As Virtudes Liberais: Resenha do Livro “A Revolta de Atlas” de Ayn Rand

No romance “A Revolta de Atlas”, de Ayn Rand, a autora mostra os valores morais fundamentais de sua filosofia, a qual chama de  Objetivismo. Os valores éticos positivos são apresentados pelos personagens heroicos da trama, e os negativos ficam por conta de seus antagonistas. Francisco D´Anconia, Dagny Taggart, Hank Rearden e o personagem principal John Galt representam os valores que Rand considera o ideal ético para a humanidade: racionalismo, egoísmo, coragem e liberdade individual, e os antagonistas são personagens que, por algum motivo, negam e não possuem tais valores.

O racionalismo é, para Rand, o grande ganho do ser humano, que permite guiá-lo ao progresso. No livro, Rand contrapõe razão à força, mostrando que não são os músculos os responsáveis pelos grandes empreendimentos da humanidade e, sim, a mente racional. A mente racional é que vislumbra e projeta os grandes empreendimentos. Todos os protagonistas são pessoas dotadas de grande inteligência, pela qual fizeram sua fortuna e foram responsáveis pelo desenvolvimento da humanidade, D.Taggart, os trens da companhia Taggart, Rearden cria o metal Rearden e Galt, o mais inteligente de todos,  lidera a revolução individualista.

Das virtudes expostas por Rand, a que causa mais estranhamento ao senso comum é a do egoísmo. Juntamente com o individualismo, estes podem ser definidos pela frase lema da ilha de Galt no livro: “Juro, por minha vida e meu amor, que jamais viverei por outro homem e nem pedirei  a outro  homem que  viva por mim.” O que está posto nesta frase é que a meta da vida de cada homem é sua felicidade e, para isso, ele deve procurar seus meios para alcançá-la, sem esperar que nenhuma pessoa seja responsável por dar-lhe a felicidade. Não significa desconsiderar o Outro, pois nossa existência é construída com o Outro, logo esse é valorizado, na medida em que é importante para nós. A ideia fica bastante simples, exemplificada pela vida comum, na qual é normal valorizarmos mais as pessoas que amamos, como pais, irmãos, conjuges, do que estranhos.

No início, os personagens principais são pessoas talentosas e produtivas e, com isso, obtém o fruto de sua produção: dinheiro e sucesso. Porém, no decorrer da trama, usando de manobras políticas, os antagonistas conseguem fazer com que tais personagens carreguem todo o fardo do mundo e vejam o fruto de sua produção parar nas mãos de terceiros. Os antagonistas se dividem em grupos de pessoas preguiçosas ou sem talento ou corrompidas, que buscam formas de dominar o poder governamental e viver à custa do trabalho de outras pessoas. Para isso, usam como camuflagem o discurso do altruísmo, que tem como base a premissa de que “o individuo deve trabalhar para o bem de todos”.

Podemos, neste momento, ver uma relação com a moral dos fracos de Nietzche, para o qual o fraco fez o forte se sentir culpado de sua força. O exemplo marcante disso é o Hank Rearden, um empresário que havia feito sua fortuna através de seu trabalho. Rearden sofre no seio de sua família, que o condena por só pensar em suas empresas e despeja sobre ele a obrigação moral de sustentá-los.  Rearden se vê confuso por tal discurso e sente-se obrigado a atender as vontades de seus familiares, mãe, esposa e irmão, todos improdutivos. Rearden só é liberto quando do seu encontro com D´Ancônia. O jovem empresário mostra para Rearden que o que sua família considerava mal, na verdade, eram suas grandes virtudes.

O trecho da libertação de Rearden por D´Anconia é conhecido como discurso do dinheiro. Nele, D´Anconia defende o dinheiro dos que o colocam como grande mal da humanidade. O personagem expressa como o dinheiro, ao contrário, é o grande invento da humanidade, que permite que haja a troca de valores entre os homens, por meio da razão, e que o homem seja recompensado pelo valor que produz à humanidade.

Voltando ao desenrolar da trama, o grupo, que toma o Governo para si, consegue, aos poucos, implantar sua ideologia que obrigava a todos a trabalhar por todos, ou seja, o produto do trabalho de um não seria mais de si mesmo e sim, de todos. Tal fato faz com que os mais talentosos e produtivos sustentem os sem talento, preguiçosos e improdutivos, e as pessoas ficam sem estímulos para se desenvolverem, para produzir. Aos poucos, os personagens virtuosos começam a se revoltar e abandonar todo seu trabalho, suas indústrias e empresas para fugir para uma ilha desconhecida, liderados por John Galt. Esse acontecimento deixa os Governantes sem chão, e todo o país lançado a um mar de pobreza e caos.

O livro de Rand, claramente, como a própria autora almejava e defendia, se liga a uma ética do capitalismo liberal, da valorização da meritocracia. Porém, o livro acaba se tornando uma faca de dois gumes: se por um lado apresenta uma excelente defesa das virtudes liberais, por outro, pode induzir ao erro. Induz a acreditar que, de acordo com a ideologia liberal, todos que estão nas classes mais baixas da sociedade, o estão por falta de mérito, o que é um erro de pensamento abissal que a própria Rand refutaria. Esse pensamento ignora as condições sócio-históricas de cada indivíduo e ainda, as escolhas individuais. Em suma, as pessoas não têm o mesmo ponto de partida, nem querem as mesmas coisas.

A leitura permite ainda uma confusão sobre o que é realmente a meritocracia liberal. Ao apresentar os mais talentosos e esforçados como os grandes vencedores da vida, o livro pode dar a entender que meritocracia se resume a somente talento e esforço, e que a união desses dois fatores produzirá pessoas que obterão mais sucesso e dinheiro. Novamente, tal conceito oferece armas aos críticos do liberalismo, pois na vida real nem sempre isso se verifica.

O conceito de meritocracia abrange mais do que esforço e talento e sim,  a produção de valor para a humanidade. Justiça seja feita, esses pontos são abordados em certos momentos pelo livro, como no discurso do dinheiro de D´Anconia e na entrevista concedida por D. Taggart, na qual uma jornalista observa como seria importante para as pessoas o expresso Taggart. O cientista político americano Thomas Sowell esclarece bem esta confusão sobre o conceito: “O fato da produtividade de uma pessoa poder valer mil vezes mais que a de outra não significa que o mérito da primeira é mil vezes maior do que o da segunda. Produtividade e mérito são coisas um tanto distintas. A produtividade é afetada por inúmeros fatores além dos esforços...Um indivíduo criado em condições familiares terríveis ou sob terríveis condições sociais pode ter grande mérito por ter se tornado um cidadão decente e mediano, possuidor de habilidades medianas em seu trabalho de sapateiro, ao passo que outro indivíduo nascido e criado em condições muito mais vantajosas que o dinheiro e posicionamento social podem, por exemplo, conferir, pode não ter o mesmo mérito, mesmo ao se tornar um eminente neurocirurgião. Mas isso é totalmente diferente de dizer que reparar sapatos é tão valioso para os outros quanto ser capaz de reparar problemas cerebrais.”

Na busca por ideal ético para os humanos e na valoração do lado racional humano, Rand constrói personagens muito similares, onde parece deixar de fora os desejos, muita vezes contraditórios, os diversos afetos, a dúvida, o sofrimento e toda a fraqueza e tragédia presentes na existência.  Deixando a pergunta, será possível viver as virtudes liberais pregadas por Rand, no meio dos sentimentos humanos ou alcançar essas virtudes é a superação desses sentimentos a tal ponto, que eles param de existir ou, ainda, a existência de tais fatores é negação dos valores liberais? Cabe neste ponto, um estudo posterior para saber como as pessoas, que alcançam sucesso na existência e reconhecem tais valores como grandes virtudes, vivenciam tais sentimentos.

Referências:

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratrusta. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ (2012)

RAND, Ayn. A Revolta de Atlas, volumes  I, II e III. Editora Arqueiro, São-Paulo, SP (2010)

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Realizações Editora, São -Paulo, SP (2011)