Análise Funcional Diagramática: Mentir Como Esquiva de Aversivo

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Resumo: Falar a verdade e mentir são comportamentos passíveis de serem reforçados, punidos, extintos e de passar por processos de discriminação, assim como muitos outros comportamentos. O presente artigo relatará o caso clínico de um menino de 13 anos, atendido ao longo do curso de Especialização em Psicologia Clínica Comportamental e Cognitiva da Faculdade Evangélica do Paraná, que frequentemente emitia relatos incompatíveis com a realidade como forma de esquiva de punição e recompensa como atenção dos pais e colegas em sala de aula. Nas sessões de terapia, as intervenções tiveram como objetivos trabalhar a demanda inicial trazida: dificuldade de aprendizagem, dificuldades na interação, social, mentira e indisciplina. Observou-se que na sequência dos atendimentos a frequência de relatos aumentou, cliente passou a descrever verbalmente o que acontecia e que suas respostas ao ambiente eram controladas por reconhecimento social. Acredita-se também que as intervenções realizadas possam facilitar a expressão de sentimentos e preocupações (considerando que a emissão de mentiras funcione como esquiva) e que possam favorecer a ocorrência de relações sociais mais adequadas.

Palavras-chave: Análise do Comportamento, Comportamento verbal, Mentir, Esquiva

1. Introdução

No livro Comportamento verbal, Skinner (1957) fala de tato distorcido, descrevendo-o que quando uma resposta que tenha recebido uma medida especial de reforço é emitida na ausência de circunstâncias sob as quais ela é caracteristicamente reforçada. Vemos isso no comportamento das crianças: uma resposta que tenha sido entusiasticamente recebida numa ocasião é repetida em ocasião diferente e inapropriada. Numa distorção ainda maior, uma resposta é emitida em circunstâncias que normalmente controlam uma resposta incompatível. Chamamos essa resposta de mentira. Ao longo das sessões foi observado que o comportamento de mentir acompanhava a espera de reforço imediato e a esquiva do aversivo. Segundo Miguel (2000), em termos gerais, operações estabelecedoras podem ser definidas como eventos ambientais que alteram a efetividade reforçadora de um estímulo, assim como evocam todo comportamento que, no passado, foi seguido por tal estímulo. Para facilitar a compreensão e visualização da aquisição e manutenção do mentir foi utilizada a análise funcional diagramática.

2. Caracterização do Cliente

M., treze anos, sexo masculino, estudante da sexta série fundamental de uma escola estadual, está em trâmite de adoção depois que a mãe abriu guarda do mesmo quando esse tinha seis anos de idade. O paciente relata lembrar ficou abrigado cerca de seis meses e isso ser melhor que estar com a avó materna onde sofria maus tratos de forma similar aos vivenciados quando residia com a mãe biológica. O Conselho Tutelar determinou que ficasse em abrigo mais ou menos trinta dias quando a irmã paterna, nesta época já estava casada, estabilizada e tinha um filho de 18 anos, pediu e conseguiu a guarda do irmão. M. chegou na casa da irmã com laudo psicopedagógico relatando atraso cognitivo devido à falta de estimulação. Hoje, aos 13 anos, a queixa trazida pela irmã ao buscar acompanhamento psicológico para M. é de dificuldade escolar e mentira em casa e na escola, além de sono bastante agitado. Em casa, a mentira aparecia quando a mãe (tutora) questionava quanto a ter tarefas e ele negava, na escola professores relataram dificuldade de relacionamento com outras crianças, apanhava e não relatava aos pais. Outra queixa era a falta de atenção e concentração nas atividades escolares e durante a realização das tarefas escolares. A expectativa da mãe (tutora) era de que os atendimentos melhorassem o desempenho escolar e a socialização de seu filho.

3. Histórico da aquisição dos comportamentos problemas

Desde o início da vida escolar apresentou dificuldade de aprendizagem, confirmada com o WISC aos 6 anos e repetido o teste durante o atendimento. Bem como as dificuldades de interação social e comportamento de mentir. Relata que a mãe biológica o deixava em casa sozinho, prometendo voltar e não cumpria e quando tinha sua companhia, apanhava sem explicação ou era deixado na casa da avó materna, a qual também o agredia. Houve reclamações escolares anteriores ao atendimento, a respeito de pegar material alheio, o qual relatava não ter sido ele quem pegou. Comportamentos compatíveis com histórico de negligência, decorrente quando os pais não estão atentos às necessidades de seus filhos, ausentam-se das responsabilidades, omitem-se de auxiliar seus filhos, ou simplesmente quando interagem sem afeto, sem amor, o que pode desencadear sentimentos de insegurança, vulnerabilidade e eventual hostilidade e agressão em relacionamentos sociais; e de abuso onde considera-se abuso físico quando os pais machucam ou causam dor a seus filhos com a justificativa de que os estão educando.

Para Gomide (2003), a prática do abuso físico pode gerar crianças apáticas, medrosas, desinteressadas. Segundo Padilha (2001) que descreve a respeito das consequências de abuso na infância: destruição do senso de self e segurança pessoal; baixa autoestima, sintomas de ansiedade, instabilidade emocional, falta de responsividade emocional, problemas de controle de impulso, auto-mutilação, transtornos alimentares, abuso de substância; habilidades sociais pobres, problemas de apego, baixa competência social, falta de empatia, auto isolamento, insubmissão, dificuldades de aprendizagem, baixo rendimento escolar, dificuldades no julgamento moral, falhas em prosperar, queixas somáticas, saúde prejudicada. Tendo em vista que hoje não está mais sendo submetido a essas contingências aversivas.

4. Histórico manutenção dos comportamentos problemas

A família atual é composta por genitores de comportamentos diferentes onde a mãe promove o desenvolvimento intelectual, auxiliando nos estudos e incentivando-o a fazer seus trabalhos enquanto o pai é presente nas práticas esportivas. Apresenta-se punição inconsistente se dá quando os pais punem ou reforçam os comportamentos de seus filhos de acordo com o seu (dos pais) bom ou mau humor, de forma não contingente ao comportamento da criança. Assim, é o estado emocional dos pais que determina as ações educativas, e não as ações da criança. Como consequência, a criança aprende

discriminar o humor de seus pais e não aprende se seu ato foi adequado ou inadequado (Gomide, 2006). A monitoria negativa (ou supervisão estressante) caracteriza-se pelo excesso de fiscalização dos pais sobre a vida dos filhos e pela grande quantidade de instruções repetitivas, as quais não são seguidas pelos últimos. Essa prática educativa produz um clima familiar hostil, estressado e sem diálogo, já que os filhos tentam proteger sua privacidade evitando falar com os pais sobre suas particularidades. E por último a disciplina relaxada verifica-se o não cumprimento de regras estabelecidas pelos pais. Eles ameaçam os filhos e, quando se confrontam com comportamentos opositores e agressivos, omitem-se, não fazendo valer as regras que eles próprios determinaram (GOMIDE, 2006).

Podemos analisar funcionalmente o que ocorre a partir do diagrama abaixo:

exemplo de análise funcional diagramática do comportamento de mentir

Figura 1: exemplo de análise funcional diagramática do comportamento de mentir.

Dificuldade de aprendizagem: Como é reforçado em sala de aula, recebendo atenção dos colegas, esse é o ambiente o qual mais apresenta verbalização, porém lhe causando transtornos, pois é chamada atenção pelos professores. Presta atenção e demonstra interesse durante as sessões o que pode ser ampliado para ir bem na escola

e aprender mais conteúdos. É grande a dificuldade do paciente em acompanhar a matéria e verificar que seus colegas mais novos conseguem o deixa em ansiedade, mas durante as aulas fica sob controle de copiar a matéria e não presta atenção na explicação e orientação inicial, se perdendo nas próximas instruções, pois ainda nem fez a primeira.

Dificuldades na interação social: Provém da escassez de modelo e da falta de repertório de habilidades sociais em iniciar, manter e encerrar diálogo por exemplo. Além do comportamento de mentir que o afasta e proporciona a ansiedade.

Indisciplina: A recorrência do comportamento na escola ocorre por falta de consequências negativas imediatas, como a reprovação ocorre a longo prazo, faz com que ele mantenha comportamento de levantar-se, conversar durante a aula e brincar, pois o reforço é imediato(atenção dos colegas), quando percebe que não será punido pelo professor, aumenta a verbalização. Outro fato importante é a monitoria relaxada e punição inconsistente dos pais.

Mudanças no comportamento alvo Mentir, podem resultar de mudanças em outras partes do sistema de respostas, assim como de intervenção direta nas contingências aversivas. O cliente adquiriu diante seu histórico, que o mentir lhe proporciona ganho a curto prazo, assim o alvo da terapia tem sido mostrar consequências a médio e longo prazo.

5. Intervenções e resultados

Foram realizados 30 atendimentos semanais com duração de 50 minutos cada, com duas ausências justificadas. Nas sessões iniciais foi aplicado instrumento WISC III

- A Escala de Inteligência Wechsler para Crianças (WISC-III) representa a terceira edição e tem por finalidade avaliar a capacidade intelectual de crianças. O WISC-III é composto por 13 subtestes, sendo 12 deles mantidos do WISC-R e um novo subteste, Procurador de Símbolos, organizados em dois grupos: Verbais e Perceptivos-motores ou de Execução, que são aplicados nas crianças em ordem alternadas, ou seja, um subteste de Execução e depois um subteste verbal e vice-versa. Os Subtestes Verbais são compostos pelos itens: Informação, Semelhanças, Aritmética, Vocabulário, Compreensão e Dígitos, enquanto que os subtestes de Execução são formados pelos itens: Completar Figuras, Código, Arranjo de Figuras, Cubos, Armar Objetos, Procurar Símbolos e Labirintos. A aplicação do teste foi dividida em quatro etapas pois o paciente demonstrava-se frustrado por não conseguir completar as atividades, sendo que em todos os quesitos apresentou média

inferior à população brasileira. Foram realizadas posteriormente leitura de livros intercalados com outras atividades lúdicas, como pintar, jogar dominó e UNO; para auxiliar na melhora de sua verbalização e melhorar capacidade de interpretação, uma vez que essa restringia-se a “aham e huhum” e ao mesmo tempo eu descobrisse um pouco do que era reforçador para o cliente. Em todas as sessões houve participação, apresentou relatos verbais adequados e quando se sentia-se à vontade, num ambiente seguro aumentava suas respostas verbais diferentemente de quando ficava atento apenas à fala da terapeuta e respondendo apenas o que lhe era solicitado. Foi aplicado jogo dos sentimentos, atividade lúdica que visa sensibilizar para modelos de comportamentos assertivos em relação à expressão dos sentimentos.

Na 13ª sessão o paciente apresentou auto-relato, muito importante iniciando sua expressão de sentimentos; Relatou sentir-se desamparado, quando na ocasião machucou o dedo e disse que os pais não ligaram para o seu machucado.

Notou-se que ao longo das sessões houve um aumento significativo dos relatos verbais de acontecimentos externos positivos como: a professora não me chamou atenção essa semana, minha mãe disse que estou melhor, e foram de extrema importância na vinculação clínica do paciente.

Ao notar a operação estabelecedora, foi favorecido nas sessões a discriminação da consequência a longo prazo, assim foram apresentadas sugestões de como agir em determinada situação:” Você falou que ia fazer uma coisa e fez outra (sabia que não podia levar o controle do vídeo game no primo e levou). Quando a gente mente as pessoas vão perdendo a confiança na gente.”

É importante salientar, também, que um repertório interpessoal, por si só, não garante que o indivíduo apresente sucesso nos relacionamentos. É preciso que ele apresente um repertório discriminativo refinado, ou seja, que saiba discriminar as contingências que permeiam contextos distintos de interação para que os comportamentos possam ser emitidos e mantidos. Catania (1999). Para isso, em todas as sessões foi realizado treino discriminativo através de solicitação de relatos e solicitação de reflexão: “O que será que acontece antes? Por exemplo, antes você mentia pro pai e pra mãe, antes acontecia alguma coisa... mentia falando que não tinha lição e por que disso? Medo? O quê?” ; “Ir bem na escola! Então, pra você ir bem na escola, tem que prestar atenção na aula? Que mais tem que fazer para ir bem na escola?”

6. Conclusão

Pode-se concluir que o atendimento psicoterápico proposto foi eficaz e atingiu os objetivos deste trabalho. Matos (1999) diz que uma ‘causa’ torna-se uma mudança em uma variável independente e um ‘efeito’ uma mudança na variável dependente. A velha conexão causa-e-efeito torna-se uma ‘relação funcional’. Os novos termos não sugerem como uma causa seu efeito; eles meramente afirmam que diferentes eventos tendem a ocorrer juntos em certa ordem. Desse modo, salienta-se que a análise funcional possibilitou uma análise pormenorizada das relações funcionais, ou seja, das contingências responsáveis pelo comportamento ao qual demandou o paciente. Alguns progressos foram relatados pelos pais e pelo próprio paciente, dentre eles a diminuição do comportamento de mentir. Iniciar conversas, fazer relatos sobre o que acontece na ausência dos pais.

7. Encaminhamentos

Fonoaudiológico devido as constantes trocas de e diminuída consciência fonológica percebida nas sessões que houveram leitura. Neurologista a pedido da família. Foi entrado em contato com a escola e explicado a dificuldade do aluno para a Psicopedagoga, que relatou que a partir do próximo ano o incluirá em sala de recursos, que este ano não há mais vagas por se tratar de escola estadual.

Sobre o Autor:

Franciele Brito Sallin - Psicóloga CRP 08/18555 Atende na clínica comportamental e cognitiva com adultos, casais e crianças. Trabalha com modificação de comportamento, orientação de pais, mediação de conflito e prevenção de abuso contra mulher e infantil. Formada pela Faculdade Evangélica de Curitiba.

Referências:

ALMEIDA, C.G.M., Battaglini, M.P., Verdu, A.C.M.A, Comportamento Verbalmente Controlado: Algumas questões de Investigação do Controle por estímulos textuais e pela palavra ditada. VALLE, TGM., org. Aprendizagem e desenvolvimento humano: avaliações e intervenções [online]. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. Available from SciELO .Books <http://books.scielo.org>.

CATANIA, A.C. (1999) Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição.

Porto Alegre: Artes Médicas Sul.

GOMIDE, P. I. C. (2006). Inventário de estilos parentais: Modelo teórico, manual de aplicação, apuração e interpretação. Petrópolis: Vozes.

MATOS, M.A. (1999) Análise funcional do comportamento. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 16, n. 3

MIGUEL, C.F., (2000) O Conceito de Operação Estabelecedora na Análise do Comportamento. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília.

STURMEY,P. (1996) Functional Analysis in Clinical Psychology. Chichester: John Wiley & Sons, (trad. Suzane S. Lohr) .

SKINNER, B.F. (2003) Ciência e comportamento humano. 11 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003

SKINNER, B. F. (1957) Verbal behavior. New York: Appleton. Century. Crofts.

PADILHA,  M.G.S.  (2001)  Adolescentes  Institucionalizadas  Vítimas  de  Abuso Sexual: Análise de um Processo Terapêutico em Grupo. Dissertação de mestrado. UFPR.

WECHSLER, D. (2002). WISC-III: Escala de Inteligência Wechsler para Crianças: Manual. 3ª ed.; São Paulo: Casa do Psicólogo.

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