A Expressão dos Arquétipos Junguianos: uma Análise do Filme Cisne Negro

A Psicologia Junguiana teve início quando seu criador, Carl Gustav Jung rompeu a amizade com Freud (1914), visto que apesar de estudar várias questões da Psicanálise não concordava que todos os desejos e pulsões do inconsciente tinham fundo sexual, como Freud acreditava. Para Jung a Psicologia Analítica é singular, e mesmo utilizando-se de conceitos como o consciente e inconsciente da Psicanálise, traz um novo entendimento acerca deles, e principalmente quando menciona a existência de um inconsciente coletivo.

O inconsciente coletivo não tem a ver com as experiências pessoais do indivíduo, tem caráter universal, está ligado as imagens primordiais (arquétipos), são conteúdos passados de geração a geração, diz respeito a ancestralidade (CORUMBA, 2008). O inconsciente coletivo é composto por estruturas psíquicas, os arquétipos. Estes são formas sem conteúdos prontas para canalizar o material psicológico. São também imagens primordiais porque remetem ao mitológico, as crenças e costumes passados de geração a geração que tomam formas dependendo das experiências que o indivíduo desfruta. Os arquétipos dão origens às fantasias pessoais como também as mitologias de um povo. Os principais arquétipos são a persona, sombra, animus, animas e o Self (BALLONE, 2005).

Partindo dessa breve discussão acerca da Psicologia Junguiana, pode-se fazer um paralelo desta com o filme “Cisne Negro”, de origem americana, ano 2011, dirigido por Darren Aronofsky, tendo como foco a análise da presença dos arquétipos visualizados na personagem principal.  O filme é um drama/suspense que conta a história de uma jovem bailarina de uma companhia nova-iorquina de balé obcecada pela perfeição, Nina.

O diretor da companhia, Thomas Leroy, resolve realizar uma nova versão da peça Cisne Negro, e para isto substitui a antiga bailarina que interpretava a rainha dos cisnes. Diante da oportunidade Nina tenta mostrar o seu melhor. Possuidora de uma técnica perfeita ao dançar, para Thomas ela é o cisne branco ideal, cheia de graça e meiguice. No entanto, o cisne negro, sombrio e sensual, não se encaixa em eu perfil. A chegada de uma nova bailarina, Lilly, encanta o diretor por ter características semelhantes a do cisne negro e consequentemente deixa Nina insegura.

Durante o desenrolar da trama, Nina acaba ganhando o papel principal, mas sua obsessividade pela perfeição começa a perturbá-la psicologicamente. Esses pensamentos são ainda mais reforçados por conta da mãe de Nina, Erika, uma bailarina aposentada, que instiga na filha a vontade de chegar ao máximo de sua carreira. Além disso, Thomas pressiona a jovem a despertar seu lado sombrio, para que assim possa interpretar adequadamente o cisne negro. Em uma das cenas o diretor fala “você poderia ser brilhante, mas é covarde”.

Nina adota comportamentos de ferir-se, ela arranha as costas com as unhas e enquanto o faz tem delírios. Após os delírios também tem crises de vômitos. Esses episódios são frequentes ao decorrer do filme, e a cada repetição parecem tornar-se mais destrutivos. Com o objetivo de parar a filha, Erika corta as unhas de Nina e a faz usar casacos, para que as lesões causadas pelas unhas não fiquem expostas e a instigue a se machucar ainda mais. Mesmo com a rivalidade com Lilly, que também deseja o papel da rainha dos cines, Nina começa uma amizade conturbada com esta. Ao saírem para uma boate, Lilly incentiva Nina a consumir álcool e outra droga, influenciada pelos efeitos psicotrópicos das substancias, ela começa a deixar seu lado sombrio se expressar.

Em meio a tudo isso, Nina sofre acusações da antiga bailarina principal, Beth, que ela estaria tendo um relacionamento amoroso com o diretor do espetáculo em troca do papel. Em algumas cenas Thomas faz investidas sexuais para com Nina, objetivando despertar seu cisne negro. Nina também tem delírios de cunho sexual com Lilly.

No desfecho do filme, Nina tem fortes crises na noite anterior a estreia da apresentação, com vários delírios, e arranhões na própria pele. Chega a machucar a mão da mãe a pressionando na porta ao fechá-la. Durante a apresentação da estreia, Nina fica tão perturbada psicologicamente que tem vários delírios, seus comportamentos autodestrutivos tornam-se tão críticos que ela chega a ferir-se fatalmente durante a apresentação. Na busca da perfeição, ela consegue interpretar divinamente os dois cisnes, chegando a ser real e igualmente torturante em seu âmbito psicológico.

Ao analisar o filme tendo como base a Psicologia Analítica, podem-se perceber as influências arquetípicas nos comportamentos da protagonista Nina, principalmente do arquétipo sombra e persona. A sombra, um dos mais poderosos arquétipos é fonte da agressividade, instinto, impulsividade, vitalidade, criatividade. Esta instância do inconsciente coletivo é fortemente projetada no outro, ou seja, o indivíduo ver no outro as características presentes em sua sombra, rejeitadas por ele. “Os homens tendem a projetar os impulsos de sua sombra rejeitada nos outros homens, de modo que, entre eles, surgem com frequência sentimentos negativos. O mesmo ocorre com as mulheres” (HALL e NORDBY, 2005, p. 42).  Nina, por exemplo, projeta em Lilly as atitudes que fazem parte de sua sombra. Nas últimas cenas do filme, em meio a seus delírios, ela ver Lilly a confrontando sobre sua capacidade de ser o cisne negro, situação geradora da briga em que Nina supostamente fere a colega. No entanto, no desenrolar dos fatos verifica-se que Nina estava perdida em seus delírios, sua verdade estava completamente destoante do que realmente acontecia.

O drama psicológico que a protagonista vive pode ser relacionado com o confronto com a sua sombra. Seus conteúdos sombrios, fortemente instintivos tomam formas em seus comportamentos. “O encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a própria sombra. A sombra é, no entanto, um desfiladeiro. Um portal estreito cuja dolorosa exiguidade não poupa quem quer que desça ao poço profundo” (JUNG, 2002, p.31). Nina se depara com suas pulsões inconscientes, este é um fato doloroso. Seu eu consciente à medida que deixa a sombra se expressar entra em desequilíbrio.

A persona da menina frágil e gentil suprimiu durante anos a sombra da bailarina, e quando ela se sente forçada a deixar o cisne negro fluir, sua sombra ganha lugar para se expressar. “[...] a persona é o que não se é realmente, mas sim aquilo que os outros e a própria pessoa acham que se é. Em todo caso a tentação de ser o que se aparenta é grande, porque a persona frequentemente recebe seu pagamento à vista” (JUNG, 2002, p. 128).

Aos poucos a sombra de Nina ultrapassa sua persona, quando, por exemplo, ela desobedece à mãe e sai com Lilly para a noite ou quando ela machuca a mão da mãe na porta. Jung (2002) nos fala que mal o inconsciente nos toca e já o somos e nos esquecermos de quem éramos. A consciência frágil e de pés vacilantes corre o risco de ser arrebatada pelo inconsciente e dessa forma o indivíduo pode fazer coisas das quais não se reconhece.

O contato da sombra no inconsciente é algo perigoso, mas essencial para o autoconhecimento do indivíduo, e consequentemente seu crescimento psicológico. Este arquétipo também é fonte de criatividade, para Nina que precisava interpretar tanto o cisne negro quanto o branco, seria justamente sua sombra que daria os impulsos necessários. No entanto, sua sede por perfeição desequilibrou sua persona em tal ponto que sua sanidade mental começou as ser questionada.

De acordo com Hall e Nordby (2005) a sombra é fonte de inspiração, existindo certa verdade na relação que popularmente se faz do gênio com o louco, pois, quando a pessoa muito criativa deixa a sombra se expressa em demasia, esta prejudica o ego (que filtra os conteúdos que passam do inconsciente para o consciente) e a pessoa parece temporariamente insana.

O início do filme se dá com um sonho de Nina, no qual ela representa a rainha dos cisnes em uma nova versão do Lago dos Cisnes que sua companhia de balé está trabalhando.

O sonho, por sua vez, tão comum à experiência de qualquer pessoa, é um fenômeno que pode se prestar, com mais facilidade, a uma abertura para o trabalho com imagens. Por intermédio das imagens oníricas, é possível levar o indivíduo a estabelecer uma relação com processos em desenvolvimento na sua psique, bem como a manter o foco da terapia na esfera da alma. Tradicionalmente, a Psicologia Analítica trabalha com sonhos no contexto psicoterápico individual (SANT’ANNA, 2005, p.35).

Para a Psicologia Analítica os sonhos são expressão das imagens psíquicas, eles dão dicas das energias e conflitos que circulam pelo inconsciente. Nina sonha com o papel principal da peça de balé, e isso é tão forte e expressivo que no desenrolar da longa metragem fica cada vez mais perceptível os conflitos que esse desejo acarreta na sua psiquê.

Outros dois arquétipos verificados no filme são o animus e a animas, o primeiro corresponde à parte masculina presente no inconsciente. Possui características como a razão, agressividade, conflitos, rigidez, destrutividade, atividade. Já a animas é a parte feminina do inconsciente, é dócil, sentimental, intuitiva, passiva. Normalmente o homem tem o animus mais desenvolvido e a mulher a animas, mas isso não é regra. Para o equilíbrio da psique o ideal seria que ambos os arquétipos fossem bem desenvolvidos nos dois gêneros (HALL e NORDBY, 2005). Nina, no inicio do filme, tem características da anima, é perfeita para interpretar o cisne branco, mas não tem a ousadia e agressividade do cisne negro. À medida que Thomas a pressiona, ela vai adotando atitudes do animus e como o próprio diretor diz, liberta o cisne negro que havia dentro dela. Esses dois arquétipos também são responsáveis pelos relacionamentos afetivos, segundo Jung uma mulher se interessa afetivamente por um homem quando seu animus se identifica com o animus do pretendente. É perceptível que Nina nutre sentimentos românticos por Thomas, prova disso é o beijo que ela o dá de forma espontânea em meia a apresentação da peça. Dessa forma, Nina é atraída por Thomas por seus animus serem provavelmente semelhantes.

 Ao olhar de Freud poderíamos destacar a presença da libido em Nina nas cenas mais eróticas que ela vivencia com Thomas e Lilly, mas para Jung, que considera a libido algo além da sexualidade, Nina desfruta de sua libido ao deixar sua sombra se expressar, em busca da perfeição na interpretação do cisne negro. Jung percebia a libido como essencialmente simbólica, relacionada à existência de um inconsciente coletivo. “Essa libido é uma energia que se transmite às gerações, é o inconsciente arquetípico que possui estruturas fixas transmitidas universalmente” (PINTO, 2007, p. 78).

“Cisne Negro” é um filme bastante rico em possibilidade de interpretação, não só na Psicologia Analítica, mas também em outras abordagens e focos da Psicologia e da Psicopatologia, isto é um ponto positivo da trama. As experiências vividas por Nina dão um indicativo da força que a psique exerce sobre todo o corpo, ou melhor, que o ser humano não pode ser pensado e estudado de forma cartesiana, mas olhando em seu todo como um ser único. A longa metragem também é uma ferramenta de alerta social para dançarinas que se autodestroem em busca de um ideal profissional. O ponto negativo é justamente a ausência de alternativas que poderiam ajudar Nina a equilibrar seus arquétipos e desenvolver seu Self, deixando o telespectador sem informações sobre essa possibilidade.

O Self é o arquétipo da totalidade, que organiza e oferece unificação aos demais arquétipos. Seu desenvolvimento depende da cooperação do Ego, que coordena quais os conteúdos inconscientes que passarão para a consciência. Geralmente ele é pouco desenvolvido nas pessoas, uma vez que este é um processo longo e extremamente difícil. O Self seria a harmonia, a complementaridade entre consciência e inconsciente. Em um Self bem desenvolvido, o Ego trabalha em sua parceria, não mais sendo o centro da personalidade do indivíduo (HALL e NORDBY, 2005).

Esta é uma obra cinematográfica indicada para estudantes e profissionais de Psicologia e Psiquiatria, independente de suas abordagens teóricas, afinal, como já dito, ela pode ser interpretada por diversas visões. Mas, sem dúvidas, os interessados pela Psicologia Analítica serão bem agraciados ao desfrutarem do filme, pois terão a possibilidade de visualizarem na prática a teoria estudada.

Sobre o Autor:

Maria das Dores Santana Trindade - Psicóloga pela Faculdade de Ciências Humanas e Sociais - AGES. Pós-graduanda em Saúde Mental e Atenção Psicossocial pela Universidade Estácio de Sá.

Referências:

BALLONE, GJ . Carl Gustav Jung. PsiqWeb, internet, disponível em: <http://www.psiqweb.med.br/>. Revisto em 2005. Disponível em: < http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=192> Acesso em 05 de Nov. 2014.

CORUMBA, R. M. N. Descobrindo enigmas de heróis e conto de fadas: Entre a Psicologia Analítica e Psicodrama. Aracaju: Edições Profint, 2008.

FRANKLIN, Scott et al; ARONOFSKY, Darren. Cisne Negro.  [Filme-vídeo]. Produção de Scott Franklin et al. Direção de Darren Aronofsky.  ESA. Fox Filmes. 2011. Filme online. 1h43min. Color. Son.

HALL, C. S.; NORDBY, V. J. Introdução a Psicologia Junguiana. 8 ed. São Paulo: Cultrix, 2005.

JUNG, Carl Gustav, 1875-1961. Os arquétipos e o inconsciente coletivo / CG. Jung. Perrópolis, RJ : Vozes, 2000.

PINTO, K. M. Crônica de um fim anunciado: O debate entre Freud e Jung sobre a teoria da libido. Agora. Rio de Janeiro. v. 10. n. 1. Jan. jun. pp. 75-88, 2007.

SANT’ANNA, P. A. Uma contribuição para a discussão sobre as imagens psíquicas no contexto da psicologia analítica.  Psicologia USP, v.16, n.3, pp. 15-44, 2005.