Amor Patológico: O Amor no Banco dos Réus

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Resumo: O presente artigo, que está inserido dentro do referencial teórico do tipo pesquisa histórica ou conceitual proposto por Mezan visa, através de revisão literária, realizar um estudo sobre o amor patológico, primeiramente fazendo um breve resgate histórico sobre o amor, o amor romântico, bem como sua posição sob a ótica da psicanálise. Partindo, então, para tentar elucidar os principais elementos que configuram as questões sobre o porquê o amor perde seu caráter generoso para atuar a serviço do narcisismo e da baixa autoestima de quem ama, assim também, como este deixa de ser prazeroso e passa a restringir a possibilidade de viver sem amarras. Avaliando os conceitos de como este nobre sentimento tornou-se patológico ingressando, assim, num turbilhão de emoções devastadoras, que se transforma num misto de rejeição e insegurança, posse e castigo, carência e ciúme, vingança e desespero.

Palavras-chave: amor; história; psicanálise; amor patológico.

1. Introdução

Existe, e sempre existirão, pessoas que sofrem por não ter reciprocidade no amor. Mas, neste caso não cabe uma abordagem psicopatológica. Trata-se de uma das muitas frustrações da vida humana normal. Entretanto, quando nos deparamos com formas de sofrimento advindo desse mesmo amor, que é versado em prosa e poesia, que inspira grandes pensadores em suas obras, como nas grandes óperas que, aliás, são consideradas estupendas por seus finais trágicos, está qualificado o amor patológico como ferida que dói e que se sente.

O verbete que corresponde à definição de amor no dicionário talvez seja um dos mais extensos da obra. Do latim amore é definido como a emoção que predispõe alguém a desejar o Bem a outra pessoa ou coisa; como sentimento que impulsiona o indivíduo para o belo, digno ou grandioso; grande afeição de uma pessoa a outra do sexo oposto; ligação espiritual, amizade; desejo sexual, e tem sido descrito há séculos por estudiosos de várias áreas do conhecimento (MICHAELIS, 1996).

A pluralidade de entendimentos sobre o termo amor está relacionada aos diferentes objetos de amor e às diferentes finalidades que o amor pode vir a apresentar. Relacionando aos objetos de amor, que podem ser alvo do amor humano, temos: Amor a Deus; Amor à ciência; Amor à sabedoria (filosofia); Amor platônico; Amor à pátria; Amor à si mesmo (autoestima); Amor materno; Amor fraterno; Amor romântico. As intenções do amor também podem ser distintas, desde a satisfação do desejo sexual até o chamado “amor puro” dos teólogos, que é totalmente abnegativo e visa o próprio Deus como o objeto de amor.

Dentre os objetos e intenções possíveis ao amor, podemos encontrar um ponto em comum nessa intenção a se unir ao outro: é o desejo de possuir o outro de maneira contínua e mesmo de constituir um todo com ele. Todos os tipos de amor também são análogos pelo fato de levarem o sujeito para um objeto considerado como bom. Nesse artigo o foco será o amor romântico, cujo objeto de amor é o parceiro e a intenção é a sustentação do vínculo afetivo.

Dentro do tema amor romântico, será dada ênfase especialmente ao aspecto psicopatológico do amor, que ocorre quando existe falta de controle sobre essa conduta, chegando ao ponto de se tornar excessivo e obsessivo. Deste modo, o objetivo aqui é focalizar alguns aspectos sobre pessoas que sofrem com e por amor através de atitudes e mecanismos emocionais patológicos, como por exemplo, os sofrimentos causados pela paranóia do ciúme patológico; pelos delírios passionais; crimes passionais; a co-dependência mantida pelo amor doentio; o comportamento obsessivo, e assim por diante. Pessoas com autoestima empobrecida podem estar constantemente insatisfeitas com o amor, normalmente por não se sentirem tão correspondidas como desejavam, por não sentirem a reciprocidade esperada, por sentirem a ameaça do abandono, ou outros sentimentos de perda. Existem ainda relações amorosas claudicantes, onde a pessoa que ama não deseja apenas o outro, mas deseja também o desejo do outro, o sentimento do outro e tudo o que possa estar ocorrendo na intimidade psíquica do outro.

Diante da impossibilidade de apossar-se do sentimento alheio, a pessoa que ama sofre, pois o outro pode não estar sentindo aquilo que se deseja que sinta, pode não estar pensando justamente aquilo que se deseja que pense. Na medida em que as pretensões de controle sobre os sentimentos da pessoa amada não são contidas, não são ponderadamente refreadas, surge uma imperiosa inclinação para a posse, para o domínio da pessoa amada. Vemos assim, que são atitudes desse porte, que fogem ao controle e escapam da razão, tendo como veículo de inspiração o amor, que estão colocando esse nobre sentimento no banco dos réus.

2. Aspectos Históricos – O Amor Romântico Através da História

O primeiro amplo estudo sobre amor foi feito pelo sociólogo John Alan Lee, da Universidade de Toronto, e publicado em seu livro, The Colors of Love (1973). Ele descreveu o amor, demonstrando que existiam vários estilos de amor. Depois colocou esses vários estilos em rodas de cor e confrontou o mecanismo humano da visão de cores com a capacidade de amor. Para ele, assim como os olhos só têm receptores para três cores, existem também três estilos primários de amor: Eros, marcado por uma forte atração física e no comprometimento; Ludus, voltado para o prazer e jogos de sedução e Estorge, que surge a partir de uma forte amizade e confiança mútua.

2.1 A Batida de um Coração ou uma Doce Ilusão?

Platão (428/27 a.C. – 347 a.C.) publicou o primeiro tratado sobre o amor, o qual foi traduzido para a língua portuguesa como O Banquete. Esta publicação narra o momento de um banquete, em que os convidados se revezavam para esclarecer o amor, estudando os diferentes tipos de amantes, a essência do relacionamento amoroso e os distintos componentes do amor (PLATÃO, 1976).

Aristófanes, um dos convidados, em seu discurso expôs que, em tempos longínquos, a terra era habitada por seres esféricos com duas cabeças opostas e exatamente iguais, quatro braços, quatro pernas e duas genitálias. Alguns possuíam ambas as genitálias masculinas, outros tinham duas femininas e, outros ainda, uma feminina e uma masculina. Eles não empregavam suas genitálias para reprodução e se multiplicavam como sementes, enterravam-se no chão e, deste modo, brotavam outros seres.

Tendo em vista o excesso de confiança em sua força, esses seres resolveram dominar o Olimpo, a morada dos deuses. Irado com esse descaramento, Zeus ordenou a Apolo que os cortasse ao meio para que se enfraquecessem tornando-se humanoides. Cada ser passou então a ter uma cabeça, dois braços, duas pernas e uma genitália, as costas ficaram expostas com o corte, então, Zeus ordenou que Apolo pegasse as bordas da ferida e as esticasse, deixando apenas uma pequena abertura, o umbigo, para que, lembrassem-se do castigo divino. Somente as genitálias ficaram para trás (PLATÃO, 1976).

Assim, as metades perderam a vontade de viver, não comiam, não bebiam e nem se enterravam para reproduzir a espécie, passando a vagar à procura de suas respectivas metades e, quando se olhavam, reconheciam-se de imediato e abraçavam-se profundamente, como se quisessem se unir novamente, permanecendo, assim até a morte. Com isso, espécie foi desaparecendo.

Preocupado com a provável extinção da espécie, Zeus ordenou a Apolo que adaptasse as genitálias das metades para frente, logo abaixo do umbigo para que, ao se abraçarem, se unissem sexualmente. Estabeleceu, também, que a reprodução passasse a ocorrer pelo coito (PLATÃO, 1976).

Esse mito esclarece a origem de um dos conceitos fundamentais sobre a psicopatologia do amor: o conceito de “amor complementar”, no qual cada indivíduo seria uma metade que busca no outro a sua “alma gêmea”. Nesse tipo de amor, ama-se porque não se tem, sendo o amor um desejo de suplantar uma deficiência do Eu, uma busca da perfeição própria e, consequentemente, o outro passa a ser o responsável direto pela felicidade do Eu, apesar de ser um ser imperfeito, já que só é amado porque é necessitado.

A partir desses conceitos, Platão distinguiu o “amor autêntico”, que liberta o indivíduo do sofrimento e o leva ao “banquete divino”, do “amor possessivo” ou “complementar”, que o leva a perseguir o outro como um objeto a consumir (PLATÃO, 1976).

Sócrates fez o último discurso do banquete, ao final desse livro, momento em que a filosofia foi eleita como a melhor forma de amar, uma vez que nobre é o seu objeto, a saber, o belo, nobre também é o amante, a alma e da mesma nobreza é a relação entre amante e amado. Por conseguinte a proximidade entre amor e filosofia levou a expressão “amor platônico” a virar sinônimo de amor filosófico.

Aristóteles (384 – 322 a.C.) diferenciou amizade e amor pelo aspecto da reciprocidade. Para ele seria possível amar algo ou alguém sem que o mesmo saiba ou corresponda ao amor que lhe é dedicado. A amizade é considerada para ele como virtude e a mais perfeita forma de afeição, pois se manifesta somente entre pessoas que se querem bem mutuamente (ARISTÓTELES, 2001).

Na Roma antiga o poeta Pubius Ovidius Naso (43 a.C. – 17 a.C.) também descreveu o amor. Na série a “arte de amar” (NASO, 2001), Ovídio comparou a arte da conquista amorosa às táticas usadas pelos militares nas guerras. Por meio de poemas, ele ensinou sobre a habilidade de amar voltada para sedutores infiéis ao casamento. Os dois primeiros livros da série destinaram-se aos homens, um sobre como conquistar as mulheres e o outro sobre como manter a mulher amada. Um exemplo é: “Mas cuida, primeiro, de conhecer a criada da mulher a conquistar; ela há-de favorecer as tuas tentativas” (NASO, 2001, p. 40). 

Na filosofia estoica, o amor-paixão era condenado, apreendido como um vício irracional da alma. A atitude do sábio estoico deveria ser não a destruição da paixão, mas sim sua extinção total, para dar lugar unicamente à razão. Acreditava-se que esse homem ideal (sem paixão), poderia caminhar como um Deus entre os homens (ARNOLD, 1911).

Na idade Média (século X – XV), ocorreu o surgimento do amor romântico. Até o séc. XI, a união que visasse à satisfação era considerada errada e pecaminosa. Por outro lado, a união com intenção procriadora era considerada como superior. Para a igreja o amor que deveria existir entre o casal, era o amor ao próximo, à caridade, sem o desejo carnal. O casamento seria assim uma instituição que visava a estabilidade da sociedade, servindo apenas para a reprodução e para a união de riquezas (ROUGEMONT, 1988).

A partir do século XII teve início o denominado amor cortês, o qual se popularizou através dos séculos XIII, XIV, XV e teve plena ascensão na Idade Moderna. A partir dessa época, ocorreu uma grande mudança: a união entre o amor e o casamento, ou seja, o homem começou a escolher o seu parceiro amoroso por amor (ROUGEMONT, 1988).

Em meados da Idade Moderna (séculos XVI – XVIII), com o advento do iluminismo francês e do liberalismo filosófico, importantes críticas ao amor complementar passaram a ocorrer. De acordo com o renascimento, que valoriza a subjetividade do Eu em contraponto ao social, o indivíduo passou a ser entendido como um todo indivisível e foi incorporada a idéia de que cada um é responsável pela sua própria felicidade. No relacionamento amoroso, amante e amado se afirmariam como singularidades absolutas, o que pode ser entendido como um ideal utópico moderno (LÁZARO, 1996).

Immanuel Kant (1724 – 1804) retoma a idéia de que existem duas formas de amor, uma saudável e outra doentia. Para ele, existiria “amor-ação” ou “amor prático”, o único moralmente aceitável, uma disposição de agir de modo benévolo com que precisa independentemente de qualquer relação que se possa ter, implica preocupação verdadeira e desinteressada pelo bem do outro. Para Kant, haveria também o “amor-paixão” ou “amor patológico”, aquele impossível de controlar e que inclui desatino e desprezo pelo outro. Atos de amor patológico, segundo Kant, decorreriam de paixões volúveis e não de uma análise racional do que seja certo fazer (KANT, 1960).

A expressão “enlouqueceu de amor” contém algo de inverossímel, pois quem enlouquece devido à recusa do ser amado já estava anteriormente perturbado e desorientado, de modo que escolheu a pessoa incoerente com as suas necessidades e valores próprios como objeto de seus afetos e desejos (BORGES, 2000). Um exemplo, comum na época de Kant, eram os indivíduos que se apaixonavam por outros de nível social superior: “apaixonar-se por uma pessoa de uma classe social mais alta e esperar desta loucura um casamento não é a causa, mas a consequência de uma prévia perturbação” (WOOD, p.258).

Arthur Schopenhauer (1788 – 1860) acreditava que o amor estaria enraizado exclusivamente no impulso sexual, ou seja, para Schopenhauer o amor seria apenas um impulso de reprodução da espécie.

Em sua obra máxima, O Mundo como Vontade e Representação. Publicada em 1819, ele explicou que o amor seria o último objeto de quase toda preocupação humana porque influenciaria nos assuntos mais relevantes, interrompendo as tarefas mais importantes e desorientando as mentes mais geniais (SCHOPENHAUER, 2005).

Continuando com o “pessimismo romântico”, tem-se Friedrich Willhelm Nietzsche (1844 – 1900), que entendia o amor como o ódio mortal dos sexos. Os homens desejariam o poder incondicional sobre a alma e o corpo das mulheres, as quais desejariam apenas “pertencer” a um homem viril e entenderiam o amor como uma doação total, do corpo e da alma, sem limites (NIETZSCHE, 2002).

Os existencialistas Mareei e Jaspers (apud ANGERAMI, 2007) afirmaram amiúde que aquele que ama a humanidade não ama ninguém. O amor é, por definição, uma relação pessoal entre dois seres concretos.

O amor segundo Sartre é “Por sua própria natureza, um logro e um referimento ao infinito, de modo que amar é querer que me amem” (SARTRE, 1997). Para este filósofo existencialista o amor é um ideal impossível, sendo que queremos das pessoas que amamos algo impossível. “Ao mesmo tempo em que ficamos atraídos pela liberdade que detectamos nas pessoas que amamos, ficamos também amedrontados de maneira que queremos privá-las desses atributos ao estabelecermos uma relação amorosa” (SARTRE, 1997).

3. Amor e Psicanálise – Freud Explica?

Ao investigar os fundamentos do amor, a psicanálise apresenta, de forma sistematizada, o que os poetas já sabiam: o encontro da verdade com o saber não decifra toda a verdade.

Sigmund Freud, já na Idade Contemporânea (séc.XIX em diante), através da observação de que uma paciente histérica queria dizer algo que, não conseguindo expressar com palavras, o fazia por meio do seu corpo, descreveu a energia de Eros (libido), chamando-o de instinto amoroso, o qual engloba tudo aquilo que pode ser sintetizado como amor, incluindo: O “si mesmo”, “pais”, “filhos”, “humanidade”, “saber” e “objetos abstratos”. Em Eros convergiam pulsões parciais de ternura, ciúme, inveja e desejos sexuais dirigidos para os mesmos objetos (FREUD, 1974).

Freud definiu amor como um conjunto de processos mentais internos que dirigem a libido do indivíduo para um objeto (parceiro), com objetivo de alcançar satisfação (FREUD, 1974). Para ele, a sexualidade seria a base de todas as manifestações do amor, fato que é motivo de crítica por parte de alguns autores, que descrevem que os conceitos freudianos sobre amor foram uma reprodução de conceitos filosóficos anteriores (FRONM, 1956).

De tal modo, a pulsão instintiva dirige o indivíduo para o amor, uma maneira de concretização natural do ser ao encontrar compatibilidade no outro. A partir da expressão, amar o outro, concluímos ver no outro a imagem do nosso amor fazendo jus a ele, por ser ele igual ou melhor do que nosso amor, um estilo de amar mais perfeito que o nosso, nosso ideal, nosso próprio eu. Como amar o outro, se este não tem nada a ver com o nosso eu? Não existindo compatibilidade ao nosso valor seus valores não nos atraem, assim, fica claro o paradoxo do amar ao outro:

Na verdade, se aquele impotente mandamento dissesse: ‘Ama a teu próximo como este te ama’, eu não lhe faria objeções. E há um segundo mandamento que me parece mais incompreensível ainda e que desperta em mim uma oposição mais forte ainda. Trata-se do mandamento ‘Ama os teus inimigos’ (FREUD, 1978, p.165).

Os fenômenos da vida podem ser explicados, pelo movimento de forças opostas dos instintos de vida e de morte. Porém, como a atividade do instinto de morte, age como um meio de destruição que, em parte se mantém latente, e em outra, se manifesta no sentido de agressividade. Assim, o instinto de morte, é compelido para o serviço do amor. Ao invés de destruir o eu consciente, destrói parte do organismo. Se tal agressividade mantivesse contida a autodestruição ganharia força. Os dois tipos de instintos estão mutuamente mesclados em oposição.

Neste sentido, o instinto da sensualidade, mantém em si uma tendência para o amor e autodestruição. Freud relaciona a libido, enquanto força variável, no campo da excitação sexual, com tudo que se pode entender como amor e denota as manifestações do amor a fim de distingui-las da energia do instinto da morte. A morte, por se ocultar no instinto de amor é mais difícil apreende-la, sua inclinação para a agressão, constitui uma disposição instintiva original que atravanca a civilização. O instinto de agressão é o representante da morte, e, ao mesmo tempo, o mais próximo do amor e com este, divide o domínio da existência. Significando que as evoluções da civilização já não são mais obscuras, pois a luta dos opostos, amor e morte, definem o curso e o fundamento da vida, a saber; a luta da espécie humana pela vida (FREUD, 1978, p.176).

Jacques Lacan (1985) baseia-se no amor grego para articular o par amante-amado com a estrutura do amor. Aquele que experimenta a sensação de que alguma coisa lhe falta, mesmo não sabendo o que é, ocupa o lugar de sujeito do desejo (amante); aquele que sente que tem alguma coisa, mesmo não sabendo o que é, ocupa o lugar de objeto (amado). O paradoxo do amor reside justamente no fato de que o que falta ao amante é precisamente o que o amado não tem. Se Eros nasce de uma aspiração impossível, que é de dois fazer um, o ser humano inventa o mito do amor, sustentado na promessa de felicidade. E, enquanto isso não vem, o bem se transforma em mal, inaugurando uma escola de amor infeliz.

Aldo Carotenuto (1994), inserido na corrente junguiana da psicologia profunda, descreve a fenomenologia da experiência amorosa, procurando suas causas inconscientes e seus fundamentos mais arcaicos. Atento às dimensões da individualidade, da interioridade e do imaginário dessa experiência, ele atenta, principalmente suas ambivalências e contradições. A experiência do amor deve afeiçoar-se ao imaginário dos nossos desejos com a realidade e com o imaginário da pessoa amada. Desta forma, resultam as sensações de vida e morte, de presença e ausência, de síntese e solidão, de atração e angústia, de libertação e culpa, de respeito e desmoralização, de força e vulnerabilidade, de fantasia e realidade, de luz e sombra, de ternura e violência, de diálogo e incomunicabilidade, de confiança e ciúme, de fidelidade e traição, de êxtase e abismo, enfim, de Eros e Pathos, amor e sofrimento.

Segundo Jung, fundador e principal autor da corrente analítica o amor é entendido da seguinte forma:

O amor representa uma grande problemática para a evolução do homem, onde este, para dar-se conta desse processo necessita da relação com o outro, com o coletivo, mesmo sentindo que esse processo é algo do individual, quando não consegue perceber que ‘é muito da incapacidade de amar que roubam das pessoas as oportunidades (JUNG, on-line, 2005)

Jung completa: “Onde temos Amor, não temos Poder, e, onde temos Poder, não temos Amor” (JUNG, on-line, 2005).

4. Até Onde o Amor Pode Chegar?

Até onde o amor pode chegar? Como explicar que tal sentimento é capaz de levar à destruição de si próprio e de quem se ama? Quando o amor ultrapassa a linha da normalidade para adentrar o universo das patologias? Enfim, como esse sentimento se transforma em obsessão abrindo caminho para o amor patológico?

5. Ele é Maravilha ou é Sofrimento?

A sociedade, impregnada do capitalismo de consumo, instiga a liberação e a incitação do desejo, apresentando-se narcísica em sua forma, ou seja, na maneira como produz e opera com a imagem, a qual é transmitida para oferecer um hipotético prazer imediato (LASCH, 1983); (CHAUÍ-BERLINCK, 2008).

O mesmo movimento ocorreu na instituição família que, de repressora e formadora de indivíduos com superego forte, capazes de bastar a si mesmos, tornou-se muito permissiva para com os desejos dos filhos, os quais, sem laços afetivos que os orientassem, tornaram-se inseguros, com superegos fracos e inclinados à dependência do julgamento e da aceitação do outro (CHAUÍ-BERLINCK, 2008).

Do ponto de vista psicológico, a procura narcisista por aceitação e atenção do parceiro em um relacionamento amoroso pode ser comparada à procura da segurança e afeto onipresente da própria relação simbiótica com a mãe, ou seja, na relação mãe-bebê, época da onipotência, quando o outro e o mundo faziam parte indiferenciada do Eu, ou seja, o bebê recebia afeto e todas as suas necessidades eram prontamente atendidas: não havia a sensação de falta (FREUD, 1976).

6. E o Verbo é Sofrer...

Assim como ocorre com outros comportamentos impulsivos, é difícil, no relacionamento amoroso, estabelecer o limiar entre o que é normal e o que é patológico. A atitude de prestar atenção e cuidados ao companheiro é esperada em qualquer relacionamento amoroso saudável. O grande diferencial entre o normal e o patológico ocorre quando existe falta de controle sobre essa conduta.

Quando amar é sofrer, então você provavelmente está amando o homem errado, da maneira errada, alguém emocionalmente fechado, viciado em trabalho, bebida ou em outras mulheres, alguém que não pode retribuir seu amor. Mesmo assim, você insiste, sacrifica-se, anula sua personalidade, continua tentando (CARDELLA, 2009, p. 112).

Segundo a psicóloga Beatriz Helena ParanhosCardella, autora do livro Laços e Nós - Amor e Intimidade nas Relações Humanas (2009), o amor pode ser uma experiência positiva de mudança, na qual a pessoa se torna mais criativa, mais aberta, mais corajosa, permitindo aos amantes viver o sublime. No entanto, o problema surge quando se fica preso a este, uma vez que, deixa de ter vida própria e passa-se a viver em função do outro, a fim de preencher uma lacuna emocional. "Não é porque alguém faz uma loucura ou extravagância que vai ser, obrigatoriamente, um companheiro melhor, nem significa que tenha mais valor", lembra Beatriz.

Segundo Eglacy C. Sophia, psicoterapeuta e pesquisadora do Ambulatório do Amor em Excesso (Amore) da USP, em sua pesquisa denominada,Amor patológicoUm novo transtorno psiquiátrico (2007), no amor saudável é comum e esperado um comportamento recíproco de prestar atenção e cuidar do parceiro. Porém, quando esse comportamento se torna excessivo e o indivíduo passa a fixar atenção no amado mais do que gostaria, abandonando outras atividades e pessoas anteriormente valorizadas, quando o amor deixa de ser prazeroso e passa a restringir a possibilidade de viver sem amarras, está caracterizado o amor patológico.

A psicóloga Judith Vero, co-autora do livro Falando de Amor - Uma Escuta Musical dos Vínculos Afetivos, (2007) conta que esse sentimento avassalador pode se manifestar em diferentes níveis. "Entre casais, amigos, irmãos ou na relação de uma mãe com o filho, esse é um amor que faz mal e vem de quem não quer permitir que o ser amado viva sua própria vida" (VERO,on-line, 2007).

7. Da Alegria ao Lamento...

O amor que acalenta amantes apaixonados, certamente não é o mesmo mal entendido amor que é caracterizado como amor patológico, pois, neste, várias emoções são experimentadas, tais como a ansiedade, depressão, raiva, vergonha, insegurança, humilhação, perplexidade, culpa, aumento do desejo sexual e desejo de vingança.O portador de amor patológico é um vulcão emocional sempre prestes à erupção e apresenta um modo distorcido de vivenciar este.

O amor patológico se caracteriza pelo comportamento de prestar cuidados e atenção ao parceiro, de maneira repetitiva e desprovida de controle, com o intuito de obter afeto, sem respeitar as necessidades e interesses do outro, muitas vezes com atitude crítica quando não recebe o esperado, contrariamente ao conceito de cooperatividade, que inclui ajuda desinteressada, tolerância e empatia social, em um relacionamento amoroso que se diferencia da erotomania ou amor delirante, diz Sophia (2008). Essas pessoas também têm dificuldade de estipular metas e de se manter focado nelas. "Isso ocorre porque o foco principal de sua vida é manter o parceiro sob controle, pois necessita da sua atenção" (SOPHIA 2008, p. 32). As principais táticas empregadas para controle são ligações telefônicas, seguir o parceiro, inquirir sobre as atividades dele, ser extremamente atencioso para com as necessidades dele e provocar ciúme.

É importante deixar claro que para que se caracterize amor patológico é importante, que a atitude repetitiva seja mantida pelo portador, mesmo após concretas e reiteradas evidências de que está sendo prejudicial para a sua vida e para a vida de seus familiares.

O amor patológico é uma doença que causa dependência como se fosse uma droga, só que nesse caso, a droga não é um produto químico ou álcool, é o parceiro ou parceira.

O medo da perda é um indício acentuado no amor patológico. A perda do objeto (ser amado) não diz respeito à perda pela morte, como ocorre num relacionamento normal, mas o temor maior e o sofrimento mais assustador é a perda do controle sobre o ser amado. Por isso, há quem diga que a essência desse amor é o medo. A pessoa foge da sensação de isolamento tornando-se parte de outra.

Esse quadro pode ainda, estar presente em outros transtornos psiquiátricos, associado a sintomas depressivos e ansiosos primários ou pode ocorrer isoladamente em personalidade vulnerável com baixa autoestima, sentimentos de rejeição, de abandono e de raiva.

8. O Amor é Ferida Que Dói e não se Sente?

Do ponto de vista fisiológico, esse quadro pode ser explicado por dois sistemas neuronais responsáveis pela seleção e preferência por um parceiro específico: o sistema dopaminérgico-córtico-estrial, que também é responsável por comportamentos relacionados à volição (ROBINSON e BERRIDGE, 1993) e pela capacidade de vinculação social, o sistema de neuropeptídios transmissores formado pela ocitosina, pela vasopressina e pelos opióides endógenos. A vasopressina e a ocitosina atuariam como moduladores na preferência por determinado parceiro (WANG e ARAGONA, 2004), enquanto os opióides endógenos, como a betaendorfina, seriam responsáveis pela sensação prazerosa na consumação do ato sexual e, possivelmente, de outros comportamentos instintivos (VAN FURTH et al., 1995).

A psiquiatra italiana Donatella Maraziti, explicou sobre a neurofisiologia do amor em seu livro La natura dell’amore: Conosere i sentimenti per vivere meglio.

Segundo ela, ocorreriam sensações universalmente inatas em nossa espécie, as quais ativariam todos os estímulos sensoriais (olfato, audição, tato, gosto e visão) e que se cruzariam na amígdala, a estrutura do sistema límbico responsável pelas emoções e pelas respostas correspondentes. A amígdala informaria ao córtex o que está acontecendo, que nos tornaria conscientes desse sentimento e nos propiciaria a experimentação da sensação de prazer despertada pelo indivíduo (objeto) da paixão. Assim a atividade da amígdala seria mediada, sobretudo pela serotonina. O mau funcionamento do controle serotoninérgico, portanto, poderia ser a causa do comportamento prejudicial e desprovido de controle em uma relação amorosa.

Segundo Eglacy C. Sophia (2008), o estado de consagração desse amor acenderia fortes descargas de adrenalina, o que pode esclarecer o estado de constante euforia. As sensações experimentadas por quem vive esse tipo de amor são análogas à provocada por altas doses de anfetamina no organismo humano. Isso acontece porque o amor produz uma substância conhecida como feniltilamina, que também está presente no chocolate, o que explica por que algumas pessoas que vivem uma perda gostam de se empanturrar de chocolate.

Um estudo verificou que, independente da cultura, a reação cerebral dos apaixonados é a mesma: ao ver fotos do ser amado, se "acendem" algumas partes do núcleo caudado do cérebro, estrutura que regula a sensação de recompensa. São zonas ricas em dopamina, neurotransmissor que age no cérebro promovendo sensação de motivação e prazer, e endorfina, que desperta sensação de bem-estar e euforia. "O fenômeno é semelhante ao que ocorre com dependentes químicos e jogadores patológicos diante da droga de escolha", exemplifica a psicóloga (SOPHIA, 2008, p. 35)

9. E o Amor Vai ao Divã...

A maioria das pessoas que experimentam o amor patológico, na maioria das vezes, procura ajuda quando não suportam mais a amargura, a aflição e frustração devido ao relacionamento. Segundo Eglacy C. Sophia (2008), o primeiro passo é o paciente ter consciência do problema. O tratamento inclui psicoterapia psicodinâmica, que se fixa aos aspectos conscientes e inconscientes do funcionamento da mente. Esse recurso pode aliviar sintomas que, possivelmente, estão presentes desde a infância. O diagnóstico de um psiquiatra também é considerado importante, pois este pode indicar se a pessoa sofre de algum outro distúrbio, associado ao amor patológico, que poderá ser tratado a partir de medicamentos.

10. Considerações Finais

O desejo de saber o que é o amor esbarra com algo inexprimível. De tal modo, o que não pode ser dito e escrito transforma o amor em “um mal, que mata e não se vê”, em “um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei por quê” (CAMÕES, on-line, 2012). Amar e saber o que é amar são coisas diferentes. Amar é um episódio que nunca se esquece; é idealizar sentidos para a essência no mundo. Saber o que é amar é impossível, pois, “quem ama nunca sabe o que ama; nem sabe por que ama, nem o que é amar” (PESSOA, on-line, 2012).

Assim, para além da fantasia poética, fica instituído que, mal é tudo aquilo que, com a perda do amor intimida a vida. Quando o homem fracassa e não consegue exceder limites e frustrações, esgota a consciência e esta o frustra, pois se sente ameaçada. Os sofrimentos são formas de potencializar a vida. Sempre que o homem os castra, o círculo de evolução da vida é obstruído, impedindo que o fluxo da existência eternize seu curso natural.

Assim, concluímos o trabalho em questão, esperando ter esclarecido as características específicas do amor patológico, não as restringindo aos fatores socioculturais epsicodinâmicos, dando fundamental importância na compreensão do conhecimento teórico para se fazer a distinção entre amor patológico e amor “normal”. Em termos psicológicosa essência dessa patologia parece não ser amor, e sim medo de estar só, de não ter valor, de não merecer amor, de vir a ser abandonado.

A civilização age como reflexo de uma contínua rigidez externa, que reduz as ações do instinto, daí surge o mal-estar, as neuroses e o desamor, porque organismo e consciência estão ligados entre si. O dever moral, eliminando o instinto, altera a consciência, e, a consciência por sua vez afeta o organismo. O homem primitivo, unido ao seu instinto natural impunha as adversidades ao seu fetiche por não cumprir seu dever, entretanto nunca culpava a si mesmo, deste modo reprimia seu fetiche, porquanto o homem primitivo não tinha a neurose que tem o homem civilizado.

Sobre o Trabalho:

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como parte dos requisitos para obtenção do grau de Bacharel em Psicologia, com formação de Psicólogo pela União Educacional do Norte – UNINORTE-AC. Rio Branco, 2012.

Sobre o Autor:

Claudia Valéria Martins Jorge - Acadêmica do 10º período do curso de psicologia da faculdade Barão do Rio Branco – FAB – UNINORTE – AC – e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

ANGERAMI, Valdemar Augusto. Psicoterapia Existencial. São Paulo, Thomson Learning Brasil, 2007.

ANGERAMI, Valdemar Augusto. As Relações de Amor em Psicoterapia: São Paulo, Thomson Learning Brasil, 2006.

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