A Importância do Brincar: um Olhar Gestáltico

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Resumo: O seguinte trabalho, primeiramente, faz um breve resgate sobre o conceito de infância e suas modificações consequentes dos processos históricos e sociais que passamos. Logo depois traz características do processo psicoterapêutico infantil com o objetivo de destacar a importância do brincar nesse processo à luz da Gestalt-Terapia. O procedimento metodológico utilizado foi revisão de literatura sobre as temáticas, utilizando-se da contribuição de diferentes autores ampliando assim as perspectivas sobre a temática na intenção de que os profissionais sensibilizem-se, percebam e proporcionem a melhor forma de cuidado para com o público infantil.

Palavras-chave: Infância, psicoterapia, Gestalt-terapia, brincar.

The Importance of Play: A Gestalt Looking

Abstract: The following work, first, makes a brief rescue on the concept of childhood and its consequent modifications of the historical and social processes that we go through. Soon after it brings characteristics of the child psychotherapeutic process in order to highlight the importance of playing in this process in the light of Gestalt-Therapy. The methodological procedure used was a review of the literature on the themes, using the contribution of different authors, thus broadening perspectives on the theme in order to make professionals aware of, perceive and provide the best form of care for children.

Keywords: Childhood; psychotherapy; Gestalt-therapy; play.

1. Introdução

Os estudos sobre a infância foram ganhando maiores proporções após os estudos e publicações de Ariés (1973), principalmente sobre a história social da infância e da família. Narodowski (1993) conceitua infância em sua tese como um fenômeno histórico e não meramente natural, e as características da mesma no ocidente moderno podem ser esquematicamente delineadas a partir da heteronomia, da dependência e da obediência ao adulto em troca de proteção. Para tese de Ariés (1973), é preciso aceitar que a infância como é  entendida hoje é inexistente antes do século XVI.

Concluímos então que o conceito de infância é construído socialmente e modificado a partir do contexto que se apresenta. É o período de desenvolvimento e descobertas que inicia desde o nascimento até o início da adolescência, onde as crianças começam a conhecer a si mesmas e a interagir umas com as outras, por exemplo, através das brincadeiras.

As diferentes épocas, contextos e até mesmo os diferentes brinquedos e tecnologias modificaram os processos e experiências na infância. Percebemos uma grande diferença na forma de se comportar e brincar das crianças de hoje comparadas às crianças de alguns anos atrás. A grama e a terra foram trocadas pelo asfalto, o pião e a pipa foram trocados pelos celulares e eletrônicos, a rua passou a ser mais perigosa e violenta, então foi trocada pelo quarto.

Para os profissionais que atuam com o público infantil é imprescindível que compreendam sobre esses processos de transformações da infância e também conheçam o percurso histórico da construção do conceito para que realizem um trabalho contextualizado, sensível e de melhor qualidade.

O brincar, que é tão característico da infância, se torna um método de grande importância utilizado na clínica psicológica infantil que tem, dentre vários outros, o objetivo de facilitar a expressão da criança. Na Gestalt-Terapia o envolvimento do terapeuta com as brincadeiras e sua aproximação com o mundo da criança é a base para a condução do processo terapêutico (AGUIAR, 2014). É na brincadeira onde expressam seus medos, emoções e sentimentos que, muitas vezes, passam despercebidos pelos adultos.

Desse modo, achamos pertinente falar sobre o brincar e como essa forma de interagir com a criança se apresenta na clínica infantil. Entendo que a criança necessitada ser olhada na sua totalidade e compreendendo o período que corresponde à infância como um período repleto de fantasias. Assim, consideramos que o brincar realizado na clínica pode carregar significados que são criados no cotidiano da criança para as brincadeiras realizadas no setting terapêutico, por tanto, faz-se importante falar sobre essa prática que compreende a autenticidade da criança em seu mundo.

2. A Construção Social da Infância

Sobre a literatura da história da infância, Ariés (1973) com seus estudos através da iconografia clássica, foi pioneiro. Posteriormente outros autores produziram estudos trazendo formas diferentes de se compreender a infância. Mas todos entendendo que os contextos e processos históricos e sociais têm bastante relevância na construção desse conceito, por isso essa variedade.

Ariés (1973) ressalta que a infância, tal qual é entendida hoje, era inexistente antes do século XVI e que a vida era igual para todos independente da idade, não existindo estágios ou fases demarcadas onde se encerra um ciclo e inicia outro. As crianças eram vistas como adultos em miniatura. Passado o curto período de dependência da mãe, logo esses indivíduos eram inseridos ao mundo dos adultos (Levin, 1997). Assim sendo expostas a todos os tipos de assuntos que eram discutidos na família, e sujeitas a realizar alguns trabalhos, como tarefas domésticas nas casas de outras famílias.

Foi somente na Idade Média que as idades ganharam importância e a vida foi dividida em seis etapas. As três primeiras etapas que inicia no nascimento até os 7 anos, dos 7 aos 14 anos e dos 14 aos 21 anos eram etapas não valorizadas pela sociedade. Somente a partir dos 21 anos que as pessoas ganhavam reconhecimento social. A quinta etapa iniciava-se após os 45 anos, nela não se tinha mais jovens, mas também nem velhos. A sexta etapa que inicia aos 60 anos e vai até a morte era chamada de velhice. (Ariés, 1973).

Podemos perceber que as crianças ainda não ganharam destaque e nem importância no contexto familiar e social. Somente, no século XVI e XVII, a criança se faz presente nas cenas de retratos de famílias. E o que antes era uma infância invisível passa agora a ser uma infância controlada. (Ariés, 1973). Isso devido a um novo pensamento trazido por Descarte que revolucionaria o pensamento sobre a infância. Agora associada a ideias de proteção, dependência e amparo. Antes as crianças eram vistas apenas como seres biológicos e agora eram vistas como seres que necessitavam de cuidados para se tornarem bons adultos. (Levin, 1997). Assim percebemos que os cuidados e preocupações com a criança ainda tinham um caráter disciplinador e moralizador, longe de ser um cuidado carregado de afeto.

Corsaro (2003 apud NASCIMENTO; BRANCHER; OLIVEIRA, 2008), fala sobre a construção social da infância que se concretiza pelo estabelecimento de valores morais e expectativas de conduta para ela. Isso foi possível a partir do século XVIII, após a escolarização das crianças e com a fundação de um estatuto para essa faixa etária.

3. O Brincar Dentro do Processo Terapêutico

As crianças têm uma forma particular de expressão e que está atrelada com a sua visão de mundo. Podem atribuir significados e sentidos de forma genuína, em suas elaborações das experiências vivenciadas, seja nas relações familiares ou consigo mesmo. Mas, muitas vezes a criança pode não conseguir elaborar sozinha, necessitando de uma ajuda terapêutica. O brincar na clínica é muito mais do que uma diversão e está para além do conhecido passa tempo favorito delas. Pode se apresentar como uma atitude com objetivos que permeiam o fazer do psicólogo numa tentativa de fazer da criança uma protagonista das duas experiências vividas. É por meio da brincadeira que o psicólogo tem a oportunidade de observar a criança em sua forma mais autêntica, pois, a criança encontra uma possibilidade de ser ela mesma no setting terapêutico.

O brincar também serve como uma linguagem para a criança – um simbolismo que substitui as palavras. A criança experiência na vida muita coisa que ainda é incapaz de expressar verbalmente, e desde modo utiliza a brincadeira para formular e assimilar aquilo que experiência. (OAKLANDER; VIOLET,1980, p.184). 

O brincar se faz importante partindo do pressuposto que a infância é uma fase onde a criança vivencia um mundo cheio de fantasias, se colocando em um plano mais abstrato que os adultos e sinalizando que é preciso estar pertinho da realidade apresentada por elas para que haja uma compreensão de suas vivências.

O processo da terapia com crianças se constitui também como um processo cheio de desafios como em uma psicoterapia com os adultos. A criança pode não querer brincar, não querer falar ou mesmo participar da terapia sem a companhia da mãe. São desafios que dizem muito do funcionamento dessa criança e da relação dela com a família. É importante que possamos entender que o vinculo a ser estabelecido, deverá acontecer de forma natural, sem que isso seja uma exigência e cabe ao terapeuta se policiar enquanto aos seus desejos frente a esse processo.

O brincar das crianças no consultório do terapeuta é proveitoso para outros propósitos além do processo direto de terapia. Brincar é divertido para as crianças e ajuda a promover a afinidade necessária entre o terapeuta e a criança. O medo e resistência iniciais por parte destas muitas vezes é drasticamente reduzido quando ela se defronta com uma sala cheia de brinquedos atraentes. (OAKLANDER; VIOLET, 1980, p.189).    

O brinquedo, seja ele qual for, é usado como um instrumento que pode gerar uma identificação ou apropriação da criança com ele. Por isso o psicólogo enxerga o brinquedo usado na terapia numa dimensão que possa estar repleta de significados e sentidos que passam a ser elaborados minimamente a partir da escolha deste.

O ato de brincar é uma das atividades realizadas pela criança, a qual é fundamental para o seu desenvolvimento (BERNARDI, 2016). É através dos jogos e brincadeiras que a criança cria um mundo imaginário, onde, para ela tudo é real, as histórias, os personagens, pois o que mais importa é a diversão. O brincar contribui para o processo de ensino-aprendizagem da criança. É através da brincadeira que a criança desenvolve a sua criatividade, aprende a respeitar o outro, aprende a ganhar, perder e empatar, controla seus impulsos sabendo esperar a sua vez de jogar, desenvolve a sua autonomia, aprende a lidar com seus medos, angústias e conflitos existenciais. É também no brincar que a criança passa a conhecer a si mesma, desenvolvendo o seu conhecimento, a aprendizagem e a socialização através do contato com os outros (BERNARDI, 2016).  

Desta forma, quando se reflete sobre o brincar e a abordagem Gestáltica, é fundamental pensar na relação que se pode estabelecer entre esse dois contextos, pautada no desenvolvimento da criança, tendo o brincar como uma forma de linguagem para facilitar a expressão e comunicação no espaço terapêutico. Neste viés, a Gestalt-terapia pode ser uma grande aliada para atingir tal objetivo de maneira efetiva, já que entende a criança como um ser único e singular, que se desenvolve nas relações e que precisa ser entendida em seu meio (NUNES &PEDROSO, 2002 apud RODRIGUES; NUNES, 2010, p.189 e 190). 

Sendo assim, a Psicoterapia Infantil é destinada para crianças e eventualmente os demais envolvidos, como os pais. Tendo como finalidade facilitar a compreensão da criança compreensão com o seu mundo, entendendo-a na sua singularidade. A Psicoterapia Infantil é mais conhecida como ludoterapia, podendo ser definida como:

Uma relação dinâmica entre a criança e um terapeuta, na qual este oferece um ambiente facilitador para a expressão e exploração de seus sentimentos, pensamentos, comportamentos e experiências através da comunicação que a criança conhece: o brincar. (LANDRETH, 2002; HOMEM, 2009 apud SILVA; LUZ, 2013, p.55).

A ludoterapia é realizada através do brincar, por meio dos jogos e das brincadeiras desenvolvidas entre o terapeuta e a criança, onde através desse contato a criança pode expor seus sentimentos dentro do setting terapêutico. Existem duas formas de se realizar a ludoterapia, ela pode ser realizada de forma diretiva ou não-diretiva. Na forma diretiva o terapeuta irá conduzir a sessão escolhendo os brinquedos e os assuntos os quais serão abordados com a criança de acordo com o que já foi repassado para ele nas sessões anteriores. Já na ludoterapia não-diretiva o terapeuta apenas acompanha a criança em suas escolhas, observando o comportamento da criança em relação ao que ela irá fazer durante a sessão (BERNARDI, 2016).

O brincar é um meio de comunicação, pelo qual a criança sai de uma situação centralizada em um objeto, para torná-lo um mediador entre ela e seu mundo. No ato de brincar há inúmeros aspectos que caracterizam o ser e o estado de cada criança, das suas emoções, dificuldades, vivências, formas de ver e relacionar-se com o mundo e do seu estado de desenvolvimentos físico, mental e emocional. Desta forma, a utilização de recursos lúdicos tem o intuito de facilitar o seu processo de desenvolvimento tanto interior como exterior (CENPEC, 2009 apud RODRIGUES; NUNES, 2010, p.191). 

Desta forma, em relação à comunicação na Ludoterapia, esta pode ocorrer de forma verbal ou não verbal. A forma verbal ocorre por meio de devoluções em forma de diálogo realizadas entre o terapeuta e a criança, onde, neste contato, o terapeuta terá mais conhecimento a respeito das experiências e expressões verbalizadas pela criança durante o ato de brincar. Já a forma não-verbal ocorre através da observação e da interpretação que o terapeuta faz em relação aos olhares, as expressões faciais, os gestos, a postura corporal e até pelo silêncio que a criança apresenta durante a brincadeira.

Em relação ao ambiente terapêutico, para que o terapeuta consiga obter bons resultados na ludoterapia é necessário que o ambiente no qual esteja sendo realizadas as sessões seja favorável a criança, onde a relação entre o terapeuta e a criança seja de acolhimento, aceitação, coerência e respeito mútuo. Além disso, é necessário que o terapeuta fique atento em relação aos materiais utilizados durante as sessões como, por exemplo, os brinquedos e os jogos, os quais devem estar guardados em lugares de fácil acesso e que fiquem visíveis aos olhares da criança, de modo que ela possa ter a liberdade de tocá-los e assim, escolher com qual brinquedo se deseja brincar, e é justamente na escolha do brinquedo que se é possível perceber como é o comportamento da criança em relação às experiências vivenciadas por ela em casa, na escola ou em qualquer outro lugar, fora do ambiente terapêutico.

O ato de brincar não é apenas uma ação espontânea de um determinado momento, ele traz a história de cada criança, revelando seus enigmas e suas questões. É brincando que a criança revela seus conflitos, de forma semelhante à dos adultos, que revelam esses conflitos através da fala (KISHIMOTO, 1998 apud BERNARDI, 2016, p.89).

Em se tratando das regras e limites na terapia, é necessário que o terapeuta estabeleça um tempo de sessão a ser cumprido, assumindo uma postura profissional, onde através da interação com a criança ele consiga estabelecer um contrato de convivência.

Enquanto a criança se expressa utilizando o brincar, o terapeuta deve adotar uma postura de maior participação, envolvendo-se em suas produções dentro do espaço terapêutico, acolhendo-a e dando-lhe limites, aceitando seu tempo, respeitando sua autoregulação organísmica, sendo permissivo e não diretivo para propiciar que seu cliente possa expressar e libertar-se de seus problemas (AGUIAR, 2005 apud RODRIGUES; NUNES, 2010, p.191). 

Além de um ambiente favorável à criança, com regras e limites que devem ser estabelecidos no contrato feito juntamente com a criança, um ponto principal o qual é de extrema importância é o fato de que o terapeuta para trabalhar a psicoterapia infantil deve estar aberto para o público infantil compreendendo as suas singularidades e as características que são próprias da infância.

4. Considerações Finais

Consideramos que a brincadeira se apresenta como uma ferramenta que pode proporcionar para a criança uma expressão autentica dos seus sentimentos no setting terapêutico. Portanto, é compreender o seu funcionamento partindo da visão de mundo dela e entendo também que o processo de psicoterapia com crianças carrega uma complexidade que é inerente do ambiente familiar e da infância. No espaço terapêutico, através da ludoterapia a criança, no contato e no diálogo com o terapeuta, consegue desenvolver-se, tomando consciência de si mesma e da sua existência no mundo, expressando seus sentimentos, pensamentos, comportamentos e experiências adquiridas através dos jogos, brincadeiras, desenhos, pinturas e outras formas lúdicas que possam estar contribuindo para a experiência de crescimento da criança.

Sobre os Autores:

Zenaide Silva Dias -  Graduanda em Bacharel no curso de Psicologia. (Autor)

David Carlos Fernandes - Graduando em Bacharel no curso de Psicologia. (Co-autor)

Eduardo Maciel Neto - Graduando em Bacharel no curso de Psicologia. (Co-autor)

Referências:

AGUIAR, Luciana. Gestalt-Terapia com Criança. São Paulo: Editora Livro Pleno, 2005.

ARIÉS, Philippe. História social da criança e da família. 2ª ed., Rio de Janeiro: Guanabara: 1973.

BERNARDI, D. Reflexões acerca do brincar e seu lugar no infantil. Revista brasileira de Psicoterapia, v.18, n.1, p.82-92, 2016.

LEVIN, Esteban. A infância em cena. Constituição do sujeito e desenvolvimento psicomotor. Petrópolis, Rio de janeiro: Vozes, 1997.

NARODOWSKI, Mariano. Infância e poder: A confrontação da pedagogia moderna. Tese de doutorado em educação. Universidade Estadual de Campinas, 1993.

NASCIMENTO, C. T. BRANCHER, V. B., OLIVEIRA, V. F. A construção social do conceito de infância: Uma tentativa de reconstrução historiográfica. Linhas, Florianópolis, v. 9, n. 1, p. 04. 18, jan. / jun. 2008.

OAKLANDER, Violet. Descobrindo Crianças: a abordagem gestáltica com crianças e adolescentes. São Paulo: Summus, 1980.

RODRIGUES, P.; NUNES, A. L. Brincar: um olhar gestáltico. Revista da Abordagem Gestáltica, v.16, n.2, p. 189-198, jul-dez, 2010.

SILVA, A. R.; LUZ, R.M. Análise psicológica de um caso clínico infantil na perspectiva humanista. Revista Psicologia, Ano 01, Número 01, p. 54-69, 2013.

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