Determinantes Intrapsíquicos Contribuintes para a Dependência Química

(Tempo de leitura: 3 - 5 minutos)

Resumo: Este artigo corresponde a um capítulo de um trabalho interdisciplinar composto por outros 5 capítulos que retratam a dependência química da cocaína tendo em vista diversas temáticas como representações sociais e construção da identidade do usuário; danos físicos, cognitivos e psicossociais; Psicanálise, adicção e toxicomania entre outros tópicos.

Palavras-chave: dependência química, psicanálise, cognição, toxicomania.

Sabe-se que a dependência orgânica não é o único fator a ser considerado na dependência química, visto que se o fosse, bastaria uma desintoxicação para solucionar esse problema, à medida que a substância saísse do organismo, as síndromes de dependência e abstinência sumiriam. Entretanto, não é o que acontece, pelo contrário, o usuário volta ao consumo mesmo após longos períodos de abstinência (recaídas), logo que a droga é um recurso já conhecido como alívio da angústia.

Uma vez que investimos libido em um objeto e este traz satisfação, é muito difícil abrir mão disso. É o que Freud (p. 375, [1916-1917] 2014) chama de “viscosidade da libido”, e a conceitua como a “tenacidade com que a libido se prende a determinadas orientações e objetos”. Por este motivo, as recaídas são comuns no percurso de tratamento, e quanto maior for à dedicação do sujeito ao tratamento, as recaídas se apresentarão em menor número e frequência.

O uso abusivo do entorpecente mostra-se ocupando um lugar central na vida do usuário, e embora que o mesmo esteja consciente que essa substância causa danos em seu organismo e em seu funcionamento social, isto não o impede de estabelecer uma compulsão com a droga. E o único recurso que o indivíduo admite como anestésico de sua angústia é a droga, definida por Freud (p. 85, [1930] 1996) como “amortecedor de preocupações”.

Freud ([1930] 1996) esclarece que as maneiras mais atraentes de esquivar-se do sofrimento são os que atuam em nosso próprio organismo, visto que sofrimento nada mais é que sensação, só passa a existir na medida em que a vivencia, e só o vivenciamos pelo produto de certos modos pelos quais o organismo está ajustado. A mais forte, porém a mais eficiente dessas maneiras de atuação no organismo é a química, por meio da intoxicação, e por mais que não compreenda inteiramente esses mecanismos, acredita ser fato que existam composições estranhas que ao apresentarem-se no organismo, provocam diretamente em nós sensações prazerosas, que alteram tanto as condições que direcionam nossa sensibilidade, que nos tornamos insensíveis a impulsos desagradáveis.

O atrativo das drogas são suas promessas de liberdade, logo que proporcionam sensações de prazer imediato, porém, o uso contínuo que caracteriza sua compulsão causa sofrimento, visto que aprisiona o usuário a uma única forma de satisfação libidinal, isto é, única forma de sentir prazer, afirma Vianna (2014).

Para isto, a psicanálise explica que existiu um momento primordial para todo sujeito no qual a pulsão (representante psíquico dos estímulos que se originam no corpo) foi completamente satisfeita e o psiquismo entrou em equilíbrio, e, a partir de então, o sujeito passou a buscar sempre um prazer semelhante ao obtido neste momento primordial, porém, esse prazer completo é impossível de ser alcançado novamente, e todo prazer é experienciado como faltante. Assim, o sujeito vive na repetição, ainda esperando alcançar aquela satisfação primária. E é justamente pela falta de sucesso em lográ-la plenamente que o sujeito apresentará a compulsão (FREUD, [1930] 1996; FREUD, [1916] 1996).

Trazendo essas afirmações para os dependentes químicos, concluímos que, os indivíduos usuários em algum momento de suas vidas através do uso da droga, tiveram sua pulsão satisfeita por completo, e, por este motivo, passaram a buscar um prazer usando somente deste método, visto que é um recurso já conhecido para alívio da angústia, entretanto, é impossível que esta satisfação completa seja alcançada novamente, sendo assim, todo prazer vivenciado é tido como incompleto. Portanto, o usuário vive na dependência caracterizada pela compulsão que resulta da busca constante e sem sucesso desta satisfação.

Sobre o Autor:

Thalisson Samuel Silva dos Santos - Estudante do 3º período do curso de Psicologia do Centro Universitário do Norte (UniNorte) Tainá Pinto - Estudante do 3º período do curso de Psicologia do Centro Universitário do Norte (UniNorte)

Referências:

FREUD, S. (1930/1996). O mal-estar na civilização. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XXI. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1916/1996). Instinto e suas Vicissitudes. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (2014). Conferências Introdutórias À Psicanálise (1916-1917) - Obras Completas v. 13. São Paulo: Companhia das Letras.

VIANNA, A. G.(2014). A aliança do supereu com a pulsão de morte no uso de drogas. Tempo psicanalítico, v. 46.2, p. 299-314.

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