A Obscura Hipnose Global: Consentimentos Primitivos Para uma era Automática

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Resumo: A hipnose é um estado de alerta psicológica especial com características específicas como sugestibilidade, transe e baixo teor de defesas psíquicas, caracterizando um relacionamento mútuo entre hipnotizador e hipnotizado. Porém, em uma era autômata e a luz das descobertas da neurociência, grandes corporações, nacionais e internacionais, se utilizam de ferramentas poderosas geradas por essas novas conquistas científicas, do lado primitivo dos seres humanos (que nunca muda) e de seus condicionamentos automáticos evolutivos, para lançar uma "rede global" de mensagens persuasivas, subliminares ou não, com a intenção de criarem necessidades inexistentes ou implantadas nas vidas das pessoas e assim, exacerbando o consumo. Essa hipnose não consentida resulta em distúrbios patogênicos em massa, escravizando indivíduos a uma vida frenética, consumindo a maior parte de sua existência para suprirem padrões sociais atrelados às necessidades fictícias, construindo necessariamente versões de famílias neuróticas, relações socias patogênicas e um meio socioambiental desequilibrado.

Palavras Chave: Hipnose, Global, Obscura, Psicanálise.

1. Introdução

“A civilização avança ao ampliar o número de operações que podemos realizar sem pensar nelas.”
Alfred North Whitehead (Apud, Cialdini 2012, p 13).

O mundo contemporâneo com sua tecnologia que nos permite comunicação virtual e real com todo planeta, seus médicos (curandeiros) e suas técnicas admitem a doença existencial do homem nesse submudo frenético. Pessoas mais esclarecidas sobre si mesmo ou não, já evidenciaram que existe algo de muito errado em simplesmente viver, e por isso mesmo há um verdadeiro ímpeto para a procura de terapias e alternativas medicamentosas para tentar encontrar um equilíbrio no meio dessa loucura. Parece que o criador errou ao fazer um dia apenas de 24 horas. A maioria de nós tem a virtual sensação que precisaríamos de bem mais. Cobranças, restrições, metas, desejos consumistas insatisfeitos, não se coadunam e a falta de referência de um ser humano melhor nos deixa angustiados. No espelho deformado, sempre aparece o ser humano a ser copiado: prestígio e posse consomem a maior parte de nossa existência, porém o buraco n'alma permanece lá.

Grandes corporações internacionais (ou nacionais) e o própio sistema capitalista emitem mensagens subliminares ou não, que alteram nossos padrões primitivos de pensamentos, desarticulando o sentido da existência, destruindo nossa homeostasia, ou seja, o princípio pelo qual cada um está em equilíbrio físico e psíquico. Este ser humano perfeitamente equilibrado não possui necessidade de muito para sobreviver. Desse modo, um ser homeostático ou equilibrado é incompatível em um sistema que sobrevive necessariamente com a exacerbada produção. Com grande conhecimento de PNL (Programação Neuro-Linguística) e de neuroeconomia [01] essas corporações lançam, a nível global, uma espécie de transe, uma hipnose obscura, onde o homem contemporâneo parece ter sua atividade cerebral reprogramada para que sinta uma necessidade exacerbada de produção-consumo que acaba levando existência a um estado de doença crônica.

Para consumir mais e mais o self necessita estar em desequilíbrio, porém isso tem um preço muito alto: depressões, distúrbios de humor, esquizofrenia são algumas faces dessa nova construção de seres humanos. Assim, como argumenta Cardoso (2014), existir passou a ser sinônimos de doença. Cardoso (Ibiden) argumenta que a configuração desse ambiente, urbano ou não, pode influenciar modificações genéticas dos transtornos mentais. Segundo esse pesquisador, um estudo realizado em Bruxelas (Bélgica) afirmou que 28% dos pacientes com transtorno bipolar, quando não ajudados, corriam sérios riscos de vida. Ainda segundo Cardoso (2014) a significativa cifra de U$ 12,4 milhões são gastos nos Estados Unidos anualmente para o tratamento de doenças psiquiátricas. No Brasil, onde a acessibilidade para o tratamento de transtornos da personalidade é muito precário, cerca de 1% da população sofrem de esquizofrenia.

O consumo não afeta somente o ego, mas o ambiente circundante que contém essas almas. Ambiente desequilibrado físico e socialmente gera novos quadros de psicopatologias criando um círculo vicioso. Daí o argumento de Cardoso (2014) ao afirmar que a sociedade de consumo não possui sustentabilidade. Esse homem doente tem uma angústia incessante para preencher o seu tempo com atividades, buscando um sentido de sua existência simplesmente pelo ter, e não do ser (CARDOSO, ibidem). O sentido de sua existência se resume em acumulação de bens e posses. Como esses quesitos não preenche o grande vazio deixado dentro de si, à saída é acumular cada vez mais resultando um ciclo interminável de mazelas dentro e fora do self.

Sempre concordamos, ou pelo menos ouvimos falar, que o mercado funciona com o princípio da oferta e demanda. Dessa forma o sistema capitalista seria um regulador irrepreensível, onde não haveria desperdícios. Porém essa ideia é questionada por Zygmunt Bauman e Jean Baudrillar (apud CARDOSO, 2014) onde argumentam que a sociedade de consumo possui como principal característica a oferta excedendo a demanda. Se isso corresponde à realidade, a única forma de fazer a máquina em operação é modificar o padrão de consumo em cada cidadão. É nesse ponto que se torna necessário colocar em prática a difusão ou inculcação de novas necessidades para que a existência humana, ou pelo menos a sensação de felicidade seja acoplada ao consumo. Segundo Baudrillar (Apud CARDOSO, 2014), essa é a moral do mundo contemporâneo.

O mercado cria então as condições físicas e o monitoramento/controle dos meios psíquicos para que ocorra o consumo. A dilapidação do meio ambiente e a consequente queda da qualidade de vida são alguns ângulos externos de todo esse sofrimento. No ângulo interno do processo, a visão não é diferente. A hipnose do consumo nos dá a sensação que fazemos isso segundo nossas próprias escolhas, quando na realidade somos agentes, avatares manipulados de uma grande conspiração global onde no final do processo só se encontra destruição, alienação e grande frustração. O grande problema dessa engrenagem, como argumenta Cardoso (ibidem), é que o homem consome tudo e também consome a si mesmo despendendo a maior parte de sua vida para obter posses de quinquilharias que não necessitam e/ou quando adoece irremediavelmente da pseudo-vida que escolheu. Na realidade, ainda como argumenta Cardoso (2014), o ser humano torna-se mercadoria também.

A obscura manipulação possui seu sucesso garantido quando cultua o narcisismo. Dessa forma os sucessos e os fracassos são totalmente individuais. Felicidade ou infelicidade são de responsabilidade apenas de cada um, nesse contexto, nesse paradigma, esquecemo-nos de encontrar os verdadeiros culpados do caos social porque simplesmente não admitimos a sua existência. Desde crianças nos exigem um sucesso contínuo que se torna mais exacerbado à medida que avançamos para idade adulta. Os objetivos desse sucesso são acoplados ao poder de consumo. Nesse processo tem como resultado segundo Cardoso (2014), uma batalha interior entre o "eu real" e o "eu idealizado ou o mercadológico". Nessa batalha interior o "eu idealizado ou o mercadológico" assume, na maior parte dos casos, o controle da situação, mas sem possibilidade de concretizar essas expectativas, formando um ser humano superficial, com uma percepção do real muito comprometida, imediatista e como argumenta Cardoso (ibidem) com horror a velhice e a morte. Nessa configuração a morte psíquica vem antes da biológica, o falso self é submetido a uma frustração de não ter atingindo as expectativas que ele mesmo criou. A vontade se transforma em culpa, mágoa, frustração, perda de vontade de fazer atividades. Como no ambiente externo, o capitalismo agora sufoca e mata a verdadeira galinha dos ovos de ouro: o "eu mercadológico" também é destruído, e com ele toda a existência do ser.

2. Metodologia

Esse documento é baseado em levantamentos bibliográficos de livros e artigos científicos nas áreas da psicanálise, psicologia, economia e sociologia. A finalidade é demonstrar, a luz da neurociência, que a frenética existência humana pode estar ligada a uma falsa concepção de necessidade e de realidade.

3. Distúrbios Psicogênicos em Massa

Rocha A. F e Rocha F. T (2011) definem economia “como estudo de um conjunto de recursos disponíveis no ambiente para melhor promover o bem-estar do indivíduo.” Explicando de outra forma, essa ciência tem por objetivo o desenvolvimento de teorias e técnicas que permitam os indivíduos satisfazerem suas necessidades em função da escassez imposta pelo meio. A satisfação dessas necessidades compõe a homeostasia individual ou coletiva, ou seja, o equilíbrio orgânico, emocional e social. Em outras palavras, um ser em estado homeostático é aquele em perfeito equilíbrio com as entidades formadoras de sua identidade (id, ego e superego) e logicamente com o meio que o contém. Rocha A. F e Rocha F. T (2011) argumenta que um subconjunto dessa homeostasia é determinado biologicamente e está intimamente ligado com o sobreviver e o reproduzir.

Um ser humano saudável, segundo Rocha A. F e Rocha F. T (ibidem), depende do processo que envolve o equilíbrio entre sua parte emocional e racional.  Antônio Damásio (apud, ROCHA A. F e ROCHA F. T – 2011) argumenta que as emoções são um conjunto de manifestações orgânicas [02] envolvidas no processo de resposta do organismo em relação aos estímulos externos. Essas adaptações refletem as disposições sensoriais culminando em alterações orgânicas, tais como: batimentos cardíacos, frequência respiratória, entre outras. Para o organismo, essas manifestações se concretizam em prazer ou desprazer e os mecanismos de defesa (no caso das relações desprazerosas) que são acoplados a ela. A unificação dessas sensações é o que Rocha A. F e Rocha F. T chamam de estado emocional. Esse estado de equilíbrio entre a sensação de prazer e desprezar é chamado de homeostasia.

A homeostasia emocional leva a homeostasia orgânica, ou seja, o balanço equilibrado nas condições de temperatura, alimentação e saúde do indivíduo. A razão é a ferramenta pela qual, segundo Antônio Damásio (apud, ROCHA A. F e ROCHA F. T – 2011)  o indivíduo pode chegar a homeostasia plena, ou seja, a orgânica e a mental. Assim toda ação, segundo Rocha A. F e Rocha F. T (ibidem) se origina com a tentativa de alterar o estado físico e mental para realoca-lo em um novo equilíbrio homeostático. Caso essa ação seja direcionada para a aquisição de um bem ou serviço, a nossa razão começará pela procura em que resulte no melhor custo-benefício desde que o conjunto de nossas emoções esteja satisfeitas com o resultado.

O processo de sensibilidade da homeostasia não é estático, podendo variar ao longo da linha do tempo e no espaço. Em outras palavras, as necessidades que desencadeiam o processo de equilíbrio de cada ser humano variam de cultura e de acordo com a tecnologia disponível. Na medida em que o sobreviver e o procriar, em função do estágio tecnológico, se configuram como necessidades triviais e perfeitamente satisfeitas, o ponto ideal da homeostasia individual é deslocado para um contraponto onde serão alocados mais recursos disponíveis para que o bem-estar pessoal e coletivo possam se aproximar de um novo ponto homeostático.

Como já observou-se, não existe um equilíbrio homeostático universal, ou seja, aquele ponto onde todas as necessidades estarão satisfeitas. O processo é complexo. É verdade que cada ser humano é dotado por um conjunto de objetivos de necessidades biológicas, portanto universais, porém, devem se somar a esses fatores a cultura, o meio tecnológico no qual está inserido e a dispersão econômica entre as classes sociais. Assim a percepção de bem-estar ou mal estar, configurando assim a homeostasia individual (ou coletiva), dependerá das satisfações de saciedade geradas individualmente, mesmo dentro da coletividade. Rocha A. F e Rocha F. T (2011) chama de homeostasia emocional a manutenção das necessidades geradas por cada indivíduo em um dado contexto social.

Segundo Rocha A. F e Rocha F. T (2011) quando a sensação de bem-estar por um indivíduo é atingida, mesmo que a homeostasia não seja obtida, significa que homeostasia orgânica foi alcançada. Destarte, mesmo que o indivíduo não consiga obter bens e serviços com que sonhou ou espera, não gera um desconforto a ponto de deixa-lo ansioso. Isso acontece, segundo Rocha A. F e Rocha F. T (ibidem), porque algumas pessoas podem exigir o mínimo de sentimentos prazerosos para considerar que sua vida está no nível aceitável, enquanto outras não, e podem até conviver com certo nível de desconforto e ansiedade. Essa ansiedade pode ser herdada genética ou socialmente. Sempre que homeostasia orgânica e emocional estiver em desequilíbrio existe uma tendência a manifestações de distúrbios patogênicos, porém isso não pode ser considerado uma anomalia. Rocha A. F e Rocha F. T (2011) argumenta que na história da humanidade e por diversas culturas, o bem-estar pode e foi recuperado por meio de criatividade do indivíduo gerando novas alternativas para a satisfação das necessidades ou substituído por objetivos alternativos.

Grandes corporações, nacionais e internacionais, já se atentaram que a elasticidade de seus produtos não é tão elevada para justificar uma oferta infinita de insumos. Sem interferência dessas grandes corporações, homens de todas as partes do mundo se mantêm equilibrados ou homeostáticos desde os princípios dos tempos. Em outras palavras, não se vende nada além do que se configura em suas reais necessidades para um homem são, porém dotados de técnicas avançadas na PNL (Programação Neuro-Linguística) e da neuroeconomia é possível bombardear a saúde orgânica e psíquica, deixando o indivíduo doente e inseguro pronto para consumir. Destarte, o indivíduo agora doente, fora do seu centro homeostático desencadeia uma série de ações que tenham em meta satisfazer a sua homeostasia emocional. Incapaz de recuperar sua homeostasia orgânica, emocional e social o indivíduo é reprogramado para o consumo. Essa nova configuração de saciedade (consumo) altera drasticamente sua carga semanal de trabalho e de stress. O bombardeamento de necessidades inexistentes continua até o ponto que o seu trabalho, por mais árduo e duradouro, não consiga suprir as novas necessidades. Esse ciclo vicioso é o centro causal de doenças psiquiátricas, psicossomáticas, esquizofrenias entre outras. Essas novas demandas podem gerar temporariamente percepções errôneas de bem-estar, porém como sua homeostasia não foi restabelecida acaba gerando um quadro de dependência, que, nas palavras de Rocha A. F e Rocha F. T (2011) “resulta comprometendo a satisfação de um número cada vez maior de necessidades...”

4. Neuroeconomia: Mapeamento Cerebral do Processo de Tomadas de Decisões

Rocha A. F e Rocha F. T (2011) definem neuroeconomia a uma nova ciência que combina as novas ferramentas das neurociências com os fundamentos clássicos da economia. Essa nova ciência tem por objetivo o estudo das tomadas de decisões dos consumidores que os levem a um estado homeostático. Impérios financeiros internacionais foram os primeiros a utilizarem técnicas de mapeamento da atividade cerebral tais como: a ressonância magnética funcional (rmf) e o mapeamento cognitivo cerebral.

Quando tenta mapear o cérebro Rocha A. F e Rocha F. T (ibidem) argumentam que na realidade o objetivo é de se monitorar as emoções humanas. Independentemente do grau de instrução e cultura onde o indivíduo esteja mergulhado, as emoções humanas são primitivas. Podem variar de intensidade individual, porém estão sempre presentes. Nas emoções são encontradas as principais ferramentas para que o animal humano possa identificar suas necessidades, gerar motivações, avaliar e prevê possíveis ações de intervenções para assim promover sua saciedade ou estabilidade orgânica, como também observar os pontos fracos dessa homeostasia, bombardeá-la, e reprogramar um novo homem histérico, porém consumista. Assim, por exemplo, como argumenta Rocha A. F e Rocha F. T (ibidem), a fome em um ser humano pode ser quantificada pela sensação de desprazer, que por sua vez pode ser analisada pelo benefício da recompensa (prazer). A sensação de saciedade pode ser alterada no ser humano ao ponto que a sensação de equilíbrio pode ser exacerbada em muito. Talvez esse seja um dos pontos de fratura para o entendimento da pandemia de obesos que assola o século XXI.

O mercado formal pode determinar a quantidade de consumo de comida de um determinado segmento da sociedade. De uma forma geral espera-se uma curva de demanda para que seja adequada uma resposta de oferta. Porém nas megas corporações esse procedimento é invertido. A demanda é substancialmente aumentada através de monitoramento da neurociência. Compreendendo os mecanismos da avaliação emocional, essas corporações desencadeiam desequilíbrios na psique de indivíduos, através de sequencia de mensagens subliminares ou não [03], no qual resultará o aparecimento de seres doentes, embora agora preparados para o consumo, pois suas necessidades foram artificialmente expandidas. Destarte, as percepções de saciedade e risco para obter um determinado produto, objeto ou serviço, passam por uma recodificação psicológica através de bombardeamento aos estímulos sensoriais, os circuitos de memória de tomada de decisão ficam comprometidos gerando novas incertezas.

Pessoas podem diferir no sentido de sua capacidade de tolerância aos riscos eminente de uma nova aquisição. No mapeamento cerebral são identificados diversos tipos de personalidade que envolve o consumo. Rocha A. F e Rocha F. T (2011) argumenta que existem, por exemplo, pessoas altruístas que estão mais dispostas a correr riscos no relacionamento com outras pessoas. Estes estão mais inclinados a consumir. Um depressivo possui baixa exposição ao risco e assim por diante. Mas todos possuem algo em comum: se a percepção do risco for baixa, todos estão inclinados, dentro de suas características a consumir, desde que sejam desequilibrados emocionalmente.

Uma importante descoberta feita pelos neurocientistas é o neurônio espelho. Esse neurônio, como argumenta Rocha A. F e Rocha F. T (ibidem) não possuí uma função motora, não era também sensorial. Era uma espécie de reprodutor. Ele tem a função de copiar exatamente o que o outro faz. Essa célula está ligada intimamente a questão da aprendizagem e ao processo de adaptação do homem primitivo. Porém, essa descoberta também é uma arma. Existem técnicas de associações de palavras e imagens que quando passadas pelos meios de comunicação em massa fazem com que indivíduos se comportem como crianças. Rocha A. F e Rocha F. T (2011) acreditam que a maturidade e o comportamento das massas podem ser comparado a de crianças. Tudo isso foi comprovado pela existência de neurônios espelhos. Dessa forma, é muito fácil influenciar a aquisição de quinquilharias, a luz da razão, indesejáveis, mas o seu uso torna-se universal pelas pessoas como se fosse uma espécie de transe.  Dessa forma as decisões coletivas, a despeito da importância da individualidade, são facilmente manipuladas [04].

A manutenção da homeostasia orgânica e emocional deve ser mantida, pois são elas que geram as necessidades que motivam um ser humano a agir: consumir ou não consumir. Nessa ação, são avaliados os riscos e benefícios. No ser humano saudável, podemos argumentar que a vontade de agir aumenta na medida em que os benefícios superam os riscos pessoais, como também os sociais, a menos, como já observamos, que essa homeostasia seja bombardeada. Nesse caso a avaliação de riscos fica comprometida levando o ser desequilibrado ou doente a prover o consumo compulsoriamente.

5. Reprogramação da Matriz Psicossocial

Homens, quando comparados na região que ocupam na pirâmide econômica, não se diferenciam apenas pela quantidade de posses ou nível de consumo que podem adquirir, mas, essencialmente de quais ângulos pode enxergar o mundo, a realidade. Bordieu (2002) argumenta que cada ser humano é dotado de uma matriz psicossocial, que na realidade é uma espécie de programação, um “software” instalado nos primórdios do estabelecimento do self, herdada pelo ambiente que nos circunda. Salvaguardando diferenças individuais, cada um de nós é programado socialmente a como responder as adversidades externas, gostos por músicas, literatura ou filmes, aspiração social, tipos de consumo, moral, ética entre outros fatores. Todos os processos descritos estão a nível subliminar ou inconsciente. Quase 99% (BORDIEU, ibidem) de nossas escolhas e atos não são conscientes, estão previamente instalados no nosso cérebro ao longo de nossa existência.

A nossa falsa experiência do mundo nos informa que estamos integralmente no controle de todas as nossas ações, porém existem forças ocultas, obscuras, que estão nos bastidores, o que nos aproximam muito mais de um avatar do que um ser propriamente independente. A verdade é que existe uma grande parte do nosso cérebro que funciona inconscientemente. Essa região pode estar oculta, mas tem um papel fundamental no nosso mundo consciente.

O médico e pesquisador austríaco Sigmund Freud (1974) foi o primeiro cientista conhecido internacionalmente a revelar uma mente inconsciente, porém não foi o Pioneiro. Mlodinow (2013) argumenta que na Grécia Antiga já se retratava este mundo escondido entre os filósofos. No século XVIII Immanuel Kant, (apud, MLODINOW - 2013), argumentava que a construção da realidade não era apenas feita por imagens, mas sim uma recriação simbólica restrita apenas aos aspectos da mente.

Segundo Mlodinow (2013) o sistema sensorial humano envia ao nosso cérebro cerca de 11 milhões de bits em informações por segundo. Desse total cerca de 4 a 8 bits são processados pela consciência, o restante é absorvido, analisado pelo subconsciente. Essa conjuntura, na realidade, é uma herança do nosso processo evolutivo. Nossa mente consciente não teria a capacidade de processar tal número de informações, e mesmo que tivesse, nossa parte consciente está em atividade, priorizando outros propósitos mais emergentes, funcionando como uma espécie de sensor para nos livrar de perigos reais eminentes. Assim, apenas 5% de nossas funções cerebrais são cognitivas, isto é, conscientes. Os outros 95% estão além da nossa consciência, porém não está adormecida, trabalha fazendo bilhões de micro cálculos por segundo, mantendo o organismo e nossas percepções daquilo que chamamos de realidade.

Se a matriz psicossocial é uma herança sociológica adaptada às idiossincrasias individuais, então qual a possibilidade de muda-la, com intuito meramente comercial?  Vygotsky (2011) argumenta que o processo de aprendizado se dá através de símbolos. Não absorvemos exatamente o mundo exterior. Segundo ele, nossas percepções devem ser consideradas ilusões, isso porque só detectamos o mundo de forma indireta através dos símbolos, criando um modelo de mundo só nosso. Destarte, esse mundo que percebemos é um ambiente artificialmente construído, uma mescla entre o mundo externo e os processos mentais inconscientes. Tudo aquilo que não conseguimos captar, por força das limitações do nosso sentido ou pela capacidade do nosso intelecto, formam lacunas, essas são preenchidas pelo nosso inconsciente, antes mesmos de estarmos conscientes de qualquer percepção. Aceitamos essas informações como se fossem verdadeiras. Em suma, a função do inconsciente então é de preencher as lacunas das informações ausentes, formando uma realidade paralela. É nesse inconsciente que se molda a nossa memória preenchendo as lacunas de informações inexistentes [05]. Nossa memória então é pura imaginação tal qual como argumenta Mlodinow (2013), ela não é formada como se fosse um arquivo de computador. Cada evento é acoplado com sentimentos, o que deixa esse arquivo completamente distante da realidade e por isso a memória está em profunda mutação, mesmo que assimilada e arquivada. Essa mutação só é possível porque as memórias são carreadas de sentimentos e do estado intelectual vigente do indivíduo, sendo assim nossas memórias estão em contínua renovação.

A neurociência, a serviço de grandes corporações, indústrias, comércio, mídia, entre outros, já se atentaram que a nossa memória é acometida por falhas, essas são preenchidas e repreenchidas pelo inconsciente. Porém nossos inconscientes podem ser bombardeados por técnicas desenvolvidos pela PNL (Programação Neuro-Linguística). Essa programação pode ser contaminada através de músicas, dingos, mensagens emotivas ou empolgantes, imagens, cheiros, ideologias entre outros. O resultado disso é o que, o conteúdo desses preenchimentos possui uma nova conotação. Assim as memórias são transformadas, alteradas. Não existe um poder invasivo no qual seres humanos são transformados em zumbis. A alteração da Matriz psicossocial é sutilmente alterada, sem esforços dolorosos, morna e branda e de forma contínua, mas o suficiente para mudarmos nossas expectativas, nossos valores e conhecimento prévio sobre a realidade que nos cerca.

A eficiência dessa reprogramação, segundo Mlodinow (2013) é que existem dois tipos de linguagens na estrutura da nossa mente, na qual fazemos a interface com o mundo: a superficial e a profunda. A estrutura superficial, segundo esse cientista, consiste na maneira pela qual uma ideia é exposta, como por exemplo, a ordem que usamos as palavras ou a sequencia delas. Essa programação não é alvo dessa técnica, pois está na superfície. Porém é na linguagem profunda, que está o significado do sentido semântico da comunicação, e sua configuração se dá por longos períodos, ao contrário da primeira que só duram alguns segundos.

5. Consentimentos Primitivos Para Uma Era Automática (Ferramentas e Armas da Persuasão) [06]

 Somos considerados como a geração da tecnologia. A transmissão de dados, sob quaisquer aspectos, é feita mais rápido que um pensamento. Pessoas são transportadas em um volume cada vez mais crescente e a uma velocidade inimaginável, levados aos quatro cantos do mundo, porém, nosso sistema de percepção e de resposta à realidade circundante continua primitivo. Segundo Ciadini (2012) cerca de 80% de nossas ações são automáticas e funcionam primitivamente. Para um mundo que coopta cada vez mais integrante ao consumismo, aliados a um ritmo acelerado de bombardeamento de informações da vida moderna, pessoas respondem a esse frenesi a um consentimento automático, ou impensado. A disposição em dizer sim, mesmo sem pensar e a despeito que algo no seu íntimo tente resistir, é a principal temática dessa persuasão.

Há muito, segundo Ciadini (2012), pesquisadores estudam o comportamento de animais em seus habitat natural. Principalmente aqueles menos evoluídos. Seus comportamentos são regidos em função de suas ações no meio social e de forma padronizada. Da mesma forma são observados os padrões automáticos em seres humanos. Essas características, no animal que há em nós, pode permitir a um indivíduo decidir, às vezes de forma correta, em um tempo mais exíguo, sem ter que se utilizar de uma análise minuciosa e criteriosa sobre quaisquer aspectos cotidianos.

A vantagem dos atalhos mentais [07], utilizados por algumas espécies, é a eficiência de sua economia e prover a homeostasia do ser. Reagir automaticamente a uma palavra, som, cheiro ou imagem desencadeadora, esse indivíduo poupa tempo e energia psíquica e às vezes à própria vida. A desvantagem desses atos é a vulnerabilidade em função dos agentes que se aperceberam dessa “falha” mental de procedimentos. Quando age instintivamente o indivíduo aumenta sua chance de errar. Essa probabilidade aumenta exponencialmente quando agentes externos, empresas ou corporações procuram se beneficiar estimulando (por meio de tácticas desencadeadoras) a um comportamento desejado. Destarte, grande parte do processo de persuasão, utilizado por esses grandes conglomerados, se locupletam do conhecimento desse mecanismo humano de reação automática, pois a maioria de nós desenvolveu características para esse consentimento automático. Existem infinitas armas que podem ser utilizadas por essa característica humana.

Ciadini (2012) argumenta que de acordo com sociólogos e antropólogos, uma das principais marcas da cultura humana é a reciprocidade. A regra está fundamentada na maior parte das civilizações, e ela consiste que uma pessoa tente retribuir na mesma moeda em que a outra pessoa lhe prestou um favor. Ao fazermos um favor a alguém, estamos estimulando nossos instintos primitivos a obrigarmos nosso beneficiário ao ato de retribuí-lo no futuro. Essa sensação de obrigatoriedade com o outro possibilita, um enlace emocional, obrigando as vítimas a transações e trocas. A quebra desse procedimento provoca a desaprovação do superego (arranhando a auto-imagem) e da própria sociedade. Essa tática é muito usada pelos profissionais da persuasão. Dá-se alguma coisa em troca antes de pedir o que já estava em seu alvo. Esse procedimento reduz nossas barreiras psíquicas, influenciando o nosso poder de decisão, desencadeando assim trocas desiguais. Para se livrar dessa sensação desagradável da dívida com o outro, o superego tende a concordar com um pedido de favor, geralmente muito maior daquele que lhe foi dado.

 Outra armadilha, apresentada por Ciadini (2012), é uma regra social muito atraente que é a coerência. Segundo este pesquisador, a maioria de nós tenta ser coerente com nossas palavras, nas atitudes, nas ações e nas nossas crenças. Segundo ele, isso acontece por três razões principais: a primeira é que a coerência é muito valorizada em nossa sociedade; a segunda é que uma imagem pública (auto-imagem) exige esse tipo de postura e a terceira é que essas convicções nos fornecem um atalho sofisticado e poderoso frente as diversidade do dia-a-dia. Profissionais da persuasão [08] sabendo desse dispositivo primitivo humano se asseguram que suas vítimas lhe farão um compromisso inicial, mesmo que não formal. A tática é fazer um pedido pequeno e alterá-lo gradativamente. Uma vez feito o compromisso as pessoas ficam tentadas a não quebrar sua posição inicial, pois o que está em jogo é sua auto-imagem. Dessa forma a vítima fica refém de suas próprias palavras e ideologias. A convicção de manter um compromisso, mesmo que seu inconsciente demonstre que foi equivocada, é pela falsa sensação que foi efetuada por sua livre escolha. Essas pressões oriundas de nossa razão faz com que nos sintamos obrigados a mantermos os compromissos anteriores. Novamente o nosso sentido de coerência tenta nos convencer que fizemos a coisa certa para que o vazio estabelecido dentro de nós cesse.

A aprovação social é outro mecanismo de atalho da mente e muito explorado por profissionais de persuasão. Segundo Ciadini (2012) esta característica do ser humano se configura quando pessoas estão habituadas a um “modus operandi” de atuar em uma situação específica, inseguras, procuram ao redor, fora de si, sinais de procedimentos da melhor forma de conduta social. O princípio da aprovação social destaca o meio no qual o indivíduo está inserido, usando-o como “muleta”, modelo para decidir como devemo-nos comportar socialmente, como por exemplo: o que vestir o que gostar ou como se comportar. É um poderoso “efeito espelho” em que o principal objetivo é copiar padrões: o que consumir, quanto consumir, quando consumir, ideologias ou até mesmo a cura de fobias no mundo moderno. Quando manipuladas por agentes financeiros, funciona como uma arma poderosa para estimular consentimentos de uma pessoa a um pedido, usando como argumento que muitas outras pessoas já optaram por aquele determinado comportamento ou modo de vida. Em suma, consideramos um comportamento adequado, em uma determinada situação, na medida em que vemos ser seguidos pelos outros.

Ciadini (2012) argumenta que a aprovação social é mais eficiente sob duas condições: a primeira delas é a insegurança. Pessoas inseguras tem uma tendência maior em prestar atenção ao comportamento dos outros para aceita-los como corretos; a segunda é a semelhança. Cidadãos estão inclinados a seguir a liderança de outros semelhantes a nós. Esses exemplos podem ser perigosos. O sociólogo David Phillips (Apud CIADINI, 2012) liderou um grupo de pesquisas que incluíam estatísticas de suicídio. Quando este era protagonizado por uma pessoa relevante em um determinado meio social, seguia-se de outros suicídios. Esse processo tinha seu ápice depois de uma semana do episódio e estendia-se por mais uma semana após o evento. Estudos adicionais concluíram, segundo Ciadini (2012), que a mídia tem grande responsabilidade na extensão de episódios de suicidas depois de um determinado evento catastrófico.

A mídia, logicamente utiliza-se de sabotagem quando manipula dados incorretos de comportamento de massa. A estratégia é utilizar falso dados sobre comportamentos coletivos e utiliza-los como se fosse uma tendência mundial. Dessa forma a multidão, gradativamente, se comporta de acordo com a finalidade e as intenções de quem estão gerenciando esses dados. Tendências de moda, tipos e frequências de padrões alimentares ou simplesmente a forma de se endividar são alguma variantes dessa manipulação.

Pessoas comuns têm impulsos naturais em dizer sim a indivíduos a quem conhecem e principalmente se existe empatia, assim argumenta Ciadini (2012). Profissionais de persuasão, a serviço dos grandes conglomerados, já sabem dessa verdade. Ciadini (2012) nos revela que pesquisas antropológicas atestaram, embora não seja novidade para nenhum de nós, que a beleza física facilita as interações sociais. Existe um efeito chamado de auréola sobre pessoas bem dotadas física e esteticamente. Sem abrir a boca, atribuímos a essas pessoas efeitos benignas tais como: gentileza, talento e inteligência. Desta forma, pessoas atraentes são mais persuasivas. Quando bem treinados esses indivíduos tecem elogios para suas vítimas, aumentando o efeito auréola sobre elas. Mais ainda, quando se trata de um profissional de persuasão, sua primeira finalidade é fazer que gostem dele [09].

Quando empresas associam sua imagem a fatores positivos seus produtos agregam grande valor competitivo. Políticos, publicitários e vendedores tiram vantagem sobre isso. Parece simples, mas por mais ridículo que seja o produto, quando associado a questões positivas da vida, pode ser uma ancora comercial. [10] Empresas de cartões de crédito se utilizam bem dessa ferramenta. Por si só, um cartão de plástico que tem o poder de fazer compras sem se quer tocar em um único tostão possui poder devastador na vida das pessoas. Mesmo que tenhamos a consciência que a compra efetuada tenha um pagamento postergado, a visão dessa ferramenta “miraculosa”,   prazerosa em si, a mídia só complementa o processo envolvendo a naturalidade do endividamento que essa ferramenta tem em nossas vidas. Com o cartão de crédito estamos mais dispostos a gastar mais. West Lafayete em Indiana – USA (apud, CIADINI-2012) comandou uma pesquisa em que consumidores com cartão de créditos estão dispostos a gastar, em média, 29% acima dos seus orçamentos quando comparado àqueles que não usam esse dispositivo.

A obediência à autoridade também é um dispositivo de origem primitiva que remonta as nossas primeiras organizações sociais no planeta. Em uma sociedade remota, onde os perigos advinham de todas as partes, obedecer a membros do clã, que teriam maiores experiência de sobrevivência era um sinal de inteligência e sobriedade. Herdamos de nossos ancestrais a tendência de obedecer às autoridades legítimas de nossa sociedade, assim argumenta Ciadini (2012), segundo esse pesquisador a obediência é sinônima de boa conduta social, e esse comando é inconsciente.

Com o passar do tempo à simbologia representativa da autoridade na sociedade sofreu algumas mudanças. No mundo contemporâneo, segundo Ciadini (2012), a simbologia da autoridade se dá através de três signos principais: títulos (acadêmicos ou não), roupas e automóveis. Experiências sociológicas comprovaram que os indivíduos portadores de alguns desses itens (ou todos), possuem maior poder de influência sobre a sociedade que os cercam. [11] Não é incomum autoridades serem cooptados por empresas com intensões econômicas e sociais não idôneas, a divulgarem seus produtos ou estilos de vida, com comprometimentos comerciais e/ou ideológicos. De forma geral, uma autoridade nem sempre é um especialista no produto que tenta vender, assim sendo sua visão ou ponto de vista sobre determinado produto é ineficaz.

Nas sociedades primitivas humanas a escassez era uma regra, não uma exceção. A quantidade de alimento era exata para atender as necessidades de cada membro do clã, bem como os recursos para vestimenta e utensílios diários. Com a revolução verde (revolução agrícola) e a comercial foi que parte da população começou a gozar de certa fartura.  A despeito disso, o sistema capitalista insiste que, para alguns produtos existe escassez. Isso pode até ser verdade, porém, na maior parte dos casos a falta de um produto é manipulada. Dessa forma, as pessoas atribuem mais valor aos insumos quando estão menos disponíveis.  Profissionais de persuasão usam o princípio da quantidade limitada e do prazo (CIADINI, 2012) para convencer as pessoas que o acesso ao produto é deveras restrito.

Ciadini (ibidem) chama de reatância psicológica o efeito que desencadeia nas pessoas quando se percebe que algo está menos acessivo do que antes. Destarte, a reação das pessoas é de querer o objeto mais do que antes, mesmo que aparentemente, naquele momento, ele não tenha nenhuma serventia imediata. Testes de psicologia social, segundo Ciadini (2012), indicaram que a reatância psicológica pode estar presente em nossas vidas em todas as fazes, porém em duas elas são mais agudas: de zero a dois anos e na adolescência. Dessa forma, a indústria e o comércio especificamente o último, tem maior poder de persuasão em datas festivas. Não é por acaso que festas natalinas, de virada de ano ou mesmo no dia das crianças, no mundo inteiro, sejam tão divulgadas e manipuladas pela mídia. O efeito da escassez é uma falácia capitalista, pois o sistema funciona, como já observamos, com uma oferta bem maior que a demanda. A histeria pode se tornar crônica e coletiva, quando a contrainformação é passada apenas para um grupo restrito, que um determinado produto pode entrar em falta. Pronto. É o suficiente para uma massa de observadores juntarem os falsos quebra-cabeças e de um momento para outro o consumo de um determinado produto pode atingir a estratosfera. A persuasão é muito simples: choque de informação da maneira mais rápido o possível para evitar que o consumidor em potencial tenha algum tempo para pensar. O medo de não terem mais o produto, faz as pessoas agir no reflexo e obter o produto na mesma hora.

Ciadini (20120 argumenta que o princípio da reatância psicológica pode ser aplicado também no uso de drogas. Na maioria das sociedades ocidentais existe um maciço combate a drogas, porém, sem resultados plausíveis. A impressão que nos é dada é que o modelo de combate à repressão as drogas não funciona ou as autoridades competentes estão mal equipadas. De qualquer maneira existe uma infinidade de drogas específicas para quem à procura. Porém, para o usuário e o restante da sociedade existe a sensação de um perigo eminente em que o fornecimento do produto, em algum momento, deixará de existir. Reagindo pelo princípio da reatância psicológica os usuários tenderão a comprar cada vez mais e a preços mais elevados. Destarte, a regularização de certos tipos de entorpecentes, regularizando a demanda, pode ter o efeito psicológico bastante positivo, à medida que a ansiedade diminuiria em função da fartura do produto.

7. Considerações Finais

Caímos numa verdadeira armadilha digital. Enquanto a tecnologia evolui exponencialmente, o nosso cérebro tem muitos resquícios do homem das cavernas, reagindo assim primitivamente aos estímulos externos. A nossa capacidade de processar essa enxurrada de informações está cada vez mais comprometida. A consequência parece óbvia, bombardeado pelas infindas informações e associado aos “stress” cotidiano, tendemos a tomar atalhos inconscientes, pois são nesses momentos que a obscura hipnose global se apodera de nossas vidas.

A avalanche de informações que o meio informacional contemporâneo no oferece não tem a mínimo objetivo em informar, mas sim de sobrecarregar nossas escolhas, para que as nossas opções sejam automáticas. Por mais que tentemos tomar nossas decisões baseados em fatos racionais, fracassamos. A mutabilidade dos eventos sociais, associado a sua velocidade de transformação, nos privam verdadeiramente de uma análise mais criteriosa do que está acontecendo a nossa volta. Em função da descarga cognitiva que nos é imposta todos os dias, as nossas escolhas ficam comprometidas, pois se baseiam cada vez mais nos atalhos automáticas tomadas pelos nossos inconscientes.

Em toda parte do mundo homens de todos os credos, raças e níveis sociais estão sendo cooptados em massa pelas inovações tecnológicas. Essas inovações não são inocentes. Elas carreiam em si ideologias de dominação não perceptíveis, cumprindo o seu papel na nova sociedade. Os produtos, agora fabricados nos quatro cantos do planeta, também carregam símbolos que representa em um novo estilo de vida. De forma branda, suave e  contínua, a nova identidade é impressa, resultando na reprogramação da memória, na qual o pseudo self, egocêntrico e deformado consegue se erguer nos moldes de uma sociedade de consumo.

O pseudo self realinha-se com a cultura capitalista, ou seja, narcisista, egocêntrico, onde o centro do universo encontra-se no eu consumista, as realizações individuais prevalecem em detrimento dos ideais coletivos, ao mesmo tempo em que ocorre o desinvestimento no mundo que nos contém. Mas isso em si não se revela uma contradição. A destruição e o empobrecimento do meio revelam-se como um espelho fiel do que ocorre com as estruturas internas da personalidade. Os projetos coletivos de bem estar e felicidade parecem estar esquecidos. Os produtos, pregando uma falsa felicidade e liberdade individual aprisionam pessoas de todas as idades a uma agonia sem fim. A pluralidade dá espaço às reivindicações xenófobas e a liberdade é substituída por prisões histéricas. Um manto obscuro de dominação psicológica global recai sobre a vida de pessoas. Passamos a maior parte de nossa existência trabalhando e nos endividamos em um ritmo cada vez mais frenético e com a falsa sensação que todos esses processos, por mais dolorosos que sejam, é fruto de nossa inteira liberdade de escolha.

O processo de globalização atual, sem dúvida provoca profundas transformações sociais, econômicas, históricas e tecnológicas. Porém, o que nos chama a atenção foram às transformações subjetivas efetuadas na alma dos seres humanos e em seu convívio social. Parece haver um colapso da “luz,” na compreensão dos sistemas filosóficos, que são pontes para a absorção da realidade do mundo contemporâneo. Associado a isso, observamos a destruição do Estado como instituição, entidade crucial para o projeto de um bem estar comum. As margens desse mundo ideal de consumo estão bilhões de seres humanos esquecidos pelo desemprego, pelo flagelo pela existência... A crescente pobreza neutraliza a acessibilidade à cultura e educação, talvez a única forma de se desgarrar dessa terrível dominação.

Na tentativa frustrada de se escapar dessa hipnose profunda que nos abate, resulta em uma proliferação da ira, manifestando-se em xenofobismo, fundamentalismos de todas as espécies, epidemia de violência urbana (principalmente em países subdesenvolvidos). Temos a nítida impressão que a cada passo para frente que avançamos tecnologicamente nos desloca a uma velocidade cada vez maior a barbárie. Todos esses processos são sintomas de distúrbios psicológicos em massa. Estamos doentes. Existe um surto de histeria em massa. Essa manifestação, inicialmente, estava restrita apenas a grupos fechados, tais como: alunos de uma mesma escola, ou trabalhadores de uma mesma empresa, agora afeta populações do mundo inteiro, com intensidade e “modus operandi” diferentes. Pessoas pelo mundo estão mais ansiosas, perdem facilmente o controle sobre simples acontecimentos cotidianos. Suas sensibilidades estão à flor da pele, a existência parece coadunar com um eterno sofrimento, a depressão de um estado patológico se consagra agora como existencial.

Para salvar o planeta é necessário salvar o homem. O desastre ambiental que os climatologistas nos alertam, é um reflexo da tempestade que acontece na pobre alma humana. Não pregamos aqui à volta a vida bucólica  como ocorrera há 200 anos. Porém, torna-se imprescindível tratarmos nossa existência com responsabilidade. A verdadeira riqueza é simplesmente necessitar de pouco.

8. Sugestões Para trabalhos Futuros

Na literatura nacional e internacional existem poucos trabalhos que comprovem o adoecimento coletivo das pessoas. O exame de psicopatologias endêmicas seria muito bem vindo a pesquisadores e estudantes de toda parte do mundo. Principalmente profissionais que trabalham com a psique humana, tais como: psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas, psicopedagogos, entre outros, deveriam possuir treinamentos mais específicos para o tratamento de doenças sociais coletivas.

Sobre o Autor:

Paulo de Jesus Amorim - Pos-doutor e Doutor em Educação, psicanalista clínico.

Referências:

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CARDOSO, M.R; Sobre a Doença de Existir. Revista Filosofia Ciência & Vida. Ano VII Nº 95, Ed Araguaia-Rio de Janeiro, 2014.

CIADINI, R. B. As Armas da Persuasão (Como Influenciar e Não Deixar Influenciar). Tradução Ivo Koritowsky. Ed Sextante, Rio de Janeiro, RJ – 2012.

DIMOS, L. What Witchcraft Is Facebook?Mass psychogenic illness — historically known as "mass hysteria" — is making a comeback. Atigo. Revista Eletrônica “The Atlantic.” Setembro de 2013. Disponível em: http://www.theatlantic.com/health/archive/2013/09/what-witchcraft-is-facebook.          

FREUD, A. O Ego e os Mecanismos de Defesa. Tradução de Álvaro Cabral. Título Original: “The Ego and Mechnisms of Defence.” Ed: Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ. 1982.

FREUD, S. O Mal-Estar na Civilização. Col. Pequena Coleção das Obras de Freud, Livro 8, Imago. Rio de Janeiro, RJ, 1974.

_____ A Interpretação dos Sonhos. Tradução de: Walvredo Ismael de Oliveira. Título original: Die Traumdeutug. 2ª ed; Rio de Janeiro, RJ.: Ed Imago, 1987.

MLODINOW, Leonard. Subliminar (Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas). Zahar, Rio de Janeiro, RJ, 2013.

ROCHA, A. F; ROCHA, F. T. Neuroeconomia e Processo Decisório (De Que Maneira o Seu Cérebro Toma Decisões). Ed. Gen-LTC- Rio de Janeiro, 2011.

What Witchcraft Is Facebook?

SEVERIANO, M. F. V. Sociedade de Consumo e Psicopatologias Contemporâneas: uma reflexão sobre a formação de ideais numa cultura narcísica. Artigo: disponível em: http://www.fundamentalpsychopathology.org/uploads/files/ii_congresso_internacional/temas_livres/ii_con._sociedade_de_consumo_e_psicopatologias_ - Acesso em: 15/11/2014.

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