Reflexões Sobre Saúde Mental: a Partir da Análise do Livro "O Alienista" de Machado de Assis

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam ouvir a música” (Friedrich Nietzsche)

A famosa frase de Nietzsche já nos remete à ideia de que a insanidade é apenas uma questão de ponto de vista. Claro que alguns podem parecer mais loucos que os outros, e algumas vezes, será necessário olhar com mais atenção, mas o que vai se descobrir por fim é que, como disse Caetano Veloso, “de perto ninguém é normal”. Difícil mesmo é definir o que é ser normal. O conceito de normalidade vem se modificando no decorrer do tempo, e se na idade média queimar mulheres na fogueira era tido como algo normal, hoje tal feito torna-se inimaginável. Para os chineses, comer gafanhotos, grilos e baratas é normal, já para o brasileiro comer aquela feijoada com rabo, orelha e pé de porco é normal. Para os indianos a vaca é sagrada, para muitos brasileiros, a carne da mesma vaca torna-se um apetitoso churrasco de domingo. Então como definir o que é certo e o que é errado? Parece haver uma linha muito tênue entre a normalidade e anormalidade, a sanidade e a loucura, a doença mental e a saúde mental.

O conceito de saúde mental varia de acordo com a época, cultura e valores vigentes. E como se percebe pelos exemplos acima, mesmo quando se estabelece um padrão de normalidade este poderá ser tão variado quanto são as crenças e personalidades humanas.  O sábio homem das ciências, Simão Bacamarte, do livro “O Alienista”, dedicou-se tão intensamente ao estudo da loucura e da sanidade que ao final descobriu-se o melhor espécime a ser estudado. Talvez se pudesse pensar que a necessidade que temos de traçar uma linha “grossa” e bem visível entre os “sãos” e os “loucos”, parte justamente da percepção inconsciente de que nós e eles não somos tão diferentes assim. Os tidos como loucos, são como um espelho que reflete tudo aquilo que nos assusta, e nos assusta justamente por que lá no fundo, descobrimo-nos muito parecidos. Daí a necessidade de nos afirmarmos e reafirmarmos como possuidores de plenas capacidades mentais e, portanto, “muito” diferentes dos “insanos”. Porém, como afirma a psicanálise, o que distingue o normal do anormal é muito mais uma questão de grau do que de natureza.

E assim, por muito tempo construímos grandes edifícios, com altos muros e poucas janelas, para manter os “loucos” bem distantes da nossa vista. Tais locais, sempre afastados das cidades, eram tidos como depósitos, onde as famílias e a sociedade jogavam todos aqueles que manchavam a fachada que a tanto custo se tentava manter. Mais tarde, em nome de palavras bonitas como inclusão e humanização, se trouxe os chamados hospícios para perto das cidades, mas ainda se mantiveram enormes os muros “invisíveis” do preconceito e da discriminação. E a isso se deu o nome de saúde mental.

É claro que a Casa Verde da história não se prestava a esse fim, ao contrário, o famoso médico realmente parecia ter intenções puramente científicas e mesmo nobres, uma vez que todos os seus atos justificavam-se (em suas palavras) pela vontade de “estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal”.  Todavia, ao recrutar à casa todos aqueles que Bacamarte julgava insanos, mesmo contra a vontade destes, fica implícita a ideia de soberania do médico frente à ‘incapacidade” daquele que era internado, sem direito a opinar sobre sua situação. A loucura é retratada como um mal que precisa ser curado, e o louco como alguém incapacitado para decidir o que é melhor para si próprio. Assim, a partir de um diagnóstico equivocado, e muitas vezes sem fundamento científico, o “sábio” médico Simão Bacamarte rotulava os indivíduos e, em nome daquilo que só ele acreditava, definia seus destinos.

Essa situação, se trazida aos dias atuais não é muito diferente. Afinal, quantas crianças são equivocadamente diagnosticadas e rotuladas por “sábios” médicos como portadoras de Déficit de Atenção e Hiperatividade? Quantos adultos conformaram-se com seu “diagnóstico” de depressão e encontram aí a confirmação de sua crença de impotência frente ao mundo? Quantas vidas são medicadas em nome da normatização? Numa tentativa frustrada de encaixar todos a um modelo pré-estabelecido e definido (talvez por pessoas não menos doentes) como sendo o ideal.

Iludiu-se Bacamarte ao acreditar que existe um remédio universal para a doença mental, primeiramente porque, para definirmos o que é doença, precisamos estar cientes do que é saúde. E, neste sentido, diversas foram as tentativas de dar tal definição. Entretanto, se analisarmos os vários conceitos de saúde existentes, poderemos perceber lacunas em todos eles. Atualmente o conceito de saúde mais aceito foi definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em que saúde é entendida como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social [...]”. Não é preciso pesquisar muito para percebermos que então a humanidade toda está seriamente doente.

Ainda prefere-se acreditar que somos todos apenas diferentes ou talvez, como sabiamente cantam os Engenheiros do Havaí, somos “todos iguais e tão desiguais, mas uns mais iguais que os outros”. Afinal, “ há tantas formas de se ver o mesmo quadro” .

Sobre o Autor:

Adriana Margarete Klein da Silva - Acadêmica do oitavo período do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina – Campus São Miguel do Oeste.

Referência:

ASSIS, Machado de. O Alienista. São Paulo: Ática, 2000.