Cantarolando com a Psicanálise

Cantarolando com a Psicanálise
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Resumo: Utilizando-se de trechos de músicas da MPB, este trabalho objetiva mostrar como a teoria psicanalítica se faz presente em cada rima e em cada melodia criada. Aborda os sentimentos suscitados pelo ouvinte e apreciador das criações artísticas. Discorre sobre a estruturação do sujeito, seu inconsciente, fazendo assim uma conexão com termos musicais. Traz a músicas, seus valores significativos e como os artistas inserem seus conteúdos em suas criações, atingindo assim o ouvinte. Os conteúdos recalcados do sujeito ganham pulsação e ritmo, inserindo assim amor, vida, morte e psicanálise.

Palavras-chave: Música, Psicanálise, Inconsciente, Amor.

1. Cantarolando com a Psicanálise

Utilizando-se de trechos de músicas da MPB, este trabalho objetiva mostrar como a teoria psicanalítica se faz presente em cada rima e em cada melodia criada. Aborda os sentimentos suscitados pelo ouvinte e apreciador das criações artísticas. Discorre sobre a estruturação do sujeito, seu inconsciente, fazendo assim uma conexão com termos musicais. Traz a músicas, seus valores significativos e como os artistas inserem seus conteúdos em suas criações, atingindo assim o ouvinte. Os conteúdos recalcados do sujeito ganham pulsação e ritmo, inserindo assim amor, vida, morte e psicanálise.

Este trabalho busca teorizar pelo viés da psicanálise os sentimentos suscitados em meio às letras e notas musicais, tanto para aquele que compõe, quanto para aquele que escuta.  A música aqui é abordada como algo que conecta o sujeito para algo muito além de sua consciência, tocando no seu vazio, percorrendo sua infinitude. É nela que a psicanálise encontrará sua teoria (juntamente com as artes), a teoria do sujeito que se estruturou a partir do Outro, de sua voz, sua linguagem e seu amor. Aquele que traz no inconsciente os conteúdos de uma história esquecida, e assim reconstruída.

Mas que poder tem a música para emergir sentimentos tão fortes, a ponto de comover o sujeito que tem seus ouvidos tocados por ela? Referindo-se não apenas ao ouvinte, mas ao compositor, porque antes mesmo de a música chegar à sua boca, ela passa por seus ouvidos. Cada letra, nota e melodia, este o fala, canta. Fazendo com que mergulhe em um mar de inquietude por se deparar com algo que lhe pertence, mesmo que não consiga decifrar. É sua alteridade que se sente na liberdade de tirá-lo de um discurso que há muito lhe apresentaram, e de um lugar que por alguma questão decidiu assumir. É no silêncio do Outro que sua voz se faz presente. É através da música que o sujeito tem a condição de falar da dor e do amor que não se conhece, mas que intensamente se sente. E é por meio da psicanálise que é possível conhecer tais sentimentos, já que ela desliza neste campo com a sutileza e a agressividade de quem sabe ultrapassar as margens e até as profundezas.

Não é difícil perceber que os sons costumam provocar algum tipo de reação nas pessoas que os escutam, seja algo positivo ou negativo. Principalmente quando esses sons têm um arranjo musical, uma melodia e uma harmonia entre as letras. Um prazer visível parece estar por trás do semblante daquele sujeito que dedilha um violão, ou desliza seus dedos sobre um piano. Sua produção parece evocar-lhe sentimentos no mínimo curiosos.

1.1 Os Embalos do Inconsciente

Cantigas e canções despertam interesse na maioria dos sujeitos, desde os mais antigos povos, nas épocas mais remotas que se possa imaginar. Como diz Brito (1990 apud CAMBARIEU, 1909), os antepassados atribuíam à música os mesmos poderes que se atribuíam aos deuses, já que a natureza imaterial e impalpável do som conferia à música o poder de comunicação com o mundo que para eles era sobrenatural, invisível. Em meio aos Gregos ela era utilizada para alcançar a formação de um espírito perfeito, nos rituais indígenas para evocar os deuses da natureza, nos povos africanos para viver, celebrar e suplicar. Seja em qualquer lugar, em qualquer raça, a música conecta o sujeito com algo para além de qualquer explicação objetiva ou racional. E a psicanálise tendo um caráter investigativo e inquietante diante das coisas e sensações, não fica alheia a tais questões.

Entendendo que a psicanálise tem como ponto de partida para compreensão do sujeito, o inconsciente, majestosamente “descoberto” por Sigmund Freud e discutido em “O inconsciente” no ano de 1915, vê-se que a partir dele é possível ter acesso aos conteúdos mais obscuros da vida do sujeito, às emoções carregadas de culpa que foram reprimidas e reconstruídas sem que a ideia principal chegasse a nível consciente. Dessa forma, torna-se fascinante a conexão da mesma com o mundo da música, já que se trata de algo que não tem explicação consciente em nível da lógica da exatidão e da explicitude. Segue sim uma lógica, só que a lógica do inconsciente. É lá que se encontram os conteúdos mais tenros da vida do sujeito, e que podem surgir à consciência de diversas formas: sonhos, chistes, atos falhos, lapsos. Meios suportáveis utilizados pelo sujeito para ter acesso a tais conteúdos recalcados. Por isso eles surgem disfarçados, com uma roupagem nova. Como diz Quinet (2012) quanto aos sonhos, em seu artigo Psicanálise e Música: reflexões sobre o inconsciente equívoco: “O sonho dá um tratamento ao desejo que ele aparece disfarçado e assim dribla a censura e se expressa de forma a ser realizado sem que o sujeito acorde – a não ser no pesadelo, quando o disfarce não foi tão eficiente e causou angústia.”

Adriana Calcanhoto, cantora, compositora e intérprete da MPB, esplendidamente cantarola a psicanálise em um poema musicalizado de Waly Salomão, chamado Fábrica de Poemas, onde suas letras falam desses conteúdos que escapam à consciência por meio dos sonhos, referindo-se nesta canção a uma arquitetura ideal encoberta por uma nata de cimento que encaixa palavra por palavra, ou seja, o inconsciente. É nele e para ele que as palavras têm sentido, não são soltas ao vento; são palavras que dão nome e forma ao sujeito, que se aglomeram e o estruturam.  

O sujeito muitas vezes não entende, muito menos vê nexo no que se sonha, isto porque o inconsciente como uma forma de proteção não lança à consciência os conteúdos puros de um desejo que precisou ser recalcado. Ele maquia, camufla. Só o sujeito em análise consegue defrontar-se com seu inconsciente. E sabiamente o poeta Waly Salomão ainda corrobora dizendo em suas letras que não adianta ficar a espreita, vigiando o sono para tentar entender essa complexidade esplendorosa, porque não se sabe sob que máscara retornará o recalcado.  

Isso é o inconsciente, um imenso arquivo de inigualável relevância para a estruturação do sujeito. Um grande “palco” no qual atua uma “equipe de musicistas” com diferentes competências, conduzidos com a maestria de quem não pode deixar destoar a melodia. Uma “bela” orquestra que rege o sujeito, fazendo-o tocar a vida como quem não conhece as notas. Mas, esse competente maestro (o inconsciente) nem sempre consegue manter o sujeito em harmonia, ele deixa cair a batuta, e no lugar do agudo sai o grave. Então o sujeito adoece, a consciência consegue ter acesso ao que fracassou na barreira do inconsciente, surgindo os sintomas, a angústia.

Vulej e Borges (2011), em seu artigo Desejo e aprendizado, em Revista Marraio, citam Freud escrevendo:

Freud (1926/2006) ainda, em Inibição, sintoma e angústia, aborda a formação do sintoma e o define como um indício e um substituto de uma satisfação pulsional não consolidada; um resultado do processo de recalcamento. O recalcamento parte do Eu, que, eventualmente por encargo do Supereu, não quer tomar parte em um investimento pulsional incitado pelo Isso.

Os sintomas vêm como uma forma de negociação com o eu. É por não suportar entrar em contato com o desejo recalcado que o eu substitui a satisfação advinda das pulsões, que segundo Daniele Baggio (2014), trata-se de um fator interno que leva o sujeito a um movimento pulsional em direção a um fim, a uma satisfação por intermédio de um objeto. Transformando-as em algo que não possa ser reconhecido como prazeroso, acalmando assim os impulsos do isso e as exigências do supereu, e o resultado dessa negociação é: corpo e mente doente, no caso do sujeito neurótico. Chico Buarque e Cristóvão Bastos falaram um pouco disso nos anos de 1987, em meio às letras da canção chamada: “Todo o Sentimento”, quando dizem: “Um tempo que refaz o que desfez. Que recolhe todo o sentimento, e bota no corpo uma outra vez. Prometo te querer, até o amor cair doente, doente (...)”. Quem desfaz e refaz é o inconsciente, suas instâncias (isso, eu e supereu). As sensações emergidas de um prazer não permitido recaem sobre o corpo, e ele adoece.

Mas como é que a arte, o artista, podem conseguir relacionar suas produções de tal forma com o funcionamento psicológico como se não tivesse consciência da riqueza que existe em cada palavra, em cada tracejo e em cada cor que exprime em suas criações? Mário Quintana tem como sua autoria um poema belíssimo, que fala do poder que a arte exerce sobre o sujeito, a capacidade que ela possui em amenizar sua angústia, deslizando seus sentimentos sobre ele: “Quem faz um poema abre uma janela. Respira, tu que estás numa cela abafada, esse ar que entra por ela. Por isso é que os poemas têm ritmo - para que possas profundamente respirar. Quem faz um poema salva um afogado.

 Palavras, símbolos, linguagem. Contribuição de Lacan em sua retomada a Freud no estudo do inconsciente, quando apresenta a linguística e diz que o mesmo é constituído por palavras:

Uma vez que se tratava de dar relevo ao lugar central ocupado pela fala e pela linguagem na experiência psicanalítica, fato fundamental que havia sido completamente esquecido pelos analistas pós-freudianos, foi necessário para Lacan estabelecer que o mundo humano é o mundo da linguagem, que não há nada aquém ou além da linguagem (COUTINHO JORGE, 2005, p. 13).

Um conjunto de coisas que fazem parte da vida do sujeito, letras soltas, palavras sem sentido, figuras sem nome e valor significativo. Um mundo que parece não existir até que de fato lhe seja apresentado. O mundo mágico das letrinhas, em que cada uma tem seu próprio som, e que estes se unem com um só propósito: formar palavras e dar significado às diversas coisas que compõe o meio em que o sujeito está inserido. E assim o sujeito vai sendo e fazendo parte de um contexto, de uma história. Um conto em que ele cria onde é preciso e vivencia o que lhe é satisfatório e/ou suportável. Onde as palavras criam vida e as imagens ganham nome, tendo o sujeito desde muito cedo que exercer a arte do malabarismo para fazer girar a chuva de letrinhas que escoam para dentro de seus ouvidos e inundam seu aparelho psíquico.

As palavras se presenteficam! Amarradas ao sujeito como uma corda de violão amarrada ao seu braço de madeira, em que cada tocador vai tirar delas o som que é capaz. E como canta Vanessa da Mata: “As palavras fogem, se você deixar, o impacto é grande demais, cidades inteiras nascem a partir daí. Violentam, enlouquecem ou me fazem dormir. Adoecem, curam ou me dão limites. Vá com carinho no que vai dizer.” A crueldade e a doçura, desenhadas nos traços que sustentam as letras do alfabeto e na junção que constroem sua sonoridade, carregadas implicitamente com o poder daquele que se apropria dela para fazer do outro seu prisioneiro. Flutuando no inconsciente do sujeito, e fazendo-o flutuar no mundo que é constituído por ela.

Fazendo assim, o inconsciente unir cada letra, como faz o poema a partir de suas rimas, com um determinado tempo, num determinado ritmo, embalando o sujeito na melodia de suas representações significativas.  Quinet (2012), em seu artigo Psicanálise e Música: reflexões sobre o inconsciente equívoco, fala que “o inconsciente trata as palavras como música pelo seu encadeamento sonoro. Que ele é constituído por cadeias de significantes 5, que são os encadeamentos sonoros das palavras – ou seja, um fraseado de sons que faz com que se possa afirmar que o inconsciente é musical”.

Caminha-se assim para o entendimento de uma voz que vem de dentro, com a propriedade e a autoridade de quem é dono da coisa. A Coisa aqui referida pode ser embasada no viés das explicações artísticas através de Heidegger (BERTOCHE 2006 apud HEIDEGGER 1977), quando diz que a arte tem haver com a coisa, a coisa como suporte das características, como a unidade de uma multiplicidade de sensações, como matéria enformada. A arte que fala e expressa o sujeito artista, carregando com ela um mundo de informações que mudam e se transformam através da atenção de quem a aprecia. Mas a Coisa lembra também um termo utilizado por Freud e desenvolvido por Lacan. Referindo-se a tal questão, Quinet (2012) diz que: “A Coisa é o elemento que o sujeito isola na origem e que se apresenta cada vez que o seu interesse (sempre marcado pela libido) é despertado pelo outro. (...) Os atributos mudam, mas há uma pequena coisa que está sempre lá.”

Uma só palavra com significados diferentes. Na leitura de Heidegger, referindo-se às sensações, àquilo que faz parte da imaginação, que para psicanálise trata-se do imaginário.  Já para Freud e Lacan, a Coisa trata-se do real, daquilo que não pode ser simbolizado e que o sujeito nunca vai encontrar algo igual, porque a Coisa foi perdida, e o sujeito vai passar a vida inteira em busca dela (o que Lacan chama de objeto a). Isso pode ser observado na canção de Frejat chamada “Segredos”, lançada no ano de 2002 quando ele aponta a questão da eterna busca em suas letras, dizendo: “Eu procuro um amor que ainda não encontrei, diferente de todos que amei. Nos seus olhos quero descobrir uma razão para viver (...). Procuro um amor que seja bom pra mim, vou procurar, eu vou até o fim (...)”. Será o objeto de amor a que ele se refere? Aquele que os demais sujeitos passam a vida toda tentando encontrar nas mais variadas coisas, e que o artista possui a capacidade de sublimar de maneira tão bela esse oco, esse vazio. Talvez esse olhar seja sua mola propulsora, aquela que lhe acende o desejo. Que o faz reviver e morrer a cada tentativa de busca e fracasso. Viver e morrer, Eros e Thanatos, isso remete a mais uma das descobertas de Freud, a pulsão de vida e a de morte. O que move o sujeito, seu motor da vida, que o levará ao êxito ou à destruição.

Há inúmeras criações que circundam a morte como um impulso. Nelson Antônio da Silva, conhecido como Nelson do Cavaquinho, foi um grande cantor e compositor do samba, que carregava suas letras de sofrimento, sendo assim reconhecido por seus trabalhos. Sofrimento e morte eram termos corriqueiramente presentes em suas letras musicais, como na canção de tema “Miragem” em que dizia: “Mais uma vez venho a vocês pra confessar que nunca fui feliz. Sempre sorrindo eu vou fingindo, pois afinal não sei o mal que fiz. Sou qual ave que não sabe chorar. Todos gostam de ouvir meu cantar, com meu violão sempre colado ao meu peito tão amargurado”. A morte pulsa em suas letras, mas a vida o faz cantar, a música parece sustentar o peso desse vazio que o impulsiona para o fundo.

A suposição do horror pelo qual Chopin se veria tomado, ao ter conhecimento de que aos soluços provocados por sua música entre 20h e 22h sucedia a tranquila retomada de um trabalho de morte, permite dizer que a música, embora não enuncie de maneira categórica o mandamento ‘não matarás’, traz implícita uma promessa não formulada (DIDIER-WEILL, 2014, p.22).

Segundo Roudinesco (1998), Freud teorizou a pulsão de morte a partir da compulsão a repetição, onde o sujeito inconscientemente tende a repetir coisas dolorosas e experiências antigas, confrontando-se de forma permanente com Eros, a pulsão de vida, representada pelas pulsões sexuais. Ambas as pulsões movem a vida anímica do sujeito, impulsionando-o para o seu objeto de desejo. Portanto é a vida anímica que está presente nas letras de uma canção, nas notas musicais, na sensibilidade dos ouvidos de quem as captura e extrai delas seus próprios significantes. Porque uma mesma letra não será ouvida da mesma forma por pessoas diferentes, cada sujeito emergirá e inserirá seus próprios conteúdos em cada letra, em cada frase, em cada melodia. É fascinante como a psicanálise se faz presente em meio às artes, em meio às músicas! Nela as palavras não são vazias, elas são carregadas de conteúdos, informações e significações, que foram ganhando forma, cor, suavidade ou peso no decorrer do tempo.

A mesma psicanálise que dá possibilidades ao sujeito do Divã, também teoriza as sensações e a emoções impulsionadas pelo inconsciente do sujeito artista, assim como as sensações dos apreciadores de suas produções, mais especificamente neste trabalho, da música. Entrelaçando sua força e suavidade à súplica daquele que precisa preencher um vazio, supostamente deixado por um amor que não mais se presentifica em seu Ser. Que canta como quem quer alcançar alguém trazê-lo para si e tê-lo por completo, que ama sem saber por quê. Talvez como um sonhador, da música “Lua e Flor”, de Oswaldo Montenegro, que amava ter no coração a certeza ventilada de poesia de que o dia amanhece não. Pois preencher é o caminho, mas o oco é a solução para que esse amor continue querendo e assim, criando, produzindo, cantando... Em cada encontro e em cada despedida, buscando uma tarefa um tanto quanto difícil: encontrar estabilidade na oscilação. Isto é o amor, isto é a música. O que foi discorrido até aqui, tem por objetivo exemplificar a estruturação do sujeito, para demonstrar que há algo impalpável, forte o suficiente e que está além de sua consciência, algo que lhe permite criar, produzir a arte, a harmonia entre as notas musicais, até transformá-las em canção.  

1.2 Na Cadência do Amor

A cadência é um termo utilizado no universo musical, é familiar até mesmo para muitos que não fazem parte deste meio. Quem nunca ouviu falar sobre a Cadência do Samba? É um termo originário do latim cadentia, que significa cair, dele surgiu a chamada estrela cadente.

É preciso lembrar que bem antes do uso pela Harmonia, cadência designava na literatura e na poesia o fluxo ou ritmo dos versos (de um poema, por exemplo). Como artifício retórico, o declamador, ao chegar ao final de um verso, usava modular sua inflexão vocal para um registro mais grave, dando assim o sentido de queda da entonação e, consequentemente, de finalização daquela frase (CORRÊA, 2012).

Cadência e amor podem ser colocados de forma paralela no contexto aqui discutido. O amor tem suas oscilações, pois ainda que o sujeito tenha sede insaciável de querê-lo por inteiro, só para si, por toda a vida, não é isso que acontece. Por mais que esse amor preencha, ele ainda deixa brechas, e o sujeito vai ter que se haver com suas questões. O sujeito aprende sobre o amor, surge do amor, portanto ele o clamará por toda a vida. Ao pensar que é no ápice do amor a maior probabilidade para sua queda, pelas expectativas e pela entrega total feita quando a paixão é em demasia, chegando muitas vezes até a morte em crimes passionais, entende-se que no amor também há cadência. E como diz Paula Toler em sua canção “Grand Hotel”: “Se agente não tivesse exagerado a dose, podia ter vivido um grande amor”. Altos e baixos, idas e vindas. Assim como a poesia e a música, o amor tem sua harmonia e fluxo. Falar de psicanálise é falar de amor, falar da música é também falar de amor, portanto não tem como omiti-lo.

O amor vem das e nas letras. Ele alimenta, estrutura, cria e procria. O que sai da boca do artista e o conduz na criação das notas graves ou agudas que vão embalar suas letras, partem de seu interior. É por sentir-se dono da história contada, que o sujeito é capaz de amar e odiar cantando. As músicas falam de amor, das mais variadas formas, nos mais variados ritmos e contextos. Seja por querê-lo ou por tê-lo perdido. É o amor que se quer encontrar. É para o amor que se canta, é ele que lhe falta. De acordo com Coutinho Jorge (2005) “(...) o amor é uma tentativa de resposta exitosa do sujeito à falha inerente ao desejo, pois o amor não admite essa falha, ele quer preenchê-la a todo custo...”. E é assim que o artista preenche essa falha, compondo, cantando. E como diz Djavan em sua canção chamada Seduzir:

Cantar é mover o dom do fundo de uma paixão; Seduzir as pedras, catedrais, coração; Amar é perder o tom nas somas da ilusão, revelar todo sentido. Vou andar, vou voar pra ver o mundo, nem que eu bebesse o mar encheria o que eu tenho de fundo (...) (DJAVAN).

Cantar, amar, perder o tom. Tudo entrelaçado, unido na tentativa em vão de preencher o fundo que não tem fim. Mas cantar para esse amor exige alteridade, coragem para enfrentar a repressão, como quem garimpa ouro em minas escuras e de difícil acesso. Como os cantores da época da ditadura (Chico Buarque, Geraldo Vandré, Antônio Carlos Jobim, entre outros) que driblaram a repressão real em que se vivia nos anos 60, cantando o amor onde existia tanta dor. Acreditando que as flores venceriam o canhão, como na canção de Geraldo Vandré: “Para não dizer que não falei das flores”. Como o bem que vence o mal, a vida que vence a morte. E aí estão as pulsões novamente, como início, meio e fim do sujeito. Aquelas que ascendem o desejo e continuam buscando sempre a satisfação.

Pois como diz Freud (1905) nos “Três ensaios sobre a sexualidade”, a pulsão é uma medida de exigência que se impõe ao aparelho psíquico do sujeito. Mas, consideravelmente também há algo que a remete a uma insatisfação, como bem aponta Coutinho Jorge (2010): “Quanto à pulsão, Lacan valorizou enormemente a apreensão freudiana de que há algo no seio mesmo da pulsão que parece fadá-la a insatisfação”. Aquilo que foi perdido e não pode ser encontrado, mas que a vida inteira será procurado. Seja no olhar do outro, como diz Frejat, ou na boca que traz o beijo como morada do desejo, como canta Gal Costa na música de Marcelo e Graça Motta: “Todo Beijo”. Ao criar, compor, cantar e ouvir o sujeito consegue alcançar uma satisfação, um prazer muitas vezes inenarrável, um gozo. Então ele vai de amor em amor, letra em letra, acalentando um coração que chora a perda de algo que ele não sabe o que. Amando demais, sofrendo de menos e vice-versa.  

Estabilidade não combina com humanidade, por mais que rime. A alternância é sua fiel companheira, observando-se assim de forma positiva, pois quem se estagna na vida não consegue sentir o frescor do vento em suas variadas formas climáticas. Viver tão somente no verão é sentir apenas seu intenso calor, no inverno unicamente seu tremendo frio, no outono é ver apenas as folhas caindo ao chão sem testemunhar seu renascimento junto às flores e a alegria das cores na linda primavera. Melhor do que permanecer transpirando no auge do calor em pleno verão, é ter também um belo cobertor e um delicioso par de pés para se esquentar no inverno. Ou também ter no outono a possibilidade de sentir junto ao seu frescor, o perfume das flores com a chegada da primavera. Transição, mudança, oscilação e ritmo. Cada um no seu, à sua maneira, amando, respirando, vivendo, sofrendo e cantando. Cadenciando! Seguindo o fluxo e a harmonia da vida, mesmo que em muitos momentos seja a desarmonia que prevaleça. Pois assim é a brincadeira da vida, amando onde se falta e faltando onde se ama. Preenchendo um vazio, e encontrando um novo buraco. É essa a oscilação do amor, da música, da vida, dos sujeitos que “compõem” a humanidade. A música também é movimento. Movimento de ideias, de timbres, notas e sentimentos. Tudo isso ocorre dentro do sujeito, de sua condição psíquica. Didier-Weill (2014), em seu livro “Nota Azul”, faz a seguinte referência:

(...) Vocês devem ter notado, quando ocorre de a emoção musical nos invadir, que ela suscita dois movimentos, dois ‘estados de alma’, dos quais poderíamos provisoriamente dizer que realizam a conjugação de um estado de felicidade e outro de nostalgia psíquica.  (DIDIER-WEILL, 2014, p. 41).

Esses estados de felicidade e nostalgia são estados de amor. Que como tal modifica, pois os interesses transitam. O que não quer dizer que é preciso ter um padrão de mudança para o ideal da felicidade, como uma boca cheia de dentes, feliz da vida. Para muitos a solidão e a nostalgia bastam. Porque amar também é sofrer. Quantos sentimentos sofríveis podem ser extraídos de uma letra musical? Quem disse que o amor é só pétalas? Ele tem espinhos! Talvez até mais do que as próprias pétalas. Há quem diga que ama tanto que dói. Grandes músicas que falam de amor surgiram da dor. E como diz Rubem Alves (2008), em seu livro “Ostra feliz não faz Pérola”:

A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer. Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um homem completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa... (RUBEM ALVES, 2008).

A ideia de amor ideal, de príncipe encantado no cavalo branco passa a ser desconstruída quando a realidade bate na porta e se vê que o cavalo é branco, mas é manco, quando não é o príncipe. Cada um com seus defeitos, suas falhas. E como cita Colette Soler (2005, p.159 apud JACQUES LACAN, Mais, ainda, p. 197) “Todo amor se baseia numa relação entre dois saberes inconscientes”. E se pensando bem, o “par” (casal) deveria chamar-se “ímpar”. Pois por mais que se busque a unificação de dois corpos como a síntese do amor, não é o que se encontrará.

É na diferença que amor existe, ele precisa de espaço para respirar e circular para não morrer sufocado, nem encarcerado. Só podendo florescer se houver respeito quanto à condição do outro ser quem deseja.  Entendendo que cada sujeito tem sua maneira de ser, de amar e querer, que é possível ajudar seu par a tamponar seu vazio. E a recíproca é verdadeira, pois como diz Coutinho Jorge (2005): “O amor exige reciprocidade, exige correspondência”. Mas, tamponar aqui não quer dizer resolver o problema e preencher o vazio de uma vez por todas, significa ser parceiro na “troca dos buracos”, se assim pode-se dizer. Ajudando um ao outro no vazio que é próprio de cada ser. Hora se encontra quem queira dividir o peso desse oco, hora se perde quem não está disposto a esforçar-se para entender que a falta é inerente ao sujeito e que ele vai lhe faltar, porque também a tem.

Myriam Habib (2010, p.254) cita Sócrates em seu texto:

No Banquete, Sócrates rompe com a ideologização do amor. Para ele a essência do desejo é a falta, porque todo amor é amor de algo que se deseja e de que, portanto, se carece: não é completude; é, ao contrário, incompletude. O vazio presente e sentido é Eros. Por isso, a situação erótica é dialética: o amor não é fusão, mas busca, não é perfeição preenchida, mas pobreza: o amor é desejo, e desejo é carência. Se o amor ama a beleza e a bondade, é porque delas carece (MYRIAM HABIB, 2010).

E aí os amores vêm e vão. Vem a tristeza, dando uma rasteira na felicidade e levando o troco, porque ela de repente levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Em alguns ela insiste em ficar, e mesmo que se cante para os males espantar, é ela que vai ecoar. Igual a um aperto de saudade dado no tamborim e ao pano da cuíca molhado por lágrimas em meio ao desfile da tristeza em plena avenida, como na música “Tristeza, pé no chão”, interpretada por Clara Nunes. Mas há quem não queira uma prosa muito demorada com ela, conta as horas para o seu desfile acabar e a felicidade logo chegar. E enquanto espera, o poeta cria e o compositor compõe. Pois como diz Didier-Weill (2014) “Se quiséssemos comparar um improviso musical a uma arquitetura, poderíamos dizer que ele é sustentado por uma viga mestra, cuja particularidade seria a de não estar ainda aí, a de não estar senão por vir.” São essas ondas de sentimentos que fazem as ideias fluírem, permitindo assim que a demanda de amor e felicidade, que está sempre direcionada ao Outro, continue borbulhando diante dessa movimentação de letras, versos, prosas, melodias, cadência!

1.3 A Pulsação da Música

Os pulsos musicais derivam dos ritmos que movimentam o corpo. Qual corpo não reage diante de pulsações e batidas que se repetem? Mesmo que seja apenas o pé, a cabeça, as mãos. Os pulsos fazem intérprete e público se balançarem, sentirem suas batidas. Sentimentos que comandam pernas, braços, cabeça e cintura. São os pulsos que desenvolvem e organizam as melodias, surgindo assim as canções. E similar às pulsações musicais, estão as pulsões que animam a vida psíquica e o desejo do sujeito. Pulsões que se incidem sobre ele e que o move, e trazem com elas a demanda do seu Outro, aquele que está intimamente ligado a sua estruturação. Que traduz para ele tudo que seu choro e seu dedinho aponta. Que o pega nos braços juntamente com suas pulsões desnudadas e o põe no trilho a caminho das coisas que se intitulam como permitidas e possíveis de serem vividas em seu meio. Estão aí os pulsos que movem a música, e as pulsões que movem a vida!

Então cada nota pulsa, atingindo o sujeito e o fazendo enveredar pelos caminhos melódicos que mais se aproximam de seu desejo, que impulsionado vai à busca de seu objeto, da metade da laranja, como diria Fábio Junior. Mas, a pergunta que não quer calar: Como é que a laranja perdeu sua outra metade? Porque pensando dessa forma em algum momento ela já foi completa. Trazendo isso para o sujeito pode-se considerar o seu início de vida, que como tal dar-se-á a partir de um alguém, que lhe deseja, lhe põe no mundo, lhe dá um nome. Que lhe apresenta o primeiro olhar, a primeira voz, as primeiras palavras e seus significados. Que por um certo período será parte sua, sua extensão. Que suprirá suas necessidades no momento em que elas sejam solicitadas, uma completude.

Para Schwarz e Moschen (2012, apud VOCARO, 1999), a relação parasitária estabelecida com o seio materno mantém o ser aquém da condição de acolhimento da alteridade, na medida em que o seio está não como parte do corpo do Outro, aqui encarnado pelo agente materno, e sim do seu próprio corpo. Um primeiro registro da alteridade é possibilitado pelo trabalho do Outro materno que, ao antecipar uma condição desejante ao pequeno ser a quem confere cuidados, impõe às suas manifestações orgânicas uma leitura que o aloja na linguagem. Na medida em que antecipa no pequeno ser um sujeito e lê o fluxo vital que se manifesta no grito como demanda, o Outro impõe significação ao automatismo do ritmo vital.

Até que o sujeito descobre que essa laranja precisa ser cortada para que se descubra seu verdadeiro sabor, seja ele doce ou azedo. No momento que se percebe que a figura materna tem vida própria, e a imagem vista através do espelho e traduzida na linguagem do ideal reflete um outro ser, que consequentemente o chamará de Eu, surge o Outro, seu semelhante. Aquele que terá sempre a receita do sucesso e da felicidade, que lhe inserirá no mundo da linguagem, dos símbolos, da racionalidade e da subjetividade. Que será seu aparato para sua constituição enquanto ser-sujeito. Como diz Quinet, em seu livro sobre os Outros em Lacan:

Para todo ser humano, o Outro é o tesouro dos significantes e, como tal, é prévio ao sujeito, é anterior ao nascimento. Antes de vir ao mundo já lhe dão um nome, um sexo, um time de futebol, uma profissão; ele já nasce em uma determinada classe social, com seus valores e preconceitos e num país com sua cultura e sua língua – tudo isto constituirá o Outro para ele. (QUINET, 2012).

O Outro, escrito por Jaques Lacan com letra inicial maiúscula, significa o “grande Outro”, introduzido por ele no ano de 1955, diferindo-o do (pequeno) outro, escrito com letra inicial minúscula. Esta diferenciação entre “pequeno outro” e “grande Outro”, fez-se necessária para que tal terminologia tivesse um cunho diferente da linguagem utilizada corriqueiramente, em que o outro aparece como mais uma pessoa, à parte do sujeito. Ao que Freud vai dizer o oposto. Quanto ao (pequeno) outro, ele trará o sujeito como sua imagem e semelhança, e que é a partir dele que o ser humano se torna sujeito. Tratando-se assim de um lugar simbólico, um lugar em que este “outro” será na verdade o seu eu. Aquele que ele vê em seus primeiros reflexos, admira e quer para ele, o seu eu ideal. Que carrega com ele a perfeição, a inteligência, a beleza como lhe fora apresentado no momento em que conheceu o reflexo. Esta fase Lacan denomina como Estádio do Espelho.

Aparentam ser informações em demasia tudo aqui citado. Mas, falar de psicanálise sem referir-se às questões que estão intimamente ligadas, e que são chaves para compreensão de outras, é o mesmo que tocar um violão pulando algumas notas, ou seja, a música perderia o sentido. Referir-se a fase do estádio do espelho torna-se fundamental, por ser nesse momento em que o ser humano se encontra com este outro já citado aqui. O outro que primeiramente lhe parece fragmentado, mas que posteriormente tende a surgir unificado. Como diz Quinet (2012, p.17), “o outro corresponde ao eu ideal, e que o sujeito passará a vida toda tentando se igualar a ele, a esse eu ideal que transmite o desejo do Outro (grande)”, classificando-se assim, em seus significantes. É o Outro que dará ao sujeito sua identidade, é a partir dos significantes do desejo desse Outro que o sujeito é o que lhe dizem e que por alguma razão decide obedecer. Então esse Outro não se refere a uma determinada pessoa, mas sim a um lugar simbólico, o lugar daquele que o constituirá, que atuará em seu discurso, em seus atos, seus pensamentos, seu inconsciente. Quanto aos outros (grande ou pequeno) da psicanálise, Roudinesco (1998) descreve:

Termo utilizado por Jacques Lacan para designar um lugar simbólico — o significante, a lei, a linguagem, o inconsciente, ou, ainda, Deus — que determina o sujeito, ora de maneira externa a ele, ora de maneira intra-subjetiva em sua relação com o desejo*.

E assim segue o sujeito, esperando no Outro, vivendo pelo Outro. Tentando dar um salto ao encontro do que é seu por direito. Sua vez, sua voz, seu olhar, sua alteridade. A voz do Outro que não escapa aos seus ouvidos. O olhar que lhe captura e passa a ser sua lanterna na escuridão entendida como vida. Esses dois objetos citados aqui (o olhar e a voz) permeiam o universo artístico, como um dançarino explora um palco. Esses objetos foram denominados por Lacan como *Pulsão Escópica e *Pulsão Invocante, sendo acrescentados aos demais objetos freudianos. Quinet (2012) faz referência a ambos os objetos, sobre a Pulsão Escópica ele diz: “o olhar, objeto da pulsão escópica, é o objeto de ‘desejo ao Outro, desejo para o Outro’. No âmbito da atividade da pulsão escópica está o ‘fazer-se ver pelo Outro’, e assim o sujeito se dá a ver, se exibe para o Outro.” Já quanto a pulsão invocante ele faz a seguinte colocação: “a voz, como objeto da pulsão invocante, é objeto do ‘desejo do Outro’. Não se trata da voz do sujeito, e sim da voz que vem do Outro.”

O que seria do artista se suas obras não fossem vistas, apreciadas? O que seria do sujeito sem o Outro? Ele precisa ser reconhecido pelo olhar do Outro, como toda vida o fora. Precisa deste que lhe barra, lhe freia, que lhe instaura uma lei que está acima de seus quereres desenfreados, e que quando soltos são capazes destruir-se e destruir. Portanto, o Outro que lhe cuida, lançando seu olhar fraterno na tentativa de impedir que o sofrimento lhe venha, que embala suas noites com a voz suave de quem quer trazer-lhe a calma, é aquele que possui o segredo dos objetos que se esvaíram com o tempo, que se perderam. Ficando o sujeito na espera de seu encontro. Excitando-se e emocionando-se com o olhar e voz do Outro. E como canta Maria Bethânia, na composição de Duda/ Jota/ Paulo Sérgio Valle/ Ribeiro, denominada “Cheiro de Amor”: “(...) o seu jeito de me olhar, a fala mansa meio rouca, foi me deixando quase louca já não podia mais pensar. Eu me dei toda para você (...).”. Schwarz e Moschen (2012, apud LACAN, 1963, P.84) fazem a seguinte citação em seu trabalho sobre o objeto perdido:

O sujeito endereça a voz ao Outro justamente porque esqueceu sua nota: depois de ter entrado em ressonância com o timbre original do Outro, cunhou um ponto surdo a ela. A voz não poderá mais ser toda ouvida, tendo seu excedente real se separado como um ‘objeto caído do órgão da palavra’ (LACAN, 1963, p. 84, tradução nossa) – sendo, neste ato, perdido permanentemente.

E aí se canta, se olha, se dança, se deseja! O coração pulsa, as músicas correm pelas veias e a melodia balança o corpo, nos acordes maiores e menores de um violão que chora e declama seu amor. A percussão “percorre” o camarote mais vip e mais badalado que o sujeito pode ter dentro de si. E então ele está tomado pelo ritmo, pela pulsação, pela voz. Não mais como antes, agora como aquele que busca atingir o Outro por meio de sua própria voz, saindo do lugar daquele que simplesmente fora atingido por ela. Cantando sobre algo que lhe pertence, mas que parece não ser seu. Como uma súplica, um chamado, só que agora, à sua voz.

Se este outro, independente de ser o outro seu semelhante ou o Outro dos seus significantes, atua sobre o sujeito, que relação pode haver entre eles e a música? Ao se pensar sobre o que quer a música com o sujeito, pode-se chegar à seguinte conclusão: tocá-lo, alcançá-lo de alguma forma. Melhor, resgatar o sujeito, ou algo nele. Como diz Gonzaguinha, em sua música lançada pela cantora Maria Bethânia em 1979, um “Grito de Alerta”. Nesse universo da música algo parece emergir do sujeito, do seu mais profundo eu. Há uma “magia”, uma onda de sensações que evocam no sujeito sentimentos que até ele mesmo muitas vezes desconhece. Que o faz cantar para o amor que se foi e para voz que sumiu, tendo assim dela esquecido. Este Outro que habita nas escolhas inconscientes do sujeito e que ecoa em seus ouvidos perdurando por muito tempo, senão por sua vida toda, precisa silenciar-se, calar-se para que o sujeito construa o seu próprio discurso. Tendo alteridade no compor e no cantar, mesmo que direcionado ao Outro.

1.4 A Maldição/Mau-audição e o Ouvinte

O sujeito é convocado por natureza a ouvir. Ouvir além do que se escuta, entender além do que se explica. Desde muito cedo embalado pelo conforto e a musicalidade de um líquido que lhe protege em seus primeiros momentos de vida fetal. Sentindo as batidas de um coração que se mistura ao seu, junto a uma voz que vem de fora, chamando-o, aguardando-o. A mesma voz que lhe apresenta suas primeiras cantigas de ninar, que o faz conhecer a alternância do timbre que ama e repreende. Poder ouvir dentro de suas condições físicas é algo deveras positivo, mas a imposição dos significantes carregados na sonoridade das palavras que se escuta, pode ser equiparado a uma maldição, e na releitura da palavra, o que a psicanálise faz muito bem, uma mau-audição.

Que se tome de início a maldição, sua condição de apossar-se da vida de quem a recebe. Termo advindo da mitologia cristã, que representa um poder sobrenatural, que quando lançado tem a capacidade de interferir nas escolhas e no destino do amaldiçoado. Que lhe traz o mal e pode lhe matar, até que algo muito mais forte que ela, atue com seu poder de libertação e ponha por terra a praga que comandava seu destino. Bem possível de ser comparada com as pulsões aqui já faladas, de vida e de morte, que estarão sempre presentes quando se tratar de sujeito. Através das quais o sujeito poderá morrer rondando experiências passadas, repetindo-as como se fosse sua única condição de vida. Fazendo com que supostamente ele morra sem saber, porque assim como a maldição, também é algo que parece deixá-lo sem escolhas, ou pelo menos sem percebê-las. Até que algo mais forte consegue mudar o rumo das coisas, consegue tirar o sujeito do gozo destrutivo da repetição, ou seja, a pulsão de vida lutando contra a pulsão de morte, o sujeito sendo libertado da maldição, podendo decidir sobre sua vida, sendo seu próprio destino.

Quantas pessoas falam conscientemente sobre uma luta inconsciente? Falam como se estivessem literalmente lutando contra a morte. Contra algo que quer jogá-la no abismo. E essa outra força que segura-a, que a faz levantar essa luta contra a tristeza, o sofrimento, as doenças, é a pulsão de vida. Então essa maldição que circula os caminhos da vida e da morte, cega o sujeito, e o priva do direito de escolha. Como na música “Maldição” (composição de Alfredo Duarte - Armando Vieira Pinto, cantada por Maria Bethânia): “ (...) Somos dois gritos calados, dois fados desencontrados, dois amantes desunidos. (...) Na gelada solidão, que tu me dás coração, não é vida nem é morte: é lucidez, desatino, de ler no próprio destino sem poder mudar-lhe a sorte...”

Como sujeitos advindos e estruturados a partir do Outro, permite-se que a vida aconteça e que o Outro seja sempre seu problema e sua solução. Vive-se portanto, como marionetes presos às cordas invisíveis, que nada mais é do que o desejo do Outro. O sujeito recebe um script em forma de palavras faladas, uma história que lhe foi passada e que ele precisa encenar, dar continuidade como os capítulos de uma novela. Não tendo como fugir do que lhe dizem, como os olhos que se fecham ao que não quer serem vistos. Segundo Schwarz e Moschen (2012, apud LACAN, p.262) “Os ouvidos são, no campo do inconsciente, o único orifício que não pode fechar-se”. Esse órgão está inteiramente entregue o Outro, ouvindo, sentindo e interpretando cada som. Tomando a verdade alheia como sendo sua. Ouvinte amaldiçoado! Não a maldição de ouvir sons e ruídos desprendidos de significados, mas como ouvinte que ouve mau, que tem a mau-audição. Estando preso a ela até que o poder de libertação permita-lhe cessar os ouvidos, não com a naturalidade do órgão, mas com a possibilidade da escolha.

O sujeito faz uso da música como forma de desprender-se dos fantasmas criados pela verdade do Outro. Sendo agora o sujeito que não ouve mais os sons, a música, mas que é ouvido por ela. Que lhe toca como o amor o faz. E lá vem o amor! Um amor impossível que jamais será alcançado, que faz o sujeito amar, amar e cantar. Gritar por um amor que não lhe escuta, que talvez não tenha nome, nem rosto, apenas máscaras, na tentativa de achar o que falta. Como diz Didier-Weill (2014) “É sua aptidão a supor no Outro um amor rasgado, impossível, que secundariamente rasga o sujeito e dele faz, para além de um Sujeito amado, um Sujeito amante”. O amor que se derrete nas letras e notas musicais, que faz o sujeito ascender seu desejo e buscar sua realização. Que lhe serve como suporte no sofrimento, podendo além, o criar e ouvir. Sentir que a música lhe alcança não como as palavras que lhe alcançaram por toda a vida, pois estas lhe serviram como constituição, porém lhe assombraram como fantasmas. Mas sentir a música que de fato fala aos seus ouvidos, mantendo com este uma relação íntima, um namoro, um romance, sussurrando aos seus ouvidos a voz da liberdade.

Perceber que a voz do Outro lhe habitou da maneira que foi ouvida, mas que uma hora ela precisa calar, ou pelo menos soar em outro tom, numa outra melodia, em outra cadência. Assim o sujeito descobre suas possibilidades, descobre que desconstrução pode remeter a reforma, a ressignificação. E como na música “Somos quem podemos ser” de Humberto Gessinger, cantada por Engenheiros do Hawaii, descobrir que as nuvens não são feitas de algodão, possibilita encontrar a chave que abre sua prisão. Sair do discurso alienado do Outro e dar a nuvem o formato e a consistência que seu desejo lhe permitir.  

Há sempre uma música que marca, faz lembrar e emociona. A música tem esse poder, o poder de se comunicar. Seja uma alegria, uma mágoa ou desejo. É algo que se quer dizer, mesmo que conscientemente não se saiba. Quando se diz que há músicas para todos os momentos, entende-se com isso que há pessoas para todas as músicas. Há, portanto, uma identificação seja ela cantada ou instrumental. O calafrio provocado, a dor emergida, a felicidade suscitada. O compositor e o ouvinte, lados que parecem ser opostos, mas que curiosamente se encontram e falam uma língua em comum. O inconsciente joga com as letrinhas, e de forma fascinante faz o sujeito transformar sua angústia, sua dor e seu vazio em algo belo e que ultrapassa as linhas de sua propriedade e atinge o outro naquilo de mais profundo que possui. O sujeito que é tocado pela voz do Outro e que se delicia com o que escuta, ou melhor, com a forma com que é escutado. E como ainda diz Didier-Weill (2014): “Se, de fato, ocorre-nos de sermos abalados pelo que nos parece como tão ‘familiar’ nessa nostalgia musical, não é que nós a reconheçamos, e sim que nós somos reconhecidos por ela. Como se de repente o ouvinte que havia em nós passasse para o outro lado e começasse a nos escutar.” Uma escuta excitante que alcança o oco do sujeito sem preenchê-lo, se comunicando com o que tem de mais próprio dentro de si. Vivendo cada letra apaixonadamente, deliciando-se com uma história que nunca viveu, mas que parece ser sua. O sujeito é atingido por aquelas letras porque seus conteúdos as permeiam. Cada um com sua história, com sua vivência, construindo e desconstruindo através do que escuta e re-escuta.

O ouvinte endereça ao Outro sua demanda de amor, e mesmo não criando como o artista também invoca o Outro, tendo como atuante sua pulsão invocante. As músicas parecem ser feitas para esse Outro de sua demanda, respondendo o que ele ainda não sabe, e não vai saber. Um sentimento que lhe toma e lhe embriaga. Onde o sofrimento cantado é muito bem vivido de forma poética. Cantar para alguém que não se tem, ter uma ferida que sangra, sangra e não cicatriza. É a infinitude do sentimento daquele que é embalado pela melodia da canção que lhe ouve, que lhe entende. Que sabe o que ele sente, que foi feita para ele. E o sujeito com essa condição consegue lidar com o que poderia transformar-se apenas na angústia causada pela falta, tornando-a um gozo. Cantando a saudade, o amor perdido, a esperança, a traição, como algo que fora predestinado, que atua com toda força sobre ele, como uma maldição (podendo-se dizer que uma maldição do bem). Aquela que em grande parte mal-se-ouve, onde o sujeito constrói ideias dentro de sua condição de mau-auditor! Dando forma a tudo que lhe é dito, e posteriormente, com a música, podendo dar vida a tudo que não pôde dizer.   

2. Considerações Finais

Observa-se que a música não está como um acaso para o sujeito, ela é forte o suficiente para representar-lhe e extrair-lhe sentimentos advindos de razões inconscientes. É um grito calado, a luz da escuridão, a razão dos loucos. Ela pode sustentar o sujeito e o conectar aos seus desejos. Desejos onde muitas vezes não podem ser vividos, mas que fervem dentro de si quando seus ouvidos são tocados por notas e letras que os remetem a eles.

Enquanto ser humano, o sujeito vive e sobrevive do amor, não de qualquer amor, mas sim do amor do Outro, daquele que se fará presente mesmo na ausência, e que em algum momento partirá deixando um vazio. Uma partida tão misteriosa que o sujeito nunca descobrirá o motivo real de sua ida. Não como uma partida física, mas de objetos, objetos de desejo advindos do Outro. Aquele que não pôde ser seu por completo e incondicionalmente lhe deixou uma falta, fazendo o sujeito passar a vida inteira a sua procura, seja num olhar, num sorriso, numa voz.

Aqui neste trabalho foram referidos os objetos de Freud e Lacan, detendo-se aos objetos da voz e do olhar, ou seja, às pulsões escópica e invocante. E então se tem: música e psicanálise, ambas compondo vida, mesmo que sobre as letras da morte e as melodias da dor. A música como possibilidade de buscar o amor que nunca preenche o peito, que realiza os desejos que os juízes do inconsciente aprisionam. Estão aí as pulsões sempre rondando o sujeito e, portanto preenchendo as composições e as criações artísticas. O motor do desejo, o motor do sujeito, sua libertação e maldição. E felizes os artistas que conseguem fazer suas feridas sangrarem em harmonia e tom, que conseguem extrair de seu silêncio e seu vazio a música, o som que talvez ecoe pela profundidade de seu oco. Como diz Cláudio de Souza: “Na música, o próprio silêncio tem ritmo”.

O sujeito das pulsões, do amor e do inconsciente fala nas letras musicais. O inconsciente que registra e guarda todos os fatos vividos, ouvidos e interpretados pelo sujeito, o protegendo assim do que a consciência não é capaz de suportar, é a morada das pulsões, daquilo que move o sujeito, seja para vida ou para morte. Que o faz querer, agir, desejar, sonhar, cantar... E é de lá que as emoções suscitadas pela música saem, do inconsciente, daquele que organiza palavra por palavra, que captura todos os símbolos, que armazena todos os significados e significantes, que comanda o sujeito.  Que tem a sua partitura, com símbolos e fórmulas capazes de perpetuar canções, histórias e vivências, onde alguns se vêm intimados a repeti-las sem nem ao menos fazer uma releitura, e outros exercem sua alteridade dando aos símbolos uma nova interpretação. A partitura do inconsciente, onde cada sujeito lê da sua forma, interpreta a sua maneira, cantando sua vida na entonação que seu timbre é capaz de alcançar. Como canta Milton Nascimento, em sua composição “Canções e Momentos”:

“Há canções e há momentos. Eu não sei como explicar em que a voz é um instrumento que eu não posso controlar. Ela vai ao infinito, ela amarra a todos nós, e é um só sentimento na platéia e na voz. Há canções e há momentos em que a voz vem da raiz, eu não sei se quando triste ou se quando sou feliz. Eu só sei que há momentos que se casa com canção, de fazer tal casamento vive a minha profissão” (MILTON NASCIMENTO).

É uma força que impulsiona o sujeito a criar, que o faz cantar e amar, sonhar e esperar. No momento em que os batuques do Outro cessam, dando vez a sua própria criação, o sujeito faz jus a sua condição de criador e não apenas de criatura. O nana neném dará lugar ao amor rasgado no peito do sonhador que quer sua completude, que deseja o gozo e o amor daquilo que parece fugir à propriedade carnal do humano. Ser livre, cantar a liberdade, como a mulher que há muito precisara negar sua sexualidade, um passado bem presente com fortes resquícios que aprisionam seus desejos e lhe privam do direito de ser mulher enquanto sujeito, e não enquanto assujeitada. Portanto, se canta com a voz da mulher que quer, como diz a cantora e compositora Pitty, em sua música “Desconstruindo Amélia”, virar a mesa, assumir o jogo. Dizendo ainda: “Nem serva, nem objeto. Já não quer ser o outro, hoje ela é um também.” Alteridade! Libertar-se do olhar, da voz e do discurso do Outro. Com a assertividade e força da voz de Simone na música “Uma nova mulher” (composição de Paulo Debétio/Paulinho Rezende): “Que venha de dentro de mim ou de onde vier, com toda malícia e segredos que eu não souber. Que tenha o cio das onças e lute com todas as forças, conquiste o direito de ser uma nova mulher”. Isso é música, isso é psicanálise. Vivendo, desejando e cantarolando.

Sobre a Autora:

 Wildicleia de Oliveira Santos Lopes - Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário CESMAC Maceió-Alagoas/ Pós Graduada em Clínica Psicanalítica pelo NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO – CESMAC Maceió-Alagoas. 

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