Síndrome de Bournout em uma Perspectiva Avaliativa Aplicada em Profissionais de Serviço Móvel de Urgência

Resumo: Este trabalho teve como objetivo avaliar os riscos para a Síndrome de Burnout nos trabalhadores da enfermagem que atuam como socorristas no serviço de atendimento móvel de urgência (SAMU), pois trata-se de uma categoria de profissionais exposta a inúmeras situações estressantes. A metodologia de pesquisa utilizada foi do tipo exploratória de natureza qualitativa. Teve como instrumentos de coleta de dados o inventário para identificar sintomas de estresse (ISS) e o questionário Jbeili para identificação preliminar da Burnout, baseado no Maslasch Burnout Inventory-MBI. A pesquisa foi realizada com dois participantes de uma cidade de médio porte da região norte catarinense. Os resultados indicam possibilidade de desenvolver a fase inicial da Síndrome.

Palavras-chave: Síndrome de Burnout, Socorristas, Profissionais da enfermagem.

Burnout Syndrome in a Perspective Evaluative Apply to Professional Service Mobile Emergency

Abstract: This work aimed to evaluate the risks to burnout syndrome in nursing workers who act as first responders in emergency mobile care service (SAMU), because it is a category of professionals exposed to numerous stressful situations. The research methodology used was the exploratory qualitative. We had the inventory data collection instruments to identify symptoms of stress (ISS) and the Jbeili questionnaire for preliminary identification of Burnout based on Maslasch Burnout Inventory-MBI. The survey was conducted with two participants of a medium-sized city north of Santa Catarina region. The results indicate the possibility of developing and early stages of burnout syndrome. The context of risks which these professionals are part suggests preventive interventions to minimize possible future outbreaks psychosomatic that can turn into diseases that interfere with the quality of life of workers.

Key-Words: Burnout syndrome, Rescuers, Nursing professionals.

1. Introdução

Os profissionais de saúde nos mais variados campos de atuação, em determinação com os preceitos éticos das categorias vigentes, necessitam dedicar-se em prol do cuidado do outro, considerando que, esta contextualização do “cuidar” envolve diversos fatores. Para Cornelius e Carloto (2007) a estrutura emocional do profissional de saúde, pode sofrer alterações devido à convivência constante com a dor, o sofrimento e a angústia do outro, podendo vivenciar uma série de sintomas provenientes da sobrecarga emocional do trabalho, sendo praticamente inevitável o esgotamento físico e mental, tornando-os mais susceptíveis ao adoecimento.

Esta pesquisa exploratória referenciou os profissionais da enfermagem que atuam no serviço de atendimento móvel de urgência. Buscou-se compreender mais sobre as consequências e os fatores de risco de ordem emocional desencadeados devido à demanda desta categoria profissional. Também se abordou aspetos ligados à qualidade de vida no trabalho, tendo como principal ferramenta de mensuração a aplicação do questionário preliminar de identificação da Burnout, adaptado por Chafic Jbeili, baseado no inventário de Maslach Burnout Inventory-MBI.

Portanto, esta pesquisa procurou identificar a Síndrome de Burnout, ou a propensão em desenvolver a doença, enfatizando também sobre a necessidade de um suporte psicológico para estes profissionais como método preventivo dentro das organizações. A Síndrome está configurada como Transtorno Mental relacionado ao Trabalho, sendo esta considerada uma das terceiras maiores causas de afastamento do trabalho conforme registros do Ministério da Previdência Social de 2009.

A partir destes fatos, foi realizada uma pesquisa de campo baseado em dados qualitativos direcionados ao profissional de enfermagem do atendimento móvel de urgência, utilizando como ferramenta mensurável o questionário preliminar de identificação de Burnout.

1.1 Síndrome de Bournout

De acordo com Pereira (2014), Burnout é uma sequência gradativa do estresse ocupacional, ou seja, torna-se crônico, tendo como consequência de inúmeros fatores negativos que atingem a vida do indivíduo como um todo. Ainda conforme Pereira (2014), para entendermos melhor sobre a Síndrome de Burnout é necessário entendermos bem a definição de estresse, que é uma palavra derivada do latim, que significa fadiga e cansaço. Neste sentido, a autora expõe que o estresse é um processo temporário que interfere em várias dimensões da estrutura física e mental do indivíduo, provocando desequilíbrio em sua vida.

Já a Síndrome de Burnout, segundo Cornelius e Carlotto (2001), caracteriza-se por inúmeros aspectos que desencadeiam um esgotamento físico e mental, trazendo uma insatisfação pessoal e ocupacional muito grande, que pode em casos extremos, levar o profissional até mesmo a cometer o suicídio.

A Síndrome é caracterizada por três dimensões, que são exaustão emocional (EE) correspondente ao nível de esgotamento físico e mental, o nível de despersonalização (DE) que se refere às alterações que o indivíduo apresenta em sua personalidade, passando apresentar comportamento de indiferença com relação às pessoas e por fim a reduzida realização profissional (rRP) que refere-se diretamente ao nível de satisfação com o trabalho e desinteresse com as atividades laborais, neste sentido.

A Síndrome de Burnout, conforme Bruck (2007, p. 105), é bem diferente do estresse, evidenciando que esta síndrome envolve uma série de atitudes comportamentais de aspectos negativos relacionados ao trabalho em ambos os sentidos, enquanto que o estresse é considerado apenas uma condição de esgotamento de ordem pessoal, com inúmeras interferências na vida do sujeito expandindo-se mais em um âmbito pessoal do que organizacional.

De acordo com Cavaleiro (2011, p. 12),

Embora o Burnout primeiramente fosse visto como uma ocorrência em algumas profissões específicas, como é o caso dos professores, com o disseminar do conceito, observou-se que não são apenas as actividades profissionais baseadas na relação de ajuda as potenciais sofredoras, mas sim, todas as que expõem os seus executores a elevados níveis de tensão e stress, particularmente as que tem contacto com pessoas.

Estudos recentes trazem a Síndrome de Burnout como sendo mais abrangente em profissionais da área da saúde, pois é decorrente de um acúmulo de fatores emocionais vivenciados diariamente.

Para Jodas e Haddad (2008), o desenvolvimento desta síndrome faz com que o profissional apresente com relação ao seu trabalho um determinado grau de desinteresse, percebendo o trabalho como algo sem muita importância para sua vida.

1.2 Serviço de Atendimento Móvel de Urgência

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) é um prestador de serviço de socorro móvel desenvolvido pela Secretaria do Estado da Saúde de Santa Catarina, atuando em parceria com o COSEM, regido pelas Secretarias Municipais de Saúde e com o Ministério da Saúde. É um sistema regionalizado e hierarquizado, tendo este serviço como propósito oferecer serviços de urgência ou emergência dentro de uma região, atendendo enfermos, feridos ou parturientes, assim, bem como transportá-los com segurança até o nível hospitalar.

Conforme artigo 5º do regimento interno do serviço 192, o serviço móvel de urgência e emergência, também intermediadas através da central de regulação, situações emergências, das quais os médicos reguladores realizam orientações e determinam comandos para as bases de serviço móvel. As equipes das unidades móveis classificam-se em unidade de suporte avançado (USA), composta por médico, enfermeiro, motorista socorrista e a unidade de suporte básico (USB) composta por técnico de enfermagem e motorista socorrista. Segundo Natividade (2009), o profissional socorrista no desempenho de sua função, acaba por colocar a própria vida em condição de risco, levados pelo propósito de zelar pela vida de outras pessoas.

Conforme abordado por Jodas e Haddad (2008), o contexto do ser humano envolve dualidade, pois tende a reagir de formas diferentes nas mais variadas organizações, visto como método de sobrevivência profissional. Contudo, principalmente o socorrista tende a isolar algumas emoções e até mesmo alguns comportamentos para conseguir realizar um socorro de forma adequada.

Natividade (2009) relata que os socorristas depois de algum tempo exercendo a função no trabalho apresentam alguns sintomas como o desânimo, esgotamento físico e estresse. Fatores estes, que passam a refletir na saúde física e mental deste profissional, afetando seu ambiente de trabalho e expandindo-se para a sua vida pessoal. Ressaltaram também na pesquisa, que após algum tempo de trabalho desenvolvem a capacidade de bloquear o seu emocional apresentando tendência a se tornar pessoas mais frias, passando a apresentar certo grau de insensibilidade.

1.3 Profissionais da Enfermagem e a Jornada de Trabalho

Segundo dados provenientes da Federação Nacional dos Enfermeiros - FNE, esta é a única categoria que participa efetivamente 24 horas da assistência direta ao paciente, de modo assistido e integral, realizando manejo de pacientes de alta e média complexidade (considerados de risco).

A OIT - Organização Internacional do Trabalho e outros órgãos vigentes reconhecem que os trabalhadores da saúde vivem expostos em situações de extremo sofrimento e outros riscos biológicos. Diante disto, preconiza uma jornada de trabalho de 30 horas, considerando a garantia da humanização do atendimento da enfermagem e um cuidado de qualidade, fator importantíssimo para salvar vidas. Porém, a realidade dos profissionais de enfermagem é outra, pois acabam muitas vezes tendo que exercer uma jornada dupla de trabalho para suprir a falta de profissionais qualificados.

Conforme Borges (2005), os profissionais da saúde estão envolvidos com vários tipos de agentes estressores, dentre eles, a sobrecarga de trabalho, a frequente falta de reconhecimento profissional, o descontrole do ambiente de trabalho, em meio a outras situações adversas da função, toda esta vivência de forma intensa e contínua pode comprometer a saúde mental destes trabalhadores que podem desenvolver quadros de estresse ocupacional ou Burnout, assim:

Independentemente desses aspectos gerais, cada categoria ocupacional apresenta outros agentes mais específicos que se constituem em fonte de desgaste. Na enfermagem e na medicina, por exemplo, menciona-se a constante exposição à dor, à perda e a morte dos pacientes, assim como a falta de oportunidade para elaborar as experiências de perda (BORGES, 2005, p.227).

1.4 Possibilidades Interventivas do Psicólogo à Saúde do Trabalhador

Conforme Zanelli (2002), a presença do psicólogo dentro das organizações ainda é considerando bastante restrito, precário e deficiente, delimitando o exercício do psicólogo e  estabelecendo foco apenas para critérios de recrutamento e seleção.

O psicólogo deve atuar no aprimoramento e melhoria das condições de vida, trabalho e saúde de trabalhadores, auxiliar em programas de qualidade de vida, na prevenção de doenças ocupacionais, na criação de estratégias para melhoria do clima organizacional e da satisfação dos colaboradores. Pode ainda, participar em projetos estratégicos dos diversos setores da organização para identificar, diminuir e/ou reduzir possíveis impactos negativos na vida das pessoas.

Natividade (2009) também ressalta que, por intermédio de pesquisas realizadas com um determinado público de socorristas, estes reforçaram sobre a necessidade de um apoio psicológico no trabalho, com o objetivo preventivo de lidar melhor com as inúmeras situações dolorosas do cotidiano.

De acordo com Bruck (2007, p.19), quando se fala sobre a psicologia das emergências, faz referências também de estudos do comportamento realizados com pessoas que vivenciaram situações traumatizantes após um acidente ou desastre. Também defende que tanto as vítimas, quanto os profissionais devem ter um suporte psicológico como intervenção preventiva de danos à saúde mental.

2. Método

Essa pesquisa foi decorrente do Trabalho de Conclusão do Curso de Psicologia realizado em 2014. Este estudo utilizou-se da pesquisa exploratória que de acordo com Gil (2008) estabelece uma proximidade maior com o problema, o que pode envolver tanto levantamentos bibliográficos, entrevistas e estudo de caso. E também da pesquisa qualitativa, que segundo Flick (2009) explica que tem como característica comum entender e explicar os fenômenos, analisando experiências de indivíduos ou grupos, com o uso de diferentes enfoques. De acordo com a classificação de textos dessa revista, pode-se adotar o formato de Relatos de experiências, por se tratar de descrições de experiências acadêmicas.

O Questionário Preliminar de Identificação da Burnout foi aplicado de modo individual e de livre consentimento, esclarecido em termo documentado e em comum acordo com os participantes desta pesquisa que foram dois profissionais, sendo um do sexo masculino e outro do sexo feminino.

Quanto ao local de aplicação do questionário foi utilizado o próprio ambiente, sendo escolhida pelos próprios participantes como constituindo a mais adequada, pois ao final do expediente todos relataram exaustão devido a própria carga horária exercida.

A etapa preliminar desta pesquisa aconteceu com o preenchimento de um questionário sociodemográfico contento 14 perguntas a respeito Profissão, Idade, Sexo, Tempo de Profissão. Depois os participantes responderam um inventário de avaliação de sintomas de estresse. Este inventário foi utilizado por Costa, Lima, Almeida (2003), baseados no inventário de Lipp (1994). A partir deste inventário de Lipp - ISS (Inventário de Sintomas de Stress) composto por 53 questionamentos é possível identificar as três fases dos sintomas do estresse.

O foco deste estudo foi a aplicação do Questionário Preliminar de Identificação da Burnout, adaptado por Chafic Jbeili (2011) baseado no Maslach Burnout Inventory-MBY. Aescolha deste questionário foi a partir dos autores Nascimento, Cunha, Mota e Vasconcelos (2012) que utilizaram em sua pesquisa relacionada à Identificação Preliminar da Síndrome de Burnout em professores. O questionário é composto por uma tabela com 20 questões, sendo 9 questões referentes a Exaustão Emocional (1,2,3,6,10,11,14,19), 4 questões referentes a Despersonalização sendo (5,12,15,18) e 7 questionamentos referentes a reduzida Realização Profissional sendo as questões (4,7,8,9,13,16,17). Posicionada logo no lado de cada questão na tabela existem 5 colunas, onde cada coluna possuí um valor correspondente (1-Nunca, 2-Anualmente, 3-Mensalmente, 4-Semanalmente, 5-Diariamente) sendo a score de intensidade da resposta, conforme quadros a seguir:

QUESTÕES RELATIVAS A EXAUSTÃO EMOCIONAL

1

2

3

4

5

Sinto-me esgotado(a) emocionalmente em relação ao meu trabalho

 

 

 

 

 

Sinto-me excessivamente exausto ao final da jornada de trabalho

 

 

 

 

 

Levanto-me cansado(a) e sem disposição para realizar meu trabalho

 

 

 

 

 

Tenho que desprender esforço para realizar minhas tarefas do trabalho

 

 

 

 

 

Sinto-me com pouca vitalidade, desanimado(a)

 

 

 

 

 

Não me sinto realizado(a) com o meu trabalho

 

 

 

 

 

Sinto-me sem forças para conseguir algum resultado significante

 

 

 

 

 

Penso que não importa o que eu faça, nada vai mudar no meu trabalho

 

 

 

 

 

Sinto que não acredito mais na profissão que exerço

 

 

 

 

 

QUESTÕES RELATIVAS A DESPERSONALIZAÇÃO

1

2

3

4

5

Trato algumas pessoas como se fossem da minha família

 

 

 

 

 

Não sinto mais tanto amor pelo meu trabalho como antes

 

 

 

 

 

Sinto que estou no emprego apenas por causa do salário

 

 

 

 

 

Sinto que as pessoas me culpam pelos seus problemas

 

 

 

 

 

QUESTÕES RELATIVAS REDUZIDA REALIZAÇÃO PROFISSIONAL

1

2

3

4

5

Envolvo-me com facilidade nos problemas dos outros

 

 

 

 

 

Acredito que poderia fazer mais pelas pessoas assistidas por mim

 

 

 

 

 

Sinto que meu salário é desproporcional às funções que executo

 

 

 

 

 

Sinto que sou uma referência para as pessoas que lido diariamente

 

 

 

 

 

Não acredito mais naquilo que realizo profissionalmente

 

 

 

 

 

Tenho me sentido mais estressado(a) com as pessoas que atendo

 

 

 

 

 

Sinto-me responsável pelos problemas das pessoas que atendo

 

 

 

 

 

Fonte: NASCIMENTO, CUNHA, MOTA, VASCONCELOS (2012).

Os participantes então, responderam ao questionário assinalando com X, no valor  correspondente, a intensidade da resposta. Desta forma o total de respostas assinaladas foram multiplicadas pelo valor da coluna correspondente e posteriormente sendo somadas, obtendo-se então um valor de score total, das quais possuem a seguinte representação e interpretação conforme representado a seguir:

SCORES

RESULTADOS

De 0 a 20 pontos

Nenhum indício da Burnout

De 21 a 40 pontos

Possibilidade de Desenvolver Burnout procure trabalhar as recomendações de prevenção da Síndrome.

De 41 a 60 pontos

Fase Inicial da Burnout procure ajuda profissional para debelar os sintomas e garantir, assim, a qualidade de vida.

De 61 a 80 pontos

A Burnout começa a se instalar. Procure ajuda profissional para prevenir o agravamento dos sintomas.

De 81 a 100 pontos

Você pode estar em uma fase considerável da Burnout, mas este quadro é perfeitamente reversível. Procure o profissional competente de sua confiança e inicie o quanto antes o tratamento.

Fonte: NASCIMENTO, CUNHA, MOTA, VASCONCELOS (2012).

Os participantes desta pesquisa pertencem a uma categoria de profissionais que trabalham sob a condição de tempo resposta, devendo ser ágeis e precisos. A carga horária de trabalho varia de acordo com os critérios da base, sendo neste caso específico a escala de 24X72, pois em alguns períodos realizam horas extras para suprir possíveis faltas, ou momentos extraordinários conforme a necessidade, considerando também que alguns destes participantes possuem um segundo emprego, o que fortalece a condição de sobrecarga de trabalho e esgotamento físico.

3. Procedimentos

O primeiro contato foi via telefone com a uma enfermeira, que exerce cargo de Coordenação na Secretaria Municipal de Saúde da cidade.

Em um segundo momento, a enfermeira  recebeu as acadêmicas pessoalmente, onde foi solicitado a proposta de pesquisa por escrito e os documentos em conformidade com o  CEP/FAMEBLU, sob o protocolo de aprovação de número 219/2014.

Depois de autorizado, foi realizada a visita ao SAMU para combinar com os participantes o melhor horário para execução da pesquisa. O fato deles trabalham em três turnos diferentes, com probabilidade de escalas diferentes e possibilidade de imprevistos devido as ocorrências, limitou muito o numero de participantes nesse estudo. Um dos critérios para escolha dos participantes foi ter dois anos no desempenho a função.

Para se compreender melhor sobre a rotina destes profissionais, foi realizada uma observação informal não estruturada. Notamos um ambiente bem arejado, iluminado, com um local apropriado para realizarem suas refeições e uma área própria para descanso. Em contrapartida, notamos que depois de um determinado período no plantão, estes profissionais mesmo parando para realizar seu descanso ou refeição, acabam ficando em estado de alerta, principalmente se o telefone tocava, pois o toque do telefone era sinal de alerta, indicando uma ocorrência advinda da central.

4. Resultados e Discussão dos Dados Apresentados na Pesquisa

Os participantes apresentaram algumas características em comum, que podem ser consideradas relevantes, como o fato de realizarem horas extras com frequência, idade superior a 30 anos, mais de 5 anos de profissão e uma queixa semelhante, falha de memória e problemas de esquecimentos. O autor González (2001) diz que possíveis esquecimentos podem ser recorrentes da própria evitação defensiva do indivíduo, por estarem expostos a longos períodos de hipervigilância, das quais também podem ser adaptativas.

Nos resultados do Questionário Preliminar de Identificação da Burnout, baseado no Maslach Burnout Inventory-MBY, o profissional masculino, apresentou uma frequência menor de respostas correspondentes a Exaustão Emocional. Na Despersonalização também apresentou uma menor frequência de respostas correspondentes, mas já no nível de Reduzida Realização Profissional apresentou uma frequência maior de respostas, totalizando um score geral de 40 pontos, o que resultou em uma possibilidade de desenvolver a Burnout.

A profissional de sexo feminino apresentou uma frequência de respostas maiores correspondentes a Exaustão Emocional. Nas respostas correspondentes a Despersonalização a frequência de respostas ficou parecida, mas já no nível de Reduzida Realização Profissional apresentou uma frequência ainda maior de respostas com relação ao profissional masculino, totalizando uma score geral de 49 pontos do qual resultou em fase inicial da Burnout.

Deste modo, em conformidade com o autor Gonzáles (2001) o papel do psicólogo é fundamental para atuar junto a esses trabalhadores, pois possui conhecimento e experiências, podendo contribuir para a melhoria da qualidade de vida e saúde do indivíduo. Deste modo é necessária a formação de equipes interdisciplinares para abordar de modo criterioso todos os aspectos biopsicossociais que e envolvem vida do indivíduo.

5. Conclusão

Esta pesquisa buscou mostrar perspectivas avaliativas referentes ao contexto da Burnout, referenciando também alguns conceitos relacionados ao estresse que em demasia pode desencadear inúmeras consequências psicológicas ou emocionais, derivados do cansaço mental, dificuldades para se concentrar, bem como outros sintomas físicos. Estes, de acordo com Lipp (1994) são relacionados a uma determinada fase do estresse já citado neste estudo. Considerando então as respostas evidenciadas pelos dois participantes dos problemas relativos à memória, esta corresponde à segunda fase do estresse, da qual a pessoa luta e resiste para manter um equilíbrio interno. Neste sentido, existe a possibilidade em desenvolver Burnout, pois depois da fase de resistência, vem a fase da exaustão o que pode gerar indícios desta síndrome em fase inicial. Vale mencionar que o desenvolvimento do Burnout envolve uma série de fatores que incluem a possibilidade de estresse, pois aquela envolve uma série de atitudes comportamentais de aspectos negativos relacionados ao trabalho, enquanto que o estresse é considerado apenas uma condição de esgotamento de ordem pessoal.

Na aplicação das etapas preliminares, constatou-se que o tempo de trabalho e a frequência na realização de horas extras, foi um dos fatores relevantes para a instalação da síndrome que começa apresentar-se timidamente com a presença de alguns sintomas de estresse.

Na aplicação do Questionário Preliminar de Identificação da Burnout, constatou-se por intermédio dos scores totais apresentados pelos participantes, que todos apresentaram probabilidade em desenvolver Burnout. Deste modo, referenciam-se perspectivas avaliativas e não diagnósticas, que a vivência prolongada e a dedicação extrema ao cuidado de modo assistencial ao paciente, torna inevitável a hipótese de não se envolver no contexto da dor alheia, fato este que ficou evidente nas frequências das respostas correspondentes a Despersonalização e da reduzida Realização Profissional de ambos os participantes. Diante desta perspectiva, é importante lembrar que, o convívio diário e constante com a dor e o sofrimento do paciente podem ser significativos para desencadear um determinado grau de frustração, pois muitas vezes carrega uma sensação de impotência e sente falta de reconhecimento profissional. Avaliando estes fatores, pode-se justificar a frequência de respostas correspondentes a reduzida Realização Profissional, pois também podem sentir-se esgotados emocionalmente, devido a rotina diária da função, sendo também associadas as jornadas longas de trabalho.

Portanto, todas estas condições exigem bastante destes profissionais, sendo muitas vezes inevitável o esgotamento físico e mental em boa parte deles, ficando evidente que esta vivência diária acaba por gerar sinais e sintomas de fragilidade, sendo impactantes nos diversos aspectos emocionais, desencadeados em virtude da função que exercem nos mais variados contextos.

Sobre os Autores:

Taline Reinert - Psicóloga formada pela Fameg/Uniasselvi.

Viviane Spak Bertoldi - Psicóloga formada pela Fameg/Uniasselvi.

Marília da Silva Torres - Psicóloga, pós graduada em Saúde Mental pela Faculdade Bagozzi, Professora do Curso de Psicologia da Fameg/Uniasselvi.

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