Crenças e Costumes como Necessidades Simbólicas Sócio-Culturais

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RESUMO: Sabemos que desde os primórdios somos atravessados por conteúdos simbólicos constituintes de crenças, costumes, valores e religiões. Ou seja, representações simbólicas culturais. No entanto, optamos por desenvolver um Trabalho de Conclusão de Curso com embasamento em pesquisa bibliográfica baseada em livros e artigos desenvolvidos nas áreas da antropologia, filosofia, história, sociologia e psicanálise, tendo como objetivo a tentativa de realizar uma leitura histórica e crítica do surgimento dos primeiros símbolos culturais que permearam a história da humanidade e que permeiam a sociedade contemporânea. Para a realização deste trabalho nos embasamos na abordagem psicanalítica, como subsídio de tentarmos compreender qual a necessidade destas representações simbólicas para o “bem- estar” sócio-cultural. Com a pretensão de ressaltarmos algumas das práticas sociais que representam nosso objeto de estudo, desenvolvemos três capítulos abordando diferentes questões, mas que se complementam no decorrer do trabalho. Sendo que no primeiro capítulo realizamos pesquisas históricas, sociológicas e, principalmente, antropológicas sobre as culturas primevas, as quais nos possibilitaram conhecer e apresentar brevemente as mais variadas crenças e costumes que apareceram em períodos remotos e, em períodos mais próximos do nosso. Nessas pesquisas, foi possível observar que as representações de totens e tabus (FREUD, [1913-1914] 1969) se diferenciaram nas diferentes épocas, mas, o impulso que moveu a humanidade a inventá-los permanece até a contemporaneidade. Já no segundo capítulo, realizamos pesquisas a partir da leitura psicanalítica freudiana com o objetivo de tentarmos compreender e apresentar os mecanismos inconscientes que moveram a humanidade a instituir crenças e costumes como representações de valores, que propiciaram a sensação psicológica do “bem-estar” existencial. Para tanto, retomamos alguns dos costumes e rituais ilustrados no primeiro capítulo e realizamos uma releitura histórica com o viés psicanalítico de Freud. Nestas pesquisas nos foi possível compreender estas representações como resultados de mecanismos inconscientes em busca da defesa ante o desamparo humano. E, concluindo a constituição deste trabalho: no terceiro capítulo realizamos pesquisas bibliográficas de viés psicanalítico, com embasamento em autores contemporâneos de diferentes nacionalidades, que estudaram e, estudam, as crenças, costumes e valores sócio-culturais através de reflexões críticas sobre as instituições que ofertam a ilusão da “cura” para o desamparo e para o “mal-estar” existencial. Apresentamos ainda alguns dos mecanismos inconscientes de nossa contemporaneidade que assemelham-se aos mecanismos inconscientes primevos que originaram o misticismo. No entanto, estes mecanismos receberam novas facetas de acordo com o processo evolutivo da humanidade.
Palavras-chave: Crenças, Cultura, Desamparo, Psicanálise

Introdução

É evidente que em nossas histórias de vida estamos intimamente vinculados à cultura e seus valores morais, místicos e totêmicos, e em grande proporção são estes valores que traçam os rumos do nosso viver, são eles que nos dão a esperança e expectativa de uma vida digna. No entanto, os reconhecemos como representações simbólicas que proporcionam efeitos de “bem-estar” social, não obstante, efeitos de “mal-estar”. Refletindo sobre estes aspectos nos preocupamos em desenvolver um trabalho que nos possibilite, e possibilite também aos curiosos leitores, compreender a importância das crenças e costumes como necessidades simbólicas sócio-culturais.

Lembrando que, independente de estas instituições nos permearem de maneira parcial ou imparcial, todos nós construímos nossas identidades e subjetividades de acordo com as relações e experiências com a cultura em que estamos inseridos. Não obstante, despercebidos reproduzimos muitas de suas representações simbólicas, e muitas destas foram institucionalizadas há milhões de anos, nos tempos mais primevos. E como é comum, não temos consciência alguma do verdadeiro sentido de muitas destas representações constituídas em nossa existência. No entanto, há de se considerar controvérsias de pessoas, ou comunidades, que ao rever e questionar o valores destas instituições, acabaram por gerar conflitos sociais. E como conseqüência das conquistas destes posicionamentos, a sociedade moveu-se a de desvincularem destes valores, no entanto, automaticamente inventaram novas instituições que ofertassem propostas e respostas mais consistentes para a cura do “mal-estar” existencial. Dessa forma, os deuses gradativamente foram perdendo o reino da abstração e começaram a apresentar novas faces na vida concreta, recebendo novas representações, como fama, beleza, ciência, medicina, substâncias farmacológicas e narcóticas, psicologia, livros de auto-ajuda e vários outros candidatos a assumir o trono do deus que fora eliminado pelas novas respostas à nossa existência, e que nos prometem alternativas menos sacrificantes para conquistar o “bem-estar” eterno. No entanto, apresentamos a relação que todas estas questões têm com a necessidade de um referencial simbólico à existência, e não necessariamente à necessidade de uma proteção onipotente.

Para tal, desenvolvemos reflexões críticas em relação à transposição do misticismo para o cientificismo, do qual, muitos ortodoxos místicos responsabilizam a ciência, pensadores e filósofos pelo caos mundial.

Concluindo todas estas questões críticas, desenvolvemos reflexões teóricas sobre os conteúdos simbólicos que apareceram na história primitiva da humanidade, tanto quanto na contemporaneidade, porém, com suas diferentes formas ofertando seus diversos métodos prometedores de cura do “mal-estar” existencial.

Pois bem, convidamos você leitor a vasculhar conosco este baú de representações psíquicas construídas nos primórdios da história da humanidade e que se encontram firmemente instaladas como representações psíquicas de nossa contemporaneidade, porém, em outros “frascos”.

1.Uma Leitura Histórica das Sistematizações de Crenças e Culturas

Antes de darmos início aos conteúdos históricos estudados para este trabalho, gostaríamos de esclarecer que ao realizarmos leituras sobre a história da humanidade, com relação às condições de crenças e costumes, ficou-nos evidente que são às religiões os maiores focos de pesquisas e materiais de estudos. Portanto, esclarecemos que o objetivo deste trabalho não é estudar as religiões que apareceram na história da humanidade, mas em alguns momentos precisaremos abordar alguns destes conceitos, pois, no percurso histórico da humanidade as religiões são instituições, das quais dizem da existência e natureza humana, que mais são respeitadas e que mais ganharam méritos. Portanto, na leitura deste trabalho elas serão classificadas como os demais sistemas de crenças que apareceram na história da humanidade. Abordaremos estas questões mais especificamente no capítulo posterior, compreendendo as religiões como resultados de um processo evolutivo dos sistemas de crenças que têm suas origens em épocas muito remotas; épocas estas que vão além do que costumamos ver nos estudos básicos da evolução humana. É através de estudos dos marcos históricos da evolução humana, registrados até hoje, que tentaremos compreender quando e como apareceram os primeiros registros que nos dão margem a compreender a origem dos sistemas de crenças.

No decorrer deste trabalho tentaremos reformular as compreensões errôneas dos saberes populares que distinguem crenças de religiões, sendo que a última é conseqüência da primeira. As crenças são invenções humanas advindas de suas necessidades, pois não haviam recursos para suprir as angústias vividas nas épocas primordiais. Podemos pensar estas invenções no sentido de que nada é inventado em vão, logo a humanidade inventou as religiões como recursos que os aliviavam da ansiedade em dar respostas aos mistérios da natureza. Lembremos ainda que cada região geográfica tem suas diversidades naturais, é óbvio que cada grupo de humanos compreende os mistérios da natureza de acordo com os recursos naturais existentes em suas regiões. Portanto, os grupos de humanos habitaram espaços geográficos diferentes, logo desenvolveram sistemas de crenças diferentes. Sendo as religiões contemporâneas a evolução de crenças originadas a milhares de anos, não é à toa que atualmente temos diversas religiões espalhadas pelo mundo. Ou seja, sistemas de crenças evoluídos de acordo com as crenças desenvolvidas pelos homens primevos que habitaram o mesmo espaço geográfico.

Daremos mais ênfase aos estudos das crenças e culturas exatamente pelo motivo em que aparece na citação acima. Desde a origem da humanidade até os dias de hoje muitas religiões desapareceram, assim como quaisquer outras crenças, superstições, rituais, crendices e costumes. Portanto é impossível classificar paralelamente as crenças das religiões, sendo que todas as religiões já praticadas partiram do princípio de sistemas de crenças e culturas.

Pois bem, após esta breve introdução podemos dar início à apresentação de um pouco do percurso histórico das crenças da humanidade.

1.1 Os primeiros registros de rituais simbólicos da humanidade

Consultando artigos de estudiosos da Pré-História (ORTEGA et al. 2008), daremos início a esta pesquisa nos focando no período Paleolítico (35.000 a.C – 8.000 a.C.), no qual aparecem os primeiros sepultamentos e pinturas rupestres, e é neste período que os homens começaram a acreditar na existência de espíritos ou seres sobrenaturais habitando a natureza. Abordaremos também conteúdos estudados sobre o período Neolítico (8.000 a.C – 3.500 a.C) onde surgem as práticas de agricultura e criação de gados. É neste período também que os homens começaram a se preocupar com as condições climáticas relacionando-as às colheitas, crendo que estas condições eram controladas por seres sobrenaturais de ordem astronômica.

Nestas pesquisas pôde-se constatar que as culturas que apareceram na história da humanidade apresentam, desde seus primórdios, fortes vínculos às crenças e figuras simbólicas representadas por deuses, astros, homens, animais, ou quaisquer outros objetos que servissem como representação concreta às suas imaginações. Constata-se ainda, que estes povoados pré-históricos, crendo na existência de fenômenos sobrenaturais, sentiam-se ameaçados perante estas forças e passaram a desenvolver rituais e práticas acreditando na possibilidade de contato entre o mundo dos homens para com o mundo dos seres sobrenaturais. Com estes mecanismos estariam a par com eles e não corriam o risco de serem punidos por explorar a natureza de maneira errônea. Como efeito de evolução destas crenças e rituais desenvolveram símbolos, significados e valores místicos que automaticamente foram institucionalizando sistemas de crenças e rituais. E mais adiante, no processo de concentração de diferentes povoados e diferentes culturas, desenvolveram novos sistemas de crenças, cultos e rituais para adoração destes seres sobrenaturais, ou melhor, dos deuses da natureza, que num processo evolutivo institucionalizou-se o que conhecemos por “religião”. “As religiões são sinais de identidade, tanto das pessoas como das sociedades. Por isso são tão variadas e têm, ao mesmo tempo, tantas coisas em comum”. (ORTEGA et al., 2008, p. 18). Como mencionamos no final do segundo parágrafo introdutório deste capítulo, as crenças se diferenciam de acordo com o espaço geográfico habitado, portanto, cada espaço é constituído por sua cultura, possibilitando identidades sociais que insere os indivíduos à cultura.

É evidente que todas as culturas têm seus registros históricos que nos possibilitam compreender também que elas são constituídas por vários rituais representativos de momentos de transição na vida das pessoas. Sejam transições de eras, séculos, anos, posições hierárquicas, conquistas, vitórias e outras infinidades de rituais. “Na Pré-História, como na atualidade celebravam-se determinados rituais com a finalidade de marcar a transição de um estado a outro na vida de uma pessoa”. (ORTEGA, et al., 2008, p. 34).

1.2 Os rituais como símbolos de transições na vida

Podemos reconhecer estes rituais de transição da vida para a morte como “Ritos de Passagem”, como denomina a autora Maria Vitória Ortega (ORTEGA et al., 2008, p. 34) ao citar exemplos de que do homem paleolítico ao homem atual aparecem os ritos de passagem como rituais simbólicos que marcam um novo momento na vida da pessoa. Como alguns exemplos atuais no Brasil em que as pessoas, ao completarem 18 anos de vida passam a ter direito à habilitação para conduzir um automóvel, são responsáveis por seus atos e adquirem a maioridade. Jovens nesta idade prestam serviços militares, simbolizando que são homens preparados para defender a nação em uma guerra. Meninas adolescentes que completam os 15 anos de vida e seus pais realizam o baile da debutante. Portanto, o ritual e simbolismo deste baile significa que a partir do décimo quinto ano de vida as moças podem participar de reuniões sociais, têm permissões para namorar e usar roupas adultas. No baile tradicional a debutante veste-se com um vestido infantil até a meia-noite e, posteriormente, veste-se com um vestido adulto. Nas universidades acadêmicas também há estes rituais. Os acadêmicos realizam cerimônias de graduação vestindo becas, simbolizando a transição da vida de estudante para a vida profissional. Assim como estes rituais que marcam o período de transição, há também, na maioria das culturas, o ritual funerário da transição de vida para a morte, que são um dos rituais mais antigos na história da humanidade.

Podemos compreender um pouco destes rituais apresentando um exemplo da cultura de sepultamento dos povos de Chu-ku-tien – sítio pré-histórico da China perto de Pequim, que em 1927 foram encontrados fósseis humanos pertencentes ao grupo de Homo-erectus – em que os arqueólogos encontraram ossadas de corpos enterrados onde os cadáveres eram dobrados e talvez amarrados. Criam-se hipóteses de que este povoado realizava os sepultamentos com estas condições por medo de “cadáveres vivos”. Tentavam impossibilitar qualquer tipo de movimentação deste corpo sepultado, caso ele viesse a ressuscitar. Ou ainda, de que “signifique o contrário, a esperança de um „re-nascimento‟; conhecem-se, com efeito, vários casos de inumação intencional em posição fetal”. (ELIADE, 1978 [1976] p. 27).

Em outras pesquisas e estudos antropológicos, encontraram nos sepultamentos da cultura de Argar – época do Bronze Médio (cerca de 1.500 a.C) em Granada, na Espanha – ossadas de barriga para baixo, de lado e encolhidos com objetos que formavam o enxoval do cadáver.

Muitos pesquisadores têm afirmado que essa disposição deve-se à forma como os povos pré-históricos viam a morte: como nascimento para uma nova vida. Por esse motivo, os mortos eram colocados na postura de feto, esperando que voltassem à vida como crianças. (ORTEGA et al., 2008, p. 35).

Algumas sociedades costumavam dar aos recém-nascidos os mesmos nomes de antepassados mortos, geralmente avôs, acreditando que estes haviam retornado ao grupo. Apresentaremos algumas questões relacionadas às esperanças e fantasias sobre a morte numa leitura psicanalítica freudiana no próximo capítulo.

Nos sepultamentos paleolíticos os cadáveres eram enterrados em posições fetais e acompanhados de objetos que os pertenciam, por isso “[...] os ritos de passagem mais conhecidos são aqueles relacionados à morte, pois deixaram resto em forma de tumbas, que podem ser escavadas e interpretadas”. (ORTEGA et al., 2008, p. 34). Atualmente realizam-se velórios para que as pessoas próximas ao falecido possam passar os últimos momentos junto ao seu corpo rezando para que seu espírito eleve-se ao céu junto aos deuses e às santidades, também para que possam ver o corpo pela última vez para despedirem-se e, na seqüência, realizarem o sepultamento.

Se pararmos para observarmos as diversas culturas que existiram no mundo encontraremos milhares de rituais que simbolizam algum tipo de transição na vida das pessoas.
Sabe-se que os símbolos foram apresentados pela humanidade antes mesmo do desenvolvimento da fala e da linguagem. O homem utilizava-se de desenhos como tentativa de comunicação com o mundo externo. É reconhecido na história que por volta de 11 a 18 mil anos atrás, no paleolítico, apareceram os primeiros desenhos de figuras humanas e animais em rochas e em paredes de cavernas. Arqueólogos, antropólogos e historiadores acreditam que estes desenhos eram expressões de rituais, e também poderiam ser tipos de expressões mentais que condiziam ao ambiente a qual viviam. Muitos pesquisadores acreditam também que as pinturas eram partes dos rituais que consistiam em solicitar ao seres sobrenaturais, protetores dos animais, que autorizassem os homens a caçarem para alimentarem-se. Para as comunidades paleolíticas o ambiente natural era de importância sacramental e os seres humanos compunham parte dela. Era da natureza que dependia a sobrevivência do grupo, portanto o respeito a ela refletia em seus rituais para conservação à flora e à fauna, tal como era proibido caçar animais fêmeas que estivessem em período gestacional. Acreditava-se que respeitando a natureza estariam protegendo e favorecendo a si próprios. “É provável que nunca tenham caçado por entretenimento, nem em maior quantidade do que precisavam. Acreditavam que fazer isso era enfrentar os espíritos protetores dos animais”. (ORTEGA et al., 2008, p. 26). Nas práticas canibais e no consumo de carne de animais, acreditava-se que do ser que se alimentavam adquiria-se as suas características. As mulheres grávidas evitavam comer carne de animais covardes, fracos ou de poucas qualidades, pois temiam que o filho nascesse com essas semelhanças.

Há uma caverna na Cantábria, na Espanha, conhecida como a Caverna de Altamira, que contém até hoje uma das melhores pinturas rupestres de cavalos, cervos, mãos, traços e figuras humanas do paleolítico. Atualmente há povos que vivem de maneira parecida e que realizam desenhos similares. São os povos aborígenes australianos. Segundo eles, “as pinturas servem para transmitir aos demais suas crenças, para se colocar em contato com os espíritos e seres sobrenaturais e para obter uma boa caça”. (ORTEGA et al., 2008, p. 27). Isso possibilita muitos estudiosos e pesquisadores a pensarem que muitos rituais e crenças apresentam sentidos semelhantes aos dos povos do paleolítico.

1.3 O desenvolvimento das percepções, razões e rituais simbólicos

Com toda a capacidade desenvolvida pela humanidade atual não nos fica fácil imaginar que, para chegarmos ao que somos, houve um longo processo evolutivo iniciado pelos povos pré-históricos. As percepções e sentidos humanos foram aprimorando-se lentamente a cada nova experiência em busca da sobrevivência individual e coletiva. No processo de evolução passaram a perceber então que haviam fenômenos que surtiam efeitos diretamente ligados aos seus corpos, como frio, fome, dor, prazer, etc., tais como haviam fenômenos que eram incontroláveis, como os fenômenos da natureza. Para nós, atualmente, é um processo mental automático raciocinar o que é mundo externo e o que é o nosso mundo interno, porém, nos primórdios o homem não tinha esta percepção. Como processo de desenvolvimento das percepções o homem começou a perceber e desenvolver a noção de tempo. Não o tempo cronológico, mas as condições climáticas. Se estava claro ou escuro, dia ou noite, calor ou frio, etc.

Com sua razão mais desenvolvida o homem começou a se questionar sobre esses fenômenos desconhecidos, que influenciavam seus sentimentos e sensações. A partir disso passou a identificar essas forças como divinas, tendo total poder sobre os acontecimentos sofridos por ele. Portanto, numa tentativa de apaziguar seus sofrimentos e ampliar seus prazeres, o homem busca maneiras de interagir com essas divindades, de forma que estas não lhe fizessem mal e que trouxessem algo de bom. Os símbolos, que antes já tinham a função de buscar uma compreensão do mundo, eram empregados de forma a representar essas divindades e visavam um meio de comunicação com as mesmas. (NEWLANDS, 2008, p. 02).

Com a capacidade de observar e distinguir os eventos da natureza dos de seu corpo, o homem sentiu-se impotente por encontrar-se na situação de não conseguir compreender e explicar tais fenômenos que influenciavam suas sensações e emoções. Desta forma, a estes fenômenos foram dados significados remetidos às divindades, pois, acreditavam que haviam seres sobrenaturais representados como deuses protetores da flora e da fauna.

É no Período Neolítico (1.000 a.C) que se sistematiza a grande institucionalização de simbolismos e significados. O homem foi organizando-se em grupos a partir dos quais foram se desenvolvendo pensamentos e idéias e comum. Originando então as diferentes culturas de sociedades que começaram a viver cada vez mais de forma isolada e distante.

Mesmo os homens isolando-se em vários grupos, nos é possível a percepção de que mesmo nestas distâncias, muitos rituais e símbolos tinham algumas semelhanças. Provavelmente isto ocorreu pelo fato de todos estes símbolos surgirem a partir da observação da natureza. (ELIADE, 1978 [1976], p. 78).

No neolítico os povos tinham grandes preocupações com as colheitas e com a reprodução dos gados. “Por isso, a religião dos povos neolíticos tinha uma idéia central, que foi muito importante em grande parte de seus rituais: a fecundidade, tanto da terra como dos animais e seres humanos”. (ORTEGA et al. 2008, p. 28). É neste período que a caça vai perdendo a importância e os rituais relacionados a ela foram desaparecendo. Portanto, os povos começam a realizar novos rituais. Tais como acreditavam que se os humanos ou animais realizassem o coito sobre o solo de plantio, haveria melhores resultados nas colheitas.

Com estas novas experiências e relações do homem para com a natureza, lhe é possibilitado aprimoramentos de raciocínio e pensamentos em relação aos fenômenos naturais, elaborando então novas percepções e conclusões remetidas aos seres sobrenaturais. O sol e as estrelas, principalmente, eram compreendidos como divindades dotadas de características essenciais à existência da humanidade. O sol lhes representava a fonte de calor, conforto e acabava com a escuridão, ou seja, o desconhecido. Isto nos possibilita pensar ser uma das prováveis razões de o sol ter sido considerado um dos primeiros deuses na história da humanidade. “Segundo a astrologia, representa a alma, o centro, a figura do rei ou do chefe, a força viva e criativa que se encontra em cada um”. (NEWLANDS, 2008, p. 02). Para as estrelas e constelações foram atribuídos símbolos do zodíaco, cada qual sendo um deus, na qual acreditavam – e até hoje acreditam e realizam pesquisas para comprovações – que esses símbolos influenciariam na personalidade das pessoas. Foi graças às observações astronômicas que os homens do período neolítico puderam perceber as melhores épocas para o plantio. Devido a estas observações o homem começou a pensar que havia ordem e regularidade no universo, pois as épocas solares (solstícios) se repetiam a cada ano. Em observatórios como o de Stonehenge, na Grã-Betanha, era possível reconhecer os períodos solares, como época de plantações.

Foi neste período também que o clima, e tudo o que pudesse influenciar nas colheitas ganharam grande importância. Em épocas de seca os povos praticavam rituais para atrair a chuva ou o sol, e também para afastar as pragas das plantações. Como aprimoramento das percepções das épocas do ano para o plantio, e, devido às observações das fases do sol e da lua, foram criados os primeiros calendários, “e começaram a ser observadas as estrelas, para aperfeiçoar esses calendários.” (ORTEGA et al., 2008, p. 29).

Durante esse período, surgiram os primeiros sacerdotes, para manter, acrescentar e transmitir os conhecimentos de sua comunidade. Eles foram encarregados de produzir os primeiros estudos das constelações, transmitir o saber de geração em geração e dirigir os diferentes rituais. (ORTEGA et al. 2008, p. 29).

Muitos dos rituais de culturas pré-históricas são reproduzidos até hoje, no entanto, poucos os que conhecem a origem destes rituais e tradições que comemoram. Tais como “em diversas religiões, como a romana, se mantiveram as festas solsticiais, e hoje ainda permanecem algumas, como a noite de São João, em 24 de junho, na qual se acendem fogueiras no pôr-do-sol.” (ORTEGA et al. 2008, p. 28). As festas juninas tradicionais, realizadas nas roças, têm como intuito o agradecimento aos deuses e santos pela comunidade ter conseguido boas colheitas. “São rituais que têm se mantido desde o neolítico em algumas comunidades agrícolas e criadoras, ainda que ao longo da história tenham mudado as divindades”. (ORTEGA et al., 2008, p. 29).

Retomando alguns conteúdos do período neolítico, pudemos constatar que outros fenômenos naturais catastróficos, como raios, relâmpagos, inundações, erupções vulcânicas, etc., eram compreendidos como castigos dos deuses. Como forma de recompensa ou gratificação, o homem utilizava de rituais em que realizava sacrifícios de animais ou até pessoas, e seus corpos e sangue eram ofertados a estes deuses. “Ainda existem pessoas que vivem segundo tradições e culturas similares às da Pré-História, o que permite conhecer melhor como teria sido a vida e a religião naquela época.” (ORTEGA et al., 2008, p. 24).

1.4 O simbolismo como resultado da relação do homem pré-histórico para com os fenômenos naturais

Não se sabe exatamente o que os homens pré-históricos queriam descobrir sobre os fenômenos naturais, porém, segundo Eliade (1978), Newlands (2008) e Ortega et al. (2008), nos é possível compreender que o homem, reconhecendo sua impotência perante esses fenômenos, tentava encontrar razões para tais fatos de forma que lhe ficasse claro o que tinha ou não permissão a usufruir da natureza, evitando que fossem castigados por seus deuses. Dentre as curiosidades sobre os fenômenos naturais, medo da punição e o medo da morte, no homem desperta-se desejos de querer entender sua existência e como surgiu a vida. Se surgem de espíritos de pessoas de outras gerações, se são enviados pelos deuses ou qualquer outro fenômeno dos deuses da natureza. Portanto, variadas respostas enquadram- se na tentativa de explicar estas curiosidades, tais como podemos citar um trecho do artigo História das Crenças e das Idéias Religiosas, onde diz que:

Existem pelo menos quatro narrativas que explicam a origem do homem. Elas são tão diferentes que devemos presumir uma pluralidade de tradições. Um mito relata que os primeiros seres humanos brotaram da terra como as plantas. Segundo outra versão, o homem foi fabricado com argila por certos operários divinos; em seguida, a deusa Nammu modelou-lhe o coração e En-ki concedeu-lhe a vida. Outros textos designam a deusa Aruru como a criadora dos seres humanos. Finalmente, de acordo com a quarta versão, o homem foi formado com o sangue de dois deuses Lamga imolados com essa finalidade. Este último tema será retomado e reinterpretados no célebre poema cosmogônico da Babilônia, o Enuma elish. (§ 21). (ELIADE, 1978 [1976], p. 82).


Percebemos nesta citação que três, das quatro tentativas de respostas sobre a origem da humanidade estão envolvidas com toques divinos como único fenômeno que possibilita a vida.

Durante a Pré-História, os seres humanos que viviam da caça, da pesca e da criação de gado pensavam que tudo o que os rodeava estava submetidos a forças sobrenaturais. Acreditavam que, mediante a realização de determinados atos, essas forças ou espíritos poderiam ajudá-los. (ORTEGA et al., 2008, p. 26).

Conforme os sistemas sociais dos povos neolíticos foram tornando-se mais complexos, as diferenças aumentaram. E como necessidades de organizações nos grupos em que viviam, deram início à sistematizações de hierarquias sociais e religiosas, na qual algumas pessoas, independente de idade e de gênero, começaram a ganhar status que os situam acima dos restantes. Principalmente em grupos maiores, que automaticamente realizavam mais atividades de agricultura, os rituais de plantios e colheitas se realizavam com mais freqüência e por mais pessoas. Desta forma, eram nomeados chefes e reis de caráter religioso que determinava o que era ou não tabu, colocados numa posição de capacitados a manterem contatos com os seres sobrenaturais.

Esse sistema aumentava as rivalidades, porque o homem que se sentisse com forças suficientes para desafiar o chefe não teria mais de infringir nenhum tabu imposto por ele. Por isso acabou se consolidando o caráter tabu do próprio rei, no qual não se podia tocar nem olhar sem se expor a algum perigo indeterminável e terrível. (ORTEGA et al., 2008, p. 33).

Existiam comunidades que elegiam figuras de animais, objetos, plantas ou fenômenos naturais como identidades protetoras do grupo. Para se identificar esses sistemas de identidades atribuídas a uma figura simbólica, dá-se o nome de “totem”. Os valores simbólicos, místicos e religiosos, eram também muito fortes nestes povos. Assim como pudemos ver anteriormente, haviam crenças sobre a existência de seres sobrenaturais que podiam prejudicar o bem-estar do grupo, que é denominado de “tabu”.

Os povoados pré-históricos tinham também como crenças e costumes a prática de eleger pessoas nas quais acreditavam possuírem poderes para combater os espíritos que habitavam na natureza. Vencendo-os conseguiam produtos dos animais e vegetais para curar enfermidades. Estas pessoas dotadas de poderes sobrenaturais e muito respeitadas em sua comunidade eram conhecidas como “xamãs”. Para eleger-se xamã era necessário cumprir com alguns requisitos: “como ter uma sensibilidade especial, ter algum familiar xamã ou ter passado por alguma doença ou crise vista como escolha por parte dos espíritos”. (ORTEGA et al., 2008, p. 35). Os povos da época acreditavam que as enfermidades eram “encostos dos espíritos inimigos” e que somente os xamãs conseguiriam vencê-los. Acreditavam também que os xamãs tinham poderes para fazer chover nos períodos de seca. Os que falhavam com estas atividades, e enfermos que estivessem sob seus cuidados falecessem, a comunidade poderia duvidar de seus poderes, trocar de xamã ou até expulsá-lo.

Os xamãs utilizavam tambores para que pudessem fazer comunicações com o mundo dos espíritos e dos mortos. Diziam que os tambores eram as bocas com que se falava com o mundo sobrenatural.

1.5 Os simbolismos e ansiedades em relação ao fenômeno da morte

Como podemos perceber neste esboço histórico, muitas vezes que o homem pré-histórico utilizou de suas ferramentas intelectuais foi para tentar dar sentidos aos fenômenos da vida e da natureza. Em toda sua história elaborou respostas e explicações aos episódios dos quais experienciou, porém, nem sempre tiveram recursos que lhes possibilitasse observar e entender o funcionamento dos fenômenos que estão fora do seu campo de percepção. Desta forma, muitos fenômenos naturais passaram-se como inexplicáveis. Tais como não conseguiam explicar as forças do sol, de fortes ventos, chuvas, relâmpagos, trovoadas, enchentes e erupções, e a morte, que sempre ocupou um espaço de medo e angústia, principalmente por ser o mais temido dos fenômenos naturais. Então, tentavam entender o porquê da morte e o que viria a ser depois dela. Ainda hoje há diversas tentativas de explicações sobre a morte, e na maioria destas explicações são apresentadas formas acolhedoras e consoladoras à nossa impotência de reverter esta força natural. Ou seja, para suportar esta realidade o homem institucionaliza crenças que possam minimizar suas angústias “[...] como tentativas de negar tudo o que pudesse perturbar esse sentimento de onipotência e impedir assim que a vida emocional fosse afetada pela realidade”. (FREUD, 1969 [1913- 1914], p. 188).

Atualmente temos muitos recursos para encontrarmos respostas ao que é desconhecido, mas não podemos esquecer que estes recursos foram inventados devido à necessidade de encontrar respostas. Porém, ninguém inventou um recurso que dê respostas sobre o mistério da morte. E como é de praxe humana, muitas pessoas inventam sistemas místicos como mecanismos de respostas a estas perguntas. E, por mais ilusórios que estes sejam, muitas pessoas preferem acreditar. Pelo menos assim sentem-se amparados e não sofrem pela incerteza do que vem a ser a morte. Ou melhor, o que vem a ser depois do desconhecido da morte.

2. Uma Leitura da Psicanálise Freudiana sobre as Crenças e Culturas

Nascemos e crescemos em meio de famílias constituídas comumente por pai, mãe, irmãos, primos, tios, tias, avós, bisavós e, assim sucessivamente. Portanto, cada membro familiar também tem graus de parentescos com famílias de uma, duas, dez, cem, ou milhares de gerações passadas. É nítido que famílias são constituídas por valores compostos pela cultura, educação, experiências, condições, superstições, crenças, crendices, religiões, legislações, valores éticos e fatos de sua época. Agora pensemos: quantas gerações familiais já passaram por este mundo e quantos dos valores primevos foram transmitidos de geração em geração e que são reproduzidos até hoje? Quem nunca se deparou com irrupções de que em momentos coléricos é proibido golpear a pessoa importuna, principalmente quando estes são os próprios pais? Quem nunca ouviu ditados populares de que certos animais ou insetos não se pode matar por serem “bichinhos” de deus? Qual brasileiro nunca solicitou ajuda a São Longuinho? – São Longuinho, São Longuinho, se eu achar o „nome do objeto perdido‟ dou três pulinhos. Qual criança nunca jogou o dente-de-leite no telhado para que o novo nascesse bonito?

Num primeiro momento utilizamos de exemplos triviais para tentarmos aproximar o objeto de estudo ao objetivo deste capítulo, mas, antes ainda, gostaríamos de refletir sobre uma ferramenta comum e necessária nas relações interpessoais: a linguagem. Só nos é possível fazermos contatos com o mundo externo por meio de recursos gráficos, fonéticos e simbólicos desenvolvidos pelos homens primevos e que foram se aperfeiçoando e ganhando novos símbolos no decorrer dos tempos. Uma vez que o sistema de linguagem nos é inserido, passamos a reproduzi-lo sem hesitar. No entanto, queremos chegar à questão de que assim como a linguagem, vários fenômenos são reproduzidos sem hesitação, mas, têm seus valores e surtem efeitos psíquicos.

Não é de nossa intenção utilizar deste trabalho para desmistificar as superstições, portanto, falar um pouco delas nos facilita fazer com que nossos leitores imaginem a imensidão de movimentos reproduzidos em vão e que são fundamentados totalmente em ilusões, porém, surtem efeitos psíquicos em quem os pratica e crê fielmente em sua validade, tais como alguns exemplos: onipotência de pensamentos, sensações de estar sendo vigiado, ansiedades, dificuldades em desenvolver atividades simples – tal como o simples passar por debaixo de uma escada, se necessário, etc.

Passaremos então a focar-nos nas questões latentes destas crendices e costumes partindo do princípio de que estas surgem dos mesmos mecanismos psíquicos que dão validade às crenças. Convém mencionarmos que crença não está diretamente relacionada à religião, mas ao contrário. Pois, as religiões só existem porque antes existiu o mecanismo psíquico que origina a crença.

2.1 As crenças como representações ante o desamparo

Em alguns trechos do artigo O mal-estar na civilização (FREUD, 1969 [1929- 1930]) o autor apresenta reflexões sobre as praxes de o homem manter-se sob a existência de um ser onipotente, no sentido de que assim sente-se tutelado por uma força que o aliviará dos sofrimentos proporcionados nas experiências de vida. Em alguns momentos há alusões de que a figura de um deus serve como representação da figura paterna nos primeiros anos de vida de uma criança. O autor se refere às situações de que para crianças de poucas idades o pai representa uma figura que lhes representam total proteção e amor, e que lhes afastam dos perigos que as ameaçam. Porém, ao crescerem percebem que o pai não é onipotente, como antes acreditavam ser. E isto é comprovado a cada gesto que proporcione desprazer à criança – simples descuidos, ausências, negações, desejos não satisfeitos, etc. São em momentos como estes que as crianças necessitam, numa ordem inconsciente, de outro ser que lhes proporcione o amparo que antes tinham com a figura paterna.

[...] a impressão terrificante de desamparo na infância despertou a necessidade de proteção – de proteção através do amor –, a qual foi proporcionada pelo pai; o reconhecimento de que esse desamparo perdura através da vida tornou necessário aferrar-se à existência de um pai, dessa vez, porém, um pai mais poderoso. (FREUD, 1969 [1927-1931], p. 39).

Num processo prolongado, de anos de vida que se passam, a figura paterna, que antes era onipotente, é substituída por outra figura onipotente que proporciona os mesmos amparos necessários, em nível inconsciente. Talvez sejam destes mecanismos que advém frases religiosas e culturais, tal como: “deus é pai”. Numa leitura psicanalítica podemos inverter a frase, sem perder seu teor, dizendo “pai é deus”, pelo menos até as tenras idades.

Freud menciona ainda que estes aspectos devem-se nada mais nada menos à busca da felicidade plena sem resquícios de incômodos, desconfortos, desprazeres, ou, o que os homens comuns (que não possuem da arte nem da ciência, como cita o autor) conhecem como infelicidade. Não é raro que para estes a felicidade é sinônimo de constante carga de prazer. “Como vemos, o que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer. Esse princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início”. (FREUD, 1969 [1927- 1931], p. 84). O autor prossegue no assunto de que esta felicidade, procurada nas religiões, é possível de se encontrar também na arte e na ciência. Porém, nas religiões os conteúdos são trabalhados de forma misteriosa, ainda que “para esse grande Espírito, o mundo não oferece problemas, pois ele próprio criou todas as instituições”. (FREUD, 1969 [1937-1939], p. 137). Estes sistemas de crenças restringem os crentes a levantarem reflexões críticas, novos ideais, ou a questionarem-se da existência do ser onipotente a qual se submetem. Então pensemos: como estes crentes podem ter a audácia em duvidar da existência de um ser onipotente que criou tudo, sendo que no ato de duvidar “Ele lerá seus pensamentos?” Podemos dizer então que viver nesta situação é como viver em ameaças paranóicas.

No artigo Dois Grupos Artificiais: A Igreja e o Exército (FREUD, 1969 [1921]) podemos compreender melhor o que mantém a sustentação dos sistemas religiosos, quando apresenta o análogo ao exército. Claro que não seremos tolos em dizer que estas duas instituições são iguais, cada qual obstina-se a suas especificações. Pois, bem, neste trabalho o autor apresenta claramente que o poder maior que mantém estes grupos são seus líderes, sendo na igreja (no artigo Freud utiliza como exemplo específico a religião católica) a imagem de Cristo, que une os crentes como irmãos por seu amor igual a todos, “[...] ele coloca-se, para cada membro do grupo de crentes, na relação de um bondoso irmão mais velho; é seu pai substituto”. (FREUD, 1969 [1920-1922], p. 106), e no exército o comandante-chefe que mantém unidos os soldados também pelo uniforme apreço a todos. Pois bem, e o que este artigo contribui para o desenvolvimento deste trabalho? Não precisamos entrar em muitos detalhes para deixar claro que os sistemas de crenças só existem devido às práticas de cultos em massa e crenças de mesmas devoções. O grupo entoa-se unissonamente criando uma personalidade do grupo, muitas vezes diferente daquela que se é enquanto personalidade individual. Seria basicamente a teoria da indução mental vindo da força do grupo, ou a teoria do contágio, que podem ser melhor estudados através de trabalhos de Le Bon, Ferenczi, Pichon Rivère e demais autores que estudam e trabalham com teorias de grupos. “Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimento, essas identificações”. (FREUD, 1969 [1932-1933], p. 205).

Sabemos também que os crentes carregam os valores religiosos desde séculos passados, logo estes valores estão automaticamente inseridos na cultura e educação dos povos. Isto implica numa ordem de que, se a religião está inserida já nos primeiros momentos de vida da pessoa, logo esta se torna um dos pilares estruturantes de sua personalidade, assim haverão maiores dificuldades para questionar os poderes sagrados, pois, questionando suas crenças e buscando suas verdades, a pessoa corre o risco de desestruturar o que sustenta sua vida. Seria mais ou menos como suspeitarmos da veracidade de sermos filhos biológicos de nossos pais, ou seja, havendo indícios de provas contrárias ao que sempre acreditamos ser a verdade, estaríamos entrando em fortes conflitos psíquicos. Ou seja, o processo de questionar o que está bastante solidificado como estrutura da vida não é tão simples.

2.2 Compreendendo as religiões como sistemas de crenças e culturas

Retomando nossos assuntos sobre os valores religiosos, abordaremos a questão de que os líderes dos sistemas de crenças são figuras muito respeitadas e valorizadas por seus poderes de santidade ou sacrifícios, assim como a figura de Jesus Cristo (especificamente na igreja católica) que é valorizado por ter dado sua vida aos seus irmãos para salvar toda a existência da humanidade. Este ato ganhou mérito no sentido de que o filho de Deus foi sacrificado para nos salvar. Além do mais, realizava curas milagrosas, que não serão questionadas aqui, pois entraríamos em outros objetos de estudos que envolvem questões do poderes persuasivos e sugestionáveis ao inconsciente, mas, de forma sucinta diríamos que o próprio Cristo desvendava os mistérios de seus atos milagrosos de cura, quando dizia aos enfermos curados: “A tua fé te salvou; vai-te em paz”. Ou seja, não existia poder sobrenatural, mas o poder da crença e da palavra.

Nas culturas de séculos passados, assim como hoje é, “a pessoa não é consultada ou não tem escolha sobre se deseja ou não ingressar em tal grupo; qualquer tentativa de abandoná-lo se defronta geralmente com a perseguição ou severas punições”. (FREUD, 1969 [1920-1922], p. 105). Estas pessoas sentem-se satisfeitas pelo simples fato de sentirem-se próximas de seus deuses. Uma vez que tentam se afastar, por si próprios se punem pelo severo desprazer, podendo até acreditar que estejam pagando pelo pecado de duvidar da existência divina.

Com a religião o homem humaniza a natureza, compreendendo o universo como uma intermediação de sua alma. “[...] é, de fato, natural ao homem personificar tudo o que deseja compreender, a fim de, posteriormente, controlá-lo”. (FREUD, 1969 [1927-1931], p.31). Com as ciências o homem tenta compreender a natureza separada de crenças, hipóteses ou quaisquer outras possibilidades abstratas. Freud menciona em O futuro de uma ilusão (FREUD, 1969 [1927-1931]) que tanto a religião quanto a ciência, acreditam em suas ilusões. Esclarece ainda que ilusão não é sinônimo de crença equivocada, mas, crença em algo que pode ser, ou vir a ser. O sentido de ilusão estaria aqui no mesmo nível de acreditar em hipóteses. Portanto, quando a ciência crê em algo ela passa a realizar estudos e pesquisas até encontrarem os reais resultados do que antes era apenas crença. Caso as respostas encontradas contradigam com o que antes era uma hipótese, a ciência admite abandoná-las buscando novas respostas. Já a ilusão religiosa não admite revisões em suas doutrinas ortodoxas. Sabemos que muitas doutrinas religiosas originaram- se há milhares de anos e até hoje contém os mesmos mandamentos, que em certos casos ainda podem fazer sentido, porém, muitos outros não, pois, “[...] nossos ancestrais eram muito mais ignorantes do que nós. Acreditavam em coisas que hoje não nos é possível aceitar, e ocorre-nos a possibilidade de que as doutrinas da religião possam pertencer também a essa classe”. (FREUD, 1969 [1927-1931], p. 35).

Uma vez que a própria religião passa a ser estudada e explicada pela ciência, ela perde seu espaço de poder em relação à oferta de decifração do universo e subsidio ao desconhecido. Assim resume-se a um preceito moralizante.

Através destas leituras psicanalíticas compreendemos que estes desejos do saber partem do desejo do poder, assim como o desejo do homem saber sobre tudo que o cerca, como um mecanismo de controle à existência e não deixar que seja tomado pelo horror da angústia originada dos mistérios do que está por vir, do desconhecido. Ou melhor, da morte. Sobre tais angústias humanas:

Freud declara que a psicanálise não pode dar fim ao desamparo, oferecer ao sujeito do inconsciente o conforto daquele que anseia pela harmonia consigo mesmo e com o próximo. Adotar a posição daquele que promete é situar-se no horizonte dos ídolos, das filosofias totalizantes e das mais elementares pregações políticas.
A psicanálise deve sustentar sua posição de denúncia diante de todo projeto fundado em ideais fictícios de conciliação. Distante da representação religiosa, que impõe-se igualmente a toda coletividade que se oferece como ficção exuberante de plenitude para o humano ainda na brevidade do presente, o autor da psicanálise acena para a disponibilidade do sujeito ao jogo de escolha e adaptação conforme as marcações da sua singularidade, ratificando a crítica a todas as formações sociais que pretendem homogeneizar as subjetividades. (OLIVEIRA, 2002, p. 143).

Podemos entrar numa vertente de estudo que nos possibilitará compreender como foram inventadas as crenças, antes mesmo de se usar o termo “religião”. Através de uma leitura psicanalítica de todo o contexto histórico das crenças e culturas podemos compreender que todos os sistemas de crenças estão diretamente ligados a questões da vida e da natureza da qual não temos a capacidade de compreender e elaborarmos respostas. Assim como sempre tentam dar sentido ao mais temido de todos os mistérios, que é o fenômeno da morte. Este sempre existiu com tentativas de explicações de variadas hipóteses pelos povos que habitaram a terra; convém lembrar que ainda hoje é, e pelo visto sempre serão apresentadas novas crenças e explicações sobre este fenômeno. Pois bem, é-nos evidente que sobre a morte é dito quase tudo, porém, quase sempre evitam crê-la e citá-la como o fim da existencialidade. É desnecessário alto nível de intelectualidade para uma pessoa conseguir analisar e perceber, em nossa cultura contemporânea, que durante um sepultamento aparecem comentários de que o recém-falecido encontra- se num patamar de paz e calmaria. “A consideração pelos mortos, que, afinal de contas, não mais necessitam dela, é mais importante para nós do que a verdade, e certamente, para a maioria de nós, do que a consideração pelos vivos”. (FREUD, 1969 [1914-1915], p. 300). Neste trecho citado o autor menciona que as preces ofertadas aos mortos são impossíveis de serem transmitidas a eles, mas, possíveis de serem transmitidas aos sujeitos que ficaram em vida sofrendo ao assistir seu sepultamento, que, nada mais confirma ao sujeito do inconsciente de que a morte é o futuro que o aguarda.

2.3 O surgimento de crenças de vida após a morte

Até o momento abordamos questões sobre as crenças e religiões como apaziguadores de nossos sofrimentos psíquicos, e a morte como a principal ameaça ao nosso “bem-estar”. A partir daqui vamos tentar conhecer um pouco da história de quando surgiram as crenças de vida após a morte, antes mesmo de que existissem sistemas de crenças, religiões ou quaisquer outros tipos de adorações a divindades.

Na segunda parte do trabalho psicanalítico de análise das condições humanas em relação à morte, titulado de Nossa atitude para com a morte (FREUD, 1969 [1914-1915]), o autor apresenta minuciosas observações sobre uma possibilidade lógica do que muito provavelmente aconteceu nos mecanismos inconscientes dos homens primevos, dos quais foram elaboradas todas as instituições relacionadas à morte que conhecemos hoje. Seria inconveniente darmos continuidade neste assunto sem antes retomarmos nossas lembranças de estudos antropológicos das épocas escolares, a qual nos possibilita termos um pouco do conhecimento de que aos homens primevos não era de se esperar argumentações, negociações e acordos verbais, ao invés de agressões físicas quando se sentiam perturbados ou impedidos por outros homens. Podemos dizer que naquele período os homens não tinham muitos limites aos seus impulsos e desejos. Desta forma, qualquer objeto que lhes fossem importunos estava ameaçado a ser aniquilado, não simplesmente pelo desejo de aniquilar, mas pelo desejo de se livrar de algo que o incomoda. Podemos fazer uma analogia ao mesmo impulso que temos, atualmente, para aniquilar um inseto que nos perturba. Não hesitamos em aniquilá-lo para zelar o nosso conforto. De forma semelhante os homens primevos tinham impulsos para aniquilar qualquer ser vivo que lhes incomodassem. Em meio destes confrontos particulares não só o próprio homem corria perigo de ser aniquilado, mas também sua esposa, filhos ou qualquer outra pessoa de apreço, pois estes também poderiam ser, a qualquer momento, um empecilho na vida de qualquer outra pessoa. E é aqui que se aponta o início das análises e compreensões lógicas psicanalíticas a respeito
da relação do homem primevo para com a morte, que não só de sua própria morte, mas a de seus próximos.

Sugerimos tentarmos partir de uma ordem de raciocínio e pensamento livres dos que temos estruturados, e raciocinarmos que no período pré-histórico não havia sistemas de leis, crenças e tabus. O que regia era a lei da sobrevivência do homem: lutar para alimentar-se, defender-se eliminando qualquer coisa que lhe oferecesse perigo, e, ainda garantir o bem-estar e conforto próprio e de seus próximos. E para tal, o sistema não era diferente, aniquilar quem, ou, o que lhe importunava. Sobre tais aspectos diríamos que o homem é regido de impulsos instintuais, porém, sabemos que as principais diferenças deste, enquanto ser humano, de outros seres não humanos, é sua capacidade de memória, raciocínio, emoções e simbolismos. Partindo desta ordem de raciocínio convém ressaltar então que: em meio de tantas mortes que realizavam no período pré-histórico, chegaria o momento que o homem veria um de seus entes morto por ter sido um empecilho na vida de outro homem, e enquanto ser humano esta cena seria automaticamente memorizada e relembrada no decorrer de sua vida. Ao assistir a morte de outras pessoas o homem moveu-se a inventar armas e outros artifícios para ganhar forças para lutar e manter-se vivo. Lembremos que atualmente, após o processo de evolução do homem, utilizamos de artifícios mais avançados também no intuito de nos mantermos vivos por maior tempo possível, e não é raro encontrarmos pessoas em momentos de descontrações dizendo sobre a possibilidade da invenção de um antídoto contra a morte. “Por isso, a escola psicanalítica pôde aventurar-se a afirmar que no fundo ninguém crê em sua própria morte, ou, dizendo a mesma coisa de outra maneira, que no inconsciente cada um de nós está convencido de sua própria imortalidade”. (FREUD, 1969 [1914-1915], p. 299). E é esta convicção da imortalidade que muito contribuiu a mover o homem pré-histórico a inventar instrumentos que lhe dessem forças para não ser aniquilado.

Através desta leitura psicanalítica sobre o homem primevo, conseguimos entender que a força que moveu o homem a se fortificar para garantir sua sobrevivência não veio somente de seus instintos, até mesmo porque, se assim fosse, nas espécies animais também haveria invenções de armas para lutarem. Então não é somente o instinto que moveu o homem à evolução, mas também, se não principalmente, as capacidades que o diferenciam enquanto ser humano. Portanto, isto não significa que o homem, garantindo sua sobrevivência, estava totalmente isento do fenômeno da morte, até mesmo porque ele estava vivo porque matava, e, ainda, presenciava algumas vezes a morte de seus entes queridos.

O homem já não podia manter a morte à distância, pois a havia provado em sua dor pelos mortos; não obstante, não estava disposto a reconhecê-la, porquanto não podia conceber-se a si próprio como morto. Assim, idealizou um meio-termo; admitiu também o fato de sua própria morte, negando-lhe porém, o significado de aniquilamento – significado que ele não tivera motivo para negar no que dizia respeito à morte de seu inimigo. Foi ao lado do cadáver de alguém amado por ele que inventou os espíritos [...] (FREUD, 1969 [1914-1915], p. 303).

Junto do processo de luta pela sobrevivência houveram momentos em que o homem sofreu pela morte de um ente querido, principalmente porque este episódio comprovava que ele também seria morto um dia, e, com certeza, isto lhe causava sofrimento antecipado por saber que sua existência está fadada à morte. No intuito de amenizar esta angústia, o homem até aceita sua morte, mas não seu aniquilamento, para tal, desenvolveu mecanismos que proporcionassem sentimentos de amparo. Portanto, acreditando que após a sua morte irá ao mesmo mundo dos outros mortos, logo se encontrará com o ente querido, e é óbvio que, sendo assim, significa que ele próprio também estará a salvo da aniquilação. Pois, se se encontrará com o ente numa vida após a morte, significa que ele próprio terá sua vida após a morte. “Sua persistente lembrança dos mortos tornou-se a base para a suposição de outras formas de existência, fornecendo-lhe a concepção de uma vida que continua após a morte aparente”. (FREUD, 1969 [1914-1915], p. 304). É a partir deste momento que surgem as crenças de vida após a morte na história da evolução humana e, conseqüentemente, a existência de espíritos dos que já morreram. Ao pensar na existência de espíritos abre-se um leque de possibilidades para pensar na existência de seres sobrenaturais. E é aqui que começam a surgir crenças da existência de seres sobrenaturais que habitam a natureza, conforme apresentado no primeiro capítulo.

Voltemos então ao assunto da relação do homem com o fenômeno da morte. Pois bem, esta nova relação do homem para com a morte possibilita novas posturas sociais, exigindo-se então novos métodos para evitar o desconforto em relacionar-se tão diretamente com a morte.

Ao lado do corpo sem vida do ente amado, passou a existir não só a doutrina da alma, a crença na imortalidade e uma poderosa fonte de sentimento de culpa do homem, mas também os primeiros mandamentos éticos. A primeira e mais importante proibição feita pela consciência que despertava foi: „Não matarás‟. Surgiu em relação a pessoas mortas que eram amadas, como uma reação contra a satisfação do ódio que se ocultava sob o pesar, estendendo-se gradativamente a estranhos que não eram amados e, finalmente, até mesmo a inimigos. (FREUD, 1969 [1914- 1915], p. 305).

Institucionalizando estes novos modelos de crenças o homem passa então a tanger novas ordens sociais. A partir deste momento já não rege somente a lei da sobrevivência individual, mas, também ordens para não matar. Com esta leitura psicanalítica compreendemos que estas ordens servem mais como um mecanismo de defesa ao próprio ego a que mecanismos altruístas. Desta forma, a humanidade obtém amenizações dos sofrimentos por perdas de entes queridos, pois as pessoas se preocupam menos com as ameaças persecutórias de morte, pois todos devem cumprir com a ordem de não matar, o que antes era praticado sem nenhuma hesitação.

2.4 A institucionalização do totemismo como conseqüência do medo da morte

Uma vez que o homem é institucionalizado por novos valores, a este será proporcionado também receios em desrespeitar as normas da sociedade, e isto é o que assume o papel de ameaças persecutórias, pois, o grupo segue uma ordem na qual ninguém pode contrariar, caso contrário, é de muita obviedade que seriam aplicadas sentenças regidas pela sociedade. Não podemos nos esquecer dos sistemas de crenças em espíritos das pessoas que morreram, portanto, somando estes valores junto das ordens sociais, de não matar, e na ocasião de quebrar esta regra, o homem primevo não teme apenas a sentença social, mas também os espíritos vingativos dos assassinados. “Mas os espíritos de seus inimigos mortos nada mais são do que a expressão de sua consciência pesada por causa de sua culpa de homicídio”. (FREUD, 1969 [1914-1915], p. 305). E a culpa do homicídio é originada a partir do momento que é proibido realizá-lo, ou seja, institui-se o objeto totêmico que tange a lei do “não matarás”. Através destas observações podemos compreender com mais clareza que desde os primórdios a maioria das ordens mundiais partem de um mecanismo de defesa ao próprio ego contra o sofrimento em perder pessoas tão próximas que foram levadas pela morte, ou seja, a morte, que em quase todo momento é negada inconscientemente, de repente leva pessoas muito próximas. Isto possibilita enxergar a dura realidade de que a nós também chegará este momento.

É através destas minuciosas leituras psicanalíticas do processo evolutivo do simbolismo de crenças e costumes originados, pelos homens pré-históricos, que nos é possível questionar como surgiram os sistemas de crenças, superstições e religiões atuais. Podemos perceber neste capítulo que estes sistemas de crenças surgiram principalmente do mecanismo inconsciente de que os humanos estão sempre aptos a esquivarem-se dos desprazeres do viver. Até onde os mecanismos inconscientes puderem elaborar mecanismos ilusórios, serão elaborados, até que receba a voz da razão, que desconstrói nossos contos de fadas que anestesiam as dores do viver. Ou seja, para suportar a dura realidade da vida, os humanos utilizam de mecanismos inconscientes que institucionalizam ilusões propiciadoras de conforto. É como se vivesse no mundo dos sonhos, o inconsciente arranja mil e uma maneiras de satisfazer os desejos latentes que são recalcados pelo Superego e o Ego.

3. Uma Leitura Psicanalítica das Sistematizações de Crenças na Contemporâneidade

“A religião é a mais universal das qualidades humanas simplesmente porque tudo o que é humano, da pintura ao orgasmo, ou a escrever sociologia, foi definido como um fenômeno religioso.” (JEFFREY C. ALEXANDER)

Quando nós, estudantes e profissionais do conhecimento científico buscamos respostas e explicações para tudo o que existe no mundo, principalmente em se tratando do foco de pesquisas desenvolvidas neste trabalho: das instituições que há milhares de anos diziam a “verdade da vida”; automaticamente reduzimos seus valores abstratos sobrenaturais ao nível concreto e humano de explicações e teorias científicas posicionando as crenças, tabus, deuses, religiões e demais fenômenos psicológicos a preceitos moralizantes.

Sabendo que estas forças são as maiores responsáveis por traçarem as linhas da ordem, respeito e compaixão, não obstante, as barbáries na história na humanidade, ao compreendê-las e explicá-las com a voz da ciência, acabamos, de certa maneira, desconstruindo os moldes tecidos por estas linhas. Talvez seja este um dos motivos de alguns religiosos ortodoxos posicionarem-se hostilmente às filosofias e algumas áreas da ciência, principalmente à psicologia, responsabilizando-nos pelo caos mundial notificado diariamente de violência, uso e abuso de drogas, prostituições, homicídios, suicídios, egoísmo, individualismo, capitalismo, disjunções matrimoniais, etc. Eles resumiriam e denominariam estas “pestes sociais” como a “falta de deus no coração”. Todavia, dizemos que isto não significa que a ciência abriu as portas do inferno e ofertou o caos para que a insanidade dominasse o mundo. Mas, ao oferecermos novas possibilidades a um mundo de complexa intelectualidade, questionador e cansado de respostas simplistas e ortodoxas, que há milhares de anos vem privando os prazeres da existência, passamos a ocupar o espaço, na esperança da sociedade, de dar respostas concretas e fundamentadas que ofertam novas ilusões da cura do “mal-estar” contemporâneo. Do “mal-estar” da vida aqui na terra, em psique, carne e osso, e não em um futuro distante e intimamente duvidoso. Desta forma, ofertamos explicações que desmistificam as forças culturais que antes vigiavam a todos e em todos os momentos. Logo, algumas pessoas entram em overdose de libertinagem deixando com que seus desejos reprimidos há tantos anos venham “à flor da pele” sem pudor algum, em busca de momentos de realizações excessivas de prazer, já que a ética e respeito que os continham fora dissolvida. Ou seja, lapidaram as máscaras da solidariedade e compaixão e foram apresentadas as facetas reprimidas e sedentas de prazeres, que simplesmente eram contidas por temerem uma força maior que exige que sejam obedecidos os critérios que prometem a salvação.

3.1 A transposição do misticismo para o cientificismo

Conforme mencionamos brevemente, e como é evidente, a sociedade vem abandonando gradualmente os costumes de práticas de solidariedade e passam a buscar os valores individualistas que lhes proporcionem “bem-estar”. Uma das conseqüências disto, e que aparecem incessantemente em nossa contemporaneidade, é o desejo banal do sucesso, do poder, reconhecimento, riqueza, fama, ou melhor, em termos mais abrangentes da leitura psicanalítica diríamos que cada qual, na cultura do narcisismo (LASCH, 1983), luta em busca da conquista do trono de deus.

Fazer de conta que tenha méritos e fingir ser feliz e sem problemas vinte e quatro horas por dia já é um forte currículo para conquistar este trono na contemporaneidade. Na luta pela realização deste desejo as pessoas tentam esquivar-se à submissão dos valores morais, do respeito, solidariedade e amor. Suas atividades giram em torno da satisfação do desejo sem sacrifício, ou simplesmente do desejo de desejar. Lutam por pequenos momentos de grande prazer. Não é à toa que os pensamentos, costumes e vestimentas atuais são muito parecidas com os que vemos em pessoas de fama musical e cinematográfica comercial, que são facilmente acessadas pela massa social. A população ao se encantar com os trabalhos destes “deuses” e acreditando que eles dizem e representam a realidade do nosso mundo em seus trabalhos, entram num processo ilusório, pois, é a massa social que copiam estes “deuses” e tentam sê-los. Ou seja, a realidade do nosso mundo não é encenada por eles, mas predestinada. Pois, somos nós que encenamos aqui na vida do “faz-de-conta”.

[...] os meios de comunicação de massa, com seu culto da celebridade e sua tentativa de cercá-la de encantamento e excitação, fizeram dos americanos uma nação de fãs, de freqüentadores de cinema. A “mídia” dá substância e, por conseguinte, intensifica os sonhos narcisistas de fama e glória, encoraja o homem comum a identificar-se com as estrelas e a odiar o “rebanho” [...] (LASCH, 1983, p. 43).

Pois bem, antes de retomarmos nossos assuntos sobre as questões dos mecanismos inconscientes que institucionalizaram culturas, crenças e costumes, gostaríamos de refletir sobre as questões de exterminação destas instituições, e, dependendo do leitor, falar dessa exterminação pode soar como movimentação anarquista, mas não é. Pois, é evidente na contemporaneidade que muitas pessoas só precisam do outro como apoio que dê condições de avanço a um nível superior, e aqui se destaca “[...] a crescente volatilização da solidariedade. Cada um por si e foda-se o resto parece ser o lema maior que define o ethos da atualidade”. (BIRMAN, 2001, p. 24). Desta forma, a sociedade perdeu a essência de grupo guiado por um pai criador e protetor. Fragmentou-se a fantasia de sermos um rebanho guiado pelo pastor. Perdeu-se o valor de um deus-pai que nos dava a vida para realizarmos trabalhos em prol de sua existência, de praticar a bondade, caridade, fraternidade e solidariedade, pois, a sociedade não pode mais contar com a ajuda de um deus desencantado, um “papai do céu” que fora desvendado pelos pensamentos filosóficos e estudos científicos. Portanto:

A idéia da auto-suficiência humana minou o domínio da religião institucionalizada não prometendo um caminho alternativo para a vida eterna, mas chamando a atenção humana para longe desse ponto; concentrando-se, em vez disso, em tarefas que os seres humanos podem executar e cujas conseqüências eles podem experimentar enquanto ainda são “seres que experimentam” – e isso significa aqui, nesta vida. (BAUMAN, 1998, p. 213).

É neste sentido que pretendemos tratar as questões do desejo de poder como amparo substitutivo ao “mal-estar” na contemporaneidade. Se não se pode mais contar com deuses, caminharemos tentando satisfazer todas as nossas vontades enquanto somos vivos, pois, orações, penitências, jejuns e sacrifícios não garantem mais a vida eterna. Do ponto de vista racional a morte é o fim da existência. Portanto, o pensamento na contemporaneidade parece desenvolver-se no sentido de que devemos viver intensamente enquanto estamos vivos. Gozar o máximo que podemos das nossas potências.

Outro breve aspecto que podemos considerar neste espaço, para concluirmos nossa linha de raciocínio, é que o sujeito contemporâneo sobrecarregado de tarefas não precisa pensar na existência e na “eternidade”. Quando se dá conta é hora de dormir para começar um novo dia cheio de tarefas, e quando lhe sobrar tempo será para se recompensar das árduas tarefas com grandes doses de prazeres.

Porém, o que essa reflexão toda tem a ver com o desenvolvimento de nosso trabalho? Tudo. Pois, o que dissemos até o momento não significa que as pessoas abandonaram as capacidades de crer, como conseqüência à desmistificação das forças inconscientes que desde os primórdios institucionalizaram nossos tabus. Crer é inato à existência. O que pretendemos apontar aqui é que se não podemos mais contar com deuses, contaremos então com outros subsídios de amparo. “Podemos então supor na nossa civilização e ao longo dos séculos a existência de toda uma tecnologia da verdade que foi pouco a pouco sendo desqualificada, recoberta e expulsa pela prática científica e pelo discurso filosófico.” (FOUCAULT, 2000, p. 114).

Portanto, no contemporâneo o mérito de “dono da verdade” transpôs-se à ciência, que passa a ocupar o trono de deus. Por exemplo: antigamente as enfermidades eram tratadas por curandeiros, benzedeiros, padres e pastores. Hoje a sociedade recorre imediatamente ao saber médico. E o saber da medicina é a voz da ciência que estuda o corpo humano e que promete o poder de reverter disfunções orgânicas. É esta sabedoria que agora promete milagres, é esta instituição que diz saber o que se passa por nosso corpo e nossa mente. Logo, é a ela, como campo científico, que as pessoas submetem suas vidas, pois crêem que ela pode nos afastar dos males e nos oferecer uma vida sem sofrimentos, dores, decepções, angústias, medos e, numa fantasia transcendente: a imortalidade.

A contemporaneidade preparada com todos os recursos científicos acabou por desfazer o horror da morte. Esta, que antes era representada por fenômenos desconhecidos da natureza, ou, vestida de preto brandindo uma foice, nos é representada de maneira fragmentada. A morte não aparece mais batendo de porta em porta e levando vidas repentinamente, agora ela aparece de vez em quando nos fast foods, no tabagismo, na água, nos conservantes, nas diversões, nas faltas ou excessos de atividades físicas, nas drogas, nas oscilações climáticas, etc. Não obstante, a morte de pessoas distantes não é mais motivo de terror psicológico, pois, agora ela é apresentada incessantemente na TV através dos noticiários, filmes e jogos. Ela aparece a todo o momento, no entanto, distante, do outro lado da tela. “E, exatamente como a cena de uma multidão de corpos nus não desperta paixões sexuais, que são facilmente detonadas por uma nudez solitária, as pessoas que morrem „como-moscas‟, em bandos, subtraem o ferrão do horror da cena da morte”. (BAUMAN, 1998, p. 218). A morte banalizada é uma:

[...] estratégia de esconder de vista a morte daqueles próximos à própria pessoa e expulsá-la da memória; colocar os doentes terminais aos cuidados de profissionais; confiar os velhos em guetos geriátricos muito antes de eles serem confiados ao cemitério, esse protótipo de todos os guetos; transferir funerais para longe de locais públicos; moderar a demonstração pública de luto e pesar; explicar psicologicamente os sofrimentos da perda como casos de terapia e problemas de personalidades. (BAUMAN, 1998, p. 198).

O sofrimento causado pela morte já não é mais um fenômeno natural de pesares e luto, mas de responsabilidade das tecnologias científicas. Logo, é ela quem apresentará razões, motivos e assistência aos entes queridos e a fuga deste sofrimento através de medicamentos, terapias ocupacionais, grupos de apoio, psicoterapia, escuta analítica, etc. Em nossa atualidade o “mal-estar” é acolhido e reparado através da razão e da “verdade da ciência”.

3.2 Contemporaneidade e medicalização

Com o progresso da medicina contemporânea, gradualmente a morte deixou de ser um fenômeno natural e passou a ser um fenômeno de ordem lógica e racional que é possível prever, reverter e combater até o último instante. Na contemporaneidade a morte passou a ser fruto da falha profissional ou fraqueza do sujeito. Neste contexto as políticas da medicina e demais especialidades da saúde, desenvolvem, na maioria das vezes, programas de prevenção à morbidade e mortalidade.

Com toda esta assistência o momento de nossa morte encontra-se extremamente distante de nosso momento de felicidade do aqui e agora. Pelo menos é o que as propagandas e demais meios de publicações tentam nos proporcionar e muitos acabam realmente se sentindo nesta “realidade”. No entanto, isso é reflexo das campanhas que prometem a ilusão do amparo ao “mal-estar”, sugerindo que priorizemos o que viveremos nesta vida, antes da morte, dizendo que somos capazes de conquistar a fama, riqueza, felicidade, distância da dor e dos problemas. Então questionamos: se há alguém neste mundo que viva sem dificuldades, sofrimento e dores, esta pessoa talvez esteja lobotomizada, ou melhor, sedada de medicamentos. Assim não há sofrimento, mas também não há vida.

Enfim, para que possamos dar continuidade com mais clareza, convém lembrarmos que, conforme mencionamos no item anterior, a sociedade atual luta vorazmente em busca de realizações, mesmo que sejam bastante breves. E isso é o que mantêm o ciclo vicioso da cultura do narcisismo. (LASCH, 1983). Podemos complementar este desenvolvimento teórico do autor com a idéia da sociedade do espetáculo (DEBORD, 1967) resgatada pelo psicanalista Joel Birman em Mal-estar na atualidade (2001), sendo-nos possível apresentar um pouco do que compreendemos, nesta leitura psicanalítica, sobre este conceito e os perfis que estão inseridos nele.

Pois bem, compreendamos então a sociedade do espetáculo como aquela que nos conquista desde nossa tenra idade oferecendo o reconhecimento, sucesso e fama, ou seja, é como aquela mais comum que faz com que as pessoas queiram ser o artista famoso de corpo perfeito, carro legal, milionário, sempre feliz, que está sempre nas “melhores festas” com as “melhores pessoas”, simpático, charmoso, inteligente, garanhão, amoroso, desejado, bom de sexo e quaisquer outras qualidades que façam desta pessoa um deus em carne e osso. Com certeza este status é invejável para qualquer pessoa, mas a oportunidade não é para todos. Não obstante, as pessoas tendem a tentar se aproximarem ao máximo possível deste status através do meio que lhes é possível: copiando estes deuses da sociedade do espetáculo. Logo compram das mesmas roupas, usam o mesmo penteado, consomem dos mesmos produtos, freqüentam ambientes semelhantes, fazem as mesmas poses para as fotos – e ainda mais em nossa atualidade, publicam-nas demasiadamente nos mais diversos espaços virtuais tentando serem invejados também por outras pessoas. Ou seja, não é preciso ter e ser exatamente como as pessoas vangloriadas, basta parecer que seja, parecer que tenha, e “estar up” em todos os momentos. Basta consumir dos seus produtos para sentir-se completo, desejado e feliz. Resultado: na sociedade do espetáculo não há espaço para as pessoas tristes, pobres, gordas, doentes, “pânicadas”, esquizofrênicas, conservadoras e tapadas. Mas, e os sofrimentos, as doenças, as dificuldades e o desamparo humano, para onde vão? Simples, não vão. Basta entorpecer-se para não dar espaço a estes problemas que levam ao fracasso e distanciam o ideal de vida do “faz-de-conta” que não existem problemas. Assim como a anestesia é eficiente para aliviar a dor, o ansiolítico, antidepressivo, estimulantes, maconha, cocaína e crack são para “encarar” os conflitos emocionais, psíquicos e existenciais.

Considerando estas simples questões corriqueiras apontadas no parágrafo anterior percebemos que a sociedade sofre por não conseguir conquistar os espaços almejados – sejam eles fúteis ou não, o que nos interessa neste foco é que há o desejo e idealização destes espaços, e isso implica em conquista ou frustração. Como é óbvio, não há espaço para realizar o mesmo desejo de milhões de pessoas. Aos “fracassados” resta então buscar a cura do “mal-estar” “nas promessas aliviadoras propiciadas pelos psicofármacos e o êxtase das drogas pesadas”. (BIRMAN, 2001, p. 34). Além destas alternativas, as pessoas consomem em peso as literaturas de auto-ajuda que lhes dão repertório para reproduzirem frases de motivação. Portanto, com elas encontramos dicas do que podemos fazer para conquistarmos o patamar da felicidade. Como boa parte é produzida comercialmente por psicólogos e, a psicologia é a ciência que estuda as emoções e comportamentos, cria-se uma fantasia social de que não há ninguém melhor para nos dizer a verdade sobre o que se deve ou não ser feito para sermos felizes. Lembremos ainda das diversas terapias alternativas administradas por diversas especialidades médicas, destacando-se a neurologia e psiquiatria, que “(...) se colocam no mercado dos bens de salvação como possibilidades terapêuticas que fascinam as pessoas (...)” (BIRMAN, 2001, p. 34) pela promessa de resultados rápidos. “A pós-modernidade é a era dos especialistas em „identificar problemas‟, dos restauradores da personalidade, dos guias de casamento, dos autores dos livros de „auto-afirmação‟: é a era do „surto do aconselhamento‟”. (BAUMAN, 1998, p. 221).

Percebamos nestas leituras que estes meios de “curas” alternativas partem do mesmo princípio do desejo pelos psicofármacos: aliviar-se da dor e ser feliz. Consumir constantemente analgésicos que aliviem a dor nos dão o conforto de não precisarmos dar início a tratamentos para a “cura”. Além do mais, tratamentos costumam levar muito tempo para apresentar resultados positivos, já as promessas farmacológicas e narcóticas nos dão a garantia de resultado imediato, quase instantâneo, e o melhor, sem sofrimento, no aqui e agora. No entanto, na medicina contemporânea as perturbações psíquicas passaram a ser compreendidas com o viés organicista, sendo que os especialistas destas áreas tendem a normalizar os excessos de intensidades emocionais através de substâncias bioquímicas.

Os psicofármacos, pelo enorme efeito antidepressivo e tranqüilizante, visam a transformar esses miseráveis sofredores em seres efetivos da sociedade do espetáculo. Com isso, silenciam-se as cavilações pesadas e as ruminações “excessivamente” interiorizadas dos deprimidos, e eles são transformados em seres “legais” do universo do espetacular. (BIRMAN, 2001, p. 247).

Podemos ilustrar estas questões pesquisadas e apresentadas aqui relacionando a um caso apresentando num filme dramatúrgico americano dirigido por Darren Anorofsky no ano de 2000, Réquiem para um sonho – e o sugerimos aos que apreciam das artes cinematográficas. O filme contém uma história que podemos perceber nitidamente as organizações psíquicas de uma mãe e filho em relação às necessidades para conquistar o “bem-estar”, ou melhor, a fuga do “mal-estar”. Ela apóia-se no consumo de anfetaminas, e acaba por se tornar dependente e sofre por graves delírios devido ao abuso da substância. Já seu jovem filho, procurando por momentos de êxtase e aventuras, experimenta vários tipos de drogas. No intuito de manter esta rotina ele revende parte das drogas acrescentando misturas para render mais lucros e poder comprar cada vez mais, no entanto, como conseqüência deste consumo torna-se dependente de heroína e, conseqüentemente, sofre com as graves seqüelas das picadas de agulhas que deixou seu braço necrosado, sendo necessária a intervenção cirúrgica de amputação.

Na organização familiar apresentada neste filme podemos perceber as diferentes buscas de alívio ao “mal-estar” em diferentes substâncias. Uma que faz uso de drogas lícitas, e outro que faz uso de drogas ilícitas. Todavia, ambos consomem as diferentes substâncias devido à moção singular do desejo de evitar qualquer tipo de sofrimento. E assim é a nossa sociedade atual, que consome em peso as substâncias psicoativas. Alguns procuram por instituições farmacêuticas, outros o narcotráfico, no entanto, o anseio de consumação de ambas parte de um mesmo mecanismo psíquico; “seja pelo narcotráfico, pela farmacodependência ou pelos psicofármacos, o que está sempre em pauta é a transformação do sujeito inseguro, deprimido e panicado em cidadão da sociedade do espetáculo.” (BIRMAN, 2001, p. 248).

É comum que estas pessoas estejam sempre em busca da suposta felicidade, ou melhor, constante carga de prazer, como foi abordado em O futuro de uma ilusão e O mal-estar na civilização (FREUD, [1927-1931] 1969), portanto, quando não conseguem alcançar esta “meta”, recorrem às alternativas que prometem a cura do “mal-estar”. Uma vez que a proposta teórica da psicanálise não promete esta cura, mas, questiona esta demanda, ela dá condições para que essas pessoas se movimentem a procurar pelas terapêuticas administradas por médicos psiquiatras.

Diante de qualquer angústia, tristeza ou outro desconforto psíquico, os clínicos passaram a prescrever, sem pestanejar, os psicofármacos mágicos, isto é, os ansiolíticos e antidepressivos. A escuta da existência e da história dos enfermos foi sendo progressivamente descartada e até mesmo, no limite, silenciada. Enfim, por essa via tecnológica, a população passou a ser ativamente medicalizada, numa escala sem precedentes. (BIRMAN, 2001, p. 242).

Se a escuta analítica e as interpretações de associações livres de idéias não oferecem resoluções tranqüilizantes, algumas substâncias oferecem. E imediatamente. Portanto, não é à toa que em nossa contemporaneidade os momentos de desesperos são atendidos com medicamentos sedativos da angústia, e, quando este caso se repete e torna-se cada vez mais necessário e dependente, a pessoa entra em estado de inércia do viver, passando apenas a existir como ser humano, pois, através de teorias psicanalíticas afirmamos que é a angústia que move o viver, que nos movimentam em busca da não-angústia. Como disse o escritor irlandês, Oscar Wilde (1854-1900): "Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”. E é o que está estampado, e muito, em nossa contemporaneidade. Para evitar o sofrimento das emoções e incertezas de nossas condições humanas, a maioria das pessoas optam por deixar de viver, passando somente a existir como mercadoria guiada pelas necessidades da indústria cultural.

Para concluirmos este assunto convém lembrarmos que o uso de substâncias psicoativas está inserido na história da humanidade há milhares de anos, porém, antigamente eram de ordem do simbólico, como a religiosidade, ou seja, as substâncias eram utilizadas como mecanismos de transcendência que possibilitavam contatos com os seres sobrenaturais. Eram da ordem do êxtase de atingir níveis de concentrações profundas. Já na contemporaneidade são utilizadas para o gozo narcísico, como anestesia à dor da crise existencial. Convém dizermos que esta abordagem crítica não é no sentido de categorizarmos as pessoas que utilizam de substâncias farmacológicas para tratamentos, ou do narcotráfico em momentos de descontração, de meros sofredores desamparados. Referimo-nos às pessoas que usam destas substâncias como fuga ao sofrimento existencial. São as pessoas que dependem destas substâncias para poderem se deparar com as situações problemáticas da vida, diretamente as pessoas que vivem “dopadas”, como único mecanismo de sobrevivência, ou melhor, existindo com o auxílio deste deus-pai fabricado em laboratórios bioquímicos ou em fundos de quintais.

3.3 A psicologia e a psicanálise têm a solução para a “cura”?

Até esta etapa do desenvolvimento do trabalho levantamos vários pontos críticos-reflexivos sobre as práticas do misticismo e cientificismo através do referencial psicanalítico. Não obstante, pretendemos apresentar nesta última parte algumas questões críticas às próprias práticas da psicologia de abordagem psicanalítica e da própria psicanálise.

Muitas das questões apresentadas anteriormente foram em relação à promessa da cura do “mal-estar” social, seja por meio das instituições místicas ou da ciência. E, apontamos não somente o que move a sociedade a demandar a intervenção de amparo às suas angústias, mas também as instituições que, direta e indiretamente, oferecem esta ilusão. Esta questão não é diferente na psicologia e suas abordagens, principalmente em se tratando aqui da psicanalítica. Tanto que em alguns momentos nos deparamos com profissionais que, em nome da psicologia e com o charme do “psicanalizar”, reproduzem conceitos e afirmações que cristalizam estas teorias. E isto vai contra seus princípios, pois, no caso da psicanálise, se observarmos sua história e desenvolvimento, perceberemos que suas propostas estão muito distantes de ser uma abordagem formadora de conceitos ortodoxos e moralizantes. Birman (2001, p. 19) menciona que a psicanálise atual está sendo desenvolvida por alguns profissionais e escolas psicanalíticas de forma tendenciosa ao fundamentalismo. E isto fica explicito quando são ignoradas as novas leituras da contemporaneidade que complementam o pensamento psicanalítico. Este fundamentalismo origina então, o “mal-estar” da psicanálise, e é o que inicia o processo de cristalização deste saber, tendendo à doutrinação.

Se tendermos a psicanálise a um fundamentalismo, romperemos com as propostas de se pensar através do viés teórico psicanalítico e passaríamos a categorizá-la como uma teoria de soluções absolutas. Desta forma, dá-se espaço para a criação da fantasia de onipotência em prometer a cura do “mal-estar”. Podemos afirmar, segundo Birman (2001), que a psicanálise primitiva acabou produzindo esta promessa através de seu charme fascinante do discurso.

Durante muito tempo, a psicanálise se habituou a responder aos problemas sociais e políticos de maneira naturalista, isto é, como se determinadas características e traços presentes no psiquismo humano fossem os responsáveis diretos por certas formas de práticas sociais. Assim, a ordem social e suas práticas seriam as conseqüências imediatas de certas marcas universais do espírito humano. Portanto, o modelo explicativo e causal em pauta seria não apenas naturalista mas também determinista. (BIRMAN, 2001, p. 294).

Uma vez que a psicanálise tenta dar respostas diretas ou indiretas às demandas questionadoras de “o que devo fazer?”, ela passa a assumir uma posição de assistencialismo ao desamparo social e configura-se na mesma posição de discurso moralizante direcionando a sociedade rumo à ilusão do amparo de proteção e promessa da “cura” do “mal-estar” existencial. E, conforme podemos perceber nas pesquisas desenvolvidas neste trabalho, estas demandas existem pelo mesmo motivo: a busca da salvação e imortalidade. Portanto, “psicanalizar” não significa ter conhecimento suficiente para reproduzir seus conceitos, mas usar desta abordagem e estilo de pensamento que possibilita realizar leituras sobre os conteúdos estampados nas relações sócio-culturais. O intuito da psicanálise não é de formar uma “verdade absoluta” e repetir incessantemente seus conceitos teóricos à sociedade tentando convencê-los de que ela tem a razão do existir, e, em seguida, concorrer com a medicina o trono de deus que foi morto por Nietzsche em A gaia ciência (1882), mas sim de pensar psicanálise, que nada mais é que conhecer teorias e técnicas que possibilitam leituras do que está escrito nas entrelinhas, de tentar compreender a etimologia das manifestações individuais ou sociais.

E qual seria o papel da psicanálise perante a demanda que solicita vorazmente a cura do “mal-estar”? Nenhum. Assim como todas as outras instituições apresentadas neste trabalho oferecem nada mais que a ilusão desta cura, a psicanálise não seria diferente em nenhum aspecto, se posicionar-se nesta utopia de onipotência.

Para concluirmos este capítulo, e principalmente relacionarmos com todas as questões desenvolvidas neste trabalho, convém ressaltarmos que: o que essa sociedade demanda não é absolutamente a cura do “mal-estar”. O que ela demanda é a consistência e integridade do viver, o significado da vida, e isso não se conquista para a eternidade, conquista-se em alguns momentos através dos conteúdos simbólicos que representam nossa existência. Porém, este mecanismo não é nítido na consciência social, nem que deveria ser, se é que o próprio “mal-estar” o é. Além do mais, na contemporaneidade o simbólico é “distribuído em recipientes plásticos” para que possam ser “reciclados”. Isto é, a sociedade consome do mesmo produto infinitas vezes sem perceber, pois o simbólico fora “reciclado e redistribuído em outras embalagens”. Já na antigüidade o simbólico era “distribuído em recipientes resistentes, rígidos e inquestionáveis”, e isso garantia sua durabilidade, tanto que podemos perceber a força das religiões que permeiam existências há milhares de anos em nossas sociedades.

Considerações Finais

Chegamos à etapa final e conclusiva de todo o árduo desempenho na tentativa de realizar um trabalho pontual e fundamentado, principalmente por se tratar de questões polêmicas.

Antes de tudo devemos considerar que apontar questões que dizem respeito à própria contextualização sócio-cultural não é um processo tão simples, porém, consideramos uma prática um tanto quanto necessária aos praticantes de reflexões psicológicas, principalmente aos que apreciam demasiadamente os pensamentos e leituras da psicanálise, que por si só é altamente reflexiva e crítica aos fenômenos estruturados em nossa existência. Além do mais, somos curiosos estudantes da psicologia de abordagem psicanalítica de ênfase às questões simbólicas das sociedades e suas culturas. No entanto, era de se esperar que a possibilidade de escolher um objeto de estudo deste teor viesse a se realizar no encontro de aluno e professor que apreciam destas questões.

Pois bem, em se tratando então do assunto de sociedade constituída de simbolismos, retomemos então um pouco da apresentação histórica antropológica realizada no primeiro capítulo deste trabalho.

Como não bastaria apresentarmos apenas as leituras teóricas sobre as crenças, culturas e simbolismos, decidimos conhecer, e apresentar brevemente a vocês leitores, alguns dos aspectos históricos marcantes na evolução da humanidade. Principalmente da relação dos homens com os fenômenos naturais que lhes eram desconhecidos. Na seqüência apresentamos alguns exemplos de rituais simbólicos condizentes com nossa contemporaneidade, com o intuito de percebermos que, os rituais sempre existiram, mas foram sendo remodelados conforme a evolução intelectual do homem.

Ao apresentarmos estas questões simbólicas primitivas da relação dos homens com os fenômenos naturais, não poderíamos deixar de concluir o primeiro capítulo sem tocar nas questões simbólicas da morte. Ainda mais que ela recebe significados fantásticos até os dias de hoje. No entanto, tentamos apresentar algumas representações que a morte tinha, e como se relacionavam com este fenômeno misterioso.

Logo, chegou o momento de realizarmos uma leitura que possibilitasse compreendermos os mecanismos inconscientes que desenvolveram as práticas de rituais simbólicos, diferentes em cada contexto cultural, mas com intenções semelhantes. Para tanto desenvolvemos o segundo capítulo escolhendo obras do criador da psicanálise, Sr. Sigmund Freud. Através delas foi possível compreendermos um pouco dos mecanismos inconscientes que moveu, e nos move, a elaborar símbolos que proporcionem amparo às nossas angústias relacionadas aos fenômenos que desconhecemos. Da mesma forma conseguimos compreender os mecanismos que instituíram as culturas, crenças e religiões. Não obstante, o surgimento de crenças de vida após a morte e a institucionalização de ordens sociais e morais para nos proteger das ameaças rivais.

Foi difícil abordarmos as crenças e costumes sem nos envolvermos com as questões do misticismo, portanto, tentamos nos desvincular um pouco desta ordem e não fazer deste trabalho um material tendencioso à crítica de religiões, se não, nos distanciaríamos do objetivo de responder quais são as necessidades das crenças e costumes para o bem-estar sócio-cultural. Portanto, decidimos desenvolver o último capítulo apresentando questões críticas-reflexivas que nos possibilitaram perceber o quanto as forças inconscientes contextualizam nossa existência nos movendo a buscar representações simbólicas. Isto é, desde os primórdios a humanidade está fadada a lidar com as angústias do desconhecido do futuro, destinado à morte. No entanto, quando surgem instituições que prometem o amparo e a cura do “mal- estar”, a sociedade as abraça fortemente crendo, e essa é a palavra chave, que a salvação e imortalidade encontra-se ali.

Contudo, conseguimos alcançar questões além do objetivo deste trabalho, pois a idéia inicial era de focarmos apenas nos conteúdos do primeiro e segundo capítulo. Portanto, percebemos que seria uma crítica muito direta ao misticismo, enquanto que a proposta ideal era de levantar reflexões críticas sobre instituições que “fabricam” representações simbólicas como promessa de “cura”, transcendendo do misticismo ao cientificismo, ou, à política, à música, ao cinema, aos negócios, ao futebol, etc. E, conforme possibilitamos compreender neste trabalho, estes amparos existem como fantasias em busca da imortalidade, ou pelo menos como refúgios às nossas lembranças de que a morte é nosso futuro.

Enfim, de acordo com as pesquisas desenvolvidas para o desenvolvimento deste trabalho, concluímos que o “mal-estar” é inerente à existência humana. E pela incapacidade de eliminá-lo, na medida do possível, utilizamos de nossos mecanismos inconscientes que se identificam com as representações simbólicas inseridas nas sociedades e nas culturas, sendo estas representações que enriquecem nosso ego de forma que nos possibilitem esquivarmos da dor do existir.

Sobre o Autor

Helder de Oliveira Barbosa é formado em Psicologia pelas Faculdades Integradas de Ourinhos

Sobre o Trabalho

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado às Faculdades Integradas de Ourinhos, para obtenção do título de Bacharel em Psicologia.
Orientador: Prof. Ms. Leandro Anselmo Todesqui Tavares

Referências

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________ [1932-1936]. Obras completas: Novas conferências introdutórias sobre psicanálise e outros trabalhos. Vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

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LASCH, C. A cultura do narcisismo: A vida americana numa era esperanças em declínio. Rio de Janeiro: Imago, 1983.

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