Resiliência e Behaviorismo Radical: uma reflexão sobre o fenômeno da superação através da análise do comportamento

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Resumo: Este artigo apresenta um estudo bibliográfico, revisando e criando uma discussão sobre a Resiliência através de publicações feitas em artigos, periódicos e revistas científicas. Desta forma, com base numa interpretação Behaviorista, procurou-se entender como a Análise do Comportamento pode interpretar tal fenômeno dentro dos conceitos utilizados na abordagem, já que o assunto tem ganhado cada vez mais destaques dentro das ciências humanas, principalmente a psicologia. A adoção do Behaviorismo Radical para explicar esse fenômeno, parte do pressuposto de que o homem modifica e é modificado pelo ambiente, alterando seu comportamento em relação ao outro e a si mesmo. Conclui-se então, que a resiliência deve ser discutida como um processo comportamental a ser compreendido a partir de estudos baseados na história do indivíduo, assim como os padrões comportamentais construídos ao longo de sua vida e não como uma capacidade inata proveniente de causas internas que recorram a explicações mentalistas.

Palavras-chave: Resiliência, Variabilidade comportamental, Behaviorismo.

1. Introdução

Diante da velocidade imposta pela modernidade, é necessário buscar-se mecanismos ágeis para atender às demandas impostas pela sociedade frente a situações estressoras, aversivas e de difícil aceitação. Algumas pessoas ao que parecem, são mais propícias a se reerguerem ou superarem essas situações se adequando rapidamente ao ritmo imposto pelo contexto social. Dentro das ciências humanas, principalmente a psicologia, o termo “Resiliência” foi adotado ao procurar explicar os processos de superação vividos pelos sujeitos frente à dificuldade e a capacidade que estes têm ao enfrentar problemas e superar obstáculos.

Na literatura brasileira, grande parte dos pesquisadores concordam com a origem do termo resiliência surgindo do campo das ciências exatas como Física e Engenharia. A origem do nome vem do termo inglês resilience, e explica um fenômeno físico no qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão causadora de uma deformação elástica ou resistência ao choque. A psicologia então passa adotar o termo para explicar a capacidade de regeneração, adaptação, flexibilidade ou superação atribuída a pessoas que passaram por tragédias, doenças ou dificuldades (SOUZA, 2006).  O uso do termo em ciências exatas pode ser satisfatório para explicar tal processo, mas uma vez que atinge a complexidade da vida humana, sua subjetividade e relações que permeiam nossa vida, o termo pode acabar se tornando vago ou insatisfatório, como concorda Slap (2001) ao dizer que é mais fácil concordar com tudo com o que a resiliência não significa do que com um significado único para a palavra. Outros autores como Brandão; Mahfoud e Nascimento (2011, p.264) complementam”... se o termo/conceito de resiliência usado na psicologia foi originado na física, na resistência dos materiais, ele foi transposto de maneira imprecisa, pois se relaciona mais com o conceito de elasticidade do que resiliência dos materiais”.

Talvez a dificuldade para o uso com o termo, seja explicada porque ele acaba sendo relacionado a outros como: superação, dificuldade, estresse, adaptação, entre outros, na medida em que o termo é adotado para descrever processos diferentes, ora sutis, ora mais intensos, trazendo implicações metodológicas divergentes numa práxis voltada para saúde e sua promoção (TABOADA; LEGAL;MACHADO, 2006).

A adoção do Behaviorismo Radical como fundamentação teórica justifica-se por apresentar mais uma contribuição através da visão comportamental sobre o que se entende por resiliência como, por exemplo, o enfrentamento de doenças, tentando mostrar que a maneira como o organismo (sujeito) interage com o ambiente, modificando e sendo modificado por ele, pode resultar diretamente na aceitação e superação do seu problema. Será abordado também sobre o repertório de habilidades sociais do indivíduo e a relação que as mesmas têm com a Resiliência, uma vez que se entende por habilidade social os comportamentos que ajudam o indivíduo a lidar com situações em que ele tenha que interagir pelo ao menos com outro indivíduo, manter uma boa relação e chegar a um resultado esperado com esse próximo. Assim, é esperado que uma pessoa com um bom repertório de habilidades sociais, tenha uma maior capacidade de enfrentamento (REIS; NETO, 2010). Desta forma, será compreendido como a Análise do Comportamento entende e estuda o que outras correntes teóricas chamam de aspectos subjetivos. 

O Behaviorismo Radical desenvolvido por Burrhus F. Skinner, conceitua o comportamento como a interação entre o organismo (seja ele humano ou não) e o ambiente, podendo ser divididos em comportamentos públicos(que seriam os observáveis), e privados (que somente poderiam ser descrito pelo organismo como pensar e sentir). Para o Behaviorismo Radical, os homens agem sobre o mundo o modificando, nos mais diferentes aspectos e por sua vez, são modificados pelas consequências de suas ações(SKINNER, 1974/2002).

Segundo Baum (2006), Skinner criou o termo “mentalismo” para classificar as explicações dadas aos processos de comportamentos que não poderiam ser descritos fazendo com que alguns estudiosos recorressem a explicações que na verdade não explica nada. O Behaviorismo descarta explicações internas para justificar comportamentos, como se nossas ações, vontades, desejos, fossem explicados ou comandados por uma entidade interna. O autor ainda explica que, quando se define uma ciência do comportamento, behavioristas radicais concentram seus estudos na explicação e distinção de eventos que podem ser considerados válidos ou explicações falsas, descrevendo o mentalismo como uma prática de invocar ficções mentais ou causas internas na tentativa de explicar o comportamento. Conceitos como mente, ego, vontade, são nomeadas como ficções explanatórias por utilizarem constructos metafísicos que supostamente explicariam algo. Entretanto, Skinner não descarta os processos mentais como objeto de estudo científico, tais processos são o próprio comportamento e possuem natureza física. O que se elimina no Behaviorismo Radical é a causalidade dos eventos internos (mentais), no sentido que estes já são comportamentos a ser explicados. Pensar, sentir, perceber, compreender é comportar-se.

O fenômeno da Resiliência será interpretado através dos conjuntos de termos e conceitos próprios da Análise do Comportamento, dentre eles o comportamento operante, respondente, variabilidade comportamental, e resistência a extinção. Entende-se por comportamento operante, aquele que opera no mundo e envolve várias atividades humanas, desde comportamentos comuns aos bebês como prestar atenção em alguns objetos, olhar enfeites do berço, balbuciar, até os mais sofisticados apresentados pelos adultos. Esse tipo de comportamento produz mudanças no ambiente que retroagem sobre o organismo o modificando. Dizer que as consequências dos comportamentos afetam o organismo, é o mesmo que dizer que as consequências determinarão, sem seja em qual grau for, se os comportamentos que as produziram ocorrerão ou não outra vez. (MOREIRA; MEDEIROS, 2007).

Outro modelo de comportamento são os respondentes, resultados de uma interação em que uma resposta é eliciada após um estímulo condicionado ou não, ser apresentado. Na aprendizagem respondente, estímulos que não eliciavam nenhuma resposta (estímulos neutros) podem sem emparelhados com outro estímulo que naturalmente elicia tal resposta (estímulo incondicionado), produzindo uma nova relação entre o organismo e o contexto (comportamento respondente condicionado). Assim, nem sempre se está atento para observar eventos como esses em nossas vidas o que pode explicar a origem de medos, fobias, prazeres, ou até mesmo porque reagimos melhor frente a uma situação que para outras pessoas sejam aversivas (MOREIRA; MEDEIROS, 2007). Desta forma, esse processo resiliente pode estar ligado a processos comportamentais comuns como a extinção de comportamentos, respostas a reforçadores positivos, controle aversivo do comportamento, entre outros que serão explicados mais detalhadamente ao longo do texto, procurando entender de que formar o Behaviorismo Radical pode explicar a resiliência sem recorrer a explicações mentalistas.

Nesse sentido, com base numa pesquisa bibliográfica, este artigo propõe uma análise a partir de publicações em artigos, livros, revistas científicas e periódicos sobre a resiliência, entendendo sua origem e como a mesma tem sido definida e problematizada na literatura. Desta forma, o objetivo final é fazer com que o leitor compreenda o processo de resiliência, como o constructo surgiu, como o Behaviorismo Radical pode interpretá-lo e qual seria a melhor definição deste processo dentro da Análise do Comportamento.

2. Resiliência: Definição e explicação satisfatória?

Pesquisadores americanos e ingleses durante as décadas de 70 e 80 interessaram-se pelo fenômeno da resiliência e foram os primeiros a desenvolverem estudos a cerca do assunto, a partir de então, outras pesquisas foram desenvolvidas ao redor do mundo, que ganhando diferentes perspectivas foram dividas por alguns autores como Fantova e Ojeda (2008, apud BRANDÃO;MAHFOUD; NASCIMENTO, 2011) em três correntes. A corrente norte-americana que por sua vez é mais centrada no indivíduo, avaliando dados observáveis e quantificáveis de enfoque behaviorista ou ecológico transicional, em que a resiliência surge como produto da interação entre o sujeito e o meio que está inserido; a corrente europeia que envolve uma visão mais ética e relativista, tendo a visão do sujeito como relevante para se avaliar essa resiliência com um enfoque psicanalítico; a terceira corrente, a latino-americana, encontra no meio social as respostas dos problemas dos sujeitos em meio às dificuldades e adversidades encontradas na vida.

Vale ressaltar que pesquisadores de línguas latinas, incluído os brasileiros, iniciaram suas pesquisas quase vinte anos após os americanos e ingleses, partindo da literatura anglo-saxônica, única disponível na época, apontando que o uso do termo foi tomado das ciências exatas, e entendem esse processo ora como resistência ao estresse ora associada a processo de recuperação ou superação de problemas emocionais gerados por estresse, enquanto os ingleses e norte-americanos não dizem nada respeito da origem do nome e relacionam a resiliência como resistência ao estresse (BRANDÃO et al, 2011).

Alguns questionamentos podem ser levantados ao se tratar sobre a capacidade de resiliência nos indivíduos. Assim, observa-se em algumas pesquisas, que este constructo é tratado como uma capacidade inata do ser humano, reservado em um local específico de sua subjetividade e pronta para ser acionada frente a situações de grande dificuldade, sem levar em consideração quais fatores e eventos podem desenvolver a resiliência. Pesquisas que buscam tal explicação focando em habilidades especificas ou tratando o assunto como um traço de personalidade estariam propícios a identificarem fatores inatos em tal processo. Os estudos sobre resiliência comumente se relacionam com eventos geradores de estresse, nomeados como fatores de riscos como: alcoolismo, drogas, violência, desigualdade social e tragédias naturais. Esses eventos aumentam a probabilidade do indivíduo apresentar dificuldades, acarretando problemas posteriores. Entretanto, é importante chamar atenção que expor-se a essas situações de risco não significa que as pessoas desenvolverão problemas psicopatológicos. Frente à complexidade das inter-relações de variáveis envolvidas no fenômeno, podemos apenas trabalhar com probabilidades. Assim, é importante pensar também no desenvolvimento de habilidades das pessoas frente a ambientes favoráveis e desfavoráveis para entender quais possíveis variáveis que permeiam o processo (TABOADA et al, 2006).

Porém, em diversos artigos, nota-se que grande parte dos pesquisadores aponte que o ambiente e as relações sociais, desempenham papel efetivo no desenvolvimento da resiliência (TABOADA et al, 2006).  Como propõe o aporte teórico desta pesquisa, baseada nos princípios da Análise do Comportamento, o estudo do comportamento deve ser realizado pela relação entre os estímulos e respostas geradas pelo organismo e o ambiente, resultante do processo dos três fatores que explicam o comportamento, conhecido também como modelo por seleção de consequências. São eles: o nível filogênico, que descreve as características físicas, comportamentos e evolução da espécie e seus membros; o nível ontogenético que é a historia individual, norteado pelo comportamento operante, assim o indivíduo passa a ter alguns comportamentos devido a estímulos ambientais consequentes, mas que não são estáveis o suficiente para causar impactos na evolução da espécie; e por fim a cultura, em que os comportamentos são aprendidos pelos indivíduos através de outros membros de sua espécie.

Baseando-se nas ideias sobre mentalismo escritas por Baum (2006), entende-se que atribuir estruturas mentais como causadoras de resiliência é o mesmo que obstruir uma investigação mais fidedigna a esse processo, pois entende-se que ser resiliente não é simplesmente ter um dom, capacidade mental ou um dispositivo interno prestes a ser acionado quando se é preciso. Tão pouco a resiliência pode ser localizada dentro do cérebro humano, sendo impossível o seu estudo de maneira concreta, pois se trata de ficções mentais construídas para tentar explicar um comportamento que supostamente nasce de dentro pra fora no sujeito. Explicações mentalistas simplificam um processo que pode ser muito mais abrangente, impedindo a investigação através de fatores ambientais que podem explicar de maneira mais satisfatória e cientifica.

Taboada, et al. (2006) criticam a falta de estudos experimentais em relação a resiliência e descrevem a falta de coesão e consenso nas pesquisas, pois se fala dessa capacidade ora como um dom inato do indivíduo, ora como um uma habilidade que pode ser aprimorada ao longo da vida e adquirida pelo sujeito quando o mesmo se ver diante de adversidades. Os conceitos de resiliência tornam-se amplos por permear diversos outros aspectos que poderiam receber outras nomenclaturas, assim como definições operacionais vagas e imprecisas.

3. Repertório de Habilidades Sociais e Resiliência

Quando se pensa em pessoas que em determinado momento de sua vida recebem uma notícia que está acometida por uma doença e que precisará de um tratamento agressivo por um longo período, considera-se que para muitos essa pode ser um notícia devastadora, muitos pensariam em desistir ou se entregariam a esse infortúnio, mas inexplicavelmente, outras pessoas resolvem encarar o problema de frente e mostram-se cada vez mais engajada em sua recuperação. Desta forma, pode-se atribuir tal comportamento a força de vontade ou a fé, por exemplo. Mesmo que superficialmente essa explicação seja válida para algumas pessoas ou outras abordagens teóricas, ao pensar-se nas relações construídas dentro desse ambiente religioso ou qualquer outro ambiente que o organismo venha interagir, como o próprio ambiente hospitalar (utilizando o exemplo anterior), a relação com pessoas que passem por situação semelhante a sua, irá desenvolver um papel efetivo no seu repertório de habilidades sociais e aprendizado de novos comportamentos. Bolsoni-Silva (2002), enfatiza a importância dos estudos em habilidades sociais, pois os seres humanos muito tempo envolvidos em relações sociais e ao desempenharem essas habilidades socialmente são capazes de produzirem dentro de seu ambiente, relações sociais que favorecem o crescimento de reforçadores que os ajudam a prevenção, redução e respostas a dificuldades psicológicas.

Para Del Prette e Del Prette (1999), as habilidades sociais incluem comportamentos assertivos, habilidades em resolução de problemas interpessoais, bom desempenho interpessoal em atividades ligadas ao trabalho, boa comunicação. Como qualquer comportamento, a habilidade social é um constructo proveniente das relações funcionais entre duas ou mais pessoas, onde suas respostas podem ser consequentes ou antecedentes a outra resultando num processo de interação:

... as habilidades sociais são aprendidas e alteradas ao longo da vida por meio da variabilidade e seleção dos comportamentos submetidos às contingencias ambientais [...]; dependendo das contingencias a que esta exposta, uma pessoa pode desenvolver tanto um repertorio elaborado de comportamentos efetivos na produção de reforçadores ou um repertório deficitário... . (Del Prette& Del Prette, 2010,p.109).

Segundo Reis e Neto (2010), quanto maior e mais eficaz as habilidades sociais de uma pessoa, maior será sua capacidade em enfrentar o sofrimento que é inerente à vida, e que através de uma analise comportamental se observa o que se entende por resiliência em pessoas que estão socialmente apoiadas e engajadas por uma rede de suporte em suas relações. Para os autores, a boa convivência e as boas relações sociais é uma maneira efetiva de se reforçar os próprios recursos subjetivos (comportamentos privados) de saúde e bem estar.

4. Componentes da Variabilidade Comportamental na Produção de Resiliência

Mudanças são constantes a todo o momento, seja uma temperatura, um novo cenário, um móvel que trocamos de lugar. Elas são inevitáveis e estão presentes em todos os fenômenos físicos, o que incluem também os fenômenos comportamentais. Na Análise do Comportamento fala-se em variação de comportamento, o que explicaria o fato do organismo adquirir e manter comportamentos ao longo de sua vida (MARÇAL;NATALINO, 2006). Assim, compreende-se então a relação entre variabilidade comportamental e a resiliência como mais um fator dentro de padrões comportamentais que possam explicar tal fenômeno.

Rangel (2010) define variabilidade como uma propriedade particular a todo comportamento, induzida por diferentes condições ambientais que podem constituir uma fonte de controle. Segundo a autora, estudos indicam que o reforço contínuo promove repetição de comportamento, já o reforço intermitente e a remoção de outros reforços promovem variabilidade comportamental, que pode ser maior ou menor dependendo das contingências. Neuringer (2004,apud RANGEL, 2010), destaca a importância desse aspecto da variabilidade, pois ao reforçarmos a variabilidade podemos aumentar de maneira significativa a probabilidade de comportamentos mais complexos ou difíceis, como também fazer com que se mantenha um repertório comportamental mais amplo, favorecendo o ajustamento do comportamento diante de determinadas situações. Desta forma, pode-se analisar esta ideia do autor ao aplicar-se a resiliência e o surgimento de comportamentos inesperados a determinados indivíduos, pois, a variabilidade permitiria então uma flexibilidade no repertório comportamental fazendo com que o sujeito (organismo) reaja de diferentes formas aos esquemas de reforçamento que podem vir a surgir no seu ambiente. Mesmo que seja um comportamento operante, além de ser controlado por suas consequências ele precisa ser sensível a estímulos antecedentes (Rangel, 2010).

O modelo de seleção por consequências, formulado por Skinner é um conceito básico da Análise do Comportamento quando se fala em fatores que explicam o comportamento. Ao se falar na importância dos fatores ontogênicos, Del Prette e Del Prette (2010), pontuam que seria esse o processo mais visível não só no repertorio de habilidades sociais como na própria variabilidade, pois essa seleção ontogênica pode se dá tanto por meio das contingencias naturais inseridas no ambiente em que o indivíduo faz parte, como por reforço de outras contingências, que os autores chamam de “contingências estruturadas”, por exemplo, programas educacionais como escolas, faculdades ou qualquer outro ambiente que contribua para algum tipo de formação educacional do indivíduo, ou ambientes que tenham finalidade terapêutica na historia de vida desse sujeito (ambientes sociais em geral). Assim, a variabilidade ganhará um caráter adaptativo, nas palavras de Del Prette e Del Prette (2010):

... a promoção da variabilidade, enquanto objetivo, e a exposição a contingências, enquanto procedimento ou estratégia, são decisivas para a aprendizagem e o aperfeiçoamento de comportamentos sociais. Por outro lado, ambientes complexos que produzem consequências seletivas para uma ampla gama de desempenhos podem fortalecer essa variabilidade (p. 109).

A variabilidade torna-se importante na seleção e aprendizagem de comportamentos adaptativos, principalmente ao considerar-se, como padrões de relacionamentos interpessoais, o papel que eles desempenham ao sujeito na mudança e manutenção de suas práticas sociais. Os fatores filogenéticos também contribuíram para a capacidade do ser humano ao adquirirem e aperfeiçoarem comportamentos sociais importantes na sobrevivência da espécie como particularidades anatômicas e fisiológicas. Um exemplo desse processo seria o desenvolvimento da musculatura da face auxiliando no comportamento verbal, contribuindo para que alcançasse níveis mais complexos de comunicação, o que permitiu maior evolução social e outras práticas culturais, como o aprendizado de novas línguas, músculo facial podendo atingir maior flexibilidade e discriminação ou reforçamento através das expressões realizadas nas interações sociais. Por fim, novos conhecimentos humanos também surgem com a imersão da espécie em novos ambientes sociais e com novas práticas culturais. Diferentes contextos culturais podem produzir contingências que podem ser reforçadoras se refletirem padrões desejáveis, irrelevante na medida em que não produzam comportamentos/consequências, ou aversivas se forem reprovadas dentro de diferentes contextos. Ao considerar-se que uma cultura é mutável e por sua vez pode admitir outras culturas, alguns comportamentos podem não serem aceitos em outros subgrupos. Assim, nota-se a importância da variabilidade comportamental como alternativa de comportamentos sociais. (DEL PRETTE; DELPRETTE, 2010) [01].

Marçal e Natalino (2006), descrevem uma série de possíveis fatores que será exemplificado com possíveis situações em que se necessite de resiliência tendo por base exemplos dos autores: (a) a história de reforçamento do indivíduo pode ser um fator, uma vez que a pessoa ao longo de sua vida emitiram respostas que foram reforçadas inúmeras vezes em algumas ou várias situações na vida, acabou gerando hábitos o que pode caracterizar essa pessoa como fortemente condicionada. Exemplo: um rapaz que sempre teve seu comportamento reforçado por ser passivo em suas atitudes, o que no senso comum recebe o nome de paciente, não consegue realizar comportamentos agressivos em situações que necessitem tal agressividade, fazendo com que o mesmo se culpe por isso; (b) punir a variabilidade, tentar comporta-se de maneira que não se estar habituado pode ter gerado em outras ocasiões consequências aversivas deixando a pessoa insegura ao tentar agir de outra forma. Essa punição normalmente é de origem social e, se ao longo da vida temos grande histórico de punições em ambientes que produzem punições severas, acabam inibindo a variabilidade. Comportar-se de modo preestabelecido numa instituição de ensino, religiosa e até mesmo familiar, por exemplo, de maneira cultuada dificulta o surgimento de variações comportamentais; (c) modelos significativos de comportamento pode fazer com que pessoas ajam de maneira engessada, pessoas que trabalhem num processo de fabricação totalmente eletrônico, ao serem postas para trabalharem de maneira manual uma vez que não tenha recursos eletrônicos não tem um bom desempenho, pois não lhes foram ensinados outras formas de se realizar o trabalho; (d) as variáveis motivacionais dificultam essa mudança, pessoas que se queixam sobre sua vida, podem ser incentivados por amigos, familiares até mesmo terapeuta, mas mesmo assim não fazem nada para mudar tal condição. Mesmo existindo situações aversivas, tem o comportamento mantido e controlado por reforçadores, principalmente se os reforços positivos não forem obtidos de outra maneira.

Marçal e Natalino (2006) ainda falam de uma insensibilidade às contingências, onde o controle do comportamento é mantido por regras impedindo a pessoa que ao menos tente mudar seu comportamento. Normalmente esse controle surge na sociedade ou com contato direto com a contingência, podendo ser observado, por exemplo, com um jovem que se sente reforçado positivamente com relacionamentos homoafetivos, mas não vive seus relacionamentos por “não ir para o céu”, “a família não vai te aceitar”, “homossexuais são doentes” entre outras contingências punitivas. Tais contingências passam a controlar o organismo fazendo com que ele se torne insensível as consequências naturais. Pouco treino em variabilidade comportamental durante a vida e comportamentos reforçados que mantém estereótipos sociais impedem que as pessoas ao menos tentem se posicionar ou comporta-se de forma inovadora, criativa, ou até mesmo inesperada diante do ambiente em que estão inseridos. 

5. Resiliência como uma Série de comportamentos Emitidos por Pessoas Resistentes a Extinção

Já foram discutidos diversos aspectos comportamentais que podem responder o que seria o comportamento resiliente, mais até então não falamos de uma relação que pode aparecer na relação do organismo com o ambiente que também pode responder como a Análise do Comportamento entende a resiliência que se entende por resistência a extinção.

A extinção é um processo que ocorre quando as consequências que mantém a resposta deixam de ser apresentadas, fazendo com que esse comportamento tenha uma perda gradual na sua frequência. Entretanto, a diminuição da frequência não é imediata, ocorrendo num período curto de tempo um aumento abrupto da frequência e maior variabilidade da resposta. Um exemplo prático disto verifica-se quando o comportamento de pressionar um controle remoto que esta quebrado, ou com as pilhas gastas, é mantido mesmo que não seja alcançado o resultado esperado. O comportamento que era reforçado imediatamente, seja pela troca de canal, aumento do volume ou desligamento do aparelho, não é mais reforçado e mesmo assim, por existir um condicionamento, o ato de pressionar o controle é mantido a fim de ser obter alguns desses reforços. Diante deste exemplo, pode-se começar a pensar em contingências que levem uma pessoa a não desistir diante de um diagnóstico médico ou correr atrás de tudo que perdeu numa tragédia natural. Ao se pensar nessas diferentes probabilidades de comportamento, o que ser quer na verdade responder é discutir a resistência à extinção ou em outras palavras, o tempo ou numero de vezes que organismo continua emitindo comportamentos mesmo após seus reforços terem sidos cessados. Entende-se então, que pessoas que apresentem um nível alto de resistência à extinção são nomeadas como insistentes, perseverantes, empenhados, com força de vontade, cabeça-dura, teimosos ou resilientes. Numa definição operacional, isso quer dizer que o sujeito continua emitindo comportamento mesmo sem reforçadores (MOREIRA; MEDEIROS, 2007).

Moreira e Medeiros (2007) descrevem basicamente três fatores que influenciam nesse processo de resistência a extinção: (a) o primeiro fator que os autores se referem, são os números de vezes que o comportamento foi reforçado até começar o processo de extinção, pois quanto mais o comportamento foi reforçado mais difícil será para ele ser extinto. Uma pessoa que desde criança foi reforçada pelos pais, familiares a nunca se abater diante de uma dificuldade, mesmo em ocasiões em que esteja sozinha, foi reforçado então a ter um comportamento independente, portanto ao se deparar sozinha em momentos de dificuldade continuará tendo comportamentos que busque pelo seu bem estar mesmo que não tenha nenhum reforçador; (b) O custo da resposta diante de um comportamento que é preciso muito esforço para se obter reforço, pode-se diminuir a resistência a extinção, por exemplo, um candidato teimoso que tenta uma entrevista de emprego num único lugar, mas dia após dia ele não consegue contanto com seu futuro empregador, ele parará de insistir em procurar emprego neste determinado local; (c) O esquema de reforçamento na vida de um indivíduo também torna-se um fator na resistência a extinção, alguém que foi reforçado intermitentemente, ora reforçado, ora não, ao invés de um reforço continuo, pode apresentar essa resistência. É até mais fácil extinguir o comportamento de namorado que sempre teve fins de namoros definitivos sem chance de retorno, do que de um que sempre que terminava um relacionamento por insistência acaba voltando com a namorada, ou seja, suas futuras parceiras ao tentar terminar o namoro encontrarão alguém mais resistente à extinção. Mesmo após a extinção não significa que o comportamento não possa retornar, existe a probabilidade que ele ressurja no que se chama recuperação espontânea, mas se não existir reforçadores quando esse comportamento surgir é provável que uma nova recuperação espontânea diminua muito a chance de acontecer novamente.

Nesse sentido, o conhecimento da influência dessas variáveis no comportamento do organismo nos permite conhecer o que uma pessoa faz, fez ou pode vir a fazer, assim como fatores genéticos e ambientais passados e presentes podem explicar os motivos pelos quais ela se comporta de tal forma. A complexidade do comportamento e sua evanescência o tornam um objeto difícil de ser estudado cientificamente, pois muitos fatores não são de fácil acesso e estão fora do nosso alcance. O acesso a todas às variáveis que o influenciam é muito improvável, mas isso não significa a impossibilidade da realização de uma análise (SKINNER, 1974/2002).

6. Considerações Finais

Através de todo acervo literário consultado para a construção desse artigo e os objetivos propostos, apresentou-se uma breve compreensão do que se entende por resiliência, seu histórico enquanto conceito adotado por ciências humanas e como uma filosofia comportamental pode interpretá-la. Percebe-se que o conceito de resiliência ao ser utilizado pela psicologia, descrito em vários artigos, torna-se vago, impreciso e amplo, pois utiliza um conceito físico que apenas descreve uma propriedade física que seria de elasticidade dos materiais. Diante do estudo realizado, nota-se que são vários os aspectos que descreve o comportamento chamado de resiliente, muitos são os conceitos e métodos adotados para melhor explica-lo como, por exemplo, uma capacidade inata ou algo que pode ser produzido durante a história de vida do indivíduo e que o termo aplica-se a várias situações a fim de descrever um único processo, aplicado a diversos momentos, com diferentes características. A definição do termo beira a imprecisão do que realmente ele esta querendo descrever, mas deve-se considera-lo válido na medida em que simboliza, a grosso modo, uma serie de comportamentos que resultam no que o senso comum chama de superação, capacidade de enfrentamento, adaptação, entre outros utilizados.

A adoção do Behaviorismo Radical como fundamentação teórica se justifica pela sua relevância na psicologia ao descrever processos comportamentais, sem recorrer a respostas mentalistas. Uma vez que se recorre a tal explicação, pode-se impedir uma investigação mais cientifica por simplesmente conseguirmos uma resposta mais rápida ou satisfatória.  Considera-se então que a resposta para o problema desta pesquisa será respondida, na medida em que o Behaviorismo responder ou explicar tal processo de resiliência quando esta for entendida como uma capacidade interna do indivíduo e sim, como um processo que envolve uma gama de comportamentos mediados por relações sociais, esquemas de reforçamentos e as extinções dos mesmos, variabilidade comportamental e repertório de habilidades sociais desenvolvidas ao longo da vida do indivíduo (CORCHS, 2011).

Nesse sentido, a resiliência seria muito mais do que se recuperar de um grande estrago, ela vai possibilitar ao indivíduo não só um maior conhecimento pessoal, mas fazer com que o indivíduo seja capaz de realizar em si uma analise funcional dos seus comportamentos, possibilitando maior independência e autonomia. 

Conclui-se que, o que se entende por resiliência não é só reagir bem diante das dificuldades, superar doenças, enfrentar barreiras, mas sim entender a relação do indivíduo com o ambiente, compreender sua historia de vida enquanto sujeito, fruto de uma herança filogenética, ontogênica, cultural e que irá encontrar ao longo de sua vida situações reforçadoras, aversivas, coercitivas e a maneira que o indivíduo poderá responder a esses diferentes estímulos irá determinar na sociedade a rotulação de resiliente ou não. Taboada et al (2006) falam da importância da realização pesquisas experimentais que podem ser realizadas diante de inúmeras variáveis que permeiam tal processo e estabeleçam fatores causais entre as variáveis.

Por todo o conteúdo analisado e exposto, evidencia-se que pesquisadores que se propuserem a estudar tão assunto, busquem meios que contemplem as mais diversas relações construídas na historia de vida dos indivíduos e suas variáveis. Uma pesquisa experimental que especifique os comportamentos considerados resilientes, poderá contribuir ainda mais a professores, estudantes e todos os que se interessem por tal tema. 

Sobre o Autor:

Cleberson Rafael Silva Batista - Aluno da Faculdade Santíssimo Sacramento, apresenta Trabalho de Graduação Interdisciplinar como requisito parcial para a formação em psicologia no semestre 2012.2

Sobre o Artigo:

Artigo orientado por: Paulo Henrique Barbosa do Carmo (Professor e orientador de pesquisa na Faculdade Santíssimo Sacramento, psicólogo e mestre em psicologia pela Universidade Federal da Bahia)

Referências:

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