prática, sexo e sexualidade se inter-relacionam, dificultando a diferenciação entre eles, pois se apresentam fortemente sobrepostos, assim, trataremos a fusão dos dois assuntos, nos atendo mais às questões relacionadas à sexualidade (CAMACHO; VARGENS e PROGIANTI, 2010).

Conforme citado anteriormente, durante a gestação, a mulher passa por diversas mudanças, e com a vida sexual não podia ser diferente, surgem algumas dúvidas, medos, muitos mitos, questões religiosas e socioculturais sobre o assunto, além é claro, das mudanças físicas e emocionais, que tornam a pratica sexual diferente e que levam muitas mulheres a acreditar que não devem ter relações sexuais nesta fase, além de passarem a se sentir menos sensuais e desejadas (CAMACHO; VARGENS e PROGIANTI, 2010).

Camacho, Vargens e Progianti (2010) afirmam que atualmente vive-se um momento de maior liberdade sexual, e maior acessibilidade a informações sobre o assunto, o que estimula cada vez mais a participação da mulher no prazer sexual, até mesmo durante a gravidez. Neste período, a vida sexual vai muito além da relação genital, e traz consigo, um maior comprometimento entre o casal, que neste momento, deve desenvolver o erotismo da mulher, fazer com que ela possa se sentir desejado, e sensual, mesmo com todas as alterações corporais provenientes da gestação. Quando há liberdade de expressão da sexualidade entre o casal, a vida sexual durante a gestação tende a melhorar, porém, a mulher vive um conflito interno, por estar gerando um filho, e ao mesmo tempo sentindo vontades, desejos que são sentimentos, que culturalmente não são permitidos durante a gestação, são comum que mesmo durante a gestação, a libido não diminua, porém, pode ser inibida por influência de questões socioculturais. (CAMACHO; VARGENS e PROGIANTI, 2010).

Normalmente, não existem problemas com relação à prática sexual durante a gestação, esta só não é recomendada em casos específicos, nos quais o médico irá pontuar a necessidade da abstinência por um tempo determinado, desconsiderando tais exceções, o sexo durante a gestação é muito positivo, pois aumenta a cumplicidade do casal (Muller, 2009).

De acordo com Savall (et all, 2008), comparando a frequência sexual anterior ao período gestacional ao período gestacional, durante o primeiro trimestre da gravidez 40% das mulheres afirmam a manutenção da frequência, 40% notaram uma diminuição na frequência, enquanto apenas 10% aumentaram a frequência sexual. No segundo trimestre, 48% mantiveram a frequência sexual, 30% notaram uma diminuição e cerca de 20% aumentaram a frequência. Por fim, durante o terceiro trimestre, apenas 20% mantiveram a frequência, 60% diminuíram a frequência e apenas 20% relataram aumento da frequência sexual. Analisando tais dados, é possível verificar, que durante o primeiro trimestre muitas mulheres diminuem a frequência sexual, por conta dos primeiros sintomas causados pela gestação, como por exemplo, as náuseas, vômitos, fadiga, inchaço, sonolência e a sensibilidade corporal, enquanto no segundo trimestre, tais desconfortos diminuem, e as náuseas e vômitos deixam de acontecer, ou ao menos diminuem drasticamente, e durante o ultimo trimestre, o inchaço, sonolência e sensibilidade corporal voltam a aumentar, além de considerar o grande volume abdominal, que acaba se tornando um dificultador da relação sexual, que passa a ser mais cansativa e desconfortável para algumas mulheres.

Além das questões orgânicas, é possível verificar que alguns companheiros se tornam mais carinhosos e afetuosos com as parceiras durante a gestação, e com isso a sexualidade de muitas mulheres aflora, além de desejarem que este comportamento permaneça após o nascimento do bebê, bem como os casais que tem uma percepção positiva da beleza da gestante, passam a ter um melhor desempenho na vida sexual, enquanto os que acham que a mulheres não ficam bonitas e atraentes durante esse período ou que sofrem com as questões socioculturais de que mulheres grávidas não podem ter relações sexuais por ser pecado, errado, ou qualquer outra definição, tendem a ter uma diminuição do desejo e da frequência sexual durante a gestação, portanto, a autoestima e autoimagem do casal esta diretamente ligada à sexualidade durante a gestação (SAVALL et all, 2008; CAMACHO et all, 2010).

5. Considerações Finais

O objetivo deste foi observar e abordar à sexualidade durante a gestação. Ao longo do desenvolvimento, observou-se assim como apresenta a teoria, muitas mulheres se sentem pouco sensuais e sem atrativos físicos durante a gestação em decorrência das transformações que o corpo passa neste período, e que neste momento, o parceiro exerce um papel fundamental para a melhora da autoestima e da autoimagem da futura mamãe, pois cabe a ele ser carinhoso, e elogiá-la enfatizando a permanência do seu desejo por ela, mesmo com um “novo formato corporal”.

Outro fator importante observado, foi que em alguns casos as gestantes têm muitas dúvidas a respeito do tema, e por isso, não se sentem bonitas, sensuais, e em alguns casos, até mesmo sem praticar sexo, por acreditar que podem machucar o bebê, ou até mesmo por ser “errado” uma gestante manter relações sexuais com o parceiro.

Quando apresentadas ao tema, e dada a oportunidade de discutir sobre o assunto, muitas duvidas e medos foram abortados, sendo tranquilamente debatidos e explicados, proporcionando assim, um visível alivio a maioria das futuras mamães que estavam cheias de restrições sobre o assunto.

Em linhas gerais, os objetivos foram alcançados, pois foi possível sanar as duvidas apresentadas por todas as gestantes, e ainda, ter a oportunidade de obter um retorno de cada uma delas sobre as mudanças obtidas após a apresentação do tema, e em geral, os relatos foram de melhorias, tanto com relação a autoimagem, que antes estava distorcida e passaram a se sentir mais bonitas e sensuais, e também com relação ao relacionamento com os parceiros, algumas que antes haviam perdido o interesse sexual, relataram ter voltado a sentir desejo, mesmo que tenham praticado sexo menos vezes por se sentirem mais cansadas e desconfortáveis no final da gestação.

O desenvolvimento adquirido ao longo dos grupos de gestantes, certamente ajudaram muito à todas as participantes, a passarem por este momento tão importante da vida da mulher, de forma mais tranquila, e saudável, pois tiveram a oportunidade de conversar com outras mulheres que estão passando pelo mesmo momento que elas, e ainda, tiveram o apoio e direcionamento de toda a equipe das unidades de saúde e das estagiárias de psicologia.

Sendo assim, comprova-se a importância do apoio do parceiro durante a gestação, o que consequentemente acarretará em uma vida sexual saudável durante este período. Além de visualizar a importância da realização de grupos de gestantes, e da discussão do tema sexualidade ao longo destes.

Sobre o Autor:

Verônica Cristina Grana - Psicóloga , graduada pela Faculdade Anhanguera de Jundiaí . E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

BEE, Helen. A criança em desenvolvimento / Helen Bee; trad. Maria Adriana

CAMACHO, Karla G.; VARGENS, Octavio M. da C.; PROGIANTI, Jane M.;

ADAPTANDO-SE À NOVA REALIDADE: A MULHER GRÁVIDA E O EXERCÍCIO DE SUA SEXUALIDADE Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 jan/mar; 18(1):32-37 Disponível em: http://www.facenf.uerj.br/v18n1/v18n1a06.pdf Acessado em:18 de maio de 2012.

GUYTON, Arthur C.; FISIOLOGIA HUMANA/ Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008.

MULLER, Laura. Altos Papos Sobre Sexo dos 12 aos 80 anos. / 2. ed – São Paulo: Globo, 2009

SAVALL, Ana C. R.; MENDES, Aline K.; CARDOSO, Fernando L. Perfil do comportamento sexual na gestação. / Fisioter. mov;21(2):61-70, abr.-jun. 2008. graf, tab. Disponível em: http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&src=google&base=LILACS&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=528926&indexSearch=ID Acessado em:19 de abril de 2012.

SILVA, Ana I. E FIGUEIREDO, Bárbara. Sexualidade na gravidez e após o parto / Psiquiatria Clínica, 25, (3), pp. 253-264, 2005