A Utilização Didática de Seminários e Sua Contribuição para o Desenvolvimento da Habilidade de Falar em Público em Alunos de Ensino Superior

A Utilização Didática de Seminários e Sua Contribuição para o Desenvolvimento da Habilidade de Falar em Público em Alunos de Ensino Superior
(Tempo de leitura: 12 - 24 minutos)

Resumo: O objetivo principal deste estudo é investigar se a utilização didática de seminários contribui para o desenvolvimento da habilidade de falar em público dos alunos de ensino superior e, ainda, se há diferenciação entre os alunos ingressantes e os que estão próximos de concluir o curso. Foram aplicados questionários em 173 estudantes do curso de psicologia, dos turnos matutino e noturno, do Centro Universitário do Distrito Federal – UDF, sendo 84,39% dos participantes do sexo feminino. Dos participantes da pesquisa, 94,83% consideram que desenvolver a habilidade de falar em público é importante para a sua formação e para a sua vida profissional. Os resultados demonstram que há melhora no desempenho e na diminuição dos níveis de ansiedade com o decorrer da exposição do aluno às apresentações, embora elas não proporcionem o fim do medo de falar em público. Os resultados demonstram, ainda, que os alunos consideram o uso de seminário uma boa escolha feita pelo professor e acreditam que ela pode contribuir para o desenvolvimento da habilidade de falar em público, apontando a importância do feedback do docente para o desenvolvimento desta habilidade no aluno. Embora importante, os resultados demonstram que os docentes não fornecem o feedback necessário aos alunos. Quanto à análise da diferença entre os alunos ingressante e formandos, os resultados apontam algumas diferenças, destacando-se a diminuição dos níveis de ansiedade, sendo para os alunos ingressantes de 31,43% e para os concluintes de 84,62%. Conclui-se, então, que o uso de seminários, como ferramenta didática, contribui para o desenvolvimento da habilidade social de falar em público, porém não há evidências que esta variável exerce influência direta sobre essa habilidade, e que há diferenças entre os alunos ingressantes e formandos, principalmente na diminuição dos níveis de ansiedade.

Palavras-chave: Habilidades Sociais, Falar em Público, Ensino Superior, Didática, Seminário.

1. Introdução

No cenário acadêmico, falar em público é umas das habilidades sociais mais exigidas dos estudantes de ensino superior. São frequentes as ocasiões nas quais os alunos são demandados a falar em público, sendo uma ferramenta didática cada vez mais utilizada pelos docentes nas  avaliações orais, ou mesmo, em participações nas aulas.

Ao ingressar no ensino superior, geralmente nos anos finais da adolescência, o indivíduo ainda está com o seu repertório de habilidades sociais em formação, principalmente por estar migrando para a fase adulta. Ao fazer um curso superior, os desafios propostos são mais complexos e, cada vez mais, é exigido desse indivíduo um repertório maior e mais aprimorado de habilidades. Como defendido por Bolsoni-Silva et al. (2010), é imprescindível que o estudante universitário apresente um bom repertório de habilidades interpessoais e desempenho favorável ao falar em público para um bom desempenho acadêmico e social.

Não há um consenso do conceito de habilidades sociais (HS), porém, geralmente, é utilizado para referir-se a uma capacidade comportamental aprendida como decorrência das interações sociais de um indivíduo (Bolsoni-Silva, 2002). Segundo Del Prette & Del Prette (apud Bolsoni-Silva; Louteiro; Oliveira, 2010), habilidade social pode ser definida como “um conjunto de comportamentos emitidos pelo indivíduo diante das demandas de uma situação interpessoal”.

Del Prete e Del Prete (1999) defende que a conceituação de habilidade social deve contemplar uma dimensão situacional-cultural, uma vez que as culturas podem compreender de maneiras variadas o que são comportamentos aceitáveis ou inaceitáveis, por terem normas e valores distintos umas das outras. Outra questão a ser observada é suposição de um juízo de valor sobre a qualidade do desempenho, ao considerar que habilidade social é uma “capacidade de fazer algo”.

A Habilidade Social pode ter, segundo Mcfall (apud Del Prette; Del Prette, 1999), duas vertentes de entendimento. No primeiro, considerada um traço ou característica da personalidade, é algo inato do indivíduo. Em um segundo entendimento, com característica de um desempenho numa determinada situação, é fruto da interação do indivíduo com as diversas situações sociais às quais está exposto. Logo, pode-se observar que o repertório de habilidades sociais de um indivíduo é composto por traços ou características inatos do indivíduo e outras são aprendidas e moldadas de acordo com o ambiente e as interações sociais as quais ele é submetido. Elas são aprendidas e são exigidas dos indivíduos de maneira diferente em cada fase da vida (DEL PRETE; DEL PRETE, 1999).

Investigar quais são os componentes das habilidades sociais é uma tarefa bastante complexa. Na literatura já existe um acúmulo de informações sobre a funcionalidade individual de cada componente das habilidades sociais, mas pouco existe sobre as combinações entre esses componentes (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 1999).

Del Prette e Del Prette (1999) definem um rol de componentes das habilidades sociais, baseados em alguns critérios, como: a) mútua exclusão; b) da semelhança em termos de abrangência/especificidade; e c) da natureza funcional e topográfica dos comportamentos. Estes componentes são divididos em Componentes Comportamentais (Verbais de Conteúdo, Verbais de Forma e Não Verbais); Componentes Cognitivo-Afetivos (Conhecimentos Prévios, Expectativas e Crenças e Estratégias e Habilidades de Processamento); Fisiológicos (Taxa Cardíaca, Respostas Eletromiográficas, Respiração, Resposta Galvânica da Pele e Fluxo Sanguíneo) e Outros Componentes (Atratividade Física e Aparência Pessoal).

A habilidade social de falar em público não está enquadrada em um único e específico componente. Ela permeia entre os quatro componentes, apresentando respostas observáveis, variando de indivíduo para indivíduo. Segundo estudos epidemiológicos já realizados, falar em público é o medo mais recorrente na população mundial (GEER et al., 2008). O medo de falar em público também tem grande prevalência ao analisar os resultados dos diagnósticos de Transtorno de Ansiedade Social (TAS), o qual é caracterizado pelo medo e evitação de situações sociais e de performance (OSÓRIO; CRIPPA; LOUREIRO, 2008).

No ambiente acadêmico, as situações nas quais os alunos são demandados a falar em público, em seminários ou apenas expressar sua opinião em grupo, podem ser extremamente ansiogênicas. Estudos apontam resultados nos quais 90,69% dos respondentes apresentou preocupações referentes ao medo de falar em público (MARTINEZ et al. 2000, apud OLIVEIRA; DUARTE, 2004).

Conforme CSIK (2015), “os adultos têm algo real a perder em uma situação de sala de aula: podem sentir-se ameaçado em sua autoestima e ego quando são solicitados a tentar adotar um novo comportamento de pares e colegas”. E essa, por si só, provoca comportamento de fuga e esquiva.

O contexto de ensino nas faculdades está habitualmente atrelado à aprovação na disciplina e, por consequência, condições de prosseguir no curso até a sua conclusão. Com base nesse pensamento, as universidades usam como reforçadores a atribuição de notas e diplomas, todos como resultado de um bom desempenho nas atividades avaliativas. Pode, ainda, o professor punir com a retirada dessa aprovação ou retirada da estima - responda corretamente ou será reprovado (SKINNER, 2000 apud OLIVEIRA; DUARTE, 2004).

Atualmente, a instituições de ensino superior devem se preocupar não apenas em transmitir o conteúdo de maneira racional e lógica. Ela deve estar preocupada em formar os alunos para a vida, com visão crítica e com condições de serem geradores de novos conhecimentos. Isso fica muito claro quando Gerk & Cunha (apud CARNEIRO; TEIXEIRA, 2011) dizem:

A universidade deve hoje [...] assumir responsabilidades para os graduados e mercado de trabalho e na reorganização dos processos de formação deslocando o enfoque da ‘aquisição de conhecimento’ para a ‘aquisição de competência’. Entre as competências, está seguramente a competência social e, para atingi-la, há de se desenvolver o repertório de habilidades sociais.

Para tanto, os conteúdos trabalhados em sala de aula estão deixando de ser transmitidos de maneira vertical, na qual o professor é o detentor do conhecimento, passando a ser uma construção coletiva, mais voltada para o estímulo à aprendizagem. Assim, todos geram conhecimentos, com suas experiências e conhecimentos (CSIK, 2015).

Essa mudança na maneira de ensinar já havia sido relatada por Paulo Freire, na década de 80 do século passado. Há muito tempo que o modelo de “Educação Bancária”, denominada por Paulo Freire, na qual o aluno é um depósito de informações, recebendo, de maneira passiva todas as informações sem qualquer tipo de questionamento ou análise crítica, não é mais recomendada para o processo de ensino-aprendizagem, por não haver transformação, não haver saber, não haver criatividade (FREIRE, 1987).

Para contrapor essa metodologia de ensino, Paulo Freire defende a prática da “Educação Libertadora”, na qual o docente deve buscar por metodologias de ensino e métodos de avaliação que corroborem com o processo de ensino-aprendizagem ativo. Segundo Freire (1987), na prática libertadora, “o educador não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando, que ao ser educado, também educa. Ambos, assim, se tornam sujeitos do processo e crescem juntos”.

A escolha didática da melhor ferramenta de transmissão/produção de conhecimento, a qual se adapte às características dos alunos e dos conteúdos com os quais está trabalhando, depende da habilidade do docente (MAZZIONI, 2013). Uma das técnicas de ensino utilizadas pelos professores do ensino superior que contribuem para a vivência da socialização e construção coletiva do conhecimento são os seminários. O seminário desenvolve-se sob a orientação de um facilitador de aprendizagem, o qual orienta os aprendizes acerca da procura de fontes, tais como livros, revistas, relatórios de pesquisa, etc (CSIK, 2015). Geralmente, o produto de um seminário é a apresentação oral aos demais membros da turma de todo o conteúdo estudado/pesquisado, sob a supervisão do professor, gerando debates sobre o assunto.

Diante da realidade acadêmica atual, das expectativas que pairam sobre os futuros profissionais em formação e das ferramentas disponíveis aos docentes, é necessário investigar se a formação acadêmica está atendendo às expectativas da sociedade, promovendo o desenvolvimento adequado dos profissionais, principalmente em seu aspecto social e singular enquanto ser humano, sem desconsiderar os aspectos técnicos da formação, os quais não serão objeto deste estudo.

Este trabalho tem por objetivo principal investigar se a utilização da didática de seminários contribui para o desenvolvimento da habilidade de falar em público dos alunos de ensino superior. Como objetivo específico, investigar se há diferenciação entre os alunos ingressantes e os que estão próximos de concluir seus cursos. Para tanto, foi realizado um levantamento, por meio de questionário específico (Anexo I), da autopercepção dos alunos em relação à sua visão sobre o uso de seminários e como estes contribuem para o desenvolvimento de sua habilidade social de falar em público.

2. Método

2.1 Participantes

Esta pesquisa foi realizada com 173 estudantes universitários do 1º ao 9º semestre curso de Psicologia dos turnos matutino e noturno do Centro Universitário do Distrito Federal - UDF. Não houve restrição quanto à idade ou ao gênero. Os participantes responderam ao questionário voluntariamente.

2.2 Local

As informações foram coletadas nas salas de aula do edifício sede do Centro Universitário do Distrito Federal – UDF, localizado na SEP/SUL EQ 704/904, Conjunto A, Asa Sul, Brasília/DF. Foram, também, coletados dados no Espaço Clínica Escola do UDF, o qual fica localizado no Edifício Reitor Rezende Ribeiro de Rezende, localizado na SGAS 903, Bloco D, Lote 79, Asa Sul, Brasília/DF.

2.3 Equipamentos e Material

Para o desenvolvimento da pesquisa, foi utilizado um computador, com acesso à internet e o software Word, do Pacote Office 2010; uma impressora, com tinta preta e branca, e 250 folhas de papel A4 branco, para a criação e impressão dos formulários de pesquisa. Aos participantes foram solicitados que utilizassem canetas esferográficas de qualquer cor. Foram utilizadas cadeiras com apoio para o braço fabricadas em madeira e metal, com assento e encosto acolchoados, do próprio UDF.

2.4 Procedimento

Foi realizado estudo correlacional com o objetivo de verificar a autopercepção dos estudantes universitários sobre as contribuições do uso de seminários para o desenvolvimento da habilidade social de falar em público. Para tanto, foi elaborado um questionário (Anexo I) para o levantamento dos dados. O estudo busca verificar se há correlação entre as variáveis: uso de seminários (variável independente) e habilidade social de falar em público (variável dependente). Os questionários foram aplicados entre os dias 9 e 13 de maio de 2016, presencialmente, pelos alunos integrantes do grupo de pesquisa. Após a coleta dos dados foram realizadas análises correlacionais entre as variáveis a fim de predizer se há correlação entre o uso dos seminários, ferramenta didática utilizada pelos professores, e o desenvolvimento da habilidade do aluno de ensino superior falar em público.

3. Resultados e Discussão

O estudo foi realizado com 173 estudantes do 1º ao 9º semestre do curso de Psicologia do Centro Universitário do Distrito Federal - UDF, dos turnos matutino e noturno. Não houve respondentes do 10º semestre, pois ainda não há turmas cursando este semestre, devido ao curso ser novo na Instituição de Ensino. Os participantes foram de ambos os gêneros, sendo 27 homens (15,61%) e 146 mulheres (84,39%), com idade acima dos 16 anos.

Conforme a tabela abaixo, responderam ao questionário alunos de todos os semestres, com maior representatividade dos alunos do 1º (35 participantes), 3º (29 participantes), 5º (38 participantes) e 9º (26 participantes) semestres, representando, respectivamente, 20,23%, 16,76%, 21,97% e 15,03%, da amostra total.

A análise dos dados foi realizada com base no percentual de respostas obtidas em cada item, considerando as opções de resposta “Discordo Totalmente”; “Discordo Parcialmente”; “Não Concordo e Nem Discordo”; “Concordo Parcialmente” e “Concordo Totalmente”. Para o estabelecimento dos percentuais que possibilitaram a análise, ficaram agrupadas as respostas “Discordo Totalmente” e “Discordo Parcialmente”, por característica semântica semelhante, como Discordância quanto ao item apresentado. As respostas “Concordo Parcialmente” e “Concordo Totalmente”, também agrupadas por semelhança semântica, como Concordância quanto ao teor do item apresentado. As respostas “Não Concordo e Nem Discordo” não foram utilizadas como parâmetro para nenhum dos dois pólos de análise.

Dos participantes desta pesquisa, é importante ressaltar que, de maneira significativa, 165 participantes, o que representa 94,83% da amostra, acreditam que desenvolver a habilidade de falar em público é importante para a sua formação e, consequentemente, para a sua atuação profissional. Ao responderem o item no qual são perguntados se “acredito que solicitar que o aluno faça apresentações orais na frente da turma, no contexto universitário, é a melhor maneira de treinar a habilidade social de falar em público”, 57,47% dos participantes concordaram que a utilização de seminários pode ser uma boa ferramenta, dentre as utilizadas pelos professores, para o desenvolvimento da habilidade social de falar em público.

Conforme consta na literatura, Del Prette e Del Prette (1999), as habilidades sociais podem ser aprendidas e moldadas de acordo com o ambiente e as interações sociais aos quais são submetidos. E os resultados da pesquisa corroboram com este entendimento, pois ao serem questionados se “considero que o meu desempenho melhora a cada vez que eu apresento mais um seminário” e “me senti mais ansioso no primeiro trabalho que apresentei do que me sinto hoje”, respectivamente com 64,74% e 63,01%, os participantes demonstraram, por meio de suas respostas, que há uma relação eficaz entre repetir de maneira orientada um determinado comportamento (falar em público) com a melhora no desempenho e a redução da ansiedade.

Ao considerar esses aspectos de melhora do desempenho e redução da ansiedade, 78,03% dos participantes, um percentual bastante expressivo, afirmaram que a utilização de seminários é uma boa ferramenta utilizada pelos professores para aprimorar a habilidade de falar em público.

Considerando que falar em público é o medo mais recorrente na população mundial (GEER et al., 2008) e que falar em público é uma habilidade que pode ser aprimorada em decorrência da apresentação de seminários no decorrer do curso, questionou-se aos participantes se “apresentar seminários me faz perder o medo de falar em público”. Dentre os respondentes, apenas 46,82% dos participantes concordaram com essa afirmativa, demonstrando que embora haja redução da ansiedade e melhora no desempenho, o medo de falar em público ainda é presente, e não deixa de existir mesmo com o treino por meio da apresentação de seminários  em mais da metade dos participantes.

A habilidade social de falar em público, principalmente no contexto universitário, não se restringe apenas à apresentação de seminário, mas também, e na maioria das vezes, em expor seus pensamentos e opiniões no decorrer das aulas, tendo em vista que o processo ensino-aprendizagem abandonou há muito tempo o modo bancário e atualmente é tido como um processo de construção ativa e coletiva, o que exige dos alunos uma interação frequente com seus professores a fim de que o conhecimento seja formado por todos.

Diante disso, os participantes foram submetidos ao questionamento de que “a utilização de seminários me faz participar mais ativamente das aulas, expressando minhas opiniões, em outros momentos”, e 38,73% dos participantes responderam em concordância com a afirmação. Este resultado permite inferir que o treino da habilidade social de falar em público ainda não contribui de maneira significativa com o desenvolvimento da habilidade de expor seus pensamentos e opiniões em outros momentos no decorrer das aulas.

Para este estudo foi importante realizar o comparativo da autopercepção que os alunos ingressantes, do 1º semestre, e os alunos formandos, no caso deste estudo, os alunos do 9º semestre, tendo em vista que ainda não há alunos cursando o 10º semestre, e fazer um comparativo entre suas respostas e verificar se há diferenças. Dentre os alunos do 1º semestre, pode-se observar que as maiores médias são referentes à credibilidade que eles têm nos professores e em suas ferramentas para o desenvolvimento de suas habilidades sociais, principalmente a de falar em público. Nos itens nos quais são questionados sobre “acredito que solicitar que o aluno faça apresentações orais na frente da turma, no contexto universitário, é a melhor maneira de treinar a habilidade social de falar em público” e “acredito que a utilização didática de seminários é uma boa ferramenta utilizada pelos professores para aprimorar minha habilidade de falar em público”, as médias apresentarem resultados significativos de 62,86% e 77,14%, respectivamente.

Para os alunos que estão ingressando no curso, a utilização de seminários como ferramenta didática ainda não apresenta resultados significativos em tão pouco tempo, pois grande parte deles acredita ter o mesmo, ou muito próximo, nível de ansiedade e medo ao apresentar os trabalhos por meio de exposição oral. Essas informações podem ser inferidas, ao se analisar as respostas aos itens “apresentar seminários me fez perder o medo de falar em público” e “me senti mais ansioso no primeiro trabalho que apresentei do que me sinto hoje”, no qual apresentaram os percentuais de concordância com o item em 40% e 31,43%, respectivamente.

Contudo, a autopercepção que eles têm sobre a melhora no desempenho a cada seminário que apresentam encontra-se bem dividida entre os participantes, uma vez que 51,43% deles conseguem perceber esta melhora no desempenho a cada seminário apresentado. Não diferente do resultado apresentado pela amostra geral, os alunos do 1º semestre também não conseguem perceber a evolução na capacidade de expressar suas opiniões e participar mais ativamente das aulas, o que foi demonstrado pela baixa quantidade de respostas em concordância com o item, 13 dos 35 (37,14%) respondentes deste semestre.

Quanto aos alunos do 9º semestre, considerados formandos para este estudo, é considerável a autopercepção na redução da ansiedade ao ser exposto em situações de ter que falar em público. Ao responderem o item “me senti mais ansioso no primeiro trabalho que apresentei do que me sinto hoje”, 84,62% dos participantes responderam que se sentem menos ansiosos hoje do que se sentiram nas primeiras apresentações, índice que pode ser considerado bastante significativo, principalmente se considerado com os alunos ingressantes, que foi de 31,43%.

Embora 19 dos 26 participantes de 9º semestre (73,08%) acreditem que a utilização de seminários é uma boa ferramenta para desenvolver a habilidade de falar em público, observa-se que apenas 42,31% destes mesmos participantes acreditam que a utilização dessa ferramenta seja a melhor opção para treinar esta habilidade social. O que pode servir como indicativo para a existência de outras ferramentas que, também, podem influenciar no desenvolvimento desta habilidade.

Do mesmo modo que os alunos do 1º semestre, os formandos, ao serem questionados sobre “apresentar seminários me fez perder o medo de falar em público”, apresentaram baixos índices (38,46%) de concordância com o item. O que permite inferir que, mesmo que haja melhora no desempenho, não há, mesmo com o decorrer dos semestres, a perda do medo de falar em público em decorrência da repetição do comportamento de apresentar seminários. Ao analisar os resultados sobre a autopercepção dos alunos do 9º semestre sobre a evolução no desempenho após sucessivas apresentações de seminários, e, também, sobre a melhora em expor suas opiniões e participar mais ativamente das aulas em outros momentos, observa-se que os percentuais dos alunos, 53,85%, que acreditam ver melhora nesses dois itens é positivo, porém dentro da média.

Realizando um comparativo entre os alunos ingressantes e os alunos formandos, pode-se verificar, conforme apresentado abaixo (Figura 1), que há diferenças entre os alunos que estão no 1º e no 9º semestres. A diferença mais significativa está quanto ao controle da ansiedade na apresentação dos seminários. Para os alunos do 9º semestre, apresentar seminários e, por consequência falar em público, é hoje um processo menos ansiogênico. Outra diferença significativa foi quanto a participação mais ativa em outros momento nos quais é solicitado que o aluno expresse sua opinião em público, com percentual maior para os alunos formandos.

Quanto à confiabilidade e acreditação dos alunos na utilização de seminários como ferramenta didática para o desenvolvimento da habilidade de falar em público, com destaque para a avaliação dos alunos quanto ao seminário ser considerado a melhor escolha do professor, os alunos do 1º semestre demonstraram resultados mais positivos nestes aspectos, o que pode ser entendido por ainda não terem entrado em contato com outras ferramentas didáticas utilizadas pelos professores. Os alunos de ambos os semestres apresentaram resultado satisfatórios, não havendo diferença nos resultados, quanto à autopercepção de melhora no seu desempenho após cada apresentação, de maneira gradativa, gerando uma média maior para os alunos ingressantes. Não houve, também, diferença na avaliação de perder o medo de falar em público.

Assim como relatado por Moreira e Medeiros (2009), um comportamento será afetado pelas consequências que ele mesmo produziu, determinando, em algum grau, se ele irá ou não se repetir, ou se ocorrerá com maior ou menor frequência. Diante deste fato, analisa-se que após a emissão do comportamento (apresentar o seminário), o professor está agindo de maneira adequada, dando reforço3 para que esse comportamento aconteça novamente e com mais frequência.

Com base nisso, os participantes foram questionados se “recebo retorno (feedback) dos meus professores após as minhas apresentações” e apresentaram como resposta um dos percentuais mais baixos de concordância, 32,95%, o que permite inferir que os resultados apresentados pelos participantes podem ser mais satisfatórios caso haja, por parte do professor, o retorno da maneira correta. Ainda nesse pensamento, os alunos foram questionados sobre a importância de receber o retorno adequado, e com um resultado bastante expressivo, 83,24% dos participantes concordam que é fundamental o professor emitir o feedback para o desenvolvimento da habilidade de falar em público.

4. Considerações Finais

O resultado do presente trabalho indica que o uso de seminários como ferramenta didática contribui para o desenvolvimento da habilidade social de falar em público, porém não há evidências que esta variável exerce influência direta sobre essa habilidade. As evidências apontam para a redução dos níveis de ansiedade com o decorrer dos semestres e a apresentação sucessiva de seminários. A escolha é realizada pelos professores a fim de promover nos alunos a capacidade de organizar suas ideias e expressá-las diante da turma de maneira coerente e clara.

Diante disso, a utilização de seminários se trata de um bom meio para auxiliar no desenvolvimento da habilidade social de falar em público. De acordo com os resultados apresentados nesta pesquisa, observa-se que os alunos de ensino superior acreditam que a utilização de seminários é uma boa escolha do professor e, também, que ela contribui para o desenvolvimento da habilidade social de falar em público. Mesmo com os resultados positivos apresentados quanto ao desenvolvimento da habilidade de falar em público, o estudo mostrou que os participantes, independente do semestre no qual se encontrem, não perdem o medo de falar em público em decorrência da apresentação de seminários.

Em aspectos gerais, os resultados corroboraram com o que a literatura apresenta. Uma habilidade social pode ser aprendida quando não existente no repertório do indivíduo, ou aprimorada quando já presente no repertório do indivíduo. Ao realizar uma análise comparativa entre alunos ingressantes e formandos, foi possível observar algumas diferenças, em grande maioria, não significativas. Cabendo destacar maior diferença na diminuição da ansiedade nos alunos do 9º semestre em relação aos alunos do 1º semestre. Com os resultados, pode-se inferir que apesar de ser uma boa escolha do professor o uso de seminários, é necessário que este atue de maneira mais ativa junto aos alunos, fornecendo o feedback, considerado fundamental por parte dos participantes, de maneira adequada.

Este foi um estudo que trabalhou com a avaliação da autopercepção do aluno de ensino superior sobre a sua habilidade de falar em público, o que pode não representar que estes mesmos alunos estejam desenvolvendo esta habilidade de maneira efetiva, mas já apresenta resultado positivo ao permitir que, por meio das projeções demonstradas nos resultados, os quais levam a predizer que a utilização de seminários é uma boa escolha do professor e que colaboram no desenvolvimento desta habilidade social. Para a ratificação desses resultados, os quais já estão em conformidade com o que diz a literatura, seria ideal  que houvesse o acompanhamento de um aluno ou um grupo deles desde o primeiro semestre até a conclusão do seu curso, medindo, por meio de teste próprio para avaliar habilidades sociais, a evolução dessa habilidade com o decorrer das atividades trabalhadas.

Sobre os Autores:

Gleison Gomes da Costa - Estudante de Graduação em Psicologia no UDF - (Lattes - http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K8645837Z1

Adriana de Oliveira - Doutora em Ciências do Comportamento e Professora no UDF - (Lattes - http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4757055D8

Jéssica Gaspar Matos Cruz - Estudante de Graduação em Psicologia no UDF - (Lattes - http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K8670352J5

Marcelo Sena Leandro - Estudante de Graduação em Psicologia no UDF - (Lattes - http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K8642598P0). 

Referências:

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