A Temporalidade Possível na Relação Terapêutica

A Temporalidade Possível na Relação Terapêutica
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Resumo: Este texto apresenta um estudo de caso com reflexões sobre atendimentos prestados a uma paciente chamada de G., casada, coordenadora pedagógica cultural, 39 anos e mãe, a princípio recebida para Orientação Profissional e posteriormente encaminhada para psicoterapia em serviço-escola de Psicologia de uma universidade paulista. O enfoque foi o tratamento verbal dado à temporalidade e o enquadramento vinculado a Psicanálise. Por tratar-se de um número reduzido de atendimentos (cinco), considera-se que liberdades e subjetividades estarão presentes e que o conceito de temporalidade será pautado na percepção dos encontros terapêuticos que foram supervisionados na abordagem psicanalítica. Nomes foram alterados para preservação do sigilo ético, mas não prejudicam a compreensão do estudo.

Palavras-chave: Tempo, Espaço, Psicanálise, Estudo de Caso.

Introdução

Na sala de espera de um serviço-escola de Psicologia de uma universidade paulista está G., uma mulher que chama a atenção quando chega nos ambientes, com suas longas tranças e postura corporal. Sua voz é doce, porém com volume necessário para ser considerada uma pessoa que não tem medo de se expressar em público e que faz valer seus direitos em situações de conflito. Aos 39 anos, mãe de dois filhos, precisa decidir sobre carreira, continuidade do matrimônio e perdão de velhos ressentimentos familiares. Neste perfil, foi atendida por quatro meses, com queixa inicial de indecisão paralisante diante de escolhas que considerava urgentes, mas não conseguia fazer.

Entretanto, em que pesem as compreensíveis contradições iniciais da paciente e sua resistência em confiar na terapeuta, o sentimento nomeado de “tempo” confuso (“eu não tenho tempo para essas coisas”, referindo-se a solucionar uma relação pendente com o marido) e “espaço” inconsistente (“preciso me mudar para o apartamento ao lado”, referindo-se a estar presente para a família) sugerem que G. vive descontextualizada de uma narrativa de si, essencial para a construção de um self saudável e integrado à realidade, queixando-se ela mesma desta falta de espontaneidade no viver.

Adorno (2003) diz que a substância essencial de um ensaio teórico é a heresia, porque as muitas possibilidades de se abordar um tema psicológico se multiplicam pelas inferências, sensações, pesquisas bibliográficas e pressupostos básicos da relação terapeuta-cliente. O cotidiano clínico também pode ser questionado pelo paciente quanto à eficiência da escuta e da interpretação dada às questões subjetivas dele. Ao mencionar que considera terapia “uma perda de tempo” logo no primeiro minuto após entrar na sessão, G. protege seu mundo infantilizado e pede “por uma cronologia dada pelo outro”.

Safra (2004) diz que:

“por esse tipo de comunicação há o reconhecimento da subjetividade humana ali presente à espera do outro. Este é o encontro que permite o acesso à existência humana. No processo de amadurecimento da relação com o terapeuta, o paciente sempre testa ou tateia possibilidades de significação do seu destino, modula sua fala através de suas resistências e vai dosando, recortando e omitindo”.

Resta, ao final, que o paciente vá trazendo aos poucos detalhes de suas feridas e fraturas, no compasso em que sua confiança vai se ampliando na relação terapêutica.

Safra (2004) também diz que a existência humana é significada pela subjetividade do eu que a significa. E este eudialoga consigo mesmo, numa realidade dialógica - a imaginada e a outra efetiva e vista por todos - trazendo esta dialogia do eu real e do eu imaginário para o setting terapêutico”. A escuta então se baseia num campo de metalinguagem: o que paciente que emite a fala - o que ambos inferem - o que significa para o emissor a fala - o que significa para o terapeuta. Este é o campo aberto da psicoterapia, escolhida a abordagem e as ferramentas do atendimento.

Para o mesmo autor, um bom encontro estético se dá quando um eu é afetado positivamente por outro eu ou na relação com o ambiente. Surge aí o convívio que vai fazendo o paciente se apropriar de um vocabulário existente somente na relação com o terapeuta, e os dois vão fazendo o seu próprio diálogo subjetivo se adequar. Neste setting com a paciente G., uma temporalidade outra se instaura: o tempo de enunciar e o tempo de compreender são distintamente não sincrônicos, podendo a paciente compreender melhor depois que sai da sessão, a caminho de casa ou nos dias consecutivos.

Esta também é uma temporalidade sujeita à memória. Segundo Safra (2004), “vivemos numa época na qual a memória é frequentemente perdida das mais diferentes maneiras”. O costume de tirar selfies constantes pode explicar porque as pessoas precisam de registros do que lhes acontece. Esta memória precisa estar presente nos registros familiares, nos espaços públicos e nas obras culturais. Por conseguinte, o tempo histórico de um indivíduo fica gravado por imagens mentais das quais ele cria totens como pegadas para reviver no depois. E ao reviver, revisita com outra subjetividade, mais ou menos reconhecida como sua. 

A questão das fotos guardadas para se reconhecer num tempo cronológico está presente neste estudo de caso. Em 2018, G. vivenciava seu segundo período de atendimento no serviço-escola de Psicologia. Inscreveu-se primeiro para Orientação Profissional em janeiro, completando um ciclo que resultou em indicações sobre sua carreira profissional, mas não tomou atitudes práticas nesta direção. Aconteceu-lhe a partir de maio deste ano, ficar em lista de espera até agosto, para iniciar sua psicoterapia em abordagem psicanalítica.

Casada pela segunda vez, G. tem dois filhos - A., menino, 14 anos, desta atual relação, e S., de 20 anos de um primeiro casamento, que aconteceu quando ela tinha 19 anos. Sua queixa principal era a falta de capacidade de tomar decisões ou manter as que conseguia tomar - algo que gerava ansiedade e insegurança por considerar que “na sua idade a falta de estabilidade era um fator de desamparo” (sic).

Os filhos moram com ela e o marido. Não há afetividade entre ela e este marido, desde que o mesmo cometeu adultério há cerca de cinco anos. O suporte financeiro familiar foi assumido por G. quase que totalmente, pois os filhos ainda estudam e o marido faz apenas pequenos serviços esporádicos. Ex-atleta em sua cidade, G. sofreu abusos na infância e adolescência por um treinador do seu time e apresenta dificuldade de integrar eus reais – bons e maus, alternadamente – nos encontros com a mãe, os filhos e novos relacionamento. Devido a histórico de violência doméstica entre os pais, G. também se ressente da perda dos objetos positivos e protetivos das figuras parentais, posicionando-se mais afetiva para com o pai agressor e culpando a mãe pela separação do casal.

Parte da queixa atual começa pela insatisfação profissional e do círculo de amizades muito restrito ao ambiente de trabalho, o que sugeriu um ego regredido na fase infantil; seja pela violência doméstica praticada pelo pai-bom-mau, odiado e admirado; seja pela indiferença de uma mãe muito ocupada com uma profissão de prestígio, porém ausente do vínculo afetivo com os filhos. Pode ter sido a possibilidade de G. realizar seu Complexo de Édipo e voltar ao amor materno atravessada pelo nascimento da uma irmã mais nova com deficiência mental, que tomou a si todas as atenções da família.

Winnicott diz que o desenvolvimento emocional é complexo e por etapas, num espaço transicional entre o que já se adquiriu e o que ainda se busca de singularidade. G. foi privada de “sentir-se real e ser capaz de apreciar a realidade externa em sua dimensão espaço-temporal”, uma vez que a infância foi marcada por abusos na escola na pré-adolescência e contra a figura da mãe - de quem esperava segurança e proteção. Ao chegar à vida adulta, construiu um self altamente defensivo, não integrando soma e psique; pulando etapas no desenvolvimento emocional e às vésperas de completar 40 anos, demonstrava a sensação de urgência de encontrar caminhos ontologicamente fraturados, com acometimento de doenças psicossomáticas (hipertensão e obesidade).

O Tempo Psicanalítico

A temporalidade em Freud aparece em textos diversos, sendo que em sua concepção de inconsciente está implícita uma mistura de tempo cronológico numa interface muito fluida. Porque os acontecimentos ocultos estão sempre presentes no acontecer do indivíduo e sua captura depende do virar de uma chave para o consciente através da verbalização. O supereu (superego) estando sempre de a interpenetrar o eu (ego).

O desmentido mais explícito do enunciado de que os processos “não têm absolutamente nenhuma relação com o tempo" é fornecido pelo próprio Freud com a noção de só-depois (Nachtréiglichkeit), que lhe serve para explicar a formação dos sintomas histéricos. Não são os acontecimentos em si mesmos que têm uma ação traumática, mas o segundo tempo constituído por sua revivescência sob forma de fantasia, depois que o sujeito atingiu a maturidade sexual (KAUFMANN, 1993).

As diversas coordenadas temporais da experiência de um sujeito também foram trabalhadas por Lacan, segundo Kaufmann (1993), quando ele retoma o “só-depois” para dizer que “ao formalizar o esquema do só-depois com o grafo, Lacan faz do só-depois um tempo de retroação de um significante sobre outro. Esse passo é decisivo porque separa a ordem lógica da linguagem, na qual se situa a retroação, da ordem das coisas. Separando em três tempos a compreensão (o tempo de ver o fato, o tempo de compreender o fato e o tempo de concluir sobre ele), Lacan diz que aquilo que não compreendemos e que não podemos concluir acarreta falhas de construção da individualidade, como se ficasse faltando um pedaço de temporalidade na busca de uma integração de si mesmo.

Isso toma a forma de uma pressa em ter certeza das coisas, pelo fato de ter dentro do self uma vaga sensação de que algo ficou para trás em sua formação. Assim, o fato de hoje toma uma representação de objeto de falta e de carência, ou o furo (Kojève) na representação. Em busca de reintegrar seu self, G. planejava morar só e proteger seu mundo temporal possível – porém desistia dos projetos ou adiava indefinidamente para não concretizar decisões já racionalizadas. Algo sempre denotava dentro dela a sensação de não estar pronta ou de estar atrasada em relação ao que se esperava dela.

Winnicott conceitua como elaboração imaginativa a elaboração dos elementos, sentimentos e funções somáticas que emergem do envolvimento com o ambiente - a própria vitalidade física. O soma, envolvido por um ambiente e por cuidados, vai, pelo menos gradativamente sendo habitado por um psiquismo e, aos poucos, constituindo um corpo. No discurso de “não saber quando começou a engordar” (sic), G. desqualificava este corpo e sua estética. A autoimagem neste caso era negativa, mas não realista porque G. não apresentava características de obesidade significativa para as relações peso-altura.

O Emancipar-se

Segundo Safra, crescer é emancipar-se, ou seja, tomar decisões, personalizar-se e configurar psique e soma numa morada cheia de saúde. Crescer, para G. era descobrir que nem o pai nem a mãe eram perfeitos no passado. O pai morto negava a ela a chance de reconciliação com o objeto paterno, mas isso era possível para com a mãe ainda viva. Para conseguir seguir adiante, G. também tinha de ressignificar, no presente, sua percepção de ser boa mãe para com os próprios filhos.

Na psicanálise de D. W. Winnicott acredita-se que o self fragilizado não está disposto a emancipar-se porque é incapaz de interagir com a realidade das relações interpessoais. Para não causar maior adoecimento ao paciente, a estagiária e sua supervisora decidiram por caminhar G. na temporalidade possível. Aceitando os avanços e recuos da narrativa da paciente, o analista deve abdicar de uma temporalidade própria e ser guiado pelas pistas que o paciente lhe coloca no caminho, porque “as vivências de um indivíduo e seu estilo de ser constituem-se esteticamente” (SAFRA, 2004).

Nas sessões, a capacidade de G. suportar olhar o mundo e suas exigências à altura de seu amadurecimento foram avançando devagar. O gestual e o tom de voz da paciente passaram a evocar uma cordialidade na medida em que a terapia proporcionou a ideia de continência de sofrimentos, com a equilibração em objeto pulsional da dupla “analista-analisando”. Um tempo em que o Eu-Isso foi se abrindo em contornos de Eu-Outro-Eu-Mundo. Parafraseando Safra (1999), uma nova ética de “ser-no-mundo” permitiria uma adaptação de G. de um “fazer sentido” para si mesma, trazendo o eu imaginário para o presente (tempo) e dividindo seu espaço com o outro (o terapeuta) através da linguagem.

Em cinco sessões bem distintas, a paciente evoluiu e buscou significar que “perder tempo” com a terapia poderia trazer benefícios. Na primeira sessão, comunicou um falso sucesso dos atendimentos do semestre passado em Orientação Profissional, não realizando a matrícula em nenhuma das áreas acadêmicas que lhe foi apontado. Verbalizou que sonhava com uma graduação superior e tinha pouca disciplina para o método de educação à distância. Culpou o atual trabalho pela carência de recursos e escassez de tempo para o curso presencial. Na segunda sessão, trouxe uma memória da vida profissional associada aos fracassos na afetividade familiar, culpando a mãe pela negação de afeto e por ter escolhido a primeira graduação numa área “oposta ao trabalho que a mãe fazia”.

Na terceira sessão, comparou o relacionamento dos pais com o descompasso do seu próprio matrimônio. Afirmou não conseguir ser boa conselheira para as dificuldades da filha neste campo. Na quarta sessão, apresentou fotografias de si mesma, em fases de autoestima pelo corpo bem extremas. Sua relação estética consigo se condicionava a punir o marido pelo adultério. Novamente G. demonstrava escolher a partir da negação e da reação ao outro. Na última e quinta sessão, finalmente falou de si e chorou. O sentimento de ser suportado (holding) pela terapeuta abrira o lúdico da comunicação, o sorriso foi possibilitado e também o choro. Uma visita à mãe iniciou também um processo de perdão.

Para Safra(2006) “a esperança sustenta e norteia a busca do Outro na comunicação, no sonhar, no desejo. Esperança é presença da memória do que impossibilitou, do que se deteve, do que se fragmentou, do que não aconteceu”. Em outras palavras, a possibilidade de engendrar uma temporalidade diversa da culpabilização nasceu na relação paciente-analista. A analista assumiu a relação objetal importante para a paciente P., para quem já se tornou possível organizar o tempo, rever o conceito da mãe ausente e verbalizar elogios a ela (a mãe) usando termos positivos que agora poderiam ser referidos a si mesma - uma análise transgeracional onde G. pode se ver como filha e mãe repetindo vivências de vitimização.

Winnicott chamaria de temporalização, quando G. consegue organizar passado, presente e futuro, ainda que incertos, mas com um sentido. Ali começa algum empoderamento. G. traz, na última sessão, a possibilidade de iniciar um curso de Artes, área não mencionada até então. Assumir da realidade subjetiva que aponta para um reconhecer a si mesma, faz nascer um novo projeto pessoal, uma ética pessoal, um debruçar sobre o mundo que retoma ao sagrado da “presença de si e do outro”, agora em condições de ser colocado sob lente mais subjetiva. O pequeno número de sessões impossibilita a retirada de uma conclusão sobre o processo, mas aponta para uma simbolização mais madura do tempo. 

Referências:

SAFRA, G. A face estética do self: Teoria e Clínica 4.ed. São Paulo: Unimarco, 1999.

SAFRA, Gilberto. A Po-Ética Na Clínica Contemporânea; Editora Ideias e Letras, SP, 2004.

SAFRA, G. A hermenêutica na situação clínica: o desvelar da singularidade pelo idioma pessoal. São Paulo: Sobornost, 2006. 

KAUFMANN, Pierre Dicionário Enciclopédico de Psicanálise - O legado de Freud e Lacan. Jorge Zahar Editor Ltda., Rio de Janeiro, 1993.

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