A Relação da Perversidade e/ou Perversão no Feminicídio em uma Leitura da Psicanálise Contemporânea

A Relação da Perversidade e/ou Perversão no Feminicídio em uma Leitura da Psicanálise Contemporânea
4.5           Avaliação 4.50 (4 Avaliações)
(Tempo de leitura: 11 - 22 minutos)

Resumo: A perversão e perversidade são sinônimos, mas trazem diferenças sutis no mundo da psicanálise, principalmente ao que se trata da violência que o contexto social perpetua e o feminicídio como fenômeno social que reflete a crise presente tanto no ser masculino e no ser feminino. O Brasil está em um dos rankings mais altos – 5º lugar. Esta pesquisa é do tipo qualitativa, em que seus dados foram feitos de modo bibliográfico. Este breve artiugo traz os estudos freudianos que fazem uma análise clínica do que motiva o homem a matar alguém que seja de sexo diferente do seu. Justifica-se este estudo com fito na compreensão da temática proposta. Conclui-se a necessidade de mais discussão sobre este tema, prevenção em uma educação humanizada, em que a mulher – o ser feminino – não seja um objeto ou coisificada – como é refletivo em diversos assassinatos apontados no feminicídio. E, a sociedade necessita de novas perspectivas culturais e mudanças em vias de respeito ao próximo. Autores utilizados Albino (2018); Bock et all (2008); Ducker (2017); Freud (2016); Marcos, Riguini (2018);  Zimermann (2008).

Palavra-Chave: Perversão, Perversidade, Feminino, Masculino, Psicanálise, Contemporaneidade.

1. Introdução

Apresenta-se este breve estudo sobre a forma que a perversidade e perversão são expressas no feminicídio, uma vez que, no contexto atual, os casos de feminicídio são uma constante. Bem como, buscou-se trazer uma reflexão através de uma leitura psicanalítica do que pode impulsionar esta violência que é considerada um crime hediondo, uma vez que o feminicídio é caracterizado um crime contra a mulher, pelo simples fato de ser do gênero feminino.

O objetivo geral desta pesquisa é buscar informações sobre o que seja o feminicídio, a violência e os aspectos que estão relacionados a estas circunstâncias. Da mesma forma, justifica-se este assunto pelo contexto atual e sua pertinência numa sociedade que impulsiona um processo constante de prazer de modo permissivo, trazendo a angústia de ser mulher, e também, a de ser homem, ou, na leitura psicanalítica, o ser feminino e ser masculino, pois a crise do homem é uma constante atingindo o Eu de ambos.

Ao tratar deste tema observa-se que se pontuou perversão e perversidade, pois as palavras são sinônimos, porém são conceituadas diferentes, cada qual trazendo uma sutil diferença no mundo da psicanálise.

A explanação a seguir está organizada nos tópicos que tratam violência, sociedade, feminicídio, perversão e perversidade. Houve um levantamento de dados bibliográficos, através de materiais respectivos ao tema. Por exemplo, quase 400 mulheres foram mortas por homicídio no Brasil por dia no ano de 2015; um dado alarmante que necessita ser olhado e observado, não apenas pelas questões culturais, mas sociais e preventivas.

 Portanto, a importância de uma educação humanista é primordial para a valorização da vida, e isto são tópicos para serem implementados nas escolas, instituições empresariais, mídias e meios de comunicação.

2. Fundamentação Teórica

2.1 Violência e Sociedade 

 A violência tem seus reflexos perante a sociedade, existindo desde os primórdios das tribos primitivas. Entende-se que a violência é pertinente ao ser humano e é até instintiva (lembra-se do homem das cavernas e sua necessidade em proteger-se das ameaças rudimentares).

No entanto, a violência é um fenômeno social e se reflete em diversos âmbitos e facetas, o que consequentemente está causando um outro fenômeno chamado “banalização”, na qual tolera-se a violência:

[...] variadas expressões da violência compõem o cotidiano de todos os cidadãos e criam um ambiente social em que ela vai se tornando invisível para os que ali nascem, crescem, se desenvolvem – é o fenômeno da naturalização ou banalização (BOCK et al., 2008, p. 334). 

Alguns fatores contribuem para a perpetuação do comportamento violento, como: desigualdade social, miserabilidade, questões culturais e processos destrutivos que fazem parte da constituição de vida do sujeito. Por isso, é preciso compreender a organização social e o modo como toleram ou representam a violência, para identificar o que está sendo invasivo. “O desafio é reconhecer essas e outras práticas de violência diluídas no cotidiano” (BOCK et al., 2005, p. 335).

Contudo, ao tratar do que seja a violência e compreender a sua contextualização, delimita-se este tema ao que seja o feminicídio, bem como a perversidade atrelada neste comportamento, no qual muitas vezes um sujeito do sexo feminino é assassinado por ser do gênero feminino. As questões a serem levantadas nesta abordagem são: o que motiva um sujeito a maltratar ou violentar o corpo de outrem justamente por ser mulher? Quais os indícios e perfis dos que cometem essa infração?

Como pontuado, a violência faz parte da humanidade, em algumas vezes ela é necessária para defesa, porém, em outras é estimulada devido aos fatores apresentados. No entanto, casos de feminicídio estão acontecendo independente da condição social e faixa etária.

Durante uma festa de Réveillon em 2017, um homem de 46 anos ganhou os jornais quanto matou doze pessoas a tiros em Campinas – SP. Dentre as vítimas, nove eram mulheres, sendo uma delas sua ex esposa. Nesse ato, matou também seu filho de oito anos e se suicidou depois. O assassino deixou uma carta em que ficou claro tratar-se de um feminicídio. Ele fala, repetidas vezes, que as mulheres eram “vadias” e que pretendia matar o máximo de vadias da mesma família – família da ex-companheira – de uma vez. Ele diz também ter raiva das vadias que se reproduzem e se beneficiam da lei “Vadia a Penha”, entre outros disparates (RIGUINI; MARCOS, 2018, p. 09).

Ao fazer uma leitura psicanalítica, não existe o gênero sexual – homem ou mulher – a mulher é atrelada ao feminino e o homem ao masculino, em que os sujeitos terão sua sexualidade constituída na primeira infância, na qual a  criança descobre o prazer em seu próprio corpo e tem-se as fases oral, anal, fálica e genital; havendo uma relação simbiótica com a mãe que é quebrada na relação com o pai, tornando-se a primeira marca inscrita no pequeno infans, dando-se aí o complexo de édipo e o da castração (Albino, 2018). 

Freud explica que:

O complexo de Édipo comprova, então, ser a fonte de nossa eticidade individual (Moral). No decorrer do desenvolvimento infantil, que leva a uma progressiva separação dos pais, a significação pesso al dos pais para o Super – Eu passa para um segundo plano. Às suas Imagines se vinculam, então, as influências de professores, autoridades, modelos escolhidos e heróis socialmente reconhecidos, cujos personagens [Personen] não mais precisam  ser introjetadas pelo Eu que se tornou mais resistente (FREUD, p.14, 2016). 

2.2. Feminicídio, Perversão e Perversidade

O feminicídio é conceituado como crime feito contra a mulher, seja por um parceiro ou ex parceiro - a mulher neste quesito é vista como objeto de posse. Devido a isso, criou-se a lei nº 13.104/2015, que Dilma Rousseff sancionou. A peculiaridade deste crime é que ele envolve o fato da vítima ser mulher. “[...] o crime é hediondo, ou seja, a pena é de 12 a 30 anos de condenação, sendo comum de 6 a 12 anos” (ALBINO, 2019, p.24),

Nisso, questiona-se como se dá a formação psíquica do homem na era pós-moderna da sociedade, uma vez que, a própria sociedade se mantém em comportamento permissivo na busca do prazer, trazendo consequências para os indivíduos, inclusive para as mulheres.

Imagem 01: Feminicídio e questionamentos

Feminicídio e questionamentos

Fonte: http//redebrasilatual.com.br

Esta questão quanto a formação psíquica do homem, está relacionada, na infância, ao processo da castração, assim designada para a psicanálise. Para as mulheres isto é elaborado, já para os homens há um resquício – ambos se inter-relacionam com o Falo, que é um significante para o desejo e de castração (apesar de a mulher ser castrada e nem sempre seguir a função fálica). De acordo com Freud, tanto homens quanto mulheres buscam a realização deste desejo através da fase fálica. Dessa forma, há uma pulsão sexual que pode ser desvirtuada na satisfação da dor – neste ínterim, considera-se o feminicídio um ato que está atribulado ao estímulo desta pulsão expressada dessa forma:

 [...] o sujeito se satisfaz perfeitamente no que o machuca, no que o faz sofrer [...] esse inimigo que nos espanca, nos violenta, nos impõe sofrimento não é só externo, ele habita internamente e não se submete aos imperativos do “supereu” (ALBINO, 2018, p. 28-29).

Atualmente se vive numa sociedade movida pela busca do prazer permissivo, e isso traz consequências aos sujeitos. Nas mulheres, angústias são desencadeadas devido a sua conquista no espaço social: mercado de trabalho, ter ou não filhos, casar ou não e doenças relacionadas ao gênero sexual feminino; isto a torna vulnerável quanto à uma busca e que a sociedade capitalista torna possível concretizar estes objetos, contudo que a angústia.

Mas há uma perca de identidade ou personalidade em que a mulher necessita compreender o que é ser mulher, e o significado de ser feminino. Para o homem remete o mesmo, pois ele não a reconhece, e teme se tornar impotente, já que receia pelo complexo da castração em viés de uma leitura psicanalítica. Observa-se que:

Segundo Freud (1923/1996c), primeiramente, eles rejeitarão a visão que tiveram, acreditando que, ainda assim, viram um pênis, que ele ainda é pequeno, mas que logo crescerá. Depois, lentamente, chegam à conclusão dolorosa que o pênis este lá, mas foi retirado. Assim, a falta do pênis é entendida como castração. [..] Para Freud, um alto grau de “depreciação das mulheres, o horror a elas e a disposição ao homossexualismo derivam da convicção final de que as mulheres não possuem pênis (RIGUINI; MARCOS, 2018, p. 05).

A perversão é entendida de modo pejorativo, seu sinônimo é encontrado no dicionário como algo que virou às avessas (AULETE, 2009). Contudo, a perversão esteve interligada, em outras épocas da sociedade, às questões morais e sexuais. Atualmente, entende-se que a perversão é vista como forma de ser e agir do sujeito na sociedade, numa leitura da psicanálise:

Para muitos autores, o conceito de perversão, nos dias de hoje, foi estendido, dentro e fora da psicanálise, para uma abrangência que inclui outros desvios que não unicamente os sexuais, como seriam os casos de perversões “morais” (por exemplo, os “proxenetas”, ou seja, pessoas que ganham dinheiro intermediando casos amorosos), “sociais” (neste caso, a conceituação de perversão fica muito confundida com a de psicopatia); “perversões alimentares” (bulimia, anorexia nervosa...); “institucionais” (algum desvio da finalidade para a qual a instituição foi originalmente criada); e, naturalmente, também a possível perversão do setting analítico. Entretanto, dentro de uma conceituação mais estrita, um expressivo contingente de autores psicanalíticos mantém uma fidelidade a Freud e defende a posição de que, em psicanálise, o termo “perversão” deve designar unicamente os desvios ou aberrações das pulsões sexuais, incluídas aquelas que estão fusionadas com as pulsões sádico-destrutivas (ZIMERMANN, 2004, p. 267)

A perversão é um modo de se tornar sujeito. A perversão, não sendo exatamente uma perversidade, é um modo do sujeito se colocar no mundo, há sempre um ônus e um bônus, então ganha-se e perde-se. Mais do que uma condenação, a perversão a partir da psicanálise, é um modo de se pensar, uma maneira legítima de se apresentar no lar social do sujeito. Enquanto a perversão é dita como algo relacionado a questões morais, sexuais e ideológicas, vista como um modo de se defender das angústias e ou desamparo do indivíduo, o termo “perversidade” é compreendido como   “caráter de crueldade e  malignidade” (ZIMERMANN, 2004, p. 267).

A perversão é baseada em uma estrutura – a pessoa pode ser perversa, mas não ter uma atitude de perversidade. Os sintomas que a perversão se apresenta são: achar-se o melhor; manipular; seduzir excessivamente, mentir, transgredir regras, fazer jogos psicóticos, ter a sensação de mundo hostil e apresentar um psiquismo primitivo.

Um aspecto particularmente importante no vínculo analítico é o fato de que os perversos costumam executar com alta maestria a arte de manter uma fachada de “bom moço”, que está encobrindo a parte perversa propriamente dita (ZIMERMANN, 2004, p. 268).

E como associar a expressividade da perversão num feminicídio? Observa-se que a violência na sociedade é uma constante, sendo muitas vezes tolerada. Nesse ínterim, aumentou-se consideravelmente a violência contra a mulher, ou o que diz respeito ao ser mulher – feminino.

A questão da diferença sexual inclui-se na dificuldade de pensar a diferença. Poderia ser natural pensar que a ausência de um traço, de um lado, seria a resposta à presença de um traço, do outro lado, e valeria como traço qualificando “Mulher” em oposição a “Homem”. Mas a facilidade desaparece quando buscamos estabelecer o próprio que qualifica “Homem” e o próprio qualifica “Mulher”, sem articulá-los (RIGUINI; MARCOS, 2018, p.08).

Portanto, analisa-se: quais os motivos que levam alguém a matar outra pessoa que seja de gênero sexual diferente do seu? Isto é pertinente, pois o ser feminino é odiado pelos que atentam; são algoz à sua vida.

Zimmermann (2008) ressalta que a perversão é um limiar para a psicose, junto com a neurose. Algumas perversões desenvolvidas são caracterizadas por estrutura perversa, em perversão social (psicopatia, toxicomania e alcoolismo) e perversão sexual (exibicionismo, voyeurismo, sadismo, masoquismo, sadomasoquismo, fetichismo e pedofilia).

Muitos autores, assim dito por Zimmermann (2008), consideram a perversão uma defesa contra a psicose, inclusive em sublimar esta perversão e ou objeta-la. Como explica Roudinesco, a perversão é compreendida como uma negação à castração no período em que se desenvolve a sexualidade infantil:

No instigante comentário que fez, em 1982, acerca do destino de uma idiota do século IV, tal como contado na História Lausíaca, Michael de Certeau captou fielmente a estrutura dessa face noturna de nossa humanidade. Nessa época, ensina a hagiografia, vivia num mosteiro uma jovem virgem que simulava ser louca. As demais passaram a rechaça-la e a relegaram à cozinha. Ela então começou a prestar todo tipo de serviço, a cabeça coberta por um trapo, comendo migalhas e cascas sem se queixar, mesmo sendo espancada, injuriada e amaldiçoada. Avisado por um anjo, um santo homem dirigiu-se ao mosteiro e pediu para conhecer todas as mulheres, inclusive a apelidada de “esfregão”. Quando esta lhe foi apresentada, ele caiu a seus pés, rogando sua benção, em meio às outras mulheres doravante convencidas de sua santidade. Entretanto, incapaz de suportar a admiração de suas irmãs, a “esfregão” abandonou o mosteiro e sumiu para sempre. [...] ela se reconforta apenas no fato de ser ponto de abjeção, o “nada” rechaçado. Eis o que ela “prefere”: ser o esfregão...[...] (ROUDINESCO,s.a., p. 02) 

Um vínculo pervertido é explicado por Zimmermann (2008), como uma simbiose na qual o manifesto perverso se dará em uma parceria que sirva de apoio nas suas realizações. 

Nisso, Riguini e Marcos (2018) ressaltam que a mulher, mesmo tendo sua autonomia no mercado de trabalho e na sociedade, possui uma imobilidade diante de sua posição materna e Super Egóica (que é uma forma de encarnar o feminino), que a coloca como não merecedora desta autonomia, e é, portanto, subjugada. Sendo seu próprio algoz, no sentido de impedir de sair da situação em ser agredida.

[...] para algumas mulheres supõe-se dar se como mulher, e sobretudo como mãe. [...] não raro é possível escutar dessas mulheres um lamento quando seus parceiros são detidos. Esse lamento sobre a sorte do homem que maltrata passa, muitas vezes, pela interrogação. “o que será dele agora que não tem a mim para cuidar”? A tendência para ocupar um lugar sacrificial é muito difícil de ser ultrapassada. (RIGUINI; MARCOS, 2018, p. 04).

De acordo com Freud citado por Roudinesco (s.a.) a perversão faz parte do ser humano e da sua estrutura psíquica, ela tem sua importância para que o sujeito saiba contrastar o bem e o mal. O que dependerá é de como o ser irá desenvolver seu modo de funcionamento, indo de encontro a sua vivência – educação; traumas; identificações inconscientes, e da forma que irá lidar com a perversidade através de uma rebelião; superação ou sublimação, ou nos aspectos negativos, como crime ou autodestruição, por exemplo.

O que difere a perversidade da perversão é que o sujeito pode ter atitudes más, sem ter uma estrutura perversa e muitas vezes usa-se instrumentos da lei ou normas para ser executor desta atitude, inferindo ao outro, uma espécie de punição. Um exemplo é o policial que bate em uma pessoa, e, esta pensa em ser policial um dia para bater nos outros também.

Sabe-se que na Perversão o sujeito nega a si mesmo ou se recusa; na psicose há delírios, enquanto que na neurose existe o recalcamento.

Antes de compreender como a perversão acontece, Freud (2016) explica que as psicoses são desencadeadas a partir dos conflitos que ocorrem no aparelho psíquico, seja, psiconeuroses narcísicas que partem do estado de melancolia; neurose de transferência que trata do conflito entre o Eu e o Isso (inconsciente); Neurose Narcísica que é o conflito entre o Eu e o Super Eu; psicose que é conflito do Eu e o mundo exterior. “[...] outra discussão para complementar que a afirmação de que neuroses e psicoses se originam do conflito do Eu com as várias instâncias que o controlam [...] correspondem à um fracasso na função do Eu” (FREUD, 2016, p.06).

Freud (2016) pontua que a busca pelo prazer é o que domina o aparelho psíquico que evita o desprazer, ou de fato, lidar com a realidade, por isso o surgimento de conflitos nos instrumentos do aparelho psíquico (Eu, Super Eu e Isso).

Dessa forma, entende-se que o masoquismo faz parte dos estudos relacionados a perversão. O autor explica que o masoquismo é a contraparte do sadismo, em que o princípio do prazer leva a duas formas de pulsão: da morte ou destruição e a erótica ou libidinal, também chamada pulsão de vida.

Sendo assim há a estimulação do prazer através da libido – pulsão de vida – que se sobrepõe à pulsão de morte, contudo, ambos atuam juntas, principalmente ao tratar de masoquismo. Freud conceitua o masoquismo em três caraterísticas:

Masoquismo Erógeno: há prazer na dor, neste tipo de masoquismo há um componente da libido, e toma o corpo do ser como objeto. “Assim esse masoquismo seria uma testemunha e um resquício daquela fase de formação em que ocorreu a confluência – tão importante para a vida – entre pulsão de morte e Eros” (FREUD, 2016, p. 19).

Masoquismo Feminino: são fantasias executadas como um fim em si mesma ou para estimular o ato sexual, o conteúdo perverso manifesto é amordaçado, amarrado, maltratado, “sujado e humilhado” (FREUD, 2016, p.05). Em casos raros há mutilações, a pessoa na qual é subserviente é caracterizada da feminilidade – desamparo – castrada, por isso o termo “feminina”.

Masoquismo Moral: neste tipo de masoquismo, acontece o próprio sofrimento independente de que pessoa seja ou das circunstâncias encontradas. “[...] o masoquista sempre oferece a sua face quando vê a oportunidade de receber uma bofetada” (FREUD, 2016, p. 11). Consequentemente, a pulsão de morte é acionada, pois a libido é quase deixada de lado, e, este tipo de masoquista causa dano a si próprio. Um sentimento de culpa é atrelado no indivíduo que não o percebe e se torna refém, criando resistência mesmo em tratamento psicoterápico.

Tormentos (remorsos) se expressa num sentimento de culpa, e por isso não conseguem admitir que abrigariam em si mesmos moções bastante análogas sem delas nada perceber. Em certa medida, penso que podemos dar razão ao seu protesto se desistirmos da denominação – de qualquer forma- psicologicamente incorreta de “sentimento inconsciente de culpa”, e em vez disso dissermos “necessidade de punição”, com a qual podemos recobrir o assunto observado de maneira igualmente adequada. Porém não podemos deixar de avaliar e localizar esse sentimento inconsciente de culpa de acordo com o modelo do sentimento consciente (FREUD, 2016, p.12). 

Há de se compreender a complexidade que a perversão e a perversidade é notada e constituída, relacionando-a na questão do feminicídio, há muito mais aquém sendo envolvido no que se refere a mulher, no seu feminino e o homem ao tratá-lo como algoz.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o índice de feminicídio no Brasil é o quinto maior do mundo. São 4.8 assassinatos a cada 100 mil mulheres. Em 2017, de acordo com a Agência Patrícia Galvão, foram registrados 4,473 homicídios dolosos de mulheres, o que representa o assassinato de uma pessoa do sexo feminino a cada duas horas no Brasil. No entanto, esse número pode ser maior, pois há falta de padronização e registros, o que prejudica o monitoramento de feminicídios no país (ALBINO, 2018, p.30). 

Conforme Marcos e Riguini (2018) uma mulher pode representar o insuportável para um homem ou para até outras mulheres, pois existe o medo de se fragmentar no feminino. Este horror ao ser mulher ou ao gozo feminino, culmina a ausência de relação sexual. Sendo assim, a mulher ou menina quando não elabora o processo da castração pode desenvolver alguns sintomas para lidar com este medo de fragmentar-se, pode acontecer através da inibição sexual ou histeria; complexo de masculinidade ou identificação ao masculino. 

A mulher tem algo de inapreensível, de inominável, de incompreensível, desperta no homem um sentimento de impotência tão insuportável, muitas vezes que só encontra desfecho no ato violento (RIGUINI; MARCOS, 2018, p. 09).

Outra solução encontrada para lidar com o gozo feminino, se apresenta através do corpo da mulher, seja através do modo mais radical - o feminicídio -  como também outras mais paradigmáticas, como a maternidade e o amor.

Um artista plástico chamado Bellmer (1902 – 1975) expressou esta fragmentação feminina, através de esculturas, chamadas ‘bonecas” em que representavam o corpo feminino degradado, distorcido ou disforme. O próprio artista projeta sua fragmentação mediante as esculturas distorcidas.

Imagem 02: “A Boneca” , de Hasn Bellmer, de 1936

A Boneca , de Hasn Bellmer, de 1936

Observa-se que o horror ao feminino é visto como uma ameaça ao ser masculino, o homem vive uma crise constante consigo mesmo na busca do falo, esta falta no outro não é suprida, e dentro das características da perversão isto não é reconhecido, por isso desencadeia-se o seu temor. Por sua vez, a perversidade é uma atitude caracterizada cruel, utilizando instrumentos ou a pessoa se faz objeto para sua execução. Analisando isto, questiona-se se o feminicídio é um ato constituído da estrutura psíquica de um perverso ou caracterizada de perversidade?

3. Conclusão

 Conclui-se que os objetivos deste trabalho foram atingidos, pois buscou uma compreensão sobre o que seja o feminicídio, e principalmente as circunstâncias e desenvolturas isto acontece.

Nota-se que pela leitura psicanalítica da época atual, utiliza-se os conceitos freudianos para esta compreensão e percebe-se que questões desenvolvimento psicossexual infantil são pertinentes para um adulto saudável.

A perversão pode ser impulsionada, contudo a ética também pode ser ensinada e a complexidade moral. No entanto, a perversidade caracteriza-se por atitudes cruéis. O que se questiona é: é expressada num feminicídio uma perversão ou perversidade? Ou até mesmo ambos?

Não é possível generalizar, até porque retrata-se que a mulher ao ser agredida e perpetuar nesta condição de vida, também torna-se algoz de si mesma, lhe causando sofrimento ou encontrando prazer em sofrer – se auto punindo de modo inconsciente. Da mesma forma, o homem que lhe agride se sente ameaçado pelo feminino que lhe apresenta, por isso violenta.

E conforme literatura apresentada, o medo ao Complexo de Édipo e principalmente ao complexo de castração são ínterins pertinentes que podem, conforme uma análise psicanalítica, afetar o desenvolvimento desta criança, se tornando um homem e uma mulher inseguros a ponto de não reconhecerem o falo no outrem que lhe apresenta e terem medo de se fragmentarem. No entanto, a cultura machista impera numa sociedade que precisa tratar do que seja feminino e masculino, implantando o respeito e suprimindo a violência.

Em muitos casos de feminicídio a vítima é culpabilizada pelo que lhe aconteceu, o que, não justifica as atitudes caracterizadas de perversão e perversidade sobre a cena do crime.

Desse modo, sugere-se este tema para pesquisas contínuas, campanhas preventivas sobre respeito à diferenças e autodefesa, além de que contribuir com o desenvolvimento do amor consigo e auto respeito, evitando a relacionamentos abusivos, tanto ao que se refere o ser masculino como o feminino.

Referências:

ALBINO, A. Violência contra a Mulher: além dos aspectos legais que cercam a questão, é fundamental refletir a respeito do tema sob a luz da Psicanálise, para compreender o papel da mulher e do homem na sociedade e motivações que levam o ato violento. P.24-p.31. Revista Psique, 2019.

AULETE, C. Novíssimo Aulete dicionário contemporâneo de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon, 2011. 

BOCK, Ana M B. Psicologias: uma introdução ao estudo de Psicologia. 14ª ed. São Paulo: Saraiva, 2008.

DUCKER, C. Qual a diferença entre perversão e perversidade? Disponível em: < https://interfacepsijusbr.wordpress.com/2017/01/16/qual-e-a-diferenca-entre-perversao-e-perversidade-christian-dunker/>  Acesso em 28.05.2019

FREUD, S. Neurose, Psicose, Perversão. São Paulo: Autêntica, 2016.

MARCOS, C M; RIGUINI, R D. Cinco notas sobre o Feminicídio a partir da Psicanálise. Revista Subjetividades, ed. Especial 1-12, 2018. Disponível em : < https://periodicos.unifor.br/rmes/article/view/6174> Acesso em 27.05.2019

ZIMERMANN, David E. Manual Técnica psicanalitíca: uma re-visão. Porto Alegre: Artmed, 2008.

Informar um Erro Publique Seu Artigo