A Repressão e o Recalque na Psicanálise

A Repressão e o Recalque na Psicanálise
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Resumo: O presente estudo versa sobre a repressão e o recalque no contexto psicanalítico onde se mostra os aspectos concernentes a esses dois mecanismos de defesa em suas particularidades, assim como faz-se uma análise a respeito das divergências no que concerne ao significado de ambos na visão psicanalítica. Divergências estas que não são consideradas por alguns autores da psicanálise, motivo pelo qual muitos os consideram como sendo semelhantes. O objetivo da pesquisa foi o de verificar as divergências de significados que existem entre ambos, a fim de que se esclareça o real significado de cada um deles, e como cada um se processa na estrutura psicológica do indivíduo. A metodologia utilizada para o desenvolvimento do trabalho teve por base a pesquisa bibliográfica, mediante análise da visão de vários teóricos do campo psicanalítico.

Palavras-chave: Recalque, Repressão, Psicanálise.

1. Introdução

Recalque e repressão são terminologias que para muitos autores possuem o mesmo significado no campo psicanalítico. Fato este que envolve as questões da tradução da terminologia criada por Sigmund Freud. Isto porque a origem da palavra por muitos foi traduzida como tendo significado semelhante em ambos os casos.

Ao se aprofundar os estudos a respeito de ambos os termos e de como acontece o processo de cada um deles na mente humana, pode-se perceber que alguns autores apontam importantes diferenças entre os mesmos, o que desmistifica a visão de outrem quanto à semelhança no significado.

Uma das principais diferenças entre estes dois mecanismos de defesa foram evidenciadas no que se refere a forma de seu processamento na estrutura psicanalítica, pois cada um deles acontece em esferas divergentes da estrutura mental humana, a qual fora idealizada por Freud, uma vez que estes se originam em espaços diferentes, no que diz respeito ao Id, Ego e o Superego.

Essa divergência é relevante pelo fato de possibilitar um melhor entendimento no desenvolvimento desses dois mecanismos de defesa, que por serem considerados semelhantes, nem sempre são citados em alguns estudos referentes aos tipos concernentes a estes, o que resulta na citação de apenas um deles e não os dois como sendo diferentes.

Mediante a pesquisa objetivou-se verificar as divergências de significados que existem entre ambos, a fim de que se esclareça o real significado de cada um deles, e como cada um se processa na estrutura psicológica do indivíduo.

A metodologia utilizada para o desenvolvimento do trabalho teve por base a pesquisa bibliográfica, mediante a qual se analisou diversos estudos desenvolvidos por estudiosos do campo psicanalítico a fim de se investigar a visão destes a respeito dessa temática.

2. Considerações Sobre a Pulsão

No fim do século XIX o austríaco Sigmund Freud desenvolveu a noção de pulsão, o que ocorreu quando ele começou a pensar sobre os comportamentos humanos que além de excederem o instinto, também o contradizem. (PESTANA, 2005).

Para que se entenda os fatores relativos a Pulsão faz-se necessário diferenciá-la do que significa instinto, em função de que esses termos podem vir a ser considerados como sinônimos por algumas pessoas. No entanto Pulsão trata-se de uma conduta não advinda de precedentes, e nem possui um objeto em especifico, ou seja, é um comportamento que ocorre em função de fatores próprios e em determinados momentos, enquanto que o instinto diz respeito a uma força biológica que motiva seres de uma determinada espécie a agirem sempre com o mesmo objetivo, sendo então um comportamento oriundo da hereditariedade, e por isso pré-formado. (PESTANA, 2005).

Com vista a promover a definição de pulsão, Hans (1996, p.178) diz que Freud objetivava a realização de três atividades: a) Formulação de um padrão de funcionamento psíquico; b) Estabelecimento de bases fisiológicas do psiquismo; c) Buscava situar os aspectos biológicos da conduta humana.

Nesse ínterim Freud pretendia efetuar o estabelecimento entre a fisiologia pulsional e a esfera psíquica. Sua finalidade era a de estabelecer a psicanálise como ciência da natureza, buscando assim correlacionar os processos psíquicos com estados que sejam determinados de forma quantitativa. (HANS, 1996).

Em A pulsão e suas vicissitudes (1915), Freud formula sobre a passagem do psíquico para o somático. Ele define a pulsão como um conceito “situado na fronteira entre o mental e o somático” ou ainda, como “o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente”. Neste momento, acontece um conflito acerca do conceito de pulsão. (FREUD apud PESTANA, 2005, p.6).

Desse modo o processo de pulsão pode ser considerado como sendo algo que tanto pode surgir na esfera mental como também pode ter origem no interior do organismo vindo posteriormente a chegar na mente. O que não deixa claro de onde se origina desse fenômeno psíquico.

Alvo, objeto, pressão e fonte são os quatro termos utilizados por Freud para montagem do conceito de pulsão. O fator pressão é entendido como o fator motor, a soma de força ou a medida de trabalho representada por ela, o que a faz ser considerada como uma quantidade de descarga que resulta na excitação. A satisfação é o alvo da pulsão, cujo alcance ocorre pelo cancelamento do estado que estimulou a fonte pulsional. Alvo este que não é variável, onde somente o que pode ser modificado é o trajeto para se chegar nele. O objeto de um instinto é a coisa relacionada ao instinto ou por meio do qual a finalidade deste é alcançada. A pulsão precisa de um objeto para que consiga ser satisfeita, ainda que parcialmente. Objeto este que não é especificado, mas sim que tenha a capacidade de promover a satisfação da pulsão. A fonte pulsional não é psíquica mas sim corporal, vindo então a se originar no corpo. Por isso condiz a um processo somático que acontece em uma das partes ou órgão do corpo, onde a excitação é representada na mente através da pulsão. (MOURA, 2008).

Lacan apud Moura (2008, p.1) comenta que: “A pulsão nunca se dá por si mesma, nem a nível consciente, nem a nível inconsciente; ela só é conhecida pelos seus representantes: o representante ideativo (vorstellung) e o afeto (affekt).” Sendo assim a pulsão só se manifesta mediante esses dois representantes, e só através deles é que ela se torna conhecida, ou seja, pode ser observada no sujeito.

Quanto aos representantes da pulsão Moura (2008, p.3) declara que:

O afeto é a expressão qualitativa da quantidade de energia pulsional. Afetos correspondem a processos de descarga, cujas manifestações finais são percebidas como sentimentos. Os destinos do afeto e do representante ideativo são diferentes. Os afetos não podem ser recalcados. Portanto não se pode falar em afeto inconsciente; os afetos são sentidos a nível consciente, embora não possamos determinar a origem do afeto ao sentir suas manifestações. Os representantes ideativos são catexias, basicamente de traços de memória.

Portanto o afeto é sentido pelo indivíduo, onde este tem consciência plena de sua manifestação, e por isso não consegue recalcá-los, já os representantes ideativos podem ser reprimidos pelo indivíduo, ou seja, não se mostram de forma dominante na mente do mesmo.

Na concepção de Garcia-Roza (2005, p.114) a pulsão se configura como sendo o extinto desnaturalizado, em função de ter se desviado de seus objetos especificados e de suas fontes, sendo ela o resultado marginal do apoio-desvio. Isto porque esta tem o instinto como apoio, no entanto não fica reduzida a este.

Para Zimerman (1999, p.117) a continuidade entre o instinto e a pulsão não é marcada pelo apoio, mas sim ele promove a descontinuidade entre eles, o que transforma o somático em psíquico, levando o indivíduo a construir o seu mundo interior de representações com as sensações das experiências primitivas de emoções.

Segundo Moura (2008, p.4): “Uma pulsão não pode ser destruída nem inibida, uma vez tendo surgido, ela tende de forma coerciva para a satisfação. Aquilo sobre o qual vai incidir a defesa é sobre os representantes psíquicos da pulsão”. Isso mostra que o sujeito não consegue impedir a busca em satisfazer o objeto da pulsão, pois a partir do momento em que surge há todo um processo de emprego de energia para que o objetivo da pulsão seja alcançado.

Na psicanálise, a pulsão é a energia psíquica profunda que direciona a ação até um fim, descarregando-se ao consegui-lo. O conceito refere-se a algo dinâmico que é influenciado pela experiência do sujeito. Isto diferencia a pulsão do instinto, que é congênito (herdado pela genética) (REEVE, 2006, p.2).

Dessa forma diz respeito a uma força interna voltada a atingir um determinado objetivo, por parte de uma pessoa, que ao conseguir realizar seu objetivo, esta é descarregada, por isso é algo que acontece em certo momento da vivência do ser humano.

Para Pestana (2005, p.8) “Posto isto, Freud estabeleceu que a pulsão era a tensão corporal que tende para diversos objetos e que se descarrega ao aceder aos mesmos, ainda que momentaneamente, uma vez que a pulsão nunca é completamente satisfeita”. Percebe-se que a pulsão é um fato que pode acontecer em determinados momentos da vida de um indivíduo, e por não ser satisfeita por completo ela tende a voltar a se manifestar.

Moura (2008, p.4) afirma que Freud faz uma distinção de diversos momentos inerentes a pulsão, em que o primeiro é a fonte, a qual é a origem radicada no somático; o esforço, referente a tensão traduzida na pulsão; a meta, que pode ocorrer passivamente ou ativamente no estado; e o objeto, por meio do qual a pulsão é temporariamente reduzida.

Muitos psicanalistas consideram que as pulsões acontecem na sequência da ausência original de um objeto instintivo. Moura (2008, p.5) afirma que a carência esta que resulta na tradução dos desejos em pulsões, onde estas se direcionam a metas em momentos específicos. E quando este momento é alcançado, o processo de pulsão é reiniciado.

De acordo com Penna (2001, p.19) no inicio da teoria freudiana, as pulsões eram distinguidas de diversas formas, e em vista do aprimoramento desta, foram apresentadas apenas dois tipos de pulsões: pulsões básicas: eros ou pulsão sexual, para a vida e tânatos; pulsão agressiva, de morte. Essas pulsões tihnam como base o principio de repulsão e atração. As demais pulsões secundárias como os desejos, sonhos, e outros impulsos internos que guiam a ação do homem, são considerados como sendo frutos da junção dos dois tipos de pulsões. 

3. Os Mecanismos de Defesa e Sua Importância na Estrutura Psíquica Humana 

Segundo Ferrari (2015, p.2) o Mecanismo de Defesa é denominado por Freud como sendo as reações do Ego, diante do que é exigido pelas outras instâncias do psiquismo, Id e Superego. Definição esta que também é atribuída a esses mecanismos por parte de outras vertentes da psicologia.

Os mecanismos de defesa são determinados pela forma como se dá a organização do ego: quando bem organizado, tende a ter reações mais conscientes e racionais. Todavia, as diversas situações vivenciadas podem desencadear sentimentos inconscientes, provocando reações menos racionais e objetivas e ativando então os diferentes mecanismos de defesa, com a finalidade de proteger o Ego de um possível desprazer psíquico, anunciado por esses sentimentos de ansiedade, medo, culpa, entre outros. Resumindo, os mecanismos de defesa são ações psicológicas que buscam reduzir as manifestações iminentemente perigosas ao Ego. (FERRARI, 2015, p.2).

Quando percebe que algo que vem a sua mente não condiz com o que seja prazeroso para o sujeito, ou seja, pode provocar no mesmo algum perigo por lhe trazer desconforto, o Ego reage de forma defensiva, a fim de evitar que tais sentimentos ocupem a mente do sujeito, mantendo assim a sua harmonia psicológica.

Os mecanismos de defesa despendem o uso de energia, força, mas nem sempre são capazes de cessar a ansiedade, o que levou a dividi-los em dois grupos: os mecanismos de defesas tidos como bem sucedidos e os mecanismos de defesa vistos como ineficazes. Do primeiro grupo fazem parte os que são eficientes na diminuição da ansiedade mediante o perigo. Os do segundo grupo, que são os ineficazes constituem aqueles que não diminuem a ansiedade e resultam na construção de um ciclo de repetições, neste estão inclusas as neuroses e demais defesas patogênicas. Estes mecanismos funcionam de modo específico, de acordo com o seu tipo. (BEIVIDAS; SCHLACHTER, 2010).

Mecanismo de defesa ou ajustamento designa em psicologia geral e na teoria psicanalítica em particular as ações psicológicas que têm por finalidade reduzir qualquer manifestação que pode colocar em perigo a integridade do ego, onde o indivíduo não consiga lidar com situações que por algum motivo considere ameaçadoras. São processos subconscientes ou mesmo inconscientes que permitem à mente encontrar uma solução para conflitos não resolvidos no nível da consciência. As bases dos mecanismos de defesa são as angústias. Quanto mais angustiados estivermos, mais fortes os mecanismos de defesa ficam ativados. (HOOK, 2000, p.2).

Desse modo é a forma de como a mente reage a algo que lhe incomoda, podendo vir a provocar sofrimento, por ser contrária a personalidade da pessoa, sendo então a maneira de se resolver o problema relativo ao fator que provoca o desconforto psicológico, a qual se dá na esfera psíquica do inconsciente humano.

Ao vivenciar um conflito o indivíduo tende a ser acometido por uma angústia, e é esse sentimento que funcionará como uma motivação para a busca da solução desse problema. No entanto em muitos casos o sujeito não consegue resolver um problema de imediato e diretamente, pelo fato de que a pessoa não consegue solucionar seus conflitos de maneira racional, em função de que estes por envolverem fatores emocionais acabam por reduzir a objetividade do ser humano, o que resulta na busca por uma solução que se dá indiretamente e com certa tortura, objetivando ajustar-se, através da adaptação às exigências sociais. Processo adaptativo que são denominados como mecanismos de defesa. (FERRARI, 2015).

Beividas e Schlachter (2010, p.207) fazem algumas considerações relevantes a respeito dos mecanismos de defesa: a) Todas as pessoas apresentam diferentes mecanismos de defesa, mas só são vistos como anormais quando estes se manifestam excessivamente; b) Os indivíduos não podem escolher e nem empregar os mecanismos de defesa de forma consciente; c) O mecanismo que vai atuar em um dado momento depende da natureza da situação específica e das características da pessoa; d) As pessoas apresentam mecanismos de defesa diferentes em situações semelhantes; e) Os mecanismos que funcionaram com eficiência na solução de um problema anterior tendem a serem utilizados para resolução de novos conflitos; f) Ao serem utilizados de forma prolongado e excessiva podem resultar em graves consequências no ajustamento da afetividade na vida. O que faz com que alguns se mostrem mais maléficos que outros, como no caso da fuga e a repressão; g) Os mecanismos de defesa podem ser frustrados; h) Ao falharem esses mecanismos podem dar origem a modificações ainda mais violentas na conduta humana, as quais se apresentam através de perturbações psicológicas severas, como no caso das psicoses.

Friano (2014, p.1) declara que: “Os mecanismos de defesa tratam-se de ações psicológicas que têm o objetivo de proteger a integridade do ego”. Nesse sentido são ações que buscam evitar problemas ao ego, de forma a garantir que ele continue em um estado satisfatório para o sujeito.

[...] nem tudo que nos ocorre é agradável ao nosso consciente e o nosso ego pode considerar uma série de ocorrências como ameaçadoras à sua integridade, ao seu bem-estar. Nesse sentido diante das exigências das outras instâncias psíquicas – Id, que é nosso lado mais instintivo e do superego, que representa nossos valores morais e regras internalizadas – o ego deseja proteger-se para garantir o bem-estar psicológico do sujeito frente a esses conteúdos indesejados. (TOMASELLI, 2007 p.2). 

Portanto, tudo o que pode vir a causar sofrimento ao ego tende a ser combatido por ele, por meio de reações capazes de evitar que sentimentos inadequados à vivência da pessoa venham a prejudicar a sua sensação de bem-estar psíquico. É uma maneira de não sofrer, de impedir que o sujeito vivencie momentos de desconforto mental.

Os mecanismos de defesa são utilizados por todas as pessoas, em menor ou maior escala, independente das diferenças que existem entre as mesmas, por isso consideram-se como sendo universais. Por esse motivo são de suma importância para que o ego se mantenha saudável e íntegro. No entanto quando usados exageradamente podem resultar no funcionamento psicológico visto como patológico para o indivíduo. (FREUD apud FRIANO, 2014).

Na visão psicanalítica os mecanismos de defesa são ativados pela ocorrência da angústia, as quais são provocadas pelos conflitos, com vista a garantir que o ego tenha a sua integridade protegida. (TOMASELLI, 2007, p.2). 

Como disse Freud, todos nós fazemos uso desses mecanismos, pois as demandas da sociedade, com suas regras e valores morais (realizadas em nossa psique pelo superego), e a constante demanda de nosso lado instintivo (realizada pelo Id) pode deixar com frequência nosso ego frágil e incapaz de satisfazer esses dois lados, que muitas vezes trabalham de forma antagônica. Fazer uso desses mecanismos é saudável, e esperado, do ponto de vista psicanalítico. Contudo, quando o sujeito faz uso de muitos mecanismos de defesa e com uma frequência muito grande, pode ser um sinal de que as coisas não vão bem, e que é preciso procurar ajuda profissional. (FRIANO, 2014, p.6).

Dessa forma a existência dos mecanismos de defesa se constituem em uma necessidade do ser humano para que ele consiga viver em sociedade, pois nem sempre o que é imposto pelo meio social ao indivíduo é considerado como algo que lhe agrada. Mas apesar de ser importante este fenômeno pode tornar-se prejudicial a vida da pessoa, o que ocorre a partir do momento em que se manifestam uma frequência anormal, o que exige que haja o auxílio de um profissional capacitado para auxiliar o sujeito a controlar a ocorrência destes.

Segundo Bergeret (2006, p.49) os mecanismos de defesa são manifestações de proteção advindas do Ego ou pelo Si-mesmo, com vista a garantir sua própria segurança. Tais mecanismos não dizem respeito somente ao conflito e a patologia, mas também condizem a um modo de adaptação. E o aspecto doentio dessas defesas referem-se à ineficiência da sua utilização, ou ainda, quando não são adaptadas à realidade externa ou interna.

Para Moura (2008, p.5) os mecanismos de defesa estão presentes em meio aos procedimentos usados pelo Ego, com a finalidade de executar suas funções voltadas a impedir um perigo, o desprazer e o sentimento de ansiedade.

Na concepção de Fenichel (2005, p.377) as defesas patológicas, por meio das quais as neuroses são radicadas, constituem-se em defesas ineficientes, as quais exigem perpetuação da rejeição ou repetição, objetivando evitar a ocorrência de impulsos não desejados; produzindo um estado de tensão, o que pode ocasionar a irrupção.

Nenhum indivíduo, naturalmente, faz uso de todos os mecanismos de defesa possíveis. Cada pessoa utiliza uma seleção deles, mas estes se fixam em seu ego. Tornam-se modalidades regulares de reação de seu caráter, as quais são repetidas durante toda a vida, sempre que ocorre uma situação semelhante à original. Concedendo-lhes um teor de infantilismos. O ego do adulto, com sua força aumentada, continua a se defender contra perigos que não mais existem na realidade; na verdade, vê-se compelido a buscar na realidade as situações que possam servir como substituto aproximado ao perigo original, de modo a poder justificar, em relação àquelas, o fato de ele manter suas modalidades habituais de reação. Os mecanismos defensivos, por ocasionarem uma alienação cada vez mais ampla quanto ao mundo externo e um permanente enfraquecimento do ego, preparam o caminho para o desencadeamento da neurose e o incentivam. (FREUD, 1937 apud MOURA, 2008, p.5).

Em cada pessoa existe a manifestação, por parte do ego, de diversas modalidades dos mecanismos de defesa, as quais são escolhidas inconscientemente no momento em que o indivíduo se depara com determinadas situações que lhes são desagradáveis, e estas passam a estarem presentes de forma permanente no ego, sendo então utilizadas por ele sempre que se fizer necessário no exercício de sua tarefa para manutenção do bem-estar mental. Porém, podem vir a se tornarem patógenas à esfera do ego, a partir do momento em que promovem a alienação ampla do mundo exterior.

Para promover um melhor entendimento do que sejam os mecanismos de defesa, Mattos explica da seguinte maneira:

id que seria uma dimensão inconsciente e originadora dos impulsos mais primitivos de sobrevivência, agressividade e sexualidade. O Superego que é o “depósito” de toda a moralidade conservada pela educação e influência cultural que recebemos. E por fim o Ego que irá administrar os impulsos vindos do id, negociar com as restrições do Superego e tentar se adaptar à realidade que o cerca. (MATTOS, 2012, p.1).

Pode-se observar que a mente humana funciona mediante a ação constante desses três elementos, que atuam conjuntamente no que tange a questão da personalidade do sujeito, onde cada um deles possui uma função especifica com vista a estruturação mental de uma pessoa, isso no que se refere a consciência. De certo modo um depende do outro para que haja uma harmonia psicológica, harmonia esta que é alcançada pelo conflito que ocorre entre o id, o ego e superego. É o que pressupõe Mattos (2012, p.3) ao dizer que: “Já fica bem claro que a ideia de que somos muito originais, cheios de uma personalidade própria e única cai por terra. Nossa mente é um punhado de contrariedades”.

Na visão de Mattos (2012, p.3) os mecanismos de defesa configuram uma tentativa inconsciente do ego na busca pela adaptação e a amortização dos impactos oriundos dos sentimentos e desejos inadequados com vista que esses se manifestem de maneira o menos prejudicial possível. De acordo com a intensidades dos impulsos e as condições ambientais aparecem mecanismos mais rústicos e com maior poder de adaptação, como também aqueles que se mostram mais patológicos e alienantes. Esse fato vai definir o menor ou maior grau da manifestação doentia desse fenômeno em um indivíduo. Em geral são usados para reduzir o efeito de sofrimento mental de alguém.

O ego não é uma instância que passa a existir repentinamente, é uma construção. É um mediador, podendo, por um lado, ser considerado como uma diferenciação progressiva do id, que leva a um contínuo aumento do controle sobre o resto do aparelho psíquico. Portanto o ego é o polo defensivo do psiquismo. Não é equivalente ao consciente e nem superpõe a ele, não se superpõe ao consciente nem se confunde com ele. O ego tem raízes no inconsciente, como é o caso dos mecanismos de defesa, que são funções do ego, assim como o desenvolvimento da angústia. (SILVA, 2010, p.2).

Entende-se que o ego se forma ao longo do desenvolvimento do sujeito, onde vai se formando a sua personalidade, ele atua de forma a manter a harmonia mental do sujeito com o mundo exterior, tornando-o apto a viver no meio no qual se encontra inserido. Para Tomaselli (2007, p.13) o ego tem a função de mediar, integrar e humanizar a relação das pulsões com o que é exigido pelo superego objetivando adaptá-los as necessidades do mundo real. Já para Silva (2010, p.4): “Ao contrário do id, que é fragmentado em tendências independentes entre si, o ego surge como uma unidade e com instancia psíquica que assegura a identidade da pessoa”. Dessa forma ele proporciona ao indivíduo ter consciência de seus atos, de seus ideais, daquilo que representa o seu modo de ver e entender o mundo que o cerca, de perceber os seus limites.

Os mecanismos de defesa do ego concernem a processos subconscientes que se desenvolvem pela personalidade, onde estes tornam possível que a mente consiga desenvolver uma forma de solucionar os problemas, as hostilidades, anseios, ressentimentos, agressividade e frustrações para os quais não são encontradas soluções conscientes. É o desenvolvimento da personalidade através de uma técnica psicológica, cuja finalidade é a tentativa de se defender, estabelecendo compromissos entre impulsos que entram em conflito, buscando o alívio das tensões internas escolhidas inconscientemente. (TOMASELLI, 2007). 

4. O Recalque e a Repressão e Seus Aspectos no Contexto Psicanalítico

Recalque ou repressão foram os termos advindos da tradução da palavra alemã, criada por Freud, Verdrängung, a qual é oriunda do verbo verdrängen. Cujo significado pode ser: desalojar, empurrar para o lado, e ainda pode vir a ser sinônimo de incomodo, sufoco. (SILVA, 2010, p.5).

Referindo-se ao material mantido no ambiente intrapsíquico, onde o sujeito se ver obrigado a retirar de sua consciência tudo o que lhe causa desconforto, e que advém desse material. Porém este material continua integrado ao sujeito, no entanto se concentra em um espaço onde o material que foi rejeitado fica separado da consciência. Em função de que há a recusa, por parte desse material, de se manter afastado, se mantendo desapercebido, este por sua vez procura caminhos que o tragam de volta, e que por isso o sujeito sente-se obrigado a desprender energias a fim de mantê-lo fora de ação. (HANS, 1996).

Recalque e repressão são termos que geralmente são considerados como sendo sinônimos. O que pode vir a gerar distorções em relação ao que se entende do conceito original dado por Freud. Para Isotton (2002, p.2), no entanto estes apresentam diferenças minuciosas que precisam ser entendidas, o que exige a verificação cuidadosa das definições atribuídas a essas terminologias.

4.1 Recalque 

Hans (1996, p. 358) o significado original atribuído ao termo recalque é o “rebaixamento de terra ou paredes [...] calcar é conceituado como calcar a terra, o terreno = pressionar-pisar-apertar, podendo também ser utilizado como “oprimir, vexar, desprazer”. Percebe-se que essa terminologia refere-se a uma ação em que existe a sobreposição de algo sobre outrem, com vista a forçar uma situação que provoque desconforto, angústia.

[...] o termo refere-se “ao ato de fazer recuar ou de rechaçar alguém ou alguma coisa”. [...]  também pode ser utilizado como sinônimo de recusa ao acesso a um país ou lugar específico. De uso quase que exclusivo da psicanálise, define-se recalque como sendo o movimento que o aparelho psíquico promove para despejar da consciência as representações que podem gerar desprazer. Além disso, o aparelho psíquico disponibiliza energia para executar a tarefa de manter o conteúdo que foi despejado afastado da consciência (ISOTTON, 2002, p.3).

Portanto, é o processo pelo qual ocorre a sobreposição de uma força sobre algo indesejável, cuja finalidade é fazer com que esse fato se torne inoperante, impossibilitado de ser mantido na consciência a fim de que o sujeito não venha a sofrer, apesar de não poder ser excluído do aparelho psíquico, mas sim mantendo-se guardado em outro espaço deste.

Na visão de Hans (1996, p.179) o recalque é o mecanismo que mesmo não dispondo de força suficiente para expulsar as fontes das pulsões do aparelho psíquico, ele faz com que elas retornem ao inconsciente, retirando-as do centro da consciência. Esse mecanismo se mantém existente e necessário, pelo fato de que as pulsões ao serem recalcadas, continuam em constante movimento objetivando obter o acesso a consciência. Portanto a função do recalque é investir energias capazes de manter o objeto recalcado na esfera do inconsciente.

Segundo Laplache e Pontalis (2001, p.25) o recalque é o mecanismo por meio do qual as ideias e as representações pulsionais são obrigadas a se manterem no inconsciente. O que funciona com a finalidade de que se evite o desprazer, o qual pode surgir quando este material retorna, assim como o desequilíbrio psicológico do indivíduo.

O objetivo do recalque é o de manter fora do consciente tudo o que for percebido pelo ego como sendo inaceitável pelo sujeito. Este mecanismo é constituído através de um modus operandi primevo na esfera psíquica, o qual se origina ainda quando o indivíduo é um bebê. Sendo assim, o recalque emula-se na estruturação do neurótico, como também nas ocasiões em que haja a necessidade de defender contra as frustrações. Desse modo, o recalque, o qual busca proteger o princípio de prazer, contorna a realidade angustiante para a garantia do bem estar do aparelho psicológico. (FREUD, apud BRITO, 2015).

Todavia, este mecanismo não impede que o conteúdo que fora omitido da consciência volte a se manifestar; o recalque é imperfeito, e não impossibilita que o retorno do recalcado sob nova representação aconteça (FREUD, 2006c). Desta forma, como o conteúdo recalcado não está banido eternamente da consciência, ele se elabora, fica em um período de incubação (FREUD, 2006a), onde ele, sem a influência da consciência, se prolifera e transforma, de forma que não mais seja reconhecido, e possa se manifestar, Ele se move pelos traços mnêmicos construídos em cadeia, composta pelo conteúdo recalcado (FREUD, 2006b). A pulsão, desta forma, se desloca a representantes que tem a possibilidade de satisfazê-la parcialmente, omitindo sua verdadeira face ao ego, mas não necessariamente, impedindo o seu sofrimento. É neste momento que podemos intitular o retorno do recalcado de sintoma (FREUD, 2006a). (FREUD apud BRITO, 2015, p.3).

Portanto trata-se de um mecanismo que ocorre de forma constante no aparelho psíquico de um indivíduo, uma vez que a sua ação não é capaz de destruir o objeto das pulsões, mas sim apenas exerce um certo controle sobre as mesmas. Isto porque ele mantém os objetos pulsionais em uma espécie de prisão, no entanto esta não possui recursos necessários para que esses objetos sejam banidos permanentemente, ao contrário, apresenta-se em uma estrutura frágil que pode ser rompida a qualquer momento, permitindo assim que o que fora parcialmente banido da consciência possa voltar a mesma, ou seja, retorna em um novo formato, e que em função de sua nova forma, este não venha a ser reconhecido pelo ego, vindo então a se manifestar, e é quando se dá a produção dos sintomas.

De acordo do Moura (2008, p.6) o recalcamento foi descrito desde 1895 por Freud, sendo este o mecanismo de defesa mais importante e também o mais antigo, dentre os demais idealizados pelo criador da psicanálise. Liga-se de forma estrita a noção de inconsciente, referindo a um processo por meio do qual são eliminados da consciência fragmentos completos da vivência afetiva e das relações profundas.

Freud diz que o recalque não é um mecanismo defensivo presente desde o início; só pode surgir quando tiver ocorrido uma cisão marcante entre a atividade mental consciente e a inconsciente (o recalcamento só está presente a partir da divisão entre sistema consciente/pré-consciente e sistema inconsciente). E que antes da organização mental alcançar essa fase a tarefa de rechaçar os impulsos pulsionais cabia à outras vicissitudes, as quais as pulsões podem estar sujeitas. (MOURA, 2008, p.6).

Nesse sentido o aparelho psíquico do sujeito vai se formando alo longo de seu desenvolvimento físico, e por isso esse mecanismo de defesa não nasce operante, mas torna-se funcional quando as três esferas do aparelho psíquico já se encontram estruturadas, é quando o sujeito já se torna capaz de ter noção do que está a sua volta, de como funciona o mundo do qual ele faz parte, em todos os seus aspectos, e é a partir da obtenção desse senso que o mecanismo de defesa do recalque começa a operar colocando-se enquanto defensor do aparelho psíquico com a finalidade de evitar o sofrimento psicológico do sujeito, em virtude das pulsões estimuladas pelo mundo externo.

Freud apud Carnaúba (2013, p.20) determina que o mecanismo do recalque opera em três fases distintas, as quais são: o recalque primário ou original, o recalque secundário ou o recalque propriamente dito e o retorno do recalcado.

Na primeira fase, no recalque primário, estão as experiências vivenciadas pelo sujeito, na infância, mas que por ainda não ter o seu aparelho psíquico completo, ou seja, com as três estruturas formadas, o id, o ego e o superego, tudo o que for uma representação maléfica fica mantida no inconsciente, por ainda não ser reconhecida pela criança como algo que lhe provoca desconforto, em função de a mesma ainda não possuir consciência, noção das coisas, ou seja, saber distinguir entre certo e errado, tornando-se uma fixação.

Na segunda fase, no recalcamento propriamente dito, os representantes da pulsão que até então se encontravam alojados no inconsciente, começam a tentar ascenderem a esfera da consciência, o que é entendido pelo ego como uma ameaça à integridade psíquica da pessoa, e a partir daí este age no intuito de manter esses representantes ideativos das pulsões no inconsciente, para que assim o indivíduo não venha a sofrer em função de tais representações, ou seja, o acesso do objeto pulsional é impedido de se manter na consciência, sendo recuado ao inconsciente.

Na terceira fase, o retorno do recalcado, os representantes ideativos das pulsões, que foram empurrados para o inconsciente retornam a esfera do consciente com um novo formato, e por não ser reconhecido pelo ego, acaba por se fazer presente no consciente, de maneira menos ofensiva ao ego, em alguns casos, mas em outros se tornam altamente patológicos.

O retorno do recalcado pode consistir ou em uma simples “escapada” do processo de recalcamento, válvula de escape funcional e útil (sonho, fantasias), ou em uma forma às vezes já menos anódina (lapsos, atos falhos), ou, ainda, em manifestações francamente patológicas de fracasso real do recalcamento (sintomas). (BERGERET, 2006, p.52).

Nesse caso o representante ideativo recalcado, se transforma, assume nova aparência, para que assim consiga ser aceito, ou mesmo, não ser notado pelo ego, então busca assim cumprir a satisfação pulsional, a qual pode tanto não trazer problemas ao aparelho psíquico como também pode se mostrar patológica ao mesmo.

4.2 Repressão

Hans (1996, p.358) diz que o significado do termo repressão é: “reprimir, esmagar, oprimir, impedir de se manifestar” [...] “reprimir sentimentos, refrear”. Observa-se que a repressão é um movimento que acontece na consciência do indivíduo, em que o mesmo estar consciente desse fenômeno, e por isso o controla, e depende de sua vontade para que esse processo ocorra.

[...] a repressão é uma operação do aparelho psíquico que faz desaparecer uma ideia ou um afeto, na maioria das vezes desagradáveis, da consciência. Essa operação é realizada no espaço consciente e irá direcionar o material que deve ser reprimido para o pré-consciente. A atuação ocorre no campo da ‘segunda censura’, situada por Freud entre o consciente o pré-consciente. Para Freud não há como o afeto ser alojado no inconsciente, ou se torna outro afeto ou é reprimido. (LAPLACHE; PONTALIS apud ISOTTON, 2001, p.4).

Nesse sentido a repressão é uma ação da consciência do sujeito que ao se deparar com algo que lhe incomoda, o qual pode ser em termos ideativos ou afetivos, onde o objeto do desprazer é reprimido para a esfera pré-consciente, ou seja, censurado, mas não é lançado no inconsciente, ficando então no espaço consciente, no entanto em segundo plano da própria consciência.

Na visão de Carnaúba (2013, p.21) a repressão trata-se de um processo em que o sujeito inibe de forma espontânea, ou seja, por sua própria vontade, estando consciente da realização desse ato, uma ideia, um afeto, em função do desconforto pela presença de tais conteúdos em sua consciência.

4.3 Divergências Conceituais entre Recalque e Repressão

Mesmo sendo considerados como tendo significado semelhantes por muitos estudiosos da psicanálise, o recalque e a repressão precisam ser analisados em relação a dinâmica em que se processam na estrutura psicanalítica, para que se possa entender que tratam-se de processos diferentes, como explica Isotton (2002, p.4):

Observa-se certa dificuldade de contemplar o conceito de Verdrängung através das duas possibilidades: recalque ou repressão. No entanto, considera-se importante a clareza de que recalque e repressão, no campo psicanalítico, são dois conceitos que podem ser considerados como semelhantes em alguns aspectos, mas que na dinâmica do aparelho psíquico são distintos e se manifestam em espaços diferentes.

Entende-se assim que ambos os termos são mecanismos de defesa, no entanto o que difere um do outro é a questão do espaço em que cada um se processa no aparelho psíquico, pois enquanto o recalque é um ato que faz com que o objeto indesejado seja empurrado para o inconsciente do sujeito a repressão age no sentido de manter o desejo desagradável em um segundo plano da consciência, na pré-consciência.

Quanto a questão da diferença entre o significado de recalque e repressão Chiaradia (2006, p.19) afirma que:

A diferença estaria em que repressão seria um mecanismo exercido de fora para dentro, enquanto que recalque seria um mecanismo exercido no interior de um mesmo organismo.  Então, repressão implica em exterioridade e recalque em interioridade, um processo interior ao próprio eu.

Desse modo a repressão acontece quando em função de exigências exteriores o ego percebe algo nocivo ao psiquismo do sujeito, no caso, o objeto pulsional e por isso impede que este se mantenha no consciente, enquanto que o recalque ocorre quando o objeto pulsional advindo do inconsciente, internamente ao indivíduo, é entendido pelo ego como inaceitável e por isso é bloqueado por ele, tem seu acesso a consciência negado.

No entanto para que não se entenda que o recalque também não seja oriundo de fatores externos, Garcia-Roza (1995, p.165) alerta que: 

[...]  Se é verdadeiro que o recalcamento é um processo interno ao sujeito, é também verdadeiro que este processo se dá em decorrência da censura, da lei enquanto algo que é externo ao sujeito.  Contudo, há uma diferença notável entre o modo segundo o qual uma proibição se exerce de forma direta e consciente, e uma outra em que ela se faz através da interiorização da instância censora, e num nível inconsciente (GARCIA-ROZA, 1995, p. 165).

Portanto o recalque também pode ter como função a defesa contra objetos pulsionais os quais são frutos da relação do sujeito com o mundo exterior e seus preceitos morais, mas que em função desses fatores serem internalizados pelo sujeito, estando centrados na esfera inconsciente dos mesmos, ou seja, mesmo não sendo de forma consciente tendem a ser alvo da ação do sistema de defesa recalque.

‘repressão’ [Unterdrückung] refere-se a um processo que mantém as pulsões no limite do pré-consciente. Enquanto ‘recalque’ [Verdrängung] serviria para manter as pulsõesno inconsciente. Trata-se, portanto, de lugares diferentes da constituição da psique. (CARNAÚBA, 2013, p.21).

Nesse sentido a apesar de exercerem funções semelhantes, como no caso a de impedir que o objeto pulsional seja impedido de ficar no consciente, esses mecanismos de defesa se divergem pelo fato de que processam em espaços diferentes do aparelho psíquico.

3.Considerações Finais

No decorrer do estudo pode-se perceber a importância dos mecanismos de defesa para a manutenção da harmonia mental do ser humano, uma vez que são eles os responsáveis por garantir que o sujeito possa conseguir conviver saudavelmente com suas pulsões, sem que estas venham a comprometer seu bem-estar psíquico, podendo mesmo a se transformar em uma patologia, que irá ameaçar seu convívio social, em seu relacionamento com os outros e consigo mesmo.

Pode-se observar que o recalque e a repressão, apesar de terem funções semelhantes, estes se processam em esferas diferentes da estrutura psicológica humana, onde o recalque é um mecanismo de defesa que buscam manter as pulsões na esfera inconsciente, enquanto que a repressão visa manter as pulsões no pré-consciente, ou seja, na esfera mediadora entre o consciente e o inconsciente.

Outro fator de suma importância para o entendimento da divergência entre esses dois mecanismos, diz respeito a esfera onde estes se originam, pois enquanto a repressão é origina-se tanto no que se refere a fatores do ambiente externo e também interno ao indivíduo, o recalque origina-se apenas no que concerne a fatores que são internos ao sujeito. Portanto a repressão tanto pode vir de algo que é imposto por outrem ao indivíduo, em seu relacionamento com o mundo exterior, assim como pode ser de um fator que já foi internalizado pelo mesmo. Já o recalque sempre advém do inconsciente, ou seja, o sujeito não tem consciência do processo de combate contra a pulsão. Sendo assim ao reprimir o objeto pulsional a pessoa tem consciência desse processo, enquanto que o processo do recalque ocorre sem que este seja percebido pelo sujeito, ou mesmo, que este esteja consciente do que está acontecendo.

Sobre o Autor:

Reginaldo Silva Souza - Pós-Graduando a nível de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica pelo Centro de Estudos Bet-Hakam e graduado em Teologia (Bet-Hakam).

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