Considerações Acerca da Encoprese como Sintoma Clínico Infantil

Resumo: A encoprese é caracterizada como transtorno do controle esfincteriano em que ocorre eliminação das fezes repetidas vezes em locais inadequados. Através de um viés psicanalítico podemos compreender a encoprese como um sintoma de um corpo pulsionalizado, para além do biológico, atravessado e demarcado pela linguagem, sendo as fezes também um objeto de satisfação. Para que esse corpo seja estruturado como linguagem é necessário que se constitua através de um Outro, que lhe signifique para além de sua conotação orgânica – o mesmo acontece com as fezes.  

Palavras-Chave: Encoprese, Psicanálise, Clínica Infantil, Fezes.

A encoprese é um transtorno do controle esfincteriano, caracterizado pela evacuação das fezes em local inadequado. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5 (American Psychiatry Association, 2014), são critérios para se diagnosticar a encoprese, além da eliminação intestinal repetida de fezes em locais inapropriados, que pelo menos um evento desse tipo ocorra a cada mês por no mínimo três meses, sendo a idade cronológica mínima de 4 anos, não havendo uso de quaisquer substâncias medicamentosas que propiciem a evacuação.

Diferenciando-se da prática psiquiátrica ao abordar o sintoma da encoprese, a psicanálise se desdobra ao apropriar-se da constituição do corpo para além de seu caráter orgânico. O enfoque realizado através desse viés é o de um corpo demarcado e atravessado pela linguagem, sendo este um receptáculo para inscrição simbólica. Em minha prática clínica realizada na clínica escola, o sintoma da encoprese em um paciente de 8 anos surgiu como provocador de grandes indagações. Afinal, de que corpo responde esse sintoma, e por que o responde dessa maneira?

A amarragem proposta por Lacan (1974-1975) entre as instâncias Real, Simbólico e Imaginário refere-se aos três registros que vinculam a estruturação do sujeito e nos impele a articulá-los na dimensão da constituição corporal. O registro simbólico, através de suas inscrições, insere o corpo no campo da linguagem e o representa através de uma ordem significante que serve de medida às demais significações - a partir do simbólico se podem ordenar os demais registros. O registro imaginário é constituído através do Estádio do Espelho, e comporta as imagens e fantasias condizentes ao sujeito e da formação do Eu. O campo do que se intitula como real é reservatório do que não foi passível de ser simbolizado, e que ressurge constantemente para se inscrever, diferenciando-se da realidade.

A constituição do corpo através de seu caráter simbólico é o que lhe significará para além de sua condição só e apenas carne, para que isso aconteça torna-se necessária a existência de um Outro, que lhe antecipe simbolicamente com algo de seu desejo. É algo do desejo do Outro que lhe possibilita a conjuntura de ser mais que um aglomerado de músculos e nervos, ou seja, de ser só corpo. A dimensão simbólica preexiste, então, antes do corpo real, pois é através do desejo do Outro que o corpo simbólico se configura no discurso.

O bebê carrega um caráter prematuro mesmo após seu nascimento, pois necessita de cuidados do Outro para satisfação de suas necessidades básicas, como a alimentação. É no ato de atender à essas necessidades que os significantes que dizem do desejo do Outro podem se registrar no corpo do infans, erogeneizando-o, deixando marcas e demarcando suas bordas pulsionais. A pulsão, definida por Freud (1916) como conceito limite entre o psíquico e o somático, poderá, então, partir de uma zona erógena, demarcada pela mãe em seus cuidados, endereçar-se à satisfação. É o Outro, com seu desejo, que nomeia e mapeia o corpo da criança, possibilitando o circuito pulsional. Referente a isso, a mãe, ou quem exerce a função materna, instala um ciclo singular de sua presença. Ao dar-lhe o seio, objeto de satisfação, esta pode não se fazer sempre presente, lhe instalando então uma falta. É a dimensão da falta que inserirá na criança uma marca do objeto de desejo e possibilitará ao bebê desejar que Outro deseje satisfazer suas necessidades, lhe inserindo uma marca desse objeto de desejo.

Através do Outro os apelos da criança podem ser decodificados e significados, recebendo sentido para o fim de uma representação. Ao representar seus apelos, a mãe instala uma demanda no filho ao supor que este demande algo a ela. Quando a criança chora, por exemplo, a mãe permite-se supor: “Chora porque está com fome, quer mamar.” Através da demanda instalada, o seio passa a adquirir um estatuto simbólico, a criança requer para além da auto-satisfação; a demanda torna-se, então, um apelo de presença situado entre a necessidade e o desejo. Ao mesmo tempo, habita a demanda, o desejo impelido por um objeto sem rosto, faltoso, o objeto a  – causa do desejo. O desejo aparece então, na busca de requerer o objeto que se supunha ter tido e satisfeito.

Para retratar a questão concernente a demanda, torna-se necessário nos remetermos a Freud. Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), Freud ampliou o conceito de sexualidade e denominou o que chamou de fases do desenvolvimento psicossexual para elucidar o desenvolvimento da libido. O primeiro estágio é o que o autor denominou como fase oral, sendo a fase mais anterior da libido, em que essa se concentra sobre a hegemonia da boca. A fase anal é o próximo caminho da libido, onde a atenção da criança se volta para o orifício anal e existe prazer no controle dos esfíncteres, as fezes são um objeto real que sustentam o objeto da pulsão que é fantasiado. O movimento de reter e expulsar as fezes propiciam, como que de maneira simultânea, dor e prazer, aliando-se a um caráter masturbatório da zona anal. Segundo Ferreira (2004, p.38) ao abordar a teoria Freudiana:

A organização anal é um ponto crucial na organização psíquica, ligando pulsões, narcisismo, e defesas, constituição do eu e interiorização de normas. (...) As crianças retardam o ato da excreção para provocar uma acumulação de matérias fecais e daí obter uma sensação de voluptuosidade. A criança não apresenta desconforto nem pudor ao sujar as roupas, porque sua única preocupação é a busca do prazer. O ânus seria, portanto, depois da boca, a segunda mucosa sexualmente sensível, precursor dos órgãos genitais.

É Lacan (1962/1963) quem postula as fezes como um dos objetos pulsionais – objeto a – causa do desejo (incluindo o seio, a voz e o olhar). Diferentemente da fase oral em que o seio é objeto que a criança demanda ao Outro, na fase anal as fezes são objeto que se remetem à demanda do Outro, que são solicitados à criança. As fezes então se constituem como objeto de troca entre a mãe e o bebê, como anteriormente também fora o seio. A mãe demanda à criança suas fezes, num processo singular que marca a higienização e a introduz a uma norma. A relação das crianças com as fezes se propaga para além da conjectura de ser unicamente excremento, ela é mediada pelo Outro através de seu desejo.

As fezes são, segundo Freud (1917/1918, p. 51), “a primeira dádiva da criança, um pedaço de seu corpo que ela dará somente a alguém que ama, a quem, na verdade, fará uma oferta espontânea como sinal de afeição”. De acordo com o autor:

A defecação proporciona a primeira oportunidade em que a criança deve decidir entre uma atitude narcísica e uma atitude de amor objetal. Ou reparte obedientemente as suas fezes, ‘sacrifica-as’ ao seu amor, ou as retém com a finalidade de satisfação autoerótica e, depois, como meio de afirmar sua própria vontade. Se faz essa última escolha, estamos na presença de um desafio (obstinação) que, por conseguinte, nasce de um apego narcísico ao erotismo anal (FREUD, 1917/1918, p. 81).

A articulação da demanda subjaz as fezes na posição de objeto a  – causa de desejo, já que faz-se necessário que o Outro solicite à criança por elas. A mãe, agente simbólico, ao dedicar cuidados ao bebê em sua satisfação anal, como limpá-lo, cheirá-lo e manipulá-lo, interpela esse pedido por seu desejo, o que o dimensionará para um simbolização.

O objeto a, então, passa a ser não apenas fezes, mas as fezes enquanto demandadas, requeridas, são valorizadas por satisfazerem à demanda do Outro. Segundo Abla (1999, p.162):

É através da demanda do Outro que o objeto fezes adquire o estatuto de função implicando a questão da constituição subjetiva. (...) A demanda do Outro, neste caso materna, recoberta de idéias educativas e de asseio, conduzem à possibilidade de satisfação e à conseqüente valorização do objeto. Mas, por outro lado, ao desaprovar uma relação mais intensa com as fezes, coloca em questão a duplicidade do objeto. A ambigüidade daí decorrente determina a ambivalência do sujeito em relação à demanda do Outro.

A ambivalência, com conjectura de amor e destruição em relação ao objeto, é própria dessa fase. Porém, também a ambivalência presente na mãe, em seu papel de agente simbólico, faz com que a criança considere suas fezes como boas ou más. Desse modo, ao apresentar caráter retentivo das fezes e posteriormente “entregá-las” a mãe, a criança apresenta concordância à relação estabelecida. A expulsão das fezes é uma atitude de rejeição em relação ao objeto. Françoise Dolto (1991, apud FERREIRA, 2013, p.86) refere-se a “descoberta da criança de uma ambivalência na mãe, já que o treino dos esfíncteres lhe traz emoções contraditórias. A criança se vê deparada com o dilema de recompensar a mãe retendo as fezes ou puni-la com sua recusa de entregá-las quando demandada”.

Também segundo Klein (1921, apud FERREIRA, 2013, p.56) “a expulsão das fezes simboliza a expulsão do objeto incorporado, acompanhada por sentimentos de hostilidade, crueldade e desejos destrutivos diversos.”

Ferrari (2000), no entanto, ao apresentar a abordagem da ambivalência presente na criança encoprética, faz considerações à respeito da legitimidade da operação do Nome-do-Pai no discurso materno, definindo a encoprese como acting, e não como sintoma.

O acting está engajado no fato de que por haver demanda do Outro, então algo lhe falta. Dessa maneira, na fase anal a criança torna-se o objeto causa do desejo, porém, se prende na ambivalência de dar ou reter o que o Outro lhe demanda.

De acordo com Ferrari (2000, apud FERREIRA, 2013, p. 92):

Se dizemos que a encoprese é acting, o que estamos dizendo é que se trata de um  tempo em que o sujeito se precipita como objeto de dentro da cena do Outro, procurando fazer-lhe furo, falta, para poder dessa falta advir alguma subjetividade. Enquanto acting está em relação a angustia, no sentindo em que o sujeito não pode armar fantasmaticamente uma resposta a isso que o Outro desejaria (...). Então, diante do encontro com o desejo do Outro, diante da impossibilidade de armar uma resposta fantasmática “O que quer de mim?” se precipita ao acting e arroja à cena do Outro na condição de objeto.

Dessa forma, Ferrari (2000) refere-se à tentativa da criança, diante de sua dimensão de excesso de gozo retentivo, em promover um corte à estrutura fantasmática de gozo parental através da angústia instalada aos pais, para permitir uma reordenação no gozo. Assim, ao ver-se em falta, os pais demandam a um outro, reportando ajuda para lidar com a criança encoprética. Segundo a autora, existe a tentativa de furo do discurso da mãe, de faltar algo ao Outro fálico, mas ao preço de manter-se na posição de dejeto. Ferrari (2000, apud Ferreira, 2013, p.93) situa:

Nesse ponto funciona a demanda como articulada ao Nome-do-Pai: isso que é da ordem do dejeto tem outro lugar, porque assim está demandado. Nem todo lugar é para a merda, há somente alguns lugares em que é possível soltá-la. Se se escreve essa proposição, então o sujeito poderá separar-se, subtrair-se dessa posição de objeto retido nas coordenadas do sintoma parental, e assim, no intervalo, fazer-se representar com algum significante para o Outro.

Diante da perspectiva proposta por Ferrari, torna-se de grande relevância ressaltar o valor da ambivalência que sustenta a relação da mãe e da criança ao integrar sentimentos de amor e destruição, pairada pelo receio de aniquilamento do objeto. No caso de meu paciente de 8 anos, citado anteriormente, havia uma problemática de aceitação da mãe em relação aos sentimentos de raiva da criança em relação ao pai ou a ela mesma, de modo que sempre reconduzia a fala do filho à sua própria escolha, “passando por cima” do que foi dito. Não havia, por parte da mãe, suporte para que o filho realizasse uma simbolização, o que implica lidar com seus sentimentos agressivos sem hostilidade, sem ameaça de, pelo aparecimento deles, haver a perda do objeto de amor. Ferrari (2000) reporta a tentativa do analista de fazer um furo no discurso incastrável da mãe, em que “tudo é merda”, para indicarmos “há algo que não é merda”.

O sintoma, segundo a psicanálise, sempre possui um endereçamento e uma verdade a ser ouvida. Considerar a encoprese, desse modo, envolve observar sua dimensão singular, de modo que o embasamento teórico servirá como envoltório de uma história particular de cada sujeito, configurando a fantasmática envolvida em cada caso. A abordagem em um corpo erogeneizado nos revela que o sintoma não acontece de modo orgânico, e que, embora as fezes estejam diretamente ligadas a uma atividade masturbatória autoerótica, elas se revestem de valor simbólico a partir da relação com o Outro e da demanda imaginária que lhe é atribuída, essa dimensão é fundamental para adentrar nas particulares sintomáticas.

Sobre a Autora:

Ana Paula Pereira Vargas - Estagiária com Ênfase em Processos Clínicos do Curso de Psicologia da UNIJUÍ .

Referências:

ABLA, Dalmara Marques. Pulsão e Escritura. LETRA FREUDIANA: A criança e o Saber. 1ed. Rio de Janeiro: Revinter, 1999.

AMERICAN PSYCHIATRY ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - DSM-5. 5 ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2014.

FERREIRA, Marcia Porto. Transtornos da Excreção. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2013.

FREUD, Sigmund. (1905). Um caso de Histeria, Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade e outros trabalhos. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

FREUD, Sigmund. (1916). Instinto e suas Vicissitudes. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. (1917/1918). Uma neurose infantil e outros trabalhos. Vol XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

LACAN, Jacques. (1974/1975). Seminário 22, R.S.I. Versão online em espanhol. Tradução por: Ricardo E. Rodríguez Ponte. Disponível em:

<http://www.lacanterafreudiana.com.ar/lacanterafreudianajaqueslacanseminario22.htmlAcessado pela última vez em: 22/05/2016

LACAN, Jacques. (1962/1963). O Seminário, livro 10: A Angústia. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005.

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VARGAS, Ana Paula Pereira. Considerações Acerca da Encoprese como Sintoma Clínico Infantil. Psicologado, [S.l.]. (2019). Disponível em https://psicologado.com.br/abordagens/psicanalise/consideracoes-acerca-da-encoprese-como-sintoma-clinico-infantil . Acesso em .

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Vargas, P. P., 2019. Considerações Acerca da Encoprese como Sintoma Clínico Infantil. [online] Psicologado. Available at: https://psicologado.com.br/abordagens/psicanalise/consideracoes-acerca-da-encoprese-como-sintoma-clinico-infantil [Acessed 21 Sep 2020]

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VARGAS, Ana Paula Pereira. Considerações Acerca da Encoprese como Sintoma Clínico Infantil [online]. Psicologado, (2019) [viewed date: 21 Sep 2020]. Available from https://psicologado.com.br/abordagens/psicanalise/consideracoes-acerca-da-encoprese-como-sintoma-clinico-infantil