Grupo Psicoterapêutico com Pessoas Enlutadas: um Olhar Humanizado

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Resumo: A presente pesquisa buscou compreender como as pessoas vivenciam o momento do luto. Não se teve a pretensão de categorizar as participantes em fases, mas facilitar e compreender o enfrentamento, através da escuta ao relato e expressão de sentimentos e experiências singulares, na psicoterapia de grupo, compreendendo os diferentes sentimentos presentes nas falas, em diversos momentos. Também, examinar e refletir sobre a efetividade da psicoterapia de grupo como possibilidade de intervenção no processo de enfrentamento do luto. O foco esteve na escuta, no acolhimento e no cuidado com o sofrimento da pessoa enlutada. Também, buscou-se compreender se as participantes do grupo perceberam o grupo como propiciador de ajuda; se relataram melhora na qualidade de vida e, finalmente, se perceberam alívio da dor da perda do ente querido. O referencial teórico utilizado na facilitação do grupo foi a Abordagem Centrada na Pessoa. Como método, utilizou-se a pesquisa qualitativa, de base fenomenológica. As participantes do estudo pertencem a uma comunidade, localizada no município de São Miguel do Oeste – SC. Para formação do grupo, além do luto, teve-se, como critério, suas idades, sendo todas adultas. As participantes foram seis mulheres, com idades entre 50 e 60 anos. O grupo foi realizado no clube de mães da comunidade. Cada encontro teve duração de duas horas, realizados semanalmente, durante o período de três meses. O grupo se manteve fechado, isto é, não foi possível a chegada de novas participantes após o início dos encontros - por se considerar de suma importância para o desenvolvimento de um ambiente acolhedor e de confiança em cada participante e no grupo como um todo. Como resultado final, as participantes relatam alívio da dor, aceitação da perda, além de sentirem-se confiantes e fortalecidas. Relataram, ainda, crescimento pessoal e melhorias na qualidade de vida, além de atribuir à confiança e vivência no grupo, como essência da ajuda.

Palavras-chave: Pesquisa Fenomenológica, Abordagem Centrada na Pessoa, Grupo Psicoterapêutico, Luto, Morte.

1. Introdução

A morte é um fenômeno que pode desencadear ou gerar uma sensação de fragilidade, não só para quem está morrendo, também, para os amigos e familiares. Costuma ser um momento difícil de ser enfrentado pelas pessoas que o vivenciam.

A morte se faz acompanhar de uma tentativa de explicação e, por outro lado, fortes emoções assolam quando de seu acontecimento. Isso quer dizer que a morte não é pensada e nem pode ser descrita - não existem palavras para serem ditas. É uma impossibilidade de pensamentos e ideias - ela se torna assustadora. A própria palavra morte não consegue dar conta do que ela realmente seja. Cada indivíduo tentará associá-la a algo que manifeste ideias, crenças e fantasias e a termos tais como: “fim”; “passagem”; “encontro”; “paraíso”; “Deus” ou “reencarnação”. O indivíduo procura possíveis explicações, no entanto, essas palavras também são limitadas para descrever tudo o que se imagina e o pouco que se sabe sobre ela (KOVÁCS, 2008).

O rompimento do vínculo afetivo existente, o nível de aceitação, o tipo de morte, repentina ou não, são determinantes essenciais na elaboração da perda. (KOVÁCS, 2008). Compreender a forma como ela ocorre pode influenciar diretamente no enlutado. Kovács (2008), afirma que a morte, como limite, nos ajuda a crescer, também, é dor. Isto nos faz pensar que quando ocorre uma perda devido a alguma doença degenerativa, ou uma morte natural e esperada, o indivíduo possui um tempo maior para se preparar e até aceitar gradativamente a partida do ente querido. Aceitar o real, porém, nem sempre é fácil, principalmente quando a realidade pede que se aceite a perda daquele que amamos.

Parkes (1998) define como traços característicos dos processos de luto - a procura do alívio. Segundo o autor, o luto é uma resposta natural a uma experiência estressante na vida dos seres humanos - todos acabam vivenciando tanto a experiência estressante quanto o luto. O enlutado sente muita saudade da pessoa que morreu, chora ou chama por ela. (PARKES, 1998). Os episódios de dor começam algumas horas ou dias após a perda e chegam ao máximo entre cinco e catorze dias. De início são frequentes, mas, conforme o tempo passa, tornam-se menos frequentes e ocorrem somente quando provocados por algum estímulo que traz a perda à memória, como exemplo, encontrar uma fotografia em uma gaveta ou um amigo comum, lembrar-se de algo que a pessoa gostava, acordar só em uma cama de casal - são acontecimentos que levam à crise de dor ansiosa. (PARKES, 1998).

Este processo vem acompanhado pelo luto, que pede aceitação da realidade para viabilizar sua elaboração, resignificando o conceito de amor. Uma intensa jornada se inicia - é necessário o desapego daquele que a morte retirou do convívio. Para Parkes (1998), esta realidade pode colocar em risco a saúde mental do indivíduo em algum momento e, nesses casos, existe a necessidade de acompanhamento psicológico.

Considerando a teoria sobre o processo de luto e a complexidade dos sentimentos que podem emergir na pessoa que vivencia uma perda, a presente pesquisa buscou compreender, com maior profundidade, como as pessoas vivenciam o momento do luto. Não se teve a pretensão de categorizar as participantes em fases do luto, mas facilitar e compreender o enfrentamento, através da escuta ao relato e expressão de sentimentos e experiências singulares, na psicoterapia de grupo. Verificando quais sentimentos estiveram presentes nas falas, em diversos momentos, também, examinar e refletir sobre a efetividade da psicoterapia de grupo como possibilidade de intervenção no processo de enfrentamento do luto.

Portanto, o foco deste estudo esteve na escuta, no acolhimento e no cuidado com o sofrimento da pessoa enlutada, como auxilio ao enfrentamento da dor da perda. Também, buscou-se compreender se as participantes do grupo perceberam o grupo como propiciador de ajuda; se relataram melhora na qualidade de vida e, finalmente, se perceberam alívio da dor da perda do ente querido.

2. Fundamentação Teórica

2.1 A Morte

A morte sempre inspirou poetas, músicos, artistas e até mesmo os homens comuns. Desde o tempo dos homens das cavernas, há inúmeros registros sobre a morte como perda, rupturas, desintegração e degeneração, também, como fascínio, sedução, uma grande viagem, entrega, descanso ou alívio (KOVÁCS, 2008).

A morte faz parte do desenvolvimento humano desde a mais tenra idade. Segundo Kovács et al. (2008), a morte é caracterizada pelo mistério e incerteza, consequentemente, pelo medo daquilo que não se conhece – pois, os que a experimentaram, não tiveram chances de relatá-la aos demais. Todos esses atributos da morte desafiaram e desafiam às mais distintas culturas – buscam-se respostas nos mitos, na filosofia, na arte e nas religiões -  buscaram-se pontes que tornassem compreensível o desconhecido, a fim de remediar a angústia gerada pela morte.

Esse gasto constante de energia psicológica na tarefa de preservar a vida seria impossível se o temor da morte não fosse tão constante. Em outras palavras, o temor da morte está por trás de todo nosso funcionamento normal, afim de que o organismo possa estar armado em prol da autopreservação. Mas o temor da morte não pode estar presente de forma constante no funcionamento mental do indivíduo, desta forma, o organismo não poderia funcionar. Podemos compreender que o temor da morte está sempre no funcionamento psicológico, também, em nossa vida consciente. (BECKER, 2015).

2.2 Luto

O luto é um processo que se inicia após a perda, é um conjunto de sentimentos de pesar ou dor que experimentamos na presença da morte do outro. Alguns definem luto como uma onda de dor e sofrimento, mágoa e medo, ira e culpa, solidão e desespero, que cobre uma pessoa quando sofre uma perda. Ao longo deste processo, quem perde, vive a tristeza da ausência e está frente ao desafio de se adaptar a uma nova realidade. (PARKES, 1998).

Segundo Parkes (1998), há também outras formas de diminuir a dor do luto, que pode levar o individuo a evitar, consciente ou inconscientemente, os pensamentos muito dolorosos ou até mesmo a dissociar a dor desses pensamentos. Umas dessas formas, talvez a mais frequente, é não acreditar que a perda tenha ocorrido: “Não posso acreditar que seja verdade”, foi o sentimento expresso e não acredita que tal fato aconteceu. O indivíduo enlutado chama e sonha com a pessoa que morreu: “É como um sonho, sinto como se fosse acordar e que tudo vai estar bem”. A descrença sobre a realidade da perda raramente é total.

Ainda, de acordo com Parkes (1998), o trabalho de luto é o processo de aprendizagem pelo qual cada mudança é progressivamente compreendida onde é estabelecido um conjunto de concepções sobre o mundo. Segundo o autor a dor do luto é:

(...) Tanto parte da vida quanto a alegria de viver; é talvez o preço do compromisso. Ignorar este fato ou fingir que não é assim é cegar-se emocionalmente, de maneira a ficar despreparado para as perdas que irão inevitalmente ocorrer em nossas vidas (PARKES, 1998, p. 22).

Em alguns indivíduos, o sofrimento da perda de alguém, é tão intensa, que no momento, não existe palavra que consiga expressar o sentimento. À medida que os dias vão passando, os enlutados perdem o gosto pelos prazeres que a vida oferece. (PARKES, 1998).  A atividade, ao longo do dia do individuo em um luto intenso, mostra mudanças notáveis. Não há lentidão na ação e na fala; ao contrário, há aceleração, inabilidade para ficar quieta, movimenta-se como se não houvesse finalidade, continuamente procurando por algo para fazer. Há, no entanto, ao mesmo tempo, uma dolorosa falta de capacidade de iniciar e manter padrões normais de atividades do dia a dia (PARKES, 1998).

Para Parkes (1998), a pessoa enlutada passa por três processos: no início, a pessoa ocupa-se com pensamentos sobre o ser perdido que, derivam da premência de procurar essa pessoa. Em um segundo momento, há dolorosas lembranças repetidas da experiência de perda, são equivalentes ao trabalho de elaboração da preocupação e precisa ocorrer se a perda não tiver sido totalmente aceita como irremediável. Por fim, há a tentativa de encontrar um sentido para a perda, para encaixá-la no conjunto de crenças sobre o mundo, ou para modificá-las, se necessário.

Algumas pessoas expressam seus sentimentos de maneira mais ou menos livre e aberta após a perda, enquanto outras tentam inibir seus sentimentos, mas tudo o quem conseguem é adiá-los, poucas conseguem passar pelos primeiros meses do luto sem expressar, em algum momento, um desespero intenso (PARKES, 1998). Contudo, pode-se afirmar que cada indivíduo reage ao luto de forma diferente, variando de acordo com sua estrutura emocional, vivências e capacidade para lidar com perdas. É fundamental que esse processo de enlutamento seja vivenciado até que ele seja superado para que a dor da perda não fique reprimida e se manifeste posteriormente como algum outro sintoma. Tal processo se dá de forma lenta e gradual, com período de duração variável para cada pessoa.

2.2.1 Estágios do Luto

Para Kubler-Ross (2008), os membros da família e os pacientes terminais apresentam alguns estágios no processo de enfrentamento da morte, os quais se observam no dia-a-dia. Estas fases foram analisadas a partir de fatos concretos, narrados por Kübler-Ross, onde podemos observar o sentido da vida a partir das próprias perdas. Nestes casos, é a própria vida da pessoa em questão.

O primeiro estágio: Negação e isolamento – a pessoa se defende da ideia da morte, recusando como realidade; num primeiro momento após o choque de tal notícia, a pessoa procura iludir-se, fazer de conta que não está acontecendo com ela; a negação à proximidade da morte é uma etapa importante para a aceitação e construção do luto:

(...) Não, eu não, não pode ser verdade. Esta negação inicial era palpável tanto nos pacientes que recebiam diretamente a notícia no começo da doença quanto aqueles a quem não havia sido dita a verdade, e ainda naqueles que vinham a saber por conta própria (KÜBLER-ROSS, 2008, p. 43).

A negação é usada por um certo tempo, e por todos os pacientes. A pessoa passa a considerar, no entanto, a possibilidade da própria morte e começa a lutar pela vida. A negação é um escudo momentâneo para se defender da situação de perda em que se encontra. A maioria das pessoas não fica estagnada nessa situação. No primeiro momento, acontece a sensação de torpor, que pode ser comparada com o luto normal, que também será superada:

Quando termina a sensação inicial de torpor e ele se recompõe, é comum no homem esta reação: “Não, não pode ser comigo”. Como somos todos imortais em nosso inconsciente, é quase inconcebível reconhecermos que também temos que enfrentar a morte. (KÜBLER-ROSS, 2008, p. 47).

O segundo estágio: A raiva - ocorre quando não é mais possível manter convicto o primeiro estágio de negação, a partir daí surgem sentimentos de raiva, revolta, mágoa e ressentimento.

Terceiro estágio: A barganha - é uma tentativa de adiamento da morte. A pessoa tenta ser bem comportada, na esperança de que isto traga sua cura. A maioria das barganhas são feitas com Deus, são mantidas em segredo ou ditas nas entrelinhas ou no confessionário. As pessoas se propõem a uma meta ou a uma promessa.

Quarto estágio: A depressão - ocorre quando já se tem consciência que a finitude está próxima – a pessoa se recolhe, vivenciando uma enorme sensação de perda.

Quinto estágio: A aceitação - é sinônimo de conformidade. A pessoa aceita a morte porque acredita que a luta acabou e o corpo já não mais resiste. Desta forma, as necessidades dos sujeitos variam, desde o início da doença até depois do óbito. 

Importante destacar que estas fases, segundo Kübler-Ross (2008), são mutáveis e não devem ser vistas como uma regra.

2.3 Abordagem Centrada na Pessoa

Aqui há uma forma de compreensão e escuta à pessoa enlutada. Há, também, uma forma de escuta ou uma abordagem a ser seguida na facilitação de um grupo psicoterapêutico.

A Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) foi iniciada por Carl Ransom Rogers (1902-1987) e denominada por ele como uma abordagem, ou seja, um jeito de ser diante de determinadas situações, uma abordagem centrada nos recursos internos da pessoa, na sua capacidade de atingir suas demandas e se desenvolver, propondo atitudes facilitadoras que constituem os meios pelos quais o psicoterapeuta proporciona, ao seu cliente, momentos capazes de promover um olhar para si mesmo e, assim, encontrar seus próprios meios, suas próprias respostas de maneira mais autônoma e responsável (ROGERS, 2004).

Essa abordagem parte da convicção de que o ser humano possui um potencial próprio que o leva ao crescimento e desenvolvimento e uma relação terapêutica que deve embasar-se na confiança e na certeza de que o cliente possui o poder e a capacidade para encontrar sua própria direção e desenvolver-se no seu próprio ritmo. Por isso, essa abordagem enfatiza que a ênfase está na relação estabelecida entre psicoterapeuta e cliente, onde a probabilidade de uma relação ser terapêutica, num caso específico, depende, principalmente, da maneira como o cliente percebe a relação (ROGERS, 2004).

2.4 Grupos de Encontros

O objetivo do grupo de encontro é: “proporcionar o crescimento pessoal e o desenvolvimento e aperfeiçoamento da comunicação e relações interpessoais através de um processo experiencial.” (ROGERS, 2002).  O grupo escolhe os caminhos que deseja seguir e decide quais assuntos e direções que deseja abordar. A responsabilidade do facilitador (psicoterapeuta), no grupo, é facilitar a expressão dos sentimentos e pensamentos por parte das pessoas e favorecer o desenvolvimento de um clima psicológico de segurança, podendo, assim, promover a liberdade de expressão de defesas por parte de seus integrantes.

No grupo, as pessoas tendem a uma maior aproximação, de forma mais verdadeira e genuína, a se mostrar para os outros e para si mesmas, com o passar do tempo e o desenvolvimento, de forma mais congruente. Durante a experiência do grupo, as pessoas têm acesso a informações e sentimentos mais íntimos que são compartilhados. Esta entrega na relação tem como consequência o desenvolvimento de maior proximidade entre as pessoas e o favorecimento de crescimento pessoal. (ROGERS, 2002).

De acordo com Rogers, (2002), com o aumento da confiança, liberdade e comunicação, surgem relações mais próximas e verdadeiras, em que sentimentos e emoções são manifestadas espontaneamente – as pessoas se arriscam a novas formas de comportamento - maior autoconhecimento e auto aceitação – levando a uma maior evolução.

Rogers (2002) apresenta algumas fases que podem acontecer no grupo. As fases descritas pelo autor, são as seguintes:

1. Fase de hesitação, de andar à volta (milling around):a proposta de um grupo não estruturado, sem direção pré-definida, pode gerar um período inicial de confusão, de silêncio e de expressão de sentimentos superficiais. O fato de estar em um grupo e não saber o que fazer, pois não foi previamente definido, pode ser frustrante e confuso.

2. Resistência à expressão ou exploração pessoais: há uma determinada resistência, nos primeiros momentos de um grupo, sobre falar de sentimentos mais íntimos - em se abrir para o grupo. As pessoas se mostram de forma parcial e de maneira mais socialmente aceitável. Como passar do tempo e o desenvolvimento da aceitação, gradualmente, vão se mostrando mais profundamente.

3. Descrição de sentimentos passados: com o transcorrer das sessões, passa a haver maior confiança no grupo e a expressão de sentimentos começa a abranger, gradativamente, maiores partes das discussões. As pessoas apresentam formas de ser diante de determinadas situações que situam em um tempo passado e fora das relações do grupo.

4. Expressão de sentimentos negativos: as primeiras expressões de sentimentos atuais, portanto, relacionados ao grupo e verdadeiros, tendem a ser negativos e voltados ao grupo, uma pessoa em particular ou ao facilitador, frequentemente, a esse último, pela não expressão de opiniões ou direções.

5. Expressão e exploração de material com significado pessoal: nesse momento há sentimentos de identificação e apropriação para com o grupo e as relações e expressões se tornam mais estreitas. A pessoa percebe que tem responsabilidade sobre o grupo, sendo que isto muda a forma de ver o grupo e ela passa a co-construir o mesmo.

6. Expressão de sentimentos interpessoais imediatos no grupo: por vezes negativas, por vezes positivas, mais cedo ou mais tarde, expressões de sentimentos imediatos às relações do grupo começam a surgir - é neste momento que o grupo começa a acontecer efetivamente.

7. O desenvolvimento de uma capacidade terapêutica no grupo:pessoas no grupo podem desenvolver capacidades naturais e espontâneas para tratar de modo útil, simples e terapêutico, as demandas dos outros. Não é necessário ser psicólogo para proporcionar momentos terapêuticos para ou outros. Essas capacidades desenvolvidas no grupo podem ser levadas para a vida de seus integrantes.

8. Aceitação do eu e começo da mudança: quando as pessoas passam a se aceitar, inicia-se um processo de mudança - de maior ou menor profundidade de acordo com cada pessoa.

9. O estalar das fachadas:o grupo passa a não suportar defesas por parte de seus integrantes e as “máscaras” passam a ser atacadas pelo mesmo, tendendo a serem deixadas pela pessoa.

10. O indivíduo é objeto de reação (feedback) por parte dos outros: em meio aos processos grupais, a pessoa passa a receber uma série de dados referentes ao modo como é sentida pelos outros.

11. Confrontação: há momentos em que o termo feedback (falar o que se pensa sobre uma pessoa) torna-se um tanto moderado para determinar as interações que podem acontecer no grupo, sendo que podem se desdobrar em confrontações de igual para igual, podendo ser positivas ou negativas.

12. Relações de ajuda fora das sessões de grupo: com o desenvolvimento das atitudes, o movimento do grupo pode se dar também fora dele, no convívio das pessoas, diante de necessidades de algum integrante.

13. O encontro básico: momento em que o grupo estabelece entre si um contato mais íntimo e direto do que fora dele. Um dos momentos centrais nas mudanças oportunizadas pelo grupo, no qual as pessoas se aproximam umas das outras de forma mais íntima e verdadeira, numa relação de pessoa para pessoa.

14. Expressão de sentimentos positivos e intimidade: com o cultivo da confiança e da verdade no grupo, cria-se uma relação de crescente calor humano e afeto que resulta em sentimentos positivos e na expressão destes ao grupo.

15. Mudanças de comportamento no grupo: como resultado das vivências em grupo, se percebe uma maior aproximação entre seus integrantes e relações mais verdadeiras - desenvolve-se uma capacidade de solicitude e ajuda de uns para com os outros.

2.5 O Facilitador

O facilitador de grupos de encontro atua de acordo com as atitudes da Abordagem Centrada na Pessoa, promove um ambiente psicológico propício ao crescimento das pessoas, aceita o grupo da forma como ele é no momento em que se encontram, aceita as diferenças individuais de cada pessoa que constitui o grupo e se propõe a entender os significados comunicados pelas pessoas ou facilitando que essa comunicação possa ser expressa para o grupo e assim ser trabalhada. É o mais transparente possível diante do grupo, de maneira a desenvolver, no mesmo, a confiança de que necessita para fazer o seu movimento. (ROGERS, 2002).

A responsabilidade do facilitador (psicoterapeuta), no grupo, é facilitar a expressão dos sentimentos e pensamentos por parte das pessoas e favorecer o desenvolvimento de um clima psicológico de segurança, podendo assim promover a liberdade de expressão e a redução progressiva e diminuição de defesas por parte de seus integrantes. (ROGERS, 2002 p.08).

Rogers descreve que, com o passar dos encontros, um potencial terapêutico desenvolve-se no próprio grupo, fato que se evidencia nas trocas que acontecem entre as pessoas, na sensibilidade de alguns em colocar as palavras e sentimentos certos nos momentos certos. O facilitador desenvolve uma relação de igualdade perante o grupo que lhe permite expressar sentimentos e dividir experiências. Segundo Rogers (2002), as pessoas possuem “um inacreditável potencial de ajuda que reside, habitualmente, na pessoa não treinada, desde que tenha a liberdade de aplicá-lo”. Esse fato coincide com um declínio da atividade por parte do facilitador, pois com o desenvolvimento das atitudes nas pessoas, o grupo adquire um caráter terapêutico por si só.

3.Método

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de base fenomenológica. Foi criado um grupo psicoterapêutico, com participantes que estavam vivenciando o luto resultante da perda de um ente querido. As participantes pertencem a uma comunidade localizada no município de São Miguel do Oeste – SC. Para formação do grupo, além do luto, teve-se, como critério, a idade das participantes, isto é, todas adultas. As participantes foram todas mulheres, com idades entre 50 e 60 anos. O grupo foi realizado no clube de mães da comunidade. Cada encontro teve duração de duas horas, realizados semanalmente, durante o período de três meses. Participaram do grupo seis mulheres – o grupo se manteve fechado, isto é, não foi possível a chegada de novas participantes após o início dos encontros - por se considerar de suma importância para o desenvolvimento de um ambiente acolhedor e de confiança em cada participante e no grupo como um todo.

Para a coleta de dados resultantes da vivência das pessoas no grupo, foram utilizadas entrevistas individuais ao final do processo grupal.  As entrevistas foram realizadas a partir de uma pergunta aberta: Como foi para você ter participado deste grupo? As entrevistas foram gravadas e, posteriormente, transcritas de forma literal, para posterior análise.

Além das entrevistas com cada participante, a pesquisadora e facilitadora do grupo fez um relato, ao final de cada encontro, descrevendo como foi vivenciado o grupo em cada momento, incluindo, também, a Versão de Sentido. Os dados foram coletados nos diferentes momentos e foram analisados seguindo critérios estabelecidos pela pesquisa fenomenológica.

A pesquisa fenomenológica pode ser percebida como um modo mais adequado de estudo para investigar o mundo vivido, mostra-se mais próprio para as questões humanas. O método fenomenológico preenche os critérios fenomenológicos porque é um método descritivo, utiliza a redução fenomenológica, procura a essência do fenômeno e presume uma relação intencional entre o sujeito e o objeto da experiência. Este método também preenche aos requisitos científicos porque produz conhecimento metódico, sistemático, crítico e potencialmente intersubjetivo. Também são preenchidos os critérios psicológicos, porque a análise das descrições ocorre dentro da perspectiva psicológica, buscando-se essências psicológicas. (GIORGI, 2001).

Esta pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa. Guiou-se pela Resolução nº 466/2012, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que estabelece as normas para pesquisas envolvendo seres humanos. Em vista disso, como etapa primordial, houve aprovação da proposta pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, da Universidade do Oeste de Santa Catarina – UNOESC, com CAAE de número 72855317.6.0000.5367 e parecer de número 969078. Para resguardar a identidade das participantes, utilizou-se a seguinte forma: M1, M2, M3, M4, M5 e M6.

3.1 Versão de Sentido

Segundo Amatuzzi (1991, 1993), Versão de Sentido são relatos breves e livres, escritos imediatamente após a sessão - são estratégias que permitem que se veja mais claramente algo do não-dito e que talvez pertença ao fio da meada do processo no seu todo. Também, possibilitam que o facilitador obtenha uma visão global do processo num âmbito mais restrito de olhar, isto é, em poucas páginas, o que não aconteceria com gravações de todas as suas sessões.

A versão de sentido é utilizada para analisar processos terapêuticos da Abordagem Centrada na Pessoa, Abordagens Humanistas e Fenomenológicas. A versão de sentido não é um relato de sessão, “mas uma tentativa de dizer a experiência imediata do terapeuta enquanto pessoa naquele momento e enquanto ainda referida à sessão que acaba de terminar.” (AMATUZZI, 1995).

O mesmo autor sugere quatro características para os relatos das versões de sentido:

1. Por tratarem da experiência do terapeuta ao final da sessão, os relatos das versões de sentido podem ser tanto objetivos, quanto subjetivos;

2. Constitui-se enquanto sentido captado e, ao mesmo tempo, produzido, pois o pesquisador se envolve no processo;

3. O relato é único e múltiplo, uma vez que pode se desdobrar em outros sentidos, em atos sucessivos de expressão;

4. O relato somente aparece quando seu sentido for congruente com a sua expressão.

4. Apresentação e Discussão dos Resultados

Ao iniciarmos o grupo, no primeiro encontro se misturavam vários tipos de sentimentos dentro de mim. Eu, enquanto facilitadora, não sabia ao certo o que iria acontecer e como seriam os encontros.  Ao sentar, pela primeira vez, com as seis participantes, percebi que elas tinham muita necessidade de falar e serem ouvidas. Quando falei que aquele seria o momento para que elas conseguissem falar, sem serem julgadas, que aquele momento também seria respeitado por todos os membros do grupo - os relatos vieram naturalmente. Em consequência, houve o desenvolvimento delas enquanto pessoas e cuidadoras, e o meu, enquanto pessoa e facilitadora. Meu propósito, desde o primeiro momento e durante o desenvolvimento do projeto, era, além de criar um Grupo Psicoterapêutico com pessoas enlutadas, proporcionar um ambiente de escuta, confiança e respeito, onde cada participante pudesse falar e ser compreendida pelo grupo.

Desta forma, se criou um ambiente onde se desenvolveu a confiança necessária para que o grupo começasse a se desvelar. Este ambiente de confiança e cuidado favoreceu que as participantes conseguissem desabafar, expressando suas dores e sentimentos. No primeiro encontro, as participantes trouxeram suas experiências e suas vivências para o grupo. Seus relatos foram reescritos, resumidamente, da seguinte forma:

4.1 Movimento do Grupo

4.1.1 Primeiro Encontro

No primeiro encontro, o sentimento mais presente na maioria das integrantes do grupo foi a culpa, que passou a ser compartilhada no decorrer do encontro, como um sentimento de profunda dor. Expressaram, de forma intensa, sentiram-se culpadas por diferentes razões, como se pudessem fazer algo a mais por quem se foi. A culpa por não ter percebido que algo ruim poderia acontecer esteve muito presente nos relatos, mesmo nos casos que visivelmente não tinham mais o que fazer.

Segundo (Parkes, 1998), a culpa é dirigida contra qualquer pessoa que possa ter contribuído para o sofrimento ou para a morte. No grupo, a culpa é dirigida sobre elas mesmas, isto é evidenciado principalmente no relato das participantes M2, M5 e M4.

(M2) [...]Poderia ter feito mais pela minha filha, me sinto culpada por não ter ajudado mais... Deveria ter levado ela daqui quando ela me pediu... Como não percebi que ela estava tomando aquela coisa (Acetona)...

(M5) [...] Foi engraçado porque eu mesma nunca tinha participado de um grupo...  quando você me convidou cheguei em casa e disse pra minha filha mais velha... A mariazinha me convidou pra participar de um grupo com as mulheres aqui do Bairro... Aí a minha filha me pediu que tipo de grupo... respondi que era pro trabalho da faculdade dela... sobre o luto... aí minha filha disse vai mãe quem sabe vai ser bom pra você... Aí você sai de dentro de casa um pouco... ai filha acho estranho sair sem o seu pai o que os outros vão dizer de mim... no dia que Gilberto morreu ele me pediu pra ir junto com ele no futebol mas eu não quis ir junto... me sinto tão culpada por não ter ido junto com ele... eu acho que aquele convite era uma despedida...

(M4) [...] Foram tempos muito difícil... foram dois anos de luta quimioterapia, rádio eu e minha outra irmã se revessávamos fizemos de tudo mas minha mãe não coseguiu... lembro como se fosse hoje o dia que ela me disse que estava com câncer... ela tinha muita esperança dizia que não ia morrer, que ia vencer este maltido câncer... Um dia briguei com ela porque cheguei em casa e ela tava limpando o furo da sala... aí eu disse mãe o que o médico falou pra você... aquele dia brigamos e eu fui trabalhar brigada com ela... hoje me sinto culpada... limpar a casa era a coisa que ela mais gastava... no final de semana ela foi pro Regional e não voltou mais... hoje carrego essa culpa não deveria ter brigando com ela por besteira...  

4.1.2 Segundo Encontro

Este encontro foi muito intenso, carregado de lembranças que se misturavam com uma diversidade de sentimentos, muitos momentos foram revisitados e emoções foram revividas e expressas neste encontro – raiva, saudade e vazio. Neste dia, o grupo também vivenciava um momento de sintonizar e acolheu a dor do outro, valorizando os aspectos individuais dos sentimentos de cada participante.

(M4) [...] Sentia muita raiva dos médicos e toda a equipe... tinha tanto medo pensava em bobagem me sentia culpada... não vou conseguir viver sem ela... quando minha mãe morreu me sentia muito sozinha parecia que ninguém me entendia que o mundo e as pessoas estavam contra mim... sentia muita falta de minha mãe chorava muito por ela me sentia muito culpada por não ter ajudado mais ela...

(M2) [...] Um dia no hospital (Elaine) me disse... Mãe to ficando gorda... e eu pensava não é gordura minha filha... e as enfermeira vinham e picavam ela na barriga pra ver o que poderia sair e não saia nada... Eu pensava pra que judiar ela...

(M3) [...] Tem dias que sinto muita saudades de Osvaldo... que a pior parte do dia é a noite... principalmente na hora de ir dormir... era o momento que a gente mais conversava...Osvaldo não tinha medo de morrer, ele sempre me dizia que não queria sofrer e nem incomodar ninguém...

(M1) [...] Um dia estávamos no quarto do hospital e o meu telefone tocou, e Pedro logo disse, olha já deve ser os amantes delas já sabem que estou morrendo... Quando ele morreu eu não coseguia dormir em nossa cama fiquei dias dormindo na sala... com o tempo foi que eu consegui voltar pro nosso quarto...

(M6) [...] Sabe, a gente não se falava muito... mas quando ele morreu sentia muita falta dele... mesmo a gente não se falando eu sabia que ele estava aqui... quando eu acordava sabia que ele tava em casa. A minha (filha) com outro homem ela gostava muito dele... foi ele quem a criou... que deu amor... pra ela  ele era um bom pai, e ela sofre muito e sente a falta dele...

(M5) [...] Foi engraçado porque eu mesma nunca tinha participado de um grupo... quando você me convidou cheguei em casa e disse pra minha filha mais velha... A mariazinha me convidou pra participar de um grupo com as mulheres aqui do Bairro... Aí a minha filha me pediu que tipo de grupo...respondi que era pro trabalho da faculdade dela... sobre o luto... aí minha filha disse vai mãe quem sabe vai ser bom pra você... Aí você sai de dentro de casa um pouco... ai filha acho estranho sair sem o seu pai o que os outros vão dizer de mim... no dia que Gilberto morreu ele me pediu pra ir junto com ele.

4.1.3 Terceiro Encontro

Além do movimento de grupo, comecei a perceber que coexistiam processos de desenvolvimento individuais das pessoas e da facilitadora. A medida em que o grupo acontece, me percebo mais segura, com menos preocupação e avaliações internas sobre ser uma boa terapeuta, e me senti mais inteira com as pessoas. Percebo que, ao mesmo tempo em que vivo o meu processo, as integrantes também demonstram maior abertura e aceitação de seus próprios sentimentos. Expressam sentimentos hostis, por vezes confusos, mas sempre carregados de muita dor, tristeza e solidão no enfrentamento desta dor. O vazio, a raiva, a tristeza e a saudade, se revelam como um intenso sofrimento. Compartilharam olhares, lágrimas, compartilharam, também, solidão e silêncios. O grupo passou a ser facilitador dos próprios processos, criou-se um ambiente de aceitação, que favoreceu a expressão de sentimentos incômodos e dolorosos.

(M1) [...] Foi muito difícil - minha filha chorava muito, dizia sentir falta do pai... e eu não podia chorar na frente dela, tinha que me mostrar pra ela que eu estava forte... e que ia dar tudo certo... um dia tentei dar uma roupa do pai dela para um homem que estava precisando... Ela (filha) me xingou  e disse: mãe, como você pode fazer isso com o meu pai... essa roupa é dele, se você não quer, guarda no seu roupeiro, deixa que eu guardo no meu... nunca mais dei uma peça pra ninguém, tá tudo lá... A hora que ela quiser dar, ela que dê... porque eu não vou mais mexer lá, nunca mais...

 (M2) [...] Hoje estou um pouco triste... acordei e fui cedo no cemitério... eu não acredito que ela está lá. Chorei muito... tem gente que me fala que não é pra mim chorar porque minha filha não consegue descansar... mas a dor é tanta que não consigo me controlar... tem pessoas que me dizem: vai num centro espírita,  que lá vai me fazer bem... já outras, me dizem pra mim me pegar a Deus - ele vai te dar força pra continuar essa caminhada...

(M4) [...] Eu ia dormir pensando nela, e chorando por ela e me perguntava... onde ela poderia estar naquele momento... Porque ela havia me deixando? ... muitas vezes passava a noite inteira chorando, os meus dias não tinham graças e nem as pessoas... queria só ficar em casa no meu quarto, sozinha... nada tinha graça...

4.1.4 Quarto Encontro

A partir do momento em que a confiança e a escuta existem no grupo, passa a acontecer um compartilhamento de situações e sentimentos entre as pessoas, além da liberdade para se expressar, sendo que se cria um espaço de cuidado mútuo. Rogers (2002) descreve o momento em que acontece a “aceitação do eu e começo da mudança”, quando se inicia um processo de mudança de maior ou menor profundidade, de acordo com a pessoa.

A aceitação e o respeito entre os membros do grupo foram essenciais condutores de mudança. Criou-se um ambiente de escuta e atenção para com as participantes, que propiciou o desabafo e o sentimento de alívio. Percebo que já não estão mais expressando raiva, o espaço é preenchido com diversas lembranças. Resgatam-se, em memórias, momentos agradáveis compartilhados, seguidos da saudade da presença e do convívio com a pessoa que e morreu.

(M2) [...] Às vezes, a Amanda Pede pela mãe - aí eu não sei o que dizer... porque a Amanda já é uma mocinha, não adianta a gente tentar disfarçar... Ela precisa da mãe e sente falta dela, elas eram muitas amigas... Hoje olho pra minha neta e vejo a minha filha... Amanda tá cada vez mais igual a mãe (Elaine)...

 (M3) [...] Osvaldo tinha muito ciúme de mim... eu não entendo, eu nunca dei motivo pra ele sentir esse ciúme... As vezes me fazia prometer que nunca iria me casar novamente... hoje sinto falta dele... o que adiantou eu me fazer de durona pra ele... Eu sonho muito com ele, os meus filhos falam: mãe, porque você não sai mais... Eu nunca fui uma mulher de sair, sempre fui muito caseira. Osvaldo não gostava de sair, aí eu me acostumei a ficar em casa, com ele...

4.1.5 Quinto Encontro

O grupo psicoterapêutico resultou também na união das integrantes – desenvolveu-se uma aproximação maior entre as pessoas. Ampliando-se o e espaço de cuidado e troca, onde histórias se entrelaçam, possibilitando um aprofundamento nas relações, o fortalecimento de vínculos e a promoção de crescimento e transformação do grupo e das pessoas que participavam.

No momento em que se sentem à vontade e livres, as pessoas passam a se aceitar e se mostrar como de fato são, inclusive para si mesmas, esse é um momento pontual do crescimento pessoal. Rogers (1997), afirma que, quando uma pessoa experimenta a relação terapêutica pautada nas atitudes facilitadoras, passa a se aceitar como é, conhece-se melhor e passa a ser mais congruente com relação e com ela mesma.

Desde seu início, o grupo tem tomado sua própria direção. A cada dia se mostravam mais abertas para crescer e se desenvolver, em movimentos particulares integrados ao movimento do grupo. Estou segura de que as participantes realmente estão vivenciando um processo terapêutico, se mostraram como realmente são, sem o medo de serem julgadas.

(M1) [...] As vezes eu me pergunto... o que o Pedro falou pro Kiko no dia que ele morreu... penso que ele pediu pro kiko não deixar eu namorar, porque o Pedro sempre teve ciúmes de mim... as vezes me sufocava com aquele ciúme... eu ainda  tenho tudo guardado do Pedro por causa dos meus filhos, que não querem que eu dê nada... É bem complicado quando a gente pensa em dar algo da pessoa que morreu e os filhos não deixam... eles acham que a gente já esqueceu... mas eu nunca esquecerei dele - ele foi o meu primeiro amor e o pai dos filhos.

 (M2) [...] Minha filha sempre me dizia que, se um dia ela não estivesse mais aqui, era pra mim cuidar da Amanda... Parecia que ela sabia que não ia ficar muito tempo com nós... Eu sempre brigava com ela por causa da bebida, mas ela dizia que não era viciada, que tomava pra esquecer os problemas.

4.1.6 Sexto Encontro

Segundo Rogers (2002), umas das evoluções mais frequentes de um grupo é o sentimento de confiança, que começa lentamente a construir-se, e também um sentimento de calor humano e empatia pelos outros membros do grupo. Somente aos poucos se torna evidente que o objetivo principal de quase todos os membros do grupo é encontrar caminhos para a relação com outros membros do grupo e consigo próprio. Quando isso acontece, os participantes sentem uma aproximação e intimidade que nunca sentiram, nem mesmo com os respectivos cônjuges ou membros da família, porque se revelaram aqui, de modo muito mais profundo e completo, do que com as pessoas do seu círculo familiar.

No decorrer dos encontros, as participantes expressavam o quanto era importante ter com quem dividir a angústia e, além disso, saber que existem outras pessoas com sentimentos e questionamentos parecidos.

A confiança entre elas foi crescendo e se intensificando gradativamente, depois de alguns encontros, muitas das participantes do grupo já se sentiam mais fortalecidas para falar sobre a perda, pareciam seguras de que neste espaço poderiam falar sobre suas dores sem qualquer barreira que pudesse impedi-las de serem elas mesmas. As falas a seguir retratam este momento vivido e como conseguem agora levar a vida de forma mais leve e fluída.

(M1) [...] Hoje eu aceito melhor a morte de Pedro vou tentando levar a vida... aprendi a sair com as minhas amigas... coisa que jamais imaginaria tá fazendo, faço academia e cuido do mercadinho que o Pedro gostava muito então hoje eu tento preservar a memória dele cuidado de mim e de nossa família... brinco muito com o nosso netinho que quando ele morreu o Bruno era um bebezinho, e é isso.

(M2)[...] Depois de estar aqui e ver que tem gente que sofre como eu, percebi que minha filha também está sofrendo por perder o pai e não conversava sobre isso. Agora sei que é melhor conversarmos e ajudar uma a outra.

(M3) [...] “Hoje eu não me sinto culpada porque eu fiz o que podia por ele... Hoje eu choro de saudade, porque Osvaldo era um homem bom - aprendi muito com ele... Em um dia como o de hoje, ele ficava tomando chimarrão e conversando com a vizinhança inteira... Eu acho que o Osvaldo gostaria que eu lembrasse dele assim... assando uma carninha, conversando com os vizinhos... Desde que comecei a participar do grupo e falar das minhas dores e tristezas, comecei a me conformar... mas antes eu achava que, se eu não chorasse  por ele,... ele poderia ficar triste e achar que eu estava esquecendo dele... Mas hoje eu sei que ele não ia gostar de me ver triste e chorando pelos cantos porque Osvaldo era um homem bom”

(M2) [...] Às vezes eu tô sentada na cozinha e Amanda está fazendo a tarefa da escola... Eu penso... minha neta tá cada vez mais parecida com a mãe... Eu acho que onde a Elaine está, ela deve tá feliz porque a filha dela está cada vez mais linda... Penso que Deus levou Elaine de mim mas deixou a Amanda comigo pra me dar força... Quando resolvi participar do grupo, eu achava que era pela Amanda... Mas depois eu vi que não era pela Amanda, mas era por mim mesma.

Nos últimos encontros foram discutidos os ganhos que os encontros em grupo trouxeram, assim como questões sobre o futuro. Todas demonstraram aceitação e relataram que agora se percebem confiantes e fortalecidas.

O último encontro foi de encerramento e despedida, foi realizado um fechamento, organizado a partir da iniciativa e cooperação das participantes do grupo. O encerramento aconteceu de forma leve e tranquila, com a expressão de sentimentos positivos: as participantes parecem satisfeitas com elas mesmas e com o grupo, valorizando o espaço de cuidado.

Rogers (2002), define esta aproximação e união entre as participantes como “o encontro básico”, momento em que o grupo estabelece relações mais verdadeiras e mais próximas, uma relação de pessoa para pessoa. A vivência, a responsabilização do grupo pelo seu movimento, foram pontos que se construíram de forma natural e resultou em relações mais significativas e mais profundas.

M3 [...] Pra mim foi muito importante... porque eu consegui falar aquilo que eu sentia... pra mim foi bem legal, e escutei.... ouvi aquilo que as outras falaram também cada uma tem um sentimento... o que eu passei foi bem triste e eu sinto isso sempre... tem dias que eu sinto muita saudades, mas eu penso eu fiz eu pude... tento pensar nas coisas boas... e não das ruins... e do grupo também  cada uma falou do seus problemas... cada uma encara de uma maneira e outras de outras maneira... cada uma tem um jeito... pra mim foi bem legal e importante ter participado do grupo.... eu até estou fazendo academia das segundas-feiras pela manhã e a Dona Maria... descobri uma amigas... 

(M1) [...] Em nome do grupo todo eu queria agradecer você Maria por ter nos ouvido e por ter cuidado da gente e se importado com as nossas angustias... nunca ninguém me ouviu sempre chorei, muitas vezes sozinha. Muito obrigado por você ter olhado para nos de uma forma que ninguém tinha olhado...

Fica evidente que as participantes do grupo antes se encontravam em processo inicial de luto e necessitavam de acompanhamento psicológico. Constata-se que elas apresentavam-se mais queixosas, principalmente em relação à culpa – que era o sentimento mais latente naquele momento.

Confirma-se, com a realização deste grupo, que a vivência do luto é complexa e abarca sentimentos intensos e difíceis de serem traduzidos pela pessoa que o vivencia, percebe-se o quanto é importante ter um amparo psicológico para ajudar as pessoas em seus sofrimentos. Observa-se a angústia e tristeza em todos os relatos. O tempo é algo que pode ajudar na elaboração do luto, no entanto, o tempo, por si só, não parece ser o suficiente. É necessário o compartilhamento de vivências. A superação do luto também vai depender da subjetividade e da história de vida de cada participante. Com relação aos estágios de Kuller-Ross, observou-se a manifestação de todos eles durante os encontros, porém o sentimento mais frequente parece ter sido a culpa.

4.2 O que Relatam as Participantes Sobre suas Vivências

Após os encontros, foram realizadas entrevistas com cada participante, a partir de uma pergunta aberta: Como foi, para você, ter participado deste grupo? Esse momento foi muito importante porque elas forneceram depoimentos profundos ao falarem sobre o grupo, também, trazem sua visão de como foi participar do mesmo e o que este proporcionou a elas, enquanto pessoas e participantes do grupo.

M1 [...] Foi bem bom, gostei de ter participado do grupo....  Deu pra gente trocar experiências... e as coisas difícil não são só pra mim...que existe pessoas também vivendo essa mesma dor bem perto de mim...conversamos bastante, cada uma com os problemas, uma ajudando a outra tentando superar... não é fácil, mas com a conversa de cada uma me fez entender que isso também é natural, é normal... que cada uma precisa superar...e que um dia vai minimizar um pouco...esquecer não... mas com o tempo a gente se acostuma com a ideia...mas continua vivendo...

M5 [...] Eu nunca participei de um grupo, nem sabia como ia ser... Mas depois, que participei, achei interessante, troquei ideias, aprendi que é muito bom a gente compartilhar com alguém o nosso sofrimento... Toda vez que eu ia, me sentia mais aliviada, parecia que eu tirava das minhas costas um peso.... Porque eu me perguntava - será que eu cuidei bem de minha mãe.... e o grupo me fez ver que eu tinha cuidado bem dela, que podia ficar tranquila e viver em paz....

M1[...] Gostei muito mesmo de ter participado do grupo... E não imaginaria que a gente poderia mudar tanto em tão pouco tempo.... me senti bem com o grupo e fiquei a vontade pra falar...

M6 [...] Eu participo no caps de um grupo, mas lá a gente não fala das nossas dores, de como viver... A gente faz outras coisas... Eu achei bem legal e importante... lá no caps nunca ninguém perguntou como eu tava me sentido sem o Waldemar... No grupo, a gente se conheceu melhor e também descobri que tenho vizinhas que também sofrem no mesmo problema - a perda de alguém da família.

Durante o percurso das entrevistas individuais percebi que muitas mudanças haviam acontecido - que suas vivências, no grupo, proporcionou crescimento para todas. As participantes trazem suas percepções sobre estes aspectos, o que demonstra uma valorização do momento terapêutico e o desejo de que haja continuidade do processo:

M2 [...] Achei legal ter participado, consegui falar o que me incomodava... Aprendi com o grupo que podemos confiar nas pessoas... O grupo me ajudou a entender que eu não sou a única que perdeu alguém querido... Pra mim foi legal - se tiver novamente gostaria de participar de novo.

M4 [...] Desde que o Gilberto morreu, eu não sai mais... Só saio pra ir trabalhar e volto pra casa... e participar do grupo me fez ver que eu posso continuar vivendo...  até os meu filhos falaram que eu mudei depois que comecei a participar do grupo... foi legal mesmo... pena que acabou.

A expressão de sentimentos durante os encontros e o acolhimento do grupo, proporcionou conforto para as participantes. Muitas julgavam seus sentimentos como sendo anormais - após ter participado do grupo, o luto passa a ser visto como um processo natural. As participantes se sentiram melhor e mais aliviadas. Além de poderem dividir sua angústias com outras pessoas, que passam por situações muito parecidas - perceberam que o grupo ajudou no enfrentamento da dor da perda.

As participantes também relatam que jamais tiveram confiança em poder dividir seus sentimentos e suas angústias com pessoas que não tinham intimidade. Se evidencia, igualmente, que cada participante do grupo melhorou a qualidade de vida a partir do alívio da dor da perda do ente querido.

Como resultado final, as participantes relatam alívio da dor, aceitação da perda, além de sentirem-se confiantes e fortalecidas. Relaram, ainda, crescimento pessoal e melhorias na qualidade de vida, além de atribuir à confiança e vivência no grupo, como essência da ajuda.

5. Considerações Finais

Quando iniciei esse trabalho, não imaginei que tomaria as proporções que tomou, tanto para mim quanto para as participantes do grupo. É evidente que existiram objetivos e que eles foram alcançados. Posso afirmar, ao concluir este trabalho, que os resultados realmente superaram minhas expectativas.

Rogers (2002) afirma que, nos grupos de encontro, umas das evoluções mais frequentes tem relação aos participantes, que sentem uma aproximação e intimidade que nunca sentiram, nem mesmo com os respectivos cônjuges ou membros da família – parece que se revelaram aqui de modo muito mais profundo e completo do que com as pessoas do círculo familiar.Neste trabalho, percebi que, aos poucos, esta teoria se materializou. Tornou-se evidente que o objetivo principal, de quase todos os membros do grupo, foi encontrar caminhos para a relação com outros membros do grupo e com elas mesmas.

Dentre os objetivos do trabalho estavam essencialmente descritos a melhoria na qualidade de vida e o alívio da dor da perda do ente querido, para minha surpresa, o grupo foi além, descreveu a importância da expressão de sentimentos positivos e intimidade com o cultivo da confiança e da verdade no grupo. Criou-se uma relação de crescente calor humano e afeto, que resultou em sentimentos positivos na relação com as pessoas e, como fruto, houve uma aproximação, um entrosamento no grupo - as pessoas se aproximam umas das outras, de forma mais íntima e verdadeira numa relação de pessoa para pessoa.

Além de elas terem se tornado um marco na minha formação, sem dúvida, tornaram o Trabalho de Conclusão de Curso, a minha melhor experiência desta graduação. Sinto como se tivesse passado os três anos anteriores me preparando para esta experiência.

O que de fato me surpreendeu, foi que desde seu início, aconteceu uma entrega entre os membros do grupo, percebo que do início ao fim dos encontros, as participantes realmente vivenciaram um processo psicoterapêutico. Re-escreveram aspectos fundamentais da teoria de Rogers, e é importante ressaltar: sem nenhum conhecimento prévio em relação à Abordagem Centrada na Pessoa. Depois de concluído o grupo, verifico os objetivos delimitados no projeto, e afirmo que foram alcançados. Portanto, posso afirmar que o grupo sobre o tema abordado, obteve êxito e que esta teoria se mostrou muito eficaz na compreensão e acolhimento dos sentimentos vividos pelas pessoas enlutadas - propiciando um momento de lidar com sentimentos que, de certa forma, estavam bloqueados no seu desenvolvimento. Agora as participantes parecem conviver com a perda de forma mais leve, que também significa continuar o processo da vida com mais fluidez e abertura a novas experiências e descobertas.

Sobre as Autoras:

Maria Aparecida Dávila - Acadêmica do curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina – Campus São Miguel do Oeste – SC.

Verena Augustin Hoch - Mestre em Psicologia pela Pontífica Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, Professora do curso de Psicologia, Coordenadora do Serviço de Atendimento Psicológico – SAP da Universidade do Oeste de Santa Catarina – Campus de São Miguel do Oeste – SC.

Referências:

AMATUZZI, M.M. O sentido-que-faz-sentido: uma pesquisas fenomenológica no processo terapêutico. Psicologia: Teoria e Pesquisa. 1991, vol 7, nº PP.1-12.

BECKER, Enest. A negação da morte: Uma abordagem psicológica sobre a finitude humana. 7º edição. Rio de Janeiro: Record, 2015.

GIORGI, Amadeo. Método psicológico fenomenológico: alguns tópicos teóricos e práticos. Educação, Porto Alegre, Ano 24, n. 43, p.133-150, abr. 2001.

KOVÁCS, M. J.  Morte e Desenvolvimento Humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008.

KÜBLER-ROSS, Elizabeth. Sobre a Morte e o Morrer: o que os doentes terminais têm para ensinar a médicos, enfermeiras, religiosos e aos próprios parentes. 9. edição. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

PARKES, C. M. Luto . Estudos sobre a Perda na Vida Adulta. São Paulo: Summus, 3ª editorial, 1998.

ROGERS, Carl R. Grupos de Encontro, 9ª edição, Editora Martins Fontes, São Paulo, 1902-1987.

____________. Grupos de encontro. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

____________. Tornar-se pessoa. 5.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

SANTOS, Antonio Monteiro dos; ROGERS, Carl R.; BOWEN, Maria Constança Villas-Boas. Quando fala o coração: a essência da psicoterapia centrada na pessoa. 2.ed. rev. e ampl. São Paulo: Vetor, 2004.

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