Novas Configurações Familiares e Vínculo com os Animais de Estimação Numa Perspectiva de Família Multiespécie

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Resumo: O presente estudo tem como tema central as novas configurações familiares, o vínculo e a relação entre as famílias multiespécies e seus animais de estimação. Em particular, buscou-se compreender o papel que os animais de estimação vêm ocupando no contexto familiar e os motivos de tal relação ganhar cada vez mais espaço e importância na sociedade contemporânea. O estudo se caracteriza pelo delineamento de levantamento, de caráter exploratório, descritivo e análise quantitativa dos dados, utilizando os questionários bio-sócio- demográfico e Pet Attachment Survey. A amostra foi composta por 40 (quarenta) adultos, que possuíam animais de estimação e que fizeram uso, na condição de clientes, de três Pets Shops que comercializam produtos e serviços destinados a animais de pequeno porte. No que diz respeito à amostra, 62,5% dos participantes eram casados, com uma média de 2,1 (DP=1,2) pessoas residindo junto ao entrevistado. A média de animais de estimação por respondente foi de 1,65 (DP=1,1), em que 70% possuíam apenas um animal, em sua maioria (80%) cachorros. Trinta e dois (80%) respondentes indicaram considerar o pet um membro familiar e nenhum deles considera o animal de estimação um incômodo ou um aborrecimento. Ademais, metade dos participantes (50%) afirmou que, entre os membros da família, o animal de estimação é quem mais gosta do respondente. Tais resultados apontam para a vinculação da amostra com seu pet, porém, sem exclusividade de atenção, caracterizando essa relação como uma das dimensões da vida, mas não a única. Constata-se que os animais ganham cada vez mais importância na relação familiar multiespécie, reforçando a ideia de um novo arranjo de família na contemporaneidade.

Palavras-chave: Família multiespécie, Animais de estimação, Vínculo.

1. Introdução

A família é considerada um sistema em relação ou uma organização complexa, em que seu contexto de inserção e suas múltiplas interações influenciam tanto na constituição da personalidade, como sobre o comportamento do indivíduo (COSTA, 2010; PRATTA; SANTOS, 2007). Para Schmidt (2012) a família é conceituada como uma rede comunicacional de influência mútua ou um circuito de retroalimentação, em que o comportamento e o temperamento de cada indivíduo influenciam e são influenciados pelos demais, bem como a mudança em um dos membros influenciará todos os outros membros, nas demais relações estabelecidas entre eles e no sistema familiar como um todo.

Se no início do século passado o modelo mais prevalente era o de família extensa (ou seja, caracterizado pela coabitação de vários membros), Costa, Cia e Bahram (2007) sinalizam que esse modelo é cada vez menos visto na atualidade. Tal fato se deve, notadamente, ao controle de natalidade e ao processo de urbanização em todo o planeta. Na realidade contemporânea, separações e recasamentos foram configurando novas formas de famílias, assim como outros arranjos, a saber: famílias monoparentais femininas ou masculinas, binucleares, homoafetivas e múltiespécie.

Faraco (2008, p. 37) cita Maturana para falar de um contexto social entrelaçado. Segundo ele, o conceito de constituição de uma rede de interações entre animais e humanos se dá por um sistema social que distingui o grupo familiar composto por pessoas e seus animais de estimação denominada família multiespécie, onde os membros se reconhecem e legitimam.

Petrini, Moreira e Alcântara (2008) caracterizam os novos modelos familiares, em que se permite aos membros maior autonomia e possibilidade de manifestar afetos. No mesmo sentido, Macedo (2008) coloca a questão da consanguinidade em segundo plano, enfatizando que atualmente a família se destaca pela proximidade e pelo fato de as pessoas ou os animais coabitarem o mesmo espaço físico.

A presença do animal no seio familiar é confirmada tanto por Faraco e Seminotti (2004), quanto por Dotti (2005), os quais apontam para o fato de que na atualidade o animal cada vez mais vem sendo considerado como um amigo, um integrante da família e, até mesmo, sendo colocado como substituto de algum membro.

O relacionamento entre humanos e animais de estimação, segundo Santos (2008), tem sido alvo de estudiosos do comportamento animal. Para esta autora, o principal ponto se refere ao fato de nós, seres humanos, termos desenvolvido com um membro de outra espécie, uma forma de relação muito próxima a que temos com os membros da nossa própria espécie, sinalizando para o fato de que essa convivência tão aproximada se dá em virtude de que ambos acabam se beneficiando com a mesma.

O presente trabalho tem como tema central as novas configurações familiares, o vínculo e a relação entre as famílias multiespécies e seus animais de estimação. Em particular, buscar-se-á compreender o papel que os animais de estimação vêm ocupando no contexto familiar e os motivos de tal relação ganhar cada vez mais espaço e importância na sociedade contemporânea.

Há indicativos de que as novas configurações familiares e as famílias multiespécies vêm se fortalecendo contemporaneamente, caracterizando-se pelo ganho cada vez maior de espaço por parte dos animais de estimação na sociedade. Muitas vezes, tais animais acabam por assumir o papel de um membro familiar, tanto em relação a pessoas solteiras, quanto em famílias com ou sem filhos.

Em um processo de revisão não sistemática da literatura científica em bases de dados nacionais, identificou-se escassez de estudos relacionados ao vínculo entre os animais de estimação e os seres humanos. Além disso, a maioria das publicações se refere ao estudo biológico e antropológico, sendo que quando há o olhar da psicologia, este costuma se limitar à perspectiva das relações terapêuticas. Buscam-se, com base no desenvolvimento da pesquisa ora proposta, novas compreensões a respeito da relação humano-animal, bem como as características dessa nova configuração familiar, em que os animais podem ser inseridos, por exemplo, para lidar com a saída dos filhos de casa e o “ninho vazio” [01], bem como com a solidão das pessoas idosas ou solteiras. Pretende-se ainda entender de que forma se dá a relação de afeto e vínculo entre animais de estimação e humanos, assim como qual a importância dessa relação do ponto de vista dos humanos que a vivenciam, caracterizando também os participantes em termos de variáveis bio-sócio-demográficas.

2. Fundamentação Teórica

2.1 Importância do comportamento de vinculação

Zimermann (2010) menciona que todas as áreas do conhecimento e do comportamento humano estão em um processo veloz de transformação, por este motivo, a valorização da noção de vínculo se torna fundamental em todos os campos:

O termo vínculo tem sua origem no étimo latino “vinculum”, o qual significa uma união, com as características de uma ligadura, uma atadura de características duradouras (...) este termo alude alguma forma de ligação entre as partes que estão unidas e inseparáveis, embora elas permaneçam claramente delimitadas entre si (p. 21).

Freud, Klein e Baranger referiram em seus estudos psicanalíticos a importância que atribuíam aos vínculos afetivos, contudo, sem fazer uso da terminologia atual. Dentre tantas contribuições, destaca-se Bion, o qual sistematizou e aprofundou o conceito definindo vínculo como sendo “elos de ligação – emocional e relacional – que unem duas ou mais pessoas, ou duas ou mais partes dentro de uma mesma pessoa” (apud ZIMERMAN, 2010, p. 23).

A partir da classificação de vínculos e dos estudos realizados por Bion, Zimmermann (2010) destaca quatro tipos fundamentais que estarão presentes concomitantemente ou não em toda e qualquer relação: vínculo do amor (demanda por amor, diferentes formas de amar e de ser amado, diferenciação e individualização); vínculo do ódio (relacionado à agressividade, pulsão de vida); vínculo do conhecimento (diretamente ligado à descoberta, aceitação, ou não, das verdades sobre si ou sobre o outro) e o vínculo do reconhecimento – a partir da premissa que “o ser humano constitui-se sempre a partir de um outro” (p. 31).

Os animais de companhia estabelecem fortes vínculos emocionais recíprocos com os seres humanos. Podemos pensar que nessa relação se constitui uma ligação de segurança de ambos  os  envolvidos.  Pois  enquanto  o cachorro,  de  certa  maneira,  pode  suprir  alguma necessidade emocional de seus donos, esses realizam também a função de proteção ao animal. De acordo com Bowlby (2002), o sujeito que exerce a função de cuidador representa proteção, conforto e suporte, bases para uma relação saudável. Podemos pensar sobre isso também em termos da relação do ser humano com o animal, pois quanto maior o afeto pelo animal, maior tende a ser o vínculo entre ele e o dono.

2.2 Animais de estimação

O significado de estimação, segundo o Dicionário Aurélio (1997, p.722) consiste em: “diz-se de um bem (animal ou coisa) a que se vota especial predileção ou estima”. A palavra estima, por sua vez, refere-se a sentimentos de afeição, afeto, apreço, consideração, importância e respeito. Em nosso país os cachorros e os gatos são mais frequentemente tidos como animais de estimação, embora outros animais possam também ser assim considerados (ALMEIDA et. al., 2009).

A relação humano-animal pode ser vista desde os primórdios da vida primitiva do homem, com a domesticação dos animais. O registro histórico mais antigo até hoje encontrado sobre essa relação é a descoberta de um túmulo em Israel, datado de 12 mil anos atrás, onde se encontrou o corpo de uma mulher idosa com sua mão segurando um filhote de cachorro (DAVIS; VALLA apud LANTZMAN, 2004).

A convivência com os animais de estimação pode ser comprovada com dados de 2012, apurados pela Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (ABINPET), que em seu site traz:

O Brasil é o quarto país no quadro geral desde 2008, com 106,2 milhões de pets [02], atrás dos Estados Unidos (224,3 mi) e Reino Unido (148,3 mi). No entanto, está em segundo lugar quando se trata de cães e gatos (37,1 milhões e 21,3 milhões respectivamente), somente atrás dos Estados Unidos (ABINPET, 2013).

Esta convivência parece ir além do lazer e da companhia. Nesse sentido, destaca-se que, recentemente, diversos pesquisadores de todo o mundo relataram que a interação do homem com o animal de estimação promove mudanças positivas no comportamento das pessoas, estimula o desenvolvimento de habilidades e o exercício da responsabilidade em diferentes culturas e contextos. Consequentemente, tende a melhorar a saúde física, psicológica e emocional do homem. Alguns destes benefícios são a seguir descritos:

Diminuição das tensões entre os membros da família, aumentando a compaixão inclusive no convívio social; redução do tempo de recuperação das doenças e maior sobrevida às pessoas; estimulação à prática de atividades físicas; redução da ansiedade; diminuição significativa de distúrbios psicológicos; redução do sentimento de solidão; aumento no sentimento de intimidade; melhora da qualidade de vida (ALMEIDA et al., 2009);

 

  • Redução dos níveis de triglicerídeo, colesterol e pressão sanguínea; redução da frequência cardíaca; aumento do cuidado pessoal e da auto-estima (SANTOS, 2008);
  • Aumento na produção de endorfina; diminuição na percepção de dor; aumento no número de células de defesa do organismo (CAETANO, 2010);
  • Redução de sintomas de depressão; diminuição do estresse acarretado por determinados eventos; redução do isolamento social e maior sentimento de segurança (HEIDEN; SANTOS, 2009).

A relação humano-animal é definida pela Associação Americana de Medicina Veterinária (AVMA) como “uma relação dinâmica e mutuamente benéfica entre pessoas e outros animais, influenciada pelos comportamentos essenciais para a saúde e bem-estar de ambos. Isso inclui as interações emocionais, psicológicas e físicas entre pessoas, demais animais e ambiente” (FARACO, 2008, p. 32).

Sabe-se que há características, particularidades, semelhanças e diferenças dos animais em relação aos seres humanos. Estudos assinalam que, através da sensibilidade à nossa linguagem corporal, os animais podem captar nossos sentimentos, expectativas e intenções. Nesse sentido, Dukes (1996) salienta que por apresentarem um olfato bastante apurado e a capacidade de captar frequências inaudíveis para o ser humano, percebem também as alterações químicas do nosso organismo, possibilitando identificar nosso humor, saúde e estado geral.

A boa relação do animal com o homem deve trazer benefícios para ambos, o animal recebendo afeto, proteção e cuidados no que diz respeito à sua alimentação, moradia, lazer e condições sanitárias. Contudo, há casos em que o ser humano, por estar despreparado, ou por questões de personalidade, pode não conseguir cuidar adequadamente de um animal de estimação, situação esta que pode ocasionar no animal em questão agressividade, comportamentos inadequados, dentre os quais é possível citar estereotipias e desespero (DUKES, 1996).

Casos de maus tratos são frequentemente contemplados pela mídia [03]. Nesse sentido, Almeida et al. (2009) cita Franco (2001), ao relatar que o ser humano exacerbou sua relação de poder e autoritarismo sobre os animais, vez que os vê como um objeto desprovido de vida.

[...] o animal doméstico, especialmente o de estimação, [...] é muitas vezes tomado como um acessório de moda, signo de distinção e esnobismo. Inserido no núcleo das famílias, substituindo os filhos ou se tornando um de seus brinquedos, eles sofrem pelo excesso de carinho, ao passo que revelados como simples objetos, são cada vez mais facilmente abandonados e mal tratados (DESNOYERS apud SEGATA, 2012, p. 74).

Os animais de estimação cada vez mais são considerados também como sujeitos na relação que estabelecem com os seres humanos. Tal processo tem sido denominado por Pastori (2012) como “humanização” dos animais de estimação. Isso em virtude de os mesmos acabarem representando diversos papéis na vida dos seus donos, inclusive o de membro da família.

2.3 Novas configurações familiares: famílias multiespécies

A família é a unidade básica do relacionamento humano, influenciada pela cultura na qual está inserida, constituindo-se em um sistema interativo, sendo mais do que a soma de uma série de comportamentos individuais. Cada família apresentará características próprias, peculiares, ao mesmo tempo em que precisará se adaptar a mudanças e a novas configurações ao longo de seu desenvolvimento (MACEDO, 2008).

Segundo Ceccarelli (2007), as relações de parentalidade nas novas configurações familiares ou novas formas de procriação, caracterizadas abaixo, sempre existiram, porém, eram ignoradas aos olhos da sociedade:

[...] formas de ligação afetiva entre sujeitos onde existe, ou não, uma forma de exercício da parentalidade  que foge aos padrões tradicionais: famílias monoparentais, homoparentais, adotivas, recompostas, concubinárias, temporárias, de produções independentes, e tantas outras. Temos, ainda, as mudanças que afetam diretamente as condições de procriação tais como: barriga de aluguel, embriões congelados, procriação artificial com doador de esperma anônimo e, muito mais brevemente do que se pensa, a clonagem (p. 91-92).

Rios e Gomes (2009) contemplam os resultados que obtiveram por meio de sua pesquisa com quatro casais heterossexuais, os quais optaram pela não filiação, com o objetivo de refletir sobre questões como estigma, conjugalidade e motivações conscientes e inconscientes que os levaram a essa escolha. Segundo as autoras, a mesma questão também é apontada em estudos realizados por Park, que concluiu que pessoas que optam pela não filiação alegam deficiência biológica ou opção de uma vida na qual os filhos não teriam espaço.

Ainda levando em conta os resultados obtidos por Rios e Gomes (2009), os participantes relataram sofrer alguma forma de pressão social ou se sentirem estigmatizados.

Os casais e os indivíduos são afetados e reagem de maneiras diversas a esse fenômeno, a depender do tipo de vínculo conjugal estabelecido.

A conjugalidade, na totalidade dos casais entrevistados por Rios e Gomes (2009), possui características contemporâneas, ou seja, homens e mulheres estão envolvidos com o desenvolvimento profissional, dividem algumas tarefas domésticas, ligam-se a um estilo de vida essencialmente adulto, buscam a satisfação afetiva na relação com o outro e, no geral, o projeto compartilhado associa-se ao cuidado pelo outro (o próprio parceiro, um familiar próximo ou amigos) ou ao aprimoramento profissional e intelectual. O espaço compartilhado é avaliado como propiciador de crescimento para todos os envolvidos (RIOS; GOMES, 2009).

De acordo com Maldonado (apud CANANI; FARACO, 2009, p. 6) “o que antes era visto socialmente como destino, o casamento e a maternidade, viraram uma escolha do casal”, possibilitando também a escolha em ter ou não filhos. Essa afirmação é corroborada pelos dados do site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010), no Censo Demográfico do ano de 2010, quando da apresentação de um comparativo na taxa de fecundidade de 1940 a 2010: nesse último período censitário houve a menor taxa de fecundidade total da história, chegando-se à média de 1,86 filho por mulher brasileira.

Calmon de Oliveira (apud SEGATA, 2012), sugere uma transferência do papel do filho para o animal de estimação:

[...] devido à instabilidade dos casamentos, o número de nascimentos de crianças nas classes médias diminuiu, aparecendo o cão como mediador entre o casal, muitas vezes no lugar da criança. A dificuldade de relacionamento entre as pessoas faz com que o animal seja um elemento com grande potencial de proporcionar afetividade sem produzir prejuízos ou riscos (p.171-172).

Os novos arranjos sociais e familiares proporcionam um ambiente mais propício ao surgimento desse vínculo. Para Santos (2008, p. 25), “a demografia está caindo, as famílias são menores e estão sendo modificadas, com mais pessoas morando sozinhas”, essas, por sua vez, demonstram maior apego aos seus animais de estimação.

Cohen (2002) acredita que, para residentes em centros urbanos, os animais de estimação são membros do núcleo familiar e cumprem a função de conforto e companhia para os demais familiares. Ressalva que esses ocupam um espaço diferente dos humanos e destaca o seu funcionamento congruente ao sistema familiar (FARACO, 2008).

O animal como membro familiar sugere a existência de uma relação interespécies e de uma família multiespécie composta por humanos e seus animais de estimação. Os mesmos acabam tendo diferentes funções, que vão desde serem vistos como objetos para o dono mostrar para outras pessoas, dando certo status social, cuidadores para algumas pessoas e até integrantes da família, tendo a mesma importância dos demais membros. Nesse sentido, destaca-se que “em estudo conduzido por Berryman e outros pesquisadores se concluiu que os animais de estimação são vistos como tão próximos quanto „o próprio filho‟ pelos humanos” (SANTOS, 2008, p. 23).

Archer (apud CANANI; FARACO, 2010), aplicou um questionário para verificar a possível ocorrência de relações de apego com um cachorro de estimação, constatando “um elevado nível de apego entre os donos e seus e animais de companhia, ressaltando que a maioria das pessoas entrevistadas considera seu animal como uma parte importante de sua vida, responsável por promover uma sensação de conforto na convivência”.

Esse mesmo autor constatou que a perda do animal de estimação por pessoas que já haviam perdido familiares próximos se caracterizou pela dor do luto e por níveis de sofrimento semelhantes. Outros estudos demonstram como é forte o vínculo criado nessa interação. Santos (2008, p. 24) acrescenta que “o processo de luto envolve angústia e pensamentos e sentimentos que acompanham o lento processo de se despedir de uma relação estabelecida”.

Ariès (1981) menciona processo semelhante, porém fazendo referência ao papel da criança frente à família na sociedade medieval, em que o sentimento de infância não tinha significado expressivo. O luto pela perda de um filho pequeno, por exemplo, era sentido tão somente como algo a lamentar, ou seja, as crianças em idades iniciais “não contavam”. Assim que a criança adquirisse autonomia da mãe ou de sua ama ela seria vista socialmente como adulta e tratada dessa forma. Apenas em meados do século XVI é expresso algum tipo de afeição pela criança, que assume seu papel como tal e ganha espaço em novos contextos e na família.

Da maneira relativamente semelhante, a evolução do animal para o papel de estimação parece também alterar a sua relação com o ser humano e com a família a que passa a pertencer. Desse modo, ao longo do tempo, essa também vem se constituindo como uma relação que ganha novas formas e valores, gerando ainda novos sentimentos e vínculos, o que sugere a necessidade de estudos que favoreçam a sua compreensão.

3. Metodologia

3.1 Método(s) de pesquisa

O presente estudo, o qual se caracteriza pelo delineamento de levantamento, contemplou a abordagem quantitativa dos dados. Ademais, é possível defini-lo ainda como de caráter exploratório e descritivo. A pesquisa teve corte transversal, uma vez que os dados foram coletados em um momento específico da trajetória de vida dos participantes (RICHARDSON, 2009).

Gil (2007) refere que as principais vantagens da pesquisa de levantamento são o conhecimento direto da realidade, a economia e a rapidez na obtenção dos dados, bem como a quantificação pela análise estatística. No que diz respeito a esse estudo exploratório e descritivo, teve como objetivo especificar e caracterizar variáveis ainda pouco abordadas na literatura científica psicológica, conforme indicado anteriormente, atinentes à relação de afeto e vínculo entre animais de estimação e humanos, assim como qual a importância dessa relação do ponto de vista dos humanos que a vivenciam, caracterizando também os participantes em termos de variáveis bio-sócio-demográficas. Para tanto, valeu-se da estatística descritiva, considerando a exposição, por exemplo, da distribuição de frequências e de porcentagens para as variáveis categóricas, bem como média e desvio-padrão para as variáveis contínuas (SAMPIERI; COLLADO; LUCIO, 2006).

3.2 Considerações Éticas

O projeto foi submetido à aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade da Serra Gaúcha (FSG). A coleta de dados obedeceu a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), a qual regulamenta a pesquisa com seres humanos. As informações coletadas foram analisadas e utilizadas na construção do estudo ora apresentado, sem causar nenhum prejuízo, sofrimento ou constrangimento às pessoas que dele participaram.

Os participantes tiveram direito, em qualquer momento, a informações e esclarecimentos sobre a pesquisa, bem como à possibilidade de retirarem o consentimento. À pesquisadora primeira autora desse documento, coube o papel de informar os objetivos e as finalidades do estudo, assegurando anonimato a todos os participantes e sua assinatura ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Os dados serão arquivados por esta por período de, no mínimo, cinco anos, em local apropriado para tanto. Após esse prazo, os documentos serão incinerados.

Considera-se que os riscos potenciais da realização dessa pesquisa não foram significativos, à medida que não houve intervenção sobre o fenômeno em questão. A coleta de dados se restringiu à aplicação de questionários. A entrevistadora foi treinada para evitar a emergência de riscos ou de desconfortos aos participantes durante a realização da pesquisa. Ademais, em caso de eventuais problemas que emergissem da participação na pesquisa, seria viabilizado atendimento aos participantes junto ao Instituto Integrado de Saúde da FSG. Entretanto, essa medida não se fez necessária.

3.3 Delimitação da população ou do objeto de estudo e/ou amostragem

A amostra foi composta por 40 (quarenta) adultos (isto é, pessoas maiores de 18 anos de idade), de ambos os sexos, que possuíam cachorros ou gatos e que fizeram uso, na condição de clientes, de três Pet Shops que comercializam produtos e serviços destinados a animais de pequeno porte, localizadas em uma cidade da Serra Gaúcha com aproximadamente 500 mil habitantes, durante o mês de outubro de 2014. Tal amostra se caracterizou como não probabilística, composta por conveniência (MALHOTRA, 2001).

3.4 Técnicas de coletas dos dados

Por se tratar de uma pesquisa de levantamento, com análise quantitativa dos dados, foram utilizados dois questionários padronizados e uniformizados, com perguntas objetivas. A aplicação ocorreu de forma individual, garantindo o anonimato do participante. Segundo Oppenheim (apud ROESCH, 1999), o uso de escalas apresenta a vantagem de medir várias dimensões de uma questão, quando essa possui um caráter complexo ou multifacetado.

A pesquisadora abordou os clientes de cada Pet Shop por um dia inteiro, informando os objetivos e as finalidades da pesquisa, questionando aos sujeitos se havia interesse em participar da mesma. Mediante o consentimento e a assinatura do TCLE, foi entregue em um primeiro momento o questionário bio-sócio-demográfico, elaborado pela pesquisadora. Este é composto por 11 questões com a finalidade de obter a descrição do perfil dos donos de animais de estimação: dados pessoais (sexo, idade, estado civil e escolaridade), dados da família (tempo de união, número de pessoas que reside com o participante e renda mensal familiar), dados relativos ao animal de estimação (espécie, quantidade, sexo, há quanto tempo possui animais, tempo que este animal está na família e a frequência com que vai a Pet Shops).

Por ser de fácil compreensão e construção, em seguida foi aplicado o questionário Pet Attachment Survey, verificando aspectos comportamentais e emocionais do vínculo com os animais de companhia (HOLCOMB et al., 1985). Adotou-se a versão em português do instrumento, disponibilizada por meio do estudo de Canani e Faraco (2010). Esse questionário é composto por 27 afirmações em que o participante deverá assinalar a resposta, de acordo com a veracidade: (1) quase sempre; (2) frequentemente; (3) algumas vezes; (4) quase nunca.

3.5 Técnicas de análise dos dados

Os dados obtidos por meio da aplicação dos instrumentos foram compilados e tabulados em uma planilha do programa informático Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 17.0. A análise foi quantitativa, considerando estatística descritiva (a saber: média, desvio-padrão, frequência e percentil), conforme natureza de cada uma das variáveis constantes nos questionários respondidos pelos participantes.

4. Apresentação dos Resultados

4.1 Caracterização bio-sócio-demográfica dos participantes

Dos participantes, 32 eram do gênero feminino e oito do sexo masculino, o que corresponde a 80% e a 20% da amostra, respectivamente. No que tange à idade, verificou-se que a maioria dos participantes (55%) tinha entre 18 e 37 anos, no momento da coleta de dados. Os participantes com idade entre 38 e 57 anos compreenderam 35% da amostra, ao passo que somente 10% deles tinham 58 anos ou mais. Os resultados atinentes à idade são apresentados na figura 1.

Figura 1: Idade dos participantes

Figura 1: Idade dos participantes Fonte: Autora (2014)

No que se refere ao estado civil, 25 participantes (62,5%) eram casados [04]. Desses, 45% possuíam relação conjugal de 11 anos ou mais; 14 (35%) eram solteiros e apenas um (2,5%) viúvo, conforme figuras 2 e 3.

Figura 2: Estado civil

Figura 2: Estado civil Fonte: Autora (2014)

 

Figura 3: Tempo de união

Figura 3: Tempo de união Fonte: Autora (2014)

Em relação à configuração familiar, o número médio de pessoas residindo junto ao entrevistado foi 2,1 (DP=1,2). Em 35% dos casos as famílias se constituíam por três pessoas residindo junto ao entrevistado, conforme dados apresentados na figura 4. Tal resultado coaduna com os dados do último censo, em que a densidade domiciliar apresentou média de 3,3 moradores em 2010, em contraposição aos 3,8 constatados em 2000 (IBGE, 2011). Conforme mencionado anteriormente, as pessoas que moram sozinhas tendem a demonstrar maior vinculação com seu animal de estimação: “a demografia está caindo, as famílias são menores e estão sendo modificadas, com mais pessoas morando sozinhas” (SANTOS, 2008, p. 25).

Figura 4: Número de pessoas com que reside o participante

Figura 4: Número de pessoas com que reside o participante Fonte: Autora (2014)

No tangente aos níveis de escolaridade, o grau de escolaridade mais prevalente entre os participantes foi o ensino superior, concluído por 40% e incompleto em mesmo número. A faixa prevalente na renda familiar total auferida durante um mês foi de quatro a sete salários mínimos (52,5%); precedida pela faixa salarial igual ou superior a oito salários mínimos em 35% dos casos. As figuras 5 e 6 apresentam o percentual de escolaridade e renda familiar, respectivamente.

Figura 5: Grau de escolaridade

Figura 5: Grau de escolaridade Fonte: Autora (2014)

Figura 6: Renda familiar

Figura 6: Renda familiar Fonte: Autora (2014)

No que se refere à quantidade de animais de estimação, a média foi de 1,65 (DP=1,1) animais por respondente, em que 70% dos participantes possuíam apenas um animal. Em sua maioria (97,5%) estes animais são cachorros; 80% tinham apenas cachorros; 7,5% possuíam cachorro e gato; bem como cachorro e passarinho; ao passo que 2,5% possuíam cachorro, gato e tartaruga; mesmo percentil de participantes que tinham apenas gato, conforme figura 7. Estes números associam-se a estimativas populacionais citadas por Almeida (2009), que indicaram a existência de 27 milhões de cães (60%) e 11 milhões de gatos (40%) como animais de estimação nos domicílios brasileiros.

Figura 7: Espécies de animais

Figura 7: Espécies de animais Fonte: Autora (2014)

No que tange ao tempo que possuem animais de estimação, 72,5% afirmaram possuir animal de estimação há cinco anos ou mais. Os resultados atinentes ao tempo que possui animal de estimação são apresentados na figura 8. Considerando o fato de os animais fazerem parte de sua vida desde criança ou “desde sempre”, tal como referiu alguns participantes, pode-se pensar que ter um animal de estimação na infância sensibiliza para continuar a tê-lo na idade adulta. Nesse sentido, Calçada (2011) afirma que “a posse de um animal de estimação durante a infância é uma influência extremamente importante para a construção de uma conduta adulta favorável e para alcançar um ótimo desenvolvimento social.” (p. 27).

Figura 8: Tempo que possui animal de estimação

Figura 8: Tempo que possui animal de estimação Fonte: Autora (2014)

Compreendem 35% os participantes que levam seu animal de estimação semanalmente a Pet Shop, porém 32,5% têm esse cuidado esporadicamente, ou seja, menos de uma vez por mês, conforme figura 9. Com relação às práticas de cuidado com o animal de estimação, além da presente questão constante no questionário sócio-bio-demográfico, há também itens concernentes à temática (como dedicação diária ao treinamento de seu animal e aos cuidados com a aparência dele) no Pet Attachment Survey, o qual será apresentado adiante no texto.

Figura 9: Idade dos participantes Fonte: Autora (2014)

Figura 9: Idade dos participantes Fonte: Autora (2014)

4.2 Caracterização da relação de vinculação para com os animais de estimação

Ao serem questionados se consideram o animal um membro da família, 80% dos participantes afirmaram que sim. No mesmo sentido, metade da amostra (50%) respondeu que, dentre os membros da família, o animal de estimação é quem mais gosta do respondente. De acordo com Heiden e Santos (2009), algumas pessoas estabelecem um vínculo muito próximo com seu animal de estimação. Ao citar Grandin e Johnson (2006), os autores referem que os animais parecem amar de forma desinteressada e não são ambivalentes, ou seja, não costumam demonstrar duas emoções ao mesmo tempo, transmitindo segurança ao seu dono.

Num momento em que a psicologia, a sociologia e a política tiraram a espontaneidade das relações humanas, a simplicidade de nossa afeição pelos bichos de estimação é um modelo para os momentos simples e íntimos que realmente nos sustentam. Sem esses laços que nos unem – os vínculos de amor, amizade, responsabilidade e dependência – pouco a pouco começamos a definhar. São nossos vínculos que nos mantêm saudáveis (BECKER; MORTON apud HEIDEN; SANTOS, 2009, p. 491).

Valores significativos foram percebidos no que se refere à proximidade física com o animal de estimação: 82,5% gostam de tocar e acariciar o animal; 67,5% brincam quando ele se aproxima; 60% quase sempre gostam quando o animal se mantém por perto em atividades como a leitura, estudos ou assistir TV; 57,5% afirmaram ainda que quase sempre o animal o segue para ficar mais próximo, 55% gostam quando o animal dorme perto de sua cama e 32,5% quando dorme em cima de sua cama.

Calçada (2011) analisou uma pesquisa realizada em diversos países que questionou se os respondentes trocariam a companhia do parceiro afetivo pelo animal de estimação no Dia dos Namorados. No que tange aos resultados desse estudo, apesar de o número de participantes que afirmou que trocaria a companhia ser menor em comparação ao número que referiu que não trocaria, a autora questionou se o carinho e a atenção do petpoderiam substituir o afeto vindo de um relacionamento com outra pessoa. Em seu ponto de vista, controlar o animal de estimação é mais fácil e confortável, vez que ele não discute e possivelmente não trocará seu dono por outro, “mas isso basta?” (p. 25).

Ao questionar se o animal de estimação recebe o participante quando esse retorna ao domicílio familiar, 87,5% informaram que quase sempre. Ademais, 62,5% dos respondentes cumprimentam primeiramente o pet nessas situações, antes mesmo de se aproximar de qualquer outro membro da família. Com relação ao animal de estimação prestar atenção e obedecer rapidamente, 50% afirmou que quase sempre e apenas um (2,5%) assinalou que quase nunca.

Dos 40 participantes, 31 (77,5%) referiram falar com seu animal de estimação, 21 (52,5%) afirmaram quase sempre mostrar fotos do animal de estimação para amigos e 16 (40%) costumam fazer confidências ao pet. Chama a atenção que de oito respondentes do sexo masculino, seis (75%) foram os que assinalaram quase nunca trocar confidências, ao passo que das trinta e duas mulheres foram apenas sete participantes (21%) que pontuaram nunca trocar confidências. Para Prato-Previde, et. al. (2006), as mulheres se utilizam da linguagem como ferramenta relacional, apresentando maior interação verbal também com os animais de estimação. Sendo assim, essa diferença encontrada entre pessoas do gênero masculino e feminino no estudo ora apresentado parece encontrar amparo na literatura sobre a temática.

No tocante aos sentimentos despertados nessa relação, 45% dos respondentes se sentem tristes quando separados ou distantes fisicamente de seu animal de estimação. Do mesmo modo, 40% procura o animal para se sentir melhor nas ocasiões em que se encontra abatido. Esse resultado parece coadunar com o fato de 57,5% dos participantes acreditarem que o animal de estimação é sensível às suas variações emocionais.

Com base nesses resultados, é possível refletir que estabelecer uma relação interpessoal atualmente não se constitui em tarefa fácil, vez que requer investimento e compreensão mútua das partes envolvidas, podendo gerar benefícios, mas também dor e sofrimento. Tais sofrimentos podem ser causados por várias circunstâncias, como os términos dos relacionamentos, a rejeição, a traição e, ainda, a dor ou a ansiedade frente à mudança, ou seja, frente ao desenvolvimento e às transformações associadas a um relacionamento interpessoal. Para Calçada (2011), o medo do envolvimento e a ameaça do abandono são um dos motivos para se preferir passar o Dia dos Namorados sozinho, retomando o questionamento contemplado em sua pesquisa. Assim, ressalta-se que esse desejo deve ser uma exceção, pois defender-se do amor pode gerar mais desamor e infelicidade (CALÇADA, 2011).

Com base nos resultados obtidos com a aplicação do Pet Attachment Survey, obteve-se ainda que, apesar da vinculação, não há exclusividade de atenção para o animal de estimação. Nesse sentido, 55% dos respondentes se dedicam apenas esporadicamente aos cuidados com a aparência de seu pet e 47,5% quase nunca se dedicam diariamente ao treinamento do animal. De certo modo, esse comportamento pode ser considerado saudável, vez que o animal de estimação não ocupa todo o tempo da rotina de seu proprietário. Assim, essa relação se constitui em uma das dimensões da vida, mas não a única. Esses dados voltam a se confirmar quando 50% dos participantes se consideram muito ocupados para passar tempo com seu animal de estimação.

No que se refere a sentimentos negativos, nenhum dos participantes considera  o animal de estimação um incômodo ou um aborrecimento; 92,5% não ignoram o pet quando ele se aproxima e 75% quase nunca batem no animal quando esse se comporta mal.

De acordo com Niven (2001), conviver com um animal é um dos fatores que pode contribuir para a felicidade:

Os animais têm muito a nos ensinar sobre o amor. Quanto mais nos aproximamos deles, mais alegria nos dão. [...] O amor que os cães oferecem incondicionalmente enche de alegria e revitaliza aquelas pessoas muitas vezes isoladas e abandonadas pelos familiares. [...] A relação com os animais nos proporciona uma alegria imediata e provoca sentimentos positivos que contribuem fortemente para nossa felicidade. Ter um animal de estimação aumenta as probabilidades de felicidade em vinte e dois por cento (p. 149).

5. Considerações Finais

O presente estudo abordou a questão das configurações familiares e buscou entender de que forma se dá a relação de afeto e vínculo entre animais de estimação e humanos, assim como qual a importância dessa relação do ponto de vista dos humanos que a vivenciam, caracterizando também os participantes em termos de variáveis bio-sócio-demográficas. Para tanto, baseou-se em dados empíricos, os quais passaram por análise estatística descritiva e foram discutidos com base na literatura referente à temática em questão.

Diferentes autores pontuam que os animais ganham cada vez mais espaço e importância nas famílias contemporaneamente. Nesse sentido, indicativos apontam para o fortalecimento de uma relação em que o animal se torna um membro familiar (FARACO, 2008). Os resultados obtidos por meio da pesquisa ora apresentada coadunam achados de estudos anteriores, vez que 80% dos participantes afirmaram que consideram o animal de estimação como um membro de sua família.

Dotti (2005) menciona a relevância de pesquisas a fim de mensurar os níveis de vinculação entre casais sem filhos e seus animais de estimação, possibilitando uma descrição das mudanças percebidas no mundo contemporâneo, porém, nesse estudo não prevaleceu a contextualização específica de casais que não possuam filhos, uma vez que na contemporaneidade não existe nenhum modelo dominante ou padronizado de família. Dessa forma, torna-se importante refletir acerca do que diz Ceccarelli (2007) quanto aos novos arranjos familiares, caracterizando-os como ligações afetivas, onde pode ou não existir a parentalidade.

Segundo Faraco (2008) pesquisadores que também analisam a família multiespécie assinalam a importância de revisar o conceito de família, uma vez que os animais demonstram capacidade de vivenciar emoções, de perceber e de sentir, como os humanos. Considera-se importante salientar que os respondentes, de modo geral, aceitaram prontamente e de modo bastante entusiasmado participar da presente pesquisa. A pesquisadora que aplicou os questionários (primeira autora desse documento) constatou que os participantes se demonstraram motivados a poder expressar seu vínculo e afeto para com o animal de estimação. Não houve qualquer contraponto ou questionamento negativo no momento da coleta de dados, ou mesmo após a aplicação dos questionários.

Nesta pesquisa foi possível perceber que os animais ofertam amor e companhia sem as mesmas exigências dos seres humanos, aceitam sem julgar; despertando características como instinto e lealdade. Estudos já apontam para os benefícios desta relação, que vão desde a saúde física e mental à emocional, conforme descrito anteriormente.

No atinente às limitações do presente estudo, ressalta-se dificuldade para obtenção de produções científicas brasileiras, pois há uma escassez de estudos – notadamente na área da psicologia – relacionados à família e às suas relações com os animais de estimação. Constatou-se, por exemplo, maior quantidade de publicações em periódicos da medicina veterinária, da antropologia e da sociologia, abordando os efeitos que o convívio com o animal traz, a interação multiespécie, a vinculação, a constituição familiar, dentre outros temas afins.

Ademais, pondera-se como outra limitação a relativa similaridade dos participantes no que diz respeito a aspectos bio-sócio-demográficos. Nesse sentido, salienta-se que levar seus animais de estimação a pet shops já indica disponibilidade de recursos financeiros para esses serviços, os quais a princípio não se caracterizam como necessidades básicas das famílias. Adicionalmente, o simples fato de se disponibilizarem a realizar esse tipo de cuidado se associa a um bom vínculo com o animal, em face ao investimento de tempo (levar e buscar o animal na pet shop), financeiro (custear o serviço) e emocional, considerando o desejo de manter o bem-estar e a boa aparência física, bem como a saúde do pet.

Por ser um assunto cada vez mais presente na atualidade, sugere-se que novas pesquisas sobre o tema sejam feitas, a fim de mensurar a vinculação entre humanos e animais de estimação, o que pode se constituir em uma relação familiar em que não há laços sanguíneos, mas sim, emocionais e de afetividade, considerando a crescente inserção do animal neste contexto social. Ao ponderarmos os resultados do questionário Pet Attachment Survey, obtiveram-se resultados congruentes com a dimensão afetiva anteriormente abordada, vez que 80% dos respondentes afirmaram considerar o animal um membro familiar.

Sobre os Autores:

Cristina Gazzana - Psicóloga graduada pela Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) em 2014/02.

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